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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Engravidei, pari cavalos e aprendi a olhar salões populares de beleza com ternura

por Cidinha da Silva*

Tudo é festa, música, alegria e cor quando um livro de amor e poesia, o Baú de Miudezas, Sol e Chuva galopa como unicórnio no horizonte da vida de todo dia que por vezes nos apequena. Tudo é abundância quando a flecha de Mutalambô acerta os corações que desbordam na água maior de Kissimbi.

Entretanto, diante do livro novo e do retorno de peça vitoriosa e transformadora aos palcos, o reino vil dos repolhos acéfalos e estéreis se manifesta e macula com saliva amarga as costas da “insuportável” autora. O reino da fertilidade ri em resposta, gargalha e dá beijinho no ombro para os repolhos. Volta ao amor, sem rancor, depois do beijinho no ombro gozador.

Escrever a dramaturgia de Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas me expôs a violências, solidão e desencantos, quando não, desesperos, muito comuns à vivência das mulheres negras brasileiras. Preciosa, de Sapphire, manifestou-se com virulência inesperada, desconhecida de meus sentidos e experiências. E, atendendo ao imperativo dessa lava incandescente, escrevi o texto teatral, como muitos dizem (todos homens expectadores), sem refresco, mas com a expectativa de que a lava passado o caos seja o mais poderoso fertilizante do renascimento.

Porém, nem tudo foi dor, a relação das mulheres populares com os salões de beleza, também populares, porque de baixo custo e muito acesso, me humanizou. Devo confessar que antes do Pari Cavalos achava aquele ambiente insuportável, até degradante. Continuo não gostando, mas gotas de entendimento umedecem as raízes do cactos que carrego a tiracolo.

O salão de cabeleireiros popular é divã sem o aparato de Freud ou Lacan para quem não consegue pagar sequer psicoterapias alternativas executadas por profissionais comprometidos com a saúde mental desse público. Além de divã para auto-análise da cliente da vez, assessorada pelas profissionais e demais colegas atendidas, a cadeira do salão popular é palco de devaneios, de alívio de frustrações pela conversa incessante, da cura pela palavra, mesmo que irrefletida, e da busca voraz da beleza vendida no mercado.

Fazer-se bela nos padrões da moda é mais do que o desejo incontido de aceitação social, de legitimação de um lugar escravizado de mulher, é um devir de desejo maior, aquele que quer, pela beleza conquistada e comprada, portanto, pertencente a ela, aplacar o desamor de não ser vista nem desejada, ou, pelo menos, não na medida que gostaria ou mereceria.

É mesmo complexo o universo de um salão popular de beleza com todo o imaginário evocado pela novela, do homem perfeito, cheiroso, carinhoso, pegador de mulher única, ela; dos filhos em casa, quietinhos, esquecidos por alguns minutos da existência da mãe; do apoio de outra mulher para fazer todo o trabalho de casa. Há que haver alguma ternura para decodificá-lo.

* * * * * * *

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Icu e o menino que furtava livros

por Cidinha da Silva

Em A menina que roubava livros, a mãe de Liesel Meninger, personagem principal, era comunista e sofria perseguição nazista. Seus filhos, como ela, várias vezes escaparam da morte no período de 1939 a 1943. A violência se alastrava como erva daninha por todos os cantos da Alemanha e a morte, perplexa diante da degradação humana, resolveu narrar a história de Liesel que driblava seu cheiro (da morte) exalado das valas comuns, dos corpos de homossexuais, descapacitados, comunistas, judeus e todos os adversários do nazismo, incinerados nas câmaras de gás.

A morte, então, acompanha a trajetória dos livros que escapam das grandes fogueiras públicas promovidas pelo Estado e como Liesel os resgata, assim como rouba outros de bibliotecas e passa a alimentar-se do perfume de vida difundido pelas mentiras deliciosas e encantadoras contadas nas obras literárias.

No Brasil, 71 anos depois da 2ª Guerra, Alex Santana não tem a mesma sorte de Liesel e é preso ao furtar três livros em uma livraria de shopping soteropolitano. Segundo declarações prestadas na delegacia, foram três livros naquele momento, mas o menino já havia furtado outros sete. Todos para estudos.

O texto da notícia enfatiza o gênero dos três livros furtados, ficção. Fica no ar o sub-texto, não eram livros para estudos? Icu, pesarosa, testemunha do desfalecimento do desejo de voar do menino, pergunta: quem decretou que só se estuda em manual ou livro didático? Se alguém rouba um pão francês é porque tem fome, mas se rouba um chocolate ou sorvete é porque tem febre de riqueza e luxo? E Icu mesma responde: é que no furto praticado pelos pequenos, o sonho e a delícia não são permitidos.

Icu, testemunha da luta de Alex pela sobrevivência, resolve defendê-lo na justiça, pois que, sem recursos para pagar fiança, mandaram o menino para o presídio da Mata Escura, onde os dias não amanhecem e as noites de lua desconhecem a ternura.

Diz Icu na peça de defesa: todos os viventes um dia serão meus, é a certeza mais perene da vida. Mas de alguns, como Alex, a vida, minha opositora, me aproxima pelas iniquidades impostas ao caminho. Essa gente integra coletivos de pessoas expostas à precariedade, ao racismo, aos abusos, à violência. Gente que sobrevive por teimosia. Deles costumo gostar e quero que vivam, mas a vida insiste em que eu os leve.

A vida tentou me convencer a levar Alex e tantos meninos iguais a ele, quando as mães não conseguiram fazer pré-natal, quando nasceram e não foram pesados e cuidados nos postos de saúde como todas as crianças deveriam ser, quando a família não pôde alimentá-los como mereciam, quando as doenças típicas da miséria os acometeram, quando escaparam das chacinas, porque minha irmã, a sorte, fez com que o morticínio ocorresse minutos antes da passagem deles pelo local. A vida quer entregá-los a mim, na bandeja, como prato frio e amargo. Eu me recuso a comer. Eles driblam a vida como grandes jogadores que aprendem a ser e conseguem me evitar.

Meu cliente, senhoras e senhores jurados, ao furtar três livros de ficção, em ato extremo de resistência ao nada que lhe é destinado pela vida, afirma que, de todas as mentiras empurradas pela garganta (da inexistência do racismo, da existência da igualdade, da justiça, do equilíbrio no julgamento do delito, do tratamento humano para seres humanos), a literatura é a mentira menos danosa. Por isso, peço sua absolvição.

* * * * * * * 

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ridículas ideias


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

 Escrevo sob o efeito do livro “La ridícula idea de no volver a verte”, o mais recente da escritora espanhola Rosa Montero, uma das minhas preferidas. Inovando mais uma vez, nesse livro a autora fica numa espécie de “limbo de gênero”, a meio caminho entre romance, memórias e biografia, misturando suas vivências pessoais com a história de Marie Curie. Bendito limbo, onde tudo é permitido, porque Rosa se permite tudo em sua alucinante capacidade criativa.

