.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador escola de samba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escola de samba. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Monarco, a memória viva da Portela
por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*
Hildemar Diniz recebeu o apelido que carregaria para o resto de sua vida aos 6 anos de idade. Vivia em Nova Iguaçu, que naquela época (final da década de 1930) estava mais para roça do que para subúrbio urbano. Certo dia, quando um amigo lia um gibi, em voz alta, para toda a turma, achou graça na parte da história que falava do “grande monarca”. Na sapecagem de criança, os amigos começaram, então, a lhe chamar de “Monarca”. Com o tempo, virou “Monarco”, nome com o qual o futuro portelense se tornaria conhecido.
Monarco celebrou, no último dia 17 de agosto, a chegada da 80ª primavera em sua vida e a festa de comemoração não poderia ser melhor. Na quadra de sua Escola de Samba do coração, o “Portelão”, cantou, sambou e festejou cada instante das oito décadas intensamente vividas, ao lado de amigos e familiares. Memória viva da Portela, Monarco, desde maio deste ano, é presidente de honra da agremiação, o que representa um sopro de esperança para uma legião de portelenses que, nas últimas décadas, viram interesses econômicos sobrepujarem toda uma tradição e uma história de cultura popular.
A chapa de oposição à antiga diretoria – que fez a Portela se acostumar a não mais brigar por títulos, sendo obscurecida por rivais menos tradicionais e com menos gabarito no quesito “samba” – venceu as eleições e pretende expurgar a conduta, nociva, de valorizar mais o aspecto financeiro ao cultural dentro de uma Escola de Samba. Apesar do jejum de 29 anos sem títulos, Portela ainda é a maior vencedora do Carnaval carioca. Nesta nova gestão, tão significativo quanto à presença de Monarco na composição da diretoria é o fato de o próprio presidente ser intimamente ligado à memória musical da Portela – Serginho Procópio, o novo mandatário, é cavaquinista da Velha Guarda, filho de um dos maiores instrumentistas que já passaram por lá, Osmar do Cavaco.
Sendo assim, a celebração de seu 80º aniversário foi, de fato, uma ode à Velha Portela. Estavam lá Waldir 59 – sócio número 1 da Escola –, Wilma Nascimento, Dodô, Noca, Cabelinho, Tia Surica, Tia Eunice, além de toda a Velha Guarda, incluindo seu padrinho, Paulinho da Viola. Familiares, como o filho Marquinhos Diniz e a neta Juliana Diniz, bem como amigos caros ao velho bamba, como as cantoras Cristina Buarque e Teresa Cristina, o veterano sambista mangueirense Nelson Sargento e o cartunista Lan também marcaram presença.
Aos 80, Monarco recebeu o cargo e o diploma de guardião da memória portelense, algo que sempre o fez, de maneira espontânea. Nesse contexto, os festejos terem sido realizados no “Portelão”, e não na “Portelinha”, primeira sede da escola, foi emblemático – a nova diretoria faz questão de fazer da sede oficial a casa da Velha Guarda, de modo a ressaltar a união entre a Escola de Samba, moderna, atual, inserida em um contexto de competitividade, e a memória musical desta mesma (a tradição), representada naqueles velhos bambas da Portela de outrora. A “Portelinha” foi casa da Velha Guarda durante os anos nebulosos da antiga administração. Assim, apesar de sua beleza, de seu significado e seu charme, ficou estigmatizada como o local onde se relegavam os “velhos”, que não poderia representar a Portela “oficial”, em detrimento do “novo”, moderno e mais adequado aos tempos atuais, esvaziado da tradição portelense.
Memória dos mais velhos,
legado para os mais novos
Monarco é a memória da Portela. Sempre foi. Agora, está oficialmente legitimado nessa função. Para os sambistas mais novos que se interessam pela bagagem cultural, pelo acervo valiosíssimo que faz da Portela uma Escola de Samba rica em tradição, o velho sambista também é a principal referência.
