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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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domingo, 10 de agosto de 2014

As crianças migrantes centro-americanas estão no limbo


Ao cruzar a fronteira entre os Estados Unidos e o México, aproximadamente 60 mil crianças provenientes da América Central foram detidas desde outubro de 2013 até junho desse ano. Essa situação reacendeu o debate sobre as políticas migratórias dos Estados Unidos, onde 11 milhões de migrantes indocumentados são altamente vulneráveis ao abuso dos seus direitos básicos que são garantidos pelas leis do país e pela legislação internacional.


por Aleksander Aguilar*

Já são 60 mil em menos de um ano. Uma grande quantidade de crianças de idades tão tenras quanto cinco anos. Elas viajam a partir de atravessadores (coyotes) até quatro mil km em lanchas, a pé, clandestinamente em trens de carga e ônibus, passando fome e enfrentando assédio, violência, assaltos, e inclusive o risco de sequestro de máfias narcotraficantes que os infligem cirurgias clandestinas de extração de seus órgãos para a venda.

Não estamos falando, pese que a intensidade do relato assim o faça soar, de algum roteiro hollywoodiano de imaginação fértil. Tampouco de distantes rincões na Síria ou em Gaza e dos refugiados de suas atuais guerras. Enquanto assiste-se estarrecido a absurda violência de Israel sobre a Palestina, o Brasil e grande parte do planeta ainda percebe pouco e ignora muito uma outra realidade, regional, dramática e nefanda, que se dá no nosso continente. Ela se inicia bem ali, logo acima da Venezuela, nesta região latino-americana que infelizmente para a maioria dos brasileiros ainda soa tão exótica quanto a longínqua região do Oriente Médio – a América Central. E conforma um contexto em que se misturam violência social, segurança regional e narcotráfico internacional.

A atual crise das crianças migrantes centro-americanas evidencia não apenas um grave problema migratório, mas revela a avassaladora situação de precariedade socioeconômica em que se encontra a América Central, principalmente nos países do chamado Triangulo Norte do istmo – El Salvador, Guatemala e Honduras. Desde essas nações, que estão entre as mais vulneráveis do continente, essa multidão de crianças atravessa todo o México até encontrar o “muro da vergonha”, que separa a América Latina dos Estados Unidos, onde se encontrarão com um limbo migratório: nem podem permanecer, nem podem serem enviadas de volta.

O drama social é evidente, e revela a desumanidade do nosso sistema internacional estatal – nem os Estados de origens dessas crianças, nem o Estado de destino as desejam. Não há um território que busque a realização dos seus direitos e as crianças migrantes centro-americanos transformaram-se em relegados sociais internacionais.

Uma verdadeira emergência humanitária que tem como uma de suas principais causas o corrente modelo econômico, característico da atual América Central, de dependência crônica das remessas – o dinheiro que os imigrantes, legais ou ilegais, centro-americanos que vivem na América do Norte enviam para os seus parentes nos países de origem – e é responsável, em larga medida, por manter a economia do istmo girando. Nos últimos 20 anos os centro-americanos enviaram aos seus países valores em remessas que alcançam 120 bilhões de dólares. Isso criou na região uma economia de consumo financiada artificialmente, e em que os lucros acabam concentrados nas mãos das oligarquias tradicionalmente dominantes, já que são os ricos que controlam os espaços de bens de consumo. Tal concentração, por sua vez, aumenta a desigualdade social que, como sabemos, também faz aumentar a violência. O desemprego crônico gera a migração massiva e investimentos produtivos são feitos em outros países, mesmo nos da região, melhor estruturados, como Costa Rica e Panamá. Assim exportar pobres se converte num negócio mais lucrativo do que buscar reduzir a imigração com tentativas de construção de uma matriz produtiva sólida.

O fator “maras” centro-americanas

É uma sequência perversa, e que relaciona migração com violência. Mas a situação econômica não totaliza a explicação. A Nicarágua tem uma economia talvez ainda mais vulnerável, mas suas crianças não fazem parte desta crise.

Porque entre essas pontas há o fator “maras”, as famosas gangues centro-americanas, que estão centradas no Triângulo Norte, e não no país Sandinista, que tem números de violência muito menores que os dos seus vizinhos. As gangues, ou no espanhol “pandillas”, é um fenômeno resultante do grande número de famílias fragmentadas, consequência direta das guerras civis que convulsionaram a América Central entre os anos 1960 e 1990, e da degeneração do tecido social familiar e comunitário que a migração produz. Milhares de centro-americanos da diáspora dessas guerras foram deportados pelo governo Bush (pai) a partir dos anos 1990.

Em terreno fértil para a violência, como são os territórios socialmente precários centro-americanos, e sem expectativas de bem-estar via “sistema”, consolidou-se dois grupos poderosos e rivais: a Mara Salvatrucha 13 e Pandilla Barrio 18, hoje consideradas duas das maiores gangues do mundo.

Muitas escolas públicas de bairros periféricos de Guatemala, El Salvador e Honduras, em lugar de proporcionar segurança e oportunidade para a juventude local, tornam-se espaços de recrutamento das pandillas. Os jovens que se negam são ameaçados e muitos assassinados, e a migração começa por aí – esses cidadãos sem segurança mínima nos seus próprios países são obrigados a sair de casa para não serem obrigados a se unir às gangues, e o caminho natural é a rota ao Norte. As maras dominam bairros inteiros e afetam diretamente a vida dos mais pobres, cobrando extorsão desde a entrada de transporte público em seus territórios até a entrega de jornal nessas áreas que comandam. Essas pandillas estão presentes nos três países e associadas em redes transnacionais. A perseguição de gangues e o recrutamento começaram a se impor como principais motivadores da fuga para os Estados Unidos.

A migração centro-americana hoje é uma catástrofe social para os pobres e um grande negócio para os ricos.

Dinheiro estadunidense resolve?

Os presidentes dos países do Triângulo Norte centro-americano, em reunião com Obama em Washington em julho deste ano, apontam parte da culpa nos Estados Unidos e utilizam a crise para solicitar mais investimento em segurança regional por parte do país, baseado no que foi o Plano Colômbia e na Iniciativa Mérida (para o México) mas há poucos indícios de que norte-americanos se dediquem a ações de mesma dimensão.

Os líderes da América Central argumentam que esses planos – essencialmente polêmicos programas de combate ao narcotráfico de bilhões de dólares financiados pelos Estados Unidos – foram exitosos nas regiões ondem foram implementados, mas empurraram o tráfico internacional para a América Central. Tal sucesso, porém, é tema de grande controvérsia, pois seus resultados positivos são parciais, frágeis e acompanhados de um inaceitavelmente alto custo humano, com dezenas de milhares de mortes associadas, cuja principal lição deveria ser a de não se tornar modelo para coisa alguma.

O governo Obama, na verdade, possui desde 2009 uma iniciativa especifica para a América Central com objetivo semelhante ao Colômbia e Mérida (chamado CARSI, na sigla em inglês), mas os impactos foram mínimos, pois sua alocação de recursos para os centro-americanos até agora foi de 642 milhões de dólares – um valor irrisório quando se pensa nos 90 bilhões de dólares que os Estados Unidos investiram em segurança fronteiriça repressiva nos últimos dez anos.

“Pobreza não garante status de refugiado”

Atualmente, as crianças migrantes centro-americanas que chegam aos muros do “mundo livre” são detidas na patrulha de fronteira dos Estados Unidos e em até 72 horas são deslocadas para albergues onde recebem cuidados médicos e psicológicos e assessoria jurídica. Devem então esperar que seu caso seja julgado por um tribunal, o que pode levar meses.

Essa situação reacendeu o debate sobre as políticas migratórias dos Estados Unidos, onde 11 milhões de migrantes indocumentados são altamente vulneráveis ao abuso dos seus direitos básicos que são garantidos pelas leis do país e pela legislação internacional. Uma significativa reforma migratória nos Estados Unidos é parte da solução, de forma a respeitar famílias, proteger direitos laborais dos migrantes, e garantir o acesso ao processo legal.

Como lembra a internacionalista Juliana Vitorino, nesse cenário, “o governo dos EUA não é isento de culpa, já que foi, ele mesmo, promotor de desestabilizações políticas, ingerências, financiador de guerras civis na América Central, além de ter transplantado e piorado o problema da violência do pós-guerra com a deportação de membros de gangues para El Salvador, Guatemala e Honduras, países onde nasceram esses novos migrantes indesejáveis”.

