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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Desafinando o coro dos contentes

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

 (Episódio 15)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

A frase do título é verso de Torquato Neto (1944-1972). Aquele que, em sua brevíssima vida, desafinou mesmices do redigir. O cara experimentou para valer e pôs a alma para fora. Salve, menino Torquato! O craque da máquina de escrever.

Foi pensando no poeta e letrista piauense que me recordei do carioca Carlos Lamarca (1937-1971). Não que os dois (que eu saiba) tivessem afinidades ideológicas. De certo, o primeiro estaria mais para o caos do que para a sonhada nova ordem do segundo. Mas o que os aproxima, na minha memória, é justamente o desejo - transformado em ação - de desafinar o status quo.

Lamarca, capitão do Exército, poderia ter vivido numa boa no Brasil comandando por seus colegas de farda. No entanto por não concordar com a ditadura, nem com o capitalismo, tramou um assalto de armamentos no quartel de Quitaúna, Osasco, São Paulo. E entrou em cheio na clandestinidade e na luta armada.

Parece evidente que a semelhança entre os dois acaba por aqui. Será? Lamarca optou pelas armas como forma de derrotar os ditadores e entrar para a História. Torquato optou por se matar como forma de pular fora da História. No seu bilhete de suicida, ele escreveu: "Para mim chega!"

O fim dois se deu sob o chumbo da mesma época. O líder guerrilheiro foi assassinado por militares em Brotas de Macaúbas, interior da Bahia, em 1971. Um ano depois, no Rio de Janeiro, Torquato Neto acendeu o gás no banheiro de sua casa.

Lembro bem do começo dos anos 1970. Adolescente, regava mil sonhos, entre eles, o da liberdade de expressão e manifestação. Tudo o que então eu sabia sobre regimes democráticos era narrado pelo meu pai, militante do Partidão e louco pelo socialismo.

Se alguém perguntar se guardo boas recordações dessa época, direi que sim e que não. A parte negativa é óbvia, pois foi horrível ser jovem debaixo da repressão a ideias e informações. A parte positiva era a crença cega de que haveria um futuro mais bonito e mais desafinado.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O professor

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 14)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wrigth celebrariam uma missa em memória do jornalista Vladimir Herzog. Na verdade, o ato era bem mais. Estar na Praça da Sé naquele cair de tarde significava afrontar a ditadura militar.

A garota, com exatos 20 anos, sabia de tudo isso. E também esperava que ele, o professor, também soubesse. Na verdade eles estavam tendo um namorico. Se nos dias de Facebook fosse, diríamos que eles ficavam. Mas na década de 1970 ninguém falava assim. Ele era professor de História, dos melhores. Ela andava mais interessada na História do que nele, mas isso ela concluiu tempos depois, ao cavoucar as cinzas da memória.

Dentro da Catedral, ouvia-se um desagravo em nome de Herzog. Menos de uma semana antes, o jornalista da TV Cultura foi morto sob tortura no Doi-Codi da rua Tutoia - uma seção do inferno no bairro do Paraíso. Seus algozes tentaram vender a versão de que o preso havia se suicidado dentro da cela. Só que ninguém acreditou.

Onze anos depois dos militares terem roubado o poder em nome de um Brasil mais seguro, ordeiro, ovelha, muita gente já estava de saco cheio. Pelas promessas não cumpridas e pela violência contra os opositores. Violência tão desproporcional quando é - hoje, 2014 - a do exército de Israel contra os civis da Faixa de Gaza.

Antes de Vladimir Herzog, vários haviam sido torturados. Entre eles se somavam os mortos e desparecidos. Em razão disso, perto de oito mil pessoas se concentravam na Catedral e na Praça da Sé. No meio deles, ela. Com um olho na História e outro no relógio.

A aluna marcara o encontro com o professor em torno do Marco Zero - bem no centro da praça. Ele garantiu que compareceria, pois o país não podia seguir do jeito que estava. Mesmo quando a missa terminou, quando as pessoas começaram a ir embora, ela ainda esperou. Mas ele não apareceu.

No dia seguinte se encontraram na sala de aula. Lá estava o professor falando da Revolução Russa, entusiasmado com os bolcheviques e suas ações. Ele sorriu várias vezes para ela. Ela retribuiu com um olhar triste. Estava decepcionada. De alguma forma, a garota pressentia que o namorico dos dois tinha terminado.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Letra e forma


por Celso Vicenzi*

Ganhei de presente de aniversário, do Vinicius, meu filho, uma caneta com ponta de metal e pena de ave. “Para inspirar sua escrita e seus pensamentos, hoje e sempre”, escreveu-me num cartão com letra vacilante, igual à do pai. Sofri muito, quando criança, por causa da minha caligrafia. De tanto ouvir reclamações, passei a escrever em letra de forma. Não adiantou muito.

A arte de traçar belas letras se perdeu no tempo. Hoje está em extinção. Alguns poucos calígrafos ainda vivem do ofício de escrever convites, diplomas e outras peças com requintes de elegância e suavidade. A letra cursiva esteve presente na história da humanidade desde a invenção do alfabeto – que para ironia dos “especialistas”, como disse Millôr, foi inventado “por um analfabeto”.

A história da escrita é fascinante e merece ser conhecida nesses tempos em que tudo precisa ser executado às pressas e o diferente cede lugar à uniformidade. Da alimentação à música, das festas à arte, tudo aquilo que é mais peculiar a um povo vai cedendo lugar à massificação dos conteúdos e à difusão de práticas que atendem aos interesses da indústria cultural.

E já que os tempos são outros, procure na internet por “Livro de Horas”, um gênero medieval que continha orações e salmos para várias horas do dia e que eram obras realçadas por iluminuras (pinturas ornamentais). É de encher os olhos e a alma. Outros livros antigos eram elaborados com grande requinte. Impossível não admirar a habilidade de calígrafos que, com um simples movimento da mão, preenchiam pele, papiro ou papel com traços finos, médios e grossos numa única letra e iam compondo textos de admirável formosura. Arte de um treinado improviso, em que não era permitido errar. Livros inteiros eram copiados por monges em letra impecável, acrescidos às margens de deslumbrantes mosaicos de cores e desenhos.

E antes que você caro leitor, cara leitora, antenado(a) no que há de mais moderno, considerem esta prosa arcaica e sem valor, vale a pena prestar atenção em estudo publicado na revista Psychological Science. A pesquisa, realizada por duas universidades americanas constatou que tomar notas no papel é melhor para a memorização de conceitos do que digitar em notebook ou tablet, por exemplo. Uma possível explicação é que as pessoas que anotam à mão precisam selecionar melhor o que vai para o papel. Ou seja, se você quer uma mãozinha para passar no vestibular ou em outro concurso, a escrita à moda antiga, com boa ou má caligrafia, pode ser fundamental.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Primeiro de Maio sob a ditadura

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 5)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

Hoje quase ninguém dá ibope para as comemorações do Primeiro de Maio. É fato que as centrais sindicais até tentam mobilizar, mas para garantir que o trabalhador e a trabalhadora deixem suas casas em direção à praça, contratam músicos, promovem gincanas, sorteiam prendas etc. Muito mais circo do que manifestação de classe.

Sei que a própria definição do que é trabalhador anda embaralhada em tempos de terceirizados, frilas e até dos carteiras-assinadas contemporâneos. Marx, Lenin & cia não iam entender nada. Mas, consolo para a esquerda, se mudou a identidade do trabalhador, pouco mudou a do patrão. Este continua sendo o cara que detém o capital e os instrumentos.

Mas toda vez que o Dia Internacional do Trabalhador se aproxima - que a maioria entende como apenas mais um feriado - uma onda, melhor dizendo, um sopro de nostalgia me assalta. Porque, atenção menores de trinta anos, essa data já foi rebelde. Que digam os militares brasileiros quando estavam por cima. Quando davam as cartas e vigiavam o jogo.

O Primeiro de Maio, sob a ditadura, era motivo de apreensão política e prontidão nos quartéis. A data vinha carregada de história e resistência heroica dos trabalhadores contra o julgo do capital e dos patrões. Ela era tão ameaçadora que governo e meios de comunicação trocaram trabalhador por trabalho. O concreto pelo abstrato.

Muita gente até hoje diz Dia do Trabalho. Simples assim. Na verdade a coisa fica destituída de qualquer significado político, pois trabalho diz respeito a todos. Mark Zuckerberg, os irmãos Marinhos, Antonio Ermírio, Eike Batista também trabalham. Ops! Então a data é dos patrões também!

Mas voltando a minha nostalgia - e acredito de muita gente mais - o Primeiro de Maio era sinônimo de mobilização e luta. Nos longos anos da ditadura, levá-lo a sério era risco de prisão. Não à toa, Lula consolidou sua liderança discursando em primeiros de maio.

