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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Sobre médicos e monstros

por Izaías Almada*

Um dos momentos mais tocantes no filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, que narra a viagem do jovem Ernesto “Che” Guevara pela América do Sul na companhia do amigo Alberto Granado, é quando “Che” visita um leprosário da Amazônia peruana. Ainda estudante de medicina, Guevara, na noite em que comemora seu aniversário, atravessa um pequeno rio que separava os leprosos da convivência com outras pessoas e vai visitá-los. Um gesto de grandeza humana de quem estava prestes a se tornar um médico.

Essa aventura dos dois amigos argentinos se dá no ano de 1952, tempos antes de Guevara integrar-se à luta guerrilheira de Sierra Maestra em Cuba, sob o comando de Fidel Castro, revolução socialista vitoriosa e que mudou corações e mentes no mundo inteiro.

Alguns fatos e acontecimentos históricos menos ou mais relevantes são assim: trazem, com maior ou menor intensidade, os indícios de alguma transformação social significante. Configuram uma inflexão nos caminhos do homem e prenunciam novas alternativas para a humanidade. Os exemplos nesse quesito serão inúmeros e desnecessários, mas a lembrança dessa possibilidade nos remete a atual fase do desenvolvimento capitalista, bem como seus reflexos para o mundo atual, onde a exploração do homem pelo homem adquiriu novos e sofisticados contornos.

No Brasil de hoje, alguns desses fatos e acontecimentos mais recentes têm sido debitados, a meu ver, a dois fatores políticos e sociais de relevância: os quase doze anos de governo do Partido dos Trabalhadores por um lado e a tentativa oposicionista de interromper a caminhada vitoriosa desse governo, sob inúmeros aspectos, em particular os sociais.

Já é sobejamente conhecida a fúria com que alguns dos setores mais conservadores da sociedade brasileira atacam os doze anos de governos petistas em âmbito federal. Esses setores e não só estão representados majoritariamente em partidos como do PSDB, DEM, parte do PMDB e o penduricalho PPS. Contudo, não bastasse a verborragia, normalmente vazia de significados e argumentos sólidos de deputados e senadores de tais partidos, há uma vez mais que chover no molhado: o verdadeiro e mais articulado dos partidos de oposição, no entanto, é conhecido já há algum tempo entre nós pela sigla PIG, o Partido da Imprensa Golpista.

É na redação de telejornais, revistas e jornalões da mídia brasileira que a matilha de cães hidrófobos é solta por seus patrões atrás dos ossos da discórdia, onde é possível identificar até alguns imortais da pior cultura brasileira, aquela que é preconceituosa, racista e de traços marcadamente fascistas.

Junte-se a isso os radicais de esquerda das novas gerações, muitos deles portadores de uma espécie de ejaculação precoce quanto a necessidade de transformação do país e que, na ânsia de um orgasmo revolucionário, mais atrapalham do que ajudam, por vezes oferecendo argumentos à tal matilha para a sua empreitada contra o novo Brasil, cujo parto tem sido dos mais difíceis.

O atual episódio envolvendo o programa ‘Mais médicos’ é emblemático: trouxe à tona a síndrome do grande romance de Robert L. Stevenson “O Médico e o Monstro”, liberando em boa parte da classe média e médica, insuflada e acobertada pela matilha, o seu lado mais egoísta e irracional, transformando uma questão humanitária num palavrório do mais baixo grau político e ideológico.

É triste perceber, em pleno século XXI, que o Brasil ainda acoberta em suas entranhas gente tão desclassificada e hipócrita, incapaz de olhar o país com olhos mais justos e minimamente solidários para com os mais necessitados. Não são os mesmos que criticam a questão da saúde no país? Que debochada e incivilizadamente sugerem que a presidente Dilma vá tratar o seu linfoma em Cuba? Não são os que repetem como papagaios o que reproduz o esgoto midiático, cujo nível de conhecimento da realidade em que vivem não ultrapassa as páginas de um Almanaque Capivarol?

Sinto calafrios quando penso que os representantes políticos dessa corja possam algum dia voltar ao poder político no Brasil. Já basta ver o que fazem no governo do Estado de São Paulo, onde se praticou e se pratica a maior corrupção e bandalheira de assalto ao erário público em proveito próprio, com o butin repartido há anos por integrantes da máquina administrativa do estado, sempre acobertados pela mesma mídia hipócrita e moralista que sistematicamente ataca os governos Lula e Dilma.

Espero, sinceramente, que o Brasil não se torne o único país do mundo que vergonhosamente repudie a missão solidária de milhares de médicos que para cá vieram de outros países, em particular os cubanos, numa atitude ímpar de egoísmo e sensibilidade para com ainda os milhares e milhares de compatriotas espalhados pelas regiões mais pobres, secularmente ignoradas pelos inúmeros monstros de jaleco branco que, ao se formarem, fizeram um juramento da boca para fora... Juramento de Hipócrates ou de hipócritas?

O episódio de Fortaleza é um tapa na cara do país, um escárnio que nos ridiculariza perante o mundo, pois apenas confirma aquilo que todos nós já sabemos: médico no Brasil, só para quem pode pagar. É doloroso ver alguns médicos de formação guevariana serem vaiados por um conjunto de Abdelmasshis. QUE SEJAM BENVINDOS OS MÉDICOS CUBANOS!

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto. (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Hitler descobre o "Tucanoduto"

por Izaías Almada*

O grande jornalista Sergio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, costumava dizer que quando a situação não estava boa, o urubu de baixo cagava no de cima.

Parece que o Brasil descobriu o protesto de rua no ano de 2013 da Graça de Nosso Senhor. E o espanto foi tanto, que muita gente resolveu interpretar o fenômeno alegando perplexidade diante dos fatos.

Houve, e continua havendo, protestos para todos os gostos e uma avalanche de análises que, para meu espanto, demonstram o quão alienado o país ficou com o golpe civil/militar de 1964 e, sobretudo, com os anos dourados do neoliberalismo caboclo comandado por governos de viés conservador, para não dizer reacionário, como os anos de Sarney, Collor e Fernando Henrique Cardoso.

A democracia foi transformada em simples referência histórica e as cabeças são manipuladas por gente muito esperta e cheia do vil metal.

Abaixo mais uma das inúmeras versões que se espalham pelo youtube com o aproveitamento de imagens de um filme alemão sobre Hitler, quanto a mim a melhor delas.



*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A criação do mundo revisitada

por Izaías Almada*

E no sexto dia, antes do descanso, Deus contemplava a sua obra, pensativo. De repente, girou o globo terrestre e colocando o indicador num determinado ponto, exclamou: “Aqui será o Brasil!”

Admirou Deus por alguns momentos a beleza da sua criação e acrescentou: “Aqui, nesta terra de palmeiras, sabiás e rios piscosos, colocarei à minha direita a maioria dos inaptos. À minha esquerda, habitará a maioria dos ineptos... E no centro, bem... No centro, deixarei viver a grande maioria dos inócuos...”

E viu Deus que era bom.

Inaptos, ineptos e inócuos, aqui vivemos todos nós na expectativa de criarmos uma grande nação, de projetarmo-nos como seres humanos de primeira grandeza, de nos livrarmos de seculares mazelas impostas por um colonialismo predatório e refém de interesses além fronteiras. De uma cultura que costuma se dividir entre a arrogância e a submissão: a arrogância do saber mal assimilado e a submissão originada pela alienação.