Entre as razões dessa cumplicidade dos Estados Unidos às condições que forçam a migração centro-americana estão o apoio histórico às ditaduras militares e regimes de violência na região, a promoção de acordos de livre comércio e políticas econômicas que arrasam a agricultura familiar e degradam os serviços públicos, e a adoção de políticas migratórias cada vez mais duras, que separam famílias com acirrada deportação.

Mas enquanto os presidentes centro-americanos buscam receber mais ajuda financeira dos Estados Unidos para manejar a crise, o governo norte-americano demonstra que sua resposta à questão descansa em outras prioridades. A melhor solução para o governo Obama é retirar o problema da sua porta o mais breve possível. E assim a primeira medida do presidente estadunidense diante da crise foi solicitar recursos especiais ao Congresso de 3.700 bilhões de dólares para mitigar a crise, aumentando o número de agentes de fronteira e de juízes migratórios. Obama deixou claro que sua intenção é repatriar as crianças que chegam aos Estados Unidos porque, em suas palavras, “o status de refugiado não é outorgado a alguém apenas porque sua família vive em uma região ruim ou em pobreza”.

A estimativa é de que até o final de 2014 o número de crianças centro-americanas que chegarão à fronteira dos Estados Unidos alcance as 90 mil.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e editor do projeto-blog O ISTMO - rede de analistas de temas centro-americanos, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não se pode deixar de ver

por Celso Vicenzi*

As imagens que chegam da Faixa de Gaza, bombardeada por Israel, com muitas vítimas entre crianças, mulheres e idosos, circulam como um grito impotente pelas redes sociais. Impossível manter-se impassível diante do uso desproporcional da força por parte do governo israelense. Tenho feito circular artigos e reportagens que falam dos abusos que ali são cometidos. Evito publicar imagens, mas compartilhei uma delas, recentemente, com várias crianças palestinas mortas, amontoadas, porque são o retrato cruel de como o terrorismo de estado pouco se diferencia do terrorismo de grupos que usam a população civil como alvo. Sob o pretexto de buscar alvos militares, contam-se às centenas os “efeitos colaterais” que vitimam pessoas inocentes.

Tão logo publiquei a foto, surgiu um debate sobre o que é ou não “sensacionalismo”. A cena é forte, sim, mas há situações que não podemos deixar de ver. Mais que isso: temos a obrigação de olhar, com muita dor e indignação. Afinal, quantos civis ainda precisam ser mortos – e já são mais de mil, além de milhares de feridos – para configurar um massacre? Os álibis do governo israelense e de seus apoiadores são insustentáveis, embora a mídia de vários países ocidentais – o Brasil não é exceção – não cansa de tentar legitimar.

O jornalismo deve poupar o cidadão – regra geral – de cenas violentas e desnecessárias. Mas há exceções, porque a instantaneidade de uma imagem é fundamental para traduzir algumas tragédias humanas. O bombardeio dos Estados Unidos na Guerra do Iraque, a primeira que assistimos ao vivo, com cenas aéreas das cortinas de fogo que se levantavam ao céu, sobretudo à noite, mais parecia um videogame high tech. A brutalidade, a essa distância, sem a visão de mutilações e mortes, tem menos chance de emocionar a opinião pública. Houve um enorme esforço das forças norte-americanas para impedir ao máximo o acesso dos jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas ao campo de batalha. Até a linguagem tornou-se asséptica. Falava-se em “ataques cirúrgicos”.

O massacre que vem sendo perpetrado pela máquina de guerra de Israel contra a população civil palestina tem gerado muitas imagens brutais. Num mundo povoado por câmeras e quase anestesiado diante de tantos horrores de guerras, essas imagens ainda impactam as consciências de quem se nega a ser apenas testemunha de mais uma atrocidade.

Os Estados Unidos começaram a perder a Guerra do Vietnã quando pacatos cidadãos estadunidenses tomaram conhecimento do que seus concidadãos faziam em terras distantes. A chacina só começou a ter fim depois que, durante os telejornais, o sangue espirrou nas mesas de refeições de milhões de cidadãos em todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos.

Não sou voyeur da crueldade humana, nem tampouco cego para a dor dos que imploram por socorro ou dos que morrem à míngua por injustiças em algum lugar do planeta. Foram as fotos de Don McCulinn, o primeiro fotógrafo a registrar a fome em Biafra, em 1969, que acordaram o mundo para uma catástrofe que precisava do apoio de outras nações. Não há como esquecer a imagem da menina Kim Phuc, correndo nua, gritando de dor com o corpo queimado pelas bombas de napalm, numa estrada perto de Trang Bang, no sul do Vietnã. Ou a execução, a sangue frio, com um tiro na cabeça, em plena rua de Saigon, de um vietcong – registro feito pelo fotógrafo Eddie Adams, em 1968.

Não há por que confundir. Sensacionalismo é a “exploração de notícias com o objetivo de causar sensação ou escândalo”. Ao exibir algumas cenas dantescas (como as valas com corpos de judeus mortos em campos de concentração nazista), o objetivo não é causar sensação. Primeiramente, é certo que causa indignação. Mas é também registro que permanece para que se possa tentar compreender, de alguma forma, o que e por que aconteceu. É também o testemunho para pôr no banco dos réus os responsáveis. São imagens que precisam fazer parte do “currículo” da espécie humana. Servem para lembrar-nos do quanto podemos ser ferozes e – paradoxalmente – inumanos em certas circunstâncias.

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado testemunhou, com sua câmera, muito sofrimento, ódio e violência. E aos críticos, que não veem sentido em registrar a desgraça humana, respondeu: “Este é o nosso mundo, precisamos assumi-lo. Não são os fotógrafos que criam as catástrofes, elas são os sintomas da disfunção do mundo do qual todos participamos. Os fotógrafos existem para servir de espelho, como os jornalistas. E não venham me falar de voyeurismo! Voyeurs foram os políticos que deixaram as coisas acontecerem e os militares que facilitaram a repressão.” O comentário era sobre Ruanda, palco de um genocídio em 1994, mas vale para qualquer situação. O relato está no livro Sebastião Salgado – da minha terra à Terra, (entrevista à amiga Isabelle Francq, editora Paralela), no qual ele também afirma: “Ninguém tem o direito de se proteger das tragédias de seu tempo, porque somos todos responsáveis, de certo modo, pelo que acontece na sociedade em que escolhemos viver.” No caso presente dos ataques de Israel, é evidente a brutalidade e a insensatez de uma ideologia política e religiosa sustentada, principalmente, pelos Estados Unidos, uma das nações que mais se envolve em ações violentas por todo o planeta.

Infelizmente, pela lógica do capital e da guerra (as duas coisas costumam andar juntas), seres humanos de determinadas etnias ou nações são atacados e exterminados em nome de vários interesses. O Estado de Israel tem incorporado e ocupado territórios palestinos pela força e mantido a população sob permanente estado de terror. A qualquer momento sente-se legitimado a usar a força de maneira desproporcional. E controla quase tudo que pode ou não se pode fazer.

Não estivesse sob a proteção dos Estados Unidos e das principais nações do Ocidente, seus líderes já estariam sentados em um tribunal para responder por crimes de guerra. A certeza da impunidade, no entanto, só amplia os abusos contra os Direitos Humanos.

O Estado de Israel tem o direito de se defender, mas não o de perpetrar massacres. Tem o direito de lutar contra inimigos que tentam golpeá-lo, mas não pode atacar alvos civis e matar mulheres, crianças e idosos. Palestinos têm o direito a ter de volta suas terras ocupadas por Israel. Palestinos têm direito a ter um Estado, conforme a Resolução 181 da ONU, que data de 1947 e jamais foi cumprida – em boa parte, pela intransigência israelita.

O século 20 presenciou, além de duas guerras mundiais, vários crimes de guerra em acertos de contas regionais que escandalizaram o mundo. Prova de que somos animais de uma ferocidade jamais vista anteriormente sobre a face da Terra e, por isso mesmo, a única espécie capaz de destruir milhares de outras espécies e de ameaçar a sua própria existência.

Diante da brutalidade que se verifica em Gaza, golpeada por milhares de mísseis a estraçalhar corpos humanos inocentes, não é justo que o horror se esconda por trás de uma linguagem diplomática, utilizada diariamente pela mídia para encobrir crimes de guerra. Não é justo pedir que tenhamos bons modos diante do terror. A violência cega. Por isso, mais do que nunca, é preciso ter olhos para ver. E dizer não à barbárie.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Valparaíso não merece


por Júnia Puglia      ilustração Fernando Vianna*

A ideia era passar dois ou três dias em Pucón por minha própria conta, mas acabei desistindo devido à chuva incessante que cai no sul do Chile. Decidi, então, conhecer Vaparaíso e Viña del Mar, onde, apesar das várias visitas anteriores ao país, ainda não havia chegado. É que eu vinha sempre a trabalho, na correria. Agora chego como uma turista à toa, tão à toa que decido entrar num tour de um dia, a bordo de uma van. (Desnecessário mencionar que sete dos dez passageiros são brasileños, incluindo o casal “japonês”.)