Vila Euclides, São Bernardo do Campo, bandeiras vermelhas, uma ditadura para derrubar, estudantes organizados, poemas, músicas, panfletos e uma alegria doida fazem parte do passado. Pensando bem, várias formas de luta fazem parte do passado. Mas a tensão trabalhador-patrão, vida-capital está mais viva do que nunca.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O fetiche Moleskine


por Tomás Chiaverini*

O Moleskine é um caderninho simples, originalmente preto, com páginas creme, marcador de tecido e um elástico, geralmente também preto, que o mantém fechado. Por sua simplicidade clássica, é um objeto bonito de se olhar. O Moleskine é também muito mais do que isso. É um fetiche. Carrega em si algo além da matéria que o constitui. O fetiche do Moleskine está intimamente ligado ao fato de ele ter sido o caderno de anotações de estrelas da intelectualidade como Van Gogh e Hemingway. Um Moleskine pequeno custa cerca de sessenta reais. Um caderninho idêntico, mas sem a marca do fetiche, custa cerca de vinte. Durante anos, tomei nota numa imitação de Moleskine pela qual não paguei nada, ganhei de brinde de um fábrica de móveis.

O nome da fábrica vinha escrito na capa, mas eu risquei com uma caneta preta e ficou quase imperceptível. Quase. Apesar da forma similar, apesar de cumprir os propósitos de guardar minhas ideias, meu caderninho carecia de fetiche. Ao longo do tempo, lutei com todas as minhas forças racionais para ignorar essa deficiência e segui tomando notas no brinde da fábrica de móveis. Considero ter juntado algumas ideias valiosas lá dentro.

Até que outro dia, flanando pela livraria Cultura, topei com uma estante só de Moleskines, e imediatamente o sorriso do capital se abriu para mim. Ele sempre dá um jeito, isso é certo. Os homens poderiam muito bem ser separados entre aqueles que vivem mergulhados na miséria e aqueles que, cedo ou tarde, se verão seduzidos pelo sorriso perolado do capital.

Contas pagas, poucas dívidas, cartão de crédito em níveis aceitáveis, e aquele caderninho ali, exalando seu fetiche esculpido através dos séculos... E o que, afinal, são sessenta reais diluídos em anos, o que são sessenta reais diante da possibilidade de ter a criatividade anabolizada por páginas dotadas de tanto charme e história? Comprei o tal Moleskine. Vermelho, só pra ser diferente. Sentei num canto, tirei o plástico e dei uma folheada. Bom papel, boa encadernação, bom formato. Nada que valha sessenta reais, mas o que importa é que o fetiche está lá. E funciona. Enquanto folheava meu primeiro Moleskine, senti uma imediata urgência de anotar algo.

Desgraçadamente, não tive nenhuma ideia que valesse a honra de inaugurar a sequência de genialidades que certamente preencheriam meu futuro companheiro de glórias literárias.

Sem mais a fazer, dei uma última folheada e notei que por dentro da contracapa há um charmoso bolso de papel com laterais de tecido. Lá de dentro puxei um folhetinho dobrado em sanfona. O mesmo texto se repetia em várias línguas. Li o primeiro, em inglês. Contava a história do caderno, que tinha nascido numa lojinha em Paris há mais de duzentos anos, falava dos intelectuais que o utilizaram para criar coisas tão fantásticas, e de como aquele objeto estava fadado a encerrar as mais luminares ideias da espécie Homo sapiens.

Enfim, estavam lá, preto no branco, todos os componentes do fetiche Moleskine. Uma explicação que se pretendia poética e afetuosa mas que me causou o efeito contrário. De alguma forma, ao gabar-se das próprias conquistas, meu caderninho inanimado destruía sua própria aura, como um correspondente de guerra que vai tomar chopp com os amigos usando botas de combate e colete cáqui.

Ao evidenciar de forma tão despudorada que vendia fetiche, que vendia o sonho de um dia ser Hemingway ou de que ao escrever ali as pessoas misteriosamente se aproximavam daquelas figuras míticas, o Moleskine moderno deixa claro que você é apenas mais um mortal em meio a centenas de milhões de aspirantes a intelectuais. E que caderninho nenhum vai te transformar no gênio que você não é.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Finalmente, Itália!


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Quando comento ser esta a minha primeira visita à Itália, minha amiga e hospedeira em Milão pergunta: você vai ao seu lugar de origem? Digo que não, e ela fica visivelmente decepcionada. Como assim? Qual o nome do lugar? Onde fica? Consultando minhas anotações, encontro o nome, que me foi passado por meu irmão há poucos dias. Fica bem longe daqui, muito mais ao sul. E o meu desapego aos detalhes da história familiar pode ser chocante mesmo.

Uma grande família com nome tipicamente italiano, passional e dramática como deve ser. Desembarcados em Santos no final do século 19, fixaram-se no interior de São Paulo urbano e, misteriosamente, se tornaram protestantes. A memória ancestral, incluindo referências básicas, perdeu-se rapidamente entre imigrantes rudes, que precisavam garantir a sobrevivência. Os relatos orais, tão importantes para a manutenção da memória familiar, foram poucos e inespecíficos, até onde consigo me lembrar.

Mas lembro dos sábados na casa de Franca, cheia de gente que falava alto, brigava e chorava à toa, e onde as mulheres passavam o dia todo na cozinha, preparando montes de comida, que era consumida imediatamente, à medida que as travessas iam sendo colocadas sobre a grande mesa de madeira. Comilanças intermináveis, com cheiros e sabores para mim sempre deliciosos.

A escassez de informações tem a vantagem de abrir espaço para a fantasia. Não sei dizer como começou, mas a partir de um certo momento, passei a imaginar alguém batendo à porta, ou chamando por telefone, para comunicar que eu era herdeira de uma fortuna em dinheiro e bens, e que precisava viajar à Itália para tomar posse do que me havia sido legado por algum parente que tivesse conseguido escapar da pobreza. Para ser uma fantasia completa, eu seria a única herdeira. Ou que algum mafioso tivesse se compadecido de ter eliminado a família toda que sobrou por lá e decidira procurar no Brasil alguma descendente que gostasse de viajar e escrever, para lhe deixar uma boa parte da grana dos cassinos e bingos, ou talvez alguma funerária de fachada. Até hoje, nada. Mas, se non è vero, seria ben trovato.

Desde que cheguei aqui, não me sai da cabeça uma canção gravada por Gigliola Cinquetti, que foi um hit quando eu tinha uns doze anos, “Non ho l’età”, “não tenho idade para te amar, para sair sozinha com você...”, do filme “Dio, comme ti amo!”, esta também uma canção que fez um enorme sucesso à época em que a música italiana tocava muito no rádio. O filme contava a eterna história da mocinha pobre e ingênua, apaixonada pelo filho playboy do patrão milionário. Açucarou-me alguma tarde de domingo encantada. Mas, pelo que vejo in loco, não faltam galãs de cinema entre os taxistas, garçons e carabinieri.

Decidi ver apenas pequenas amostras desta vez. Cinco dias entre Milão e Verona, sem coragem de encarar Veneza sozinha. Na primeira, fiquei tão impactada com passeios a pé pelo miolo da cidade e com as visitas a uma pinacoteca, um museu e duas igrejas, que gastei nisto todo o tempo que tinha ali. Perguntei-me muitas vezes o que teria sido da arte ocidental sem o catolicismo, e vice-versa.

Em Verona, bela cidade totalmente entregue ao magnetismo do mito de Romeu e Julieta, a lua cheia sobre a arena romana só confirma que o amor é lindo mesmo, apesar das hordas de chineses, russos e brasileiros que ocupam todo o espaço.

A visita às raízes propriamente ditas não foi dessa vez, mas promete. Exige preparo emocional, disposição e dedicação. Ou nada disso. Desembarcar lá e pronto. Veremos.

* * * * *

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Monarco, a memória viva da Portela


por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

Hildemar Diniz recebeu o apelido que carregaria para o resto de sua vida aos 6 anos de idade. Vivia em Nova Iguaçu, que naquela época (final da década de 1930) estava mais para roça do que para subúrbio urbano. Certo dia, quando um amigo lia um gibi, em voz alta, para toda a turma, achou graça na parte da história que falava do “grande monarca”. Na sapecagem de criança, os amigos começaram, então, a lhe chamar de “Monarca”. Com o tempo, virou “Monarco”, nome com o qual o futuro portelense se tornaria conhecido.

