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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sábado, 14 de dezembro de 2013

Carta a presidente Dilma Rousseff

por Izaías Almada*

Exma. Presidenta da República Federativa do Brasil, Sra. Dilma Rousseff.

Venho por meio desta carta aberta pedir que a senhora, fazendo valer os direitos que a lei lhe confere e, sobretudo, num gesto de grandeza humana, como tem demonstrado em outros atos do sua gestão, conceda ao deputado e cidadão, José Genoino Neto, o indulto de natal, permitindo-lhe voltar ao convívio de seus familiares e assim cuidar da sua saúde, direito inalienável de qualquer ser humano. Sei que muitos outros cidadãos e cidadãs serão beneficiados pelo indulto. Que José Genoino Neto possa estar entre eles.

Respeitosamente,


* * * * * * * 

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Mantém no NR a coluna mensal Pensando Alto

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Descosido


por Júnia Puglia*

Tem uma caixa de retalhos aqui dentro, todos querendo entrar nesta breve crônica. Vou tentar.

Há poucos dias, uma notícia me deu calafrios. Em algumas cidades suíças, os governos locais estão implementando normas de convivência que vetam o acesso de estrangeiros candidatos à condição de asilados (quase todos oriundos de países pobres) a certos lugares, como escolas e clubes. Tais normas são referendadas pela população, como determina a lei. O nome disto é “apartheid”, que significa “separação” em africâner, língua falada pelos brancos na África do Sul, país onde o regime segregacionista foi banido em 1994.

Muitos são os que acreditam na legitimidade da separação, e a desejam. Conviver com a diferença chega a ser uma ofensa para aqueles que se sentem mais gente que os outros. Não me esqueço de um pastor evangélico brasileiro branco, que conheci no final dos anos setenta, e que voltava de trabalhar por dois anos na África do Sul como missionário. Justificava o apartheid com toda convicção, pois “aqueles negros não sabem nem usar a privada; pra eles, um coqueiro serve muito bem”. Eu estava dando os primeiros passos no mundo adulto. Foi um choque e tanto.

O tempo passou, e a vida me deu um marido carioca, filho de pai baiano, por sua vez filho da querida Vó Izabel, baiana negra e miúda, que conheci já passada dos noventa anos. Filha de escravos, nasceu livre no papel, mas não conheceu outra vida senão a do trabalho e da dureza, como empregada doméstica e lavadeira desde sempre.

Nosso filho andava pelos nove anos. Um menino que gostava de conversar e de pensar, e que bem cedo revelava o historiador que viria a ser. Numa aula de História do Brasil, o tema da escravidão levou-o a uma conexão perturbadora, que culminou na pergunta: mãe, você acha que a família da Vó Izabel pode ter sido escrava nas terras dos nossos antepassados paulistas? Respondi que não, porque viveram muito distantes geograficamente. Ele ficou aliviado, mas pouco.

Lembrei-me disto quando vi uma série de fotos de escravos brasileiros rodando na internet, um raro registro visual daquela gente que não era considerada bem gente. São algumas dezenas de imagens, mas não consegui passar da décima, tamanho o incômodo que senti com as expressões, principalmente das mulheres, por mais belas que fossem, por mais enfeitadas que estivessem.

Com essas coisas rodando na cabeça, meu alento foi um artigo de jornal sobre os pescadores da italiana Lampedusa. Todos os dias, eles arrancam das garras do Mediterrâneo náufragos malis, líbios e eritreus, que se jogam ao mar em barcos caquéticos, tentando desesperadamente escapar da fome e da miséria e encontrar um futuro decente na tal de Europa. Aquela mesma onde o fermento da xenofobia e do ódio racial tem inflado na mesma medida do encurtamento do dinheiro e dos postos de trabalho. Não importa, dizem os pescadores, não podemos deixá-los morrer.

Mal costurado? É que os retalhos não se deixaram manusear o suficiente.

* * * * * * 

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Philippe Loubat

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

NR concorre ao prêmio TopBlog 2013

Querid@s leitor@s,

NR está concorrendo ao prêmio TopBlog 2013.