Valparaíso é o porto marítimo mais importante do Chile. Já teve seus dias de maior glória, pelo salitre, pelo cobre e por ter sido escala obrigatória dos navios que saíam de Nova York e outros portos espalhados pelo mundo, levando todo tipo de aventureiro para a corrida do ouro na Califórnia. Imagine que, para ir da costa leste à costa oeste dos Estados Unidos, a pessoa tinha que fazer a volta do continente americano, passando do Atlântico ao Pacífico pelas águas turbulentas do Cabo Horn, e parar no porto chileno para descansar e reabastecer o navio. Veio gente do mundo inteiro, no ritmo do frisson global retratado em muitos livros e filmes. A inauguração do Canal do Panamá, em 1914, acabou com o intenso tráfego de passageiros, mas, felizmente, as marcas dessa gente toda que passou por aqui já estavam impressas na cidade.

Nada pesquisado no Google, mas relatado pelo nosso compenetrado guia, à medida que nos aproximávamos da cidade. Num estalo, lembrei-me de já ter lido sobre isto, há muito tempo, num livro de Isabel Allende, “Retrato em sépia”, ambientado nessa Valparaíso da corrida do ouro, e que estava perdido no sétimo cérebro. É bom sentir que a memória ainda é minha amiga. Instantaneamente, voltou-me o clima do porto coalhado de desconhecidos mal encarados, hotéis sórdidos, bordéis, contrabandistas, pintores, poetas, escritores, bêbados, estivadores, falsários e piratas. O que vi hoje é ladeado por autopistas modernas e abriga uns navios grandões, sobre os quais se encaixam gruas, como num jogo de Lego em tamanho gigante.

Um emaranhado de ruas, ruelas, planos inclinados, praças, edifícios e casas de todo jeito acompanha o sobe e desce das dezenas de morros que compõem a cidade, misturando estilos e épocas até não poder mais, vigiados pela bruma estacionada sobre o Pacífico. Fiquei com uma vontade danada de me enfiar por aqueles labirintos, onde, tenho certeza, encontraria coisas do arco da velha. Já aprendi que muitas cidades são senhoras discretas, só revelam seus segredos a quem os procura. Mas essa vida de turista programada não permite improvisar, então me submeto aos desígnios do tour, volto para a van e vou ver o relógio de flores e o moai de Viña del Mar.

Diga-se de passagem, em momento algum avistamos qualquer vestígio do terrível incêndio que há poucas semanas consumiu mais de três mil casas aqui. Dizem que foi num ponto voltado para outro lado, aonde a nossa correria não permite chegar.

Dá para notar rapidinho que Viña está para Valparaíso como a Barra para o Rio, ou seja, é um lugar construído para acolher os ricos que não queriam mais conviver com o furdunço ao lado, só que em escala bem menor, e o mesmo espírito de Miami.

Você não merece esta visita ridícula, Valparaíso. Prometo voltar e te fazer justiça.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Eleições 2014 na América Central: o que está em jogo

por Aleksander Aguilar*

Amanhã (2 de fevereiro) é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.

De forma geral veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.

Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos em tese com o social.

Na década de 90 as forças políticas ligadas a esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.

Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, aliás, também em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais a pouco estabelecidas.

Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE dos Zelaya rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influi nos rumos do governo. Na Nicaragua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E na Costa Rica a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.

O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão de estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.

Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de “cambio” proposto por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam. O atual candidato da FMLN, Salvador Sanchez Ceren, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.

Na Costa Rica as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional, e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio, e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.

O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites, e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O lugar que não existe


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

 Onde a civilização indígena se encontra intensamente com a latinidade, ao som dos trompetes onipresentes e das vozes onduladas de dezenas de grupos de mariachis. Um mar de barquinhos de madeira em cores berrantes, todos com nome de mulher. Lupitas, Carmelitas e Brendas em profusão, causando um engarrafamento dos mais divertidos, onde passam cozinhas flutuantes vendendo moles, tacos, quesadillas e salsas picantes à escolha do freguês. Mais brega impossível. Teimando em desafiar o inverno mexicano, o sol aquece ainda mais os nossos corações nesse incrível Xochimilco (pronuncia-se "Sotchimilco"), um lugar que não existe. Domingão que festejamos sem pudor, fascinados com as festas de aniversário, famílias com crianças e velhos, e até mesmo um grupo de judeus sisudos de cabeça coberta e senhoras comportadas, todos falando ao celular no meio daquele furdunço.

‏Outro ponto obrigatório é o mercado de San Angel, não só pela riqueza e sofisticação do artesanato, mas também pelo lindo bairro onde funciona, todos os sábados do ano. Quem sabe mais quemos mexicanos sobre as cores e seus poderes? Onde mais poderíamos encontrar máscaras de super heróis para adultos, com variedade e qualidade únicas? Sem falar nas caveiras, de todos os materiais, tamanhos e cores - e muito mais.

‏Mas uma megalópole de verdade tem seus infernos. Um que nos salta aos olhos e aos ouvidos aqui é o tráfego. Numa só palavra, insuportável. Mesmo assim, chama-nos a atenção a quantidade de mexicanos circulando nos locais de turismo, como quem diz "podem vir, amigos, entrem, visitem, aproveitem, a casa é nossa e nos orgulhamos muito dela".

‏Este detalhe surge na conversa que rola à mesa do jantar, sortudos que somos de estar, mais do que hospedados, acolhidos numa casa mexicana. Nossa adorável hospedeira nos situa, então, brevemente, na história do seu país, principalmente naqueles aspectos que mais orgulho lhe dão: o da identidade nacional tão apreciada por eles mesmos e o da calidez, da abertura para receber gente de todos os lugares, principalmente os perseguidos, os indesejáveis, os banidos.

‏Alguém ainda duvida de que depois da segunda garrafa de vinho as pessoas ficam mais inteligentes, espirituosas e conversadeiras? Corações e mentes amolecidos, somos conduzidos numa fascinante visita aos tantos episódios em que os mexicanos abriram espaço para acolher Alexandra Kollontai (feminista russa de cem anos atrás), Leon Trotsky, Gabriel García Marquez, Chavela Vargas, Juan Gelman e muitos outros. Como não se orgulhar? Um terceiro brinde, por favor. Viva o México!

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Mongolia: contra a crise na Espanha, o humor


É a receita de Mongolia, uma revista mensal que, com pouco mais de um ano de existência, tem como alvos privilegiados de seus ataques ferinos a monarquia e a Igreja, baluartes do conservadorismo espanhol

por Ricardo Viel, de Madri 
(o texto publicado é da Revista Retrato do Brasil, edição 71, junho de 2013, fruto de parceria mensal com o NR)
Em um pequeno povoado das Astúrias, no norte da Espanha, numa manhã de fevereiro, um senhor pregou no quadro de avisos da paróquia uma nota de falecimento. Nada de incomum por aquelas bandas, não fosse o fato de o anúncio tratar-se, em realidade, da capa de uma revista humorística e de o morto ser o primeiro-ministro espanhol, o direitista Mariano Rajoy. Em letras garrafais, a edição da Mongolia daquele mês informava algo de que muitos espanhóis desconfiavam: “Rajoy morreu”.

“Isso, de um senhorzinho avisar seus vizinhos de que esse governo está morto, é algo que, se fôssemos uma revista virtual, nunca aconteceria”, explica Eduardo Galán, 33 anos, um dos fundadores da revista mensal criada há pouco mais de um ano. “O papel é algo que tem mais impacto, nossa capa fica exposta nas bancas e instiga as pessoas a lerem a mensagem.” A ideia de “matar” o primeiro-ministro surgiu em janeiro passado, após a revelação de um escândalo envolvendo o financiamento irregular das campanhas do Partido Popular (PP), atualmente no poder. Rajoy demorou dias para dar explicações e, quando o fez, não convenceu. “Dizíamos entre nós: esse governo está morto, cheira como cadáver”, diz Galán. “Também fizemos uma brincadeira com o [diário espanhol] El País, que dias antes tinha publicado uma foto falsa do Hugo Chávez, sem apurar as circunstâncias. Fizemos igual: anunciamos a morte e esclarecemos que não sabíamos como nem quando tinha acontecido.”

