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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Um abraço para outro



por Ricardo Viel*

 Un día, todos los elefantes se reunirán para olvidar. Todos, menos uno (Rafael Courtoise)

Não sei se era por educação, mas acabara de dizer ao garçom português, em um simpático portunhol, que aquele era o melhor bacalhau que comera na vida. Então me olhou demoradamente, mais do que o usual quando já se conhece a companhia de almoço, e pareceu duvidar de dizer algo. Por fim, tomou um gole da água e, como quem comenta sobre o clima, disse: sabe, você se parece muito a um amigo meu de muito tempo, da época do sindicato. E seguiu: você deve ser um pouco mais velho do que ele na época em que éramos amigos. Sou mais velho do que pareço, interrompi. Tenho 33 anos. Pois então sim, você é um pouco mais velho. Tínhamos vinte e poucos anos. Mas sim, você se parece muito com ele, os olhos, a barba, o nariz…

E começou a contar do que acontecia no Uruguai dos seus vinte e poucos anos; de como pouco a pouco os companheiros foram desaparecendo, sendo assassinados, até que já não havia outra opção a não ser ir embora. Comecei a criar imagens em minha cabeça, construídas a partir de filme, leituras e das vezes que andei por Montevidéu. Até que fui trazido de volta para aquela mesa com uma pergunta. E sabe o que fizeram com meu amigo? Era uma pergunta retórica, não tive que responder, só esperar. Um dia ele desapareceu, e uma semana depois encontramos seu corpo, desfigurado. Trazia um cartaz pendurado no pescoço que dizia: esse também pediu perdão.

Não contava com ódio, mas quase que com incredulidade. Como se às vezes tivesse que recordar aquilo para ter certeza que realmente aconteceu.

Ficamos em silêncio e em silêncio eu voltei ao bacalhau, que já não tinha o mesmo sabor. Depois reapareceram os assuntos amenos, como se aquela lembrança, igual à velha mendiga que entra em um shopping center e é rapidamente expulsa, tivesse ido embora. Se vai, mas a desgraçada imagem permanece na retina, fazendo-nos recordar o miserável que somos.

E quando nos despedimos, depois de promessas de seguirmos em contato, tive a impressão que o abraço que recebia estava guardado há décadas e tinha outro destinatário.

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR. Ilustração: Shanghai's Mojo Wang 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desvio lusitano



por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Depois de vários dias de viagem, tudo o que eu queria era voltar pra casa, mas no meu caminho havia uma greve de controladores de voo. Nenhum avião circulava pelo espaço aéreo da Bélgica durante a greve, que inicialmente não tinha duração prevista, mas acabou sendo de apenas oito horas. Só que naquele momento ninguém sabia disso.

A empresa aérea decidiu, então, nos mandar de ônibus para o aeroporto francês mais próximo, e de lá para o nosso destino, Lisboa, de avião. Essa operação demorou muito mais do que o tempo do voo cancelado, e eu perdi minha conexão de Lisboa para Brasília. Raiva, frustração e o estresse de um dia que parecia não ter fim. Até que, noite bem entrada, cheguei a um hotel designado pela companhia. Só poderia seguir viagem na noite seguinte.

Ao acordar, de manhã, e olhar pela janela, perdi o fôlego. Estava num andar muito alto, de frente para o Tejo, com uma ampla vista da cidade. Era inevitável pensar no “inevitável” e na opção de relaxar e gozar. Fui nessa.

Peguei um táxi rumo à Praça do Comércio, que, na minha memória de mais de dez anos atrás, era enorme e muito linda. O sol e o céu estavam indecentes, e se completavam com uma temperatura perfeita de início de outono. Fiquei pensando na inquietação e na ousadia que fizeram com que, há mais de quinhentos anos, uns malucos lusitanos se lançassem dali pelo mar em busca do resto do mundo, e cheguei à conclusão de que não há feito humano que se compare aos descobrimentos daqueles tempos, para mal e para bem, incluindo a exploração do espaço sideral.

Perambulei pela Rua Augusta, pelas lojas lotadas de turistas, quase todos brasileiros ou russos, cheguei à Praça da Figueira, almocei sardinhas assadas divinas numa tasca mais que popular, observando e sentindo ao máximo o lugar e a adorável gente portuguesa.