Monarco celebrou, no último dia 17 de agosto, a chegada da 80ª primavera em sua vida e a festa de comemoração não poderia ser melhor. Na quadra de sua Escola de Samba do coração, o “Portelão”, cantou, sambou e festejou cada instante das oito décadas intensamente vividas, ao lado de amigos e familiares. Memória viva da Portela, Monarco, desde maio deste ano, é presidente de honra da agremiação, o que representa um sopro de esperança para uma legião de portelenses que, nas últimas décadas, viram interesses econômicos sobrepujarem toda uma tradição e uma história de cultura popular.

A chapa de oposição à antiga diretoria – que fez a Portela se acostumar a não mais brigar por títulos, sendo obscurecida por rivais menos tradicionais e com menos gabarito no quesito “samba” – venceu as eleições e pretende expurgar a conduta, nociva, de valorizar mais o aspecto financeiro ao cultural dentro de uma Escola de Samba. Apesar do jejum de 29 anos sem títulos, Portela ainda é a maior vencedora do Carnaval carioca. Nesta nova gestão, tão significativo quanto à presença de Monarco na composição da diretoria é o fato de o próprio presidente ser intimamente ligado à memória musical da Portela – Serginho Procópio, o novo mandatário, é cavaquinista da Velha Guarda, filho de um dos maiores instrumentistas que já passaram por lá, Osmar do Cavaco.

Sendo assim, a celebração de seu 80º aniversário foi, de fato, uma ode à Velha Portela. Estavam lá Waldir 59 – sócio número 1 da Escola –, Wilma Nascimento, Dodô, Noca, Cabelinho, Tia Surica, Tia Eunice, além de toda a Velha Guarda, incluindo seu padrinho, Paulinho da Viola. Familiares, como o filho Marquinhos Diniz e a neta Juliana Diniz, bem como amigos caros ao velho bamba, como as cantoras Cristina Buarque e Teresa Cristina, o veterano sambista mangueirense Nelson Sargento e o cartunista Lan também marcaram presença.

Aos 80, Monarco recebeu o cargo e o diploma de guardião da memória portelense, algo que sempre o fez, de maneira espontânea. Nesse contexto, os festejos terem sido realizados no “Portelão”, e não na “Portelinha”, primeira sede da escola, foi emblemático – a nova diretoria faz questão de fazer da sede oficial a casa da Velha Guarda, de modo a ressaltar a união entre a Escola de Samba, moderna, atual, inserida em um contexto de competitividade, e a memória musical desta mesma (a tradição), representada naqueles velhos bambas da Portela de outrora. A “Portelinha” foi casa da Velha Guarda durante os anos nebulosos da antiga administração. Assim, apesar de sua beleza, de seu significado e seu charme, ficou estigmatizada como o local onde se relegavam os “velhos”, que não poderia representar a Portela “oficial”, em detrimento do “novo”, moderno e mais adequado aos tempos atuais, esvaziado da tradição portelense.

Memória dos mais velhos,
legado para os mais novos


Monarco é a memória da Portela. Sempre foi. Agora, está oficialmente legitimado nessa função. Para os sambistas mais novos que se interessam pela bagagem cultural, pelo acervo valiosíssimo que faz da Portela uma Escola de Samba rica em tradição, o velho sambista também é a principal referência.

Sambistas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, desvinculados de uma trajetória feita dentro de Escolas de Samba – longe, inclusive, da Portela – celebram o compositor frequentemente, promovendo rodas de samba com o portelense e aprendendo antigos sambas – muitos, quase totalmente esquecidos –, de forma a recuperar e tirar do ostracismo verdadeiras pérolas do nosso cancioneiro.

Monarco é a pessoa certa para lembrar aquele samba inédito do Alvaiade, dos irmãos Andrade, a melodia do Quininho, a “segunda” que nunca foi gravada, o verso original do samba que fez sucesso, o samba de terreiro de Paulo da Portela que a Escola desfilou nos anos 30 etc. A facilidade para lembrar sambas compostos há mais de meio século é herança de outro grande sambista da Portela, parceiro de primeira hora de Monarco em tempos passados: Alcides, o Malandro Histórico.

Desde cedo, Monarco fez questão de se associar aos sambistas mais velhos da Portela, procurando adotar, inclusive, a mesma linha de composição dos veteranos. Entre seus parceiros na Escola, estão nomes como Manacéa, Francisco Santana, Mijinha, Antônio Caetano e Alvaiade, bem como o grande baluarte da escola, Paulo da Portela, com o qual fez uma série de parcerias póstumas, colocando “segundas” em sambas curtos criados pelo bamba.

Curiosamente, o compositor pouco se associou aos sambistas da sua mesma faixa etária, como Candeia (com ele, fez apenas um samba, o clássico “Portela é uma família reunida”), Casquinha e Picolino (conhecidos como a Turma do Muro), preferindo manter a tradicional linha de composição dos mais velhos - depois superada e modificada por esta nova geração, inclusive, nas disputas de samba enredo.

Velha guarda,
aos 37 anos


Foi pelo fato de manter esta linha e caminhar lado a lado com os sambistas que participaram da fundação da Portela e edificaram o estilo de composição portelense, que Monarco, aos 37 anos, foi convidado a integrar a primeira formação da Velha Guarda da Portela, em 1970, idealizada por Paulinho da Viola.

Dotado de voz potente, Monarco era presença marcante nas rodas de samba no terreiro da Portela, tirando da mente sambas das mais diversas procedências – inclusive seus -, cantados em uma afinação impecável. Assim, foi um dos selecionados para o registro pioneiro da Velha Guarda da Portela, tendo a honra de ter sua composição elevada a nome do disco: “Portela, Passado de Glória”. Trabalhando duro, como peixeiro, entretanto, o sambista não pôde comparecer no estúdio, no dia da gravação (não havia, à época, para cidadãos suburbanos pobres, a opção de querer, ou tentar, levar vida de “artista” – a necessidade falava mais alto).

Esta frustração foi dissipada nas gravações seguintes da Velha Guarda, já nos anos 80, quando Monarco foi intérprete de várias faixas, atuando ativamente, também, na elaboração do repertório, fruto de sua memória sagaz. Seu cantar, desde o primeiro registro, tornou-se evidente a beleza e a força. Tem “gogó” de sambista de terreiro, que canta alto para fazer-se ouvir em meio ao rufar de tamborins, pandeiros e cuícas. Lançou o primeiro disco solo em 1976, pela Continental, com capa ricamente ilustrada por Lan. Outros quatro viriam depois.

Um compositor
portelense


Como compositor, emplacou grandes sucessos. Sozinho ou com seus parceiros da Portela, teve registrado sambas por João Nogueira, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Clara Nunes, Paulinho da Viola, entre outros. Clássicos, como “Tudo menos amor” (com Walter Rosa), “Quitandeiro” (com Paulo da Portela) e “Lenço” (com Francisco Santana) foram fartamente executados em uma grande parcela de lares brasileiros, nos anos 70.

A partir dos anos 80, Monarco formou uma parceria com o compositor Ratinho que seria muito gravada por Zeca Pagodinho e resultaria em sucessos retumbantes (que ajudaram a melhorar a condição de vida do sambista), como “Coração em desalinho” e “Vai vadiar”. Além das dezenas de músicas gravadas, o compositor possui, ainda, uma série de inéditas – e, claro, traz na lembrança outras tantas composições de portelenses de outrora.

Por muito tempo, essa linha de sambas da Portela, bem como a própria tradição portelense perderam espaço. Nas rodas de samba poucos se lembravam dos sambas de terreiro dos compositores da antiga. Dentro da Escola então, nem se fala. Monarco se viu nesta aridez por muitos anos, muitas gestões. Agora, é chegada a hora da Águia da Portela voar, altaneira, novamente. No belo samba de Argemiro do Pandeiro e Francisco Santana, feito quando os títulos começaram a escassear, já há várias décadas, o estado de espírito dos portelenses era retratado nos seguintes versos: “Vitória para a Portela era banalidade, mas da vitória estou sentindo saudade”. Nos últimos anos, Monarco concordou, triste e resignado. Agora, porém, quer que as glórias do passado voltem a ser, novamente, doces trivialidades.

"Escute, na íntegra, o disco de estreia de Monarco, lançado pela Continental, em 1976"



*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Atual conjuntura

por Izaías Almada*

Diante do "clamor das ruas" e da atual situação política brasileira, gostaria de dedicar essa coluna, através da magistral interpretação de "Os Demônios da Garoa", a todos aqueles para quem o trem da História está atrasado... ou já passou.


 *escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Conto do vigário



por Ricardo Sangiovanni*

Alguém nesses tempos de troca de papa recordou Padre Pinto, até o pediu para Sumo Pontífice. Achei graça.

Padre José Pinto, para quem não é vezeiro em Bahia, é um sacerdote da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que ficou famoso em 2006 por celebrar missa de Reis vestido ora de Oxum, divindade do Candomblé, ora de entidades ancestrais de cultos indígenas. Trajou-se, pintou-se e dançou danças rituais sincréticas, com o apuro técnico que lhe permite a formação de bailarino pelo Balé do Teatro Municipal do Rio.