Por provocações como essas, a publicação satírica vem conquistando fãs e desafetos no país de Cervantes. A revista é fruto do momento político e econômico pelo qual passa a Espanha. Foi criada por um grupo formado por cinco amigos – jornalistas, artistas gráficos e cartunistas –, que se viram desempregados ou subempregados por conta do “enxugamento” de vários meios de comunicação (e o fechamento de outros). A eles se juntou um advogado, espécie de mentor da trupe. Reuniram-se, conseguiram convencer três dezenas de conhecidos a bancarem, como acionistas, o projeto de 60 mil euros (cerca de 150 mil reais) e colocaram em marcha uma revista que mistura humor e jornalismo. Em meio à crise e utilizando uma plataforma considerada obsoleta por muitos (o velho papel), Mongolia parecia fadada ao fracasso. Não foi assim. A revista (que custa 3 euros por exemplar, cerca de 8 reais) teve uma tiragem inicial de 25 mil exemplares mensais e atualmente circula com cerca de 40 mil. O número de assinantes é crescente (hoje, beira os 2 mil) e em um ano o grupo lançou cinco livros relacionados com a publicação. Iniciaram a aventura com dinheiro suficiente para manterem-se por seis meses e hoje já não cogitam a possibilidade de fechar por falta de recursos – nem por outro motivo.

“Sentíamos que havia um espaço para uma publicação assim”, diz o argentino Fernando Rapa, 42 anos, responsável pela parte gráfica do projeto. “Ficamos 18 meses planejando, fizemos vários números experimentais e tínhamos medo de que alguém fizesse antes que nós.” Do Brasil, onde trabalhou em veículos como os diários Lance! e O Estado de S. Paulo, o desenhista trouxe algumas influências, como do Casseta & Planeta (da fase inicial, esclarece) e, principalmente, de O Pasquim. Também tem como espelho revistas satíricas francesas e argentinas e algumas publicações nascidas na Espanha no período posterior ao da ditadura de Francisco Franco (1938–1973) e que não existem mais.

Longe de ser um obstáculo, o momento atual se apresenta estimulante, dizem os criadores de Mongolia. Na década passada, época de bonança, em que todos os espanhóis acreditavam ser ricos (por conta dos empréstimos que os bancos ofereciam), não havia espaço para a contestação no país. O humor se afastou da crítica social. De repente, a bolha imobiliária estourou e a mensagem de que na Espanha não havia pobreza se esfumou. Vieram os protestos de rua e abriu-se espaço para o surgimento de uma revista que, com humor, coloca o dedo na ferida, diagnosticam os criadores de Mongolia. O fechamento, em 2007, do diário Público, o mais à esquerda que havia na Espanha e que agora mantém somente a versão on-line, foi a gota que fez transbordar o copo, avalia Rapa, ex-funcionário do jornal. “Os meios de comunicação tradicionais não atenderam a essa demanda que está nas ruas. Queríamos preencher esse espaço. Herdamos muitos leitores do Público, mas não só isso. Espanta-nos ver que nosso leitor é variado. Às vezes recebemos cartas escritas à mão, há muita gente idosa que nos lê.”

Mongolia tem uma política própria em relação ao conteúdo que produz. Nada do que é publicado em papel é disponibilizado virtualmente – a revista vive das vendas em bancas e das assinaturas e tem uma estrutura muito enxuta. Além disso, a ausência de publicidade (há pouquíssimos anúncios, todos ocupam pouco espaço e são, portanto, baratos) garante a independência necessária para atacar quem quer que seja. “Não somos contra a publicidade, só não aceitaríamos anúncios de bancos. E de prostituição, mas, nesse caso, enquanto for ilegal. A questão é que não podemos nos condicionar a isso”, diz Galán, o responsável, entre outras tarefas, pela divulgação da revista nas redes socais da internet. Embora aposte no papel, Mongolia tem mais de 80 mil seguidores no Twitter e 20 mil no Facebook. Algumas das brincadeiras feitas no mundo virtual acabam chegando à edição impressa. A internet também serve para medir o interesse dos leitores por certos assuntos e divulgar os muitos eventos que realizam – debates, viagens pelo país para promover a publicação, etc.

Para reduzir o custo e manter a independência, os fundadores da revista resolveram eliminar todos os intermediários possíveis. A cada edição, eles vão à gráfica, carregam os próprios carros com os exemplares impressos e os distribuem em Madri e arredores. O restante da tiragem é enviado por correio aos assinantes e distribuidores (como livrarias e bares) em outras cidades.

A primeira edição da revista, publicada em março do ano passado, trazia na capa a frase: “A Espanha tem uma saída (Barajas)”. Barajas é o aeroporto da capital espanhola, e a piada fazia referência à fuga, principalmente de jovens, em busca de trabalho em outros países – o desemprego na Espanha atingiu 27% da população economicamente ativa no final do primeiro trimestre, mas entre os jovens a taxa foi muito maior, 57%. No número seguinte, o alvo foi a monarquia: “O rei poderia estuprar você e nada aconteceria com ele”. A publicação listou cem coisas que o monarca espanhol, por ser, de acordo com a Constituição, uma figura “inimputável”, pode fazer e os demais mortais, não, como baixar filmes piratas na internet, fazer xixi na rua, etc. As edições seguintes foram “dedicadas” à Igreja, aos políticos, banqueiros e, em especial, à Casa Real.

A revista funciona numa sala minúscula, sem banheiro próprio, próxima à sede do Congresso dos Deputados (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira), em Madri. O lugar é sublocado. Até as seis da tarde, ali funciona uma empresa de criação gráfica; depois, a Mongolia. O espaço é usado, sobretudo, na semana de fechamento da edição. No restante do tempo, cada um dos membros da equipe trabalha em sua própria casa. No final de fevereiro, eles preparavam a edição que teve na capa a foto do rei Juan Carlos com um tomate espatifado na cara. “Não tenho dúvida de que graficamente é nosso melhor trabalho”, diz, sem disfarçar o orgulho, o humorista e roteirista Darío Adanti, 37 anos, outro argentino. No mês passado, a Casa Real foi novamente o alvo principal da publicação. Num truque gráfico, que combinava letras em tamanhos muito diferentes colocadas sobre a foto da filha do rei, a infanta Cristina – que está sendo investigada pelo suposto enriquecimento ilícito de seu marido –, lia-se em letras enormes: hija de puta. Uma fonte minúscula preenchia os espaços e a frase que se formava, quase imperceptível, era: “Filha dos reis da Espanha é imputada” (denunciada).

Os ataques à família real foram vários, mas foi contra os católicos radicais a principal briga. Por alterar a imagem “oficial” da Virgem de Macarena (padroeira de Sevilha) em um panfleto de divulgação da revista na cidade, o grupo foi atacado pelo prefeito e sofreu ameaças de morte. “O que não sabíamos era que a imagem da virgem tem copyright”, diz Eduardo Bravo. “Ou seja, por qualquer santinho que você queira fazer tem que pagar direitos autorais. Esses caras da Igreja vão direto pro inferno, serão os primeiros. Jesus Cristo falou dos mercadores, não foi? Esses aí podem rezar quanto quiseram que vão queimar”, se diverte o espanhol. “Disseram que iam fazer com a gente o que se fez na Guerra Civil [1936–1939], que iam nos matar e que ninguém ia encontrar nossos corpos. Há gente doente da cabeça, que precisa ir ao médico. Dizer que uma imagem de madeira é a mãe deles...”, diz Galán. “Só se fossem filhos do Pinóquio”, completa Bravo, recebendo os cumprimentos do xará, que gargalha com o comentário.

Assim trabalha a equipe de Mongolia. Ideias e piadas surgem a qualquer momento, em qualquer lugar: durante jantares, no táxi indo para um show, no bar tomando cervejas ou durante uma entrevista. Ainda que recheada de piadas inocentes ou sem maior objetivo do que provocar o riso, Mongolia é uma publicação que tem como principal marca a contestação, a crítica e a denúncia. Por trás do lema “Uma revista sem mensagem nenhuma”, há uma ideologia clara: a equipe é formada por ateus. E de esquerda. Muito mais à esquerda do que muitos dos que hoje na Espanha se dizem de esquerda, ressaltam os membros da equipe, que encaram as bancas como “trincheiras”.

Quando questionados sobre os limites para o humor, a resposta é simples: a lei. Não há tema tabu: morte, opção sexual, credo, raça, tudo pode ser piada, dependendo do bom senso e do aval de Gonzalo Boye, um advogado criminal de 47 anos que aceitou o desafio de editar a revista e atuar como “censor”. Tudo que é publicado passa por sua lupa legal. “Outro dia, iríamos fazer uma piada com uma pessoa que todo mundo sabe que é viciada em cocaína”, relembra Bravo. “Só que o Boye nos explicou que era um crime, que poderia dar cadeia. Chegamos à conclusão de que não valia a pena ir para a prisão por uma piada.” Na edição de abril, a revista saiu com um texto que tinha mais de 30% das palavras riscadas. Eram os vetos do advogado. Ao lado vinham suas anotações a caneta.