Quem puder votar e ajudar na divulgação ficarei imensamente agradecido! No ano passado, felizmente, com a ajuda de vocês nós ganhamos o prêmio na votação popular na categoria notícias e cotidiano. Isso, sem dúvida, fortaleceu a atuação e a relevância do NR na blogosfera.

Como mídia independente esse tipo de suporte e reconhecimento é fundamental pra seguirmos em frente e mostrarmos que é possível fazer jornalismo e arte de qualidade com competência e responsabilidade.

NR é mídia livre tocada com muita dedicação e compromisso pelo time de colunistas e colaboradores - é deles o maior mérito e de vocês, car@s leitor@s, vem o nosso maior incentivo.

O PRÊMIO

São duas fases: ontem começou a primeira etapa e os 100 blogs mais votados vão a segunda etapa. Nesse data, três serão finalistas e o resultado dos primeiro, segundo e terceiro sairá em janeiro de 2014. 

o link de votação: 
http://www.topblog.com.br/2012/index.php?pg=busca&c_b=3347

É possível votar com uma vez com email e outra com facebook. O espaço da votação fica no alto da página desse link acima. Depois de votar, é preciso confirmar o voto no link enviado para o seu email. É rápido e muito simples, mas qualquer dúvida estou à disposição. Podem me escrever em contatonotaderodape@gmail.com

O prêmio, vale lembrar, não tem recompensa financeira. No entanto, é considerado o maior prêmio para blogs do País. E, dessa vez, estamos defendendo o título que levamos no ano passado (veja aqui).

Valeu a todos vocês! Vamos em frente,

obrigado sempre!

Thiago Domenici, editor e coordenador do NR

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Sobre médicos e monstros

por Izaías Almada*

Um dos momentos mais tocantes no filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, que narra a viagem do jovem Ernesto “Che” Guevara pela América do Sul na companhia do amigo Alberto Granado, é quando “Che” visita um leprosário da Amazônia peruana. Ainda estudante de medicina, Guevara, na noite em que comemora seu aniversário, atravessa um pequeno rio que separava os leprosos da convivência com outras pessoas e vai visitá-los. Um gesto de grandeza humana de quem estava prestes a se tornar um médico.

Essa aventura dos dois amigos argentinos se dá no ano de 1952, tempos antes de Guevara integrar-se à luta guerrilheira de Sierra Maestra em Cuba, sob o comando de Fidel Castro, revolução socialista vitoriosa e que mudou corações e mentes no mundo inteiro.

Alguns fatos e acontecimentos históricos menos ou mais relevantes são assim: trazem, com maior ou menor intensidade, os indícios de alguma transformação social significante. Configuram uma inflexão nos caminhos do homem e prenunciam novas alternativas para a humanidade. Os exemplos nesse quesito serão inúmeros e desnecessários, mas a lembrança dessa possibilidade nos remete a atual fase do desenvolvimento capitalista, bem como seus reflexos para o mundo atual, onde a exploração do homem pelo homem adquiriu novos e sofisticados contornos.

No Brasil de hoje, alguns desses fatos e acontecimentos mais recentes têm sido debitados, a meu ver, a dois fatores políticos e sociais de relevância: os quase doze anos de governo do Partido dos Trabalhadores por um lado e a tentativa oposicionista de interromper a caminhada vitoriosa desse governo, sob inúmeros aspectos, em particular os sociais.

Já é sobejamente conhecida a fúria com que alguns dos setores mais conservadores da sociedade brasileira atacam os doze anos de governos petistas em âmbito federal. Esses setores e não só estão representados majoritariamente em partidos como do PSDB, DEM, parte do PMDB e o penduricalho PPS. Contudo, não bastasse a verborragia, normalmente vazia de significados e argumentos sólidos de deputados e senadores de tais partidos, há uma vez mais que chover no molhado: o verdadeiro e mais articulado dos partidos de oposição, no entanto, é conhecido já há algum tempo entre nós pela sigla PIG, o Partido da Imprensa Golpista.