Sambistas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, desvinculados de uma trajetória feita dentro de Escolas de Samba – longe, inclusive, da Portela – celebram o compositor frequentemente, promovendo rodas de samba com o portelense e aprendendo antigos sambas – muitos, quase totalmente esquecidos –, de forma a recuperar e tirar do ostracismo verdadeiras pérolas do nosso cancioneiro.
Monarco é a pessoa certa para lembrar aquele samba inédito do Alvaiade, dos irmãos Andrade, a melodia do Quininho, a “segunda” que nunca foi gravada, o verso original do samba que fez sucesso, o samba de terreiro de Paulo da Portela que a Escola desfilou nos anos 30 etc. A facilidade para lembrar sambas compostos há mais de meio século é herança de outro grande sambista da Portela, parceiro de primeira hora de Monarco em tempos passados: Alcides, o Malandro Histórico.
Desde cedo, Monarco fez questão de se associar aos sambistas mais velhos da Portela, procurando adotar, inclusive, a mesma linha de composição dos veteranos. Entre seus parceiros na Escola, estão nomes como Manacéa, Francisco Santana, Mijinha, Antônio Caetano e Alvaiade, bem como o grande baluarte da escola, Paulo da Portela, com o qual fez uma série de parcerias póstumas, colocando “segundas” em sambas curtos criados pelo bamba.
Curiosamente, o compositor pouco se associou aos sambistas da sua mesma faixa etária, como Candeia (com ele, fez apenas um samba, o clássico “Portela é uma família reunida”), Casquinha e Picolino (conhecidos como a Turma do Muro), preferindo manter a tradicional linha de composição dos mais velhos - depois superada e modificada por esta nova geração, inclusive, nas disputas de samba enredo.
Velha guarda,
aos 37 anos
Foi pelo fato de manter esta linha e caminhar lado a lado com os sambistas que participaram da fundação da Portela e edificaram o estilo de composição portelense, que Monarco, aos 37 anos, foi convidado a integrar a primeira formação da Velha Guarda da Portela, em 1970, idealizada por Paulinho da Viola.
Dotado de voz potente, Monarco era presença marcante nas rodas de samba no terreiro da Portela, tirando da mente sambas das mais diversas procedências – inclusive seus -, cantados em uma afinação impecável. Assim, foi um dos selecionados para o registro pioneiro da Velha Guarda da Portela, tendo a honra de ter sua composição elevada a nome do disco: “Portela, Passado de Glória”. Trabalhando duro, como peixeiro, entretanto, o sambista não pôde comparecer no estúdio, no dia da gravação (não havia, à época, para cidadãos suburbanos pobres, a opção de querer, ou tentar, levar vida de “artista” – a necessidade falava mais alto).
Esta frustração foi dissipada nas gravações seguintes da Velha Guarda, já nos anos 80, quando Monarco foi intérprete de várias faixas, atuando ativamente, também, na elaboração do repertório, fruto de sua memória sagaz. Seu cantar, desde o primeiro registro, tornou-se evidente a beleza e a força. Tem “gogó” de sambista de terreiro, que canta alto para fazer-se ouvir em meio ao rufar de tamborins, pandeiros e cuícas. Lançou o primeiro disco solo em 1976, pela Continental, com capa ricamente ilustrada por Lan. Outros quatro viriam depois.
Um compositor
portelense
Como compositor, emplacou grandes sucessos. Sozinho ou com seus parceiros da Portela, teve registrado sambas por João Nogueira, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Clara Nunes, Paulinho da Viola, entre outros. Clássicos, como “Tudo menos amor” (com Walter Rosa), “Quitandeiro” (com Paulo da Portela) e “Lenço” (com Francisco Santana) foram fartamente executados em uma grande parcela de lares brasileiros, nos anos 70.
A partir dos anos 80, Monarco formou uma parceria com o compositor Ratinho que seria muito gravada por Zeca Pagodinho e resultaria em sucessos retumbantes (que ajudaram a melhorar a condição de vida do sambista), como “Coração em desalinho” e “Vai vadiar”. Além das dezenas de músicas gravadas, o compositor possui, ainda, uma série de inéditas – e, claro, traz na lembrança outras tantas composições de portelenses de outrora.