“Dom Geraldo [arcebispo hoje emérito de Salvador, que recentemente elegeu o novo papa] está sabendo. A CNBB também está sabendo. O povo é que se assusta”, disparou Pinto ao microfone da Rede Globo, em cadeia nacional. E clamou: “Eu não quero sair daqui! Quero morrer aqui, no altar!”

Pinto levou um puxão de orelha da Cúria, mas voltou a aprontar, ora pintando em boate gay, ora roubando em público um selinho a Caetano Veloso. Só então é que tomou um gancho de verdade: foi deslocado da Lapinha, no centro, à periférica paróquia de São (surpresa) Caetano, rebaixado a pacato vice-pároco.

Mas ia-lhes dizendo que me divirto, mas advirto que a faceirice do Padre Pinto é só um exemplar mais recente da longa história clerical de desvios dos preceitos da fé na Bahia – e, por tabela, no Brasil.

Arrisco inclusive dizer, na falta de quem bem me desminta, que o primeiro caso aqui registrado remonta à alma de padre Frutuoso Álvares, português, vigário de Nossa Senhora da Piedade de Matoim desta Cidade da Bahia na segunda metade do século 16, primeiro da colonização lusa e cristã dessas terras do Brasil.

Corria o ano de 1591, e nem bem a Visitação do Santo Ofício abrira seus trabalhos na colônia, lá estava padre Frutuoso, sem nem ter sido chamado, primeiríssimo da fila, todo ardoroso para uma confissão voluntária.

Jurou com a mão direita sobre a bíblia e açodou-se a contar que havia quinze anos, desde que chegara à Bahia, vinha cometendo de maneira contumaz “a torpeza dos tocamentos desonestos com algumas quarenta pessoas pouco mais ou menos, abraçando, beijando (…) moços e mancebos que não conhece nem sabe os nomes”, conforme anotação do notário do Santo Ofício, Manuel Francisco.

“Em especial”, lê-se, “com um moço que chamam Gerônimo”.

Do tal moço ficamos sabendo, através de depoimento do próprio, tratar-se de Jerônimo Parada, “estudante, cristão-velho, natural desta Bahia, de idade dezessete anos”. Em sua confissão, o moçoilo ratifica que, há coisa de dois ou três anos, em dia de Páscoa, fora de fato à casa do clérigo. “E o dito Frutuoso Álvares o começou a apalpar, dizendo-lhe que estava gordo e outras palavras meigas…”

Deitaram-se coisa de uma dezena de vezes. Até um belo dia em que Jerônimo resolveu dar um basta naquilo. Louco de amor, o padre ofereceu um vintém ao moço por mais um amasso – mas este, tenaz na fé, recusou.

Aí o padre, irresistível, ofereceu dois. E deitaram-se de novo.

Pelo depoimento do padre Frutuoso ficamos sabendo ainda que seu histórico era antigo, longo e deveras conhecido da Igreja. O clérigo já praticara os tais “tocamentos desonestos” com um rapazote de Braga, Portugal – motivo pelo qual fora desterrado, primeiro para Cabo Verde, depois, sob nova acusação do mesmo crime, “sentenciado e condenado em degredo para sempre nestas partes do Brasil”.

Que ninguém pense que eu estou aqui insinuando que Padre Pinto seja por acaso homem dado a tocamentos com mancebos, como Frutuoso; tampouco que padre Frutuoso tenha-se desviado da doutrina, como Pinto. Então, afinal, que nos ensinam essas duas parábolas, queridos irmãos?

Sem dúvida, uma porção de lições mais ou menos edificantes sobre o passado e o futuro do Brasil e da religião católica, as quais porém falta-me agora o tempo e sobra-me uma enorme (uma existencial) preguiça de enunciar. A mais importante de todas, no entanto, é que essa Bahia velha não deixa a gente levar muito a sério esse papinho mole de Igreja. Pois então, conta outra, papa Chico.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Dia de índio


por Ricardo Sangiovanni*

No tempo do mil-e-quinhentos, sertão se escrevia certão. Ou certam. Mas já era o que até hoje ainda é: aquela quentura dos infernos, aquela faltante fartura de tudo na seca.

Naqueles começos de Brasil, como até hoje não deixou de ser, mais fácil que domar o sertanejo a custa de bala era enredá-lo com arte de engano. Àquelas multidões de gente índia, falavam-lhes os capitães portugueses (ou portuguezes) da abundância de peixes e mariscos do mar que no litoral lhes aguardava, e mais da liberdade que havia lá à espera, para eles gozarem. E regalavam aos cabeças das tribos quaisquer trapos de roupa, mais umas ferramentas ruins que sobravam, mais as comidas secas que à mão houvesse.

E então pela via da paz – pois guerrear dava mais trabalho – desabalavam-se aldeias inteiras sob a batuta dos colonizadores, no encalço do litoral. Até chegar na beira da praia, que era quando os donos dos bacamartes davam voz de prisão ao povo índio arreganhando-lhes aquela podridão nojenta que tinham por dentes. E disparavam, e separavam os filhos dos pais, os irmãos das irmãs, as mulheres dos maridos, e levavam-nos cativos para trabalhar em suas recém-formadas fazendas. E nunca mariscos do mar, e nunca mais liberdade.

Falando assim, o leitor pensará que era empreitada fácil. Mas não: o caso é que, para convencer o gentio a caminhar pacífico aquele mundo de léguas, carecia um ardil: era preciso ter na equipe alguém persuasivo, capaz de parlamentar na língua do povo – alguém, via de regra, também índio, ou mestiço.

De sorte que numa entrada dessas – a que teve por chefes Francisco de Caldas e Gaspar Dias de Atayde, em Pernambuco – ofereceu-lhes seus préstimos (não se sabe a troco de que paga) certo Brasso-de-peixe (ou Braço-de-peixe, ou Braço-do-peixe), um principal dos guerreiros Tabajares (ou Tobajaras), para convencer as tribos que iam sendo encontradas no caminho a marcharem sem resistência guerreira.

Aliados aos lusos, os Tabajares do Braço guiaram os colonizadores certão adentro, e de lá voltaram com sete mil índios cativos – que eram os que haviam sobrado vivos, porquanto haverem preferido o convencimento à matança. Porque afinal não eram pedras nem metais preciosos, caro leitor, senão levas e levas de índios escravizados – o ouro vermelho – a grande riqueza que daqueles sertões se usava extrair.

Acontece que a cobiça lusitana era tamanha que, já perto do fim da viagem, os capitães deliberaram que a recompensa do Brasso e sua gente pelos serviços prestados seria serem tomados como escravos, igualmente aos demais que haviam ajudado a trazer.

Mas o Braço, que não era surdo nem burro, ouviu e entendeu a conversa dos lusos. E, bem mais ardiloso que eles, seguiu dando-lhes trela e guarida – já sabendo da traição em vista, ofereceu-lhes ainda por cima mais duzentos caçadores à guisa de escolta para o caminho de volta.

E esperou.

Esperou até a hora em que Caldas e Atayde, e os demais homens seus, de tão bem protegidos que se sentissem, descuidaram da vigília – e o ataque rompeu a calma da noite. A ordem de Braço-de-peixe a seus duzentos guerreiros – e mais aos homens de Assento-de-Passáro, outro chefe seu parente que chegou para acudir – foi flechar os portugueses todos até que não escapasse nenhum com vida.

Assim foi feito. E no restante daquela noite fez-se festa e foi servida carne branca. E a indiada de cativa tornou a ser livre. Livre (verdade que graças ao macunaímico Braço-do-peixe, cujo restante da história um dia ainda lhes terminarei de contar) para voltar para suas terras, livre para ir para onde quisessem na manhã daquele dia raro, aquele dia de índio.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Tia Ciata e as tias baianas...

Uma história da Pequena África carioca


por André Carvalho ilustração Kelvin koubik "Kino"*

Eram embarcações repletas de negros que aportavam no Rio de Janeiro. Porém, ao contrário daqueles tristes tempos em que os navios que lá chegavam eram negreiros, estes traziam a bandeira branca de Oxalá. Era o sinal para avisar que mais uma leva de baianos forros desembarcaria na Baía de Guanabara.

O destino principal era o bairro da Saúde, próximo ao cais, onde muitos ex-escravos tornariam-se estivadores. Morando em cortiços e em outras instalações coletivas, não demoraria muito para o grande volume de africanos e afrodescendentes incomodar a elite branca higienista. Então, no alvorecer do século XX, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, promove uma grande reforma urbana, demolindo as habitações onde os negros haviam se instalado, ao chegar da Bahia.

