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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Dois lados da mesma moeda: antipetismo e antijunhismo

por Moriti Neto*

Não é à toa a circulação intensa do antipetismo nestas eleições, virtual e fisicamente. Os comentários de ódio não são poucos. Frases simplistas, que vão desde “vamos tirar o PT do governo” até “esses nordestinos (motivados pelo PT) não sabem votar”. As afirmativas-evasivas clamam por necessidade de alternância no poder, dizem que as administrações de Lula e Dilma dividem o país dando migalhas ao nordeste e que os petistas são responsáveis pela instalação do esquema mais corrupto da história do governo federal. Tudo com falta de embasamento que beira à irresponsabilidade.

O que se vê hoje aos montes nas redes sociais é construído pela mídia tradicional faz quase 12 anos. E não precisa de argumentos, apenas de discurso raso, estreito e odiento. Trabalho longo e que, ao contrário do que imaginaram os petistas mais otimistas quando da reeleição de Lula e da eleição de Dilma, já fez grande estrago na política brasileira. Independentemente de quem ganhar a eleição presidencial, a aversão à prática da política se alastrou pelo Brasil. E, óbvio, acabou por atingir de cheio o PT, legenda que melhor sabia fazê-la.

A população está cada vez mais distante da participação nas decisões sobre a realidade nacional via partidos políticos e sindicatos – a representação cai de qualidade, trabalhadores buscam movimentos mais horizontais. Como consequência, não se formam novas lideranças capazes de articular canais múltiplos entre a sociedade e o governo. Também não se dá o amplo trabalho de base. Eão abertos os fluxos para a atuação de oportunistas. Junto às comunidades, os vácuos são ocupados por igrejas. Em vez da politização, é instaurado um “deixa nas mãos de deus”.

O problema maior é que isso está longe de se encerrar no antipetismo. A questão escancara uma ferida infeccionada pelas bactérias do discurso fácil, da superficialidade nas ideias, da falta de compromisso, exposta nos frágeis programas de governo apresentados no pleito deste ano (o de Dilma incluído).

 O vazio desses itens é similar a pedir alternância de poder sem debater a qualidade da mudança, a exemplo dos aecistas, que pedem a saída de Dilma e quase nunca expõe uma só ideia do candidato tucano. É similar a encarnar a acusação de que os petistas são os mais corruptos de todos os tempos sem ponderar que o PSDB figura em primeiro lugar na lista de partidos com mandatários envolvidos em esquemas de mau uso dos recursos públicos no país (é o Tribunal Superior Eleitoral quem diz, fundado em uma lista de políticos barrados pela Lei da Ficha Limpa). É similar, por fim, a dizer que Lula e Dilma dividiram o Brasil distribuindo “esmolas aos pobres”, sem considerar que a divisão da nação é historicamente provocada pela desigualdade, ação deliberada da elite econômica.

 Como disse antes, essa deseducação política não brotou do chão. Ela foi sistematicamente construída por manchetes sensacionalistas, tendenciosas e tantas vezes mentirosas desde 2003, quando Lula assumiu a Presidência da República. Sob o manto da imparcialidade e de fiscal da sociedade (não, pessoal, isso não existe), as seis famílias que controlam as maiores empresas de comunicação do país buscam destruir o PT para defender interesses político-econômicos, já que seus donos não são somente porta-vozes da elite, mas a própria elite.

A guerra contra o petismo, portanto, é uma variação da luta de classes. As empresas marcam uma posição socioeconômica. Não querem recuar milímetros dos privilégios que têm. Para isso, é necessário enfrentar o PT, que nem fez um governo de reformas e distribuição de renda radical, mas é um partido com origem no trabalho e sempre será encarado pela elite como o “novo rico”, ou seja, é governo, tem aceitação no círculo por um tempo, mas não é da “estirpe”.

 E se o voto do patrão não é petista, temos ainda que muitos empregados discursam e votam com o patrão, caso de diversos que trabalham nas redações da mídia corporativa e criticam duramente o PT. Curioso é que quantidade razoável desses profissionais bate contra o voto dos pobres em Dilma e esquece que os mais carentes economicamente têm direito legítimo de defender os interesses de classe, a exemplo das políticas sociais. Interesses, aliás, até mais legítimos do que os de outras parcelas da sociedade, como (quem diria?) jornalistas que votam ansiosos por manter os empregos e abrem mão da liberdade intelectual.

Não, esse não é um texto petista, visto que o PT, viciado que ficou pelas estruturas do poder, também produziu maniqueísmos nos últimos anos, coisa evidenciada desde junho de 2013. Foi a partir das manifestações daquele mês e até os protestos contra a Copa do Mundo, que o partido e boa parte da militância estimularam discursos e ações de intolerância contra manifestantes, inclusive, em dados momentos, com o uso das linhas de transmissão (de novo, quem diria?) da mídia tradicional.

Os ativistas eram execrados, ou por vandalismo, ou por “se aliarem à direita com o objetivo de destruir o governo”. Governo defendido, às vezes, como algo quase divino e intocável.

Petistas de gabarito intelectual atacavam indiscriminadamente manifestantes: eram todos “coxinhas”. Com as inteligências nubladas, havia só o “golpe conservador” nas ruas, como se não existissem pautas de esquerda na maior parte de junho (reivindicação pela redução do preço das passagens de ônibus, mais qualidade no transporte coletivo, auditoria das empresas do setor, garantia do direito à moradia, desmilitarização da polícia). Entre os muitos que generalizavam, nem uma participação nas manifestações. Depois, veio o apoio à criminalização dos movimentos de rua e às sequentes investigações policiais fraudulentas, além de decisões judiciais aberrantes, executadas para dispersar os protestos.

Dessa forma, conforme crescia o desencanto com o partido em uma parte progressista da população, o PT, primeiro, parou no tempo, travou no momento histórico de 2013. Em seguida, usou o palavrório ameaçador de “retorno da direita” e ajudou a empurrar movimentos à esquerda dele para a criminalização, ainda que não diretamente pelas mãos da polícia e da Justiça, ao menos perante a opinião pública.

A perda política veio com o despencar da popularidade de Dilma e no resultado das urnas, pois, mesmo que a presidenta se reeleja, a inabilidade do governo tornou dificílima uma eleição praticamente ganha, se olharmos para pouco mais de 1 ano antes da disputa.

Dois lados da mesma moeda e, final das contas, está dado o processo de despolitização fundado no ódio. Os veículos de comunicação tradicionais incentivaram o rancor pela política para ocupar espaços via conservadorismo. Conseguiram, haja vista a bancada mais reacionária eleita para o Congresso Nacional desde a ditadura civil-militar. O PT, de outro lado, ignorou pautas progressistas e colaborou para difundir o que algumas de suas lideranças criticam veementemente: a criminalização da política. Triste. Estas eleições poderiam ter sido, de longe, as mais avançadas da história do Brasil. Poderiam.

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Moriti Neto, jornalista e colunista do Nota de Rodapé onde mantém a coluna Escarafunchar

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Meu voto terá que ser rápido

por Moriti Neto*

Domingo das crianças para muitos. Outros comemoravam o dia da padroeira santa do Brasil. Em mim, neste dia 12 de outubro, prevaleceu a onda de calor escaldante, além de imagens e palavras devastadoras. Não me bastasse escutar atentamente Marina Silva anunciar o apoio a Aécio Neves, coloquei em prática a infeliz ideia de assistir aos vídeos da propaganda eleitoral de quinta-feira passada, a primeira do segundo turno da eleição presidencial, já que não os tinha visto na data da veiculação. Apenas li e ouvi comentários. E entre ouvir falar e ver com os próprios olhos a presença da senadora ruralista Kátia Abreu (a rainha da motosserra) no programa que inaugurou a participação da petista Dilma Rousseff na reta final da disputa à Presidência da República, a distância foi grande. O tamanho do choque causado pela fofoca da infidelidade é um. Ver com os próprios olhos – e acompanhado de milhões – a pulada de cerca é multiplicá-lo.

Vai-se, de vez, a esperança de eleições civilizadas. Se antes guardava a expectativa de uma disputa mais progressista em relação a 2010, pelo carregar da potência política representada nas figuras de duas mulheres com formação de esquerda reunindo chances reais de conquistar a presidência, hoje vejo muitas semelhanças negativas na comparação entre Dilma e Marina. Semelhanças que me fazem ficar na corda bamba para definir o voto.

Pois se a propaganda eleitoral de Dilma foi irresponsável e apelou à indefensável tática do medo para agredir Marina no primeiro turno (tática do medo baseada em especulações ameaçadoras que tantas vezes vitimaram odiosamente o PT de Lula), não foi menos a atitude da ex-ministra do Meio Ambiente de apoiar o PSDB. Com a falácia de que o PT é uma “ameaça à democracia”, ela vitaminou o ódio ao PT, o que acirra ânimos ao limite, este sim, perigoso para o regime democrático.

Porque se muitos petistas mandaram golpes abaixo da linha de cintura de Marina, até apelando para o preconceito contra a fé religiosa da adversária, a decisão de apoiar o tucano é calcada no ressentimento. Assim, consolidou-se o cenário que espalha o ódio, a irracionalidade e o reforço de estereótipos de lado a lado. Tudo de ruim somado, só reforça a despolitização, numa eleição de nível já tão rasteiro.

Politização, aliás, é algo que ambas dilaceram. Pois se Marina foi eficaz em “despolitizar a política” desde 2010, principalmente quando se posicionou (ou não se posicionou) como “nem de esquerda nem de direita”, agora conseguiu piorar, com essa aproximação a um Aécio que não tem nada de proposta e só vocifera o discurso moralistóide do antipetismo. Quanto a Dilma, ela impregnou o governo de um perfil gerencial e frio, com fetiche pelo crescimentismo. Salvacionismo de uma parte. Redução da política ao “gerencialismo” de outra.