O livro gira em torno da perda de pessoas amadas e da enorme, quase insuperável dificuldade de conviver com o fato de que não as veremos mais, a despeito da realidade, que eventualmente se impõe. Como é possível admitir, entender que não voltaremos a vê-las? E quão ridícula nos soa esta ideia! Evitando entrar num campeonato de dor, suspeito ser esta uma das mais devastadoras, cinicamente ignorada por quem promove matanças mundo afora. Conviver diariamente com ela é um desafio e tanto, quase sempre solitário, pois, como bem registrou Chico Buarque, “a dor da gente não sai no jornal”.

Mas há outra ideia, igualmente ridícula: a de que nós mesmos não morreremos. A vida é tão interessante e sedutora, apesar de tudo, que a grande maioria de nós vive como se a morte não fosse uma certeza. Vivemos para viver, não para morrer. Tomo por mim mesma, que há décadas tento me acostumar com a ideia de que um dia vou desaparecer, e o mundo continuará existindo, com as pessoas que amo, os livros, as árvores e toda essa complexa e maravilhosa imensidão.

Tão presente quanto a morte certa é a pressão que sofremos para aproveitar a vida, ser feliz. Essa tal felicidade varia conforme o freguês, mas quase sempre se refere a ter muito dinheiro e/ou poder, viver paixões alucinadas, entregar-se ao prazer interminável ou a uma fé religiosa, viajar freneticamente, criar uma família linda e perfeita, realizar-se numa profissão apaixonante, ser famoso, e por aí vai. Isto quando não estamos num contexto em que a simples sobrevivência é felicidade suficiente.

É preciso pensar grande, desejar mais ainda, e atender à expectativa social ou familiar de sucesso e realização segundo receitas e fórmulas consagradas. Uma vida de bom tamanho, que caiba em mim ou em você, parece muito chinfrim, não é? Ridícula ideia!

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O espião Cervantes e os 408 anos de Dom Quixote

fac-símile da 1º edição
Miguel de Cervantes, muito antes de publicar a primeira edição de Dom Quixote há exatos 408 anos em Madrid, servia a monarquia espanhola como soldado. Antes de ser resgatado em 1580, passou cinco anos preso na Argélia depois de ser capturado por piratas berberes.

Depois disso, o futuro escritor virou espião em Oram, uma cidade ao norte de onde ficara preso. A história da literatura está repleta de casos de “escritores e espiões”: Francisco de Quevedo, John le Carré, Graham Greene, Rabelais, Voltaire, Daniel Defoe. Todos foram espiões.

No caso de Cervantes ele descobriu que não tinha jeito para a atividade secreta e caiu na literatura. "Não sou muito bom para o palácio porque tenho vergonha e não sei lisonjear", disse na voz de um personagem certa vez.

Aos curiosos vale ver a leitura da obra feita por intenautas numa parceria da Real Academia Espanhola e do YouTube. Essa dica já foi divulgada aqui neste NR (confira).

Thiago Domenici, jornalista

sábado, 3 de março de 2012

Promoção do novo romance de Izaías Almada

Izaías Almada, nosso colunista mensal, vai presentear o leitor do NR com seu novo romance, lançado pela editora Prumo, “Sucursal do Inferno”.

Segundo o autor, "Sucursal do Inferno é um desabafo de alguém que vê aumentar a cada dia que passa a mercantilização da fé, a exploração da ingenuidade das pessoas diante do dia a dia de violência, do medo diante do desconhecido, daquilo que se considera - por vezes - inexplicável. Por trás desse comércio de almas, corre muito dinheiro em nome de uma salvação, que ninguém sabe muito bem o que é. "

São cinco exemplares. Três serão sorteados via sorteie.me do Facebook e dois pelo Twitter no dia 1 de abril. Para participar é simples. Siga os passos:

1 – Siga o NR no Twitter ou curta nossa fanpage no Facebook.

2 – Divulgue a seguinte mensagem no seu Facebook:

Promoção: NR sorteia o novo romance Sucursal do Inferno de Izaías Almada. http://sorteie.me/facebook/compartilhar.php?id=34825 

ou a seguinte mensagem no seu Twitter:

 #Promoção: NR sorteia o novo romance Sucursal do Inferno de Izaías Almada. http://kingo.to/10Rn

3 – Pronto, agora é torcer para ser um dos cinco ganhadores.

4 – Será permitido apenas um ganhador por perfil. Exemplo, se a mesmo perfil ganhar no twitter e no facebook, só terá direito a um exemplar. Outra coisa: perfis feitos exclusivamente para participar de promoções não serão aceitos.

"Uma sucursal do inferno: sinfonia brasileira contemporânea
E se esse festejado passo da democracia brasileira não passasse de uma transação faustiana, em que a religião do Capital, tendo penetrado todos os poros da sociedade, revivesse as piores criaturas paridas nos porões da ditadura e forjasse a pauta do novo espetáculo Demo? E se, convocados os versos de Dante, Shakespeare, Pessoa, Perrault, dos Evangelhos, permanecêssemos ainda assim em transe alucinógeno, entre os parques Ibirapuera e D. Pedro, nesta São Paulo irreal, por isso mesmo fatal, em que a história de um poder discricionário afirma-se como rito satânico no Paraíso dos Impunes?
Atreva-se, leitor! Adentre logo esta Sucursal do Inferno. Felizmente para nós, cá fora, há ainda portas de saída. Para quem conhece o domínio do ofício literário do ator, diretor, dramaturgo e prosador Izaías Almada, a tensão dramática destas páginas apenas confirmará a trajetória do ficcionista, portadora, sempre, de alta voltagem política. Esta “sinfonia brasileira” poderia ser puro Beethoven, mas está mais para ópera wagneriana sem apelo. Entre otários crentes e vampiros ativos, não haverá mais perdão para a inocência. Os novos barões da fé – ao deus Manon – continuam a delivrar seus monstros. E Brasília lhes dá lastro e segredo. No caminho, tombam todos esses nossos pequenos sonhos de verdade."
Francisco Foot Hardman
Escritor, ensaísta e crítico literário

Sobre o autor                       
Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo, roteirista é colunista do Nota de Rodapé e autor dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas, Florão da América e Venezuela, Povo e Forças Armadas e Teatro de Arena – Uma estética da resistência. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

grito do ipiranga

No início dos anos 2000 dei cabo da minha biblioteca. Não eram estantes com livros frugais ou ganhos em festinhas de amigos-secretos. Era uma biblioteca de fina estampa. Com os clássicos, com os modernos consagrados, com os contemporâneos bem avaliados pela fortuna crítica.