Por muito tempo, essa linha de sambas da Portela, bem como a própria tradição portelense perderam espaço. Nas rodas de samba poucos se lembravam dos sambas de terreiro dos compositores da antiga. Dentro da Escola então, nem se fala. Monarco se viu nesta aridez por muitos anos, muitas gestões. Agora, é chegada a hora da Águia da Portela voar, altaneira, novamente. No belo samba de Argemiro do Pandeiro e Francisco Santana, feito quando os títulos começaram a escassear, já há várias décadas, o estado de espírito dos portelenses era retratado nos seguintes versos: “Vitória para a Portela era banalidade, mas da vitória estou sentindo saudade”. Nos últimos anos, Monarco concordou, triste e resignado. Agora, porém, quer que as glórias do passado voltem a ser, novamente, doces trivialidades.
"Escute, na íntegra, o disco de estreia de Monarco, lançado pela Continental, em 1976"
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
Marcadores:
batucando,
brasil,
Cultura,
escola de samba,
história,
homenagem,
ilustração,
kelvin Koubik,
monarco,
portela,
samba carioca
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Plínio Marcos e os Pagodeiros da Pauliceia
“Um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre” (Plínio Marcos)
Preservar a cultura brasileira que brota espontânea, autêntica e livre, escondida e marginalizada pela indústria cultural é trabalho árduo. É batalha para pessoas que acreditam no poder da arte popular como instrumento de emancipação social e política. É compromisso para aqueles que desafiam regras, imposições, censura e perseguições, mas não arrefecem até que a beleza contida em versos, melodias, traços e cores prevaleçam. Quem compra essa briga, quem encara esse desafio é, de fato, herói. Proibido, maldito. Herói maldito. Abram alas para o maior de todos os heróis malditos: Plínio Marcos, dramaturgo, ator, escritor, diretor, jornalista, palhaço. Defensor incansável da cultura popular. Sambista.
Plínio Marcos foi o dramaturgo que mais incomodou a ditadura militar. Sua linguagem do submundo, das “quebradas do mundaréu”, dava voz a marginais e marginalizados. Autor de clássicos que passaram décadas proibidos pela censura, como Barrela e Navalha na Carne, tinha um texto duro e expunha, de forma latente, a realidade de uma camada social que não existe aos olhos de quem não quer vê-la. Ao expô-la, colocando-a dentro dos palcos, incomodava. Em tempos onde a mão de um censor pesava mais que a caneta do artista, incomodar significava ser proibido. Maldito.
Mas a paixão pelo samba e a necessidade de apresentar ao público histórias e músicas de compositores desconhecidos, provenientes das Escolas de Samba da capital paulista – anônimos, gênios de pouca popularidade –, não podia ser calada. E Plínio Marcos cantou e contou as histórias “dessa gente que só berra da geral sem nunca influir no resultado”.
Acompanhado pelos Pagodeiros da Pauliceia, promoveu espetáculos em teatros de São Paulo. Destas apresentações, nasceram dois espetáculos, que posteriormente foram registradas em LPs: Balbina de Iansã, em 1971, e Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu, em 1973 (este último, relançado em CD em 2012, pela Warner Music). Os sambistas ainda atuariam em outra peça, Jesus Homem, em 1981.
“Não posso aceitar o mundo sem a participação cultural de um povo onde me criei. Não posso aceitar o mundo sem berimbau, caipirinha, bumba meu boi, sem feijoada, sem farofa, sem macumba” (Plínio Marcos)
Apaixonado pela produção realizada pelos sambistas da terra da garoa, Plínio Marcos batalhou intensamente pela valorização destes artistas populares. Isto não o impediu, entretanto, de valorizar os batuqueiros cariocas. Em 1964, teve censurada, poucos meses após o golpe militar, a peça Nossa gente, nossa música, que reunia compositores como Elton Medeiros e Haroldo Costa. Depois, em 1977, escreveria, contando com a ajuda de pesquisa de seu grande amigo José Ramos Tinhorão, a peça Noel Rosa, o Poeta da Vila e seus amores. Finalmente, em 1988, começou a escrever uma peça em homenagem a Francisco Alves, o Chico Viola, mas não deu continuidade ao projeto.