Curiosamente, uma das seções de Mongolia que mais sucesso e repercussão têm é a que é publicada nas últimas páginas da revista, a cargo do experiente jornalista catalão Pere Rusiñol. É a parte das reality news. Da página 30 à 45, o que se lê são reportagens investigativas, que tocam em assuntos que muitos jornais, por questões diversas, não se atrevem a publicar. Muitas das histórias são passadas por colegas de outros meios – anonimamente – que sabem que não conseguiriam publicá-las nos veículos para os quais trabalham. Escândalos envolvendo ministros, negócios escusos entre empresários e políticos, assuntos sigilosos envolvendo a monarquia, questões da transição à democracia que nunca foram esclarecidas (e ficaram esquecidas) são alguns dos temas que levaram a seção a ser considerada por muitos como exemplo do melhor jornalismo feito hoje na Espanha.

Embora publique piadas pesadas e denúncias graves, a revista, até agora, não sofreu nenhum processo. O número dois, que falava dos privilégios do rei, trazia na capa a advertência: edição para ser apreendida nas bancas. Nada aconteceu. “Nós levantamos duas hipóteses para não termos sido processados”, teoriza Galán de maneira brincalhona. “Para não dar publicidade à revista é uma hipótese. A outra é que tudo o que nós publicamos é verdade e eles não têm como contestar.”

Após um ano de existência de Mongolia, o balanço é amplamente favorável. Passados seis meses, os criadores começaram receber salários e a pagar os colaboradores – como acordado no início. Vieram vários prêmios, um deles, recebido no mês passado, pelo trabalho da publicação na defesa dos valores humanos. Os leitores e seguidores nas redes sociais continuam crescendo, e artigos elogiosos, como os que saíram nos diários americanos The New York Times e The Washington Post e no italiano Corriere della Sera, se acumulam. Artistas, escritores e intelectuais de importância na Espanha literalmente vestiram a camisa da revista e fazem publicidade gratuita.

Talvez o maior desafio seja manter-se no topo. “É, isso assusta”, diz Bravo, que coça a longa e grisalha barba. “Já falamos sobre isso. Há duas saídas. Uma é reinventar-se sempre. Ainda achamos que podemos melhorar. Eu sempre gosto mais da última edição. A segunda opção é ser como o Chaves [personagem humorístico da TV]: todo mundo já sabe o final da piada, mas é tão bom que todo mundo ri.”

* * * * * * * * 

Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal

domingo, 18 de agosto de 2013

10 anos de autonomia Zapatista

por Aleksander Aguilar*

Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.

Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!

[Foto: Moysés Zúñiga Santiago]
Eles fizeram a data da rebelião coincidir com a implementação do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México, chamado pelos Zapatistas de “uma sentença de morte”. A estridente oposição ao NAFTA deu aos rebeldes o apoio de organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais de diversas partes do mundo.

São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.

Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.

ESCOLA PARA A LIBERDADE

No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.

No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal New York Times denominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.

Mas desde La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos.

Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.

Por quê tudo isso?

“¿Será porque acaso intuyen, saben, conocen, que la luz no viene de arriba, sino que nace y se crece desde abajo? ¿Que no es producto de un líder, jefe, caudillo, sabio, sino del común de la gente? ¿Será que en sus cuentas lo grande empieza pequeño y lo que sacude al mundo cada tanto, inicia con apenas un murmullo, quedo, bajo, casi imperceptible? O tal vez imaginan cómo es el estruendo de un mundo cuando se desmorona. Tal vez saben que los mundos nuevos se nacen con los más pequeños.”

Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desvio lusitano



por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Depois de vários dias de viagem, tudo o que eu queria era voltar pra casa, mas no meu caminho havia uma greve de controladores de voo. Nenhum avião circulava pelo espaço aéreo da Bélgica durante a greve, que inicialmente não tinha duração prevista, mas acabou sendo de apenas oito horas. Só que naquele momento ninguém sabia disso.

A empresa aérea decidiu, então, nos mandar de ônibus para o aeroporto francês mais próximo, e de lá para o nosso destino, Lisboa, de avião. Essa operação demorou muito mais do que o tempo do voo cancelado, e eu perdi minha conexão de Lisboa para Brasília. Raiva, frustração e o estresse de um dia que parecia não ter fim. Até que, noite bem entrada, cheguei a um hotel designado pela companhia. Só poderia seguir viagem na noite seguinte.

Ao acordar, de manhã, e olhar pela janela, perdi o fôlego. Estava num andar muito alto, de frente para o Tejo, com uma ampla vista da cidade. Era inevitável pensar no “inevitável” e na opção de relaxar e gozar. Fui nessa.

Peguei um táxi rumo à Praça do Comércio, que, na minha memória de mais de dez anos atrás, era enorme e muito linda. O sol e o céu estavam indecentes, e se completavam com uma temperatura perfeita de início de outono. Fiquei pensando na inquietação e na ousadia que fizeram com que, há mais de quinhentos anos, uns malucos lusitanos se lançassem dali pelo mar em busca do resto do mundo, e cheguei à conclusão de que não há feito humano que se compare aos descobrimentos daqueles tempos, para mal e para bem, incluindo a exploração do espaço sideral.

Perambulei pela Rua Augusta, pelas lojas lotadas de turistas, quase todos brasileiros ou russos, cheguei à Praça da Figueira, almocei sardinhas assadas divinas numa tasca mais que popular, observando e sentindo ao máximo o lugar e a adorável gente portuguesa.

Barriga cheia, subi a Rua da Madalena. Lá no alto, virei à esquerda e me enfiei pelo labirinto da Alfama. Quando mais eu andava, mais beleza encontrava. Não sei se por viver numa cidade caçula do mundo, muito plana e onde tudo tem menos de cinquenta anos, os ângulos e a perspectiva proporcionados pelas ladeiras e pelos belos edifícios centenários me enchiam os olhos de tal forma, que transbordava. Ali, tudo era puro prazer.

Passei por restaurantes supersofisticados, ateliês de arte, muitos edifícios protegidos pelo patrimônio histórico, e fui andando. De repente, uma placa indicando “Museu Teatro Romano”. Incrédula, visitei escavações que vão aos poucos revelando um teatro completo, datado do final do primeiro século da era cristã. Lá dentro, além do nó na garganta pelo que encontrei, fui assaltada pela mais deslumbrante vista do rio e da parte baixa da cidade.

Consegui voltar à rua e subir mais um pouco, até o Largo de São Martinho, onde tomei um café e um tempo para digerir o que tinha acabado de ver e sentir.

Caminhei mais um tanto pelos becos e ruelas do bairro, até que tive que tomar um táxi de volta ao hotel, e dali para o aeroporto. Decolei de Lisboa leve, feliz e emocionada com a visita inesperada e tão profundamente prazerosa. Bendita greve! Não sabia a quem agradecer. Provavelmente, a algum líder sindical belga briguento e mal humorado.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Um toureiro chamado Renato Borghetti


por Ricardo Viel, de Lisboa*

 “Não sei o que de comunicativo tem o acordeão que quando o escutamos nos encolhe o sentimento”, escreveu Gabriel García Márquez em uma crônica sobre o vallenato, típico ritmo da costa caribenha colombiana. Pois essa sentença do genial Gabo me veio à cabeça tão logo Renato Borghetti abriu seu fole em cima do palco, na sexta-feira, 17 de maio, em Lisboa.

Em escassos metros de palco e por quase uma hora o músico de origem gaúcha domou diante de mim (e uma centena mais de afortunados) um animal arisco que insistia em expandir-se e contrair-se. Parecia querer fugir, mas ao mesmo tempo aparentava deleitar-se ao cerco a que foi submetido. E suas queixas tinham algo de lamento e de desabafo.

Contorciam-se ambos, mas o homem era sempre quem tinha o comando. Sabia o momento exato de cada gesto, o começo e o fim de cada ato. Às vezes, deixava a fera tomar ar, afastar-se, para logo em seguida encolhe-la sobre seu regaço. Com os olhos fechados, o artista media os movimentos – que variavam entre brutalidade e a candura – e por ora parecia desafiar aquela fera ao dançar de rosto colado com ela.

Já pela terceira música concluí que sem saber eu havia entrado numa tourada cujo touro fora substituído por um acordeão (para ser mais correto uma gaita de ponto).

