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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Monarco, a memória viva da Portela
por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*
Hildemar Diniz recebeu o apelido que carregaria para o resto de sua vida aos 6 anos de idade. Vivia em Nova Iguaçu, que naquela época (final da década de 1930) estava mais para roça do que para subúrbio urbano. Certo dia, quando um amigo lia um gibi, em voz alta, para toda a turma, achou graça na parte da história que falava do “grande monarca”. Na sapecagem de criança, os amigos começaram, então, a lhe chamar de “Monarca”. Com o tempo, virou “Monarco”, nome com o qual o futuro portelense se tornaria conhecido.
Monarco celebrou, no último dia 17 de agosto, a chegada da 80ª primavera em sua vida e a festa de comemoração não poderia ser melhor. Na quadra de sua Escola de Samba do coração, o “Portelão”, cantou, sambou e festejou cada instante das oito décadas intensamente vividas, ao lado de amigos e familiares. Memória viva da Portela, Monarco, desde maio deste ano, é presidente de honra da agremiação, o que representa um sopro de esperança para uma legião de portelenses que, nas últimas décadas, viram interesses econômicos sobrepujarem toda uma tradição e uma história de cultura popular.
A chapa de oposição à antiga diretoria – que fez a Portela se acostumar a não mais brigar por títulos, sendo obscurecida por rivais menos tradicionais e com menos gabarito no quesito “samba” – venceu as eleições e pretende expurgar a conduta, nociva, de valorizar mais o aspecto financeiro ao cultural dentro de uma Escola de Samba. Apesar do jejum de 29 anos sem títulos, Portela ainda é a maior vencedora do Carnaval carioca. Nesta nova gestão, tão significativo quanto à presença de Monarco na composição da diretoria é o fato de o próprio presidente ser intimamente ligado à memória musical da Portela – Serginho Procópio, o novo mandatário, é cavaquinista da Velha Guarda, filho de um dos maiores instrumentistas que já passaram por lá, Osmar do Cavaco.
Sendo assim, a celebração de seu 80º aniversário foi, de fato, uma ode à Velha Portela. Estavam lá Waldir 59 – sócio número 1 da Escola –, Wilma Nascimento, Dodô, Noca, Cabelinho, Tia Surica, Tia Eunice, além de toda a Velha Guarda, incluindo seu padrinho, Paulinho da Viola. Familiares, como o filho Marquinhos Diniz e a neta Juliana Diniz, bem como amigos caros ao velho bamba, como as cantoras Cristina Buarque e Teresa Cristina, o veterano sambista mangueirense Nelson Sargento e o cartunista Lan também marcaram presença.
Aos 80, Monarco recebeu o cargo e o diploma de guardião da memória portelense, algo que sempre o fez, de maneira espontânea. Nesse contexto, os festejos terem sido realizados no “Portelão”, e não na “Portelinha”, primeira sede da escola, foi emblemático – a nova diretoria faz questão de fazer da sede oficial a casa da Velha Guarda, de modo a ressaltar a união entre a Escola de Samba, moderna, atual, inserida em um contexto de competitividade, e a memória musical desta mesma (a tradição), representada naqueles velhos bambas da Portela de outrora. A “Portelinha” foi casa da Velha Guarda durante os anos nebulosos da antiga administração. Assim, apesar de sua beleza, de seu significado e seu charme, ficou estigmatizada como o local onde se relegavam os “velhos”, que não poderia representar a Portela “oficial”, em detrimento do “novo”, moderno e mais adequado aos tempos atuais, esvaziado da tradição portelense.
Memória dos mais velhos,
legado para os mais novos
Monarco é a memória da Portela. Sempre foi. Agora, está oficialmente legitimado nessa função. Para os sambistas mais novos que se interessam pela bagagem cultural, pelo acervo valiosíssimo que faz da Portela uma Escola de Samba rica em tradição, o velho sambista também é a principal referência.
