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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 12 de novembro de 2013

A esfinge, a mídia, e o rio


texto e ilustração por Ana Beatriz Rosa*

É difícil falar das violências simbólicas, dessas assim... estapafúrdias. Parece mesmo difícil falar das violências corriqueiras, normatizadas e naturalizadas no nosso convívio social. Falar sobre a violência do nosso cotidiano já parece tarefa árdua demais para um certo puritanismo-pacífico-opressor das grandes mídias – inibem as línguas e os corpos para fazer valer seu próprio conceito-notícia quando o assunto é a violência. Neste processo, uma ardilosa política dos “cidadãos de bem” parece ganhar corpo desde que as manifestações de junho iniciaram o seu work in progress. Entoar hinos de louvor em defesa de patrimônios e capitais e esquecer de pessoas – essas, de carne e osso – parece ter ganhado ares de normalidade.

De um lado parte da cobertura midiática parece entoar louvores aos bons modos durante as manifestações, de outro, para complementar, ecoam gritos condenando os possíveis “vândalos” que habitam entre nós. Sempre que penso sobre isso me vem um trecho do poema “Nossa truculência”, da Clarice Lispector que diz:
“(...)é preciso não esquecer/ E respeitar a violência que temos. (…) A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue/ e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical/ E quantos morrem com sangue/ É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida/ A truculência é amor também”. 
Parece mais fácil apontar vândalos entre nós que observar o vandalismo em nós, na maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Querendo brincar de separar o joio do trigo, as linhas editoriais das empresas que monopolizam a comunicação no Brasil (seis famílias controlam 70% da imprensa no país) parecem não se preocupar que algumas raízes possam estar entrelaçadas a ponto de dificultarem os cortes.

Não seria mais útil criar manuais? Vejamos... "Cartilha para o bom manifestante", ou quem sabe, "manifeste-se bem, para manifestar sempre". Talvez com as cartilhas os manifestantes possam melhor entender como servir bem para servir sempre. Um conjunto inteiro de cartilhas de etiqueta para protestos! Parece boa a ideia, não? E pode vender! Como manda o figurino.

Estou chegando à conclusão de que é mesmo difícil falar da violência. Parece ser difícil reconhecer violência em atos não “materiais”, estes que não estão ao alcance das mãos mas ainda assim perpassam os corpos. Como, em uma sociedade onde tudo se toca e dá valor (feito moeda de troca), perceber e condenar violências que não atacam bens, produtos e coisas, mas pessoas? Como fazer com que pautas como essas tornem-se fundamentais, para além das obviedades? Afinal, o que é mais violento? Quebrar paredes ou quebrar gente? A comparação parece esdrúxula? Também imaginei que sim, não fosse muita vidraça valer mais do que muita gente por aí.

Vai ser difícil ouvir em noticiários que o senhor que mora na minha calçada é violentado todos os dias. Que no corpo a corpo da pirâmide social todos nós nos violentamos enquanto sustentamos a paz e a boa vida dos 'inocentes do Leblon' como já poetizou Drummond. Que a moça que é estuprada é vítima, e sempre vítima de uma violência física e simbólica mergulhada no machismo nosso de cada dia. Que o Amarildo foi violentado, brutalmente violentado, e que tantos outros como ele também são. Que o diferente e estranho aos padrões de conduta da nossa moral 'partilhada' é violentado na sociedade dos iguais. Que o que escapa à heteronormatividade, ao patriarcado, que não é branco nem puritano, vai ser violentado mais dia menos dia. Que aquela criança que não precisa de gênero para se entender vai ser violentada pela limitação dos que mal se entendem...

Como é difícil ouvir alguém falar da violência urbana cotidiana, da violência do capital, da violência econômica, das segregações sociais, do preconceito, da violência do medo nas cidades.

O discurso de grande parte da nossa imprensa é violento quando desrespeita a comunicação como lugar de conhecimento e transformação do mundo, quando desrespeita grande parte população que raramente se sente representada. Tenho a impressão de que estes discursos produzidos também compõem a própria locomotiva da violência social, da violência do capital, da violência nas ruas, afinal.

Falar sobre a violência não é fazer apologia a ela. Ignorar que a violência existe todos os dias é. Fazer um recorte das manifestações priorizando os tais atos de “vandalismo” também. Talvez seja mais importante reconhecer primeiro a violência do Estado, do descaso dos poderes públicos, da ganância de muitos, da indiferença de tanta gente sobre as milhares de vidas condenadas à (sobre)viver todos os dias. É importante falar dos que morrem de fome e dos que sobrevivem com salários de fome também, porque viver está caro.

É importante, por fim, saber respeitar o rio quando as margens o oprimem demais, trata-se de respeitar uma sociedade que, como pode, está dizendo que como está não dá mais para continuar. Bertold Brecht tem uma frase muito bonita que já foi usada por muita gente de olhares atentos: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem” – pois já está na hora de começar a chamar. Por menos vidraças nos noticiários! “Decifra-me ou devoro-te”, é o que eu escuto das ruas.

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*Ana Beatriz Rosa, especial para o NR. É jornalista nômade e poeta praticante. Tem os sentidos voltados para experimentos artísticos e poéticas urbanas. Nas horas nem tão vagas garimpa olhares, palavras e ideias para o Café com Pitanga - um o espaço de comunicação antropofágica. Mora no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Mongolia: contra a crise na Espanha, o humor


É a receita de Mongolia, uma revista mensal que, com pouco mais de um ano de existência, tem como alvos privilegiados de seus ataques ferinos a monarquia e a Igreja, baluartes do conservadorismo espanhol

por Ricardo Viel, de Madri 
(o texto publicado é da Revista Retrato do Brasil, edição 71, junho de 2013, fruto de parceria mensal com o NR)
Em um pequeno povoado das Astúrias, no norte da Espanha, numa manhã de fevereiro, um senhor pregou no quadro de avisos da paróquia uma nota de falecimento. Nada de incomum por aquelas bandas, não fosse o fato de o anúncio tratar-se, em realidade, da capa de uma revista humorística e de o morto ser o primeiro-ministro espanhol, o direitista Mariano Rajoy. Em letras garrafais, a edição da Mongolia daquele mês informava algo de que muitos espanhóis desconfiavam: “Rajoy morreu”.

“Isso, de um senhorzinho avisar seus vizinhos de que esse governo está morto, é algo que, se fôssemos uma revista virtual, nunca aconteceria”, explica Eduardo Galán, 33 anos, um dos fundadores da revista mensal criada há pouco mais de um ano. “O papel é algo que tem mais impacto, nossa capa fica exposta nas bancas e instiga as pessoas a lerem a mensagem.” A ideia de “matar” o primeiro-ministro surgiu em janeiro passado, após a revelação de um escândalo envolvendo o financiamento irregular das campanhas do Partido Popular (PP), atualmente no poder. Rajoy demorou dias para dar explicações e, quando o fez, não convenceu. “Dizíamos entre nós: esse governo está morto, cheira como cadáver”, diz Galán. “Também fizemos uma brincadeira com o [diário espanhol] El País, que dias antes tinha publicado uma foto falsa do Hugo Chávez, sem apurar as circunstâncias. Fizemos igual: anunciamos a morte e esclarecemos que não sabíamos como nem quando tinha acontecido.”

Por provocações como essas, a publicação satírica vem conquistando fãs e desafetos no país de Cervantes. A revista é fruto do momento político e econômico pelo qual passa a Espanha. Foi criada por um grupo formado por cinco amigos – jornalistas, artistas gráficos e cartunistas –, que se viram desempregados ou subempregados por conta do “enxugamento” de vários meios de comunicação (e o fechamento de outros). A eles se juntou um advogado, espécie de mentor da trupe. Reuniram-se, conseguiram convencer três dezenas de conhecidos a bancarem, como acionistas, o projeto de 60 mil euros (cerca de 150 mil reais) e colocaram em marcha uma revista que mistura humor e jornalismo. Em meio à crise e utilizando uma plataforma considerada obsoleta por muitos (o velho papel), Mongolia parecia fadada ao fracasso. Não foi assim. A revista (que custa 3 euros por exemplar, cerca de 8 reais) teve uma tiragem inicial de 25 mil exemplares mensais e atualmente circula com cerca de 40 mil. O número de assinantes é crescente (hoje, beira os 2 mil) e em um ano o grupo lançou cinco livros relacionados com a publicação. Iniciaram a aventura com dinheiro suficiente para manterem-se por seis meses e hoje já não cogitam a possibilidade de fechar por falta de recursos – nem por outro motivo.

“Sentíamos que havia um espaço para uma publicação assim”, diz o argentino Fernando Rapa, 42 anos, responsável pela parte gráfica do projeto. “Ficamos 18 meses planejando, fizemos vários números experimentais e tínhamos medo de que alguém fizesse antes que nós.” Do Brasil, onde trabalhou em veículos como os diários Lance! e O Estado de S. Paulo, o desenhista trouxe algumas influências, como do Casseta & Planeta (da fase inicial, esclarece) e, principalmente, de O Pasquim. Também tem como espelho revistas satíricas francesas e argentinas e algumas publicações nascidas na Espanha no período posterior ao da ditadura de Francisco Franco (1938–1973) e que não existem mais.

Longe de ser um obstáculo, o momento atual se apresenta estimulante, dizem os criadores de Mongolia. Na década passada, época de bonança, em que todos os espanhóis acreditavam ser ricos (por conta dos empréstimos que os bancos ofereciam), não havia espaço para a contestação no país. O humor se afastou da crítica social. De repente, a bolha imobiliária estourou e a mensagem de que na Espanha não havia pobreza se esfumou. Vieram os protestos de rua e abriu-se espaço para o surgimento de uma revista que, com humor, coloca o dedo na ferida, diagnosticam os criadores de Mongolia. O fechamento, em 2007, do diário Público, o mais à esquerda que havia na Espanha e que agora mantém somente a versão on-line, foi a gota que fez transbordar o copo, avalia Rapa, ex-funcionário do jornal. “Os meios de comunicação tradicionais não atenderam a essa demanda que está nas ruas. Queríamos preencher esse espaço. Herdamos muitos leitores do Público, mas não só isso. Espanta-nos ver que nosso leitor é variado. Às vezes recebemos cartas escritas à mão, há muita gente idosa que nos lê.”