O matador, vestido de negro, com um cinto de pano e um chapéu na cabeça, tinha seus auxiliares, como há de ser. Mas esses, em vez de portarem capas e lanças, traziam clarinete, violão e teclado. E o ajudavam, estavam a seu lado, cientes do que acontecia e atentos para se preciso fosse agirem no intento de evitar um fatal escorregão. Mas era óbvio: o duelo mesmo era entre o fole e o homem. Caminhavam pelo palco agarrados, amarrados peito com peito, desenhando invisíveis caminhos.

Foi uma linda e emotiva tourada. Cheia de arte, como deve ser, mas sem humilhação. A vitória de um não foi a derrota de outro. Não houve marca de sangue no solo, nenhuma agonia, nenhuma traiçoeira estocada. Não aplaudimos a morte, mas a vitória sobre ela.

E findo o ato, quando Renato Borghetti afastou as mãos da fera, foi como se dela tivesse arrancado a alma. A vi estática, retraída, depositada em um caixote sem qualquer resistência. Nem de longe lembrava o animal imponente que segundos atrás mostrava seu esplendor ao desafiar o artista diante do público. Parecia mesmo sentir falta daquele homem que, ao tê-la nos braços, a havia encantado. A ela e a um mortal que, sentado logo na primeira fileira, parecia encolhido em seus sentimentos.


*Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quelconque



por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Passados os cinquenta e cinco anos, a pessoa já poderia ter assunto para uma biografia, principalmente se acreditasse que “minha vida daria um livro”. Não sei se a minha daria para mais que umas crônicas, embora eu tenha vivido algumas peripécias, viajado um pouco por esse mundão, conhecido um bocado de gente, casado, parido e criado dois filhos, igual a quase todo mundo. Bem pouco para encher um livro, quanto mais uma bi-o-gra-fi-a, coisa de gente grande.

Nos últimos tempos, me meti a publicar umas mal-traçadas linhas em formato digital, aquele que existe, mas não muito, porque a gente não consegue pegar o texto, nem cheirar, rabiscar ou guardar numa gaveta ou estante. Mas existe, em algum lugar – ou será aqui neste computador? – e chega a algumas pessoas, não sei quantas. Uma tremenda ousadia da minha parte, num território ocupado por muitas feras, cuja lista nem começo a desfiar, para não me sentir ainda mais atrevida. Algumas delas rugem aqui neste mesmo blog, e eu me encolho toda.

Para fazer jus a uma biografia, a pessoa tem que preencher alguns requisitos básicos: cumprir uma longa carreira política, de preferência combinada com a autoria de livros, não necessariamente úteis ou relevantes, tanto a carreira quanto os livros; realizar façanhas incríveis como navegador, astronauta, tenista, geneticista ou alpinista; ganhar muito dinheiro como executiva ou empreendedora, e fingir que revela seus métodos de enriquecimento; ou fazer qualquer outra coisa que a torne uma celebridade, termo amplo e generoso, onde cabe de um tudo, para mal e para bem.

Porém, celebridade alguma merecerá ser biografada se não puder relatar, revirando os olhinhos, como foi sua primeira vez... em Paris. Ainda mais nos últimos anos, em que temos viajado tanto por aí, que já tem colunista com medo de encontrar o porteiro do seu prédio dando um rolé no Champs-Elysées. Désolée.

Na adolescência, quando conhecer a língua e um tiquinho que fosse da cultura francesa era sinal de inteligência e finesse, estudei meu bocadinho de francês. Não só porque o estudo de idiomas sempre me interessou, mas também porque éramos uma turma de alunos muito divertida e animada, que se tornou, para mim, o principal atrativo do curso. Paris, em todo o seu glamour, era um grande assunto entre nós, e rendia muitas fantasias e gargalhadas, pois éramos todos pobres de marré, sem qualquer possibilidade de pisar no Marais.

E, até o momento, tenho falhado neste quesito. Entra ano, sai ano, e nada. Várias pessoas já se prontificaram a me servir de cicerone, sugeriram roteiros; ouvi incontáveis relatos, encantei-me com a cidade em muitos filmes e livros, mas ir lá e verificar tudo pessoalmente, isto ainda não aconteceu. Portanto, continuo sendo quelconque, uma joana-ninguém.

Então, ficamos assim: como não conheço Paris e estou muito longe de ser uma celebridade, não serei biografada. Posso dispensar o advogado e dormir em paz.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A mídia e o Papa


por Celso Vicenzi*

Nos últimos dias o noticiário sobre a eleição do novo papa tomou conta da mídia brasileira. Entre o ufanismo inicial e o (quase) desapontamento final, seguem algumas observações.

Não se sabia, até a renúncia de Bento XVI, que o Brasil era um país com tantos “jornalistas vaticanólogos”. Muitos deles sem nunca terem colocado os pés no Vaticano. No máximo, como turistas.

Os nossos “jornalistas vaticanólogos”, com raras exceções, divulgaram notícias que oscilaram entre a obviedade e o triunfalismo. Mais fácil ler direto no Google.

Ao tomar conhecimento de que outros “especialistas” apontavam o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como um dos candidatos com boas chances, a cobertura tupiniquim entrou em campo em clima de jogo de futebol. Brasil zilzil... Um verdadeiro espetáculo de torcida organizada. Vai que é tua, Odilo!

Odilo foi, viu,votou, mas não venceu. Deu zebra! Nenhum dos candidatos apontados pelos jornalistas foi eleito. Tomaram um baile dos cardeais. A Argentina venceu de goleada, pelo que disseram depois.

A exemplo do que acontece com nossos cronistas esportivos, somos especialistas também em comentar “depois do lance”. E de uma hora para outra – sem fontes – soube-se que já no conclave anterior Bergoglio teria sido o segundo mais votado. Ora, então por que não estava entre os favoritos?

Em Santa Catarina, vários jornalistas chegaram a cogitar a hipótese de um papa catarinense. Rendeu manchete. Sim, tudo era possível. Mas jornalistas não são pagos para fazer análises fidedignas dos fatos? Para investigar com boas fontes mais do que fazer torcida? Infelizmente, tudo muda muito rápido. Jornalismo tornou-se algo bem próximo do entretenimento, e jornalista, não raro, vira personagem das reportagens. De narrador oculto a estrela dos fatos. Muito distante das lições do mestre Joel Silveira: “Jornalista é para ver a banda passar. Não é para fazer parte da banda”.

Muito se falou que a preferência do Vaticano seria por um papa mais jovem. Quem disse isso deve ter faltado às aulas de comunicação e marketing. Com tantas horas de mídia gratuita cada vez que morre um papa e se elege outro, é um bom negócio não escolher um papa muito jovem, não é?

E agora que foi aberta a “porteira” para a renúncia por “motivos de saúde”, salvo se o papa for muito idolatrado, tudo indica que a fórmula pode vir a ser usada mais vezes.

Impressionante a quantidade de espaço, em todas as mídias. É bom lembrar que, embora o cristianismo seja a maior corrente religiosa, a maior parte do planeta não professa a fé católica, mas o islamismo, o hinduísmo, a religião tradicional chinesa, o budismo e o sikhismo, entre outras. A cobertura é desproporcional à real importância global. Por tão generoso espaço, o Vaticano, penhoradamente, agradece.

Por trás de todo o discurso da fraternidade e solidariedade, há uma Igreja que se autointitula única, a verdadeira, a do papa infalível, e diz que fora dela não há salvação. Ao tentar impor um só Deus para todas as culturas, abrem-se as portas para os conflitos. Embora o discurso seja de paz, as religiões estão na raiz de muitas guerras. Ontem e hoje.

Nessa imensa centimetragem de jornais e infindáveis horas de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais – quanta overdose! – pouca coisa se viu sobre as intrigas do Vaticano e a onipresente mistura entre religião e política. O tom foi quase sempre igrejeiro, tudo divino e maravilhoso. Mas há esperança: eu, por exemplo, sou um crente. Creio na boa reportagem jornalística. Tenho fé que nem tudo está perdido.

Mesmo com tanto oba-oba, em tempos de redes sociais, não deu para represar as denúncias de envolvimento ou omissão do novo papa com a ditadura argentina. Há muito ainda para explicar.

Pelos próximos anos, a pauta da pedofilia abre espaço para a da tortura nos porões da ditadura. O Vaticano tenta, mas não consegue exorcizar os seus fantasmas.

É quase certo que teremos um papa populista e conservador. Contra o casamento gay, contra o aborto, contra a ordenação de mulheres na igreja. Talvez um aliado em alguns embates contra a vergonhosa acumulação de riqueza no planeta. Mas de leve, porque o telhado do onipotente Vaticano também é de vidro.