Nesse coquetel de desejos e frustrações, caminhamos sobre o fio da navalha e vamos trocando os papéis em consonância com nossos interesses de momento: passamos de inaptos a ineptos ou vice-versa, mas sempre com a possibilidade de continuarmos ou de nos transformarmos em inócuos.

No paraíso que nos foi destinado por vontade divina, onde oito milhões e quinhentos mil metros quadrados de verdes matas, água doce e potável, frutos os mais exóticos e saborosos, subsolo riquíssimo, há quinhentos anos ainda não sabemos organizar a casa. Tentamos, é verdade, mas o tempo que nos é dado viver é muito curto, se pensarmos que após a infância e a adolescência temos que escolher (ou somos escolhidos?) entre sermos inaptos, ineptos ou inócuos.

Um belo dia, ao comermos da árvore da sabedoria, descobrimos que inaptos, ineptos e inócuos poderíamos viver em harmonia e com isso imitamos outros povos e culturas mais antigas. Organizamos a coisa pública, a república e, consoante a boas experiências alheias, criamos parâmetros de convivência social, deixando para trás nossos antepassados colonizadores. E foi assim que estabelecemos três poderes: um para administrar, um para legislar e um terceiro para zelar pelo cumprimento das leis.

E viu Deus que era bom.

Surgiu aí o grande problema. Como distribuir pela nova república, com sabedoria e com sentido de justiça, os inaptos, os ineptos e os inócuos?

Chamando um representante de cada grupo, Deus colocou na mão de cada um deles um manual a que deu o nome de Constituição e disse: “Aqui está o caminho, a verdade e a vida. Leiam, reflitam e aí encontrareis as respostas para os desafios da vossa jornada neste paraíso por mim criado”

Os inaptos leram, leram e não entenderam muito bem, ou fingiram que não entenderam. Os ineptos marcaram reuniões e mais reuniões e foram poucas as vezes em que conseguiram algum consenso sobre o que leram. Os inócuos, bem, os inócuos praticamente não leram. E foram todos para as ruas...

E viu Deus que era ótimo!

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A woman in love


por Izaías Almada*

“Your eyes are the eyes of a woman in love...”

O CD do conjunto vocal Four Aces era a última paixão de Maneco. Raridade, aliás, só encontrável em algumas lojas de Londres ou Nova York ou por encomenda.

O repertório do grupo trazia-lhe doces recordações da adolescência vivida em Belo Horizonte. Mais do que isso: lembrava-lhe o seu primeiro amor, Isabela.

Na época, Maneco tinha dezesseis anos de idade, Isabela, catorze. Foi durante o baile de formatura do ginásio, onde o romantismo melódico dos Four Aces provocou contatos mais íntimos nos salões do Automóvel Clube. Podia-se mesmo arriscar, nestas festas, uma ida às sacadas do prédio para “tomar um pouco de ar”, como se costumava dizer. Ou para um beijo às escondidas.

Houve quem, no carnaval, despencasse de uma delas cheirando lança perfume. Tragédia em alta sociedade.

E foi numa dessas sacadas, no espaço estreito entre as cortinas de veludo verde-escur, a porta de vidros bisotê e os galhos de fícus a ocultar o prédio e as próprias sacadas da rua, que Maneco sentiu os seios de Isabela encherem-lhe as mãos pela primeira vez. Rijos, mas suaves, palpitantes, solícitos.

Os lábios entreabertos e os olhos revirados da namorada gritavam, em úmido silêncio, pelos desejos da mulher que ali desabrochava.

A woman in love...

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto. Imagem: quadro Estrolabio do pintor Pablo Picasso.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O pior da democracia é a liberdade aparente

Aos amigos, colegas de blog e queridos leitores quero deixar para seu deleite e reflexão esses versos de Fernando Pessoa, escritos sob o heterônimo Álvaro de Campos, um dos mais belos poemas que conheço.

Enquanto isso, como o final de ano se aproxima, aproveito para tirar férias dos meus artigos e colunas, desejando a todos um auspicioso 2013, se a prepotência e a intolerância da direita israelense, a indústria de guerra norte americana e a ignomínia do STF brasileiro deixarem...

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Izaías Almada, escritor e dramaturgo, mantém a coluna mensal Pensando Alto

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

AP 470, vulgo Mensalão e a democracia fatiada

Os ministros do STF envolvidos no julgamento do AP 470
Tudo indica, e a semana promete, que a mais alta instância judiciária do país, o Superior Tribunal Federal, quer mesmo reescrever a história do Brasil a partir daquele que é considerado o “maior escândalo” em matéria de corrupção entre nós.
 Novos conceitos e pontos de vista para crimes e ações penais, a rigorosa (aparente, pelo menos) distinção entre indício e prova, a negação do foro privilegiado e, sobretudo, uma sutil, hipócrita, original e ladinamente construída caracterização entre a “corrupção do bem” e a “corrupção do mal”.

Sim, porque é disso que se trata a espetacularização dada pela imprensa ao julgamento da AP 470, vulgarmente chamada de “mensalão”. Ao classificar o tal “mensalão” como a maior corrupção já praticada no Brasil, segundo o entender do Procurador Geral da República, seguida e aumentada pela lente do relator do processo, uma falaciosa questão se coloca. Vejamos: se essa é a maior delas até agora, outras médias, menores ou – quem sabe – do mesmo tamanho ou ainda maiores, foram momentaneamente esquecidas. Falácia, para dizer o menos, pois corrupção é corrupção, não tem maior nem menor.

Avançar o sinal vermelho, molhar a mão do policial, comprar trabalhos escolares, andar na contramão, comprar nota fiscal, vender nota fiscal, sonegar imposto de renda, enviar dinheiro para o exterior por doleiros, praticar o caixa dois na empresa, cobrar do cliente com ou sem nota, aceitar pagar sem nota, aceitar o registro de menor salário na carteira e receber a diferença por fora, abrir a micro empresa fora do município em que atual para diminuir o imposto a pagar, aceitar o achaque de fiscais da prefeitura, ter amigos ou parentes que “quebram determinados galhos”, empregar parentes e amigos em empresas públicas, assédio no trabalho, aumentar o preço de um produto em mais de 100%, comercializar a fé, enfim a lista é bem extensa... E são todos “honestos”, por que não?

Há, por exemplo, a CPI do Banestado, devidamente esquecida e arquivada; toda a ilicitude praticada quando da privatização de empresas públicas, em particular as de telefonia, cujo regabofe foi fartamente distribuído por algumas ilustres figuras que não pertencem aos quadros do PT; há o caso da Lista de Furnas e o também chamado “mensalão mineiro”, bem como as estripulias do DEM em Brasília, onde o insigne e honrado até então governador do DF foi pego com a boca na botija.

Contudo, pelo tratamento dado até agora a esses e outros casos como o “adiamento” da CPMI-Veja/Cachoeira, convenientemente acertado para não atrapalhar o período eleitoral (mas o julgamento da AP 470 pode), e pela lista exposta no parágrafo acima, fica a impressão de que existem, portanto, a “corrupção do Bem”, aquela que pode esperar, pode ser postergada ou até esquecida, quem sabe, e a “corrupção do Mal”, aquela que precisa servir de exemplo para o Brasil, pois uma vez resolvida, isto é, uma vez condenados os réus de determinado partido ou governo, mesmo que sem provas ou com provas tênues, ficará o exemplo para os pósteros. Será?