Mongolia tem uma política própria em relação ao conteúdo que produz. Nada do que é publicado em papel é disponibilizado virtualmente – a revista vive das vendas em bancas e das assinaturas e tem uma estrutura muito enxuta. Além disso, a ausência de publicidade (há pouquíssimos anúncios, todos ocupam pouco espaço e são, portanto, baratos) garante a independência necessária para atacar quem quer que seja. “Não somos contra a publicidade, só não aceitaríamos anúncios de bancos. E de prostituição, mas, nesse caso, enquanto for ilegal. A questão é que não podemos nos condicionar a isso”, diz Galán, o responsável, entre outras tarefas, pela divulgação da revista nas redes socais da internet. Embora aposte no papel, Mongolia tem mais de 80 mil seguidores no Twitter e 20 mil no Facebook. Algumas das brincadeiras feitas no mundo virtual acabam chegando à edição impressa. A internet também serve para medir o interesse dos leitores por certos assuntos e divulgar os muitos eventos que realizam – debates, viagens pelo país para promover a publicação, etc.

Para reduzir o custo e manter a independência, os fundadores da revista resolveram eliminar todos os intermediários possíveis. A cada edição, eles vão à gráfica, carregam os próprios carros com os exemplares impressos e os distribuem em Madri e arredores. O restante da tiragem é enviado por correio aos assinantes e distribuidores (como livrarias e bares) em outras cidades.

A primeira edição da revista, publicada em março do ano passado, trazia na capa a frase: “A Espanha tem uma saída (Barajas)”. Barajas é o aeroporto da capital espanhola, e a piada fazia referência à fuga, principalmente de jovens, em busca de trabalho em outros países – o desemprego na Espanha atingiu 27% da população economicamente ativa no final do primeiro trimestre, mas entre os jovens a taxa foi muito maior, 57%. No número seguinte, o alvo foi a monarquia: “O rei poderia estuprar você e nada aconteceria com ele”. A publicação listou cem coisas que o monarca espanhol, por ser, de acordo com a Constituição, uma figura “inimputável”, pode fazer e os demais mortais, não, como baixar filmes piratas na internet, fazer xixi na rua, etc. As edições seguintes foram “dedicadas” à Igreja, aos políticos, banqueiros e, em especial, à Casa Real.

A revista funciona numa sala minúscula, sem banheiro próprio, próxima à sede do Congresso dos Deputados (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira), em Madri. O lugar é sublocado. Até as seis da tarde, ali funciona uma empresa de criação gráfica; depois, a Mongolia. O espaço é usado, sobretudo, na semana de fechamento da edição. No restante do tempo, cada um dos membros da equipe trabalha em sua própria casa. No final de fevereiro, eles preparavam a edição que teve na capa a foto do rei Juan Carlos com um tomate espatifado na cara. “Não tenho dúvida de que graficamente é nosso melhor trabalho”, diz, sem disfarçar o orgulho, o humorista e roteirista Darío Adanti, 37 anos, outro argentino. No mês passado, a Casa Real foi novamente o alvo principal da publicação. Num truque gráfico, que combinava letras em tamanhos muito diferentes colocadas sobre a foto da filha do rei, a infanta Cristina – que está sendo investigada pelo suposto enriquecimento ilícito de seu marido –, lia-se em letras enormes: hija de puta. Uma fonte minúscula preenchia os espaços e a frase que se formava, quase imperceptível, era: “Filha dos reis da Espanha é imputada” (denunciada).

Os ataques à família real foram vários, mas foi contra os católicos radicais a principal briga. Por alterar a imagem “oficial” da Virgem de Macarena (padroeira de Sevilha) em um panfleto de divulgação da revista na cidade, o grupo foi atacado pelo prefeito e sofreu ameaças de morte. “O que não sabíamos era que a imagem da virgem tem copyright”, diz Eduardo Bravo. “Ou seja, por qualquer santinho que você queira fazer tem que pagar direitos autorais. Esses caras da Igreja vão direto pro inferno, serão os primeiros. Jesus Cristo falou dos mercadores, não foi? Esses aí podem rezar quanto quiseram que vão queimar”, se diverte o espanhol. “Disseram que iam fazer com a gente o que se fez na Guerra Civil [1936–1939], que iam nos matar e que ninguém ia encontrar nossos corpos. Há gente doente da cabeça, que precisa ir ao médico. Dizer que uma imagem de madeira é a mãe deles...”, diz Galán. “Só se fossem filhos do Pinóquio”, completa Bravo, recebendo os cumprimentos do xará, que gargalha com o comentário.

Assim trabalha a equipe de Mongolia. Ideias e piadas surgem a qualquer momento, em qualquer lugar: durante jantares, no táxi indo para um show, no bar tomando cervejas ou durante uma entrevista. Ainda que recheada de piadas inocentes ou sem maior objetivo do que provocar o riso, Mongolia é uma publicação que tem como principal marca a contestação, a crítica e a denúncia. Por trás do lema “Uma revista sem mensagem nenhuma”, há uma ideologia clara: a equipe é formada por ateus. E de esquerda. Muito mais à esquerda do que muitos dos que hoje na Espanha se dizem de esquerda, ressaltam os membros da equipe, que encaram as bancas como “trincheiras”.

Quando questionados sobre os limites para o humor, a resposta é simples: a lei. Não há tema tabu: morte, opção sexual, credo, raça, tudo pode ser piada, dependendo do bom senso e do aval de Gonzalo Boye, um advogado criminal de 47 anos que aceitou o desafio de editar a revista e atuar como “censor”. Tudo que é publicado passa por sua lupa legal. “Outro dia, iríamos fazer uma piada com uma pessoa que todo mundo sabe que é viciada em cocaína”, relembra Bravo. “Só que o Boye nos explicou que era um crime, que poderia dar cadeia. Chegamos à conclusão de que não valia a pena ir para a prisão por uma piada.” Na edição de abril, a revista saiu com um texto que tinha mais de 30% das palavras riscadas. Eram os vetos do advogado. Ao lado vinham suas anotações a caneta.

Curiosamente, uma das seções de Mongolia que mais sucesso e repercussão têm é a que é publicada nas últimas páginas da revista, a cargo do experiente jornalista catalão Pere Rusiñol. É a parte das reality news. Da página 30 à 45, o que se lê são reportagens investigativas, que tocam em assuntos que muitos jornais, por questões diversas, não se atrevem a publicar. Muitas das histórias são passadas por colegas de outros meios – anonimamente – que sabem que não conseguiriam publicá-las nos veículos para os quais trabalham. Escândalos envolvendo ministros, negócios escusos entre empresários e políticos, assuntos sigilosos envolvendo a monarquia, questões da transição à democracia que nunca foram esclarecidas (e ficaram esquecidas) são alguns dos temas que levaram a seção a ser considerada por muitos como exemplo do melhor jornalismo feito hoje na Espanha.

Embora publique piadas pesadas e denúncias graves, a revista, até agora, não sofreu nenhum processo. O número dois, que falava dos privilégios do rei, trazia na capa a advertência: edição para ser apreendida nas bancas. Nada aconteceu. “Nós levantamos duas hipóteses para não termos sido processados”, teoriza Galán de maneira brincalhona. “Para não dar publicidade à revista é uma hipótese. A outra é que tudo o que nós publicamos é verdade e eles não têm como contestar.”

Após um ano de existência de Mongolia, o balanço é amplamente favorável. Passados seis meses, os criadores começaram receber salários e a pagar os colaboradores – como acordado no início. Vieram vários prêmios, um deles, recebido no mês passado, pelo trabalho da publicação na defesa dos valores humanos. Os leitores e seguidores nas redes sociais continuam crescendo, e artigos elogiosos, como os que saíram nos diários americanos The New York Times e The Washington Post e no italiano Corriere della Sera, se acumulam. Artistas, escritores e intelectuais de importância na Espanha literalmente vestiram a camisa da revista e fazem publicidade gratuita.

Talvez o maior desafio seja manter-se no topo. “É, isso assusta”, diz Bravo, que coça a longa e grisalha barba. “Já falamos sobre isso. Há duas saídas. Uma é reinventar-se sempre. Ainda achamos que podemos melhorar. Eu sempre gosto mais da última edição. A segunda opção é ser como o Chaves [personagem humorístico da TV]: todo mundo já sabe o final da piada, mas é tão bom que todo mundo ri.”

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Democratizar a mídia não é tolice

por Pedro Mox*

Em meio à visita do papa, frio e neve em Santa Catarina, volta do Brasileirão, eis que leio o título do editorial do Diário Catarinense, do grupo RBS, salvo engano dia 15 do último mês: “democratização da mídia?”. Atentei ao texto.

A primeira frase já assusta: “Embora não seja uma demanda do país, mas de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada democratização da mídia tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros”. A conclusão mais óbvia e ululante é: manifestação que me interessa, ok; manifestação que não me agrada, não pode.

De fato é notável o contorno criado pela grande mídia desde os primeiros protestos em SP (os que não eram por vinte centavos) até a invenção do “gigante desperto”. Enquanto ela pôde ser utilizada como jogo político, tudo certo; quando pautou um tema deveras relevante – e nem um pouco interessante aos donos de jornal – passou a ser desacreditada e esquecida.

O próprio uso do radical pretende passar ideia, pejorativa, de alguém cego por sua crença. É importante, todavia, diferenciar o sectário – este sim adequado à descrição anterior – do radical, ou seja, que visa transformar pela raiz, por completo. E a mídia brasileira, sem dúvidas, merece uma reforma radical.

O texto segue na mesma balela de sempre, a tão enaltecida “liberdade de expressão” - que na prática é a liberdade de expressão do dono do jornal – e chega ao cinismo de dizer que “só quem não aceita conviver com críticas é que pode pretender a tutela sobre os meios de comunicação e da imprensa, que já são submetidos diariamente ao mais eficiente dos controles, a escolha livre do público.