É na redação de telejornais, revistas e jornalões da mídia brasileira que a matilha de cães hidrófobos é solta por seus patrões atrás dos ossos da discórdia, onde é possível identificar até alguns imortais da pior cultura brasileira, aquela que é preconceituosa, racista e de traços marcadamente fascistas.

Junte-se a isso os radicais de esquerda das novas gerações, muitos deles portadores de uma espécie de ejaculação precoce quanto a necessidade de transformação do país e que, na ânsia de um orgasmo revolucionário, mais atrapalham do que ajudam, por vezes oferecendo argumentos à tal matilha para a sua empreitada contra o novo Brasil, cujo parto tem sido dos mais difíceis.

O atual episódio envolvendo o programa ‘Mais médicos’ é emblemático: trouxe à tona a síndrome do grande romance de Robert L. Stevenson “O Médico e o Monstro”, liberando em boa parte da classe média e médica, insuflada e acobertada pela matilha, o seu lado mais egoísta e irracional, transformando uma questão humanitária num palavrório do mais baixo grau político e ideológico.

É triste perceber, em pleno século XXI, que o Brasil ainda acoberta em suas entranhas gente tão desclassificada e hipócrita, incapaz de olhar o país com olhos mais justos e minimamente solidários para com os mais necessitados. Não são os mesmos que criticam a questão da saúde no país? Que debochada e incivilizadamente sugerem que a presidente Dilma vá tratar o seu linfoma em Cuba? Não são os que repetem como papagaios o que reproduz o esgoto midiático, cujo nível de conhecimento da realidade em que vivem não ultrapassa as páginas de um Almanaque Capivarol?

Sinto calafrios quando penso que os representantes políticos dessa corja possam algum dia voltar ao poder político no Brasil. Já basta ver o que fazem no governo do Estado de São Paulo, onde se praticou e se pratica a maior corrupção e bandalheira de assalto ao erário público em proveito próprio, com o butin repartido há anos por integrantes da máquina administrativa do estado, sempre acobertados pela mesma mídia hipócrita e moralista que sistematicamente ataca os governos Lula e Dilma.

Espero, sinceramente, que o Brasil não se torne o único país do mundo que vergonhosamente repudie a missão solidária de milhares de médicos que para cá vieram de outros países, em particular os cubanos, numa atitude ímpar de egoísmo e sensibilidade para com ainda os milhares e milhares de compatriotas espalhados pelas regiões mais pobres, secularmente ignoradas pelos inúmeros monstros de jaleco branco que, ao se formarem, fizeram um juramento da boca para fora... Juramento de Hipócrates ou de hipócritas?

O episódio de Fortaleza é um tapa na cara do país, um escárnio que nos ridiculariza perante o mundo, pois apenas confirma aquilo que todos nós já sabemos: médico no Brasil, só para quem pode pagar. É doloroso ver alguns médicos de formação guevariana serem vaiados por um conjunto de Abdelmasshis. QUE SEJAM BENVINDOS OS MÉDICOS CUBANOS!

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto. (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Na falta do fato


por Ricardo Sangiovanni*

Juro que saí na segunda-feira à noite para comprar um terno bonito – meu primeiro, pago ademais de meu próprio bolso, sublinhe-se – para ir à formatura da turma de Comunicação da Ufba, os primeiros alunos deste inverossímil professor, que acharam ainda de honrar-me com a homenagem de “Amigo da Turma 2012.2 de Jornalismo”.

Juro, amigos, que comprei o terno. Teria que comprá-lo mesmo, daqui a uns meses, porque em setembro se casa minha prima, e eu serei padrinho; então, juntando isso com a formatura, julguei chegada a hora de finalmente ter meu terno próprio, para não mais ter que passar as raras noites de gala que me acontecem na vida sentindo o perfume de defunto habitual dos trajes alugados.

Provei o terno em casa, meus amigos, e juro que estava animado para exibir em vossa festa o corte italiano do fato (guardem essa, é como se diz terno em Portugal) e a gravata (que existe e é vermelha e branca, garanto).