Retirados de lá à força, passariam a ocupar os morros próximos, dando início à criação das primeiras favelas. Outros se retiraram para o subúrbio, morando próximo às estações de trem que se espalhavam pela cidade. Muitos, porém, residiriam em um espaço que viria a ser conhecido por Pequena África – nome dado por Heitor dos Prazeres –, que partia das margens do Campo de Santana e se estendia até a Cidade Nova, terminando nos limites do bairro do Estácio de Sá. Era lá que ficava a Praça Onze de Junho, reduto de celebrações carnavalescas e local onde se estabeleceram as tias baianas, que fariam história com suas festas religiosas e pagãs, de candomblé e samba. Foi lá que brincaram, cantaram e criaram ricas páginas do nosso cancioneiro os integrantes da primeira geração do samba carioca.

Quituteiras, mães de santo, foram articuladoras de uma sociedade – que se valia do matriarcalismo, herança direta africana – configurada às margens da “civilização” proposta pelas elites. As tias baianas eram lideranças sociais de uma comunidade que buscava se afirmar em uma nova cidade, uma nova civilização e uma nova era, onde os ex-escravos almejavam, finalmente, uma integração social que lhes foi negada desde o dia em que desembarcaram dos navios negreiros no território brasileiro. Em suas casas, configuraram-se espaços de aconchego, participação, luta e festa.

Para aqueles que chegavam à Pequena África, a primeira parada era, ou na casa da Tia Sadata, ou na casa da Tia Davina, verdadeiras embaixadoras da comunidade negra baiana no Rio de Janeiro. Elas ajudavam os recém-chegados a encontrar moradia e trabalho, dando guarida a eles enquanto as oportunidades não apareciam. Havia muitas outras: Tia Perciliana (mãe de João da Baiana, que traz no nome a ligação a sua genitora), Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Celeste (mãe de Heitor dos Prazeres), Tia Bebiana (a passagem dos ranchos e dos cordões carnavalescos sob a janela de sua casa, na Praça Onze, era obrigatória), Tia Mônica, Tia Perpétua, Tia Veridiana, Tia Dadá (onde o compositor Caninha afirmava ter ouvido samba pela primeira vez).

Uma delas, no entanto, se destacou pelo grande poder de integração sociocultural, registrando o nome, para sempre, na história do samba: Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata. Nascida na capital baiana em 1854, migra para o Rio de Janeiro aos 22 anos de idade. Quituteira, monta seu tabuleiro na rua, mas é em sua casa que as coisas acontecem. O endereço, que depois entraria para história da música popular brasileira, é Rua Visconde de Itaúna, 177, Praça Onze, “Pequena África”, Rio de Janeiro.

Iniciada no candomblé no terreiro de João Abalá, Tia Ciata torna-se Iyá Kekerê, Mãe-Pequena, adquirindo, assim, grande respeito e influência na comunidade baiana local. Em sua casa, os cultos misturavam-se com as festas profanas. Também ali, era um espaço comunitário de trabalho. Os quitutes e doces, primeiramente oferecidos aos orixás, eram vendidos para fora. Tia Ciata também era exímia costureira e fabricava fantasias que as elites da Zona Sul alugavam para brincar o carnaval.

Casada com João Batista da Silva, consegue para ele um emprego de funcionário público de forma um tanto inusitada: curou uma doença grave na perna do então Presidente da República Wenceslau Brás, fazendo um trabalho a base de ervas e reza. A recompensa foi um cargo no gabinete de chefe de polícia para seu marido.

Muito por conta do cargo de João Batista, as constantes batidas policiais, que afligiam a vida dos negros, que sequer podiam se reunir para praticar os cultos e cantar o samba, passavam ao largo daquele espaço de celebração negra. As festas na casa da Tia Ciata duravam três dias. As panelas, sempre cheias, eram constantemente requentadas. A música envolvia a todos e, em cada espaço da casa, um ritmo predominava, obedecendo a uma reprodução sociocultural dos participantes das festas.

Na sala de estar, os mais velhos e bem-sucedidos praticavam o partido alto e o choro. O samba corrido, tocado pelos mais jovens, tinha espaço na sala de jantar, ao passo que a capoeira e a pernada ocorriam nas rodas de batucada no terreiro do quintal.

Eram bambas aqueles que frequentavam o local: Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Caninha, Sinhô, Marinho que Toca (pai de Getulio Marinho), João da Mata, Didi da Gracinda, Hilário, João Cancio, Getúlio da Praia, Oscar Maia, Alfredinho, Tisco, Germano e Getúlio Marinho batiam cartão por lá. Os “distintos” Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Mauro de Almeida e João do Rio também não perdiam as grandiosas festas que ocorriam ali.

Destes encontros musicais, nasceu o samba Pelo Telefone, o primeiro gravado sob o nome de samba na incipiente fonografia brasileira. Criado de forma coletiva, a música foi registrada, ardilosamente, pelo sambista Ernesto dos Santos, o Donga, como único autor – ele recolheu os estribilhos, adaptou e inseriu a letra de Mauro de Almeida na composição (que apareceu como parceiro nas gravações posteriores), uma das mais emblemáticas da história de nossa música.

A polêmica sobre a real autoria da composição rendeu debates acirrados, paródias e sérias acusações. Fato é que a música segue popular quase cem anos após a sua criação. Em 1924, Dona Hilária Batista de Almeida, a Ciata de Oxum, parte para o Reino de Aruanda. Não se escutariam mais os pandeiros, cavacos, violões e atabaques naquele logradouro histórico. Pouco depois, uma nova geração, baseada no bairro do Estácio de Sá, revolucionaria a música popular urbana carioca, dando nova roupagem ao ritmo nascente que seria batizado como samba. Era a segunda geração de sambistas do Rio, cujos principais nomes seriam Bide, Baiaco, Mano Rubens, Mano Edgar, Marcelino, Ismael Silva, Nilton Bastos, entre outros “valentes”. Mas isto é história para outra crônica.

Escute três versões de "Pelo Telefone". A primeira versão com letra, de 1917 (interpretada por Bahiano), a gravação de Zé da Zilda (de 1938) e, finalmente, o registro de Martinho da Vila, de 1973" Para saber mais, acesse a bibliografia que preparamos para você. 




*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

segunda-feira, 18 de março de 2013

A verdade restabelecida

Pelo direito à memória e à verdade.

Hoje este NR publica a imagem do atestado de óbito de Wladimir Herzog, jornalista assassinado na Ditadura Militar, nas dependências do DOI-Codi de São Paulo. Esse atestado, verdadeiro, entregue a família na última sexta-feira (15), é o reconhecimento oficial de algo ocultado pelo Estado há décadas: de que ele, Herzog, ao contrário do que queriam fazer crer os torturadores, não se suicidou.

O documento traz como causa da morte “lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi”. Ou seja, tortura. No atestado anterior, a versão para a morte dizia em “enforcamento por asfixia mecânica”. Mentira. A verdade agora se restabelece. Há muito a se fazer, como descobrir as circunstâncias da morte do jornalista. Esse situação abre prerrogativa para que outras famílias tenham atestados na linha da verdade.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Plínio Marcos e os Pagodeiros da Pauliceia

 “Um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre” (Plínio Marcos)

Preservar a cultura brasileira que brota espontânea, autêntica e livre, escondida e marginalizada pela indústria cultural é trabalho árduo. É batalha para pessoas que acreditam no poder da arte popular como instrumento de emancipação social e política. É compromisso para aqueles que desafiam regras, imposições, censura e perseguições, mas não arrefecem até que a beleza contida em versos, melodias, traços e cores prevaleçam. Quem compra essa briga, quem encara esse desafio é, de fato, herói. Proibido, maldito. Herói maldito. Abram alas para o maior de todos os heróis malditos: Plínio Marcos, dramaturgo, ator, escritor, diretor, jornalista, palhaço. Defensor incansável da cultura popular. Sambista.

Plínio Marcos foi o dramaturgo que mais incomodou a ditadura militar. Sua linguagem do submundo, das “quebradas do mundaréu”, dava voz a marginais e marginalizados. Autor de clássicos que passaram décadas proibidos pela censura, como Barrela e Navalha na Carne, tinha um texto duro e expunha, de forma latente, a realidade de uma camada social que não existe aos olhos de quem não quer vê-la. Ao expô-la, colocando-a dentro dos palcos, incomodava. Em tempos onde a mão de um censor pesava mais que a caneta do artista, incomodar significava ser proibido. Maldito.

Mas a paixão pelo samba e a necessidade de apresentar ao público histórias e músicas de compositores desconhecidos, provenientes das Escolas de Samba da capital paulista – anônimos, gênios de pouca popularidade –, não podia ser calada. E Plínio Marcos cantou e contou as histórias “dessa gente que só berra da geral sem nunca influir no resultado”.