A quem querem enganar, afinal? Qual o propósito de gerar tamanha desconfiança e confusão na sociedade brasileira? Tamanha injustiça e talvez o ódio. Começando por fatiar o processo da AP 470, o STF começa também a fatiar a democracia brasileira. E depois, hipocritamente, muitos não sabem por que aumenta a violência no país...

Izaías Almada, escritor e dramaturgo, escreve a coluna mensal Pensando Alto

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Profanação geral da república*

Será uma manhã diferente igual a tantas outras. Acordarei que estava sonhando quando o sol, com seus raios dourados, tingir de prata o canto escuro do meu quarto iluminado. Será preciso enfrentar o silêncio com todo som que se acumula dentro da minha cabeça, pois antes de abandonar a luta há que desistir de tudo. A última desistência será sempre uma das primeiras virtudes de um pecador ateu. A esperança é a última que morde...

Convencido de que o momento presente será o futuro da humanidade, abrirei o jornal na seção de esportes à procura do último crime político... Ou será o contrário? Isso: abrirei a seção política à procura do último resultado esportivo e deparar-me-ei com a mais grave denúncia sem qualquer sentido ilógico: os últimos continuarão a ser os últimos e os primeiros, os primeiros. Na escola primária da minha rua haverá uma verdadeira luta de classes.

A união fará a forca, a guilhotina ou os supremos tribunais federais. A distribuição da justiça será feita em saquinhos de pipoca de milho verde no cineminha do bairro central da periferia. Brancos e negros se darão as mãos, que ficarão manchadas com a cor do outro. O mudo fará sinais ao surdo tentando explicar que ninguém é perfeito, mas o pior cego é quem entenderá esses sinais...

Na academia brasileira de letras cada acadêmico terá um número e os seus olhos não verão quando a lua surgir no céu da boca. O recomeço de tudo será o final do nada. O pão será farto e a fome infinita. A sede conduzirá o rio até o mar.

Crucificado, o demônio caminhará sobre as águas pluviais e o canto do cisne não mais se ouvirá. A última flor do Lácio será a primeira a murchar e entre David e Golias se fará a justiça de Salomão. Se o mundo estiver à beira do abismo, serei eu a dar o primeiro passo. Reunirei toda a coragem dos covardes e mergulharei nas areias escaldantes do Pólo Norte.

A dúvida é a única certeza. O verdadeiro sábio é aquele que sabe, já dizia acacianamente o procurador escondendo os seus argumentos. Da gaveta da memória perderam-se todas as chaves. No jogo das incertezas o coringa olha para todos os lados por trás dos seus óculos escuros e transparentes.

Quem sabe um dia seremos ouvidos? Ou bocas? Ou narizes? Pois a soma do quadrado é o cateto da hipotenusa, ficando por demonstrar que todo e qualquer nenhum é melhor que nada. Nada e se afoga. E se afoga é porque não sabe nadar. Ou melhor: não nada nada...

Nas costas do Brasil abunda a pita e lá trina o sabiá na seca galha... Nem mais, nem menos. Todo idiota tem seu dia de glória. A melhor defesa é o achaque. No mar de lama que o Brasil rico e culto se esconde, o jornalismo é a ponta do iceberg, o esgoto por onde escorre a merda lançada por algumas de nossas “melhores cabeças”...

(*) Dedico esse texto a alguns membros da mais alta corte de justiça do país, agora transformada em casa de variedades, onde os cidadãos são condenados antes de julgados. E também ao jornalismo de pensamento único. Se por acaso algum leitor não entender o que vai aí acima escrito, não se preocupe, ele não foi escrito para pessoas inteligentes, mas para idiotas como o próprio autor que finge acreditar na justiça de classe praticada no Brasil.

Izaías Almada, escritor e dramaturgo, mantém a coluna mensal Pensando Alto

terça-feira, 15 de maio de 2012

A bandidagem quer nos controlar?

A polícia e Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte andam atrás de explicações para uma determinada reunião realizada na cobertura de um apartamento em Natal, cujo proprietário é senador da república.

Segundo um vídeo gravado com o depoimento de um dos participantes dessa reunião, tal senador teria recebido um milhão de reais de dinheiro obtido ilegalmente para sua última campanha eleitoral. De quem?

Até aí parece não haver muita novidade sobre o jeitinho de se fazer política no Brasil, isto é, você apoia a minha campanha e depois eu favoreço sua empresa em determinadas licitações. O pior é que tal prática faz parte das nossas campanhas eleitorais há anos e anos e permeia quase todos os partidos do nosso espectro político partidário.

O que chama a atenção é que os envolvidos na tal reunião em Natal tratavam, entre outros negócios, sobre a instalação naquela cidade do sistema Controlar, essa taxa inventada em São Paulo nos últimos anos, onde os veículos automotivos têm que passar por uma inspeção para ver se estão ou não contribuindo para o aumento do nível de poluição ambiental.

Um dos participantes da reunião da cobertura teria vindo a São Paulo com um bom numerário para conseguir a desistência da empresa privada paulista que administra essa fiscalização em nome da prefeitura da cidade, ou seja, viajou com o propósito de fazer um bom negócio para outro grupo, provavelmente ligado ao tal senador da república. Encontro, diga-se de passagem, com o próprio prefeito de São Paulo.

Cabe lembrar, a propósito, que o número de carros de outras cidades e estados que passam pela cidade de São Paulo em um mês ou mesmo um ano é tão grande ou maior quanto os que são obrigados ao tal selinho da Controlar. E qual a razão de ser dessa demoníaca invenção que – ao que consta – ainda não apresentou relatórios e nem os resultados concretos da sua criação, se é que existem? Em outras palavras: algum esperto descobriu mais uma taxa para cobrar do contribuinte paulistano e ganhar muito dinheiro e assim ficamos todos com a consciência ecológica aliviada e os malandros com o bolso cheio.

Cercado pela pseudo seriedade com que se fabricam algumas leis e portarias no Brasil, protegido mais uma vez pela imprensa corporativa e venal, a inspeção de veículos do Controlar é, na prática, mais uma dessas maracutaias bem montadas para tirar dinheiro do incauto contribuinte paulistano. E, pelo visto, a ser exportada para os contribuintes em Natal no Rio Grande do Norte e explorada por alguma empresa que comprou sua participação no negócio afastando a empresa paulistana com um bom numerário trazido na mala de um ‘lobista’.

Na reunião da cobertura do apartamento potiguar, um senador ficou de receber quatro cheques de 250 mil reais para sua última campanha eleitoral. Dinheiro para lá, dinheiro para cá. Do sul para o norte do norte para o sul. Leis e portaria que acabaram por permitir, por exemplo, que em 2012, com o pagamento de uma taxa de R$44,50, o Controlar paulistano fature ao redor de 135 milhões de reais ou mais... Nada mal gastar alguns desses milhões com deputados, senadores, prefeitos, juízes e aumentar o negócio pelo Brasil, não?

Quando se assiste a alguns telejornais no horário nobre; quando se lê os principais jornais do país ou algumas revistas semanais que fazem informação de mão única, há uma pergunta que não quer calar: a bandidagem, com o apoio da mídia, quer nos controlar?


Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR. Lancou seu novo romance, Sucursal do Inferno, editora Prumo.

* A coluna Revoltas Cotidianas, de Fernando Evangelista, voltará na próxima terça-feira.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A faxina urgente e necessária

O ano de 2012 oferece ao eleitor brasileiro, ao eleitor paulista e ao paulistano em particular, a excelente oportunidade de iniciar uma providencial e necessária faxina no governo da cidade de São Paulo.