Ocorre porém que, faltando dois dias para a festa, hesitei – hesitei como no passado não costumava, mas passam os anos e o homem começa a hesitar, é uma coisa – e achei de telefonar para certa pessoa que também participaria da festa, perguntando se a essas coisas se vai mesmo de terno, a qual me garantiu que não, que de terno não precisava não, que era demais, que deixasse aquilo para os pais dos formandos, porque, em anos de experiência em formaturas na Reitoria da Ufba, essa fonte (cujo nome preservarei, como bom jornalista) não se recordava de ter dividido mesa com gente assim enfatiotada.

De sorte que, chegado o dia da festa, do terno tomei apenas a calça, vesti a camisa de manga comprida, arrumei (assim creio) o desgrenho dos cabelos, entrei no carro e – crendo-me a salvo da gafe terrível de ser o único de terno na cerimônia – fui.

Juro, amigos, que levei o paletó e a gravata no banco de trás do carro. Juro, meus amigos, que perguntei às moças do cerimonial, antes de entrar no salão nobre, se era preciso vestir terno, que se fosse o caso eu corria no carro e pegava o bendito do terno. Ao que elas contestaram, cheias de decepcionada cordialidade, “o senhor fique à vontade”. E eu, só de camisa social e calça, apostei mais na cordialidade que na decepção e respondi que estava muito à vontade assim, obrigado. E elas me deixaram passar.

Não deviam, amigos – por que essa gente de cerimonial prefere ser polida a dizer a verdade? Porque, entrando, cumprimentei o funcionário homenageado – de terno. E chegou o paraninfo – de terno. E o vice-coordenador do Colegiado – de terno. (Este último aliás reparou, mas me tranquilizou dizendo que “tem problema não, amigo da turma pode ser assim mesmo, mais despojado”.) Confesso que nessa hora, amigos, quase saio correndo para ir buscar o diabo do paletó no carro, mas pensei que não, qual nada, afinal que tipo de homem pareceria que sou, que não sabe que a esse tipo de coisa não se vai sem um bom terno – exceto no caso de estar muito seguro e consciente de estar cometendo, deliberadamente, a grandissíssima iconoclastisse de transgredir o protocolo.

O duro foi quando chamaram meu nome para compor a mesa de honra da solenidade – então caí em mim de que não havia mais jeito: teria que passar a cerimônia toda ali, em pé, entregando os diplomas, o único desarrumado ladeando todo aquele pessoal empertigado, meus colegas de terno.

Não foi de propósito, amigos, nem para quebrar o protocolo. Ademais porque protocolo só se quebra uma vez, de maneira que, se não tivesse gastado meu tiro com o paletó faltante, talvez tivesse quebrado o protocolo pedindo o microfone para fazer-lhes um breve discurso (pois, atenção você que não entende nada de cerimonial de formatura: amigo da turma não fala, o que fala é o paraninfo), um discurso bonito e natural, como os que costumava fazer há uns anos, quando era presidente do grêmio estudantil e ainda não hesitava na vida.

Vocês não se incomodem porque teria sido coisa breve, meus amigos. Teria-lhes lembrado apenas uma crônica de João do Rio, uma em que o eu-lírico (quer dizer, ele) conta como um dia chegara do interior, inocente, puro e besta, cheio de auspícios para viver vida de Redação, e fora recebido por um veterano jornalista, o qual tratou logo de tentar dissuadi-lo (de salvá-lo), contando do insalubre que era aquela profissão – conselhos aos quais ele, moço jovem, evidentemente não dera ouvidos. E então, vendo que o rapaz era mesmo caso perdido, passou o referido veterano a ensinar-lhe o que sabia, tendo o moço do interior vindo a tornar-se um grande jornalista – que, anos e anos depois, encontrar-se-ia na Redação do jornal, acolhendo agora, ele próprio, outro jovem vindo do interior, inocente puro e besta, ao qual tentaria, sem êxito, dissuadir… Isso para lhes dizer do quanto, antes do tempo e sem nem bem ter deixado de ser o moço do interior, do quanto me sinto um tanto como aquele veterano toda vez que cometo essa heresia ótima que é dar aula para vocês.