Por décadas, eu a considerei o meu patrimônio. Tudo bem que eu não tivesse carro, lençóis de linho puro, bracelete de ouro. Eu tinha meus queridos livros. Para cada casa que eu mudava, a biblioteca ia junto. Só era um dissabor para os carregadores dos caminhões de mudança. Um deles praguejou: "Meu Jesus, para que tanto papel?"

Esses papéis encadernados eram meu orgulho. Alguém comentava sobre Pedro Páramo. Eu tinha. Em espanhol. Orlando da Virginia Woolf? Não apenas. Lá estavam as Ondas, Rumo ao Farol, Um teto todo seu, Mrs. Dalloway. O teatro de Martins Penna? Tinha a obra completa. Haicais? Lá estavam Bashô, Issa, Leminski, Alice Ruiz.

Meu amor pelas bibliotecas nasceu de uma perda. Em 1966, houve uma monumental enchente no Rio de Janeiro. Morávamos na Tijuca em frente ao rio Maracanã. Um rio pequeno que transbordou lama, pedras, geladeiras, bonecas e corpos. A água invadiu a casa, subiu três metros e transformou a biblioteca do meu avô, um tenentista morto em 1938, em páginas de lama.

Foram embora grandes livros. Alguns autografados. Entre eles, o Memórias do Cárcere. Graciliano Ramos e meu avô se conheceram na prisão, sob a ditadura de Getúlio Vargas. Para o lixão também foram volumes autografados do José Lins do Rego, da Eneida – essa maranhense tão boa quanto esquecida. Por fim perdeu-se um livro do próprio avô, o Ceará Colônia.

Algum tempo depois, nos meus treze anos, me tornei uma leitora obsessiva-compulsiva. Uma rata de páginas. Bastava ter letrinhas, eu as comia. Junto com o amor à leitura veio a paixão por colecionar livros. Minha biblioteca começou humilde. Em 1970, a Abril Cultural lançou a coleção Imortais da Literatura Universal. Eram tomos de capa vermelha com letras douradas.

Lembro que eu enchia a paciência da minha mãe para que comprasse semanalmente um livro da coleção. Nessa época, a grana da família era curta. Mas eu usava de veemente insistência. Consegui todos os títulos. Havia, é claro, a cumplicidade do meu pai. Ele também um leitor inveterado. Foi assim que conheci Dickens, Colette, Camus, Pirandello, Balzac, Flaubert, as Brontë e 43 mais.

Mudei de cidade. Mudei de hábitos. Mudei de computadores. Mudei de gêneros de escrita, mas segui colecionando livros. Sofistiquei a coisa. Criei estantes específicas para livros de cinema, teatro, ensaio, futebol, biografia, história. A literatura, então majoritária, ocupava as prateleiras mais nobres – nem muito altas, nem muito baixas.

Acumulei. Finalmente formei uma biblioteca digna do nome. Ficou até famosinha. Os mais chegados se referiam à biblioteca da Fê. A cada aniversário, a cada Bienal do Livro, a cada viagem eu aumentava o acervo. Até que num entardecer, no comecinho do século XXI, tive um siricutico. Chamei alguns amigos e distribui os livros. No espaço de dois dias, me desfiz de uma biblioteca montada volume a volume, década a década.

Num surto de lucidez, lampejei: não aguentava mais ter os monstros sagrados espiando, por cima dos meus ombros, as frases que eu construía na telinha do meu PC. Juro que ouvia o Machado de Assis rindo dos meus diálogos. Juro que via o Borges balançar negativamente a cabeça para os meus enredos. Sentia ao meu lado o espírito de Clarice Lispector sussurrando: não é assim.

Ora! Para eu ter a minha própria voz. Para eu eleger meus temas e minhas formas. Para escrever do meu jeito. Fosse torto, fosse reto, fosse tosco, fosse acabado, eu tinha que me libertar de todos eles. Tinha que abrir par em par as janelas e obrigá-los a partir. Só assim, eu me daria a chance de errar com alegria.

fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto. Nossas crônicas voltam no 12 de janeiro de 2012. Um fabuloso ano novo para todos!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A faxina urgente e necessária

O ano de 2012 oferece ao eleitor brasileiro, ao eleitor paulista e ao paulistano em particular, a excelente oportunidade de iniciar uma providencial e necessária faxina no governo da cidade de São Paulo.

E em 2014 no Palácio dos Bandeirantes, desalojando a gestão incompetente que lá está há quase vinte anos.

Confrontada com a sua indigência programática e com as sucessivas derrotas eleitorais nos últimos dez anos no plano federal, a atual oposição brasileira, aquela que majoritariamente se abriga sob as siglas do PSDB, DEM, PPS e agora do noviço PSD, cuja hipócrita defesa da alternância do poder não leva em consideração quando se trata de seus próprios interesses, tem que ser derrotada no Estado de São Paulo, sob o risco de o estado continuar a servir de estorvo ao espírito progressista assumido pelo país nos últimos anos. Tanto na capital em 2012, como no governo estadual em 2014.

E por quê? Pela simples razão de que essa oposição representa um perigo para o modelo desenvolvimentista brasileiro, para a soberania do país e para a própria democracia.

Começaria aí o verdadeiro sentido da faxina, quer do ponto de vista da alternância do poder, como tanto defendem em nível federal, quer do ponto de vista ético, com o desmonte de uma engrenagem viciada, com a limpeza das inúmeras falcatruas domésticas no estado, quando dezenas de CPIs são engavetadas na assembléia estadual e ignoradas pela mídia e que fariam destampar de vez o caldeirão do cinismo e da hipocrisia daqueles que já não têm alternativas a oferecer ao novo Brasil, a não ser as da sua própria incompetência.

Como afirmou o jornalista Mino Carta em recente simpósio em Salvador, “São Paulo é o estado mais reacionário da federação”. Sempre foi, aliás. Não há aqui o que contestar. Desde as famosas marchas em 1964 para não irmos mais atrás à História pátria, São Paulo continua sendo o depositário maior do espírito da Casa Grande em detrimento da Senzala.

Provas da afirmação do jornalista, a qual endosso, vão se acumulando no dia a dia da política brasileira, ganhando patamares perigosos para o próprio exercício da democracia, repito, mesmo que ainda incipiente e tutelada, após os anos de ditadura.

Quartel da direita

É em São Paulo que se localiza o quartel general da direita brasileira, aquela que representa de fato o atraso, a submissão a interesses estrangeiros, aquela que não perde a sua formação aculturada, o seu preconceito contra pobres, negros e nordestinos, por exemplo.

Aquela que morde o próprio cotovelo de inveja ao não querer reconhecer que um metalúrgico sem diploma universitário, sem plumas e paetês, tirou o país da condição de devedor passando-o a emprestador internacional. Oposição no mais puro estilo quinta coluna.