Barriga cheia, subi a Rua da Madalena. Lá no alto, virei à esquerda e me enfiei pelo labirinto da Alfama. Quando mais eu andava, mais beleza encontrava. Não sei se por viver numa cidade caçula do mundo, muito plana e onde tudo tem menos de cinquenta anos, os ângulos e a perspectiva proporcionados pelas ladeiras e pelos belos edifícios centenários me enchiam os olhos de tal forma, que transbordava. Ali, tudo era puro prazer.

Passei por restaurantes supersofisticados, ateliês de arte, muitos edifícios protegidos pelo patrimônio histórico, e fui andando. De repente, uma placa indicando “Museu Teatro Romano”. Incrédula, visitei escavações que vão aos poucos revelando um teatro completo, datado do final do primeiro século da era cristã. Lá dentro, além do nó na garganta pelo que encontrei, fui assaltada pela mais deslumbrante vista do rio e da parte baixa da cidade.

Consegui voltar à rua e subir mais um pouco, até o Largo de São Martinho, onde tomei um café e um tempo para digerir o que tinha acabado de ver e sentir.

Caminhei mais um tanto pelos becos e ruelas do bairro, até que tive que tomar um táxi de volta ao hotel, e dali para o aeroporto. Decolei de Lisboa leve, feliz e emocionada com a visita inesperada e tão profundamente prazerosa. Bendita greve! Não sabia a quem agradecer. Provavelmente, a algum líder sindical belga briguento e mal humorado.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Um toureiro chamado Renato Borghetti


por Ricardo Viel, de Lisboa*

 “Não sei o que de comunicativo tem o acordeão que quando o escutamos nos encolhe o sentimento”, escreveu Gabriel García Márquez em uma crônica sobre o vallenato, típico ritmo da costa caribenha colombiana. Pois essa sentença do genial Gabo me veio à cabeça tão logo Renato Borghetti abriu seu fole em cima do palco, na sexta-feira, 17 de maio, em Lisboa.

Em escassos metros de palco e por quase uma hora o músico de origem gaúcha domou diante de mim (e uma centena mais de afortunados) um animal arisco que insistia em expandir-se e contrair-se. Parecia querer fugir, mas ao mesmo tempo aparentava deleitar-se ao cerco a que foi submetido. E suas queixas tinham algo de lamento e de desabafo.

Contorciam-se ambos, mas o homem era sempre quem tinha o comando. Sabia o momento exato de cada gesto, o começo e o fim de cada ato. Às vezes, deixava a fera tomar ar, afastar-se, para logo em seguida encolhe-la sobre seu regaço. Com os olhos fechados, o artista media os movimentos – que variavam entre brutalidade e a candura – e por ora parecia desafiar aquela fera ao dançar de rosto colado com ela.

Já pela terceira música concluí que sem saber eu havia entrado numa tourada cujo touro fora substituído por um acordeão (para ser mais correto uma gaita de ponto).

O matador, vestido de negro, com um cinto de pano e um chapéu na cabeça, tinha seus auxiliares, como há de ser. Mas esses, em vez de portarem capas e lanças, traziam clarinete, violão e teclado. E o ajudavam, estavam a seu lado, cientes do que acontecia e atentos para se preciso fosse agirem no intento de evitar um fatal escorregão. Mas era óbvio: o duelo mesmo era entre o fole e o homem. Caminhavam pelo palco agarrados, amarrados peito com peito, desenhando invisíveis caminhos.

Foi uma linda e emotiva tourada. Cheia de arte, como deve ser, mas sem humilhação. A vitória de um não foi a derrota de outro. Não houve marca de sangue no solo, nenhuma agonia, nenhuma traiçoeira estocada. Não aplaudimos a morte, mas a vitória sobre ela.

E findo o ato, quando Renato Borghetti afastou as mãos da fera, foi como se dela tivesse arrancado a alma. A vi estática, retraída, depositada em um caixote sem qualquer resistência. Nem de longe lembrava o animal imponente que segundos atrás mostrava seu esplendor ao desafiar o artista diante do público. Parecia mesmo sentir falta daquele homem que, ao tê-la nos braços, a havia encantado. A ela e a um mortal que, sentado logo na primeira fileira, parecia encolhido em seus sentimentos.


*Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Dia de índio


por Ricardo Sangiovanni*

No tempo do mil-e-quinhentos, sertão se escrevia certão. Ou certam. Mas já era o que até hoje ainda é: aquela quentura dos infernos, aquela faltante fartura de tudo na seca.

Naqueles começos de Brasil, como até hoje não deixou de ser, mais fácil que domar o sertanejo a custa de bala era enredá-lo com arte de engano. Àquelas multidões de gente índia, falavam-lhes os capitães portugueses (ou portuguezes) da abundância de peixes e mariscos do mar que no litoral lhes aguardava, e mais da liberdade que havia lá à espera, para eles gozarem. E regalavam aos cabeças das tribos quaisquer trapos de roupa, mais umas ferramentas ruins que sobravam, mais as comidas secas que à mão houvesse.

E então pela via da paz – pois guerrear dava mais trabalho – desabalavam-se aldeias inteiras sob a batuta dos colonizadores, no encalço do litoral. Até chegar na beira da praia, que era quando os donos dos bacamartes davam voz de prisão ao povo índio arreganhando-lhes aquela podridão nojenta que tinham por dentes. E disparavam, e separavam os filhos dos pais, os irmãos das irmãs, as mulheres dos maridos, e levavam-nos cativos para trabalhar em suas recém-formadas fazendas. E nunca mariscos do mar, e nunca mais liberdade.

Falando assim, o leitor pensará que era empreitada fácil. Mas não: o caso é que, para convencer o gentio a caminhar pacífico aquele mundo de léguas, carecia um ardil: era preciso ter na equipe alguém persuasivo, capaz de parlamentar na língua do povo – alguém, via de regra, também índio, ou mestiço.

De sorte que numa entrada dessas – a que teve por chefes Francisco de Caldas e Gaspar Dias de Atayde, em Pernambuco – ofereceu-lhes seus préstimos (não se sabe a troco de que paga) certo Brasso-de-peixe (ou Braço-de-peixe, ou Braço-do-peixe), um principal dos guerreiros Tabajares (ou Tobajaras), para convencer as tribos que iam sendo encontradas no caminho a marcharem sem resistência guerreira.

Aliados aos lusos, os Tabajares do Braço guiaram os colonizadores certão adentro, e de lá voltaram com sete mil índios cativos – que eram os que haviam sobrado vivos, porquanto haverem preferido o convencimento à matança. Porque afinal não eram pedras nem metais preciosos, caro leitor, senão levas e levas de índios escravizados – o ouro vermelho – a grande riqueza que daqueles sertões se usava extrair.

Acontece que a cobiça lusitana era tamanha que, já perto do fim da viagem, os capitães deliberaram que a recompensa do Brasso e sua gente pelos serviços prestados seria serem tomados como escravos, igualmente aos demais que haviam ajudado a trazer.

Mas o Braço, que não era surdo nem burro, ouviu e entendeu a conversa dos lusos. E, bem mais ardiloso que eles, seguiu dando-lhes trela e guarida – já sabendo da traição em vista, ofereceu-lhes ainda por cima mais duzentos caçadores à guisa de escolta para o caminho de volta.

E esperou.

Esperou até a hora em que Caldas e Atayde, e os demais homens seus, de tão bem protegidos que se sentissem, descuidaram da vigília – e o ataque rompeu a calma da noite. A ordem de Braço-de-peixe a seus duzentos guerreiros – e mais aos homens de Assento-de-Passáro, outro chefe seu parente que chegou para acudir – foi flechar os portugueses todos até que não escapasse nenhum com vida.

Assim foi feito. E no restante daquela noite fez-se festa e foi servida carne branca. E a indiada de cativa tornou a ser livre. Livre (verdade que graças ao macunaímico Braço-do-peixe, cujo restante da história um dia ainda lhes terminarei de contar) para voltar para suas terras, livre para ir para onde quisessem na manhã daquele dia raro, aquele dia de índio.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quarta-feira, 6 de março de 2013

De onde vem o Português da padaria?



por Marcos Grinspum Ferraz*

“Flor do Minho”, “Dom João VI”, “Lisboa”, “Flor de Coimbra”, “Cabral”, “Estado Luso”, “Nova Portuguesa”, “Camões”, “Do Porto”, “Lusitana” e até mesmo “Salazar”. São todos nomes de padarias paulistanas, que explicitam um pouco a origem lusa de nossas casas de pães. Pois o fato é que, no Brasil, sempre que pensamos em padarias pensamos na figura do imigrante português. Mas é fato, também, que muito pouco sabemos sobre essa história, ou melhor, sobre o porquê da existência dessa figura já folclórica no país: o “português da padaria”. Interessado no assunto, acabei descobrindo um tanto de coisas. Vamos lá.