Creio não ser a livre escolha ao meio de comunicação um dos mais eficientes métodos de controle, dado o festival de bobagens enfiado goela abaixo em qualquer um que assista televisão, seja na parte jornalística quanto o do entretenimento. Pior: cada vez mais e de maneira mais explícita, jornalismo e entretenimento se confundem, como se confundem também informação com propaganda e, neste caso específico, uma evidente propaganda ideológica.

Com alguns números, o texto argumenta que não há falta de pluralismo na mídia brasileira, visto existem milhares de publicações, sites, canais. E completa: “sob o falso pretexto de que os meios de comunicação são dominados por poucas empresas proprietárias que não refletiriam a pluralidade e a diversidade da sociedade, determinados fóruns e segmentos de partidos políticos pressionam governo e Congresso pela aprovação de uma lei com potencial para impor restrições à liberdade de informação”.

Entretanto, há de se ponderar uma série de questões. Mesmo com a grande quantidade de veículos, grande parte deles pertence a mesma empresa. A RBS, por exemplo, segundo o site Donos da Mídia, é a terceira maior detentora direta de veículos do país, com 18 emissoras de televisão, 21 rádios FM, cinco AM e oito jornais. Diante disso, é lógico que o editorial do Diário Catarinense seja contra a democratização dos meios de comunicação.

Quem se preocupa com a regulamentação da mídia não são fóruns ou clubes do bolinha, mas a sociedade. Pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas, mostrou que 75% dos brasileiros são favoráveis à criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Outra pesquisa, o “Perfil do Jornalista Brasileiro”, divulgada em abril último, também aponta que três quartos da categoria apóia a criação do órgão. Se todo ofício conta com alguma regulamentação, por que seria a imprensa detentora desta “aura de honra e justiça”?

A opinião do jornal, no editorial, de fato é o espaço para tal. Preocupa-me, contudo, a afirmação que discussões sobre democratização da mídia são tolices, fruto de desmiolados sem mais o que fazer; quando ela é de extrema relevância para país. Quiçá por isto, tão temida e combatida.

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma imagem que diz muito

A foto é do G1. Quinta-feira das mais tristes da história de São Paulo. NR acompanhou pelo facebook, veja o que publicamos lá. http://www.facebook.com/notaderodape


quinta-feira, 21 de março de 2013

A mídia e o Papa


por Celso Vicenzi*

Nos últimos dias o noticiário sobre a eleição do novo papa tomou conta da mídia brasileira. Entre o ufanismo inicial e o (quase) desapontamento final, seguem algumas observações.

Não se sabia, até a renúncia de Bento XVI, que o Brasil era um país com tantos “jornalistas vaticanólogos”. Muitos deles sem nunca terem colocado os pés no Vaticano. No máximo, como turistas.

Os nossos “jornalistas vaticanólogos”, com raras exceções, divulgaram notícias que oscilaram entre a obviedade e o triunfalismo. Mais fácil ler direto no Google.

Ao tomar conhecimento de que outros “especialistas” apontavam o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como um dos candidatos com boas chances, a cobertura tupiniquim entrou em campo em clima de jogo de futebol. Brasil zilzil... Um verdadeiro espetáculo de torcida organizada. Vai que é tua, Odilo!

Odilo foi, viu,votou, mas não venceu. Deu zebra! Nenhum dos candidatos apontados pelos jornalistas foi eleito. Tomaram um baile dos cardeais. A Argentina venceu de goleada, pelo que disseram depois.

A exemplo do que acontece com nossos cronistas esportivos, somos especialistas também em comentar “depois do lance”. E de uma hora para outra – sem fontes – soube-se que já no conclave anterior Bergoglio teria sido o segundo mais votado. Ora, então por que não estava entre os favoritos?

Em Santa Catarina, vários jornalistas chegaram a cogitar a hipótese de um papa catarinense. Rendeu manchete. Sim, tudo era possível. Mas jornalistas não são pagos para fazer análises fidedignas dos fatos? Para investigar com boas fontes mais do que fazer torcida? Infelizmente, tudo muda muito rápido. Jornalismo tornou-se algo bem próximo do entretenimento, e jornalista, não raro, vira personagem das reportagens. De narrador oculto a estrela dos fatos. Muito distante das lições do mestre Joel Silveira: “Jornalista é para ver a banda passar. Não é para fazer parte da banda”.

Muito se falou que a preferência do Vaticano seria por um papa mais jovem. Quem disse isso deve ter faltado às aulas de comunicação e marketing. Com tantas horas de mídia gratuita cada vez que morre um papa e se elege outro, é um bom negócio não escolher um papa muito jovem, não é?

E agora que foi aberta a “porteira” para a renúncia por “motivos de saúde”, salvo se o papa for muito idolatrado, tudo indica que a fórmula pode vir a ser usada mais vezes.

Impressionante a quantidade de espaço, em todas as mídias. É bom lembrar que, embora o cristianismo seja a maior corrente religiosa, a maior parte do planeta não professa a fé católica, mas o islamismo, o hinduísmo, a religião tradicional chinesa, o budismo e o sikhismo, entre outras. A cobertura é desproporcional à real importância global. Por tão generoso espaço, o Vaticano, penhoradamente, agradece.

Por trás de todo o discurso da fraternidade e solidariedade, há uma Igreja que se autointitula única, a verdadeira, a do papa infalível, e diz que fora dela não há salvação. Ao tentar impor um só Deus para todas as culturas, abrem-se as portas para os conflitos. Embora o discurso seja de paz, as religiões estão na raiz de muitas guerras. Ontem e hoje.

Nessa imensa centimetragem de jornais e infindáveis horas de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais – quanta overdose! – pouca coisa se viu sobre as intrigas do Vaticano e a onipresente mistura entre religião e política. O tom foi quase sempre igrejeiro, tudo divino e maravilhoso. Mas há esperança: eu, por exemplo, sou um crente. Creio na boa reportagem jornalística. Tenho fé que nem tudo está perdido.

Mesmo com tanto oba-oba, em tempos de redes sociais, não deu para represar as denúncias de envolvimento ou omissão do novo papa com a ditadura argentina. Há muito ainda para explicar.

Pelos próximos anos, a pauta da pedofilia abre espaço para a da tortura nos porões da ditadura. O Vaticano tenta, mas não consegue exorcizar os seus fantasmas.

É quase certo que teremos um papa populista e conservador. Contra o casamento gay, contra o aborto, contra a ordenação de mulheres na igreja. Talvez um aliado em alguns embates contra a vergonhosa acumulação de riqueza no planeta. Mas de leve, porque o telhado do onipotente Vaticano também é de vidro.

A escolha de um papa não europeu, e especificamente da América Latina, é uma tendência que pode se repetir no futuro. No último século, o número de católicos europeus caiu pela metade e hoje representa apenas 25% do total mundial. Na América Latina a tendência é oposta. Na região já se concentram 42% dos fiéis do planeta, e estima-se que até 2050 esse número terá crescido mais de 40%.

A eleição de um papa argentino renovou o estoque de piadas dos humoristas brasileiros no mínimo até a próxima década.

As minhas contribuições, a seguir.

Não bastasse o Messi, agora temos um papa argentino. Não dá mais para dizer que Deus é brasileiro.

A Argentina foi com Jorge Mario (Bergoglio). O Brasil deveria ter escalado Mario Jorge (Lobo Zagallo): “Zagallo é o papa” tem 13 letras!

São tantos os escândalos sexuais da Igreja Católica que a fumaça no conclave do Vaticano bem que poderia ter saído em cinquenta tons de cinza.


*jornalista, Celso Vicenzi é ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia, com passagens por rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. O autor autorizou a publicação no Nota de Rodapé.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ele enganou o El País?

NR entrevista Tommaso Debenedetti, 43 anos, que se diz professor de literatura e história em Roma, com “vida normal” e pai de “dois filhos”. Ele afirma ser o responsável por plantar a falsa foto de Hugo Chávez publicada na capa do jornal espanhol El País no mês passado. Além desse ato, Debenedetti alega ser o autor de outras mentiras publicadas em jornais e divulgadas na internet nos últimos anos.

por Ricardo Viel, de Lisboa

No último 24 de janeiro o prestigiado jornal espanhol El País cometeu um erro que custou à empresa cerca de 300 mil euros e arranhou profundamente sua credibilidade: publicou uma suposta foto do presidente venezuelano Hugo Chávez sendo operado em um hospital cubano. Como se confirmou em seguida, não era Chávez, mas uma fraude grosseira.

Durante a madrugada daquela sexta-feira, o periódico espanhol, após perceber o erro, colocou em marcha uma operação para resgatar seus exemplares das bancas. Conseguiu, em parte, recuperá-los e substituí-los por outra edição, mas a foto falsa já havia se espalhado pelo internet – onde o jornal também a publicou com destaque em seu site.

Como foi possível que um dos mais prestigiados periódicos do mundo cometesse um erro tão grosseiro? Parte da resposta deu o próprio jornal, ao publicar no domingo dia 26 um extenso relato em que conta, passo a passo, a sucessão de erros cometidos até a publicação da imagem (leia aqui).

Falhas tão absurdas como, por exemplo, não contatar o seu correspondente na Venezuela e nem sua colunista em Cuba. O jornal relata que a foto foi comprada por 15 mil euros de uma agência que prestava serviços ao jornal. Venderam a foto como tendo sido feita por uma enfermeira cubana que tinha familiares na Espanha. Era mentira.

O que o jornal não explica é como essa foto chegou à agência. Um personagem pode ter a resposta. Tommaso Debenedetti é um italiano que ficou famoso em 2010 quando foi desmascarado (o próprio El País publicou uma entrevista muito divertida com ele).

Durante dez anos o jornalista inventou entrevistas que nunca aconteceram e as vendeu para pequenos jornais da Itália. Foram mais de cem, com personalidades como Mijaíl Gorbatchov, Dalai Lama, Joseph Ratzinger, além de dezenas de prêmios Nobel de literatura. Ficou conhecido como o campeão italiano da mentira, e foi descoberto quando o escritor norte-americano Philip Roth, indagado sobre uma suposta entrevista em que criticava Obama, disse nunca ter feito tal afirmação. Foi quando a farsa veio abaixo.