E quando toda essa conversa parecesse muito aziaga a vocês e a seus pais, meus amigos, aí mudaria de assunto, e lembrar-lhes-ia, como nos discursos bons, duas ou três frases de algum tomo da Antiguidade – talvez algum recorte da Retórica de Aristóteles, ou talvez, melhor, algum trecho escolhido da Amizade de Cícero, talvez aquele que diz que a grande vantagem da amizade é “conceber belas esperanças, para tudo que possa sobrevir, e não deixar que desfaleçam ou se acovardem os ânimos. Porque o verdadeiro amigo vê o outro como a uma imagem de si mesmo”, alguém “com quem se pode falar como se estivesse falando a si mesmo”. E – já terminando – diria que eu, como Cícero, prefiro ante ao poder, às honras, aos prazeres e até à saúde, que eu prefiro a amizade, e que se há algum proveito nessa nossa profissão de jornalista é justamente o de conhecer gentes e fazer grandes amigos – porque sossego afinal não se tem, tampouco dinheiro se ganha.

Enfim: se não fiz discurso nenhum, meus amigos, terá certamente sido porque, na falta do terno, hesitei. Vocês então por favor aceitem, no lugar de alguma fala inspirada, esta crônica humilde deste vosso humilde amigo. E aos pais de vocês, por favor não contem a verdade sobre o terno – eles se preocuparão ao saber que vocês tiveram por professor alguém que não sabe nem a roupa justa para ir a um evento importante. Não os deixem, contudo, pensando mal de nossa profissão, pensando que com ela não se ganha nem o que chegue para comprar um terno – digam-lhes, em vez disso, que, se aquele professor mais à esquerda não usou paletó e gravata, foi de caso pensado, porque afinal um verdadeiro jornalista não se dobra ao que mandam os cerimoniais, não abaixa a cabeça aos protocolos. Porque um verdadeiro jornalista é, na alma, um informal.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre tomates


por Ricardo Sangiovanni*

Tomate em italiano diz-se pomodoro. Não é novidade, todo mundo que compra molho pronto de caixinha sabe. Pomodoro, pomo d´oro, pomo de ouro, o fruto avermelhado que o sol do Mediterrâneo doura.

Plural de pomodoro é pomodori – é assim na língua de Dante: “i” no final para o plural masculino, “e” para o feminino, via de regra. Mas entre os mais velhos do sul da Itália ouve-se dizer pomidori. Não é ignorância, senão sabedoria: por detrás do erro à primeira vista fortuito esconde-se uma renitente denúncia às violências que toda gramática impõe ao caminho comum do sentido: pois o plural de pomo d´oro era para ser, no mínimo, pomi d´oro, frutos de ouro. Mas não. É como se, entre nós, o plural de fruta-pão fosse fruta-pães. Então, na ausência da lógica na base da regra, os anciões tripudiam: estranho por estranho, melhor pomidori que pomodori.

Mas esse intróito todo foi para tomar coragem de contar a vocês que certa feita cultivei tomates. Adoraria poder contar tê-lo aprendido de pequeno, quando ainda usava calças curtas e suspensórios, respirando aquele arzão amarelado do terreno em que nonno Franceschino cultivava alguns pés de agrumes na carina Mormanno, encravada nas montanhas que separam a Calabria da Basilicata. Mas não: a verdade, se não é menos bela, é sempre menos cinematográfica, de sorte que não fui criado no campo senão num apartamento miúdo nesta Bahia transatlântica, nunca cultivei tomateiros na infância, tampouco meu avô, embora italiano, jamais me foi apresentado como “nonno Franceschino” – pois quando nasci ele já havia se transmutado no brasilianíssimo sertanejo vovô Chico.

Em todo caso, já tive sim a honra de cutivar tomates no sul da Itália. Não na calabresa Mormanno, mas numa horta pequena nos arredores da siciliana Catania.

Quando cheguei para dar uma mãozinha na lida, os tomateiros já estavam plantados, mas ainda em broto. Antes de tocar nas plantinhas, precisei demonstrar talento para a coisa limpando o terreno do mato ao redor de cada pé. Agachado, de joelhos na terra. Joelhos e mãos. Não sei se aprendi bem o serviço, mas pude entender de onde vem a saúde mental de quem cultiva a terra: cada toco de mato vale um pensamento dispensável; cada palmo de terreno limpo é metáfora de nossa própria mente, sempre tão necessitosa de ordem e de paz. Aquilo é uma beleza, serve para o sujeito achar o fio da meada no novelo das ideias, purgar o mal que eventualmente tenha feito a alguém, redimir-se, enfim, de todas as misérias.