A escolha de um papa não europeu, e especificamente da América Latina, é uma tendência que pode se repetir no futuro. No último século, o número de católicos europeus caiu pela metade e hoje representa apenas 25% do total mundial. Na América Latina a tendência é oposta. Na região já se concentram 42% dos fiéis do planeta, e estima-se que até 2050 esse número terá crescido mais de 40%.

A eleição de um papa argentino renovou o estoque de piadas dos humoristas brasileiros no mínimo até a próxima década.

As minhas contribuições, a seguir.

Não bastasse o Messi, agora temos um papa argentino. Não dá mais para dizer que Deus é brasileiro.

A Argentina foi com Jorge Mario (Bergoglio). O Brasil deveria ter escalado Mario Jorge (Lobo Zagallo): “Zagallo é o papa” tem 13 letras!

São tantos os escândalos sexuais da Igreja Católica que a fumaça no conclave do Vaticano bem que poderia ter saído em cinquenta tons de cinza.


*jornalista, Celso Vicenzi é ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia, com passagens por rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. O autor autorizou a publicação no Nota de Rodapé.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Hugo Chávez em debate



por Moriti Neto  colaboração  Thiago Domenici


Inevitável debater Hugo Chávez. Figura complexa, ele despertou, em vida, sentimentos diversos. Dado o impacto da morte dessa figura histórica e polêmica, não pude me furtar a discuti-lo. Aliás, o fiz há pouco com o amigo e idealizador deste NR, Thiago Domenici. No diálogo, feito virtualmente, caminhamos por consensos e contraposições. Natural, se consideradas as controvérsias em torno do personagem.

O rótulo de ditador, colado por grupos midiáticos que lhe eram inimigos políticos, inclusive capazes da arquitetura de um golpe contra o ex-presidente no ano de 2002, é das questões mais discutíveis. Aliás, essa mídia o apontava como censor, mas tinha a liberdade de dizê-lo em capas de periódicos, sites e bancadas de telejornais.

No nível parelho de complexidade e controvérsia, há outras tantas possibilidades quando se trata de Chávez. As eleições por tempo indeterminado, a personalização do estado, mas, ao mesmo tempo, a colocação da permanência na presidência a plebiscito e o consequente incentivo à participação popular, principalmente das classes mais carentes, somados aos acertos e erros na economia, são ingredientes que nos empurram ao debate, algo que a preocupação com o bom jornalismo transforma em busca pela informação mais completa e por análises baseadas na concretude.

Em resumo: com a cautela que o tema merece, o Nota de Rodapé oferece ao leitor, no campo das ideias e argumentações, uma relação de textos que sirva de fomento a este rico debate sobre a Venezuela e Hugo Chávez.

Conforme surgirem novos textos que considerarmos de boa leitura (contrários ou favoráveis) iremos postar abaixo com o devido link.

Entrevista essencial com o professor Luiz Fernando Sanná Pinto para entender os efeitos do chavismo, ainda que depois de Chávez. Na Carta Capital, por José Antonio Lima. Leia...

Análise de Glauco Faria, colunista do Futepoca e editor-executivo da Revista Fórum, resgata a importância de Chávez para o discurso de esquerda na América Latina e traz o indispensável pensamento de Eduardo Galeano a respeito. Leia...

Em artigo escrito para o jornal Valor Econômico e reproduzido pelo site Brasil 247, Rubens Rícupero fala do pioneirismo de Chávez em dar expressão às periferias na AL. Leia...

Bob Fernandes, que tem inúmeras horas de entrevistas gravadas com Chávez, faz uma análise sobre os sentimentos de "amor e ódio" nutridos pelo venezuelano durante os seus mandatos. Leia... 

Outro texto de Bob Fernandes, "Chávez, o homem que viveu múltiplos personagens. Leia...

Consuelo Dieguez fez reportagem na revista Piauí sobre o candidato adversário de Chávez nas últimas eleições: "o candidato tococha, Henrique Capriles". Leia...  

O site Outras Palavras fez um dossiê de textos publicados no espaço sobre Chávez. Leia...

O La Jornada do México faz uma cronologia da vida de Hugo Chávez (em espanhol, Leia...) e no texto de Luis Hernández Navarro um pouco da infância do venezuelano. Leia...  

O site da BBC Brasil fez uma seleção das frases polêmicas de Chávez. Leia...

"Um chavismo sem Chávez é possível?", texto publicado no Le Monde Diplomatique Brasil. Leia...

Debatedores falam do futuro da Venezuela após a morte de Hugo Chávez na Globo News, entre eles, Gilberto Maringoni. Assista...

Da revista Anfibia (em espanhol): em 1999, pouco antes de Hugo Chávez assumir como presidente de Venezuela, Gabriel García Márquez o entrevistou em um avião durante uma viagem de Havana até Caracas. Leia...  

Pública - Agência de Jornalismo Investigativo conta sobre a ação estrangeira para intervenção na Venezuela, captada pelo vazamento dos telegramas do Wikileaks. Leia...  

Revista Fórum na matéria de Lucas Krauss, que esteve em Dezembro na Venezuela, analisa o chavismo numa perspectiva recente. Leia...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Papa arrependido?


por Thiago Domenici*

A renúncia do quase ex-papa Bento XVI é mais um desses assuntos mundano-celestiais que me intrigam. Querendo ou não, católicos e simpatizantes, sejam favoráveis a linha conservadora adotada, criam esperança com o anúncio da renúncia e vinda de um novo pontífice por um mundo, sei lá, menos desigual? mais espiritualizado? O que esperam as pessoas de um novo Papa? O que espera o Papa das pessoas?

Não sei se por ranhetice, não acho que a mudança do padre alemão para um latino-americano ou africano influencie atitudes mais nobres e humanas das pessoas. O que está em jogo nessa história é a tentativa de recuperação política da igreja que, desgastada e envolvida em brigas pelo poder e falta de carisma, busca um respiro de renovação.

A Igreja joga com essa renúncia os holofotes para si, num período em que perde fiéis para outras religiões e vive assombrada por escândalos de pedofilia. Entre 1960 e 2010, por exemplo, o Brasil viu a parcela de sua população que se declara católica cair de 93,1% para 64,6%, segundo dados do último senso do IBGE.

Seguindo nesse meu raciocínio, não entendo como uma Igreja que fala em amor ao próximo, fé em Deus, bondade, justiça social se mantém soberba em vestimentas, atitudes e pensamentos como, por exemplo, em relação ao uso da camisinha e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E as mulheres religiosas na Igreja, que tem papel sempre inferior ao do homem religioso. Por que isso ainda tem de ser assim? Será que somente nos próximos 700 anos veremos uma Papisa?

O Vaticano, um país sem povo, é um império cheio de riquezas e ostentação. É curioso que uma das últimas atitudes de Bento XVI foi escolher o novo presidente do banco do Vaticano, já que o anterior em busca de mais "transparência" foi demitido pelo secretário do Vaticano, o papável italiano Tarcisio Bertone.

A igreja católica que aplaudo, de uma vertente verdadeiramente social, a teologia da libertação, uma espécie de agulha no palheiro, rara mais ainda presente na figura de alguns batalhadores, como Dom Pedro Casaldáliga, que no último sábado fez 85 anos, e que foi soterrada com ajuda do mesmo que agora pede para sair, será apoiada por um novo santo padre?

É interessante que Bento XVI, a figura central do que se tornou a igreja católica nas últimas décadas, peça uma “verdadeira renovação” daqui em diante.  Ele usou essa expressão em cerimônia de despedida com padres de sua diocese em Roma e afirmou que ficará "escondido do mundo" depois de renunciar no fim deste mês. Será, diante de sua nítida fragilidade e da Igreja, um sinal de arrependimento?

*jornalista, Thiago Domenici coordena e edita o Nota de Rodapé

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ele enganou o El País?

NR entrevista Tommaso Debenedetti, 43 anos, que se diz professor de literatura e história em Roma, com “vida normal” e pai de “dois filhos”. Ele afirma ser o responsável por plantar a falsa foto de Hugo Chávez publicada na capa do jornal espanhol El País no mês passado. Além desse ato, Debenedetti alega ser o autor de outras mentiras publicadas em jornais e divulgadas na internet nos últimos anos.

por Ricardo Viel, de Lisboa

No último 24 de janeiro o prestigiado jornal espanhol El País cometeu um erro que custou à empresa cerca de 300 mil euros e arranhou profundamente sua credibilidade: publicou uma suposta foto do presidente venezuelano Hugo Chávez sendo operado em um hospital cubano. Como se confirmou em seguida, não era Chávez, mas uma fraude grosseira.