E o gerencialismo míope de Dilma é grave, incapaz de enxergar além do consumo interno desenfreado e da consequente exploração voraz dos recursos naturais como soluções à economia. Consumo que faz o cidadão trabalhar demais e abrir mão da qualidade de vida sem nenhuma preocupação ambiental. Não à toa, o governo gerido pelo partido que tem origem no trabalho recebe com tamanha insensibilidade a pauta sindical que reivindica a jornada de 40 horas semanais. Não à toa, a já citada ruralista Kátia Abreu (PMDB-TO) tem o espaço que tem no governo atual de Dilma e, como mostra a propaganda eleitoral, seguirá tendo, num eventual segundo mandato. Pois a senadora que já foi do DEM e se reúne com a presidenta bem mais do que os movimentos sociais, é representante ativa da indústria do agronegócio, mola-mestra do economicismo nada criativo da administração dilmista. É simbólico demais que, ainda durante a busca por votos, figuras nefastas que defendam interesses relacionados à grilagem de terras, ao trabalho escravo e aos crimes ambientais surjam como propagandistas governamentais.

Não que Marina fosse capacitada para resolver o dilema do crescimentismo. Afinal, ela, que dizia querer colocar a ecologia no centro do debate político-eleitoral, manifestou apoio ao único presidenciável que recebeu doação de campanha de empresa denunciada por trabalho escravo e cujo partido está fortemente ligado à defesa de empresários madeireiros, que desmatam como poucos no Paraná, Pará e Minas Gerais, só para ficar em alguns estados. Minas, inclusive, foi primeiro colocado no desmatamento da Mata Atlântica de 2009 a 2013, justamente nos dois últimos anos da gestão de Aécio Neves e no mandato de seu sucessor, o também tucano Antonio Anastasia.

Dessa maneira, segue a devastação de matas, que atinge indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Nos últimos tempos, esses povos tradicionais sofreram a quase ausência de demarcações de terras. O governo de Dilma os vê como entraves ao crescimento da economia e, nos extremos, como inimigos políticos. Inimigos que a administração federal também viu nos manifestantes contra a Copa do Mundo, até naqueles que protestavam por terem sido removidos de suas casas para a realização de “obras de infraestrutura”. Seja para a construção de hidrelétricas, no primeiro exemplo, ou para o erguimento de estádios, no segundo, é o desenvolvimento obcecado por obras gigantes a atropelar os direitos de muitas pessoas.

Sim, eu sei que o governo de Aécio seria um desastre, principalmente alinhado ao Congresso ultraconservador que foi eleito para a próxima legislatura, em que a afinidade ideológica com o Executivo facilitaria a aprovação de medidas fascistas, como a redução da maioridade penal. E Marina Silva, querendo ou não, teria responsabilidade nisso. Ela era consciente a respeito dos métodos truculentos do tucanato (por exemplo, os do governador paulista Geraldo Alckmin, de repressão violentíssima a movimentos de moradia, manifestações de rua e sindicatos) quando decidiu colaborar publicamente com a candidatura do PSDB.

Não votarei no tucano, óbvio. Isso nem me passaria pela cabeça, mas votar em Dilma e acreditar que o segundo mandato dela será mais à esquerda do que o primeiro, me parece uma ideia frágil. Fico a imaginar como isso ocorreria se, apesar de contar com apoio de boa parte do Congresso e alta aprovação popular até junho de 2013, ela se negou ao protagonismo e retrocedeu, quando nem precisava dos votos de deputados e senadores. Foi exatamente assim no caso da distribuição do kit anti-homofobia em escolas públicas pelo Ministério da Educação, que um veto da própria presidenta impediu no primeiro semestre de 2011.

Porém, por contraditório que se evidencie aqui, o medo me ganhou. E uma vez que os governos do PT tiraram milhões da miséria – e essencialmente Lula merece que eu tire o chapéu para isso – ainda que não tenham avançado na distribuição de renda real, o que poderia ser feito com reforma agrária e reforma tributária progressiva (isso mexeria no bolso dos mais ricos, não é?), e mantiveram as condições do trabalhador dentro de patamares minimamente aceitáveis, votarei em Dilma para tentar escapar da barbárie que seria uma direita moralista e fascista de posse da Presidência da República.

De qualquer forma, mancarei ideologicamente até o dia 26 de outubro. Não consigo considerar avanços sem mensurar retrocessos. Meus dedos terão que ser rápidos na urna. Se pensar demais, tasco um 00.

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Moriti Neto, jornalista e colunista do Nota de Rodapé onde mantém a coluna Escarafunchar 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Nada mudou 4 anos após enchente em Atibaia

por Gabriela Araújo*

As fortes enchentes que atingiram a cidade de Atibaia, no interior de São Paulo, há quase quatro anos, deixaram muito mais do que prejuízos econômicos. A situação persistente dos desabrigados do Campo do Santa Clara, num alojamento “provisório” desde 2010, no bairro do Caetetuba, na periferia da cidade, mostra que as feridas são muito mais profundas.

No mês de dezembro de 2009, alagamentos originados pelas chuvas deixaram, aproximadamente, 900 famílias desabrigadas em vários bairros do município. Dessas, 35 famílias – cerca de 200 pessoas – “moram” até hoje em abrigos improvisados pela Prefeitura que, na época da instalação do alojamento, era administrada pelo PV (Partido Verde).

O que seria provisório já passou dos três anos e 11 meses. Ao observar as dependências internas do lugar, cada porta dá vista a espaços compostos de quarto e banheiro. São poucos metros onde moram até 15 pessoas. O ambiente não tem isolamento térmico ou resistência à umidade.
Leia também: 
- EXCLUSIVO: dos contêineres ao amianto 
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O sentimento geral é de revolta. Rose da Cunha, que mora com dois filhos num dos pequenos compartimentos, conta que não queria se mudar para lá, pois previa que a família se sentiria em “uma lata de sardinha”. Em abril de 2010, 14 famílias retiradas de humildes barracos na Vila São José, bairro às margens do rio Atibaia, passaram a morar em contêineres instalados no campo de futebol. Depois, foram para barracões de madeira fina (que dão forma ao alojamento em que ainda estão) e quase colocados embaixo de telhas de amianto, substância cancerígena, proibida no Estado de São Paulo e que só foi removida após denúncias originadas neste NR.

A Prefeitura de Atibaia, à época, informou aos desabrigados que a situação duraria apenas seis meses. Após esse prazo a promessa era de que as famílias seriam transferidas a um conjunto habitacional que até hoje não foi entregue. Depois de vários adiamentos a nova previsão de entrega ficou para o início do ano que vem.

Para a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo (USP) e relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, é necessário, em situações como essa, enfrentar discriminação, atraso na distribuição de ajuda e nos trabalhos de reconstrução. “A situação consolida laços nos novos assentamentos e torna ainda mais complexo o reassentamento das famílias nos lugares de origem ou em novos territórios”, disse ao NR.

Outro desabrigado, Wilson Santos, explica a angústia da espera. Em cada fala, a lágrima ameaça cair. “Trabalhei a vida inteira e não tenho lugar digno para viver. A gente sente como se tivesse viajando o tempo todo. Só que a viagem nunca tem fim”, comenta.

O que diz a prefeitura 

Procurada pela reportagem do NR, a Prefeitura de Atibaia, hoje administrada pelo PSD (Partido Social Democrata), declarou em nota que tem a responsabilidade principal de viabilizar novas unidades habitacionais, mas não esclareceu quando os moradores vitimados pelas enchentes e pelo descaso sairão do local improvisado. “Desde o início deste ano, a Administração Municipal viabilizou 1.480 unidades pelo Programa Minha Casa, Minha Vida [projeto viabilizado pelo Governo Federal], três vezes mais do que foi feito nos últimos 30 anos. 700 unidades serão entregues até o fim do próximo ano”.

Sobre as famílias no Campo do Santa Clara, o texto diz que estão cadastradas no Programa Caetetuba II, cujas moradias estariam em fase final de construção, com “previsão de entrega para o início de 2014”. Não estipulou, no entanto, data para a finalização do conjunto habitacional prometido.

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Gabriela Araújo, especial para o NR.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O caso Diego Costa


por Moriti Neto*

Outubro, além de ser o mês das crianças, pode ganhar outra marca: a de um período em que futebol e autoritarismo evidenciam relações. Casos claros disso há diversos, como o do jogador Diego Costa e a polêmica da preferência por defender a Seleção Espanhola e dizer não à Brasileira.

A absurda insinuação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de pretender cassar a nacionalidade brasileira do atleta que se naturalizou espanhol foi mais do que estapafúrdia. Essa manobra expõe as opções político-ideológicas de quem dirige o patrimônio histórico-cultural mundial que é o futebol nacional. E não passa só pelos que gerem o negócio, mas também por quem está à beira do gramado.

Desde o movimento de convocar Diego – numa ação maldosa que apenas pretendia enredá-lo no constrangimento público – até a ameaça de ir ao Ministério da Justiça para pedir a cessação da cidadania do rapaz, os traços nefastos e reacionários se escancaram a partir do presidente da CBF, José Maria Marin, ao técnico da seleção, Luiz Felipe Scolari.

É sabido, mas convém lembrar. Marin tem fortes laços com o autoritarismo. Apoiador de primeira hora da ditadura militar, ele teve mandato de vice-governador biônico do Estado de São Paulo (o governador era Paulo Maluf, de 1979 a 1982). O apoio era tão escancarado que, como deputado estadual pelo extinto Arena, partido da “base” do regime autoritário, o atual dirigente da CBF declarava que não apreciava a política editorial da TV Cultura, já que a emissora não destacava as obras inauguradas pelo governo dos generais e, com “teor esquerdista”, noticiava a pobreza da população, o que espalharia “intranquilidade”.