Debenedetti classifica suas mentiras como um “jogo literário” e continua gerando falsas notícias na rede. Recentemente criou um perfil de Vargas Llosa no Facebook e plantou declarações polêmicas publicada por vários meios como sendo do Nobel peruano.

No ano passado, o italiano “matou” o escritor Gabriel García Márquez e Fidel Castro. Agora, assegura ser o autor da falsa foto que o El País publicou. O Nota de Rodapé o entrevistou por email. Leia a seguir.

O "campeão" da mentira Debenedetti (Foto: Stephanie Gengotti / Iberpress / Caters)

NR – Foi você que fez a foto que o El País publicou?
TD – Sim, eu sou o “autor” da falsa foto de Chávez publicada pelo El País. Posso dizer que se tratava de um jogo, um jogo de suplantar midiaticamente uma notícia para denunciar a falta de credibilidade dos meios.

NR– Como foi que criou esse jogo?
TD – No dia 10 de janeiro, por circunstâncias casuais, encontrei no Youtube o vídeo de um homem sendo entubado. Pensei: “parece um pouco a Chávez. Um pouco não, muito!” Portanto, como um jogo, tomei uma foto desse vídeo e a enviei a três agências de notícias, uma na Costa Rica, outra na Venezuela e outra de Cuba. Enviei a foto de uma conta falsa no nome do ministro venezuelano de cultura Pedro Calzadilla. Mandei com as seguintes palavras: o comandante Hugo Chávez hospitalizado em Havana. Não recebi resposta e a foto não foi publicada, mas dois dias depois um homem que se apresentava como jornalista cubano respondeu o correio: “muito importante, vamos enviar a Porto Rico e Madri.” Dias depois a conta de e-mail falsa que eu criei foi bloqueada, não sei por que, e não tive mais respostas. Só na manhã do dia 24 a foto apareceu na capa do El País. Tenho para mim que a foto foi enviada a Madri por jornalistas cubanos com duas finalidades: tirar dinheiro e, sobretudo, desacreditar o El Pais e, de certa forma, a imprensa ibérica.

NR – Teme ser processado? Recebeu algo pela foto?
TD – Ninguém me ameaçou e eu não tenho nenhum medo de ser processado: sou o autor “intelectual” da farsa, mas não tenho responsabilidade nenhuma na publicação da foto por um periódico. Não me deram qualquer dinheiro pela foto.

NR – Crê na versão que o El País dá sobre toda essa história?
TD – Acho que a reconstrução que o jornal faz é justa e verdadeira. Mas eu, como “autor” da foto e quem iniciou sua circulação, posso dizer que o jornal foi claramente vítima de uma manobra política que não deve ser ignorada. Repito: creio que de dentro de Cuba alguém quis desacreditar a imprensa europeia e por isso inventou essa história de que a foto teria partido de uma enfermeira cubana com familiar na Espanha.

NR – Mudando um pouco de assunto. Gostaria de saber sobre as entrevistas que o senhor criou. Como as justifica? Nesses casos o senhor recebeu pelo trabalho?
TD – As entrevistas eram jogos literários. Eu recebi 20 euros por cada entrevista, e só isso. Era um jogo de suplantar a identidade própria da literatura do último século. Eu gostava muito de fazer e a imprensa italiana, onde normalmente ninguém checa qualquer informação, me ofereceu a possibilidade de fazê-lo.

NR – Depois das entrevistas falsas, o senhor partiu para as redes sociais. Criou perfis falsos e plantou notícias. Há alguma surpresa que está preparando?
TD – Continuo com o Twitter e tenho duas grandes surpresas: um texto literário que aparecera assinado por um grande escritor Prêmio Nobel e que é, na verdade, meu. Também sou o autor de vários erros no Wikipédia. Faço para demonstrar como falta credibilidade na internet. Eu aconselharia os jornalistas a ficarem atentos com textos e fotos que são apresentadas como exclusivas. O caso Chávez pode se repetir em outros países.

Finalizada a entrevista durante a semana passada, Debenedetti enviou-me uma nova mensagem, em que dizia:

Posso lhe passar outra informação sobre ideias minhas futuras. As contas do Twitter do Papa (especialmente as em inglês, espanhol e português) não são seguras: é muito fácil encontrar o password e entrar. Se o Vaticano não muda seus critérios, será possível para mim escrever tweets com o nome do Papa. A mesma fragilidade de senhas há no Brasil com duas personalidades. Um famosíssimo escritor e um político. Saudações, Tommaso Debenedetti

Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cansei de ser honesto

Cansei de ser honesto. Daqui por diante roubarei, passarei a perna nos outros, seguirei à risca nossa famosa lei de Gérson, “levar vantagem em tudo”. Para me livrar de toda e qualquer acusação, direi apenas: sou jornalista.

Claro, isto é uma grande bobagem – a primeira parte, apenas. Infelizmente. Foi o que pensei ao assistir a retirada dos nomes de Policarpo Júnior, redator-chefe e diretor de Veja em Brasília, e de mais quatro jornalistas da CPI do Cachoeira, no final do ano passado. Policarpo relaciona-se com Cachoeira, segundo o relatório, desde 2004, atuando em favor do grupo do contraventor. Servir também “aos desideratos valorativos e às visões de mundo que movimentavam uma determinada linha editorial”, como explica reportagem de Carta Capital. A CPI pedia o indiciamento de PJr por formação de quadrilha.

Em suma, no mínimo uma séria investigação deveria ser feita, e foi, por parte da comissão. Entretanto seu resultado será nulo.

Em seu site, no texto que relata a retirada dos nomes, Veja trata o relatório como “ataques à imprensa”, “tentativa de atingir sua credibilidade”. No entanto, as dezenas de capas publicadas com denúncias infundadas, falta de provas e textos tendenciosos são plenamente aceitos em sua redação. Suposições transformam-se em fatos, e ninguém se importa com provas. As gravações com conversas entre Policarpo e Cachoeira, bastante contundentes, parecem entretanto não convencer seus editores.

O jornalista Luis Nassif, autor de ampla análise sobre o semanário, resume o “método Veja de fazer jornalismo”: Veja se especializaria em “construir” matérias que assumiam vida quase independente dos fatos que deveriam respaldá-las. Definia-se previamente como “seria” a matéria. Cabia aos repórteres apenas buscar declarações que ajudassem a colocar aquele monte de suposições em pé.

O juiz britânico Brian Levenson
A liberdade de imprensa é, sim, direito assegurado a todo jornalista. Da mesma forma, está escrito no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, muito próximo ao direito à informação: “a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas”. Porém, estranhamente esta parte nunca é citada pela grande mídia que adora reclamar qualquer questionamento como “censura”.

Tal liberdade também precisa ser analisada com critério, levando-se em conta quem comanda a telecomunicação no Brasil. Basicamente, podemos dizer que seis grupos pautam o noticiário em nosso país – aí incluídos jornais, TVs e rádios: Globo, Abril, Folha, Estado, Bandeirantes e Record. Apenas a Abril, dona da Veja, detém 74 veículos, conforme o site Donos da Mídia. Toda a proposta de regulamentação é tratada como tentativa de censura, ainda que emissoras sejam concessões públicas. Enquanto isto, no Reino Unido, o juiz Brian Leveson recomenda a existência de uma lei de imprensa, após os escândalos com o magnata das comunicações Rupert Murdoch.

A grande mídia age defendendo claros interesses políticos e econômicos – todavia travestidos na carapuça da “imparcialidade e objetividade”.

Quando um prédio desaba, o engenheiro responsável é procurado. Se esquecer um bisturi na barriga de alguém, o médico sofrerá consequências. Então por que jornalistas não devem ter responsabilidades, ou pior, não podem ser investigados quando agem com má-fé? A imprensa não está acima do bem e do mal, embora goste de pensar assim, e deve obedecer às mesmas leis que qualquer cidadão. Ao escrever, o jornalista tem o dever de informar sem distorcer informações, como diz o juramento que fazemos todos os egressos desta academia. Torçamos para que assim seja.

Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A síndrome Safatle/Dutra (I)

O deputado José Genoíno ao declarar em Brasília na última semana, um dia antes da sua posse legal e garantida pela Constituição, que o atual jornalismo brasileiro se transformou em nova forma de tortura dos cidadãos, escancarou para o país a sua divergência com o governo quanto à necessidade de uma reforma da Lei de Meios no Brasil.

Não que o tenha feito com essa intenção, o que posso garantir por conhecer o deputado, mas foi o desabafo de um brasileiro que se sente perseguido e injustiçado pela forma com a qual a imprensa e o judiciário trataram a questão do “mensalão” (que ainda não se provou, é bom que se diga) e que mostra claramente a diferença entre os que lutam toda a vida, como dizia Bertolt Brecht, e os que lutam por pouco tempo, em particular aqueles que se deixam levar pelo canto da sereia do poder.

O episódio é emblemático para a agenda política de 2013, ano em que o xadrez eleitoral mexerá suas peças com muito cuidado por parte do governo e – para não fugir ao figurino – incivilizadamente por parte da oposição. A atitude da presidente Dilma, adiando a discussão sobre a Lei de Meios, poderá sair cara ao governo, pois evidencia uma estratégia, se é que se pode chamar assim, no mínimo incoerente para um governo que fala e age democraticamente, promove distribuição de riqueza, é verdade, mas que a distribui desproporcionalmente, considerando-se o número de contemplados, quando despeja milhões e milhões de reais a mais para o maior inimigo da democracia brasileira no momento, a imprensa venal e o oligopólio de seis famílias em que se sustenta.

A tese do “controle remoto”, tão ao gosto da presidente Dilma Roussef, é uma falácia que depõe contra a sua sensibilidade e inteligência. Uma metáfora recorrente e de gosto e constatação duvidosas, que se contrapõe a realidade, pois poderemos mudar de canal, emissora de rádio ou jornal e a má qualidade do que se vê e lê, bem como a manipulação da informação, será sempre a mesma. E nessa manipulação no terreno da política, nos últimos dez anos, a vítima tem sido invariavelmente o governo, em particular o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores.