E em 2014 no Palácio dos Bandeirantes, desalojando a gestão incompetente que lá está há quase vinte anos.

Confrontada com a sua indigência programática e com as sucessivas derrotas eleitorais nos últimos dez anos no plano federal, a atual oposição brasileira, aquela que majoritariamente se abriga sob as siglas do PSDB, DEM, PPS e agora do noviço PSD, cuja hipócrita defesa da alternância do poder não leva em consideração quando se trata de seus próprios interesses, tem que ser derrotada no Estado de São Paulo, sob o risco de o estado continuar a servir de estorvo ao espírito progressista assumido pelo país nos últimos anos. Tanto na capital em 2012, como no governo estadual em 2014.

E por quê? Pela simples razão de que essa oposição representa um perigo para o modelo desenvolvimentista brasileiro, para a soberania do país e para a própria democracia.

Começaria aí o verdadeiro sentido da faxina, quer do ponto de vista da alternância do poder, como tanto defendem em nível federal, quer do ponto de vista ético, com o desmonte de uma engrenagem viciada, com a limpeza das inúmeras falcatruas domésticas no estado, quando dezenas de CPIs são engavetadas na assembléia estadual e ignoradas pela mídia e que fariam destampar de vez o caldeirão do cinismo e da hipocrisia daqueles que já não têm alternativas a oferecer ao novo Brasil, a não ser as da sua própria incompetência.

Como afirmou o jornalista Mino Carta em recente simpósio em Salvador, “São Paulo é o estado mais reacionário da federação”. Sempre foi, aliás. Não há aqui o que contestar. Desde as famosas marchas em 1964 para não irmos mais atrás à História pátria, São Paulo continua sendo o depositário maior do espírito da Casa Grande em detrimento da Senzala.

Provas da afirmação do jornalista, a qual endosso, vão se acumulando no dia a dia da política brasileira, ganhando patamares perigosos para o próprio exercício da democracia, repito, mesmo que ainda incipiente e tutelada, após os anos de ditadura.

Quartel da direita

É em São Paulo que se localiza o quartel general da direita brasileira, aquela que representa de fato o atraso, a submissão a interesses estrangeiros, aquela que não perde a sua formação aculturada, o seu preconceito contra pobres, negros e nordestinos, por exemplo.

Aquela que morde o próprio cotovelo de inveja ao não querer reconhecer que um metalúrgico sem diploma universitário, sem plumas e paetês, tirou o país da condição de devedor passando-o a emprestador internacional. Oposição no mais puro estilo quinta coluna.

É em São Paulo também que se localiza o centro mais reacionário da mídia corporativa que diariamente apostou suas fichas contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante oito anos e agora continua a apostar contra o governo da presidenta Dilma Roussef na esperança de que possa encontrar motivos políticos para enfraquecê-la e preparar o terreno onde, numa eventual regresso ao governo federal, façam o Brasil voltar ao mercado de negócios e interesse escusos em que transformaram o país enquanto governaram, bem como o Estado de São Paulo que governam há anos e agora a capital do estado.

Tal qual na mitologia grega, o eleitor paulista entre outros tem que fazer um dos trabalhos de Hércules e ir cortando as cabeças da Hidra, tantos anos ignorada, e que insiste em renascer sob novos disfarces. Uma dessas cabeças, talvez a mais perigosa, reúne jornais, revistas e emissoras de televisão.

Seu centro criativo e ideológico está em São Paulo, onde editoriais e jornalistas de aluguel destilam seus preconceitos ideológicos e sociais com o apoio do setor rentista, de grandes agências de publicidade, bancos, latifúndios muitos deles grilados, sucursais de empresas multinacionais, cujos interesses defendem sem qualquer escrúpulo e com a aceitação a conivência de grandes setores de uma classe média fascista.

A promiscuidade desses atores do espectro econômico com seus representantes nas câmeras de vereadores, assembléias estaduais e principalmente em Brasília, por meio de lobbies com polpudas verbas nos bolsos vai, a cada ano que passa, transformando São Paulo numa peça cada vez mais encardida e rançosa no mapa político do país nesse início de século XXI, com o arcabouço administrativo da cidade e do estado engessado pela concepção econômica neoliberal e pela mesmice de quadros políticos que têm um olho político em nosso passado ditatorial e outro, econômico, na possibilidade de amealhar grandes fortunas no uso de tecnologias do futuro e não só, num jogo que beneficia os governantes de plantão e os seus apaniguados mais próximos.

Nesse audacioso jogo de assalto ao patrimônio público, onde o exercício da política quase que anula a procura pelo bem estar da coletividade, não é difícil enxergar, cada vez com maior nitidez os fios trançados entre os já nem tanto obscuros interesses econômicos e políticos da imprensa das quatro famílias (Marinhos, Civitas, Mesquitas e Frias), onde não se descarta sempre a possibilidade de um hipotético, mas não de todo imprevisível golpe de estado, não aquele tradicional com soldados na rua, fechamento do Congresso, toques de recolher etc., mas um golpe que, sob certo aspecto, é mais perverso: o da desinformação, quando não da repetição pura e simples de uma suposição, de uma acusação irresponsável ou mesmo de uma mentira.

Privataria tucana

Nesse aspecto, o impressionante e minucioso relato contido no livro A Privataria Tucana do jornalista Amaury Ribeiro Jr. não deixa dúvidas quanto à necessidade do eleitor paulista e paulistano darem início àquela que seria a verdadeira e necessária faxina para que o país iniciasse nova jornada de recuperação ética.

Arrumar a casa em São Paulo e dar o exemplo para o resto do país, pois o denuncismo seletivo e irresponsável que emana de certas redações paulistas recebeu agora um duro golpe, pois aqui não se trata de denúncia sem provas.

São tantas as denúncias de práticas criminosas nos anos 90 que fica difícil escolher qual a mais impressionante. Contudo, é curioso ver que os principais beneficiários, econômicos e políticos, são paulistas, o que não vem a ser exatamente uma coincidência, mas um jogo perverso pela manutenção do poder político, e o pior deles: o poder de assaltar o patrimônio público.

No meu entender, o eleitor paulista e paulistano têm o dever de fazer uma mudança ética e política das mais rigorosas no Palácio dos Bandeirantes e na Prefeitura da Capital, devolvendo o Estado de São Paulo ao leito do novo país que começa a se erguer na América Latina e no mundo. Não se trata de comparar corrupções onde as houver, mas de combatê-las com o rigor da lei quando provadas.

E provas não faltam no livro citado, provavelmente, a mãe de todas as corrupções entre nós nos últimos anos pós-ditadura. Nada mal que se pense numa CPI da Privataria, pois além dela convocar – com toda certeza – a juízo público os principais personagens da dilapidação de grande fatia da riqueza nacional para que expliquem o que fizeram, é muito provável que surjam sólidos motivos jurídicos para se pensar em uma ação de recuperação para o Estado de uma empresa como a Vale, por exemplo.

Isso sem falar na necessidade de se estabelecer maior rigor na defesa de nossa soberania e na urgente reforma da Lei de Imprensa. Com a palavra o Brasil progressista e genuinamente democrático.

Izaías Almada, dramaturgo, escritor, colunista do NR. A coluna faz uma pausa e volta em 2012.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O canto do Cisne

Foto: Getty Images
A vida já me concedeu, como imagino que a muitos dos leitores também, ser testemunha de alguns fatos políticos importantes no Brasil e no mundo.

