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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 18 de junho de 2013

“o povo unido é gente pra caralho”

São Paulo, 17 de junho de 2013: o dia histórico que reuniu gerações contra, principalmente, o aumento do transporte público, pela revogação do aumento de 0,20 centavos no ônibus e metrô. Um relato pessoal em três frentes, por três jornalistas, Natalia Mendes, Moriti Neto e Thiago Domenici. E mais; a ida do Nota de Rodapé ao programa Roda Viva e um apanhado das discussões durante a entrevista com os representantes do Movimento Passe Livre.




Vinte centavos, sim
(Moriti Neto)

“A Copa das Confederações parece que nem está acontecendo. Ou que está acontecendo só na Globo”. A frase corre entre os jornalistas que estão nas dependências da TV Cultura, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, dia 17, à espera do programa Roda Viva, no qual este NR esteve presente na bancada de tuiteiros para participar da entrevista com integrantes do Movimento Passe Livre (MPL). Não que o futebol tenha sido realmente esquecido, mas as palavras representam muito da sensação que se espalha pela capital paulistana após a manifestação que se estendeu pelas ruas da cidade. O ato foi tão impactante que, de fato, outros eventos ficaram infinitamente menores.

Tão intensos têm sido os protestos realizados há três semanas – com crescente incorporação de participantes – que acabam por produzir debates proporcionalmente fortes. Bastante disso é causado pela heterogeneidade do movimento. Várias tendências se encontram nele. Não de organizações político-partidárias constituídas. O que se vê é outro tipo de mobilização. De diversas cores e classes, elas têm no valor concreto, nos R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus em SP, o eixo que as une. Essa discussão é essencial.

Qualquer tentativa de rotular as manifestações e tirá-las do principal mote, o da reivindicação pela democratização do transporte coletivo, algo que não passa somente pela tarifa, mas pela revisão do modelo, é veementemente refutada por membros do MPL. “O Movimento Passe Livre não nasceu agora. É fruto de organização de anos. Muito tempo fazendo um debate que interessa à grande parcela da sociedade, pois isso passa pelo direito de se locomover. Assim, é claro que não perdemos de vista o principal das manifestações, que são, sim, os R$ 0,20”, explica ao NR Lucas Monteiro de Oliveira, professor de história e integrante do MPL, logo depois do fim do Roda Viva.

Tal firmeza de argumento não evita que análises apressadas se construam. À direita e à esquerda surgem comentários que buscam enquadrar o movimento. A bola da vez, na voz dos conservadores, é classificar as ações como acéfalas e carentes de lideranças, inclusive buscando estimular a ideia de que qualquer ato de violência policial-estatal se torna mais provável “pela falta de organização das manifestações”, como tentou sugerir o coronel reformado da Polícia Militar, José Vicente Filho, entre os entrevistadores na bancada do Roda. “Com mais de 100 mil pessoas, não houve violência hoje. E não haveria na quinta passada, se não fosse a agressividade da PM, estimulada por vários atores. Estamos mobilizados horizontalmente, mas muito bem organizados. Se não estivéssemos, como seria conduzida uma manifestação desse porte?”, destaca Lucas.

Por outro lado, há correntes esquerdistas que, perdidas na incapacidade de renovação do próprio pensamento, seguem na avaliação de que é necessária a aproximação com “gente gabaritada” para fortalecer e legitimar os protestos. Óbvio que os “gabaritados” seriam os sindicatos. Justamente o movimento sindical que, seduzido pelas benesses do poder público, tanto se perdeu desde que o PT assumiu o Governo Federal. “Dizer que o movimento não tem organização, que precisa de lideranças, não condiz com o real. A diferença é que nossa articulação é horizontal, o que não invalida nossas escolhas políticas. Desde as deliberações, passando pelos trajetos até as aparições públicas, todas as iniciativas são pensadas politicamente”, diz Nina Cappello, estudante de direito da Universidade de São Paulo (USP) e também membro do MPL.

Como se observa, qualquer busca por rotular apressadamente a multidão que protesta em São Paulo, parece mais uma jogada para arremessar o movimento à vala comum dos discursos vazios, casos do “Pelo fim da corrupção” e “Acorda, Brasil”. Tais lemas seriam válidos se não carecessem de direção. Na verdade, são vulneráveis a manobras populistas. Nesse caso, vale lembrar a caça aos comunistas da ditadura militar. Generalizante, o argumento funcionou apenas como ferramenta de marketing que mobilizou setores mais conservadores da sociedade e promoveu o massacre dos direitos civis.