Os argumentos constam em discurso dele, feito na Assembleia Legislativa de São Paulo, 16 dias antes de Vladmir Herzog, então diretor de jornalismo da tevê pública, ser assassinado nas dependências do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do 2º Exército, no dia 24 de outubro de 1975. Exatamente um ano depois da fala que lançou a ferocidade da ditadura de encontro ao jornalista, José Maria Marin, no dia 7 de outubro de 1976, declarava, de novo na Alesp, toda a admiração ao delegado Sérgio Paranhos Fleury.

A postura de deferência ao torturador e assassino que chefiou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DOPS), bem como a incitação à tomada de “providências” contra Herzog, dizem muito a respeito do que é o futebol profissional no País: um ambiente carcomido e que pouco ou nada avançou na construção política pós-ditadura. Nele, vivem e revivem (caso de Marin, que estava esquecido até assumir a CBF) figuras que caminham de mãos dadas com a truculência e o pensamento ditatorial. O aparato afeito ao abrigo de ideias ultraconservadoras inclui o núcleo esportivo-técnico. O discurso xenófobo, pseudonacionalista e raso também sai da boca de Luiz Felipe Scolari, o Felipão. O treinador não só é dado a bravatas ufanistas como é adepto confesso de ditadores sanguinários.

Voltemos novamente no tempo. Para outro outubro. Dessa vez, de 1998. O técnico dava entrevista à rádio Jovem Pan, de São Paulo, e opinava sobre a ditadura chilena (1973-1990), encabeçada por Augusto Pinochet, um dos mais cruéis tiranos da história mundial. Entre outras pérolas, Felipão afirmou que “Pinochet fez muita coisa boa”. E emendou: “Ele pode ter feito uma ou outra retaliaçãozinha aqui e ali. Há determinados momentos que ou o pessoal se ajeita ou a anarquia toma conta.”

Assim segue o Brasil. Uma democracia imperfeita – bastante imperfeita – que deixou, faz quase 30 anos, de viver, na prática, o regime de exceção, mas onde a sombra da ditadura militar (1964-1985) não cessa de lançar na escuridão debates que poderiam ser legítimos, mas que acabam recheados de argumentos obscurantistas que comprometem a essência das discussões.

Resta esperar outro outubro. Quem sabe, na próxima repetição do mês, tenhamos notícias sobre futebol, gestão e política com traços de mais justeza. Alguém já pensou em cassar a cidadania de Marin pelos crimes que cometeu e comete contra a sociedade brasileira?

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Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

“Biografia jornalística não é showbiz”

Em entrevista exclusiva ao NR, o jornalista e biógrafo Mário Magalhães defende biografias não autorizadas quando a vida privada de alguém tem impacto público

por Moriti Neto*

Enquanto está matéria era escrita, na tarde deste dia 23 de outubro, a Câmara dos Deputados debatia a urgência do projeto de lei que libera biografias não autorizadas no Brasil. E, mais uma vez, o plenário adiou a votação da proposta do deputado Newton Lima (PT-SP), que prevê a publicação das obras, independentemente da autorização da pessoa biografada ou de familiares, e está entre os pontos do projeto de lei de reforma do Código Civil. Pelas regras atuais, o código autoriza a publicação de material biográfico, mas somente se houver permissão prévia.

O objetivo das discussões dos parlamentares era garantir que seja reconhecido o caráter urgente do projeto e que a votação ocorresse nos próximos dias, já que, na semana que vem, os deputados voltarão atenções totais ao Marco Civil da Internet.

A importância da pauta no Congresso aumentou desde que a autorização para a publicação de biografias se tornou debate público neste mês. Essencialmente, as discussões ganharam corpo quando o grupo Procure Saber, encabeçado ou apoiado por artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, colocou questões como direito à privacidade e divisão de lucros entre biografados e biógrafos no centro da polêmica.

De outro lado, jornalistas, escritores e artistas, caso de Alceu Valença, se posicionaram pela garantia do acesso à informação e estranharam os argumentos de personalidades públicas – defensoras históricas da liberdade de expressão – alinhadas na trincheira da censura prévia.
Mário Magalhães
Foto: Leonardo Aversa/Divulgação.

Em entrevista exclusiva e este NR, o vencedor do Prêmio Jabuti deste ano na categoria biografia, Mário Magalhães, com o livro “Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, sobre o guerrilheiro Carlos Marighella, se manifesta a respeito da polêmica. Na conversa, ele avalia várias questões, como a postura obscurantista do Procure Saber, a relação público/privado que envolve personagens históricos, o que o jornalismo pode tirar da discussão e afirma que biografia jornalística não é entretenimento.

NR - Na questão das biografias, a ação de restringir a produção tem a ver com controle econômico e político? A preocupação com ataques à honra seria só um disfarce?

Eu seria muito presunçoso se afirmasse “o que está por trás...” O certo é que o grupo Procure Saber defende a manutenção de uma legislação obscurantista e antidemocrática, que impede relatos jornalísticos e historiográficos sem autorização dos retratados ou herdeiros.

NR - Sobre os ganhos pretendidos pelos familiares dos biografados, a discussão a respeito dos valores financeiros é forte. Por quê?

Biografia jornalística é reportagem. A reportagem é um gênero do jornalismo. O pagamento a biografados subverte o conceito de biografia independente e não autorizada. Como pagar a um torturador uma parcela da receita obtida com um livro contando crimes? O padrão das biografias, como no meu caso, é distinto: perde-se muito mais dinheiro do que se ganha. Se os biografados receberem por livros independentes sobre eles, o senador José Sarney também receberá pelos perfis que a imprensa lhe dedica? Biografia jornalística não é entretenimento, showbiz.

NR - Em contextos de regimes democráticos consolidados, se espera que a lei garanta que autores possam biografar sem autorização prévia e que respondam civil e criminalmente em caso de violações. A tentativa de restrição tem a ver com a construção complicada da democracia brasileira e a sombra de autoritarismo?

Embora o Código Civil seja de 2002, parece evidente que ele incorpora vestígios do autoritarismo da ditadura encerrada em 1985. É inacreditável que muitas biografias e perfis publicados durante a ditadura (1964-85) hoje poderiam ser barrados, com base em uma lei do tempo democrático.

NR - Quando uma pessoa tem vida pública intensa e é reconhecida por ela, é natural que a privacidade tenha limites diferentes de quem vive no anonimato, principalmente se ela, a personalidade pública, interfere fortemente na história da sociedade a qual pertence. Por que isso ainda não está consagrado entre a classe artística no Brasil? Ela não deveria se preocupar somente com a publicação de fatos mentirosos?

É uma boa pergunta, a ser feita a quem defende exclusividade de biografias chapas-brancas. De fato, eu não tenho direito de escrever sobre eventuais amantes de uma vizinha, mas seria intelectualmente desonesto se omitisse o vínculo entre D. Pedro I e a Marquesa de Santos. Ainda mais porque ela influenciou o primeiro reinado. A relação privada teve consequências públicas, atingiu a vida dos cidadãos.

NR - Como explicar nomes históricos que lutaram em defesa da liberdade de expressão no País à frente de uma investida que quer liberdade apenas a elogios?

A defesa da censura prévia, assumida por certos artistas, é legítima, embora eu não concorde com eles, mas a adesão de certos gigantes da nossa cultura à tese autoritária é mesmo surpreendente.

NR - Você vê essa situação como algo isolado ou certa tendência ao controle da informação na atualidade?

No caso específico, é uma iniciativa muito isolada, como se viu pela reação de outros artistas e de intelectuais dos mais diversos matizes ideológicos. Do ponto de vista histórico, os poderosos nunca gostaram de liberdade de expressão e de livre circulação de ideias. O poder não é só econômico e político, mas também cultural, esportivo...

NR - Até para o trabalho acadêmico restrições ao direito de abordar a vida de personagens históricos é perigoso?

Restrições devem existir e já estão contempladas na lei, mas a legislação em vigor também atinge a produção acadêmica. Invasão criminosa de privacidade é isso mesmo: crime. Porém, o que isso tem a ver com censura prévia?

NR - Por outro lado, o jornalismo que calunia, difama, injuria, com interesses, por exemplo, políticos, contribui para a existência de uma proposta rasa como essa, que coloca as pretensões financeiras e a vaidade individual acima da história de um País. Como lutar contra isso?

Há muitas maneiras, tanto rejeitando audiência a esse tipo de jornalismo, quanto exigindo punição judicial mais célere a jornalistas que cometem crimes.

NR - Sobre a profissão de jornalista, o que se pode esperar de evolução com esse debate? O que a categoria e as empresas jornalísticas podem fazer para contribuir, além da produção, para a relação com a história e os biografados?

Há dois movimentos em curso. Por um lado, cada vez mais jornalistas sonham em se dedicar a relatos de fôlego, como opção à frustração com o cotidiano do trabalho. Por outro, muitos desistem de escrever biografias, devido à censura prévia permitida pelo marco legal.

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*Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A dívida é nossa, Regina


por Moriti Neto   imagem Viviane Vallar*

Três semanas depois, ainda tinha a necessidade de escrever. Não tê-lo feito até pouco tempo, por aridez intelectual ou por estar atolado com os afazeres burocráticos da rotina, me causava um incômodo constante, dor de consciência mesmo. Era impossível esquecer os olhos de Regina, moradora de rua e dependente química, a quem encarei no dia 26 de setembro passado, constrangido pela minha incapacidade de intervir na realidade social trágica deste País, enquanto a mulher era varrida da Praça da Sé.

“Vai pra onde?”, foi a pergunta que consegui balbuciar depois de saber seu nome. A vergonha me impedia de falar muito. “Pra onde der, moço. Sou usuária de drogas e minha vida é assim, sempre foi, na rua. Onde conseguir espaço pra montar minha barraca é que vou ficar”, foi a reposta de Regina, de sobrenome Ferreira.