Testemunhei, por exemplo, como outros milhares de compatriotas, e ainda menino, parte da campanha “O Petróleo é Nosso”, o suicídio de Vargas e a comoção nacional de seu suicídio, o governo desenvolvimentista e ousado de Juscelino Kubitscheck, o golpe civil/militar de 1964 contra o governo legal de João Goulart, o AI-5, a luta armada da esquerda revolucionária contra a ditadura, da qual participei.

Li sobre a emblemática revolução cubana e de seus heróicos líderes Fidel e Che, sobre o final da guerra da Coréia, sobre a invasão norte americana do Vietnã em substituição aos franceses, sobre Mao Tse Tung e a Guarda Vermelha, o Maio de 68 na França, a chamada primavera de Praga. Essa lista, dos anos 80 para cá, seria ainda enorme... E talvez até maçante para o leitor.

Embora ainda existam pessoas que pensem o contrário, o homem é um ser político por natureza. Toda sua ação é política, mesmo quando se diz apolítico ou se nega a reconhecer a política nas relações humanas.

Não é por acaso que muitos, a mídia em particular, tentam cotidianamente despolitizar toda e qualquer questão relevante que diga respeito à luta daqueles que ainda acreditam numa mudança de rumos para o mundo em que vivemos. Despolitizar é criar confusão, insegurança, preconceitos. Despolitizar é dividir para continuar reinando.

O avanço e a sofisticação dos meios modernos de comunicação, e aqui o exemplo mais fascinante fica por conta da internet, obriga o homem contemporâneo a um exercício constante e atento de tudo que se passa à sua volta, sob pena de que se perca o sentido da civilização e assim nos afundarmos em poucas horas nas trevas da barbárie.

O propósito com que escrevo esses primeiros parágrafos é chamar a atenção do leitor para que, ao organizar sua agenda de informações, leve em conta não só a agilidade com que elas acontecem, mas também que deixe a sua sensibilidade e o seu espírito crítico funcionando como antenas de um momento histórico importante, polêmico, armadilhado com inúmeras falácias e – sobretudo – resvalando para o perigoso terreno de um fascismo revisitado.

De um fascismo moderno, travestido de falsas opiniões científicas ou sustentado por uma democracia enganosa, de aparências, onde o cidadão comum tem a ilusão de que ao votar de quatro em quatro anos está exercendo a sua liberdade de escolha nos que “dirigirão” o seu país, o seu estado, a sua cidade. Ou que de fato todos exercemos livremente nossa liberdade de opinião e pensamento.

Dou aqui dois exemplos,
um internacional e outro caseiro:


1 – O vergonhoso e criminoso plano de invasão do Iraque sob o pretexto de que aquele país possuía armas de destruição em massa. Provou-se que era tudo mentira fabricada nos escritórios da Cia e do Departamento de Estado norte americano. O mesmo esquema de dúvidas e mentiras parece agora estar sendo construído contra o Irã, sob o pretexto de aquele país tem intenções de fabricar armas nucleares. E se tiver? Os que acusam, em particular EUA, Inglaterra e Israel, não possuem armas nucleares em profusão? Uns podem e outros não? Por quais motivos?

2 – O ridículo e falsamente consciente vídeo gravado por menininhos e menininhas (algumas nem tanto) globais em oposição à construção da Usina de Belo Monte, aonde os argumentos nem sequer chegariam a empolgar uma discussão de bêbados de botequim, mas com o firme propósito de aproveitar aquilo que consideram a popularidade tele noveleira para dar credibilidade a argumentos falaciosos contra uma obra que ajudará o país a criar energia condizente para o seu desenvolvimento atual.

A mídia internacional e a nacional, em particular, movimenta-se no perigoso e delicado terreno da desinformação, da divulgação de meias verdades ou mesmo de mentiras, da tentativa de desmoralização daqueles que ainda ousam discordar das maravilhas do capitalismo ou daqueles que procuram criar alternativas ao desmantelamento lento, gradual e progressivo de um sistema econômico que já mais nada tem a oferecer à humanidade, a não ser o seu canto do cisne.

Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR

sábado, 12 de novembro de 2011

A espetacularização da barbárie

Mal a humanidade inicia a sua caminhada pelo século XXI adentro e os sinais exteriores da barbárie reclamam seu perverso protagonismo no dia a dia de todos nós cidadãos e começam a pontuar, a se destacar, nos grandes feudos de comunicação em massa. O capitalismo perdeu a compostura de vez e escancara para quem quiser ver a verdadeira natureza de suas entranhas.

A mídia corporativa, a televisão em especial, dominada pelo entretenimento e pelo jornalismo de mau gosto dos últimos anos, avançou um degrau no plano de embrutecimento das consciências, na banalização sistemática dos costumes, dos sentimentos, e na alienação política dos cidadãos.

Mas com uma curiosa e, sobretudo, perversa estratégia: a culpa dessa tragédia que nos enfiam pelos olhos e ouvidos, a sua articulação, será sempre dos terroristas muçulmanos ou poderá ser também dos excluídos e seus líderes populistas, ou ainda dos que insistem em teses anticapitalistas... E contra toda essa gente será necessária uma ação profilática e de preferência seguida por uma propaganda de impacto, o mais realista possível.

Nessa nova escalada para impor o terror e o medo, o primeiro a tombar foi Sadan Hussein após o genocídio no Iraque. Alguns anos depois vem a morte do “tão procurado” Osama Bin Laden e o genocídio do Afeganistão provocado pela caça ao líder da Al Qaeda. Agora, o cruel assassinato de Muhamar Khadafi e o genocídio líbio. Quem serão os próximos: Ahmadinejad no Irã, já anunciado inclusive, Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia? Algum eventual ditador africano ou asiático?

O “Complexo Industrial/Militar”, expressão tão em voga nos anos 60, não só não deixou de atuar à sombra todos esses anos, como tem se modernizado e feito – para usar linguagem atualíssima – o “upgrade” de suas atividades, alardeando a propaganda menos dissimulada de seus interesses.

O desuso dessa expressão apenas mascara a contínua busca por outros eufemismos que escondam a ganância, a selvageria e a brutalidade que toma conta da minoria de milionários que comandam as grandes corporações de sociedades anônimas, as multinacionais que mantêm em suas mãos as rédeas econômicas e políticas de um mundo cada vez menos civilizado. Segundo pesquisa recente feita na Suíça por um Instituto de Tecnologia, pouco mais de 1300 grandes empresas entrelaçam-se nessa rede de domínio da economia mundial.
Quem serão os próximos: Ahmadinejad no Irã, já anunciado inclusive, Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia? Algum eventual ditador africano ou asiático?
Como nos clássicos romances da literatura policial cabe aqui uma primeira pergunta: a quem interessam essas mortes e a grande e insana orgia midiática em volta delas? A lista real e hipotética indicada num dos parágrafos acima aponta para direção bem clara: a “democracia” ocidental e cristã, tutelada por meia dúzia de países no mundo sob o comando cruel e cínico dos Estados Unidos da América, procura, já sem nenhum escrúpulo, manter sob seu domínio alguns dos maiores produtores de petróleo e gás mundiais, ainda e por bom tempo as principais fontes de energia, para tocar os seus grandes negócios e não só.