Quem já viajou para outros países certamente reparou que não há pelo mundo padarias como a brasileira. Em geral, existem locais que fazem e vendem o pão, mas não espaços onde se pode sentar, comer sanduíches, pizzas e almoçar; tomar café, suco e cerveja; comprar frios, bebidas e até revistas. O curioso é que a nossa padaria, tão tipicamente brasileira e que domina as cidades do país, foi criada não por nativos da terra, mas principalmente por portugueses, em um modelo que não existe nem mesmo em Portugal. Por isso podemos chamá-las, aqui, de luso-brasileiras.

GRANDES MIGRAÇÕES

Apesar de os portugueses terem “descoberto” o Brasil ainda em 1500, a época em que vieram em maiores fluxos para nosso país vai de meados do século 19 a meados do século 20, na época das “grandes migrações”. Entre 1855 e 1914, por exemplo, as estatísticas de Portugal registram cerca de 1,3 milhões de saídas, e quase 90% delas são rumo ao Brasil. Ou seja, em um período de vacas magras na terrinha, os imigrantes – principalmente jovens e do sexo masculino – vinham em busca de novas oportunidades e de uma vida melhor.

Entre os milhares de portugueses que desembarcavam em portos brasileiros, uma parte seguia diretamente para o campo, para trabalhar nas plantações. Eram parte, também, do projeto de “branqueamento” da população levado a cabo pelo Estado. Outro grupo, mais numeroso, ia diretamente para as cidades, sendo Rio e São Paulo os principais destinos. Apesar de saídos principalmente das zonas rurais de Portugal, a vontade maior dos que chegavam ao Brasil era de viver nas áreas urbanas, que prometiam mais dinheiro no bolso e maiores oportunidades de ascensão social.

Eles se estabeleceram nas mais diversas profissões – desde jornaleiros, sapateiros, taberneiros, leiteiros e vendedores de roupas até funcionários da construção civil ou da grande indústria que florescia nas novas metrópoles. Muitos se tornaram também pequenos empresários, e abriram negócios para suprir as novas demandas de consumo de uma população urbana em rápido crescimento no Brasil. Demandas como, por exemplo, por pão.

Com a forte presença de imigrantes de todo o mundo e com o acelerado crescimento das cidades, novos costumes e hábitos alimentares foram se difundindo. A farinha de trigo, por exemplo, começou a ocupar o lugar das farinhas de milho ou mandioca, com as quais se fazia o pão. Até então, pelo meio do século 19, o ramo era comandado principalmente por mulheres, com uma produção ainda caseira e um sistema de distribuição apenas de entrega nas casas e venda nas ruas.

A mudança no quadro se deu pelas mãos de portugueses, espanhóis e, no primeiro momento, principalmente italianos. Surgiram então as primeiras padarias, dominadas por homens, onde se fazia e vendia o pão, com uma estrutura que permitia uma produção regular e em maior escala. Com farinha de trigo importada e fermentação natural, eles produziam o chamado pão caseiro – mais duro e que durava dias –, em padarias como a portuguesa “Santa Teresa” (1872) – hoje a mais antiga em funcionamento no país, em São Paulo – ou a italiana “Popular” (1890).

O DOMÍNIO PORTUGUÊS

Virada para o século 20 e o domínio português no setor já começava a dar sinais. O motivo principal: a invenção do popular pão francês, que de francês só tem o nome. A propagação do uso do fermento biológico, que permitia uma produção rápida, foi sabiamente aproveitada pelos padeiros portugueses, que “lançaram” no mercado o tal pão, pequeno e macio, que saia em várias fornadas ao dia. Os italianos, por sua vez, seguiram fazendo pães mais duros, de casca grossa, que duravam alguns dias nas bancadas. Nada contra os italianos e suas saborosas receitas, mas é claro que o pão francês, fresquinho em diferentes horários, dominou o mercado.