Naquele fim de manhã, ela era uma entre os cerca de 200 moradores de rua que haviam montado acampamento na Praça da Sé e despertaram com a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e equipes de limpeza da Prefeitura de São Paulo. A ordem era desmontar as barracas, “liberar espaço”. Um caminhão foi usado para retirar móveis, madeiras, lonas e demais objetos, que eram jogados na caçamba, muitos, inclusive, de uso pessoal.

Havia raiva no ar. Moradores protestavam contra o prefeito Fernando Haddad e afirmavam que não tinham para onde ir. Outros ofendiam e ameaçavam jornalistas, resultado óbvio da criminalização que a população de rua, principalmente os dependentes químicos, sofre de parte da mídia.

Regina não xingava, não ameaçava. O jeito, segundo ela, era mesmo procurar outra praça ou, como falava em tom mais baixo, esperar a saída da equipe da Prefeitura e voltar. Algo que uma parcela fez, a exemplo de 60 pessoas que, de novo, foram removidas, no dia 9 de outubro.

Não sei se Regina voltou. Não sei se foi novamente removida. Aliás, sei de pouca coisa, pois o mal-estar com a situação aumentou minha incompetência frente àquela tragédia social. Não consegui ficar mais tempo ali. Só graças a minha esposa, que nem jornalista é, tenho imagens registradas.

O peso ao ver as pessoas sendo varridas (quase literalmente) da ocupação na Sé, cheia de meninos de rua e famílias desabrigadas usando barracas de camping, me fez sentir e pensar por semanas. Refleti que Haddad, Alckmin, Kassab, eu, somos todos responsáveis. Mesmo a ausência de uma política séria voltada a essa população – que envolveria projetos habitacionais, assistenciais, educacionais e de saúde eficazes – é responsabilidade coletiva, nossa. Somente um debate constante, verdadeiro, comprometido e distante das soluções rasas pode retirar o tema da invisibilidade. O povo que circula na Sé – 3 milhões de seres humanos transitam diariamente por ali –ignora, por motivos diversos, a condição dramática exposta dos que ali ficam ao relento.

Marcante sobre a dificuldade dos governos na questão, a história de Regina e do grupo a que pertencia naquele dia (o verbo no passado indica que a formação de grupos e dos sentimentos de pertencimento e reconhecimento ficam comprometidos com a instabilidade da vida daquelas pessoas), passa pela Cracolândia, desocupada agressivamente pelo Governo do Estado em 2012, numa remoção motivada por disputa que envolve interesses imobiliários na área e que, já se sabe, espalhou pelo centro de São Paulo um problema socioeconômico e de saúde pública.

Não bastasse isso, o sofrimento seguiu com o fechamento, via prefeitura petista, da Tenda do Parque D. Pedro II, abrigo que funcionava próximo da região da Sé e foi reaberto recentemente, desorganizado e precário, segundo moradores de rua e até funcionários que lá estiveram após as “limpezas”.

Todas as gestões, de tucanos a petistas, têm discursos recheados de justificativas para as medidas, mas, na verdade, o que se vê são apenas discussões e ações precárias, seja no interior das administrações públicas, que mal apostam no princípio da transversalidade de gestão para atuar, seja na abordagem midiática, superficial e cheia de rótulos. Talvez admitir que não se sabe exatamente a forma de agir e que não se pode fazer muito sem grande envolvimento coletivo, fosse o passo a ser dado para tornar o debate tão amplo quanto necessita ser.

Enquanto tal discussão não ocorre, as “limpezas” continuam. Resulta disso, cada vez mais, um povo marcado, dizimado emocional e fisicamente, a quem os “homens de bem” culpam pelos maus-tratos à cidade, pela violência e a “praga da droga que destrói famílias”. A cobrança está errada, meus caros. Nós é que devemos.

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Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Marina é só mais uma reprodução do sistema

por Moriti Neto*

Em agosto de 2009, Marina Silva, recém-saída do PT, e um grupo de apoiadores, embarcavam no PV e já diziam: “Chegou a hora de acreditar que vale a pena, juntos, criarmos um grande movimento para que o Brasil vá além e coloque em prática tudo aquilo que a sociedade aprendeu nas últimas décadas, experimentando a convivência na diversidade, a invenção de novas maneiras de resolver problemas solidariamente... Agindo em rede, expandindo e agregando conhecimento sobre novas formas de fazer, produzir, gerar riquezas, sem privilégios e sem destruição do incomparável patrimônio natural brasileiro”. E isso não era de boca, mas parte do documento “Juntos pelo Brasil que queremos – diretrizes para o programa de governo”, que expressava a motivação ao ingressar no partido e que a colocava declaradamente na disputa à Presidência da República nas eleições de 2010.

O projeto, no entanto, teve curta duração. Era 7 de julho de 2011 quando Marina anunciava a desfiliação do PV, onde obteve quase 20 milhões de votos na eleição presidencial. De saída, ela e os apoiadores que a acompanhavam na decisão ressaltavam que a direção do partido “disse não à democratização de suas estruturas institucionais, ao diálogo com a sociedade e a um projeto autônomo de construção partidária”. Na época, se tivesse sido eleita presidente, teria completado apenas pouco mais de um semestre de mandato a bordo da sigla verde.

Lembro que, naquele momento, vieram diversos questionamentos: se Marina tivesse vencido a eleição, sairia do PV? Se sim, governaria como? Abdicaria de filiações partidárias? Como costuraria a base no Congresso Nacional? A ex-senadora se considerava mesmo a figura messiânica, salvadora, que os críticos da personalidade dela apontavam? Se não saísse, ignoraria a descoberta da incompatibilidade declarada com os pevistas e seguiria o governo sem abrir o debate?

O fato é que Marina Silva, sem conseguir ocupar espaços no PV, pedia desfiliação e acusava o partido de não ser o local adequado para as bandeiras que portava. Ancorada na boa capacidade discursiva que possui, ela buscava sustentar a posição, mas não deixava claro como só descobriu, de uma hora para outra, que a mesma agremiação avaliada como ideal para praticar propostas baseadas na “coerência programática” – por ela tão decantada – era, então, imprópria.

E foi na "fundação” do Rede Sustentabilidade, no dia 16 de fevereiro de 2013, num encontro batizado de “Encontro Nacional da Rede Pró Partido”, em Brasília, que aparecia a alternativa de Marina às eleições de 2014. Era na “Rede Pró Partido, mas que não é partido”, que ela, a "diferente", buscava encaixar o discurso da realização da “nova política”.

Em declarações perigosamente despolitizantes e até antipartido, a potencial candidata tentava se autocolocar como “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. Ao mesmo tempo em que falava de diálogo horizontal com a sociedade, aparecia como a “salvação”. Posturas perigosas à democracia, o que, aliás, eu já observei em texto anterior.

Enfim, eis que Marina Silva, com a recusa da Justiça em legalizar o Rede, vai ao PSB de Eduardo Campos. É a mesma toada. Na campanha, o discurso que clama por um “sistema ideológico” e luta contra o pragmatismo, colocando a candidata como a mais alta defensora do interesse público e das “questões maiores”, a exemplo da rápida passagem pelo PV, quando era o “fator diferente” da corrida presidencial e possibilidade de acabar com o “mais do mesmo” (que realmente é mais do mesmo) do “Fla x Flu” entre PT e PSDB.

Só que, na prática, o que se constata é a ida a um partido de perfil governista-pragmático (o PSB é, ainda, base do Governo Federal e governa com petistas e tucanos em vários estados), entregue a caciques da direita conservadora Brasil afora e que, em momentos decisivos, vacilou no debate de itens fundamentais ao meio ambiente, caso do Código Florestal, tema central na vida política de Marina.

Rumo ao PSB, lá vai a ex-ministra do Meio Ambiente se enfileirar a Bornhausens, Caiado e companhia. Novidade? Não. Somente mais uma reprodução comum do nosso horrível sistema de democracia representativa, onde estão sempre dadas as oportunidades ao desequilíbrio na representatividade da sociedade e à hipocrisia, como a de Marina que, de diferente, não tem nada.

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Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR. (Imagem: www.minhamarina.org.br)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Falta tudo, inclusive médicos



O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, falou ao NR sobre alguns aspectos do Mais Médicos, programa federal que pretende levar profissionais da medicina aos rincões do país

por Moriti Neto*

“Onde há profissional médico, ele se torna um catalisador de desenvolvimento para o município, não só em saúde”, diz o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em entrevista concedida por email a este Nota de Rodapé.

Desde 8 de julho, Padilha roda o País para explicar e defender o programa emergencial Mais Médicos, que pretende levar profissionais de saúde para regiões onde não existem médicos na atenção básica. Mais de dois meses depois do lançamento da iniciativa, sob uma chuva de críticas das entidades médicas, o virtual candidato ao governo do Estado de São Paulo pelo PT em 2014, segue firme no debate.

Neste momento, a questão da segurança jurídica é mais visível do que os embates ideológicos sobre os médicos estrangeiros, especialmente com o acordo para a vinda de 4 mil cubanos até o final deste ano. Durante a semana passada, o Mais Médicos recebeu parecer favorável da Advocacia Geral da União (AGU) para que os Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) emitam o registro provisório dos médicos estrangeiros – somente com esse registro, eles poderão atuar no programa.

A questão é que muitos CRMs se recusam a emitir os registros, sob diversas alegações. Uma delas é de que haveria “exercício ilegal da medicina” quando o médico intercambista atua sem a revalidação do diploma adquirido fora do País.

O Conselho Federal de Medicina (CFM), após alguns embates judiciais, orientou que todas as autorizações de trabalho fossem concedidas pelos CRMs. “Nós temos segurança jurídica. O Governo Federal obteve decisões favoráveis em 17 das 29 ações de CRMs de 26 unidades federativas e em dois mandados de segurança no Supremo Tribunal Federal. Até agora, os CRMs de Roraima e do Maranhão foram os únicos que não entraram na Justiça questionando o programa”, diz o ministro.