Fora isso, existe o despreparo em lidar com novas formas de organização popular. Maneiras de agir sem hierarquia evidente e que, naturalmente, contêm menor grau de paternalismo. De um jeito ou de outro, enquanto os que avaliam a situação, governantes e mídia, seguirem sem pisar na rua, sem encarar os rostos de múltiplos tons e sem escutar as vozes que reivindicam a solução para os problemas concretos da população, pode-se até adiar a redução do preço da passagem de ônibus, porém nada fará perder o que esse movimento já conquistou: o amadurecimento político que assusta as formas velhas de gerir o que é público.

“São Paulo se reencontrou”
(Thiago Domenici)

A ponte Estaiada, ocupada por manifestantes
É difícil dar um início para esse texto que não saia do óbvio sentimento de energia pura, de grande felicidade que acometeu todos os que estiveram nas ruas de São Paulo ontem para protestar pela redução da tarifa de transportes. Na esteira dessa bandeira do Movimento Passe Livre (MPL), da revogação do aumento de 0,20 centavos, somado aos lamentáveis episódios de violação dos direitos humanos praticados com brutalidade e arrogância pela Polícia Militar de São Paulo na última quinta-feira, mais de 100 mil pessoas levaram sua voz a urbes paulistana.

Uma voz que uniu gentes – muitas – de todos os tipos, caras, idades, partidárias e apartidárias, marinheiros de primeira manifestação, pais e mães em apoio aos filhos, brasileiros em geral, que tentavam, a medida que engrossava a manifestação, compreender aquilo tudo. O jeito, meus caros, foi andar. E andamos um bocado. A rua tinha forma e direção. Estava tomada. Era nossa e não dos carros.

Mas vale dizer que o Brasil não estava dormindo. Pelo menos não o Brasil dos movimentos sociais fortes, de gente que já vem apanhando na rua faz tempo, se mobilizando e lutando sem ter a merecida voz dos meios de comunicação, os mesmos que dias atrás lançaram editorias fascistas e estavam às voltas com sua habitual manipulação de informação.

A coisa toda começou a partir do Largo da Batata, onde se deu a concentração, que depois rumou pela avenida Brigadeiro Faria Lima e, a partir dali, dividiu-se em três blocos: uma turma que seguiu para a Avenida Paulista, outra para a Ponte Estaiada e outro grupo ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo Estadual.

“Que coincidência, sem polícia não existe violência”, foi um dos gritos que reverberou durante a caminhada totalmente pacífica. Tão pacífica, que diante da primeiro vacilo de alguém, o povo repreendia. Aliás, hoje, se alguém tinha duvida do significado do termo “povo unido”, já aprendeu na prática.

Na Faria Lima, dos prédios e estabelecimentos comerciais, gente sacudia bandeiras brancas como forma de apoio. Outras dançavam. Tudo, sob aplausos e gritos de “vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Também foi curioso o festival de cartazes, que seria impossível descrever aqui de tantos que eram. Lembro de um, que me chamou a atenção: “nós fazemos a nossa própria nação”.

Os protestos, vale lembrar, levaram, dizem por aí, mais de 230 mil pessoas (foram muitas mais, sem dúvida) às ruas em 12 capitais nesta segunda-feira. Por fim, é indecifrável saber no que vai dar essa mobilização toda. A cabeça ainda está a milhão. Mas a sensação, depois da barbárie da PM, é que São Paulo se reencontrou consigo mesma. Deu uma reposta fantástica, cheia de entusiasmo e dormiu feliz para acordar revigorada nesta terça-feira. Amanhã vai ser maior? Tomara que sim.

“O que ouvi hoje não foi uma voz só”
(Natalia Mendes)

Avenida Paulista tomada por manifestantes
Lá pelas quatro da tarde, fomos para o ponto pegar o ônibus com destino ao Largo da Batata. Já encontramos alguns conhecidos e, logo no ponto seguinte, entraram vários adolescentes carregando cartazes, rostos pintados e energia pra dar e vender. Com isso, o ônibus foi tomado por manifestantes.

Ainda no caminho, a expectativa que tentava se disfarçar saiu pela garganta dos passageiros que já chamavam “Vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Pelas janelas, podíamos ver pessoas descendo a pé e cantando também. Não dava pra esperar o tempo dos veículos motorizados, saltamos alguns pontos antes para nos juntar aos outros.

No Largo, muitos rostos familiares, amigos e conhecidos. Recebi uma flor e um belo sorriso. No caminho, a mesma coisa. Encontros rápidos, abraços, sorrisos, alegria. Um clima leve. Não vi polícia nenhuma. “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”. Mas vi funcionários de uma famosa lanchonete dançarem animados, pessoas nas janelas acenando com lenços e lençóis brancos para os manifestantes, curiosos observando da calçada e batendo palmas.