É em São Paulo também que se localiza o centro mais reacionário da mídia corporativa que diariamente apostou suas fichas contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante oito anos e agora continua a apostar contra o governo da presidenta Dilma Roussef na esperança de que possa encontrar motivos políticos para enfraquecê-la e preparar o terreno onde, numa eventual regresso ao governo federal, façam o Brasil voltar ao mercado de negócios e interesse escusos em que transformaram o país enquanto governaram, bem como o Estado de São Paulo que governam há anos e agora a capital do estado.

Tal qual na mitologia grega, o eleitor paulista entre outros tem que fazer um dos trabalhos de Hércules e ir cortando as cabeças da Hidra, tantos anos ignorada, e que insiste em renascer sob novos disfarces. Uma dessas cabeças, talvez a mais perigosa, reúne jornais, revistas e emissoras de televisão.

Seu centro criativo e ideológico está em São Paulo, onde editoriais e jornalistas de aluguel destilam seus preconceitos ideológicos e sociais com o apoio do setor rentista, de grandes agências de publicidade, bancos, latifúndios muitos deles grilados, sucursais de empresas multinacionais, cujos interesses defendem sem qualquer escrúpulo e com a aceitação a conivência de grandes setores de uma classe média fascista.

A promiscuidade desses atores do espectro econômico com seus representantes nas câmeras de vereadores, assembléias estaduais e principalmente em Brasília, por meio de lobbies com polpudas verbas nos bolsos vai, a cada ano que passa, transformando São Paulo numa peça cada vez mais encardida e rançosa no mapa político do país nesse início de século XXI, com o arcabouço administrativo da cidade e do estado engessado pela concepção econômica neoliberal e pela mesmice de quadros políticos que têm um olho político em nosso passado ditatorial e outro, econômico, na possibilidade de amealhar grandes fortunas no uso de tecnologias do futuro e não só, num jogo que beneficia os governantes de plantão e os seus apaniguados mais próximos.

Nesse audacioso jogo de assalto ao patrimônio público, onde o exercício da política quase que anula a procura pelo bem estar da coletividade, não é difícil enxergar, cada vez com maior nitidez os fios trançados entre os já nem tanto obscuros interesses econômicos e políticos da imprensa das quatro famílias (Marinhos, Civitas, Mesquitas e Frias), onde não se descarta sempre a possibilidade de um hipotético, mas não de todo imprevisível golpe de estado, não aquele tradicional com soldados na rua, fechamento do Congresso, toques de recolher etc., mas um golpe que, sob certo aspecto, é mais perverso: o da desinformação, quando não da repetição pura e simples de uma suposição, de uma acusação irresponsável ou mesmo de uma mentira.

Privataria tucana

Nesse aspecto, o impressionante e minucioso relato contido no livro A Privataria Tucana do jornalista Amaury Ribeiro Jr. não deixa dúvidas quanto à necessidade do eleitor paulista e paulistano darem início àquela que seria a verdadeira e necessária faxina para que o país iniciasse nova jornada de recuperação ética.

Arrumar a casa em São Paulo e dar o exemplo para o resto do país, pois o denuncismo seletivo e irresponsável que emana de certas redações paulistas recebeu agora um duro golpe, pois aqui não se trata de denúncia sem provas.

São tantas as denúncias de práticas criminosas nos anos 90 que fica difícil escolher qual a mais impressionante. Contudo, é curioso ver que os principais beneficiários, econômicos e políticos, são paulistas, o que não vem a ser exatamente uma coincidência, mas um jogo perverso pela manutenção do poder político, e o pior deles: o poder de assaltar o patrimônio público.

No meu entender, o eleitor paulista e paulistano têm o dever de fazer uma mudança ética e política das mais rigorosas no Palácio dos Bandeirantes e na Prefeitura da Capital, devolvendo o Estado de São Paulo ao leito do novo país que começa a se erguer na América Latina e no mundo. Não se trata de comparar corrupções onde as houver, mas de combatê-las com o rigor da lei quando provadas.

E provas não faltam no livro citado, provavelmente, a mãe de todas as corrupções entre nós nos últimos anos pós-ditadura. Nada mal que se pense numa CPI da Privataria, pois além dela convocar – com toda certeza – a juízo público os principais personagens da dilapidação de grande fatia da riqueza nacional para que expliquem o que fizeram, é muito provável que surjam sólidos motivos jurídicos para se pensar em uma ação de recuperação para o Estado de uma empresa como a Vale, por exemplo.

Isso sem falar na necessidade de se estabelecer maior rigor na defesa de nossa soberania e na urgente reforma da Lei de Imprensa. Com a palavra o Brasil progressista e genuinamente democrático.

Izaías Almada, dramaturgo, escritor, colunista do NR. A coluna faz uma pausa e volta em 2012.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Promoção do livro "A Invasão Corintiana"

Nota de Rodapé e LF Editorial vão sortear três exemplares de "A invasão corintiana", livro-reportagem de Tatiana Merlino e Igor Ojeda. Os vencedores serão conhecidos no dia 20 de dezembro.

Os vencedores:
1 - Juliana Sartori, São Paulo, SP
2 - Jean do Nascimento Flores, Leme, SP
3 - Walter Carlos da Silva Júnior, São Paulo,SP

O lançamento do livro é hoje, na livraria da Vila, em São Paulo (veja o convite). 

[Clique para ampliar]


COMO PARTICIPAR

Retuite essa mensagem no Twitter e publique no Facebook:
#Promoção @notaderodape: ganhe exemplares do livro "A invasão Corintiana", de Tatiana Merlino e Igor Ojeda: http://migre.me/6jt48
E depois responda a pergunta: 
"Qual foi o autor do gol e em qual minuto da partida em 1976 o timão empatou o jogo contra o Fluminense?"

Sobre o livro

O dia em que a Fiel tomou o Rio de Janeiro para ver seu time no maior estádio do mundo é uma obra dos jornalistas Igor Ojeda e Tatiana Merlino que resgata um acontecimento singular da história do mais popular clube paulista e sua relação inebriante com a Fiel torcida.

O livro-reportagem “A invasão Corinthiana" remonta há exatos 35 anos, em 5 de dezembro de 1976, os cerca de 70 mil corinthianos que invadiram o Rio de Janeiro para apoiar seu time na partida única da semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano contra o favoritíssimo Fluminense de Roberto Rivellino, equipe conhecida na época como “Máquina Tricolor”.

Das 147 mil pessoas presentes no Maracanã, estima-se que metade eram torcedores alvinegros, que se deslocaram de ônibus, trem, carro, avião, barco, bicicleta e até mesmo a pé para apoiar um Corinthians que amargava duas décadas de fila, mas cuja legião de seguidores não parava de crescer.