Num País de grandes dimensões territoriais e populacionais, com apenas 1,8 médico por mil habitantes, índice bastante inferior, por exemplo, aos vizinhos Argentina (3,2 por mil) e Uruguai (3,7 por mil), o ministro ainda acredita no bom senso dos CRMs. “Estou certo que os CRMs terão bom senso com a questão, pois existem milhares de brasileiros dependendo apenas de detalhes para terem atendimento médico”, ressalta.

Foi a ausência de médicos na atenção básica que estimulou o Ministério da Saúde (MS), primeiro, a abrir editais para profissionais brasileiros no programa. Somente no caso de não preenchimento das vagas, são chamados os estrangeiros.

No caso dos cubanos, eles vieram por intermédio de um “acordo de cooperação técnica” da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), ligada à Organização Mundial de Saúde (OMS). “Eles têm grande experiência com medicina familiar e ajudarão a mudar o paradigma do ponto de vista de atenção primária no Brasil e também a cumprir os horários, pois a população sabe que terá o médico todos os dias da semana no município, fazendo visitas, atendendo consultas na unidade de saúde”, garante. Atualmente, há mais de 700 municípios que não possuem nenhum médico. Casos simples, como doenças infectocontagiosas de fácil prevenção, são motivos frequentes de mortes. Essa situação se concentra em periferias de grandes cidades, municípios de interior e nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Nesses lugares, quem, na maioria das vezes, previne e auxilia os pacientes são enfermeiros e agentes comunitários de saúde. O MS aponta que a atenção básica pode resolver 80% dos problemas.

Sobre a “falta de sensibilidade” citada por Padilha em relação ao Mais Médicos, o ministro diz crer que são poucos os médicos brasileiros que agem dessa forma. “Eles [os médicos] têm o direito de não querer sair de onde estão, de querer atender onde têm raízes, mas, se faltam médicos no Brasil, é nosso dever tomar medidas para garantir atendimento à população desassistida. Vamos levar mais médicos, mais infraestrutura, mais vagas de graduação e especialização para localidades que mais precisam”, enfatiza.

Num “trabalho de formiguinha”, o ministro da Saúde prossegue os diálogos com deputados e senadores, mostrando o diagnóstico da falta de médicos, principalmente em municípios de extrema pobreza, para aprovar a lei que institui o programa.

Formado em medicina pela Unicamp, Alexandre Padilha fez residência médica pelo Núcleo de Medicina Avançada da Universidade de São Paulo (USP), em uma comunidade indígena do Povo Zoé, na cidade de Santarém, no Pará: “Salvei muitas vidas na residência. E não sabia falar o dialeto deles, não sei até hoje. Isso não foi obstáculo para atender pacientes. A falta de infraestrutura também não impediu isso”.

*Moriti Neto, jornalista, repórte e editor-assistente do NR

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A violência policial o cegou

Foto: Filipe Granado
por Moriti Neto e Robson Morais*

O clima na noite de quinta-feira, 13 de junho deste ano, como todos viram, foi quente para o fotógrafo Sérgio Silva, 31 anos. A trabalho pela agência Futura Press, Silva foi um dos milhares de brasileiros que captou a energia do “vem pra rua”, instalada no País nas chamadas “jornadas de junho”. E foi no meio da multidão, em São Paulo, enquanto trabalhava no protesto contra o aumento da tarifa de transporte coletivo, que o disparo de uma bala de borracha da Polícia Militar o feriu e cegou. Um professor o socorreu até o Hospital Nove de Julho.

O fotógrafo foi atingido no olho esquerdo pelo tiro da chamada “munição não letal”, na altura da rua da Consolação, na área central da cidade. “Ainda é difícil de olhar no espelho. Tem dias que acordo sem o tampão. A visão ainda choca. O abalo psicológico também foi grande”, explicou à reportagem do Nota de Rodapé, no último dia 12 de agosto, quando palestrou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) sobre os riscos da cobertura jornalística.

No local da palestra, em destaque, um cartaz com a sua foto e o slogan: “Fotógrafo Sérgio Silva, vítima do Estado”. Sobre a falta de segurança para os profissionais e os manifestantes, ele disse que nada do que a polícia “fizer ou disser daqui para frente vai justificar ou amenizar” o que aconteceu. “A educação tem que partir da polícia. Eles são o exemplo, são pagos para isso. E não o contrário”.

Silva garante que, nos primeiros dias de cobertura, sentiu o clima ruim e uma certa predisposição da PM à truculência. “Fui para a rua com um pressentimento e sabia que a PM seria truculenta. Apontei a câmera para ela, para mostrar essa truculência. Ponto”. Ele acredita que “não importa” estar atrás de um cordão policial, que a PM vai continuar “atirando” e que casos como o dele “vão continuar ocorrendo.”

A reflexão do fotógrafo também tratou do receio de repórteres e jornalistas na cobertura de pautas em comunidades da periferia, locais onde as “balas são de verdade” e a “violência policial diária.” Nessas horas, “jornalista precisa ter coragem”, disse.

“Não tenho isenção”

Quanto ao mito da imparcialidade no jornalismo e o que leva os veículos da grande mídia a publicar ou não um fato, o fotógrafo explica que não tem isenção. “Faço meu trabalho e produzo sobre aquilo que penso. Se o veículo onde vou trabalhar não publicar, o problema não é meu”.

Silva não ignora que o jornalismo é cada dia mais digital, com processos de produção de conteúdo estimulando a participação de mais pessoas nas abordagens. “Cada um pode ser repórter do próprio cotidiano. Agentes comunitários e moradores de comunidades podem pautar a mídia. Os jornalistas vão ter que, cada vez mais, se especializar”.

O fenômeno da Mídia Ninja, por exemplo, junta pessoas que vão à rua com uma câmera ligada para fazer desde cobertura até ativismo. “Há repórteres que estão a trabalho e pessoas que não estão. O que será produzido parte da visão do produtor. Ninja caminha nesta direção. Não consigo ver, porém, se a grande imprensa vai entender direito isso ou que rumos os Ninjas vão tomar”, opina.

Luta por direitos

Sérgio, que já tem advogado, ainda não abriu processo contra o Estado. Eles aguardam os laudos sobre a perda da visão e outros resultados médicos, que serão incluídos na ação.

Silva optou em não usar os advogados da agência em que trabalhava. Nem as despesas do hospital que fez o primeiro atendimento, cerca de 3 mil reais, ele aceitou que pagassem. “Vou pôr na conta do Governo do Estado”. Além disso, ele está à frente de uma petição pública com o tema “Não à utilização de armas letais nas manifestações”. O documento está disponível no site www.change.org.

O coletivo Menos Letais fez uma entrevista em vídeo com o fotógrafo, que você pode assistir no link disponível no youtube.

*Moriti Neto, jornalista e colunista do NR. Robson Morais, jornalista, especial para o NR. [Foto cedida por Filipe Granado]

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Mídia Ninja: jornalismo que requer mais debate



por Moriti Neto*

Difícil abordar os debates sobre a Mídia Ninja*. Difícil, pois o projeto autoproclamado “a mídia que não é manipulada, distorcida, que não ganha nada em troca, que quer mostrar a realidade”, visita questões amplas, que vão do modelo de negócios até as ligações político-partidárias do coletivo Fora do Eixo (FdE), rede fomentadora da proposta. No mais, são vários os analistas competentes a avaliar e argumentar nos últimos tempos sobre o assunto.

Na semana passada, estive, pelo Nota de Rodapé, na bancada de tuiteiros do Roda Viva, da TV Cultura, onde o centro era justamente a Mídia Ninja, representada pelo jornalista Bruno Torturra (à direita, na imagem acima) e o articulador do FdE, Pablo Capilé (à esquerda). Na ocasião, este colunista saiu da entrevista com a sensação de que, entre muita polêmica referente à arrecadação de fundos e às relações políticas da proposta, quase nada se falou do fazer jornalístico.

Perguntei a membros da bancada de entrevistadores se não consideravam que o jornalismo deveria ser a questão central de um debate que opõe “mídia velha” e “mídia nova”. A reposta veio no tom de que temas éticos, casos de obtenção de recursos financeiros e possível envolvimento com partidos políticos, seriam temas “mais indispensáveis” naquele instante.

Não concordei. Fui até Torturra, na intenção de escutar algo diferente. O jornalista respondeu, frustrando minhas expectativas, que a pauta sobre os Ninjas era extensa e que não havia espaço para “falar de tudo”.
*Braço do Fora do Eixo – uma rede de pessoas envolvidas com produção cultural –, o coletivo de jornalismo em rede Mídia Ninja, sigla que resume o nome Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, tem enfoque na distribuição de conteúdo informativo de forma independente que, de acordo com definição do próprio grupo, é produzido de “dentro dos acontecimentos” e especializado na cobertura de mobilizações da sociedade.
Sigo preocupado, apesar de compreender a urgência de temas morais e éticos, como modelo de financiamento e a busca por entender relações políticas que tornam possível a captação de recursos. Mas pergunto: também não é assunto relevante, exatamente dos pontos de vista moral e ético, a forma de levar informação ao público? Não é também fundamental debater o processo de produção e a consequente qualidade do jornalismo que chega à sociedade?

A menos neste instante, de acaloradas argumentações de lado a lado, não percebi empenho de nenhum lado a garimpar as vantagens e desvantagens do formato proposto, que é um filho sagaz da era digital. Já faz algum tempo, parcela crescente dos usuários de internet desejam participar, interferir e produzir o próprio conteúdo subsidiados pelos mecanismos digitais disponíveis, celulares, tablets etc...

Em relação ao método de cobertura jornalística, a exemplo daquela feita via internet durante o junho de manifestações, a pauta se perdeu nos últimos dias. Quem tem disposição para sair das redações e se deslocar para longe da tela do computador, sabe que os fatos das grandes cidades, essencialmente nas periferias, são cobertos em grande parte por “repórteres comunitários”. Desse pool de novas tecnologias e da interação é que surge espaço a experimentos comunicacionais aglutinadores como os Ninjas.