A tensão inicial, a expectativa, o receio pelas balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram se perdendo.

Não sei dizer o quanto andamos, algumas horas. Paramos em uma esquina e ficamos observando aquele mar de gente. Era muita gente, mas muita mesmo. Era lindo, era impressionante. Isso que a manifestação tinha se dividido em três. Não conseguíamos imaginar quantas pessoas ocuparam as ruas. Ainda não sabemos ao certo.

Li relatos de gente que nem imaginei que estivesse lá. Soube de cantos que não ouvi. Encontrei (e vi de longe) pessoas que não esperava, que não sabia que estariam ali. Vi fotos de lugares que não passei. Parece que foram várias manifestações pela cidade. Todas parceiras.

O que ouvi hoje não foi uma voz só. Foram muitas, muitas mesmo.

Imagens: Joel Silva/Folhapress / Moacyr Lopes Júnior/Folhapress /Mídia Ninja.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Não se pode ignorar

Não importa se você odeia a Globo, não suporta BBB. Nesse final de semana aconteceu uma coisa horrível e que acontece com frequência. Mas dessa vez foi transmitido ao vivo pela maior emissora de TV do Brasil. E é também por isso que não podemos deixar de falar do caso.

Talvez você não esteja entendendo. Explico. Na madrugada de sábado para domingo, houve a primeira festa do BBB 2012 e, como sempre, muita bebida. Durante a festa, um dos participantes tentou mais de uma vez beijar uma das bonitonas da casa.

Ela não quis, rejeitou o cara. Ficou bêbada e foi deitar – pelos relatos que li, já era de manhã e ela foi deitar sozinha. O tal cara que já tinha tomado um fora da mulher foi e deitou com ela. E abusou dela.

Ela dormia, visivelmente inconsciente, sem se mexer, e o cara fazia movimentos sexuais – não dá pra saber se era punheta, penetração, se estava bolinando, mas era visível que se aproveitava do corpo inerte da mulher.

O público que acompanhava ao vivo pelo Pay-per-view começou a comentar nas redes sociais e mostrar grande indignação. O vídeo vazou na internet. São aproximadamente sete minutos que me deixaram muito chocada.

Não dá para ter dúvidas de que o cara realmente se aproveitou dela. Na verdade, o nome disso é estupro (que não acontece só em beco escuro com um maluco desconhecido te agarrando a força, tá?). E o crime foi transmitido ao vivo. A produção do programa não fez nada. Para mais detalhes da história, recomendo muito esse texto (e outros textos desse mesmo blog que vem em seguida).

Depois da mobilização nas redes sociais e a hashtag #DanielExpulso chegar em primeiro lugar dos Trending Topics do Twitter, o diretor do BBB, Boninho, chamou a mulher que foi violentada ao confessionário para falar sobre o episódio.

A conversa foi privada, o público não tem como saber exatamente o que foi dito. Boninho disse que ela afirmou ter sido consensual. O que ele não disse é que ela não lembra o que aconteceu. Isso ela fala em outros momentos, em diferentes conversas. Inclusive pro próprio agressor, que mentiu pra ela dizendo que foram dois beijinhos e que “passou a mão”. Não foi só isso.

Alguns textos sobre o assunto que recomendo:

E a situação piorou. Fiz questão de assistir BBB no domingo para ver se e como abordariam essa história absurda. Mostraram ele xavecando ela na festa. Mostraram ela de saco cheio dar um selinho nele na festa. Mostraram-na dando um fora bem dado nele na festa. E daqueles sete minutos de vídeo, mostraram apenas alguns pouquíssimos segundos que parece que ela se mexe um pouco.

Fizeram parecer que era um “amasso”. Mostraram como se fosse uma “troca de carícias”. Mas não é uma troca se só uma pessoa faz e a outra nem sabe, né? Ou seja, não é consensual. E a cereja do bolo: Pedro Bial pergunta ao vivo para a mulher se foi só uma ficada ou se tem algo mais e ainda solta um “o amor é lindo”. (realmente difícil saber o que o Bial entende por amor). Ela, visivelmente muito sem graça, responde “foi só um lance”. Um lance. Afinal, ela não sabe o que aconteceu.

O problema é maior

E por que falo tanto do BBB? Porque esse programa que tem mil defeitos e que pessoas inteligentes “de verdade” não “podem” assistir é um reflexo do que acontece fora daquela casa e longe das câmeras. Talvez você nem saiba, mas a chance de alguma conhecida sua ter passado por uma situação semelhante é grande.