O rigor jornalístico baseado em uma profunda pesquisa e nas 30 entrevistas realizadas pelos autores faz deste livro um documento de memória e um registro histórico de como o futebol está entranhado na sociedade brasileira.

As experiências de jogadores, jornalistas e torcedores que participaram daquele momento ajuda a costurar o feito histórico da torcida corinthiana com o contexto social e cultural vivido na época.

Nas palavras de Juca Kfouri, que assina a quarta capa do livro, “A Invasão Corinthiana” é uma história única e muito bem contada: “Contada por quem a viveu simplesmente como torcedor, como jornalista ou por meio do que a imprensa, à época, dezembro de 1976, publicou.

E da perplexidade de jogadores experientes ao experimentarem algo que ninguém mais havia visto ou voltou a ver. Os autores remontam os altos e baixos da trajetória corintiana para que tudo faça sentido ou para que nada faça sentido - seja apenas sentido”.

Serviço
Título: A Invasão Corinthiana
Subtítulo: O dia em que a Fiel tomou o Rio de Janeiro para ver seu time no maior estádio do mundo
Autores: Igor Ojeda e Tatiana Merlino
Quarta-capa: Juca Kfouri
Ano de publicação: 2011
ISBN: 9788578611224
Preço: R$ 49,00
Editora: LF Editorial

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

As capas dessa história

"Este livro foi alinhavado através do trabalho de uma equipe do Instituto Vladimir Herzog de jornalistas, historiadores e pesquisadores que, a partir das capas das publicações, foi atrás desta incrível trajetória da imprensa alternativa, clandestina e no exílio que, cada uma a seu modo, soube resistir à ditadura instalada em 64. Sem contar o prazer de levantar um material lindo e inédito", resume Ricardo Carvalho, coordenador do projeto Resistir É Preciso, sobre o lançamento do livro "As capas dessa história".

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Entrevista de Fernando Morais para a Revista do Brasil

Bacana a entrevista do escritor Fernando Morais na Revista do Brasil de agosto. O escritor fala sobre "Os Últimos Soldados da Guerra Fria" (Companhia das Letras), lançamento recentemente. O livro-reportagem investiga a missão secreta dos agentes cubanos infiltrados em organizações de ultradireita da Flórida para prevenir seu país de ações de sabotagem. Cinco deles estão condenados nos EUA com penas de 15 anos a prisão perpétua. Leia lá e veja o vídeo abaixo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Crônica do mundo ao revês

Lançamento nesta quinta-feira, dia 17 de março.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Livro “Realidade Re-vista”, lançamento nesta segunda-feira

O livro da Editora Realejo foi escrito por dois mestres, José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão. O livro conta o período mais brilhante do jornalismo em revista brasileiro, entre as décadas de 1960 e 1970. A obra, de 436 páginas, desvenda a fórmula revolucionária utilizada pela equipe de redação da revista “Realidade” (1966-1976), que levou a publicação a ser considerada uma das mais importantes já lançadas no Brasil. O livro faz uma análise dos métodos adotados pela redação da revista, traz histórias de bastidores de algumas de suas principais matérias e revela casos em off de muitas reportagens.


Saiba mais:
Por que falar de Realidade? - José Carlos Marão
Os 20 meses que revolucionaram a imprensa - Ricardo Kotscho
Realidade, a utopia do jornalismo - Celso de Campos Jr.



Serviço:  Editora: Realejo; Título: Realidade Re-Vista; Autores: José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão
Número de Páginas: 436; Preço: R$ 70,00. Lançamento e sessão de autógrafos: Data: 20 de dezembro de 2010 -2ª feira; Horário: 19h00; Local: Posto 6; Endereço: Rua Aspicuelta, 646 – Vila Madalena – São Paulo/SP

domingo, 12 de dezembro de 2010

Promoção NR: 5 exemplares autografados do livro Ruth Rachou

O livro Ruth Rachou – Biografia, de Bernadette Figueiredo e Izaías Almada faz parte de um projeto em homenagem aos 80 anos da bailarina e traz imagens de espetáculos antológicos e histórias curiosas sobre sua carreira.

 Livro Ruth Rachou, Editora Caros Amigos
Pioneira do pensamento moderno da dança no Brasil, ela fez muito e em segmentos distintos. Bailarina, atriz, coreógrafa, diretora e professora, Ruth Rachou formou toda uma geração de artistas sem seguir as modas que o mercado ia inventando. Esteve sempre comprometida com a divulgação da técnica de Martha Graham, e, mais recentemente, com a de Joseph Pilates. Para ela, a dança nunca foi uma coleção de passos. O que distinguiu tudo o que fez foi sempre ter acreditado que um bailarino se forma ensaiando em sala de aula e também fora dela, aprendendo a pensar e a pesquisar. Tornou pública a mistura de leitura com as aulas habituais de uma escola de dança já nos anos 80, quando o nosso país vivia o efeito Dancing Days. Sua contribuição tem sido a da resistência, provando que tudo aquilo ao qual dedicou a sua vida, contribuiu para abrir caminho para muito do que hoje se vê nos nossos palcos. Aos 80 anos, pode ter orgulho do percurso que continua a desenvolver. (Helena Katz).

Pelo Twitter
É só seguir o @notaderodape e retuitar a seguinte mensagem:


#Promoção livro Ruth Rachou: Siga @notaderodape dê RT e concorra ao livro autografado: http://kingo.to/o4N

Serão sorteados TRÊS LIVROS no dia 27 de DEZEMBRO.

Pelo Blog

Participam os leitores cadastrados no “Boletim Rodapé” ou os que deixarem nome, cidade e e-mail nos comentários desta postagem. Serão sorteados DOIS LIVROS no dia 27 de DEZEMBRO.
Qualquer dúvida escreva para promocao@notaderodape.com.br

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Google: 3 milhões de livros de graça

Site do Google Books permite baixar aproximadamente 3 milhões de livros. De clássicos a títulos de jardinagem, matemática e afins. É possível baixar no seu computador (e em dispositivos móveis tipo Ipad e afins) ou ler no próprio sistema google, como num “pdf” mais ágil. Além do grátis, a intenção do Google é concorrer com a Amazon, por isso, verderá livros online também. As vendas, por hora, só para os EUA. O link para acesso AQUI.

domingo, 7 de novembro de 2010

Ganhadores da Promoção do livro Escândalo Daniel Dantas

Ganhadores do Twitter do livro Escândalo Daniel Dantas: duas investigações:

- @lavinia_talita
- @kelidacosta

No blogue, o ganhador foi:

- Nilo Dias Cabral

Vocês têm até terça-feira para me enviar o endereço completo em contato@notaderodape.com.br

Caso contrário, novo sorteio será realizado.

Obrigado a todos que participaram de mais essa promoção do NR.