Não há aqui meio termos. Sob o olhar passivo e subserviente da ONU e a sempre que necessária e providencial ajuda profilática da OTAN (organismos que necessitam exercitar os músculos de seus diplomatas e soldados em férias compulsórias após a queda da ex-União Soviética), a África Setentrional, o Oriente Médio, uns tantos países asiáticos e sul americanos, precisam – sempre e quando isso for possível – continuar explorados e mantidos sob dependência como fornecedores de matéria prima e mão de obra escrava. E importadores de manufaturados. Tudo para o regozijo dos “homens de bem” que tanto se preocupam apenas com as liberdades humanas que lhes dizem respeito.

O cinismo midiático atual não deixa dúvidas quanto a isso. Antiga ou não, essa visão de mundo e essa teoria continuam a ser postas em prática, apesar de se apresentarem em novos e sedutores envoltórios, onde as insinuantes sereias do neoliberalismo tiveram e têm papel de destaque, não importando aqui que os novos Ulisses sejam de esquerda, de direita ou não tenham ideologia nenhuma. E não é pequeno entre nós o número de defensores dessa ignomínia, seja sob qualquer pretexto, inclusive o religioso.

Mas, salvo erro de avaliação, parece que o tiro, a qualquer momento, pode sair pela culatra. A insanidade dos grandes bancos mundiais e dos agentes financeiros do capital especulativo, onde a produção de mais e mais capital (real ou virtual) – incluídos aqui o tráfico de drogas e armas, cujo volume em bilhões de dólares não sofre qualquer tipo de controle – já supera em muito a produção de bens para o consumo.

Esse capital especulativo dá sinais de preocupação quanto ao futuro, não da humanidade (seria esperar demais dessa gente), mas com o futuro de seus próprios negócios, numa demonstração inequívoca de que todo o sistema pode estar à beira de uma crise não só de nervos, mas de anomalias mais profundas.

A ágora grega, outrora palco milenar de grandes festas e debates democráticos, transformou-se nos últimos meses em cenário de lamentações e revoltas, onde o desespero e a dor de milhões de cidadãos fez subir o índice de suicídios, numa antevisão macabra do que poderá ocorrer em outros países. O temor toma conta do mundo e a hora é de reflexão. Mais do que isso, talvez: é hora de ação.

Contudo, na contracorrente das manifestações e revoltas populares por inúmeras cidades no mundo, os insensatos apologistas de um sistema que vaza água por muitos lados e seus irresponsáveis porta-vozes midiáticos, insistem em nos fazer crer que determinados governos, os árabes em particular (muçulmanos ou não), bem como outros, eleitos democraticamente ao redor do mundo, são comandados por “ditadores” que merecem ser abatidos como cães para se dar a impressão de que a democracia ocidental e cristã que defendem (a sua, claro) é quase que a expressão de um direito divino. As cruzadas e a Inquisição não fariam melhor.
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. 
Se você consegue mostrar um ser humano cruel, ditador em seu país cheio de gás e petróleo, acuado, abatido como um animal selvagem dentro de um buraco, estuprado numa tubulação ou num fundo de quintal, salpicando as cenas seguintes com grupos fanáticos agitando bandeiras e armas em nome da “liberdade e da democracia”, como insiste a hipocrisia de Hilary Clinton e Obama, mais um passo é dado na manipulação de mentes e consciências. Um passo estratégica e maquiavelicamente preparado.

Os programas matinais e vespertinos de emissoras de rádio, “talk-shows”, novelas e séries de televisão, alguns filmes de Hollywood, denúncias jornalísticas de origem duvidosa, revistas semanais impressas muitas delas naquele papel do Alfredo, jornais diários despudoradamente pusilânimes, e isso em quase todo o planeta, formam o renovado e agressivo pelotão de frente da ideologia dominante, usando a força de imagens e palavras para iludir, confundir, levantar suspeitas onde muitas vezes elas não existem; encobrir crimes dos apaniguados e, criar, enfim, a impressão de que esse – se não é o melhor dos mundos possíveis – é o mundo que se tem. E devemos todos nos conformar com isso. Devemos?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU em 1948 diz em seu artigo 1º: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Parece incrível que estas palavras tenham sido escritas um dia, mesmo levando-se em conta as circunstâncias de terem sido impressas no final de uma guerra devastadora. A isso, entende-se. E com elas concordamos. Contudo, a memória capitalista é cada vez mais curta e seletiva, como convém a todos aqueles para quem o sistema é vantajoso, ou seja, os próprios donos do capital e seus vassalos.

A barbárie vai fazendo suas vítimas reais e virtuais, sob os clarins da indiferença de uns, da hipocrisia e do cinismo de outros e do regozijo daqueles que, cegos e surdos diante do sofrimento de milhões de seres humanos, insistem também debochadamente que o problema não é sistema econômico, o problema é o “ser humano”, e que esse não tem jeito.

O natal se aproxima. Sabemos que o Papai Noel não existe, mas como é bom acreditar no bom velhinho, não é mesmo? A árvore enfeitada e os presentes à sua volta dão validade ao espírito cristão por mais 24 horas, juntando os despojos de nova e lucrativa campanha consumista, bem como nos tranqüilizando a todos a consciência de bons cidadãos.

Exorcizados, preparamo-nos para os novos espetáculos da barbárie.

Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poeminha pós moderno

por Izaías Almada

Vou-me embora pra Miami
Lá sou amigo da grei
Lá tenho as dicas que eu quero
Dos golpes que aplicarei
Vou-me embora pra Miami
Aqui não sou nada feliz

Lá é que é tudo loucura
Tem gente de tudo que é lado
De Caracas são muitos esquálidos
De Cuba vão muitos gusanos.
De Buenos Aires, São Paulo, La Paz
Tem malandro contumaz

Todos se julgam de elite
Com inveja da gringolandia
Se amarram num badulaque
Que aqui é o ‘must’ IMPORTADO
Lá não sou branco, nem negro
No passaporte sou ‘outros’
Me olham meio de lado...
Não faz mal, tudo é pecado.

E quando estiver estressado
Dou um pulinho em Orlando
Chamo o Pateta e a Minnie.
Pra que me contem histórias
Do tempo em que eu era menino
E não sabia da vida

Vou-me embora pra Miami
Lá eu encontro de tudo
É outra civilização
Tem celular e iPad
De última geração
Tem arma, rifle automático
Tem cocaína à vontade
De preço bom e barato
Protegida pela CIA
E por um grande aparato...

Tem garota de programa
Para gente namoricar
E quando estiver com saudade
Triste de dar dor no peito
E no barzinho eu quiser
Falar mal do meu país
Falo e me sinto feliz...

Pois lá sou amigo do Bush
Do Aznar e do Berlusconi
Essa gente à La Corleoni
Com quem no passado aprendi...

Vou-me embora pra Miami
Lá sou amigo da grei
Tenho e dou assessoria.
Pra quem? Jamais contarei.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Teatro: o drama dos desaparecidos

O amigo Izaías Almada, colunista deste NR e também do Escrevinhador, terá mais um texto seu encenado no teatro. Como explicou ao NR, "É difícil dimensionar os efeitos psicológicos sobre os que tiveram seus entes queridos presos, sequestrados, mortos e desaparecidos durante a ditadura civil/militar de 64/68 no Brasil."  Ele conta que o mote da peça é  a descoberta de uma ossada no cemitério de Perus em 1991 que provoca um grande conflito entre mãe e filha ao receberem a notícia de que uma das ossadas era do marido e pai, respectivamente. "Os efeitos dessa tragédia, ainda perversamente ignorada pela sociedade brasileira, são visíveis em algumas mazelas que persistem no Brasil do século XXI", diz.