Para não voltar muito no tempo, basta que olhemos as recentes e indefectíveis retrospectivas das revistas semanais, dos jornalões e dos canais de televisão do ano que findou e lá estará estampada entre outras e sem o menor pudor esta pérola: o ano em que se começou a combater a corrupção no Brasil. Dá para levar a sério? A quem querem enganar? Quem começou combater a corrupção, o STF? De qual corrupção está se falando? A do Banestado... lembram-se? A da lista de Furnas, onde até o assassinato de uma modelo tenta-se encobrir? Da Privataria tucana? Da CPMI Veja/Cachoeira, que não ouviu a bandidagem? E as concorrências para obras do metrô na cidade de São Paulo, a Alston e a corrupção investigadas na Europa? O Rouboanel e inúmeros outros casos de corrupção comprovada contra o patrimônio público em vários estados da federação que nem sequer são lembrados pela mídia, envolvendo do DEM, O PSDB, o PPS, etc?... A propósito, aguardo com ansiedade o novo livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Chega a ser indecente, para dizer-se o menos, essa tentativa de parte da oposição brasileira em querer tapar o sol com a peneira, esquecendo-se da corrupção em que está atolada até o pescoço e que já ultrapassou há tempos qualquer limite de irresponsabilidade, e querer imputá-la aos seus principais adversários. Tudo sob o exercício do jornalismo irresponsável e de mão única, selvagem e mentiroso, esse que a presidente procura defender sob argumentos pouco sólidos.

Imoral não é a posse do deputado José Genoíno, como querem alguns, inclusive em nichos de esquerda. Imoral é atacar a democracia pelas costas, desrespeitar a constituição e vender o Brasil por trinta dinheiros, tentando se criar um clima de violência e insegurança.
E assim entramos em 2013. Dúvidas, esperanças, temores. Cada ano novo se inicia da mesma maneira para qualquer um de nós. Aos mais velhos resta a amargura de ver que pouca coisa muda no terreno das esperanças, que aumentam as dúvidas e – dependendo do otimismo ou do pessimismo de cada um – revigoram-se os temores.

O mundo continua a digerir a crise econômica iniciada em 2008, com o governo de muitos dos principais países ricos ainda às escuras e às apalpadelas, buscando apagar o incêndio, mas sem saber se não sobram brasas adormecidas que o possam reacender sob pequenos ventos a surgir não se sabe bem de onde. A propósito, recomendo a leitura do artigo do economista Paul Krugman e se encontra traduzido no portal Carta Maior.

O estrago causado pelo neoliberalismo econômico com as suas teses de estado mínimo e mercado máximo, os prejuízos causados a milhões de trabalhadores na Europa, nos EUA, parte da Ásia e África, o salve-se quem puder geral, mesmo com o surpreendente desempenho da América Latina nesse novo cenário nos últimos anos, configuram o traçado de uma nova geopolítica de atenção, com viés de sinal amarelo, deixando a humanidade em suspense e ansiosa para o que poderá acontecer nesse 2013 que se inicia.

O estado de saúde de dois grandes líderes, Nelson Mandela e Hugo Chávez, não trazem bons augúrios, bem como a possibilidade de nova intifada na Palestina. Por aqui, teremos que agüentar a direita relinchar pelas páginas dos jornais, câmeras de televisão e microfones de rádios, destilando o seu veneno de falsa democracia e exercendo (ou impondo) o seu direito de crítica sem resposta, num dignificante exemplo de como entende e pratica da democracia.

Imoral não é a posse do deputado José Genoíno, como querem alguns, inclusive em nichos de esquerda. Imoral é atacar a democracia pelas costas, desrespeitar a constituição e vender o Brasil por trinta dinheiros, tentando se criar um clima de violência e insegurança. Exigir a autocrítica e a renúncia de homens como Genoíno e Dirceu pode, a princípio, parecer um ato de sabedoria política, mas no fundo implica em aceitar a condenação imposta por um julgamento de exceção, por um tribunal de atitudes parafascistas. E com o fascismo, todo cuidado é pouco! Venha ele de onde vier...

Izaías Almada, escritor e dramaturgo, mantém a coluna mensal Pensando Alto

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Cheiro de tinta


Não
sou dada a futurologias. Gosto mesmo é do odor da naftalina, da cor sépia das fotografias, do papéis amarelados. Talvez pelo fato do passado deixar marcas, manchas, trilhas tangíveis, ao passo que o futuro é tão somente uma assombração de promessas.

Mas, apesar do amor pelas coisas pretéritas, não sou do tipo nostálgico. Não posto fotos do meu eu jovem no facebook. Também não cultivo saudades. De forma alguma acho que o tempo passado seja melhor ou superior ao tempo presente.

Ele foi apenas distinto. Hoje, pouco a pouco, vou me acostumando a ler jornais na tela. É muito dinâmico, pois foco na notícia do meu interesse e checo em veículos diferentes como ela foi trabalhada. Aqui vale um parênteses: vejo tudo muito parecido, nada autoral.

Dá a impressão que um jornalista copiou do outro, mudando ou acrescentando um detalhe embaixo, outro em cima. Tenho a sensação de que ninguém quer se comprometer. Como se fosse apenas um bater o ponto. Um se desfazer rapidamente de um encargo chato.

Creio que os jornalistas da web devem atentar para a relação íntima entre a qualidade e a diversidade no tom e no estilo. Basta conferir a história de dois gigantes de papel que morreram faz pouco tempo. Falo do carioca Jornal do Brasil (1891-2010) e do paulistano Jornal da Tarde (1966-2012).

O Jornal do Brasil, JB, teve longa vida de influência e importância. Foi referência como "jornal do país". Fez reformas editoriais e gráficas copiadas muitas vezes pela concorrência. Foi o primeiro a inventar um caderno B. Durante décadas serviu como contrapeso ao O Globo. Agora existe uma versão digital, mas na verdade só carrega o mesmo nome.

Já o Jornal da Tarde, JT, teve vida bem mais breve. No entanto foi brilhante na sua proposta inicial de inovação de texto e de paginação. Produziu capas memoráveis, legítimos "quadros" para, com gosto, a gente pendurar na parede. Ele apostava no visual bonito e leveza verbal muito antes da internet.

Na minha modesta opinião, creio que os dois começaram a morrer tempos antes das suas rotativas calarem. A agonia teve início quando cada um abriu mão da inovação e ousadia que, em boas fases, os caracterizaram. Os diferenciaram da maioria.

O leitor abandonou o Jornal do Brasil quando seus editores abriram mão ou perderam colunistas de primeira. Quando seu estilo passou a não cheirar e nem feder. Idem o leitor do Jornal da Tarde que não se sentiu disposto a acompanhar uma proposta cada vez mais ligeira e desimportante.

Uma bênção do passado é a de abrir os nossos olhos. Por exemplo, enxergar que o sucesso precisa ser renovado dia a dia. Não é tatuagem permanente, nem louro para se dormir. Os jornais digitais ainda não encontraram o ponto do doce.

Os webjornalistas precisam rapidamente ousar. Necessitam pôr tom e estilo em seus textos. Caso contrário, os leitores de notícias vão migrar em massa para os portais gerais e para o São Google. Nada é para amanhã.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

domingo, 1 de julho de 2012

Realpolitik, golpes e pitbulls...

Dias de fotos emblemáticas, fatos inesperados e o rosnar de pitbulls, quero dizer, dos analistas políticos do Partido da Imprensa Golpista, para os quais, aliás, o presidente do Equador Rafael Correa, em discurso no encerramento da Rio+20 foi brilhante, ao explicar didaticamente para incautos e incultos o significado da guerra silenciosa entre os que querem um mundo melhor e os indefectíveis defensores da treva enfiados nas redações de jornalões, revistões e televisões.

Guerra dissimulada sim, esta que se trava entre o que resta de dignidade ao mundo atual e os pitbulls da mídia nativa e internacional. Mundo em que tudo se transformou e se transforma em mercadoria, principalmente a opinião desses jornalistas pagos para defender os próprios interesses e também os interesses da imprensa “democrática”, isto é, a sua.

Desmascarar os pitbulls e citar-lhes os nomes já não é preciso. Basta, para aqueles que ainda têm estomago, assistir a alguns telejornais, ler três ou quatro pasquins do Rio de Janeiro e São Paulo e duas revistas semanais e está formada a rede de informação que se transformou em partido político de viés direitista e conservador não registrado (ainda) nos Tribunais Superiores Eleitorais.

Esse mesmo partido que acaba de ajudar a “destituir sumariamente” (novo eufemismo para golpe de estado, segundo nota do governo brasileiro) o presidente paraguaio Fernando Lugo.

Numa fotografia amarelada pelo tempo, mas ainda presente nas paredes das salas de latifundiários, especuladores financeiros, empresários de enriquecimento fácil, empresários midiáticos, algumas casernas, altares empedernidos e políticos venais, pode-se distinguir com razoável nitidez as impressões digitais do tal rito sumário: o governo dos EUA e a Igreja, foram os primeiros a reconhecer e apoiar o novo governo paraguaio.

O golpe de estado é, antes de tudo, um câncer que afeta a democracia. Ensaiado há três anos em Honduras dentro de nova configuração política da América Central e do Sul, já que invoca a própria constituição do país em defesa dos interesses golpistas, volta a ser praticado no vizinho Paraguai.

Início de uma metástase? Se assim for, é preciso cortar o mal pela raiz, já. Não é nada difícil descobrir na constituição de cada país artigos que possibilitem o impeachment de um presidente da república. Ou presidenta.

Toda indecisão, tibieza, vacilo ou indiferença ante o golpe perpetrado em Assunção poderá significar a retomada de um passado que os povos sul americanos gostariam de ver erradicado para sempre. Em particular indígenas, negros, trabalhadores da cidade e do campo, ainda que disto muitos não tenham a consciência política, mas apenas a necessidade orgânica.