Thiago Domenici, editor e coordenador.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Calendário do Poder, leitura pré-eleitoral

Acabo de ler Calendário do Poder, de Frei Betto. Casualmente, o momento pré-eleitoral foi muito interessante para a leitura. A obra soma-se a Mosca Azul na contemplação sobre o período em que Frei Betto ocupou o cargo de Assessor Especial do governo Lula (2003-04), tendo como incumbência a mobilização da sociedade civil – e a consequente atuação desta no governo.
O livro é extremamente interessante por ser constituído, em sua espinha dorsal, pelo diário de Betto ao longo deste período no Planalto. Em primeiro plano, a trajetória das impressões do escritor “casa” com as de milhares de brasileiros: a imensa esperança com a eleição de Lula, a desconfiança de que algo não caminha bem, a certeza de que muita coisa não caminha bem.
Betto é o observador privilegiado da trama do primeiro mandato. A elite tradicional, amiga de última hora de Lula, apropria-se com sabedoria de várias instâncias de governo. A política econômica de Antonio Palocci, definida como neoliberal, desagrada aos antigos quadros do PT: a obsessão pelo superavit primário conduz a cortes nas áreas sociais. Alguns dos nomes mais representativos da esquerda brasileira pós-ditadura vão se desapontando e, um por um, deixando o governo. No meio do turbilhão está Lula, que confidencia a Betto sua decepção com o andamento de muitas vertentes do governo, mas tarda em tomar decisões. O escritor, no entanto, não culpa o presidente, amigo de muitos anos: prefere constatar, não sem tristeza, que uma coisa é chegar ao governo; outra, bem diferente, é chegar ao poder.
Se em Mosca Azul estão registrados os exemplos de como o poder, por sua vez, mexe com ânimos, instintos e personalidades, Calendário do Poder também é farto em situações do gênero. São ministros fritando ministros, reuniões que vazam à imprensa, dados que aparecem ao acaso e acabam por derrubar cabeças. Enfim, uma boa leitura.

João Peres é jornalista e colunista do NR.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Verdades do coração

reportagem especial

(Parte 3)

A anedota contada pelo irmão Jaime faz crer que de certa forma nem o próprio escritor consegue delimitar exatamente onde termina a realidade e onde começa sua criação. “Não há em minhas novelas uma linha que não esteja baseada na realidade”, costuma repetir Gabo. “Acho que ele aplicou em seu trabalho como escritor um pouco da ideia de um de seus mestres, William Faulkner, que fala sobre as verdades do coração. A história pode não ser completamente fiel aos fatos, mas, mesmo quando se inventam detalhes, há um respeito profundo pelas verdades do coração”, analisa Gustavo Arango.
A fronteira nebulosa entre o real e o fantástico existente na obra do Nobel colombiano às vezes chega ao cúmulo de ser o limite entre a história pré e pós-García Márquez. Em alguns momentos, mais do que moldar-la, o escritor consegue, alterar a história. O chamado “massacre dos bananeiros” - quando os funcionários da United Fruit Company resolveram protestar pelas péssimas condições de trabalho e foram violentamente reprimidos pelas forças armadas colombianas, em 1928 é exemplar. Revisto após a publicação de “Cem Anos de Solidão (1967)”, o episódio tem hoje uma importância histórica muito maior do que há algumas décadas. Inclusive o número de mortos na matança que costuma ser o mencionado – os 3.000 que Gabo cita no livro é muito maior do que o estimado por historiadores. Ou seja, depois de 1967 o que foi uma violenta repressão virou um massacre com milhares de mortos.
Jaime Garcia conta que nos anos sessenta recebeu uma bonita carta do irmão que falava do futuro deles e do país e terminando com uma incumbência: levantar dados sobre o massacre, em especial o número de mortos. Depois de meses de pesquisa, mandou a resposta ao irmão: comprovadas, haviam oito mortes 2.992 menos do que as citadas pelo escritor em sua obra.
A história de Sierva Maria de Todos los Ángeles é outro exemplo dessa capacidade de Gabo de transformar a realidade. A cripta é visitada diariamente, e a reportagem que nunca existiu não raramente é citada como uma das melhores do escritor, não só por seus leitores, mas no meio acadêmico.
“O que ele faz ao mencionar a reportagem que não existiu é usar um expediente para dar verossimilhança à obra, uma coisa comum entre os escritores. Todos sabiamos que não era verdade aquilo, mas hoje há peregrinação para visitar o túmulo”, diverte-se Eric Nepomuceno, escritor e amigo pessoal de Garcia Márquez.

- (leia a parte 1: Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores)
- (leia a parte 2: É preciso pinçar o que ele escreve)
 
Tradutor de alguns livros de Gabo, entre eles “Viver para Contar”, Nepomuceno minimiza a importância de se separar o real da criação na obra de García Márquez: “Quem conhece a América Latina sabe que tudo o que está na obra dele pode ou poderia ter acontecido”.
Em 1982, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez fez questão de falar sobre o tal realismo fantástico. Segundo ele, a realidade desse universo latino-americano é tão rica, que é preciso pedir “muito pouco” à imaginação. "O desafio maior para nós [latino-americanos] tem sido a insuficiência de recursos convencionais para fazer críveis nossa vida. Este é, amigos, o nó da nossa solidão."

Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé. Amanhã, sexta-feira, a parte 4, final, da reportagem especial "Escritor recebeu pedido para mudar o final do livro". 

segunda-feira, 21 de junho de 2010

De como Gabo transforma mentiras em verdades

reportagem especial

As muralhas que protegem a cidade. O calor inclemente. As sacadas (balcones) das típicas casas do centro antigo. É difícil dizer qual a lembrança mais marcante que tenho de Cartagena de Índias. No um mês que estive na “cidade mais bela do mundo”, como Gabriel Garcia Márquez a chama, caminhei por lugares e conheci pessoas que fazem parte da obra do escritor colombiano. De lá trouxe uma semente de amêndoa, árvore presente nos relatos de Gabo, e a história que a partir de agora conto em quatro partes, até sexta-feira, dia 25. 