É claro que os Ninjas podem preencher uma lacuna, sobretudo porque têm condições de recuperar o estilo reportagem de rua, com o acréscimo de fazê-lo ao vivo. Por outro lado, há o crescimento explosivo de fontes, o que é visto pelo coletivo como potencial de “narrativas independentes”. Nisso, reside um perigo: garantir informação de qualidade requer checagem dos fatos e contexto. Nesse sentido, é preciso selecionar o material de forma especialmente criteriosa e, para isso, existe a necessidade de mediadores. Afinal, qual a credibilidade resultante da cultura das redes sociais, onde, individualmente, é possível publicar o que se quer e, logo depois, apagar?

Respeito o argumento de que a pauta é abrangente, mas há itens emergenciais a serem tocados. Deveria ser inescapável e imediato o interesse em debater jornalismo nas oportunidades históricas, aquelas que trazem a possibilidade da fazer evoluir o tratamento do bem público chamado informação, independentemente da forma em que ela é apresentada.

*Moriti Neto, jornalista.

terça-feira, 18 de junho de 2013

“o povo unido é gente pra caralho”

São Paulo, 17 de junho de 2013: o dia histórico que reuniu gerações contra, principalmente, o aumento do transporte público, pela revogação do aumento de 0,20 centavos no ônibus e metrô. Um relato pessoal em três frentes, por três jornalistas, Natalia Mendes, Moriti Neto e Thiago Domenici. E mais; a ida do Nota de Rodapé ao programa Roda Viva e um apanhado das discussões durante a entrevista com os representantes do Movimento Passe Livre.




Vinte centavos, sim
(Moriti Neto)

“A Copa das Confederações parece que nem está acontecendo. Ou que está acontecendo só na Globo”. A frase corre entre os jornalistas que estão nas dependências da TV Cultura, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, dia 17, à espera do programa Roda Viva, no qual este NR esteve presente na bancada de tuiteiros para participar da entrevista com integrantes do Movimento Passe Livre (MPL). Não que o futebol tenha sido realmente esquecido, mas as palavras representam muito da sensação que se espalha pela capital paulistana após a manifestação que se estendeu pelas ruas da cidade. O ato foi tão impactante que, de fato, outros eventos ficaram infinitamente menores.

Tão intensos têm sido os protestos realizados há três semanas – com crescente incorporação de participantes – que acabam por produzir debates proporcionalmente fortes. Bastante disso é causado pela heterogeneidade do movimento. Várias tendências se encontram nele. Não de organizações político-partidárias constituídas. O que se vê é outro tipo de mobilização. De diversas cores e classes, elas têm no valor concreto, nos R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus em SP, o eixo que as une. Essa discussão é essencial.

Qualquer tentativa de rotular as manifestações e tirá-las do principal mote, o da reivindicação pela democratização do transporte coletivo, algo que não passa somente pela tarifa, mas pela revisão do modelo, é veementemente refutada por membros do MPL. “O Movimento Passe Livre não nasceu agora. É fruto de organização de anos. Muito tempo fazendo um debate que interessa à grande parcela da sociedade, pois isso passa pelo direito de se locomover. Assim, é claro que não perdemos de vista o principal das manifestações, que são, sim, os R$ 0,20”, explica ao NR Lucas Monteiro de Oliveira, professor de história e integrante do MPL, logo depois do fim do Roda Viva.

Tal firmeza de argumento não evita que análises apressadas se construam. À direita e à esquerda surgem comentários que buscam enquadrar o movimento. A bola da vez, na voz dos conservadores, é classificar as ações como acéfalas e carentes de lideranças, inclusive buscando estimular a ideia de que qualquer ato de violência policial-estatal se torna mais provável “pela falta de organização das manifestações”, como tentou sugerir o coronel reformado da Polícia Militar, José Vicente Filho, entre os entrevistadores na bancada do Roda. “Com mais de 100 mil pessoas, não houve violência hoje. E não haveria na quinta passada, se não fosse a agressividade da PM, estimulada por vários atores. Estamos mobilizados horizontalmente, mas muito bem organizados. Se não estivéssemos, como seria conduzida uma manifestação desse porte?”, destaca Lucas.

Por outro lado, há correntes esquerdistas que, perdidas na incapacidade de renovação do próprio pensamento, seguem na avaliação de que é necessária a aproximação com “gente gabaritada” para fortalecer e legitimar os protestos. Óbvio que os “gabaritados” seriam os sindicatos. Justamente o movimento sindical que, seduzido pelas benesses do poder público, tanto se perdeu desde que o PT assumiu o Governo Federal. “Dizer que o movimento não tem organização, que precisa de lideranças, não condiz com o real. A diferença é que nossa articulação é horizontal, o que não invalida nossas escolhas políticas. Desde as deliberações, passando pelos trajetos até as aparições públicas, todas as iniciativas são pensadas politicamente”, diz Nina Cappello, estudante de direito da Universidade de São Paulo (USP) e também membro do MPL.

Como se observa, qualquer busca por rotular apressadamente a multidão que protesta em São Paulo, parece mais uma jogada para arremessar o movimento à vala comum dos discursos vazios, casos do “Pelo fim da corrupção” e “Acorda, Brasil”. Tais lemas seriam válidos se não carecessem de direção. Na verdade, são vulneráveis a manobras populistas. Nesse caso, vale lembrar a caça aos comunistas da ditadura militar. Generalizante, o argumento funcionou apenas como ferramenta de marketing que mobilizou setores mais conservadores da sociedade e promoveu o massacre dos direitos civis.

Fora isso, existe o despreparo em lidar com novas formas de organização popular. Maneiras de agir sem hierarquia evidente e que, naturalmente, contêm menor grau de paternalismo. De um jeito ou de outro, enquanto os que avaliam a situação, governantes e mídia, seguirem sem pisar na rua, sem encarar os rostos de múltiplos tons e sem escutar as vozes que reivindicam a solução para os problemas concretos da população, pode-se até adiar a redução do preço da passagem de ônibus, porém nada fará perder o que esse movimento já conquistou: o amadurecimento político que assusta as formas velhas de gerir o que é público.

“São Paulo se reencontrou”
(Thiago Domenici)

A ponte Estaiada, ocupada por manifestantes
É difícil dar um início para esse texto que não saia do óbvio sentimento de energia pura, de grande felicidade que acometeu todos os que estiveram nas ruas de São Paulo ontem para protestar pela redução da tarifa de transportes. Na esteira dessa bandeira do Movimento Passe Livre (MPL), da revogação do aumento de 0,20 centavos, somado aos lamentáveis episódios de violação dos direitos humanos praticados com brutalidade e arrogância pela Polícia Militar de São Paulo na última quinta-feira, mais de 100 mil pessoas levaram sua voz a urbes paulistana.

Uma voz que uniu gentes – muitas – de todos os tipos, caras, idades, partidárias e apartidárias, marinheiros de primeira manifestação, pais e mães em apoio aos filhos, brasileiros em geral, que tentavam, a medida que engrossava a manifestação, compreender aquilo tudo. O jeito, meus caros, foi andar. E andamos um bocado. A rua tinha forma e direção. Estava tomada. Era nossa e não dos carros.

Mas vale dizer que o Brasil não estava dormindo. Pelo menos não o Brasil dos movimentos sociais fortes, de gente que já vem apanhando na rua faz tempo, se mobilizando e lutando sem ter a merecida voz dos meios de comunicação, os mesmos que dias atrás lançaram editorias fascistas e estavam às voltas com sua habitual manipulação de informação.

A coisa toda começou a partir do Largo da Batata, onde se deu a concentração, que depois rumou pela avenida Brigadeiro Faria Lima e, a partir dali, dividiu-se em três blocos: uma turma que seguiu para a Avenida Paulista, outra para a Ponte Estaiada e outro grupo ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo Estadual.

“Que coincidência, sem polícia não existe violência”, foi um dos gritos que reverberou durante a caminhada totalmente pacífica. Tão pacífica, que diante da primeiro vacilo de alguém, o povo repreendia. Aliás, hoje, se alguém tinha duvida do significado do termo “povo unido”, já aprendeu na prática.

Na Faria Lima, dos prédios e estabelecimentos comerciais, gente sacudia bandeiras brancas como forma de apoio. Outras dançavam. Tudo, sob aplausos e gritos de “vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Também foi curioso o festival de cartazes, que seria impossível descrever aqui de tantos que eram. Lembro de um, que me chamou a atenção: “nós fazemos a nossa própria nação”.

Os protestos, vale lembrar, levaram, dizem por aí, mais de 230 mil pessoas (foram muitas mais, sem dúvida) às ruas em 12 capitais nesta segunda-feira. Por fim, é indecifrável saber no que vai dar essa mobilização toda. A cabeça ainda está a milhão. Mas a sensação, depois da barbárie da PM, é que São Paulo se reencontrou consigo mesma. Deu uma reposta fantástica, cheia de entusiasmo e dormiu feliz para acordar revigorada nesta terça-feira. Amanhã vai ser maior? Tomara que sim.

“O que ouvi hoje não foi uma voz só”
(Natalia Mendes)

Avenida Paulista tomada por manifestantes
Lá pelas quatro da tarde, fomos para o ponto pegar o ônibus com destino ao Largo da Batata. Já encontramos alguns conhecidos e, logo no ponto seguinte, entraram vários adolescentes carregando cartazes, rostos pintados e energia pra dar e vender. Com isso, o ônibus foi tomado por manifestantes.

Ainda no caminho, a expectativa que tentava se disfarçar saiu pela garganta dos passageiros que já chamavam “Vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Pelas janelas, podíamos ver pessoas descendo a pé e cantando também. Não dava pra esperar o tempo dos veículos motorizados, saltamos alguns pontos antes para nos juntar aos outros.