Apesar deste flerte com o samba carioca, eram os compositores da Pauliceia que o cativavam. Eram aqueles anônimos, legítimos poetas do povo, que Plínio Marcos buscava exaltar. Hoje, apesar do esforço do “herói maldito” do Brasil, a maioria dos brasileiros segue desconhecendo estes sambistas.
Quem são os Pagodeiros da Pauliceia?
Geraldo Filme. Natural de São João da Boa Vista, veio para São Paulo ainda na infância, indo residir no bairro da Barra Funda, reduto de samba da capital paulista. Participou ativamente do carnaval paulistano, tendo composto sambas para cordões e Escolas de Samba como Paulistano da Glória, Unidos do Peruche e Vai-Vai.
Geraldão da Barra Funda, como era conhecido nas rodas de samba, frequentou o Largo da Banana, os festejos de sambistas em Pirapora do Bom Jesus e as rodas de tiririca – prima paulista da capoeira baiana e da batucada carioca.
Em 1980, lançou seu único disco solo, Geraldo Filme, pela gravadora Eldorado. Dois anos depois, ao lado de Clementina de Jesus e Tia Doca, lançou O Canto dos Escravos. Com Plínio Marcos, participou dos espetáculos Balbina de Iansã e Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu.
Zeca da Casa Verde. José Francisco da Silva, classificado por Plínio Marcos como um dos mais inspirados melodistas de São Paulo, nasceu, viveu e morreu na capital paulista. Integrou a Ala de Compositores de Escolas de Samba como Camisa Verde e Branco, Morro da Casa Verde e Rosas de Ouro, onde marcou época, sendo considerado um dos maiores baluartes da agremiação.
Zeca da Casa Verde traz a herança dos sambas rurais, das congadas, onde seu pai, Zé Maquininha, era rei. O compositor participou das três peças em que Plínio Marcos apresentou os sambistas de São Paulo: Balbina de Iansã, Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu e Jesus Homem.
Toniquinho Batuqueiro. Nascido em Piracicaba, Antônio Messias de Campos, desde menino, teve contato com manifestações culturais do interior paulista, como o “samba de toco” – praticado com o tambu, instrumento de percussão feito a partir de um tronco de árvore – e o cururu. Em São Paulo, participou das rodas de samba de engraxates na Praça da Sé feitas com os instrumentos de trabalho destes sambistas, batucando com a escovinha na caixa de madeira.
O sambista compôs sambas de enredo e de quadra para a Rosas de Ouro, Unidos do Peruche e Unidos de Vila Maria e, em 1995, fundou a Embaixada do Samba Paulista, tendo sido eleito, no mesmo ano, o primeiro “embaixador”. Em 2009, aos 80 anos de idade, lançou seu primeiro e único disco de carreira, pela série “Memória do Samba Paulista”. Suas belas melodias, carregadas de influência de samba rural, no entanto, já haviam sido registradas nos discos Balbina de Iansã e Nas quebradas do Mundaréu, lançados nos anos 70.
Talismã. Poeta carioca que fez história no samba paulista, Octávio da Silva integrou a Escola de Samba Unidos de Rocha Miranda, na capital fluminense, antes de vir para o Camisa Verde e Branco, em 1967, pelas mãos de Inocêncio Tobias, figura lendária da agremiação da Barra Funda. Além de exímio compositor, era artista plástico e possuía grande habilidade para fazer esculturas em papel machê – os carros alegóricos feitos por ele nos carnavais tiravam sempre nota máxima.