Porque o mato consome o viço da terra, de maneira que a terra, estando limpa, cede mais viço aos tomateirinhos. No terreno limpo eles crescem mais rápido, mas não feito arvorezinhas: vão-se enramando pelo chão. Espalham-se em todas as direções, e desse jeito arriscam dissipar energia em uma porção de galhos fracos, que roubam vigor ao tronco central. E o que é pior: espalham-se rasteiros, suscetíveis às formigas e demais bichos da terra.

É quando os tomateiros pedem uma mão ao cultor da terra.

Fui então instruído, nessa fase, a enfiar cânulas (de bambu, mas pode ser qualquer pau) próximo ao caulezinho de cada pé. E, em seguida, a erguer cada um deles, e a encontrar seu galho mais forte, para então amarrá-lo docemente à estaca, dando-lhe direção, sustentação. É como erguer do chão alguém que nos pede ajuda – requer sobretudo crer que, dando uma mão àquela vida disforme, ela irá no futuro florescer e dar seus frutos de volta ao mundo, agradecida.

Mas para o tomateiro crescer forte, para que os frutos venham bonitos, precisa podar. E nas mãos de quem só aprendera a arrancar, a destruir o mato brabo, uma tesoura de poda parece arma perigosa. Com que critério afinal se escolhem os galhos certos a serem eliminados da massa de vida folhada de cada tomateirinho verde?

Pois – isso logo aprende-se – o certo é cortar os galhos de baixo, de baixo para cima, os que concorrem com o tronco principal. Dá pena quando são bonitos, mas é preciso: se não os cortamos, acaba que a planta não toma rumo e, crente de estar realizando todas, no fim não realiza nenhuma das promessas de vida que cada ramificação encerrava em si. O certo mesmo é cortá-los, pedindo licença a cada tomateiro para tal. Com ou sem palavras, o homem que cultiva a terra dialoga com cada planta, como se lhe tentasse identificar o talento maior, o rumo certo entre todos aqueles destinos possíveis que ela propõe quando jovem. Novamente não sei se aprendi bem o serviço, mas pude entender como o cultivo da terra poupa o homem da leitura de Freud (ou, melhor, ajuda-o a compreendê-lo melhor), como o ensina a conduzir e educar planta, bicho ou pessoa, respeitando-lhe a alegria vivaz de querer expandir-se para todos os lados, mas orientando-lhe a fazer escolhas à medida em que cresce, porque afinal não se pode ser tudo o que se quer nessa vida.

Ao longo do processo, é claro, não se pode esquecer de molhar os tomateiros – com pouca água a cada vez, mas cuidando para que o terreno esteja sempre úmido e fértil. Passados uns dois, talvez três meses, começam a despontar os primeiros ospomodori (ou pomidoro. Ou pomidori). E eu – agora já me fora delegada a função de gestor autônomo da horta – enchia, cheio de orgulho paternal, os cestos e baldes com os mais maduros, para comê-los em seguida n’alguma receita deliciosa do Mediterrâneo.

E por aqui vou encerrando, amigo leitor, porque já vai dando a hora do almoço e essa conversa de tomates me deu fome. E se toquei no assunto nesta semana sem ter falado de preços, de crises, de inflação, é porque não entendo muito dessas coisas. Perdão, caro leitor, mas isso é tudo o que sei sobre tomates.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. Ilustração em imagem da agência GettyImages

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ínfimo glossário contemporâneo 2


por Júnia Puglia Ilustração Fernando Vianna

Aborto – interrupção voluntária da gestação involuntária; é proibido, mas não adianta proibir, é feito assim mesmo, colocando em risco a vida de uma quantidade absurda de mulheres pobres; entendeu?