Antecedendo ao golpe de estado no início da semana, mas não menos importante, a aliança política com o grande corrupto e financiador da violenta repressão no Brasil dos anos 60, assinada entre o PT e Paulo Maluf não se justifica, quanto a mim, sob nenhuma hipótese. E não me venham para cá com exemplos de realpolitik ou coisa que o valha, pois admito que, em determinadas circunstâncias políticas, se façam alianças entre adversários políticos e mesmo ideológicos. Mas com um homem que é procurado pela Interpol por prática de altíssimo grau de corrupção é um tapa na cara de milhões de brasileiros.

Paulo Maluf desviou para paraísos fiscais milhões de dólares roubados ao povo brasileiro e ajudou a financiar um dos mais violentos aparelhos repressivos no país, a Operação Bandeirante (Oban), que se tornaria o embrião do Doi-Codi, onde se torturou e matou cidadãos brasileiros que um dia lutaram para derrubar a ditadura e pela volta da democracia ao Brasil.

Coisas do passado, já dizem alguns. Até porque, dizem outros, a direita nesse momento se chama José Serra. São coisas do passado?!... Como?!... Coisas do passado?!... Quer dizer, então, que a Comissão Nacional da Verdade é mesmo uma brincadeira? Uma areia nos olhos dos ingênuos como eu? Ela também trata de coisas do passado... Se Maluf é coisa do passado e pode ser “perdoado”, os torturadores também podem, por que não? Coisas do passado, pois foram todos anistiados, dizem os ladinos.

E assim corre a noviça democracia brasileira, movida a eleições de dois em dois anos, cuja engrenagem procura compor alianças – a maioria delas espúrias – em nível municipal, estadual e federal. O que esperar do combate a corrupção se na maior capital do país, num estado também campeão na corrupção com seus rodoaneis, metrôs, varrições e privatarias, o partido da mudança estende a mão a alguém que se sair do país é preso pela Interpol? Penso que uma aliança com o PCC de Marcola poderia também ser útil dentro da propalada realpolitik. Ou ele já está comprometido com o outro candidato?

Esse jeitão de fazer política enfraquece a democracia, pois consolida em milhares de eleitores a certeza de que os políticos são todos ‘farinha do mesmo saco’. E democracias enfraquecidas se tornam um prato cheio para aventuras golpistas. Honduras, Paraguai, nuvens escuras em horizontes bolivianos e a hidra tenta botar a cabeça de fora. Quem paga para ver? A realpolitik?

Espero, sinceramente, que Fernando Haddad vença as eleições para a prefeitura de São Paulo. Se assim for, com toda a certeza isso não terá sido pela aliança com o PP de Maluf. Esta, a aliança, manchará a biografia do ex-presidente Lula para sempre, queriam ou não os defensores da realpolitik. E não adianta tampar o sol com a peneira.

Repito aqui uma das minhas frases favoritas e que foi enunciada pelo grande Albert Einstein: “a grande diferença entre um estúpido e um gênio, é que o gênio tem seus limites”.

Izaías Almada, escritor e dramaturgo. Escreve a coluna mensal Pensando Alto.Recentemente lançou o romance Sucursal do Inferno, editora Prumo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mirella carrega o legado da ditadura

Em tempos de Comissão da Verdade, um caso recente, que estourou nas redes sociais – dessas coisas que acontecem com frequência razoável –, nos faz pensar por que é importante desencavar os ossos das vítimas da ditadura brasileira. A violência que impera hoje, principalmente, nas periferias, as ultracomuns violações de direitos humanos no sistema carcerário, não terá fim, nem sequer vai diminuir, sem desvelarmos esse passado de nossa história que alguns setores da sociedade insistem em que fique trancafiado.

O caso a que me refiro é o da repórter baiana Mirella Cunha. Repórter da pior estirpe, reproduziu o jornalismo mais canalha e violento em uma matéria para um programa local da Bahia, da Rede Bandeirantes, a versão local do “Brasil Urgente”. Está pagando o pato, atualmente, sozinha, pelo seu péssimo trabalho, ainda que ela tenha apenas parcela da responsabilidade por sua bárbara tortura psicológica contra um detido.

 Mirella da Bandeirantes e entrevistado humilhado
Mirella Cunha entrevistava um suspeito de assalto e estupro. O jovem de 18 anos, preso no dia 31 de março (que bela comemoração do aniversário do golpe de 1964), estava algemado, com marcas de violência absolutamente visíveis no rosto. Ele cresceu nas ruas, nunca se alfabetizou, vendeu balas em ônibus. Na tela, a chamada da matéria já condenava o jovem: “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”. Ou seja, ele alegar inocência é “chororô”.

Mirella já foi mais direta, chamando-o de “estuprador”. O jovem confessa que assaltou uma mulher, que roubou um celular e uma corrente dela, mas mostra desespero ao dizer que não a estuprou, e que não tinha essa intenção.

A repórter pergunta da marca que ele tem no rosto, e o jovem conta que foi espancado. A informação passa batido. Um jovem de 18 anos que é espancado enquanto está sob custódia do Estado não levantou NENHUMA curiosidade na repórter, NENHUM questionamento.

O vídeo é conhecido, sua versão mais curta, com cerca de um minuto, já teve mais de um milhão de visualizações no YouTube. A versão maior mostra os comentários do apresentador do programa, Uziel Bueno, brincando insistentemente com o fato de o garoto topar fazer um exame de próstata. Em determinado momento, Uziel enrola uma folha de papel ao redor de dois dedos da mão, transformando-o num símbolo fálico, e diz que é urologista nas horas vagas e vai ajudar a fazer o exame.

Os abusos continuam, com a repórter humilhando e rindo do jovem, que não sabia o nome ou o tipo de exame a que teria que se submeter para comprovar sua inocência. Mirella e Uziel Bueno aumentam o tom das piadinhas quando ele se dispõe a fazer o exame de próstata, com provocações absurdamente homofóbicas. Lembrando da dificuldade que é convencer a maioria da população masculina de fazer tal exame. E lembrando da quantidade de homens que morrem todos os anos por câncer de próstata, um tipo comum, mas tratável, de câncer.
O apresentador Uziel do Brasil Urgente da Bandeirantes

Esse tipo de jornalismo policial que é, na verdade, policialesco, mostra como a cobertura jornalística, em especial de televisão e rádio, do que se convencionou chamar (principalmente pelo setor mais “intelectual e enlevado” dos jornalistas) de “programas sensacionalistas” reproduz uma lógica afinada com o que há de mais despudoradamente violento nas forças policiais. E isso é uma herança direta de um passado que se tenta deixar “quieto”.

Segundo a pesquisadora Kathryn Sikking, que conduziu estudos sobre respeito aos direitos humanos e como isso é diferente onde há diferenças ao se lidar com a históricos ditatoriais em mais de 100 países, “a quantificação de índices de respeito aos direitos humanos (elaborado pela Anistia Internacional) permite a afirmação de que os países que revisitaram seu passado e julgaram os perpetradores de tortura têm, hoje, um grau maior de respeito aos direitos humanos” (Correio da Cidadania, 5 de agosto de 2009). Os que não revisitaram têm “Brasil Urgente”, têm Mirella, têm Uziel.

Ou seja, ela afirma que há uma ligação direta nos países que souberam lidar melhor com seus esqueletos nos armários (ou nas valas) e buscaram a verdade e o respeito aos direitos humanos. Já nos países onde se varreu para baixo um passado de violência por parte do Estado, há uma herança perene, que permanece até hoje, e que faz com que haja muito menos percepção e, consequentemente, respeito aos direitos humanos. Esse é, claramente, o caso do Brasil, onde a forma de a polícia lidar com a população resguarda fortíssimas semelhanças com a da época da ditadura. Essa falta de “revisitar o passado” faz com quem não haja crítica, em um perpétuo “não se ver” o que acontece. A Polícia Militar, hoje, não se sente compelida em nenhuma medida a respeitar qualquer tipo de direito.

Segundo o site da revista Época, após a divulgação do vídeo, a Defensoria Pública da Bahia publicou o seguinte sobre o entrevistado por Mirella: “É réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência em Cajazeiras 11. Tem seis irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas dentro de ônibus. Ao ser questionado sobre como se sentiu durante a entrevista, ele diz: ‘Eu me senti humilhado, porque ela ficou rindo de mim o tempo todo. Eu chorei porque sabia que eu iria pagar por algo que não fiz, e que minha mãe, meus parentes e amigos iriam me ver na TV como estuprador, e eu sou inocente’” (Da coluna de 28 de maio de Eliane Brum, no site da revista Época).

Como bem disse Eliane Brum nessa mesma coluna, o caso que estourou está longe de ser exceção. Ele foi apenas mais um desses fenômenos de internet que estoura de uma hora para outra. Mas esse tipo de comportamento pode ser visto todos os dias. Na televisão e, principalmente, no rádio – esse meio de comunicação que é “primo pobre” mas que tem enorme penetração.

Não é incomum, nas redações de jornais, a editoria de Polícia ficar parada quando os policiais fazem greve. Porque essa editoria só funciona para reproduzir o que a assessoria de imprensa da polícia envia. É a única versão aceitável, e quando não há essa versão, não há nada a ser escrito. Vi isso com meus próprios olhos.

A Band afirmou que Mirella será demitida. Como se a reportagem e sua veiculação tivessem sido fruto da cabeça tresloucada da repórter, e não de uma cadeia de produção jornalística que tenta ser “do agrado do povão”, da fictícia “nova classe média”, que é um setor mais despolitizado e conservador que a média da população. Que é a favor da pena de morte e, contraditoriamente, contra o aborto por “defender a vida”. Que acha que suspeito que está algemado na delegacia “não é nenhum inocente” e, por isso, precisa ser humilhado, apanhar, “sofrer as consequências de seus crimes”; que não tinha “ninguém bonzinho” entre os mais de 111 presos do Carandiru.

Os arquivos que são mantidos fechados no Brasil não são referentes apenas à ditadura. Há documentos com mais de 130 anos, que vêm desde a Guerra do Paraguai, segundo a historiadora Ângela Mendes de Almeida. Ângela conta, em entrevista ao Correio de Cidadania em 2009, que “pouca gente percebe que aquele passado oculto pelo exército tem tudo a ver com a violência hoje, e ninguém quer enxergar a violência por parte do Estado. Ainda por cima temos uma opinião pública obscurantista que defende o extermínio dos pobres, ou faz alguns espetáculos de civilização que são inócuos.” Ora, estaria ela falando de Mirella três anos antes?