No Largo, muitos rostos familiares, amigos e conhecidos. Recebi uma flor e um belo sorriso. No caminho, a mesma coisa. Encontros rápidos, abraços, sorrisos, alegria. Um clima leve. Não vi polícia nenhuma. “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”. Mas vi funcionários de uma famosa lanchonete dançarem animados, pessoas nas janelas acenando com lenços e lençóis brancos para os manifestantes, curiosos observando da calçada e batendo palmas.

A tensão inicial, a expectativa, o receio pelas balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram se perdendo.

Não sei dizer o quanto andamos, algumas horas. Paramos em uma esquina e ficamos observando aquele mar de gente. Era muita gente, mas muita mesmo. Era lindo, era impressionante. Isso que a manifestação tinha se dividido em três. Não conseguíamos imaginar quantas pessoas ocuparam as ruas. Ainda não sabemos ao certo.

Li relatos de gente que nem imaginei que estivesse lá. Soube de cantos que não ouvi. Encontrei (e vi de longe) pessoas que não esperava, que não sabia que estariam ali. Vi fotos de lugares que não passei. Parece que foram várias manifestações pela cidade. Todas parceiras.

O que ouvi hoje não foi uma voz só. Foram muitas, muitas mesmo.

Imagens: Joel Silva/Folhapress / Moacyr Lopes Júnior/Folhapress /Mídia Ninja.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Futebol e “jornalismo do apocalipse”: tudo a ver


por Moriti Neto  ilustração Victor Zalma*

O que se faz, aproveitando o reforço das escassas inteligências e do quase zero de seriedade constantes no meio do jornalismo esportivo, é apostar maximamente no descartável, mola essencial da sociedade de consumo.

Deparei-me com exemplo disso no último dia 1º de maio, à tarde, um feriado, quando assistir ao jogo de volta entre Barcelona e Bayern Munique, disputado na Espanha, pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa, parecia boa opção. Parecia. Com a partida transmitida em sinal aberto pelas emissoras Bandeirantes e Globo, o que vi foi uma exibição de mau jornalismo, total descompromisso com a informação.

A vitória do time alemão por 3 x 0 e a incontestável classificação (o time bávaro já havia vencido a primeira partida pelo placar de 4 x 0) transformou o Bayern em novo xodó da mídia esportiva internacional, brasileira incluída. Mais do que isso, expõe a irresponsabilidade das equipes “jornalísticas” que transmitem competições esportivas de alto nível, já que alcançam – e influenciam – tantas pessoas.

O modelo do time a ser admirado nem é o problema. Isso vai de gosto pessoal. A questão é a falta de embasamento. O que leva narradores e comentaristas a afirmarem que “um gigante surge” e “o fim de uma era”?

Sim, o Bayern é ótimo. Apresenta valores individuais de excelente nível e bom jogo coletivo. Ganhou o último campeonato alemão de forma notável. Contudo, o que exatamente serve de parâmetro para guindá-lo ao gigantismo internacional promovido pelos Galvões da vida?

Os reis das obviedades tomam como fundamento duas partidas. Absolutamente nada que escape às duas derrotas impostas ao Barcelona, este, de fato, o gigante da história do futebol contemporâneo tanto pela qualidade técnica como por grandeza de títulos conquistados (vale ressaltar que, no momento, o Barça está claramente em declínio, motivado por diversos itens que vão muito além da ausência, na ocasião da partida, do contundido Lionel Messi).

Nem mesmo é possível classificar a recente alçada midiática do Bayern à condição de time mais forte do mundo como resultado de anos de construção. O projeto que colocou o clube em três finais da Liga dos Campões nas quatro últimas competições disputadas não é considerado. Está longe de ser o parâmetro para a conclusão dos gênios da cobertura esportiva, já que mal citado é.

Sai o Barcelona, entra o Bayern Munique. Numa simples operação que não leva em conta nenhum fator a não ser a busca de audiência e a venda da publicidade. Aqui entra a aposta no descartável. Mexe-se na prateleira, substitui-se um produto por outro e esquece-se a missão de informar.

Não estou aqui a defender o mau humor, mas a seriedade. São conceitos bem diferentes. O futebol, esporte mais popular do planeta, não é só diversão. É patrimônio cultural da humanidade. Merece precisão e responsabilidade na transmissão da informação, que é bem de interesse público.

No entanto, na ânsia pela venda do produto, o que prevalece são as bobagens ditas por falsos profetas, principalmente os do apocalipse. Eles adoram gritar fins e surgimentos. Amam antever os rumos do mundo. Triste. Ainda mais entristecedor é que isso vá bem além de uma transmissão esportiva. Invade as várias áreas do jornalismo. Sem piedade, a irresponsabilidade informativa vista em Barcelona x Bayern Munique atravessa a vida de quem acompanha as editorias de cada dia.

Precisão? Que se dane!

Só para reforçar o quanto o futebol serve de referência sobre a falta de competência na apuração e o quão são irresponsáveis as coberturas jornalísticas atuais, vale lembrar casos envolvendo os jogadores Neymar e Paulo Henrique Ganso, hoje no Santos e no São Paulo, respectivamente.

No limite da irresponsabilidade, tem veículo de comunicação que reforça o erro de outro, site que aposta em astrologia para fazer “jornalismo” e interesses nada nobres em jogo.

-- Ganso troca Santos por Corinthians

-- Astrologa prevê lesão de Ronaldo, alcoolismo de Neymar e queda do Vasco

-- A cruzada da mídia contra Neymar


*Moriti Neto, jornalista. ilustração de Victor Zalma, especial para o texto, faz sua estreia no time de colunistas do NR

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O partido de Marina Silva em oito (curtos) parágrafos


por Moriti Neto*

Não é fácil compreender a essência das propostas do recém-anunciado Rede de Sustentabilidade. O “partido que não é partido”, da ex-senadora Marina Silva, dona de quase 20 milhões de votos nas últimas eleições para a presidência da República, é atravessado por flacidez argumentativa.

Durante o último Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira, dia 18, em que este colunista do NR esteve presente na bancada de tuiteiros, a nova querida da mídia tradicional mostrou que, além da busca por uma agremiação, tenta encaixar um discurso de pura espuma.

Discurso, aliás, que ficou ainda mais na superfície com a ausência do debate sobre a visão de Marina a respeito dos direitos civis e a hipócrita ideia de plebiscitar – caso seja eleita presidente – questões como descriminalização do aborto, da maconha, e reconhecimento do casamento gay, sabendo antecipadamente que elas sairiam derrotadas pelo conservadorismo da maioria. Isso, sem mencionar a postura a favor do ensino religioso na escola pública.

Alguns conceitos encerrados em frases como “nossa Rede vem para trazer protagonismo aos diversos setores da sociedade, algo que as siglas atuais não atendem” e “não somos nem de esquerda nem de direita, estamos a frente, somos pela sustentabilidade”, soam rasos vindo de alguém com a bagagem intelectual e política de Marina.

Sobre protagonismo e sustentabilidade, são muito mais slogans de campanha do que propriamente propostas. Como falar em formação de protagonismo político sem clareza de quem é a base social do tal Rede? Aliás, a líder do projeto chega, de forma generalizante, a afirmar que o formato da sigla permitiria que empresários e trabalhadores, entre outras categorias de atores pouco claras, lutem por uma causa. Daí entra em cena a ideia simplista de sustentabilidade. Seria ela a linha condutora, a causa comum entre classes distintas. De novo, o palavrório aponta para um conceito de rede capaz de envolver diversos grupos em torno da defesa do desenvolvimento sustentável. Porém, o que é sustentabilidade para o pobre? E para o rico? Como encara a ideia um megaempresário do agronegócio? E um índio?

Nesse raciocínio, se apresenta a parte que julgo mais preocupante por trás de seu discurso e dos “sonháticos da nova política”: é que jogar na vala comum as definições de esquerda e direita, como se a responsabilidade sobre alianças que buscam a governabilidade fossem apenas opções partidárias, enfraquece o debate necessário quanto a validade do nosso sistema de democracia representativa, construído pela e para a elite, gerador de grandes desequilíbrios na representatividade proporcional da sociedade.

O argumento de nem esquerda nem direita esvazia o debate, desideologiza, e deveria causar arrepios em quem se diz progressista. Nos anos 1990, a estratégia de radicalização da receita neoliberal passava justamente por colocar a ideologia a escanteio e reduzir as disputas políticas a critérios de avaliação dos “melhores gerentes”. Foi um momento de pobreza intelectual que paralisou movimentos sociais e diminuiu espaços para conquistas populares.

Com um emaranhado de frases de efeito, como “quero democratizar a democracia” (???), Marina Silva, até agora, diz mais do mesmo conteúdo em nova embalagem. E o pior: o tom de que nenhum partido existente serve à construção de seus projetos e que o Rede de Sustentabilidade é o paraíso dos puros de coração, a arremessa ao salvacionismo, que serve, historicamente, aos interesses de grupos reacionários.

*Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar. Foto: Pedro Ladeira/AFP

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O inferno do abandono

Desabrigados pelas enchentes desde 2010, moradores de alojamento improvisado em Atibaia (SP) sofrem, seguidamente, com descaso do Poder Público

Pela quinta vez, o Nota de Rodapé chega ao Campo do Santa Clara, no bairro do Caetetuba, periferia de Atibaia. Nesta visita à cidade interiorana, localizada a 60 quilômetros de São Paulo, encontramos Elisa da Fonseca, Josefa Ferreira da Silva, Eliane Aparecida Narciso e Regiane Aparecida Narciso. Quatro mulheres e um mesmo lugar. Nomes e documentos diferentes, mas situação de abandono e preconceito comum desde as enchentes que atingiram o município nos verões de 2010 e 2011.