Autor do hino do Camisa Verde e Branco, compôs, também, o samba enredo que é considerado o hino do samba paulista, “A Biografia do Samba”, que levou a agremiação ao título no carnaval de 1969. Integrou, ainda, as Escolas de Samba Rosas de Ouro, Morro da Casa Verde, Mocidade Alegre e Unidos de Vila Maria, tendo contribuído com incontáveis sambas de enredo e de quadra para o Carnaval paulista. Com Plínio Marcos, participou de Balbina de Iansã e Jesus Homem.
Silvio Modesto. Outro carioca que veio para São Paulo fazer samba – ainda nos anos 60 – e não voltou mais, é o único sambista vivo que atuou com Plínio Marcos nos Pagodeiros da Pauliceia e nas peças de teatro. Além de cantar e atuar como ator em Balbina de Iansã, também participou de Noel Rosa, o Poeta da Vila e seus amores.
Figura de grande importância para o Carnaval de São Paulo e do Rio de Janeiro, compôs vários sambas de enredo, tendo emplacado na avenida mais de 20. Ritmista, acompanhou grandes nomes do samba em apresentações e discos – o sambista estava presente na última gravação ao vivo de Cartola. Em 2005, lançou seu único disco de carreira, Oficina do Samba.
Jangada. Sambista e jornalista, compositor e carnavalesco. Marco Aurélio Guimarães é natural do Rio de Janeiro e veio para São Paulo trabalhar nas redações de jornais. Depois de ter passado por várias Escolas cariocas, como a Unidos de Lucas – da qual foi fundador –, Vila Santa Tereza e Independentes do Zumbi, atuou de maneira enfática no Carnaval paulistano, integrando diversas agremiações e tendo ajudado, inclusive, a criar o primeiro regulamento oficial de um desfile, em 1968.
As melodias magistrais de Jangada foram registradas no álbum Balbina de Iansã. O sambista, um mestre do jornalismo esportivo, também atuou, com Plínio Marcos, no espetáculo Jesus Homem.
Escute o samba "Ditado antigo", de Toniquinho Batuqueiro, com o próprio autor. A gravação é do álbum Nas quebradas do mundaréu.
André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba, a ser publicada sempre na terceira quarta-feira do mês. Ilustração de Kelvin Koubik, colunista do NR, é artista visual e músico de Porto Alegre
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Paulinho da Viola, a nobreza do samba chegou aos 70
Elegância: distinção de porte, de maneiras, graça, encanto, bom gosto, gentileza, amabilidade, delicadeza de expressão, cortesia. Fineza: suavidade, primor, perfeição. Altivez: nobreza, elevação, brio. Nobreza: excelência, dignidade. Garbo: elegância, distinção, primor. Galhardia: grandeza de alma, valor, bravura. Delicadeza: sensibilidade, finura, esmero, sutileza.
Tais qualidades podem ser personalizadas em um cidadão brasileiro, artista do mais alto quilate, gênio da música e representante maior da elegância dentro da cultura popular brasileira: Paulo César Batista de Faria, eternizado nos anais da musicografia brasileira como Paulinho da Viola.
Paulinho completou 70 anos no último dia 12 de novembro. Seu reconhecimento, por parte dos sambistas, vem de longa data. Em 1973, Batatinha o celebrou com a composição “Ministro do samba”, no disco “Samba da Bahia”, onde canta: “O samba bem merecia ter ministério algum dia / Então seria ministro Paulo César Batista Faria”.
Um ano depois, a Velha Guarda da Portela registrou a louvação “De Paulo da Portela a Paulinho da Viola”, de Francisco Santana e Monarco, no álbum “História das Escolas de Samba - Portela”. Eram os portelenses da antiga, reconhecendo nele a grandiosidade dos mestres do passado nos versos: “Antigamente era Paulo da Portela / Agora é Paulinho da Viola / Paulo da Portela, nosso professor / Paulinho da Viola, o seu sucessor / Vejam que coisa tão bela / O passado e o presente da nossa querida Portela”. Paulinho da Viola tinha seus 30 e poucos anos, mas já era festejado como bamba.