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista e editor de livros, especial para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Márcio R. Lourenço não teve tempo de se internar

Rapaz foi morto pela guarda municipal de Atibaia. A prefeitura da cidade foi condenada por violação de direitos humanos.

O negro Márcio Rodrigues Lourenço, 25 anos, morreu na tarde de 19 de agosto de 2008. Ele e outro rapaz, Denis Sousa, invadiram um imóvel vazio no bairro Estância Lince, de classe média alta, em Atibaia, a 65 km da capital paulista. No local, antes de soar o alarme, furtaram torneiras metálicas. Cercados pela polícia, tentaram fugir pelos fundos da casa, que dava num matagal.

Agentes da guarda municipal estavam de tocaia numa rua próxima e surpreenderam os rapazes à bala. Segundo relatos, os dois tentaram a rendição. Atingido por um tiro nas costas quando tentou subir um muro na fuga, Márcio morreu na Santa Casa da cidade. Denis conseguiu fugir e posteriormente se apresentou à polícia.

Nascido no Paraná, Márcio tinha mãe, irmãos e namorada. Trabalhava como pedreiro e jardineiro. E o fim de sua história trágica tem a ver com a dependência de crack, iniciada em 2005.

Em 2006, foi preso por furtar fios de cobre para comprar a droga e cumpriu pena em Hortolândia, na região de Campinas. No ano seguinte, voltou para Atibaia e, dois anos depois, foi executado pelo poder público, como aponta a justiça.

Para sustentar a dependência da pedra, Márcio praticava pequenos furtos, a maioria das vezes em casas inabitadas e construções para alugar. Nas duas vezes em que foi preso, não portava armas.

Também não possuía nenhum registro de violência. A guarda municipal – vinculada à secretaria de segurança pública da prefeitura – alega que Márcio estava armado e que atirou primeiro. A tese, muito comum entre as polícias brasileiras, foi a da legítima defesa.

Os jornais da cidade, na maioria, engoliram a versão oficial sem apurar e checar o episódio. Por exemplo, a edição do Atibaia Hoje, de 23 de agosto de 2008, estampou a foto do rapaz morto na capa. A manchete sugeria que “assaltante atirou na guarda municipal” e “foi morto no revide”.

A justiça discorda

A justiça não concorda com a versão da guarda municipal, tampouco corrobora com o que publicou o jornal. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) manteve sentença contra a prefeitura de Atibaia por violação de direitos humanos. Na decisão, confirma a execução e aponta que o boletim de ocorrência foi forjado, já que o processo judicial desmente que o rapaz teria sido morto após trocar tiros com os agentes.

O acórdão do TJ-SP, baseado em decisão unânime dos desembargadores, preserva a determinação de primeira instância do juiz Marcos Cosme Porto, da Comarca de Atibaia, de 25 de março de 2010. A ementa da decisão aponta responsabilidade objetiva do poder público em morte provocada por tiros disparados pela guarda municipal com legítima defesa não comprovada.

Na esfera cível, a mãe do rapaz, Olinda Rodrigues Lourenço, pediu indenização. “O Márcio tinha defeitos. Não digo que não furtou as torneiras, mas ele nunca andou armado, não era o criminoso que disseram”, desabafa Olinda. “Estava esperando essa decisão. Finalmente saiu”, completa.

Na sentença de primeira instância, o juiz, além de apontar que a vítima faleceu em decorrência dos disparos de arma de fogo da guarda municipal, diz que apenas uma hipótese afastaria a responsabilidade do poder público; a prova séria e convincente de terem os guardas agido em legítima defesa.

Em outra parte da decisão, a sentença indica: “sabe-se que o Estado responde objetivamente pelos danos ocasionados pelos seus agentes no exercício da atividade pública (...) as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa".

Outro ponto que merece destaque é sobre a suposta arma que os guardas alegaram que Márcio portava. Segundo a decisão, ninguém a localizou e não houve trabalho pericial para localizar os projéteis disparados contra os guardas. “A versão dos guardas municipais não poderia ser outra, sobretudo porque estão todos sob suspeita de participação nessa desastrosa e irresponsável ocorrência. Não há efetivamente prova de que a vítima estivesse armada e, diante desse quadro, ainda que em fuga pela subtração, de forma alguma poderiam os agentes ter reagido com disparos de arma de fogo”, ressalta o juiz.


“Se a conduta é legítima,
pobre dessa Nação”

Sobre direitos humanos e o arquivamento do inquérito policial que investigava o caso, a determinação da justiça enfatiza o papel do Estado no respeito aos direitos humanos.

A sentença cita o jurista Dalmo de Abreu Dallari. “Qual é o Estado que se quer? Dalmo de Abreu Dallari escreveu notável obra a respeito do “Poder dos Juízes” e ao abordar o respeito aos direitos humanos foi contundente: “...ponto fundamental é o que se refere à influência das convicções políticas e jurídicas de muitos juízes que, simplesmente, não reconhecem como um dever jurídico o respeito às normas de direitos humanos, ou exigem requisitos formais absurdos quanto à comprovação das violações e da autoria. Há juízes que, por convicção ou interesse pessoal, são cúmplices de governos, pessoas e grupos privados violadores de direitos humanos e, a partir daí, protetores dos agentes diretos da violação”.

O texto prossegue criticando a conduta da guarda e contesta o andamento da investigação do caso: “não é razoável que tenha sido arquivado o inquérito policial que poderia apreciar melhor a conduta dos agentes municipais, já que não havia prova alguma a respeito da vítima estar armada; ao contrário, a presunção que naturalmente se impõe é de que não estava e, além disso, é inevitável ponderar: Márcio foi morto quando tentava fugir. Se a conduta é legítima, pobre dessa Nação”.

Ainda sobre a legítima defesa alegada, o juiz argumentou que a prefeitura deveria ter demonstrado em juízo a culpa da vítima, mas que, em vez disso, apresentou prova que não pode ser contraposta aos autores. De acordo com a sentença, não há demonstração da legítima defesa e, sem prova convincente, a exclusão de responsabilidade não pode ser acolhida, devendo a fazenda municipal, portanto, responder pelo dano causado pelos agentes.

No final, a decisão aborda a indenização por dano moral e determina valor equivalente a cem salários mínimos à família de Márcio, condenando a prefeitura ao pagamento com correção monetária desde a data do fato (19 de agosto de 2008) e juros legais desde a citação, mais custas judiciais.

Com a decisão na esfera cível, em duas instâncias, a administração municipal tenta recorrer em Brasília, no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Por outro lado, é possível, com atraso de três anos, a instauração de ação administrativa retroativa para que a prefeitura apure internamente a responsabilidade dos agentes.

Além disso, a reabertura do processo criminal foi solicitada, pela organização não governamental Centro Nacional de Denúncias (CND-BR), ao Ministério Público, que arquivou o inquérito justificando não haver provas que constatassem infração por parte da guarda municipal.

Marcos Rodrigues Lourenço, irmão de Márcio, avalia que a sentença, independentemente do valor da indenização, motiva a continuação da luta para punir os responsáveis.

“Nós, da família, nem estamos preocupados com o valor. Essa decisão nos fortalece para pedir justiça, para que os responsáveis tenham a culpa investigada pela prefeitura e para que respondam criminalmente. Tenho os jornais da época pintando meu irmão como um bandido perigoso, que atirava em guardas, matérias que expuseram a imagem dele sem a nossa autorização. O Márcio não era nada do que disseram. Tinha uma dependência, estava falando em se internar, mas não deu tempo”, diz Marcos.

Moriti Neto, jornalista, repórter do Nota de Rodapé.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Liberdade de imprensa é...

Liberdade de imprensa é chantagear políticos...

Liberdade de imprensa é acusar sem provas...

Liberdade de imprensa é espionar celebridades...

Liberdade de imprensa é defender o cartel da informação...

Liberdade de imprensa é fazer lobby em favor próprio no Congresso Nacional...

Liberdade de imprensa é fazer escutas telefônicas ilegais em Londres

Liberdade de imprensa é inventar escutas telefônicas ilegais no Brasil...

Liberdade de imprensa é extinguir o contraditório...

Liberdade de imprensa é criar fichas falsas...

Liberdade de imprensa é criar factóides para a oposição...

Liberdade de imprensa é a oposição repercutir os factóides...

Liberdade de imprensa é acusar os blogs democratas de “chapa branca”...

Liberdade de imprensa é aceitar e barganhar anúncios do governo...

Liberdade de imprensa é especular hipocritamente com a doença alheia...

Liberdade de imprensa é testar hipóteses...

Liberdade de imprensa é assumir-se como partido político de oposição...

Liberdade de imprensa é denunciar a corrupção dos adversários...

Liberdade de imprensa é fazer vistas grossas à corrupção dos amigos...

Liberdade de imprensa é acusar Chávez, Fidel, Morales e Lula...

Liberdade de imprensa é defender Obama, Berlusconi, Faiçal, FHC...

Liberdade de imprensa é banalizar a violência...

Liberdade de imprensa é disseminar o preconceito e o racismo...

Liberdade de imprensa é vilipendiar, caluniar e fugir para Veneza...

Liberdade de imprensa é inventar bolinhas de papel...

Liberdade de imprensa, no Brasil, é para inglês ver...

Liberdade de imprensa na Inglaterra é para brasileiro aprender...

Liberdade de imprensa é divulgar partes do “relatório” do terrorista norueguês...

Liberdade de imprensa é ocultar o direito de resposta ao MST...

Liberdade de imprensa é manipular a opinião pública...

Liberdade de imprensa só vale para o dono do jornal, do rádio e da televisão...

Liberdade de imprensa é para quem paga mais...

Liberdade de imprensa é apoiar as invasões americanas ao redor do mundo...

Liberdade de imprensa é escamotear os genocídios no Iraque, no Afeganistão...