Como tantos outros, elas são ex-moradoras da rua dos Pires, na Vila São José, bairro próximo e uma das áreas mais pobres da região bragantina. Todas tiveram as casas demolidas e queimadas pela Prefeitura em janeiro de 2010. De acordo com os números oficiais, atualmente são 32 famílias habitando o outrora campo de futebol.

Ali os moradores já foram enlatados em contêineres e quase entraram num alojamento com o venenoso amianto sob as cabeças, como denunciou este NR.

Além disso, até hoje estão nas precárias casas de madeirite do abrigo improvisado, recebem valores exorbitantes nas cobranças de água e luz, e ainda convivem com a truculência policial.

Eliane, que mora com cinco filhos no local, tenta proteger a família tanto da influência do tráfico de drogas quanto da agressividade e discriminação da polícia. “Eu nem trabalho, pois não posso largar eles aqui, não tem nada pra fazer. Se deixar, eles vão se envolver mesmo. É o que tem pra eles”, diz.

Com o poder dos traficantes, ela pouco pode fazer para cuidar da família. Fora isso, tem que enfrentar ações policiais que criminalizam a população do lugar e já até “profetizaram” o destino de dois de seus filhos. “Um policial da Rota falou pra mim assim: ‘esse bebê que está no seu colo, daqui a alguns dias já vai estar no meio das drogas e a de 11 anos vai estar vendendo’, contou.

“A Polícia Militar, o pessoal da Rota, da Força Tática, quer que a gente denuncie traficante, mas eles vêm aqui pra prender um ou outro e vão embora. Nós vamos continuar morando. Como fica a segurança se a gente entrega alguém?”, pergunta Eliane.

Elisa também vivenciou a condição de criminalidade ser estendida para toda e qualquer pessoa que viva no campo. A unidade do alojamento em que mora com o marido e a filha foi invadida por uma operação policial. A suspeita da PM era que a casa fosse “ponto de drogas”. A moradora lembra que foi vigiada por 15 dias até que cinco viaturas a cercaram na porta de casa. “Pensaram que eu ia sair correndo”, explica a senhora, hoje aposentada e que tem sérios problemas na coluna.

Violência e precariedade

Josefa Ferreira da Silva, conhecida no bairro como Julia, instalou, na parte do abrigo em que mora com o marido, uma mercearia. “A gente precisa de renda. Dá pra ganhar uns trocados aqui, né?”, comenta. O pequeno comércio acabou por se tornar ponto de encontro, principalmente para as mulheres que têm a precaução de vigiar os filhos.
A partir da esquerda: Eliane, Elisa, “Julia” e Regiane
(Foto de Mayra Bondança)

Segundo Julia, o abrigo, com a forte presença do tráfico, violência da polícia e precariedade estrutural, é “um pedacinho do inferno”. “Ficamos no meio do fogo cruzado, pois as casas são procuradas por gente que se esconde da polícia. Aí a PM entra sem pedir licença, acusando que a gente protege bandido”.

Não bastasse o que se vive de dificuldades de habitação, já que as casas, entre outros problemas, têm telhados que se assemelham a papelão – não suportam chuva e esquentam absurdamente expostos ao sol – e infestações de ratos que abalam as estruturas frágeis das casas, fazendo ceder pisos e abrindo buracos nas paredes, o preconceito com a comunidade alojada no Campo do Santa Clara vai além da polícia.

Regiane Aparecida Narciso, irmã de Eliane, foi vítima de discriminação quando buscava trabalho em Atibaia. Candidata a uma vaga no Supermercado Extra, situado em área central, chegou antes da hora marcada para a entrevista. “Meia hora depois, chegou outra moça. A pessoa que ia atender a gente perguntou onde cada uma morava. Quando eu disse Campo do Santa Clara, chamaram a outra pra fazer entrevista antes de mim, no meu horário marcado. Depois, avisaram que a vaga tinha sido preenchida. Mal falaram comigo”, revela. Grávida do quinto filho, ela segue desempregada.

Os exemplos de acontecimentos como esse parecem comuns. A juventude do alojamento está entre os que mais sofrem. “Meu filho de 15 anos também já passou por isso. Os meninos procuram trabalho, mas o pessoal não emprega, fala que tem medo. Tem preconceito sim. Gente que poderia dar oportunidade diz que não ajuda porque não conhece o tipo de gente que mora aqui”, aponta Eliane.

Até quando?

Durante bastante tempo, os moradores escutaram da Prefeitura que o prazo para sair do alojamento seria de dois anos, a contar de fevereiro de 2010, quando a obra do alojamento se iniciou. Na época, uma placa colocada no campo pelo Poder Público mostrava o mês, mas indicava uma data inusitada.

Vista dos prédios do futuro conjunto habitacional
(Foto de Moriti Neto)
O destino das famílias seria um conjunto habitacional chamado de Assentamento Caetetuba II, em outro bairro periférico. Contudo, os prazos para a entrega dos prédios foram alterados. A Prefeitura anunciou várias datas. “Depois dos dois anos de prazo, falaram em dezembro de 2012. Daí mudou pra fevereiro do ano que vem. Modificaram pra abril e já tem comentário de funcionário da Prefeitura de que fica pronto só no final de 2013”, descreve Eliane.

A preocupação de Eliane é baseada não só nos comentários. Numa visita ao futuro conjunto, é fácil notar que a construção está em estágio que necessita da finalização de diversos itens. Os sete prédios, com 24 apartamentos cada, estão erguidos, mas não há qualquer sinal do acabamento no trabalho dos poucos operários que tocam a obra. Água e esgoto ainda não têm as instalações concluídas. Tudo indica que os dias no “inferno” estão longe de terminar.


Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Os erros (ignorados) das pesquisas eleitorais

Distantes cerca de 60 km de São Paulo, as interioranas Atibaia e Bragança Paulista foram exemplos de disparidades nos índices mostrados pelas pesquisas eleitorais e os resultados das urnas na últimas eleições municipais. Contudo, diferentemente das grandes cidades, as luzes da mídia corporativa não destacaram as situações que chegaram a apontar percentuais de até 20% de diferença entre estudos publicados e o voto de fato.

Na disputa atibaiense, impressos e sites locais sempre colocaram na frente dois candidatos que não foram os vencedores nas urnas, Professor Wanderley (DEM) e Luiz Fernando Pugliesi (PV). O primeiro chegou a aparecer como líder absoluto nos estudos, com até 42% das intenções. No voto real, ficou com aproximadamente 29%. O segundo, dois dias antes da eleição, foi destacado na manchete do jornal O Atibaiense, em pesquisa de instituto identificado por FLS, como provável vencedor.

No entanto, quem acabou eleito foi Saulo Pedroso de Souza (PSD) jamais citado nos jornais com chances reais de vitória. Ao contrário, ele chegou a ser mostrado, 48 horas antes do pleito, na casa dos 16%, metade do número do líder da pesquisa publicada. Ao fim da apuração, o eleitorado deu a Saulo 31%, quase o dobro das intenções de voto que a medição lhe atribuía.

Em Bragança, as discrepâncias entre pesquisas e votação foram também gritantes. Até o nacionalmente conhecido Ibope errou grosseiramente. Poucos dias antes da eleição, colocou, nas páginas do Bragança Jornal Diário, Renato Frangini (DEM) 14 pontos percentuais (37% a 23%) a frente do prefeito eleito, Fernão Dias (PT). Difícil justificar tal diferença, já que outro estudo, encomendado por um empresário local e feito pelo mesmo instituto praticamente nos mesmos dias, mostrava só 4% de distância entre o democrata e o petista. Além disso, diversas medições internas indicaram, por duas semanas seguidas, muito equilíbrio.
Aos interiores, ainda que relativamente próximos das capitais, os holofotes midiáticos não chegam com a mesma força. Na realidade, na maioria dos casos, eles nem são apontados, já que a audiência e o consequente ganho financeiro são considerados irrelevantes pelas empresas de comunicação.
Perto do limite da ida dos eleitores às urnas, outro jornal de Bragança, A Gazeta Bragantina, circulou pesquisa do Instituto IPEMPI. A tal medição alargava ainda mais a distância entre o candidato do DEM e o do PT, conferindo 39,5% ao primeiro e 18,4% ao segundo. Encerrada a apuração, na noite de domingo, 8 de outubro, ambos tiveram pouco mais de 38% e o petista venceu por apertadíssimos 21 votos (0,3% de vantagem, 38,08% contra 38,05%).

Não são raros os exemplos em que pesquisas deixam de refletir a vontade popular do momento. Contudo, nos grandes municípios, como Curitiba e São Paulo, onde os institutos também erraram feio, especialmente nos primeiros turnos, existe forte repercussão crítica por parte de alguns setores da sociedade, o que obriga mídia e institutos a aprofundarem explicações sobre as falhas.

Aos interiores, ainda que relativamente próximos das capitais, os holofotes midiáticos não chegam com a mesma força. Na realidade, na maioria dos casos, eles nem são apontados, já que a audiência e o consequente ganho financeiro são considerados irrelevantes pelas empresas de comunicação. Dessa forma, mesmo que ocorrências – como as de Atibaia e Bragança Paulista – sejam emblemáticas dos equívocos de enormes proporções que institutos de pesquisa e os divulgadores das medições possam cometer, o interesse público é pouco ou nada discutido e se esquece, até a eleição seguinte, o tamanho do estrago que podem causar à democracia.

Por que os institutos erram tão gravemente em condições como essas? A questão principal não é discutir estudos isolados, mas tomá-los por base para debater métodos. Trabalhos de pesquisa são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade, contudo não se pode permitir que distorçam e influenciem negativamente a realidade social.

Até para que o debate não fique restrito aos períodos de campanha, o Nota de Rodapé se coloca nessa polêmica roda de discussões. Depois desta pensata, traremos, quarta-feira, 14, entrevista que analisa o complexo universo de institutos e mídia, com a opinião de um dos mais respeitados do ramo da pesquisa no Brasil, Pergentino Mendes de Almeida.

Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar 
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