Padaria do Floriano Nunes, em Assis (SP), em 1936.
As entregas feitas em casa com pequenas carrocinhas puxadas por burros também ajudaram os portugueses a ganhar a freguesia. Os clientes viravam fiéis a uma ou outra padaria e a um ou outro carroceiro, criando uma relação de intimidade que envolvia exigências de qualidade e a possibilidade de comprar fiado. Assim, já em 1938, dos 298 sócios registrados no Sindicato dos Industriais de Panificação de SP, 52,4% eram portugueses, seguidos por 26% italianos e 17% brasileiros.

Nas padarias de portugueses do início do século 20, diferentemente de hoje, os lusos ocupavam todos os cargos: eram desde os donos até os masseiros, forneiros, carvoeiros e carroceiros. Vale lembrar que a nacionalidade em comum não impedia o surgimento de conflitos de classe dentro das padarias. Para funcionar até 20 horas por dia, todos os dias da semana, os patrões impunham jornadas aos funcionários de até 18 horas. Muitos jovens moravam dentro das próprias padarias, em cômodos precários cedidos pelos proprietários, perto de fornos, de modo que o controle sob suas vidas era quase total.

Nas décadas seguintes, em meio a demoradas melhoras nas condições de trabalho – resultado de muitas lutas –,  o domínio português no setor da panificação se tornou quase total. Entre os anos 1950 e 1960 – quando desceram aqui mais cerca de 240 mil imigrantes lusos – os portugueses chegaram a ser cerca de 90% dos donos de padarias em São Paulo, e dominaram o ramo  também em Santos, Rio de Janeiro, Belém-do-Pará etc. As padarias foram sendo passadas de pai para filho, como ainda o são em muitos casos, assim como foram transmitidas as técnicas dos padeiros e forneiros. Diferentemente de hoje, em que cursos de formação são comuns, aprendia-se a fazer o pão trabalhando.

AS NOVAS PADARIAS

Hoje, século 21, qualquer bairro ainda tem alguma boa e velha padaria tradicional. Mas as padarias modernas, que dominaram a cena, são diferentes. Cupcakes, sushis, carnes, saladas, frutas, comidas congeladas, vinhos, champanhes e por aí vai; tudo pode ser comprado na padaria. Pois a partir dos anos 1990 um novo modelo revolucionou o setor, após a constatação de que a demanda por produtos “chiques” subia e que a competição com as lojas de conveniência e supermercados aumentava. Desse modo, temos hoje as padarias que ficam abertas 24 horas, com estacionamentos e caixas eletrônicos, farmácias etc.

E, sim, mais uma vez o processo de mudança foi comandado por portugueses e por seus descendentes. Dessa vez, por uma nova geração que teve boa formação e usufruiu de melhores condições de vida que seus pais e avós. A “Dona Deôla”, por exemplo, criada pelos netos da padeira portuguesa Dona Deolinda, se tornou uma bem-sucedida rede e está abrindo a 5a filial. A “Casa dos Pães”, no nobre Jardim América, emprega 520 funcionários, recebe cerca de 8 mil visitantes por dia e vende aproximadamente 900 mil pães por mês. O estabelecimento, claro, é comandado por filhos e netos de imigrantes portugueses.

Assim, cerca de 150 anos após seu surgimento, a padaria brasileira é, paradoxalmente, uma instituição nacional e ainda um lugar um tanto “português”. Em 2007, quando o time da Portuguesa lutava para voltar à primeira divisão do campeonato nacional, os donos de padaria de São Paulo organizaram uma grande arrecadação de dinheiro para premiar os jogadores, caso eles conseguissem levar o clube de volta a elite do futebol. E deu certo. Está claro: mesmo servindo ciabatta, brioche, pão preto, sushi ou cupcake, as padarias brasileiras certamente não abandonarão tão cedo os pasteis de Belém e de Santa Clara, nem os seus nomes ligados à história de Portugal.


*Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Brasil vs Portugal (ou por que tanto desprezo?)

 Foi há muito tempo, mas parece que foi ontem de tarde que os portugueses chegaram ao Brasil. Nós – brasileiros e portugueses – continuamos nos tratando com uma terrível mistura de desprezo e desconhecimento em relação ao outro.

Aqui em Portugal, a imagem – que a Rede Globo ajudou a construir (melhor, destruir) – que se tem dos brasileiros é a de que não somos “gente séria”. As mulheres, em sua maioria, são putas, e os homens, promíscuos. Preferível que a filha tenha um tumor a um namorado brasileiro (porque o tumor, com alguma sorte, é benigno).