Se jovem, já era um gigante, aos 70 é um monstro sagrado de nosso cancioneiro. E, assim como recaem sobre ele todas estas virtudes citadas acima, simbolizando nessa figura humana a própria simplicidade, Paulinho reúne, em si, tantos adjetivos, que fazem com que ele seja, ao mesmo tempo, o Paulinho da Viola sambista, chorão, instrumentista, compositor, intérprete e portelense. Paulinho da Viola, herdeiro e feitor das tradições. Chama viva do samba, que bebe do passado para recriar o presente, legando ao futuro novas raízes, autenticidades e tradições.
Paulinho da Viola,
o herdeiro das tradições.
A música brasileira, pelo choro e pelo samba, penetra a alma de Paulinho desde o berço. Seu pai, César Faria foi um dos mais destacados violonistas brasileiros. Em sua casa, frequentavam nomes como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho, Radamés Gnattali, Dino, Meira, entre outros.
Ainda criança, já admirava a riqueza das melodias que eram emanadas por plangentes violões, cavaquinhos e bandolins, passando a frequentar, na adolescência, os célebres saraus que Jacob do Bandolim promovia em sua casa. Quietinho, no canto da sala, aprendia – ouvido atencioso – com os mestres.
Paulinho sempre foi grato com aqueles que o ensinaram a nobreza do choro e do samba. Seu pai foi um fiel acompanhante em seus discos e apresentações, tocando com ele até a morte, em 2007, aos 88 anos. Para Radamés Gnattali, compôs o choro “Sarau para Radamés”, sendo, depois, retribuído por ele com a composição “Obrigado, Paulinho”.
Paulinho da Viola,
o instrumentista.
De tanto ver o pai tocar, Paulinho resolveu seguir as pegadas musicais que vinham dos laços de sangue e, com 15 anos, iniciou-se na nobre arte do violão. Sem paciência para ensiná-lo, Cesar Faria indicou o amigo Zé Maria para a missão e este o fez com dedicação, instruindo-o com o método de Mateo Carcassi, da escola espanhola de Francisco Tarrega.
Paralelamente, aprendeu o ofício do cavaquinho, tocando, no início, com afinação de bandolim.
Ao longo de sua carreira, Paulinho da Viola tocou os dois instrumentos em seus discos e apresentações, ora fazendo o “centro”, ora solando os choros que compunha e que, eventualmente, gravava em seus álbuns.
Paulinho da Viola,
o chorão.
Reconhecido como um dos maiores sambistas da história, Paulo César Batista de Faria é, também, um exímio chorão, tanto como compositor quanto como solista. Em seus discos de samba, registrou poucas peças instrumentais, como “Abraçando Chico Soares”, gravado em 1971, “Choro Negro” (1973) e o já citado “Sarau para Radamés” (1978).
Em 1976, no entanto, dedicou um álbum inteiro ao gênero que aprendeu a amar e cultivar desde a tenra infância. “Memórias Chorando” foi lançado paralelamente ao disco “Memórias Cantando” e apresentou o cavaquinista e violonista interpretando seis choros de sua autoria, ao lado de outros quatro de Pixinguinha e um de Ary Barroso.
Paulinho da Viola,
o compositor de letras e melodias.
Muitos compositores se consagram como criadores de linhas melódicas. Outros tantos, cravam o nome na história da música brasileira como requintados letristas. Paulinho da Viola transita pelas duas artes com desenvoltura. Ele compõe sozinho – criando música e poesia – e também atua com destaque como melodista e letrista em criações conjuntas com outros compositores.
Com Elton Medeiros, travou uma fértil parceria e escreveu letras para melodias inspiradas, que viriam a se tornar sambas clássicos de seu repertório, como “Recomeçar” e “Onde a dor não tem razão”. Por outro lado, também sabe, como poucos, criar melodias para poesias, tendo em “Sei lá, Mangueira” – versos originalmente cunhados por Hermínio Bello de Carvalho – o exemplo de maior destaque.
Paulinho da Viola,
o intérprete.
Com a mesma elegância que compõe e que interpreta, ao cavaquinho e ao violão, seus sambas e choros, Paulinho da Viola também canta composições de outros sambistas.