Sambistas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, desvinculados de uma trajetória feita dentro de Escolas de Samba – longe, inclusive, da Portela – celebram o compositor frequentemente, promovendo rodas de samba com o portelense e aprendendo antigos sambas – muitos, quase totalmente esquecidos –, de forma a recuperar e tirar do ostracismo verdadeiras pérolas do nosso cancioneiro.
Monarco é a pessoa certa para lembrar aquele samba inédito do Alvaiade, dos irmãos Andrade, a melodia do Quininho, a “segunda” que nunca foi gravada, o verso original do samba que fez sucesso, o samba de terreiro de Paulo da Portela que a Escola desfilou nos anos 30 etc. A facilidade para lembrar sambas compostos há mais de meio século é herança de outro grande sambista da Portela, parceiro de primeira hora de Monarco em tempos passados: Alcides, o Malandro Histórico.
Desde cedo, Monarco fez questão de se associar aos sambistas mais velhos da Portela, procurando adotar, inclusive, a mesma linha de composição dos veteranos. Entre seus parceiros na Escola, estão nomes como Manacéa, Francisco Santana, Mijinha, Antônio Caetano e Alvaiade, bem como o grande baluarte da escola, Paulo da Portela, com o qual fez uma série de parcerias póstumas, colocando “segundas” em sambas curtos criados pelo bamba.
Curiosamente, o compositor pouco se associou aos sambistas da sua mesma faixa etária, como Candeia (com ele, fez apenas um samba, o clássico “Portela é uma família reunida”), Casquinha e Picolino (conhecidos como a Turma do Muro), preferindo manter a tradicional linha de composição dos mais velhos - depois superada e modificada por esta nova geração, inclusive, nas disputas de samba enredo.
Velha guarda,
aos 37 anos
Foi pelo fato de manter esta linha e caminhar lado a lado com os sambistas que participaram da fundação da Portela e edificaram o estilo de composição portelense, que Monarco, aos 37 anos, foi convidado a integrar a primeira formação da Velha Guarda da Portela, em 1970, idealizada por Paulinho da Viola.
Dotado de voz potente, Monarco era presença marcante nas rodas de samba no terreiro da Portela, tirando da mente sambas das mais diversas procedências – inclusive seus -, cantados em uma afinação impecável. Assim, foi um dos selecionados para o registro pioneiro da Velha Guarda da Portela, tendo a honra de ter sua composição elevada a nome do disco: “Portela, Passado de Glória”. Trabalhando duro, como peixeiro, entretanto, o sambista não pôde comparecer no estúdio, no dia da gravação (não havia, à época, para cidadãos suburbanos pobres, a opção de querer, ou tentar, levar vida de “artista” – a necessidade falava mais alto).
Esta frustração foi dissipada nas gravações seguintes da Velha Guarda, já nos anos 80, quando Monarco foi intérprete de várias faixas, atuando ativamente, também, na elaboração do repertório, fruto de sua memória sagaz. Seu cantar, desde o primeiro registro, tornou-se evidente a beleza e a força. Tem “gogó” de sambista de terreiro, que canta alto para fazer-se ouvir em meio ao rufar de tamborins, pandeiros e cuícas. Lançou o primeiro disco solo em 1976, pela Continental, com capa ricamente ilustrada por Lan. Outros quatro viriam depois.
Um compositor
portelense
Como compositor, emplacou grandes sucessos. Sozinho ou com seus parceiros da Portela, teve registrado sambas por João Nogueira, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Clara Nunes, Paulinho da Viola, entre outros. Clássicos, como “Tudo menos amor” (com Walter Rosa), “Quitandeiro” (com Paulo da Portela) e “Lenço” (com Francisco Santana) foram fartamente executados em uma grande parcela de lares brasileiros, nos anos 70.
A partir dos anos 80, Monarco formou uma parceria com o compositor Ratinho que seria muito gravada por Zeca Pagodinho e resultaria em sucessos retumbantes (que ajudaram a melhorar a condição de vida do sambista), como “Coração em desalinho” e “Vai vadiar”. Além das dezenas de músicas gravadas, o compositor possui, ainda, uma série de inéditas – e, claro, traz na lembrança outras tantas composições de portelenses de outrora.