E do lado de lá (digo, daí), olha-se para os portugueses com a miopia que já tanto conhecemos: são ignorantes, burros, atrasados e passam o dia escutando fado e comendo bacalhau (para não falar das mulheres de bigode e dos donos de padaria chamados Joaquim e Manuel).

Desde que o primeiro português aportou na costa brasileira esse muro feito de desprezo e essa ignorância foi, com extrema eficiência, sendo construído (e de ambos os lados). E quando você se depara com alguém de 25 anos, que já não vive em uma aldeia, que tem acesso a informação e possibilidade de conhecer o mundo, e que reproduz o discurso de sempre, percebe que, 500 anos depois, nos comportamos ainda como se nunca tivéssemos nos conhecido (talvez porque, de fato, não nos conhecemos).

Hamilton de Holanda
Mas há, ainda há, alguma esperança. E ela vem não das instituições, dos governos, das academias de letras ou institutos de línguas, vem dos artistas, dos intelectuais, dos que com sua arte provam que não será um acordo ortográfico que nos aproximará, pois já falamos a mesma língua – o problema é que nos recusamos a qualquer tipo de diálogo.

Falo de gente como Hamilton de Holanda, que na sexta-feira passada fez um show estrondoso aqui em Lisboa. Em mais de uma hora de música, e apenas meia dúzia de palavras. E não foi preciso mais. Chamou ao palco músicos portugueses, tocou canções de cá e de lá, e demonstrou que o remédio contra o preconceito é a arte.

Espero que o Brasil se permita conhecer figuras como a fadista Carminho e o fadista Camané, o poeta José Luis Peixoto e o escritor Valter Hugo Mãe, que seguramente ajudarão, com sua produção, a desconstruir essa barreira que nos separa. E espero que do lado de cá eles também joguem no lixo os rótulos e se abram para escutar-nos – e assim poderão apreciar coisas sublimes como o bandolim de Hamilton de Holanda.

Nota: sobre o tema, recomendo a leitura da "Carta Aberta ao Brasil" de José Luis Peixoto, e um texto que Miguel G. Mendes escreveu para O Globo.

Ricardo Viel, colunista do NR,  escreve de Lisboa, Portugal

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

“Saramago me ensinou que não há tempo a perder”

Nesta sexta-feira, dia 16 de novembro, o escritor português José Saramago completaria 90 anos. Morto em 2010, o único Nobel da língua portuguesa será homenageado em vários cantos do mundo, entre eles o Brasil. Em São Paulo, no teatro Eva Herz, no Conjunto Nacional, haverá a exibição de cinco horas de imagens inéditas do documentário José e Pilar (2010). O realizador português Miguel Gonçalves Mendes, 34 anos, responsável pelo filme que conta a vida de Saramago e sua esposa, estará presente na homenagem ao escritor.

Atualmente residente no Brasil, onde desenvolve um projeto com Fernando Meirelles e trabalha na sequencia da série “Nada Tenho de Meu” (exibida pelo Canal Brasil), Miguel conversou com o NR sobre a experiência de ter convivido por quatro anos com o autor de Ensaio Sobre a Cegueira. Diz que ter passado esse período ao lado de Saramago e Pilar del Río mudou sua maneira de encarar a vida.

Nota de Rodapé – No documentário que você fez fica evidente que Saramago era quase um "pop-star". Era idolatrado por onde passava. Por que acha que ele atingiu esse status tão raro para um escritor, ainda mais de língua portuguesa?
Miguel Gonçalves Mendes – Acho que por várias razões. Primeiro, porque Saramago é um dos autores que mais pode ser reconhecido nos seus livros. Ou seja, o narrador e muitas vezes a trama mesmo são o próprio Saramago ou a sua visão do mundo. Por outro lado ele nunca se demitiu de agir. Como ele dizia, o trabalho de um escritor é obviamente escrever, mas também intervir na sociedade. Penso que Saramago várias vezes deu voz àqueles que não a tem. E por último, e talvez o principal, a qualidade incrível da sua obra que, exatamente por isso, é universal.