Izaías Almada e o drama dos desaparecidos


Nesta quarta-feira, tem início a 20ª edição do Festival de Teatro de Curitiba, um dos mais importantes eventos de artes cênicas do Brasil. Com duração até dez de abril, o Festival reúne mais de quatrocentas atrações, entre teatro, música, circo, stand-up comedy, dança e cinema. O dramaturgo e escritor Izaías Almada, colunista deste Escrevinhador, terá sua peça “Pai” encenada pela Cia Nuvem da Noite.
O texto inédito de Almada, adaptado e dirigido por Gilson Filho, conta a história de uma família que encontra o corpo de seu pai, um desaparecido da ditadura militar brasileira. A ossada é encontrada junto a outras centenas durante uma busca no Cemitério de Perus, em São Paulo. O enredo foca na chegada da informação à família, e como isso transforma a delicada relação entre mãe e filha, reavivando lembranças e revelando sentimentos abafados.
A peça será encenada nos dias 4, 5, 6 e 7 de abril, na Casa Hoffman, no centro de Curitiba. Mais informações podem ser encontradas no site do Festival.
Izaías Almada conversou com o Escrevinhador e nos contou mais sobre a sua peça.

A peça foi escrita baseada em alguma história em particular, algum episódio real?
Não foi propriamente uma história em particular, mas foi a partir da notícia da descoberta de ossadas em um cemitério da periferia de São Paulo, ainda no governo da prefeita Luiza Erundina. Havia suspeitas de que algumas dessas ossadas pudessem ser de prisioneiros políticos da ditadura que desapareceram. Como tive amigos nessa situação, em especial o Eduardo Leite, o Bacuri, e o ex-marinheiro Raimundo Costa, quis fazer uma homenagem a eles e a outros companheiros desaparecidos.

O objetivo do texto é sensibilizar o público frente a questão dos desaparecidos políticos? Ele tem como finalidade provocar um debate entre o público?
Sim, o objetivo da peça é sensibilizar o público para esse problema, mostrando que aqueles “terroristas” eram pessoas como qualquer um de nós, cujas as circunstâncias da luta política na época os transformou em opositores clandestinos, já que não havia alternativas para um pensamento oposicionista no país depois do golpe de 64. Mas a sensibilização ultrapassa esse primeiro patamar, pois também – nos dias de hoje – deve chamar a atenção para a efetivação e os trabalhos da Comissão da Verdade. E se isso provocar debates com o público após as apresentações, melhor ainda.

Qual a relevância do teatro abrir espaço para esse debate político?
No meu entender, o teatro, o cinema, a literatura, as artes de um modo geral, mas principalmente aquelas que mantém contato com um número maior de pessoas, devem estar sempre sintonizada com o que se passa à sua volta.

E qual é, na sua opinião, a importância de se debater esses temas?
Debater a questão dos direitos humanos será sempre importante, em qualquer época. Como o homem ainda não aprendeu a viver numa sociedade mais justa e efetivamente pacífica, nunca será demais tentar, através da arte, sensibilizar as pessoas para determinadas questões: a melhor distribuição da riqueza é uma delas. A luta contra a tortura e a violência policial é outra. A questão da soberania nacional será uma terceira. E por aí eu poderia nomear várias questões relevantes para se debater. Hoje e, pelo visto, sempre…

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Vamos refletir juntos?

Que tal se refletíssemos juntos, nesses dias que antecedem as eleições presidenciais de 03 de outubro, sobre fatos e questões do Brasil e do mundo contemporâneo? É sempre um exercício salutar de cidadania e de oxigenação do cérebro na pior das hipóteses. Com tanta informação, acabamos por perder a capacidade crítica sobre questões que influenciam o nosso dia a dia e o nosso pensamento. Será sempre interessante estarmos atentos a elas. Que tal respondermos a essas perguntas:

Vamos pensar com calma
1 - O que pensar quando o atual Prêmio Nobel da Paz, o presidente dos EUA, pede a morte de Osama Bin Laden?

2 - Como equacionar a questão: José Serra acusa Dilma Rousseff de violar o sigilo fiscal de sua filha Verônica, sem apresentar as provas. A Revista Carta Capital mostra a violação do sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros através de uma empresa dessa senhora em sociedade com Verônica Dantas, irmã do banqueiro Daniel Dantas, com provas.

3 - O que pensar de um pastor protestante norte americano que queria queimar o Alcorão?

4 - Estaria a atual imprensa brasileira, a velha mídia como já é chamada, se transformando numa espécie de delegacia policial, acusando cidadãos, sem conceder-lhes o direito de defesa?

5 - E o Poder Judiciário, como tem reagido a isso?

6 - Se o Brasil é um Estado Laico, por qual razão a Igreja tenta interferir com documentos e homilias pregando a votação contra a candidata governamental, alegando que seu Partido defende o aborto? E a pedofilia, qual a visão da Igreja sobre a questão?

7 - Por qual razão a crise econômica, iniciada em 2008 nos EUA, tem corroído a economia daquele país e a economia européia de um modo geral, e países como o Brasil têm se saído com razoável competência dos problemas?

8 - Será que de fato Deus é brasileiro ou ele só é brasileiro quando protege os ricos?

9 - Os senhores da guerra estão soando os seus tambores ou essa questão não interessa? Não temos nada a ver com isso?

10 - O legal é viver o “aqui e agora” e eliminar de vez a solidariedade nas relações humanas, tornando o mundo cada vez mais egoísta e violento?
Uma boa quinzena e um bom voto.

Izaías Almada é escritor, dramaturgo e colunista do NR.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Nem pato, nem ganso

Brazil, zil, zil, zil!...

Vem aí o Febeapá do futebol, o grande festival de besteiras que assola o país: Galvão Bueno, Arnaldo Cesar Coelho, Neto, Luciano do Vale, Milton Neves e outros menos votados...

Vem aí a enxurrada de lugares comuns de um nacionalismo tacanho e minúsculo que coloca a inteligência na marca do pênalti e distribui cartões vermelhos para quem se recusa a ser vaca de presépio ou ter opinião própria sobre as coisas, sobre a vida.

O nacionalismo mercenário que se confunde com grandes marcas transnacionais de artigos esportivos, bancos, bebidas, televisores, celulares e automóveis.

A seleção de Dunga não é unanimidade nacional, mas toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues.

“O Brasil em chuteiras!”... “O melhor futebol do mundo!”

O Brasil é isso, o Brasil é aquilo...

E o Ronaldinho Gaúcho? E o Adriano? E o Neymar?E o Pato? E o Ganso?

O BRASIL É ISSO: NEM PEIXE, NEM CARNE, OU MELHOR, NEM PATO, NEM GANSO...


Izaías Almada é escritor, dramaturgo, roteirista e colunista do Nota de Rodapé.

domingo, 21 de março de 2010

Vencedores da Promoção Literária Nota de Rodapé e Izaías Almada


Os sorteados e confirmados são:
- Antônio Gilson Brighaghao, Ribeirão Preto, SP
- Ana Beatriz Rodrigues, São Paulo, SP
- Marília Melhado, São Paulo, SP
- Damarci Olivi, Campo Grande, MS
- David José Carneiro de Santana, Vitória de Santo Antão, PE
Os vencedores têm até terça-feira (23) para enviarem o nome e o endereço completo para promocao@notaderodape.com.br para validar a promoção Nota de Rodapé e Izaías Almada ofereçem 5 exemplares autografados do livro Teatro de Arena - Uma estética da resistência da Boitempo Editorial.

sábado, 20 de março de 2010

Os últimos dias de Sandoval Herculano nas Terras do Taperebão


Amanhã tem o
sorteio do livro do colunista do Nota de Rodapé Izaías Almada. Serão 5 exemplares autografados do autor.

