.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador UFSC. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador UFSC. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de março de 2013

Violência na UFSC: "são vagabundos", disse a PM

por Marino Mondek*

No dia 24 de março, um domingo, a Polícia Militar entrou na Universidade Federal de Santa Catarina, Campus da Trindade, para impedir que algumas pessoas, todas jovens, quase todas pobres, muitas delas crianças, brincassem de pipa.

Quem acionou a Polícia foi a própria segurança do Campus, alegando que o cerol usado em algumas pandorgas ou pipas poderia causar acidentes graves. Para justificar a ação, disseram ainda que alguns jovens, em situações passadas, estavam armados.

Eu estava lá e relato as coisas que vi. E confesso que nunca, na minha vida acadêmica, tinha visto nada igual. Por volta das 15h, a PM e os seguranças da universidade expulsaram o grupo que estava próximo ao CED (Centro de Educação) e depois foram fazer a mesma coisa na Praça da Cidadania.

O argumento da PM: “são vagabundos”. O da segurança do Campus: “eles não têm autorização para brincar”. Depois de tirarem essas pessoas da praça, destruindo e confiscando pipas, bambus e rolos de barbante, como se fossem armas, o grupo seguiu para o estacionamento ao lado do antigo Restaurante Universitário.

Eu fiz algumas fotos, que foram postadas no Facebook, e tentei filmar a truculência da polícia. Vi a PM jogar o carro em cima de crianças de menos de 10 anos e passar por cima dos brinquedos. Continuei filmando até a chegada de um segundo carro da PM, uma S10. Os policiais desceram apontando armas para o grupo.

Nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo. Quando este segundo carro chegou, um policial, que estava desde o começo da “operação”, veio pra cima de mim. Recuei, ainda com o celular filmando. Outro PM se aproximou e apontou a arma para a minha cabeça.

O primeiro falou: “pra parede seu merda, vagabundo.” Pensei: “fui preso”. Depois de uma “geral”, fui duramente repreendido pela segurança do Campus. Nesse momento, chegaram uma conhecida e um conhecido e começaram a discutir o assunto.

Então, aparentemente mais calmos, os policiais me pedirem “com gentileza”, sem arma na minha cabeça, mas com a mão na pistola, para que eu apagasse o vídeo do celular. Apaguei. Eles ainda rondaram dentro da UFSC por cerca de meia hora, até dispersar o grupo da brincadeira.

Este texto não é para relatar o terror psicológico ao qual foi submetido um estudante, mas sim para refletir como o Estado e a Universidade lidam com a disputa do povo por um espaço na sociedade.

Parto do princípio que uma das maiores funções de uma universidade pública é cumprir o papel de pensar e construir soluções para os conflitos sociais. Quando chegamos ao ponto da universidade precisar chamar a polícia – órgão que tem apenas a função de reprimir – para mediar esses conflitos, ela expressa sua total falência. Onde deveria ser construído o diálogo, é construída a repressão.

Os setores populares veem a universidade como um local cheio de prédios, nada além disso e com a entrada da polícia no campus, expulsamos quem mais deveria se beneficiar com esse espaço. E, de quebra, perdemos nossa autonomia e liberdade para pensar e resolver os problemas da sociedade.

Pergunto: Qual a posição da Reitoria com relação a isso? Quando a universidade vai sair de sua bolha, subir o morro e abordar os conflitos sociais?

Até quando o único órgão público que chega a essas pessoas será a polícia?

Até quando perderemos nossa autonomia de pensamento e expressão em nome de uma suposta segurança, que mais nos reprime do que nos liberta?

O mais incrível: tudo isso aconteceu durante uma gestão que se diz a mais progressista na história da UFSC. E imagina se não fosse.


*Marino Mondek, estudante de pedagogia, mora em Santa Catarina, especial para o NR
Web Analytics