Por muito tempo, essa linha de sambas da Portela, bem como a própria tradição portelense perderam espaço. Nas rodas de samba poucos se lembravam dos sambas de terreiro dos compositores da antiga. Dentro da Escola então, nem se fala. Monarco se viu nesta aridez por muitos anos, muitas gestões. Agora, é chegada a hora da Águia da Portela voar, altaneira, novamente. No belo samba de Argemiro do Pandeiro e Francisco Santana, feito quando os títulos começaram a escassear, já há várias décadas, o estado de espírito dos portelenses era retratado nos seguintes versos: “Vitória para a Portela era banalidade, mas da vitória estou sentindo saudade”. Nos últimos anos, Monarco concordou, triste e resignado. Agora, porém, quer que as glórias do passado voltem a ser, novamente, doces trivialidades.
"Escute, na íntegra, o disco de estreia de Monarco, lançado pela Continental, em 1976"
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
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quarta-feira, 27 de março de 2013
Tia Ciata e as tias baianas...
Uma história da Pequena África carioca
por André Carvalho ilustração Kelvin koubik "Kino"*
Eram embarcações repletas de negros que aportavam no Rio de Janeiro. Porém, ao contrário daqueles tristes tempos em que os navios que lá chegavam eram negreiros, estes traziam a bandeira branca de Oxalá. Era o sinal para avisar que mais uma leva de baianos forros desembarcaria na Baía de Guanabara.
O destino principal era o bairro da Saúde, próximo ao cais, onde muitos ex-escravos tornariam-se estivadores. Morando em cortiços e em outras instalações coletivas, não demoraria muito para o grande volume de africanos e afrodescendentes incomodar a elite branca higienista. Então, no alvorecer do século XX, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, promove uma grande reforma urbana, demolindo as habitações onde os negros haviam se instalado, ao chegar da Bahia.
Retirados de lá à força, passariam a ocupar os morros próximos, dando início à criação das primeiras favelas. Outros se retiraram para o subúrbio, morando próximo às estações de trem que se espalhavam pela cidade. Muitos, porém, residiriam em um espaço que viria a ser conhecido por Pequena África – nome dado por Heitor dos Prazeres –, que partia das margens do Campo de Santana e se estendia até a Cidade Nova, terminando nos limites do bairro do Estácio de Sá. Era lá que ficava a Praça Onze de Junho, reduto de celebrações carnavalescas e local onde se estabeleceram as tias baianas, que fariam história com suas festas religiosas e pagãs, de candomblé e samba. Foi lá que brincaram, cantaram e criaram ricas páginas do nosso cancioneiro os integrantes da primeira geração do samba carioca.
Quituteiras, mães de santo, foram articuladoras de uma sociedade – que se valia do matriarcalismo, herança direta africana – configurada às margens da “civilização” proposta pelas elites. As tias baianas eram lideranças sociais de uma comunidade que buscava se afirmar em uma nova cidade, uma nova civilização e uma nova era, onde os ex-escravos almejavam, finalmente, uma integração social que lhes foi negada desde o dia em que desembarcaram dos navios negreiros no território brasileiro. Em suas casas, configuraram-se espaços de aconchego, participação, luta e festa.
Para aqueles que chegavam à Pequena África, a primeira parada era, ou na casa da Tia Sadata, ou na casa da Tia Davina, verdadeiras embaixadoras da comunidade negra baiana no Rio de Janeiro. Elas ajudavam os recém-chegados a encontrar moradia e trabalho, dando guarida a eles enquanto as oportunidades não apareciam. Havia muitas outras: Tia Perciliana (mãe de João da Baiana, que traz no nome a ligação a sua genitora), Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Celeste (mãe de Heitor dos Prazeres), Tia Bebiana (a passagem dos ranchos e dos cordões carnavalescos sob a janela de sua casa, na Praça Onze, era obrigatória), Tia Mônica, Tia Perpétua, Tia Veridiana, Tia Dadá (onde o compositor Caninha afirmava ter ouvido samba pela primeira vez).