Liberdade de imprensa é apoiar greve de fome de um único dissidente cubano...

Liberdade de imprensa é jogar sujo contra governos progressistas...

Liberdade de imprensa é acusar sem oferecer o direito de defesa...

Liberdade de imprensa é que nem mãe: só a minha é que presta...

Liberdade de imprensa é a liberdade de se criar novas máfias...

Liberdade de imprensa é dar dicas sigilosas para concorrências públicas...

Liberdade de imprensa, às vezes, se compra com 500 mil dólares...

Liberdade de imprensa é aquela que só vale para os apaniguados...

Liberdade de imprensa é ser arrogante com os pequenos...

Liberdade de imprensa é bajular os grandes...

Liberdade de imprensa é difamar celebridades vivas...

Liberdade de imprensa é enaltecê-las depois de mortas...

A Liberdade de imprensa, tal qual é defendida e praticada nos dias de hoje pelos setores mais conservadores da sociedade brasileira, é o apanágio dos ressentidos e a nova trincheira dos hipócritas...

Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma capa do Página 12

Uma capa do suplemento Radar do Página 12 argentino, ao lado, o qual não sei precisar a data, é de uma criatividade tremenda ao tratar da polêmica dos Skinheads. Jornalismo visual dos bons.
Diante de tantas manifestações racistas que inundam o Brasil há tempos - e agora na internet com uma voracidade cada vez maior - esse debate tão necessário sobre a homofobia, racismo e todos os tipos de preconceitos precisa aparecer mais na imprensa brasileira. Seja com reportagens, análises e campanhas. E não só quando existe algum "gancho" como agressões filmadas ou no recente episódio pró-Bolsonaro na Av. Paulista que colocou o tema na ordem do dia por algum tempo. Lá no Congresso, é sabido, está parado há anos uma lei que torna homofobia crime. O mesmo Congresso que "desfruta" da presença do deputado Bolsonaro. Espero que a lei seja aprovada um dia, mas até lá, quantos ainda morrerão em vão?

Thiago Domenici, jornalista

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tragédia desfocada

Terremoto, tsunami e acidente nuclear no Japão tiveram cobertura míope na imprensa brasileira

A crise nuclear dos reatores em Fukushima registrou cinco mortes, nenhuma delas relacionadas à radiação, mas em quedas e afogamento pelo tsunami na área das usinas. Mas essa contagem ofuscou a pavorosa tragédia de dezenas de milhares de mortos, cidades milenares varridas do mapa e o drama de uma população idosa. A face humana do desastre logo cedeu lugar na imprensa a uma burocrática contagem de corpos, enquanto numa perversa assimetria noticiosa rotineira do reator em Fukushima ganhava a cada dia detalhes mais confusos.
Complexo de Fukushima, onde estão os reatores nucleares
atingidos pela tsunami que veio logo após o terremoto
A grande imprensa brasileira alicerçou sua cobertura na chamada hardnews, a notícia bruta sem maiores análises, despachada automaticamente pelas agências de notícias e artigos factuais traduzidos. E, claro, afogada no imediatismo da cobertura das televisões, com primado da imagem de consumo sensacionalista. Que uma repórter de TV pergunte a uma estropiada idosa japonesa carregando sacolas o que ele estava achando do evento seria trágico se não fosse prática comum na imprensa brasileira.
Algumas distorções com impacto no Brasil foram flagrantes. Começando pelo lugar comum repetido à exaustão em toda imprensa nacional, sobre um suposto traço estóico de uma suposta cultura milenar japonesa, algo que até estaria no DNA desses orientais. A imprensa brasileira deu enorme destaque à ausência de saques e desordens que costumam suceder as tragédias em todo mundo. Em vários jornais e especialmente na TV, os repórteres se espantavam com entrevistados japoneses que não entendiam a pergunta sobre porque não havia saques e pânico nas regiões atingidas. Claro, existe a possibilidade não remota da precariedade do inglês dos entrevistados e entrevistadores ser a razão dos japoneses não entenderem a questão. E, claro, a falta de experiência dos correspondentes convertidos às pressas em especialistas míopes.
Isso não aconteceu, por exemplo, com o veterano correspondente da revista americana NewYorker, Evan Osnos, para quem o estoicismo e ordem comunal não é bem um traço de caráter milenar na cultura japonesa. Nenhum jornal, revista ou TV brasileira tem repórteres experientes fixos em países além dos EUA, França e Inglaterra. O resto é coberto por jornalistas itinerantes sem familiaridades com os países em emergências.
O veterano repórter da NewYorker também notou a quase completa falta de saques (que eventualmente aconteceram, em escala isolada), de pânico ou exploração política das oposições. Com exceção do prefeito de Tóquio, Shintaro Ishihara, um nacionalista direitista, que atribuiu o desastre a um tembatsu, a punição divina. No dia seguinte ele pediu desculpas públicas pela impulsiva gafe.
Quanto ao suposto traço cultural milenar, o repórter, com vasta experiência e conhecimento da história local, esclareceu: “Até o atual desastre, o mais devastador terremoto tinha sido em setembro de 1923, que atingiu os 7,9 graus na escala Richter, demorou quase cinco minutos, devastando a capital Tóquio e a cidade portuária de Yohohama, matando 140 mil pessoas”.
O mais feio estava por vir, escreve Osnos. “Rumores e boatos de imigrantes coreanos estavam provocando incêndios e envenenando as fontes públicas de água incendiaram hordas, incluindo policiais, que lincharam milhares de inocentes, um massacre que é fonte de vergonha nacional japonesa até hoje”.
Em vez dos brasileiros se humilharem, como induzia a cobertura dos repórteres espantados, a lição certa é de que o processo civilizatório é lento, e muitas vezes penoso.
Mas desde 1923, além dos programas de prevenção e normas rígidas de construções, a cultura japonesa progrediu em civilidade. Descontando, é claro, a exacerbação do militarismo que levou à segunda guerra mundial. O trauma desse desastre levou o Japão a assumir uma postura militarista rígida, com crescimento desenfreado das forças armadas. Além de atacarem os EUA em Pearl Harbor, as forças colonialistas do Japão cometeram toda sorte de barbaridades na China e na Coréia, que até hoje envergonham o império do Sol Nascente. Depois da derrota militar na Segunda Guerra, sim, a cultura nacional humilhada pela derrota assumiu formas mais civilizadas que vemos agora.
Depois do desastre no mês passado nos mais de 300 abalos menores que se seguiram nenhuma casa adicional veio ao chão. Nesse sentido, a cobertura precária da imprensa brasileira foi deseducativa. Em vez da mensagem subliminar de “a gente somos inútel”, deveria ser de mirarmos nos padrões civilizados dos japoneses, acreditando que o processo civilizatório é dinâmico e que um dia podemos também chegar lá.

Flávio de Carvalho Serpa é jornalista, especial para o NR

terça-feira, 29 de março de 2011

É melhor contar a verdade, Clarín

O diário argentino resolve reescrever a verdade ao narrar o bloqueio feito por sindicalistas a sua gráfica, e os jornais brasileiros embarcam na onda, cometendo uma falsificação indesculpável

O jornal argentino Clarín queixa-se que o governo da presidenta Cristina Kirchner incentiva ataques à imprensa ao não debelar o bloqueio feito na gráfica do diário. O piquete foi realizado entre sábado e domingo últimos pela Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e teve a intenção, segundo a empresa, de impedir a circulação de matéria desfavorável ao presidente da CGT, Hugo Moyano.
O maior diário do país vizinho reclama que o governo não cumpriu a tempo ordem judicial que determinava que se garantisse a distribuição da edição dominical. A ministra de Segurança, Nilda Garré, afirma que deu conta do que foi solicitado pelo Judiciário e que a liberdade de expressão não foi afetada.
Capa do Clarín mencionada no texto
Até aí, difícil dar fé à versão de qualquer uma das partes, dado que a política da Argentina é das mais complexas de que se tem notícia. Independentemente do que tenha ocorrido, infeliz a declaração do editor de Clarín, Ricardo Roa, de que o jornal nunca passou por esse problema, “nem mesmo nos tempos de ditadura” - a versão de Roa é apoiada por editorial do jornal O Estado de S. Paulo desta terça-feira, 29.
Oras, Clarín, oras, Estadão, vamos falar a verdade: o jornal nunca deixou de circular nos tempos de ditaduras porque sempre as apoiou. Qualquer argentino se recorda ou viu na escola a fantástica capa de 4 de maio de 1982, que estampava “Já estamos ganhando”, numa alusão a um suposto triunfo na Guerra das Malvinas. “Porque lutamos por uma ideia grande, porque nossos soldados a estão defendendo, porque agora todos sabemos apertar os dentes”, estampava a edição daquele dia, um clássico do “jornalismo”, rapidamente desmentido pelas mortes de soldados que sequer tinham o que comer no gélido sul do país.
Antes disso, no dia do último golpe, em 24 de março de 1976, o Clarín contava em letras garrafais: “Novo governo”. Na sequência, informava que “a prolongada crise política que aflige o país começou a ter seu desenlace nesta madrugada com o afastamento de Maria Martínez de Perón como presidente da nação.” O país ficou menos aflito nos próximos sete anos: 30 mil mortes e centenas de milhares de torturados, centenas de crianças raptadas e adotadas ilegalmente. Entre essas crianças, investigam os argentinos, figuram os filhos da dona do Grupo Clarín, a Rede Globo vizinha. Então, Clarín, convém não falsear a realidade dos fatos.

Indignação seletiva
A indignação seletiva é um fenômeno interessante. A Associação Nacional de Jornais (ANJ), que deveria representar as publicações impressas brasileiras, está em polvorosa com os ataques a seu fraterno Clarín. Afirmou que a atitude dos sindicalistas é “intolerante e antidemocrática” e acusa cumplicidade de Cristina Kirchner.Em outubro passado, quando a Revista do Brasil foi impedida de circular por decisão do Judiciário a favor do PSDB, a ANJ não deu um pio a respeito de intolerância ou ataque à democracia. Não entendi.

João Peres é jornalista e colunista do NR
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