Acompanhado pelos Pagodeiros da Pauliceia, promoveu espetáculos em teatros de São Paulo. Destas apresentações, nasceram dois espetáculos, que posteriormente foram registradas em LPs: Balbina de Iansã, em 1971, e Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu, em 1973 (este último, relançado em CD em 2012, pela Warner Music). Os sambistas ainda atuariam em outra peça, Jesus Homem, em 1981.

“Não posso aceitar o mundo sem a participação cultural de um povo onde me criei. Não posso aceitar o mundo sem berimbau, caipirinha, bumba meu boi, sem feijoada, sem farofa, sem macumba” (Plínio Marcos)

Apaixonado pela produção realizada pelos sambistas da terra da garoa, Plínio Marcos batalhou intensamente pela valorização destes artistas populares. Isto não o impediu, entretanto, de valorizar os batuqueiros cariocas. Em 1964, teve censurada, poucos meses após o golpe militar, a peça Nossa gente, nossa música, que reunia compositores como Elton Medeiros e Haroldo Costa. Depois, em 1977, escreveria, contando com a ajuda de pesquisa de seu grande amigo José Ramos Tinhorão, a peça Noel Rosa, o Poeta da Vila e seus amores. Finalmente, em 1988, começou a escrever uma peça em homenagem a Francisco Alves, o Chico Viola, mas não deu continuidade ao projeto.

Apesar deste flerte com o samba carioca, eram os compositores da Pauliceia que o cativavam. Eram aqueles anônimos, legítimos poetas do povo, que Plínio Marcos buscava exaltar. Hoje, apesar do esforço do “herói maldito” do Brasil, a maioria dos brasileiros segue desconhecendo estes sambistas.

Quem são os Pagodeiros da Pauliceia?

Geraldo Filme. Natural de São João da Boa Vista, veio para São Paulo ainda na infância, indo residir no bairro da Barra Funda, reduto de samba da capital paulista. Participou ativamente do carnaval paulistano, tendo composto sambas para cordões e Escolas de Samba como Paulistano da Glória, Unidos do Peruche e Vai-Vai.

Geraldão da Barra Funda, como era conhecido nas rodas de samba, frequentou o Largo da Banana, os festejos de sambistas em Pirapora do Bom Jesus e as rodas de tiririca – prima paulista da capoeira baiana e da batucada carioca.

Em 1980, lançou seu único disco solo, Geraldo Filme, pela gravadora Eldorado. Dois anos depois, ao lado de Clementina de Jesus e Tia Doca, lançou O Canto dos Escravos. Com Plínio Marcos, participou dos espetáculos Balbina de Iansã e Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu.


Zeca da Casa Verde. José Francisco da Silva, classificado por Plínio Marcos como um dos mais inspirados melodistas de São Paulo, nasceu, viveu e morreu na capital paulista. Integrou a Ala de Compositores de Escolas de Samba como Camisa Verde e Branco, Morro da Casa Verde e Rosas de Ouro, onde marcou época, sendo considerado um dos maiores baluartes da agremiação.

Zeca da Casa Verde traz a herança dos sambas rurais, das congadas, onde seu pai, Zé Maquininha, era rei. O compositor participou das três peças em que Plínio Marcos apresentou os sambistas de São Paulo: Balbina de Iansã, Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu e Jesus Homem.


Toniquinho Batuqueiro. Nascido em Piracicaba, Antônio Messias de Campos, desde menino, teve contato com manifestações culturais do interior paulista, como o “samba de toco” – praticado com o tambu, instrumento de percussão feito a partir de um tronco de árvore – e o cururu. Em São Paulo, participou das rodas de samba de engraxates na Praça da Sé feitas com os instrumentos de trabalho destes sambistas, batucando com a escovinha na caixa de madeira.

O sambista compôs sambas de enredo e de quadra para a Rosas de Ouro, Unidos do Peruche e Unidos de Vila Maria e, em 1995, fundou a Embaixada do Samba Paulista, tendo sido eleito, no mesmo ano, o primeiro “embaixador”. Em 2009, aos 80 anos de idade, lançou seu primeiro e único disco de carreira, pela série “Memória do Samba Paulista”. Suas belas melodias, carregadas de influência de samba rural, no entanto, já haviam sido registradas nos discos Balbina de Iansã e Nas quebradas do Mundaréu, lançados nos anos 70.


Talismã. Poeta carioca que fez história no samba paulista, Octávio da Silva integrou a Escola de Samba Unidos de Rocha Miranda, na capital fluminense, antes de vir para o Camisa Verde e Branco, em 1967, pelas mãos de Inocêncio Tobias, figura lendária da agremiação da Barra Funda. Além de exímio compositor, era artista plástico e possuía grande habilidade para fazer esculturas em papel machê – os carros alegóricos feitos por ele nos carnavais tiravam sempre nota máxima.

Autor do hino do Camisa Verde e Branco, compôs, também, o samba enredo que é considerado o hino do samba paulista, “A Biografia do Samba”, que levou a agremiação ao título no carnaval de 1969. Integrou, ainda, as Escolas de Samba Rosas de Ouro, Morro da Casa Verde, Mocidade Alegre e Unidos de Vila Maria, tendo contribuído com incontáveis sambas de enredo e de quadra para o Carnaval paulista. Com Plínio Marcos, participou de Balbina de Iansã e Jesus Homem.


Silvio Modesto. Outro carioca que veio para São Paulo fazer samba – ainda nos anos 60 – e não voltou mais, é o único sambista vivo que atuou com Plínio Marcos nos Pagodeiros da Pauliceia e nas peças de teatro. Além de cantar e atuar como ator em Balbina de Iansã, também participou de Noel Rosa, o Poeta da Vila e seus amores.

Figura de grande importância para o Carnaval de São Paulo e do Rio de Janeiro, compôs vários sambas de enredo, tendo emplacado na avenida mais de 20. Ritmista, acompanhou grandes nomes do samba em apresentações e discos – o sambista estava presente na última gravação ao vivo de Cartola. Em 2005, lançou seu único disco de carreira, Oficina do Samba.


Jangada. Sambista e jornalista, compositor e carnavalesco. Marco Aurélio Guimarães é natural do Rio de Janeiro e veio para São Paulo trabalhar nas redações de jornais. Depois de ter passado por várias Escolas cariocas, como a Unidos de Lucas – da qual foi fundador –, Vila Santa Tereza e Independentes do Zumbi, atuou de maneira enfática no Carnaval paulistano, integrando diversas agremiações e tendo ajudado, inclusive, a criar o primeiro regulamento oficial de um desfile, em 1968.

As melodias magistrais de Jangada foram registradas no álbum Balbina de Iansã. O sambista, um mestre do jornalismo esportivo, também atuou, com Plínio Marcos, no espetáculo Jesus Homem.



Escute o samba "Ditado antigo", de Toniquinho Batuqueiro, com o próprio autor. A gravação é do álbum Nas quebradas do mundaréu.



André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba, a ser publicada sempre na terceira quarta-feira do mês. Ilustração de Kelvin Koubik, colunista do NR, é artista visual e músico de Porto Alegre

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O espião Cervantes e os 408 anos de Dom Quixote

fac-símile da 1º edição
Miguel de Cervantes, muito antes de publicar a primeira edição de Dom Quixote há exatos 408 anos em Madrid, servia a monarquia espanhola como soldado. Antes de ser resgatado em 1580, passou cinco anos preso na Argélia depois de ser capturado por piratas berberes.

Depois disso, o futuro escritor virou espião em Oram, uma cidade ao norte de onde ficara preso. A história da literatura está repleta de casos de “escritores e espiões”: Francisco de Quevedo, John le Carré, Graham Greene, Rabelais, Voltaire, Daniel Defoe. Todos foram espiões.

No caso de Cervantes ele descobriu que não tinha jeito para a atividade secreta e caiu na literatura. "Não sou muito bom para o palácio porque tenho vergonha e não sei lisonjear", disse na voz de um personagem certa vez.

Aos curiosos vale ver a leitura da obra feita por intenautas numa parceria da Real Academia Espanhola e do YouTube. Essa dica já foi divulgada aqui neste NR (confira).

Thiago Domenici, jornalista

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Morre o homem. Fica a fama?


Ederaldo Gentil, falecido em março deste ano, é autor de clássicos do samba como “O ouro e a madeira”. Apesar da relevância de sua obra, seu nome é pouco celebrado por jornalistas musicais e sambistas.

O sambista brigou com a diretoria da Escola de Samba de seu coração. Triste, não escreveria o samba enredo na disputa no terreiro naquele ano. Suas melodias refinadas e suas letras carregadas de emoção encantavam a cidade e a perspectiva de um carnaval sem um samba dele na avenida incomodava os foliões. Mas ele estava decidido: não faria o samba. Não para a sua Escola.