Durante a madrugada daquela sexta-feira, o periódico espanhol, após perceber o erro, colocou em marcha uma operação para resgatar seus exemplares das bancas. Conseguiu, em parte, recuperá-los e substituí-los por outra edição, mas a foto falsa já havia se espalhado pelo internet – onde o jornal também a publicou com destaque em seu site.

Como foi possível que um dos mais prestigiados periódicos do mundo cometesse um erro tão grosseiro? Parte da resposta deu o próprio jornal, ao publicar no domingo dia 26 um extenso relato em que conta, passo a passo, a sucessão de erros cometidos até a publicação da imagem (leia aqui).

Falhas tão absurdas como, por exemplo, não contatar o seu correspondente na Venezuela e nem sua colunista em Cuba. O jornal relata que a foto foi comprada por 15 mil euros de uma agência que prestava serviços ao jornal. Venderam a foto como tendo sido feita por uma enfermeira cubana que tinha familiares na Espanha. Era mentira.

O que o jornal não explica é como essa foto chegou à agência. Um personagem pode ter a resposta. Tommaso Debenedetti é um italiano que ficou famoso em 2010 quando foi desmascarado (o próprio El País publicou uma entrevista muito divertida com ele).

Durante dez anos o jornalista inventou entrevistas que nunca aconteceram e as vendeu para pequenos jornais da Itália. Foram mais de cem, com personalidades como Mijaíl Gorbatchov, Dalai Lama, Joseph Ratzinger, além de dezenas de prêmios Nobel de literatura. Ficou conhecido como o campeão italiano da mentira, e foi descoberto quando o escritor norte-americano Philip Roth, indagado sobre uma suposta entrevista em que criticava Obama, disse nunca ter feito tal afirmação. Foi quando a farsa veio abaixo.

Debenedetti classifica suas mentiras como um “jogo literário” e continua gerando falsas notícias na rede. Recentemente criou um perfil de Vargas Llosa no Facebook e plantou declarações polêmicas publicada por vários meios como sendo do Nobel peruano.

No ano passado, o italiano “matou” o escritor Gabriel García Márquez e Fidel Castro. Agora, assegura ser o autor da falsa foto que o El País publicou. O Nota de Rodapé o entrevistou por email. Leia a seguir.

O "campeão" da mentira Debenedetti (Foto: Stephanie Gengotti / Iberpress / Caters)

NR – Foi você que fez a foto que o El País publicou?
TD – Sim, eu sou o “autor” da falsa foto de Chávez publicada pelo El País. Posso dizer que se tratava de um jogo, um jogo de suplantar midiaticamente uma notícia para denunciar a falta de credibilidade dos meios.

NR– Como foi que criou esse jogo?
TD – No dia 10 de janeiro, por circunstâncias casuais, encontrei no Youtube o vídeo de um homem sendo entubado. Pensei: “parece um pouco a Chávez. Um pouco não, muito!” Portanto, como um jogo, tomei uma foto desse vídeo e a enviei a três agências de notícias, uma na Costa Rica, outra na Venezuela e outra de Cuba. Enviei a foto de uma conta falsa no nome do ministro venezuelano de cultura Pedro Calzadilla. Mandei com as seguintes palavras: o comandante Hugo Chávez hospitalizado em Havana. Não recebi resposta e a foto não foi publicada, mas dois dias depois um homem que se apresentava como jornalista cubano respondeu o correio: “muito importante, vamos enviar a Porto Rico e Madri.” Dias depois a conta de e-mail falsa que eu criei foi bloqueada, não sei por que, e não tive mais respostas. Só na manhã do dia 24 a foto apareceu na capa do El País. Tenho para mim que a foto foi enviada a Madri por jornalistas cubanos com duas finalidades: tirar dinheiro e, sobretudo, desacreditar o El Pais e, de certa forma, a imprensa ibérica.

NR – Teme ser processado? Recebeu algo pela foto?
TD – Ninguém me ameaçou e eu não tenho nenhum medo de ser processado: sou o autor “intelectual” da farsa, mas não tenho responsabilidade nenhuma na publicação da foto por um periódico. Não me deram qualquer dinheiro pela foto.

NR – Crê na versão que o El País dá sobre toda essa história?
TD – Acho que a reconstrução que o jornal faz é justa e verdadeira. Mas eu, como “autor” da foto e quem iniciou sua circulação, posso dizer que o jornal foi claramente vítima de uma manobra política que não deve ser ignorada. Repito: creio que de dentro de Cuba alguém quis desacreditar a imprensa europeia e por isso inventou essa história de que a foto teria partido de uma enfermeira cubana com familiar na Espanha.

NR – Mudando um pouco de assunto. Gostaria de saber sobre as entrevistas que o senhor criou. Como as justifica? Nesses casos o senhor recebeu pelo trabalho?
TD – As entrevistas eram jogos literários. Eu recebi 20 euros por cada entrevista, e só isso. Era um jogo de suplantar a identidade própria da literatura do último século. Eu gostava muito de fazer e a imprensa italiana, onde normalmente ninguém checa qualquer informação, me ofereceu a possibilidade de fazê-lo.

NR – Depois das entrevistas falsas, o senhor partiu para as redes sociais. Criou perfis falsos e plantou notícias. Há alguma surpresa que está preparando?
TD – Continuo com o Twitter e tenho duas grandes surpresas: um texto literário que aparecera assinado por um grande escritor Prêmio Nobel e que é, na verdade, meu. Também sou o autor de vários erros no Wikipédia. Faço para demonstrar como falta credibilidade na internet. Eu aconselharia os jornalistas a ficarem atentos com textos e fotos que são apresentadas como exclusivas. O caso Chávez pode se repetir em outros países.

Finalizada a entrevista durante a semana passada, Debenedetti enviou-me uma nova mensagem, em que dizia:

Posso lhe passar outra informação sobre ideias minhas futuras. As contas do Twitter do Papa (especialmente as em inglês, espanhol e português) não são seguras: é muito fácil encontrar o password e entrar. Se o Vaticano não muda seus critérios, será possível para mim escrever tweets com o nome do Papa. A mesma fragilidade de senhas há no Brasil com duas personalidades. Um famosíssimo escritor e um político. Saudações, Tommaso Debenedetti

Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Guerra virtual, parte 2

Nessa entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange segue o papo da semana passada com seus companheiros de armas, os criptopunks, virtuosos cyberativistas que lutam pela paz na internet. O debate é sobre a arquitetura da internet, a liberdade de expressão e as consequências da luta por novas políticas na web

“ O nono episódio da série World Tomorrow continua com os Criptopunks, ativistas da liberdade de informação na internet, Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn, Jeremie Zimmerman e, claro, Julian Assange, no papel de advogado do diabo. “Trole-nos, mestre troll”, brinca Jacob.

Na luta pela liberdade na web, os Criptopunks lançam algumas luzes sobre a guerra virtual entre o compartilhamento livre e o roubo, o poder dos governos em intervir versus a liberdade de expressão – e as consequências dessa batalha.

“A arquitetura é a verdade. E isso vale para a internet em relação às comunicações. Os chamados ‘sistemas legais de interceptação’, que são só uma forma branda de dizer ‘espionar pessoas’. Certo?”, cutuca Jacob. “Você apenas coloca “legal” após qualquer coisa porque quem está fazendo é o Estado. Mas na verdade é a arquitetura do Estado que o permite fazer isso, no fim das contas. É a arquitetura das leis e a arquitetura da tecnologia assim como a arquitetura dos sistemas financeiros”.

O debate segue apoiado nas possíveis perspectivas para o futuro. Para os Criptopunks, as políticas devem se pautar na sociedade e nas mudanças que seguem com ela, não o contrário.

“Temos a impressão, com a batalha dos direitos autorais, de que os legisladores tentam fazer com que toda a sociedade mude para se adaptar ao esquema que é definido por Hollywood. Esta não é a forma de se fazer boas políticas. Uma boa política observa o mundo e se adapta a ele, de modo a corrigir o que é errado e permitir o que é bom”, diz Jeremie.

Mas a busca por novas políticas e uma nova arquitetura tem seu preço. Jacob, detido várias vezes em aeroportos americanos, conta: “Eles disseram que eu sei por que isso ocorre. Depende de quando, eles sempre me dão respostas diferentes. Mas geralmente dão uma resposta, que é a mesma em todas instâncias: ‘porque nós podemos’”.

E provoca: “A censura e vigilância não são problemas de ‘outros lugares’. As pessoas no Ocidente adoram falar sobre como iranianos e chineses e norte-coreanos precisam de anonimato, de liberdade, de todas essas coisas, mas nós não as temos aqui”.


O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

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