Bafômetro – engenhoca que mede, pelo bafo, a quantidade de álcool que habita o corpo da pessoa, mesmo que a própria não tenha bebido nada alcoólico, tadinha

Casamento civil – sociedade matrimonial cuja reputação andava em baixa, mas foi salva pelo movimento LGBT

CPI do Cachoeira – exuberante e copiosa cascata

Coreia do Norte – país asiático dirigido por uns sujeitos com cara de Playmobil que estão chamando os americanos para uma guerrinha nuclear; não tem a menor graça

Crossdressing – algo como “vestimenta contrária”, adotada por algumas pessoas que decidem concretizar a imagem de si mesmas que veem no espelho (ver “Laerte” abaixo); sacode neurônios até de quem os tem em mínima quantidade

Daniella Mercury – popstar baiana que dá show de coragem e integridade e ainda puxa o tapete de quem se ocupa da vida alheia

Dilma Bolada – minha Presidenta linda, chique, inteligente e competente

Elen Oléria – um sol brasiliense

Email – modalidade de comunicação digital em vias de extinção, por incrível que pareça a quem datilografava cartas com quatro cópias carbonadas há escassos 25 anos

Empregada doméstica – figura remanescente da escravidão, que foi extinta em 1888, pero no mucho (ver “madame” abaixo); definidora da sociedade brasileira como ela é; finalmente adquire o status de trabalhadora plena (!!!); o país tem com ela uma dívida incalculável

Família – papai-mamãe-filhinhos, papai-papai-filhinhos, mamãe-mamãe-filhinhos etc. etc. que se amem e se cuidem

Feliciano – furacão de estupidez, ignorância e grosseria que se situou no balcão de negócios da Câmara dos Deputados e não para de produzir catástrofes

Imunidade tributária – absurdo e abjeto privilégio de igrejas e instituições religiosas; por que elas e não você ou eu?

Lado a lado – um surto na teledramaturgia nacional; novela situada na década de 1900, mostrou as relações entre brancos e negros como elas são, com honestidade, clareza e sensibilidade; não podia ser mais atual; tudo que é bom dura pouco

Laerte – apenas o máximo

Madame – espécie em desespero com a possibilidade de ter que lavar as próprias calcinhas e assim detonar as unhas, entre outras terríveis ameaças que pairam no ar dos ambientes livres de escravas domésticas

Margaret Thatcher – amigona de Reagan e Pinochet; agora formam o Trio Parada Dura do sétimo inferno

Mimimi – mimimi mimimi mimimi

Nelson Mandela – meu grande e único herói

Relação homoafetiva – politicamente correto e muito pedante

Tomate – falsa leguminosa originária do México, essencial na culinária de muitos países; recentemente promovida a caviar no Brasil

TopBlog 2012 – prêmio brasileiro para blogs supermega duca

Yoani Sanchez – quem?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

 Leia também: Ínfimo glossário contemporâneo 1

domingo, 27 de janeiro de 2013

O caneco é nosso

Nota de Rodapé levou o prêmio TopBlog 2012. Fomos o mais votado do país na categoria Notícias e Cotidiano como blog Profissional.

Bora comemorar com muito mais qualidade em 2013. Em nome do time todo, agradeço cada um de vocês. Os que votaram, os que divulgaram e, claro, nossos leitores, galera que faz valer cada texto publicado, cada debate levantado.

Parabéns!

Thiago Domenici

(PS: eu queria dedicar esse prêmio ao meu mestre Sérgio de Souza, pessoa com quem aprendi a essência do que é ser jornalista e fazer jornalismo)

Abaixo, o nosso time mais que merecedor dessa conquista!

⟫ Alexandre Luzzi

⟫ Ana Mendes

⟫ André Carvalho

⟫ Caco Bressane

⟫ Carlos Conte

⟫ Fernando Carvall

⟫ Fernanda Pompeu

⟫ Fernando Evangelista

⟫ Fernando Vianna

⟫ Izaías Almada

⟫ Júnia Puglia

⟫ Kelvin Koubik

⟫ Marcos Grinspum Ferraz

⟫ Moriti Neto

⟫ Ricardo Sangiovanni

⟫ Ricardo Viel

⟫ Tomás Chiaverini


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