(Parte 1)

Dizem que uma mulher de vermelho 

anda pelos corredores

Um senhor de estatura mediana, óculos exageradamente grandes, pele morena e cabelos e bigodes grisalhos, caminha pelo pátio do convento de Santa Clara, em Cartagena de Índias, no Caribe colombiano. Misturado aos engenheiros, arquitetos e operários que trabalham na restauração do prédio, o homem vestido de branco e com um chapéu panamá enterrado na cabeça transita pelo mosteiro em busca de inspiração para sua nova novela. Na visita a uma tumba, o escritor, um colombiano conhecido mundialmente como Gabo, se recorda de uma visita que fez ao convento, quarenta anos antes, por conta de uma reportagem. Lembrança tão viva como se tivesse voltado ao meio dia daquele outubro de 1949 e vivesse aquilo pela primeira vez.
Gabriel Garcia Márquez venceu com dificuldade as poucas quadras que separavam a redação do “El Universal” do convento de Santa Clara. Buscou refúgio na sombra das varandas coloridas do centro da histórica cidade, mas chegou ao mosteiro empapado de suor e descrente de que a tarefa de acompanhar a desocupação das tumbas poderia render muito mais do que alguns centímetros no jornal do dia seguinte. O prédio do século 17 estava prestes a mudar de função: sairiam as freiras e entrariam os hóspedes de um hotel de luxo - motivo da retirada dos restos mortais. Nos fundos da capela, o processo da desocupação das tumbas onde, há séculos, repousavam religiosos e nobres da cidade, já estava em marcha. De um buraco no chão, imersos em uma nuvem de poeira, três operários, em um ritual silencioso e coordenado, retiravam os ossos, faziam com eles pequenos montes e os identificavam. Quando da abertura da terceira cripta, que trazia escrito o nome sem sobrenome de Sierva Maria de Todos los Ángeles, o repórter se deu conta de que aquele 26 de outubro de 1949 ficaria marcado para sempre em sua vida. Quarenta e cinco anos depois, Gabo dedicaria o prólogo de seu livro “Do Amor e de Outros Demônios” a contar essa história.
Na terceira urna, ao lado do evangelho, ali estava a notícia. A lápide se espedaçou com o primeiro golpe de picareta, e uma cabeleira viva, de uma cor de cobre intenso, se derramou para fora da cripta [...] Estendida no chão, a cabeleira esplendida media vinte e dois metros e onze centímetros.
A novela é inspirada na lenda, contada por sua avó, de uma marquesa, dona de uma cabeleira ruiva, tão grande "que se arrastava como véu de noiva", que após morrer de raiva aos 12 anos de idade passou a ser venerada no Caribe por seus milagres. "A ideia de que essa tumba pudesse ser a sua, foi minha notícia daquele dia e a origem deste livro."

Uma catacumba é o atrativo
O antigo convento de Santa Clara é hoje um hotel cinco estrelas, o mais luxuoso da cidade. Em 1987, a rede Sofitel comprou o prédio com a condição de restaurá-lo e preservar suas características. A capela, os quartos das freiras clarissas (transformados em habitações para os hóspedes) e as criptas funerárias,  foi recuperado em um processo que durou quase uma década. E são justamente as catacumbas do prédio, em especial uma delas, o maior atrativo do lugar. No centro de um bar estilo “lounge”, entre um sofá e outro, escondida pela pouca luz do ambiente, há uma escada. Três metros abaixo do nível do chão, em uma salinha pequena, sufocante, e decorada com um candelabro, está a tumba aberta e vazia de Sierva Maria de Todos los Ángeles.
“Não gosto muito de ficar aqui. Não sei, me dá um pouco de medo”, cochicha Yanelis Sepúlveda enquanto desce os seis degraus que levam à cripta. A mulata de 28 anos, bela e elegante, é consierge do hotel Santa Clara desde 2002. Está acostumada a mostrar a "hóspedes especiais" (leia-se autoridades e afins) o amplo jardim do antigo convento onde as clarissas cultivavam rosas, os túneis que ligavam clandestinamente as freiras ao mundo exterior e as antigas habitações do mosteiro.
Com um sorriso no rosto, apresenta aos visitantes a capela barroca, o antigo refeitório (hoje um luxuoso restaurante) e lhes pousa Clara, um simpático tucano, nos braços para fotos. Mas se não for solicitado, Yanelis desvia das lápides e das celas onde as freiras de mau-comportamento (como Sierva Maria de Todos los Ángeles no livro de García Márquez) eram enclausuradas. Para ela, o lugar é assombrado.
“Dizem que há uma mulher, vestida de vermelho, que costuma andar pelos corredores. Eu nunca vi. Mas também nunca ando sozinha aqui de noite. Nunca vi nada, mas já escutei uma gargalhada muito alta vinda de um quarto que estava desocupado. Também já senti uma respiração no meu pescoço quando eu entrava na capela”, mostra o braço com os pêlos levantados.
Leitora atenta de Garcia Márquez, Yanelis consegue identificar no convento os cenários descritos pelo escritor na novela, mas traz consigo uma dúvida: “Gostaria de perguntar a ele, saber o que é sua criação e o que é verdade nessa história toda. Se ele realmente entrou na cripta, se a Sierva Maria estava lá. O que ele viu, de verdade, quando entrou lá”.
A pergunta poderia ter sido feita pessoalmente ao escritor em duas oportunidades, mas faltou coragem à mulata. “Em uma delas, era para um encontro muito confidencial. Estava cheio de seguranças, ele ia se encontrar com alguém para mediar um processo de paz. Alguma coisa a ver com a ONU. Não me atrevi. Da outra, era uma festa. Eu vi aquele velhinho tão divino e fiquei com vergonha de atrapalhar a festa dele”, lamenta.
O hotel, cuja hospedagem mais econômica custa 350 dólares, permanece algumas horas do dia aberto à visitação. Diariamente, curiosos acudem à sala das criptas. Em um livro de presença aberto sobre à lápide os amantes da prosa de García Márquez deixam suas mensagens; em geral, registros de passagem como este: “No dia 11 de agosto de 2009, Vinicius e Carolina estiveram em Cartagena e visitaram a tumba de Sierva Maria de Todos los Ángeles.” Há quinze anos, a história dos metros de cabelos encanta e comove leitores do mundo todo.

Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé. Amanhã, quarta-feira, a parte 2 da reportagem especial "É preciso pinçar o que ele escreve". 

Dose dupla: promoção literária Nota de Rodapé e Tomás Chiaverini

Em agosto os leitores concorrem a dois exemplares autografados dos dois livros do jornalista Tomás Chiaverini: Cama de cimento – uma reportagem sobre o povo das ruas e Festa Infinita – o entorpecente mundo das raves, ambos publicados pela Ediouro

Os leitores cadastrados no “Boletim Rodapé” ou os que deixarem nome, cidade e e-mail nos comentários desta promoção concorrem no dia 15 de agosto a dois livros (dois exemplares de cada título) do jornalista Tomás Chiaverini, que mandou aos nossos leitores a seguinte mensagem:

“Jornalismo que flerta com a literatura. Esse, pra mim, é o grande charme dos livros-reportagem. Estatísticas, pesquisas científicas, ou furos de reportagem pouco me interessam. O que eu quero, com meus livros, é que o leitor, ao menos em certos momentos, vivencie a experiência relatada. Quero que ele se sinta na pele de meus personagens assim como quem lê um romance vivencia as aventuras do protagonista.
Por isso também acho importante colocar a figura do repórter no texto, narrar em primeira pessoa. Porque assim, eu espero que meu leitor entre na minha cabeça e me acompanhe através das páginas. Eu quero que ele venha comigo. Quero que ele vista minha pele de repórter e experimente o pavor de passar uma noite embaixo de um viaduto, esperando ser esfaqueado por um traficante de crack. Quero que perambule pela Praça da Sé vestido de mendigo, que embarque disfarçado numa perua para ser recolhido a um albergue municipal. Quero que ele viaje com 40 malucos até o interior de Goiás, para passar uma semana dentro de uma festa que parece realmente infinita. Quero que ele sinta o cheiro de haxixe numa pista de dança perdida nos confins da Bahia. E quero, por que não, que ele engula comigo um comprimido de extasy e mergulhe em horas ininterruptas de transe sob o som hipnótico da música eletrônica.”