Convites surgiram, então, de outras agremiações. Todos queriam contar com o talento daquele compositor para engalanar o desfile de Carnaval. Das dez Escolas de Samba que participavam da disputa, nove fizeram o convite. Ele aceitou a proposta de todas. Então, um fato inédito e histórico aconteceu: um compositor emplacou sambas enredo em quase todas as Escolas de Samba do grupo de elite. Somente a sua querida Escola não cantou um samba dele naquele ano.

No Carnaval de Salvador de 1970, quem venceu foi Ederaldo Gentil. Uma vitória triste, pois sua vontade era que apenas uma Escola de Samba lhe desse o devido valor: a Filhos do Tororó, que ele tanto amava.

O sambista baiano foi dos grandes. Autêntico, criou uma linhagem de samba alicerçado na tradição carioca, mas carregando traços do samba de roda, música genuinamente baiana. Foi gravado por nomes como Roberto Ribeiro, João Nogueira, Beth Carvalho, Noite Ilustrada, Jair Rodrigues e Elza Soares. Legou clássicos como “O ouro e a madeira”, onde canta os emblemáticos versos “o ouro afunda no mar, madeira fica por cima / ostra nasce do lodo, gerando pérolas finas”. Produziu uma obra consistente, registrada também por ele em três discos de carreira e quatro compactos simples.

Ao produzir e registrar sua expressão artística, Ederaldo Gentil escreveu seu capítulo no livro dourado de nossa música. Por conta disso, venceu. Mas assim como no Carnaval de 1970, foi uma vitória triste, já que, apesar da grandiosidade de sua obra, seu nome é pouco lembrado nas rodas de sambas do Brasil. Sua morte, em 30 de março deste ano, aos 64 anos, em decorrência de falência múltipla dos órgãos, passou praticamente incólume por jornalistas musicais e sambistas.

Da Filhos do Tororó
para o Brasil


Fosse exaltando a agremiação, fosse emplacando os sambas enredos na avenida, o que inspirava o jovem sambista era sua Escola de Samba Filhos do Tororó. Logo seus sambas romperiam barreiras: em 1967,aos 20 anos, venceu o Festival de Música da Prefeitura de Salvador, no Carnaval, com a música "Rio de lágrimas" (interpretada pela cantora Raquel Mendes). Neste mesmo Carnaval, sua Escola de coração também sai com um samba seu. O sambista já despontava no cenário do samba, ainda que em um ambiente ainda restrito ao universo carnavalesco e soteropolitano. No entanto, seu enorme talento, o levaria, em breve tempo, para voos mais altos.

No ano seguinte, volta a vencer o "Festival de Música da Prefeitura de Salvador", desta vez com o samba "Silêncio". O evento marca a reinauguração do Teatro Castro Alves e teve um júri presidido pelas sumidades baianas Dorival Caymmi e Jorge Amado, o que engrandeceu ainda mais a vitória de Ederaldo Gentil.

No final da década de 60 e começo da década de 70, começa a ter seus sambas gravados – o baiano Tião Motorista foi o primeiro, seguido por Jair de Oliveira. Em 1975, ganha projeção nacional depois da gravação de “O ouro e a madeira”, pelo Conjunto Nosso Samba. O sucesso leva o compositor a registrar, neste mesmo ano, seu primeiro LP, “Samba, canto livre de um povo”, pela gravadora paulista Chantecler.

No ano seguinte, pelo mesmo selo, grava o álbum “Pequenino”, disco que reuniu músicos do primeiro time de instrumentistas de samba, como João de Aquino, Waldir Silva, Altamiro Carrilho, Luna, Eliseu, Marçal, Jorginho, Pedro Sorongo, entre outros.

Seu terceiro e derradeiro álbum foi feito de forma independente, em 1983. “Identidade” trazia a força do samba de mesmo nome, que ironizava a condição social da maioria dos brasileiros: “05342635 é o meu número, o meu nome, minha identidade / Mínimo salário é o meu ordenado, 12 horas de trabalho, que felicidade, que felicidade”.

A partir daí, o sambista passou a lutar contra a irreversível transformação que houve com a cena musical baiana. Na terra de Caymmi, o “samba da minha terra” perdeu cada vez mais espaço para ritmos como o axé music, que, hoje, domina o Carnaval local. Vencido e desmotivado, entregou os pontos, se afastando do cenário musical brasileiro.

Disco em homenagem ao baiano
Em 1999, no entanto, pode ver seu nome exaltado, em uma justa homenagem, com o disco-tributo “Pérolas Finas”, produzido por Edil Pacheco, que contou com as participações especiais de João Nogueira, Carlinhos Brown, Elza Soares, Beth Carvalho, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Paulo César Pinheiro, Jair Rodrigues, entre outros. Com músicos do gabarito de Cristóvão Bastos, Luciana Rabello, Maurício Carrilho, Jorge Simas, Jorginho do Pandeiro e Pedro Amorim e uma capa desenhada pelo grande artista Elifas Andreato, o disco honrou a grandiosidade do compositor.

Infelizmente, tal celebração foi um ato isolado e o nome de Ederaldo Gentil logo voltaria a ser esquecido, mesmo entre os sambistas. Desestimulado, sem forças para lutar, o sambista baiano passou seus últimos anos de vida recluso, morando com a irmã, Denise Gentil, afastado da vida cultural baiana, tão descaracterizada nos dias atuais, tão diferente daqueles tempos em que a cidade ainda cantava sambas no Carnaval. Hoje, ele é lembrança. Foi o sambista, ficaram as pérolas finas.

Escute o samba “Identidade”, de Ederaldo Gentil,
na voz do compositor:




André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba, a ser publicada sempre na terceira quarta-feira do mês. Ilustração de Kelvin Koubik, artista visual e músico de Porto Alegre, especial para o texto

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Um álbum precioso

Fruto de uma expedição norte-americana, o álbum Native Brazilian Music reuniu a nata do samba carioca. Uma história perdida no baú que o NR recupera e, de quebra, te convida a escutar. 

Maestro da tradicional Orquestra da Filadélfia, o estadunidense Leopold Stokowski (1882–1977) entrou para a história cultural de seu país como um grande diretor musical. Responsável pela trilha sonora para o cinema da inovadora e clássica animação Fantasia’, da Disney, de 1940, também criou diversos conjuntos musicais, entre eles a All-American Youth Orchestra, com quem veio a América do Sul entre 1940 e 1941. A visita fez parte da “Política de Boa Vizinhança”, instituída pelos EUA com os países latino-americanos.

Stokowski esteve no Rio de Janeiro a bordo do S.S. Uruguay, navio equipado com um estúdio completo, preparado pela extinta gravadora Columbia para registrar a música folclórica de países latino-americanos. O objetivo era, posteriormente, celebrar um congresso folclórico pan-americano, o que não chegou a ser realizado.

Antes do embarque, o maestro contatou Heitor Villa-Lobos, apresentando a ele a ideia de registrar os expoentes da música brasileira, que vivia uma era de transição do caráter folclórico-rural para o popular-urbano. Villa-Lobos chamou seus amigos Cartola, Donga e Zé Espinguela, que entendiam – e muito – do riscado, para reunir a nata, os melhores e mais representativos músicos populares do Rio de Janeiro da época.

Em uma grande cerimônia, subiram ao S.S. Uruguay, em agosto de 1940, nomes como Pixinguinha, Donga e João da Baiana, a Santíssima Trindade do Samba – maiores representantes da primeira geração de sambistas do Rio. Também estiveram lá Cartola, ao lado de sua Estação Primeira e um coro de pastoras de Mangueira; Zé da Zilda, um dos primeiros sambistas “de morro”, provenientes das Escolas de Samba, a fazer sucesso “no asfalto”; Jararaca e Ratinho, mestres da embolada; Luiz Americano, saxofonista e chorão, um dos pioneiros no uso do instrumento na música popular brasileira; e Zé Espinguela, macumbeiro, figura de suma importância para o meio cultural da época.

Outros solistas presentes foram Janir Martins, da Rádio Nacional, o cantor Mauro César, que acompanhou o Conjunto Regional de Donga, além de um quarteto masculino do Orfeão Villa-Lobos. Os músicos presentes eram aqueles que costumavam acompanhar os melhores sambistas da época nas gravações e nas apresentações realizadas por toda a Guanabara. Relatos da época dão conta que outros nomes de valor, como Paulo da Portela, Augusto Calheiros e o violonista Laurindo de Almeida estiveram presentes naquela sessão de gravação. Ataulfo Alves e Carlos Cachaça – que jamais faltou ao trabalho – também foram convidados, mas não puderam comparecer.