Uma delas, no entanto, se destacou pelo grande poder de integração sociocultural, registrando o nome, para sempre, na história do samba: Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata. Nascida na capital baiana em 1854, migra para o Rio de Janeiro aos 22 anos de idade. Quituteira, monta seu tabuleiro na rua, mas é em sua casa que as coisas acontecem. O endereço, que depois entraria para história da música popular brasileira, é Rua Visconde de Itaúna, 177, Praça Onze, “Pequena África”, Rio de Janeiro.
Iniciada no candomblé no terreiro de João Abalá, Tia Ciata torna-se Iyá Kekerê, Mãe-Pequena, adquirindo, assim, grande respeito e influência na comunidade baiana local. Em sua casa, os cultos misturavam-se com as festas profanas. Também ali, era um espaço comunitário de trabalho. Os quitutes e doces, primeiramente oferecidos aos orixás, eram vendidos para fora. Tia Ciata também era exímia costureira e fabricava fantasias que as elites da Zona Sul alugavam para brincar o carnaval.
Casada com João Batista da Silva, consegue para ele um emprego de funcionário público de forma um tanto inusitada: curou uma doença grave na perna do então Presidente da República Wenceslau Brás, fazendo um trabalho a base de ervas e reza. A recompensa foi um cargo no gabinete de chefe de polícia para seu marido.
Muito por conta do cargo de João Batista, as constantes batidas policiais, que afligiam a vida dos negros, que sequer podiam se reunir para praticar os cultos e cantar o samba, passavam ao largo daquele espaço de celebração negra. As festas na casa da Tia Ciata duravam três dias. As panelas, sempre cheias, eram constantemente requentadas. A música envolvia a todos e, em cada espaço da casa, um ritmo predominava, obedecendo a uma reprodução sociocultural dos participantes das festas.
Na sala de estar, os mais velhos e bem-sucedidos praticavam o partido alto e o choro. O samba corrido, tocado pelos mais jovens, tinha espaço na sala de jantar, ao passo que a capoeira e a pernada ocorriam nas rodas de batucada no terreiro do quintal.
Eram bambas aqueles que frequentavam o local: Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Caninha, Sinhô, Marinho que Toca (pai de Getulio Marinho), João da Mata, Didi da Gracinda, Hilário, João Cancio, Getúlio da Praia, Oscar Maia, Alfredinho, Tisco, Germano e Getúlio Marinho batiam cartão por lá. Os “distintos” Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Mauro de Almeida e João do Rio também não perdiam as grandiosas festas que ocorriam ali.
Destes encontros musicais, nasceu o samba Pelo Telefone, o primeiro gravado sob o nome de samba na incipiente fonografia brasileira. Criado de forma coletiva, a música foi registrada, ardilosamente, pelo sambista Ernesto dos Santos, o Donga, como único autor – ele recolheu os estribilhos, adaptou e inseriu a letra de Mauro de Almeida na composição (que apareceu como parceiro nas gravações posteriores), uma das mais emblemáticas da história de nossa música.
A polêmica sobre a real autoria da composição rendeu debates acirrados, paródias e sérias acusações. Fato é que a música segue popular quase cem anos após a sua criação. Em 1924, Dona Hilária Batista de Almeida, a Ciata de Oxum, parte para o Reino de Aruanda. Não se escutariam mais os pandeiros, cavacos, violões e atabaques naquele logradouro histórico. Pouco depois, uma nova geração, baseada no bairro do Estácio de Sá, revolucionaria a música popular urbana carioca, dando nova roupagem ao ritmo nascente que seria batizado como samba. Era a segunda geração de sambistas do Rio, cujos principais nomes seriam Bide, Baiaco, Mano Rubens, Mano Edgar, Marcelino, Ismael Silva, Nilton Bastos, entre outros “valentes”. Mas isto é história para outra crônica.
Escute três versões de "Pelo Telefone". A primeira versão com letra, de 1917 (interpretada por Bahiano), a gravação de Zé da Zilda (de 1938) e, finalmente, o registro de Martinho da Vila, de 1973" Para saber mais, acesse a bibliografia que preparamos para você.
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
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