Em seus discos, celebrou os bambas da Era de Ouro do Rádio, como Wilson Batista, Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues; cantou Cartola e Nelson Cavaquinho; homenageou os sambistas da Portela, como Casquinha, Monarco, Francisco Santana, Mijinha, Alberto Lonato e Candeia e exaltou os compositores de Botafogo, seu bairro, como Mauro Duarte e Walter Alfaiate. Sua voz doce e macia e sua interpretação graciosa engalanam ainda mais as belas criações destes grandes baluartes.
Paulinho da Viola,
o portelense.
Em 1964, levado pelas mãos de seu primo, Oscar Bigode, Paulinho da Viola ingressou na Portela. Lá chegando, foi intimado pelos compositores locais, verdadeiras entidades do samba, a mostrar uma composição de sua autoria. Tímido, cantou um samba curto, de apenas uma parte. Casquinha, um grande improvisador, na mesma hora, completou a criação. Nascia ali, o samba “Recado”, cartão de visitas do jovem compositor na tradicional Escola de Samba de Oswaldo Cruz.
Dois anos depois, já devidamente estabelecido na Ala de Compositores, compôs o samba-enredo “Memórias de um Sargento de Milícias”, que levou a Portela ao título no Carnaval carioca.
Paulinho da Viola havia encontrado seu lugar. Era ali, no meio daqueles bambas. Uma Escola de Samba que reunia nomes como Alvaiade, Manacéa, Mijinha, Alcides Lopes, Antônio Caetano, Aniceto, Monarco, Armando Santos, Chico Santana, Alberto Lonato, Ventura, João da Gente, entre outros compositores de valor. Em 1970, reuniu estes sambistas históricos e os levou para o estúdio pela primeira vez. Nascia a Velha Guarda da Portela, conjunto que representa o samba em sua forma mais pura e autêntica. Como forma de gratidão, tornou-se padrinho deles – com apenas 30 anos de idade incompletos.
Paulinho da Viola,
a fonte de inspiração.
O último disco lançado por Paulinho da Viola com composições inéditas, “Bebadosamba”, foi lançado há 16 anos. Apesar disso, ano após ano, só cresce a admiração pelo bamba, por parte de sambistas de todas as gerações.
Três dias após completar 70 anos, compareceu a uma homenagem a Casquinha, seu primeiro parceiro na Portela, prestada por sambistas de todo o Brasil, realizada na sede antiga da Escola de Samba. Foi muito festejado pelos presentes. Dois dias depois, apresentou-se ao lado da Velha Guarda da Portela em Madureira, com entrada gratuita. Paulinho da Viola sabe como retribuir aos fãs a admiração emanada por eles ao longo destas quase quatro décadas de carreira.
Para 2013, está previsto o relançamento, pela gravadora EMI, de seus onze álbuns lançados pela extinta Odeon. No carnaval, estará à frente, pela segunda vez, do bloco Timoneiros da Viola, cujo tema será o “Rosa de Ouro”, espetáculo idealizado por Hermínio Bello de Carvalho, em 1965, onde um jovem Paulinho deu seus primeiros passos como profissional, atuando ao lado de Clementina de Jesus, Aracy Côrtes, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Elton Medeiros e Nelson Sargento – estes últimos dois estarão presentes no desfile.
Paulinho da Viola segue fazendo história. Pensando no futuro, mas não esquecendo seu passado. Moldando a tradição com o tempo, trata o samba com o respeito e a elegância que ele merece, pois bebeu de sua chama e assim a mantém viva.
Memórias Chorando:
Memórias Cantando:
André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba, a ser publicada sempre na terceira quarta-feira do mês. Ilustração de Kelvin Koubik, colunista do NR, é artista visual e músico de Porto Alegre
Marcadores:
batucando,
Cultura,
cultura popular,
escola de samba,
homenagem,
kelvin Koubik,
Música,
paulinho da viola,
rio de janeiro,
samba
Assinar:
Postagens (Atom)