O registro histórico era uma grande coletânea de ritmos populares brasileiros (samba, choro, partido alto, toada, embolada, macumba, candomblé e cântico ameríndio), interpretada pelos próprios autores, acompanhados pelos melhores músicos de então. Foi a primeira gravação de Cartola, aos 31 anos de idade, e a única de Zé Espinguela, cantando alguns pontos de macumba. Também trouxe Pixinguinha tocando magistralmente flauta, seu primeiro instrumento, depois substituído pelo saxofone, e João da Baiana tocando, à sua maneira, seu pandeiro. Tudo ali era primoroso, de fato aquela era a melhor e mais representativa música popular brasileira.

Calote: gravaram,
mas não pagaram


Ao final das gravações, o maestro agradeceu com um aperto de mão a cada um dos músicos e zarpou aos EUA. As promessas feitas a Villa-Lobos de remuneração e cessão de cópias das gravações foram ignoradas. Alguns músicos foram pagos, tempos depois, com quantias irrisórias. Cartola, por exemplo, relata que ganhou 1.500 réis, o equivalente a três maços de cigarro baratos. Além do calote norte-americano, os músicos não puderam ouvir o disco, já que ele foi lançado somente nos EUA.

Das 40 músicas gravadas, a Columbia lançou somente 16 delas, reunidas no álbum “Native Brazilian Music”, que continha dois volumes, cada um com quatro discos (contendo uma música de cada lado) de 78 rotações por minuto. O texto de apresentação dizia:

“Aqui neste álbum da Columbia Discos você tem a autêntica música do Brasil... Magnificamente tocada por músicos nativos... Selecionados e gravados sob a supervisão pessoal de Leopold Stokowski. Estas expressivas gravações foram feitas durante a excursão pela América do Sul do maestro Stokowski com a All American Orchestra. Em vários pontos da Excursão, o doutor Stokowski ouviu o folclore nativo e a música popular interpretados por músicos dos nossos bons vizinhos. Para a gravação, escolheu o que concluiu ser o melhor e o mais típico”.

Nomes das músicas, dos intérpretes e dos compositores foram escritos com a grafia errada, o que demonstrou o pouco cuidado no preparo do disco. O “Grupo do Pai Alufá” (Zé Espinguela), por exemplo, virou “Grupo do Rae Alufá”. Além disso, as descrições das músicas deixavam a desejar. Pouca gente deu valor ao disco nos EUA. Lá, ninguém queria saber da nossa “música folclórica”. Cá, muitos queriam, mas não podiam, pois o disco estava lá.

Por longas décadas esses registros foram muito raros. O pesquisador Lúcio Rangel foi um dos poucos a ter a sorte de adquirir um exemplar, por acaso, em Nova York. Resolveu, então, doar para o Museu da Imagem e do Som (MIS), por achar o melhor destino para tal tesouro. Deveria ser, mas não era: o álbum, tempos depois, simplesmente sumiu, foi roubado.

Em 1987, então, no ano do centenário de Villa-Lobos, o Museu Villa-Lobos relançou, em uma edição limitada, as dezesseis gravações do Native Brazilian Music. Produzido por Suetônio Valença, Marcelo Rodolfo e Jairo Severiano, e com texto do musicólogo Ary Vasconcelos, o relançamento foi feito a partir de discos 78 rpm doados pelo colecionador Flávio Silva, e não por meio das matrizes originais (o que seria o ideal).

Sendo um produto especial, de tiragem baixa (3 mil cópias), a edição brasileira do disco logo esgotou-se. Mais uma vez, poucos podiam escutar a beleza contida naquele registro. Poucos sabiam a respeito do emblemático álbum.

No início dos anos 2000, a pesquisadora musical estadunidense Daniella Thompson iniciou em sua terra natal uma busca sobre o paradeiro das matrizes originais do álbum. Eis que ela não apenas localizou-as nos porões da Sony, detentora do catálogo da Columbia, como descobriu que existe um outro volume, com oito músicas, que jamais foi lançado.

Travou-se, então, uma luta para relançar, em CD, tanto o álbum original quanto o volume jamais lançado. Até agora não houve nenhum avanço neste sentido, mas a Internet fez com que, pouco a pouco, este disco chegasse aos ouvidos de uma nova geração de sambistas e admiradores da boa música brasileira.

A partir do momento em que uma alma caridosa a partir do LP lançado em 1987 disponibilizou para downloads as músicas que por tantas décadas não puderam ser ouvidas, tudo mudou. Hoje, com alguma busca e poucos cliques, você confere a beleza da flauta de Pixinguinha, do pandeiro de João da Bahiana, o seminal registo de Cartola como cantor, entre outras riquezas musicais que o disco contém.

André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba, a ser publicada sempre na terceira quarta-feira do mês. Ilustração de Kelvin Koubik, artista visual e músico de Porto Alegre, especial para o texto

Escute e saiba mais
sobre as 16 pérolas
1 - Macumba de Oxóssi (Donga - José Espinguela) com Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá
[Um ponto de macumba para Oxóssi]
2 - Macumba de Iansã (Donga - José Espinguela) com Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá
[Um ponto de macumba para Iansã. Estes registros foram os únicos feitos Zé Espinguela em sua vida]
3 - Ranchinho Desfeito (Donga - De Castro e Souza - David Nasser) com Mauro César
[Samba-canção interpretada por Mauro César, com o Conjunto Regional de Donga e solos de flauta de Pixinguinha]
4 - Caboclo do Mato (Getúlio Marinho da Silva “Amor”) com João da Bahiana, Janir Martins e Jararaca
[Corima que traz João da Bahiana no solo e Janir Martins e Jararaca nos refrões, com improvisos de flauta feitos pelo gênio Pixinguinha. O registro traz o excepcional pandeiro do solista]
5 - Seu Mané Luiz (Donga) com Zé da Zilda e Janir Martins
[Zé da Zilda canta em dueto este divertido samba com Janir Martins. No acompanhamento, mais uma vez, o regional de Donga, com Pixinguinha à flauta]
6 - Bambo do Bambu (Donga) com Jararaca e Ratinho
[Embolada “trava-língua” de Donga, interpretada por Jararaca e Ratinho, acompanhados pelo violonista Laurindo de Almeida e conjunto regional]
7 - Sapo no Saco (Jararaca) com Jararaca e Ratinho
[Mais uma embolada, desta vez de autoria do próprio Jararaca. Com Laurindo de Almeida e conjunto regional]
8 - Que Quere Que Quê (João da Bahiana - Donga - Pixinguinha) com João da Bahiana e Janir Martins
[Macumba carnavalesca de autoria atribuída à Santíssima Trindade do Samba (embora especule-se que seja apenas de João da Bahiana). O pandeiro de João da Bahiana e a flauta de Pixinguinha, mais uma vez, roubam a cena]
9 - Zé Barbino (Pixinguinha - Jararaca) com Pixinguinha e Jararaca
[Maracatu com metais e percussão, é um registro raro de Pixinguinha cantando]
10 - Tocando pra você (Luiz Americano) com Luiz Americano
[Choro de clarineta acompanhado por um conjunto regional que traz João da Bahiana ao pandeiro]
11 - Passarinho bateu asas (Donga) com Zé da Zilda
[Com o Conjunto Regional de Donga, solos de flauta de Pixinguinha e acompanhamento vocal feminino]
12 - Pelo Telefone (Donga - Mauro de Almeida) com Zé da Zilda
[Com o Conjunto Regional de Donga, solos de flauta de Pixinguinha e acompanhamento vocal feminino. “Pelo Telefone” é um dos sambas mais emblemáticos (foi primeira música registrada como ‘samba’ no Brasil) da história da música popular brasileira]
13 - Quem me vê sorrir (Cartola/Carlos Cachaça) com Cartola e Coro da Mangueira
[Cartola fez aí sua estreia como intérprete, aos 31 anos de idade. Na gravação, é acompanhado por Aluísio Dias, um de seus mestres na Mangueira, ao violão, pela bateria da Estação Primeira e por um coro de “pastoras”]
14 - Teiru/Nozani-Ná (música folclórica, adaptada por Heitor Villa-Lobos) com Quarteto do Coral Orfeão Villa-Lobos
[Dois cantos ameríndios. “Teiru” é um canto fúnebre para a morte de um cacique, recolhido por Roquete Pinto, em 1912. “Nozani-Ná” está catalogada nas “Canções Típicas Brasileiras” (1919), de Villa-Lobos]
15 - Cantiga de Festa (Donga - José Espinguela), com Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá
[Corima contendo solo masculino e coro feminino, batucada e palmas]
16 - Canidé Ioune (música folclórica, adaptada por Heitor Villa-Lobos)  [Quarteto do Coral Orfeão Villa-Lobos. Este canto ameríndio foi recolhido pelo viajante Jean de Léry em 1553]
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