OS LIVROS

Cama de cimento – uma reportagem sobre o povo das ruas

Publicado em 2007 o livro é um retrato forte, objetivo e comovente da vida das pessoas que foram obrigadas ou escolheram, por conta própria, viver nas calçadas de uma das maiores cidades do mundo.
Para elaborar o trabalho, o repórter colheu dezenas de depoimentos, ouviu especialistas e, durante um ano, perambulou pelas regiões mais inóspitas e degradadas da cidade. A fim de tornar a narrativa mais próxima possível do leitor, o autor viveu na pele a realidade dos moradores de rua. Disfarçou-se de mendigo, foi recolhido a um albergue municipal pela prefeitura, e dormiu noites embaixo de viadutos, misturado a desabrigados, traficantes de crack e alcoólatras crônicos.
Às experiências vividas pelo repórter, somam-se perfis dos desabrigados e de pessoas que se dedicam a tentar mudar esta realidade. Histórias de vida que criam um panorama amplo e humano do cotidiano dos moradores de rua, com todos os seus dramas, dificuldades e aspirações.
O resultado é um relato instigante, livre de juízos de valor, narrado num texto fluído e coeso, porém dotado de elementos sutilmente literários.

Festa Infinita – O entorpecente mundo das raves

Longas festas, em lugares afastados, com muita música eletrônica e drogas sintéticas. Para muitos, essa pode ser a definição das festas raves, tão comuns hoje em dia, mas o repórter mostra que o universo raver vai muito além.
Enquanto acompanha a história de pessoas que frequentam as raves, Tomás mostra como são essas festas. O uso de ecstasy, LSD e outras drogas, o transe através da música, a filosofia P.L.U.R. (Peace, Love, Union, Respect).
DJ famosos, organizadores de festas, bomba trancers, neo-hippies, pessoas que se penduram por piercings, e também jovens comuns, que estudam ou trabalham a semana toda para passar o final de semana pulando ao som do psytrance, todos são personagens desta história onde as mais diversas tribos se reúnem com o mesmo objetivo: deixar-se hipnotizar pelo tummm, tumm, tumm que vem de gigantescas caixas de som.
Chiaverini fequentou raves e passou mais de 30 horas dentro de um ônibus, com cerca de 40 ravers para ir ao festival Trancendence, acompanhou, durante 20 dias, o Universo Paralello – um dos maiores festivais do país - e até mesmo experimentou um ecstasy para compreender o efeito da droga associado a música eletrônica, tão apreciado por inúmeros jovens.
Depois de cerca de 1 ano de muita pesquisa o livro-reportagem ficou pronto e repleto de informações e fotos que demonstram como a realidade dessas festas vai muito além do consumo de drogas descrito nas matérias de jornais.

O AUTOR

Formado em jornalismo, Tomás Chiaverini foi repórter da Folha de S. Paulo e teve matérias publicadas em importantes revistas e sites. Seguindo a linha de jornalismo imersivo, seus dois livros retrataram dois mundos muito particulares, os dos moradores de rua e das festas rave. Blogue do Autor: http://antesdaestante.wordpress.com/

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago partiu sereno e tranquilo

O mundo hoje está mais triste, a humanidade mais desinteressante, o mundo das ideias e dos ideais, mais pobre. Morreu nesta sexta-feira, 18 de junho, o escritor José Saramago, aos 87 anos, “em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu acompanhado da família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila”, informou em nota a Fundação que leva seu nome.
Saramago tinha a saúde debilitada há algum tempo. Em 2007, uma doença respiratória conseguiu o impossível: fazer o ateu convicto quase acreditar num milagre, o da sua recuperação. Pelo menos foi o que ouviu dos médicos. E também impediu o escritor de escrever. À época, Saramago se viu obrigado a interromper a produção da obra “A Viagem do Elefante” por seis meses. Apenas dois dias após a alta médica, retomou o que considerava o livro mais jovial e mais divertido que já escreveu. Saramago contou essa história com o bom humor típico de suas sempre brilhantes palavras durante o lançamento do livro no Brasil, em novembro de 2008.
“Foi escrito em estado de pura felicidade por ter escapado. E mais: saí dessa doença com uma serenidade interior que nunca tinha experimentado. Pilar diz que é um livro cheio de sabedoria... e talvez seja”, disse, emocionado, a uma plateia privilegiada, de pouco mais de 700 pessoas, que ouviu naquele dia, durante quase duas horas, o escritor pensador falar de sua vida, suas histórias, do amor pela mulher, Pilar del Rio.
Eu estava lá e tive certeza de que aquele era um momento da minha vida do qual me orgulharia sempre, sentiria saudades e sobre o qual lembraria com muita dor quando Saramago se fosse. E foi exatamente como me senti hoje.
Saramago é um gênio, um escritor criativo, um contador de histórias como poucos. Mais que tudo isso, José Saramago era um homem muito especial. Escrevia sobre as injustiças do mundo e, sem alarde, trabalhava para ajudar a corrigi-las. O mais recente lance foi a reedição de seu livro “Jangada de Pedra”, cuja venda foi totalmente revertida para o fundo da Cruz Vermelha no Haiti. O que segundo ele só foi possível graças “à pronta generosidade das entidades envolvidas na edição do livro”.
Saramago era assim. E faz cada vez mais falta ao mundo seres da espécie humana que sejam assim: verdadeiros, poéticos, generosos, simples.
Seus dias de sobrevivente, como se autodefinia, acabaram. Faz lembrar daquela noite em que falava para o auditório lotado sobre o fim da viagem do elefante “que fez longa viagem num rigoroso inverno, para ter um triste fim. Uma metáfora que trata da inutilidade da vida, de não conseguirmos fazer da vida mais do que ela é”.
Mas Saramago conseguiu. Fez da vida mais do que ela é.

Claudia Motta é jornalista e escreveu especialmente ao Nota de Rodapé
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