Nota de Rodapé – Portugal, e a Europa como um todo atravessam hoje uma crise profunda, e não parece haver saída. Saramago era um intelectual que não se furtava de opinar, alertar e convocar as pessoas a se rebelarem. Faltam intelectuais como ele em um momento como esse?
MGM – Penso que não faltam intelectuais, o que falta é que estes mesmos intelectuais não tenham medo. Assumam e lutem pelas suas condições. Nenhum ser humano se pode demitir das suas obrigações enquanto cidadão, algo que muitas vezes esquecemos. E a nossa obrigação base é contribuir para o bem comum. O que se passa na Europa é exatamente o oposto: o fim da solidariedade, o fim do respeito, o fim da crença no outro e o inicio de um discurso xenófobo e racista. Ora, ninguém no seu perfeito juízo lutara para defender esta Europa, e o que é lamentável é que se ponha em causa um dos projetos mais utópicos e bonitos da civilização ocidental. Países que reconheciam necessitar dos outros para melhorar o bem estar de todos...

NR – Vejo as pessoas muito desesperançadas e resignadas aqui na Europa. Há um fatalismo rondando a cabeça de todos, não há?
MGM – O que é triste é que não sabemos o que se seguirá e talvez o que segue sejam bem pior para todos. E quando digo todos, refiro-me ao mundo. Bem ou mal a Europa era um farol no que toca aos direitos pelos quais toda a humanidade lutou e o seu fim só poderá ser ruim para todos nós.

NR – Você conviveu quatro anos com Saramago, conheceu sua intimidade e acabou por tornar-se amigo dele. Além do documentário, o que guardou desse período?
MGM – Eu agradeço à vida por ter-me dado a possibilidade de conhecer uma mente brilhante como a de Saramago e poder construir uma relação de amizade com ele. O meu objetivo na vida é sentir que a vivo de uma forma plena, e tê-los conhecido (Saramago e Pilar) contribuiu em muito para atingir esse meu objetivo. Tê-los conhecido mudou efetivamente a minha vida, e fez-me perceber que não há tempo a perder. Esta é a única oportunidade que nós temos e como tal não podemos perder tempo a chorar ou a dizer que o mundo é horrível. Se é horrível é levantar as mangas e mudá-lo. Como Saramago dizia: não tenhas pressa e não percas tempo.

Miguel Gonçalves Mendes lançou recentemente, pela Companhia das Letras, um livro de entrevistas com Saramago e Pilar del Río.

Ricardo Viel, colunista do NR,  também publica hoje no Valor Econômico um especial sobre os 90 anos do escritor português.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Desarraigo

"Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam"
 José Saramago em A Viagem do Elefante 

Acabo de me mudar, de novo. Lisboa é minha oitava cidade diferente. Tentei pensar na quantidade de casas em que morei, mas desisti. Com certeza são mais de vinte. Outra vez fazer as malas, outra vez jogar fora o que não serve (e às vezes nunca serviu), outra vez fazer com que a vida se reduza a 50 kg de peso.

Para mim, mudar é, também, fazer um balanço da vida. Pensar no que se deixa e no que se espera encontrar. Na grande maioria das vezes, me mudei porque quis, o que fez com que, creio eu, minhas despedidas fossem menos traumáticas e minhas chegadas cheias de esperanças e expectativas.

Gosto de mudar, e a sensação de descobrir uma nova morada, de pouco a pouco sentir que passei de turista a local – enfim, fazer parte da paisagem –, me faz sentir vivo. Mas talvez fosse o momento de me perguntar o motivo de tantas idas e vindas. Há quem passe a vida toda morando no mesmo bairro, alguns na mesma casa, enquanto há quem, como eu, sente verdadeiro comichão quando completa o segundo ano de vida em um lugar.

Em espanhol há uma palavra que exprime essa inexistência de raízes que atam alguém a algo. É o desarraigo, e fala-se em um sentimento ou sensação que impossibilita com que uma pessoa se sinta de certa parte, crie laços com seu entorno. Esse é, hoje em dia, meu pesadelo: sentir-me sempre um estranho, um forasteiro que passará a vida tentando encontrar sua casa.

Prefiro pensar que não é assim, que minha casa são muitas e que vou deixando algo por cada lugar que passei; e que quando chegar a hora, sem esforço e sem pressa, me fixarei numa terra e poderei, por fim, dizer: fico por aqui.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas agora de Lisboa, Portugal. Leia + do autor.
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