Sandoval era comunista. Ou melhor, carregou o estigma pelo resto da sua vida. Na verdade nunca soube o que era isso. Apenas achava que quem trabalhava a terra de sol a sol, mais dia, menos dia, tinha que possuir um pedacinho de seu para cultivar. Costumava dizer isso ao pai e aos dois irmãos que iam com ele trabalhar lá para os lados do Taperebão. Foi nos anos em que um tal de Jango foi presidente do país, logo depois que sua mãe morreu. “Deus esqueceu o Taperebão”, costumava dizer. O diabo, nem conheceu.
Filho mais velho de Milagres e Tenório Mariano, Sandoval cresceu tangendo e marcando gado numas terras que ninguém sabia muito bem de quem eram, mas que um tal de Zaqueu Totonho cercou e mandou um grupo de vinte homens armados vigiar. Cem hectares ao todo. Outros diziam que as terras eram do governo. Sandoval tinha também uma irmã, a caçula Marieta. Era ela quem tomava conta da casa. Quando a mãe morreu, Marieta tinha onze anos de idade e ficou mulher naquele ano mesmo.
Foi tudo muito rápido.
As ideias foram chegando por entre o mato e foram se ajeitando pelas vendas, nas conversas de beira de estrada e na cabeça do pessoal. A terra tinha que ser dividida. Tal qual no pensamento de Sandoval. Era preciso organizar os homens que trabalhavam a terra. Formar um sindicato. Zaqueu Totonho reuniu seus capangas e seus trabalhadores e disse que quem estava espalhando aquelas ideias era um pessoal chamado de comunista e que tinha ligação com os políticos da capital. Gente aparentada com o demônio. Sandoval ouviu o falatório de Zaqueu Totonho e pensou discutir o assunto em casa na hora do jantar. Não pôde.
Naquela noite não teve jantar. Marieta tremia de febre e tinhas as roupas e as pernas ensangüentadas. Foi gente do Zaqueu, disse a menina. O pai de Sandoval foi chorar escondido junto a cisterna. Os outros dois irmãos deram banho na irmã, trocaram a sua roupa e rezaram para Nossa Senhora do Amparo. Sandoval jurou vingança. Três dias depois apareceu com Marieta no Taperebão, a cavalo. Cheiro de sangue. Sandoval era homem sem medo. Um dos capangas de Zaqueu tentou interferir e foi abatido com uma foiçada na testa. O verdadeiro culpado não teve tempo para correr. Um tiro na nuca e outro no pulmão esquerdo. Zaqueu Totonho soube de tudo e considerou que a honra da menina estava lavada. Deixou que o pai de Sandoval e os irmãos continuassem trabalhando para ele, mas espalhou a notícia de que os comunistas é que tinham criado aquela situação.
Sandoval e Marieta nunca mais foram vistos no Taperebão. Dizem que ela é professora primária no Estado de Tocantins. Sandoval foi ser motorista de taxi em Belo Horizonte e Zaqueu Totonho foi eleito deputado estadual e vice-governador de Minas Gerais.

Izaías Almada
é escritor e dramaturgo e o conto acima foi tirado do livro MEMÓRIAS EMOTIVAS, Ed. Mania de Livro.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Frases memoráveis que nos encantam, decepcionam, emocionam, enraivecem, divertem...

Algumas semanas atrás escrevi aqui sobre frases infantis desconcertantes, frases que – ditas na simplicidade e na inocência das crianças – revelam, por vezes, grande sabedoria e inteligência.
Hoje quero escrever sobre frases que são ou se tornam inesquecíveis para muitos de nós, pois com certeza, em algum momento das nossas vidas lemos ou ouvimos frases que nos encantam, decepcionam, emocionam, enraivecem, divertem ou nos levam a reflexões menos ou mais profundas. Cada um terá as suas para contar. Eu selecionei algumas que me marcaram e gostaria de compartilhá-las com os amigos leitores.
A primeira delas vem de um grande comediante do cinema norte americano dos anos 30 e 40, Grouxo Marx, um dos famosos Irmãos Marx. Convidado para entrar num clube granfino de Nova Iorque (ou de Los Angeles, já não me lembro), deu a seguinte e genial resposta por carta:
“Agradeço o convite, mas jamais eu entraria para um clube que me aceitasse como sócio”.
A segunda pertence a um famoso político brasileiro dos anos 50, o então deputado Carlos Lacerda, conhecido como ‘O Corvo’, por sua postura agourenta, reacionária e conspirativa, entre outras, contra o governo nacionalista de Getúlio Vargas. Discursava Lacerda no Congresso, quando foi aparteado por um colega com a seguinte frase: “Deputado Lacerda, o que o senhor acaba de dizer entra-me por um ouvido e sai pelo outro”. Esperto como era e rápido nas respostas, Lacerda não teve dúvida:
“Impossível, excelência, porque o som não se propaga no vácuo”.
Brilhante resposta.
Henry Louis Mencken ou simplesmente H.L.Mencken, como assinava muitos de seus artigos no jornal Baltimore Sun, foi um jornalista e crítico de teatro nas primeiras décadas do século 20 nos Estados Unidos. Um livro sobre ele foi publicado no Brasil com tradução de Ruy Castro, um livro de leitura obrigatória, na minha modesta opinião: “O livro dos insultos de H.L.Mencken”. Mencken tem opinião sobre tudo e muitas delas transformaram-se em frases lapidares, irreverentes, demolidoras. Cito uma das mais inocentes:
“Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive”.
Ulisses Guimarães, deputado formado na antiga têmpera do PSD, um dos ícones do atual PMDB e morto em desastre de helicóptero há alguns anos, era tido como grande orador. Realizava mais uma de suas campanhas eleitorais, quando no inflamado discurso que fazia, falando sobre os menos favorecidos na escala social, acrescentou esta pérola:
“Pobre neste país só sente o gosto de carne quando morde a própria língua”.
Finalizo com a frase recente que ouvi de um escritor e jornalista norte americano, de nome Chris Hedges. Na entrevista que dava para um programa de televisão Hedges expressava sua decepção com a administração de Obama no seu primeiro ano de governo. O entrevistador, então, perguntou como ele entendia a entrega do Prêmio Nobel da Paz ao presidente dos EUA. Chris Hedges foi curto e grosso:
“Isso mostra que os EUA não têm o monopólio da estupidez!”. Brilhante.
A todos um bom início de ano, agora que passou o carnaval...

Izaías Almada é escritor e dramaturgo e colunista do Nota de Rodapé.

Novidade: promoção Izaías Almada e Nota de Rodapé dá 5 exemplares no total!


Gentilmente a Boitempo Editorial e o escritor e colunista Izaías Almada cederam mais dois exemplares do livro Teatro de Arena – Uma estética da resistência. Portanto, em vez de 3 (três) serão 5 (cinco) os exemplares sorteados e autografados pelo autor. O sorteio acorre no dia 21 de março. Para participar é preciso se cadastrar no “Boletim Rodapé” e confirmar sua inscrição no e-mail que receberá na sua caixa postal. Saiba mais. Boa sorte.
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