Essa história me deixou mal. Muito mal mesmo. Já vi essa história acontecer mais de uma vez. E não foi pela televisão. Cheguei a tentar escrever sobre isso em outras situações, mas não consegui. Muita gente diz que é “exagero”.

Como pode ser exagero alguém se aproveitar do seu corpo enquanto você não tem condições de reagir? E se fosse com você? E se fosse sua mãe/filha/filho? Já imaginou?

Tenho uma amiga que passou por isso. E não foi com um desconhecido na rua. Foi com um conhecido, até então considerado um amigo. E foi na casa de uma amiga, um ambiente que acreditamos ser seguro. Foi situação que você imagina que não ofereça grandes riscos. Pois é.

Ela demorou alguns dias pra lembrar e entender o que aconteceu. Mas entendeu, ela foi estuprada. E os (as) amigos (as) o que acharam? O que sempre acham, ela estava bêbada e se arrependeu do que fez. Ela foi vítima, não culpada. Exatamente como essa mulher do BBB. Exatamente como outras inúmeras mulheres.

A Globo está sendo omissa e extremamente irresponsável ao não dar o devido valor ao que aconteceu. No mínimo, deveria levar o caso mais a sério permitir que a participante assistisse ao vídeo, acompanhada de advogado(a) e/ou terapeuta e/ou algum familiar, para ver como agir posteriormente.

Ao tentar vender o caso como uma “história de amor” para o público do programa, está estimulando, mais uma vez, o machismo e afirmando que vítima pode ter culpa de alguma coisa.

Uma vítima NUNCA será a culpada por ter sofrido violência. Ser omissa numa situação dessas é tomar partido, o partido que acha que violência conta a mulher é um problema “secundário”.

Você pode querer ignorar o BBB e a Globo, mas não ignore a violência que está logo embaixo do seu nariz.

Natalia Mendes, jornalista, do TodasNos, especial para o NR

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Catadão destaca "É tudo mentira"

EM CIMA DA HORA
É tudo mentira: cena "escorpião de jade", de woody
allen que será exibido dia 9, sábado, às 17h.
Para quem gosta de documentários, já está rolando a 16ª edição do festival “É Tudo Verdade”. Vai até o dia 10 de abril (domingo) em São Paulo e no Rio de Janeiro. A entrada é gratuita. Confira a programação no site do festival. E, paralelamente, tem o festival “É Tudo Mentira”, com ingressos que custam R$1,00 (um real mesmo), na Galeria Olido - na av. São João, 473, República. Só até o dia 11 de abril, segunda-feira próxima. O evento “procura abordar a enganação, o disfarce e a trapaça por meio de um diálogo entre cinema, literatura e música.” Saiba mais aqui. E a programação tem aqui.

PORTUGUÊS DE PORTUGAL
Livros Labcom é um projeto editorial que disponibiliza em PDF todos os livros publicados pelo Laboratório de Comunicação On-line, LabCom http://www.labcom.ubi.pt/ - um espaço ligado ao Departamento de Comunicação e Artes da Universidade Beira Interior (Portugal). Mas o projeto não esquece das pessoas que gostam de livros que possam ser segurados e sentidos nas mãos, você pode fazer o pedido de uma versão impressa de algum livro que queira. Como o site é de Portugal, não sei exatamente como funciona pedidos de outros países, mas quem tiver interesse, não custa tentar.

MUITO JAZZ
AccuJazz.com - A maior rádio de jazz online disponibiliza mais de 400 canais, com mais de 20 mil músicas gratuitamente. O conteúdo é atualizado com frequência, então, a tendência é esse número continuar crescendo. Já testei e garanto: vale muito a pena conhecer! http://www.accujazz.com/

PUBLICIDADE INDEVIDA

Começou a rolar uma história no Facebook que parecia suspeita. A mensagem que vi divulgada em alguns perfis de amigos meus era: "O Facebook começou a usar suas fotografias em anúncios que aparecerão na pagina dos seus contatos. É legal e é mencionado no contrato de uso. Para evitar vá em conta, configurações de conta, clique em anúncios do facebook (alto da página) e escolha a opção "ninguém" nos dois menus que aparecem e salve." Resolvi testar, já que não tinha que clicar em nenhum link suspeito. Essa opção de configuração existe mesmo. Então, por segurança, sugiro que os usuários de Facebook que ajustem suas configurações, porque ser usado(a) em anúncios assim, sem saber, sem querer nem nada é meio absurdo, né!?

CONTRA O MACHISMO
O governo do Equador faz uma campanha bem interessante contra o machismo. Vale muito a pena ver os vídeos abaixo, que passam na TV de lá e torcer para algum dia termos alguma coisa parecida por aqui.



Natalia Mendes é jornalista e colunista do NR. Para dicas e sugestões, muito necessárias, contato@notaderodape.com.br ou via twitter @notaderodape.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Twittando preconceitos

Estou há tempos pensando o que poderia escrever numa coluna sobre mídias sociais. Não por não ter o que dizer, pelo contrário, porque quero dizer muitas coisas.As mídias sociais estão crescendo de uma maneira impressionante. O alcance está cada vez maior, o crescimento é muito rápido. Só no Brasil, por exemplo, mais de 70 milhões usam a Internet, sendo que 79% faz parte de alguma rede social, segundo o site Mídias Sociais.  O Facebook, por exemplo, cresceu 40% no curto período de maio a junho de 2009. Já o Twitter cresceu 1382% (isso mesmo!) só em 2008 - detalhe: o Twitter foi criado em 2006, como ferramenta para comunicação interna de uma equipe de 12 pessoas de uma empresa. São Paulo é a quarta cidade do mundo que mais usa o Twitter.
Com números como esses, costumo refletir sobre o alcance das mídias sociais. Principalmente em ano de eleição. Quem faz parte de alguma rede social, sabe o quanto de informação, desinformação, opinião etc podemos acompanhar - muitas vezes sem nem querermos. Esse ano teve de tudo, baixaria, boataria, informação importante, mentiras, verdades, correntes “do bem” e “do mal”, e até casos de discriminação.

O caso da vez
Exemplo de preconceito; como esse, vários outros casos
Domingo, 31 de outubro, após a notícia da vitória de Dilma Rousseff, muitos usuários doTwitter começaram a postar mensagens culpando os nordestinos pela vitória da petista. Além da desinformação (mesmo sem contar os votos do nordeste, Dilma venceria), o caso é de preconceito e discriminação, coisas muito sérias! Será que as pessoas acreditam que por estarem atrás da tela do computador isso é menos grave? Chamar o “povo nordestino” (como se fosse um só indivíduo) de ignorante, na minha opinião, só revela a própria ignorância. Usuários além de usarem termos extremamente baixos e preconceituosos para xingarem os nordestinos, ainda defendiam uma separação do nordeste do resto do Brasil.
Fiquei tão horrorizada, que não consegui selecionar exemplos, mas sugiro que vejam aqui nesse tumblr (espécie de blog), que foi criado para expor “qualquer manifestação de cunho discriminatório”
Como resposta, muito usuários começaram a postar mensagens com a hashtag (quando se coloca # antes de uma palavra ou expressão, para agregar mensagens e facilitar a busca de determinado assunto, como se fosse uma etiqueta de tweets) #orgulhodesernordestino. Infelizmente, alguns simplesmente inverteram o preconceito - também é possível ver no link sugerido acima.
Fato é que essa história tomou uma proporção tão grande, que a OAB - PE vai entrar na justiça contra uma das twitteiras que escreveu mensagem discrimatória. E já avisou: ela não será a única que pode ser processada por racismo. A usuária, Mayara Petruso, estudante de Direito (irônico, não?) escreveu em sua página pessoal do twitter (que foi deletada por conta desse episódio): “Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!”. Ela será “alvo de duas ações: uma por racismo e outra por “incitação pública ao ato delituoso”. A primeira estipula pena de 2 a 5 anos de detenção, e a segunda, de 3 a 6 meses de reclusão ou multa.”, segundo o blog IDG Now!

O que as mídias sociais podem revelar

Com o uso de mídias sociais, muitas vezes, acabamos descobrindo um outro lado de algumas pessoas que conhecemos (ou achávamos que conhecíamos). Uma amiga acabou de comentar comigo: “Sabe o que andou me preocupando nos últimos dias? A quantidade de amigos reacionários que eu tenho, vi tudo pelo facebook”. Com certeza, ela não é a única.
Já no meu caso, fiquei preocupada quando descobri, com essa história, do que as pessoas são capazes.
Me senti na obrigação de compartilhar, todos devem saber desse absurdo, porque acho que esse tipo de coisa pode gerar importantes reflexões e discussões e para manifestar aqui a minha indignação e repúdio a todo e qualquer ato de preconceito e discriminação.

Natália Mendes é jornalista, formada em Letras - Francês, trabalha com mídias sociais. Paulistana, já morou na Bahia e teria muito orgulho se fosse nordestina. Estreia hoje no Nota de Rodapé.
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