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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Entrevista: o dinamismo de Cidinha da Silva

por Júnia Puglia    foto André Frutuôso 

Em seu novo livro, “Racismo no Brasil e afetos correlatos” (Conversê Edições), Cidinha da Silva solta o verbo e os adjetivos em observações e análises diretas, profundas e contundentes sobre o que rola na nossa “casa grande e senzala” de todos os dias, aquela que alguns se esforçam para eliminar, enquanto muitos preferem alimentar. Com sua lupa voltada para os meios de comunicação, faz uma varredura completa. Oferecemos um aperitivo.

NR – É possível afirmar que há hoje mais sinceridade e transparência no que os meios de comunicação mostram sobre as relações raciais no Brasil do que, digamos, dez anos atrás?

Cidinha da Silva: Penso que “sinceridade e transparência” são expressões muito generosas e muito abrangentes. Há exceções que se enquadrariam nessa definição, mas, de um modo geral, vejo dois outros movimentos simultâneos. O primeiro é pautado por algumas mudanças positivas (presença temática e de sujeitos negros, em certos casos como protagonistas) e o segundo é uma reação conservadora, principalmente da televisão, orientada pelo que se discute na blogosfera e redes sociais. O caso recente da apresentadora Fernanda Lima/FIFA é elucidativo. Vejamos: 1 – aventaram-se os nomes de Camila Pitanga e Lázaro Ramos (atores negros) para apresentarem o sorteio dos grupos da Copa. 2 – Vazou a informação de que a FIFA os teria preterido em favor do casal de modelos brancos Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert. 3 – Houve reações generalizadas na Web acusando a FIFA de racismo. 4 – A FIFA responde às acusações por meio de nota que justificava a escolha dos modelos, embasada em experiência internacional e trabalho anterior para a instituição. 5 – A justificativa não cola e então Fernanda Lima vai a campo, questiona a reação do povo na web, defendendo-se como cidadã que paga impostos e “branquinha” perseguida que “não tem nada a ver com o racismo”. 6 – Não contente, ela usa o programa de televisão do qual é apresentadora para responder a um debate que ocorreu em blogues e nas redes sociais. Uma reação típica de modernização conservadora, que considera uma discussão de ponta, de criticidade apurada, como subsídio para produção de mais uma peça de escárnio aos negros brasileiros na TV. Fernanda Lima se veste de colonizadora, canta e dança “cada macaco no seu galho” esvaziando o sentido político da letra: “esse negócio da mãe preta ser leiteira / já encheu sua mamadeira / vá mamar noutro lugar”! A apresentadora ridiculariza o posicionamento que problematizava a escolha da FIFA, transforma o conflito racial em piada e reforça a crença de que o racismo é um problema dos racistas e dos discriminados, não dela, uma “simples pessoa do bem”.

NR – O Emmy dado à telenovela “Lado a lado” atropelou a campeã de audiência “Avenida Brasil”. É um sinal dos tempos?

Cidinha da Silva: Não creio. Penso que seja um sinal alvissareiro, um recado vindo de fora sobre o que deveria ser valorizado e reconhecido aqui dentro, mas não chega a ser um sinal dos tempos. Tecnicamente são dois produtos televisivos excelentes, com interpretações memoráveis de grandes atrizes e atores, entretanto, Lado a lado tem o requinte do tema e da abordagem inovadora das relações raciais e de gênero neste tipo de produto, para ater-me a apenas duas qualidades da novela. Mas não creio que chegue a ser um sinal dos tempos.

NR – Remar, remar, remar e chegar no concurso para eleger a nova Globeleza. Por que a televisão insiste no retrocesso? O público aprecia mesmo?

Cidinha da Silva: Porque a televisão se autocompreende, se projeta e se perpetua como máquina de produção de bobos, de gente acrítica que mantém o status quo, principalmente no que concerne às assimetrias raciais. O papel que a Globo atribuiu a Sheron Mennezes (e ela aceitou) nesta edição da Globeleza é muito triste. Assim o descrevi em crônica recente, intitulada “A roda gigante e o motor da casa grande”: “Em uma das salas da casa grande, outra atriz negra da novela Lado a Lado surpreende a gente altiva ao apresentar-se como pregoeira de um conjunto de bundas e pernas negras naturais (hiper malhadas) ou siliconadas: glúteos, vasto lateral, bíceps da coxa, trato iliotibial. Acém. Cupim. Músculo. Coxão duro. Paleta. E não se sabe que parte da imagem é mais triste e deprimente, a carne de segunda e seu corte de costas ou o filé mignon disfarçado, maquiado, bem vestido, de sorriso angelical e dengoso a serviço do leilão de mulheres no mercado dos corpos.”

NR – Você é bem jovem ainda e já tem uma obra considerável publicada, tanto em livros quanto na internet – sem falar no teatro. Como é lidar com os vários meios e linguagens ao mesmo tempo?

Cidinha da Silva: Obrigada pelo “bem jovem ainda”, Júnia. Eu gosto do dinamismo, ele me alimenta muito e é uma necessidade. Eu comecei a publicar literatura tarde, então tenho muitos projetos acumulados e não tenho mais tanto tempo para desenvolvê-los, porque não comecei aos vinte, comecei aos 39. Por isso trabalho muito e disciplinadamente no pouco tempo deixado pelo trabalho que garante a sobrevivência econômica para dedicação à literatura. A dramaturgia era um sonho que ora realizo com Capulanas Cia de Arte Negra e Cia Os Crespos, grupos de teatro negro de São Paulo. Tem coisas lindas sendo ensaiadas para 2014, tão lindas quanto “Sangoma” e “Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas”, as duas peças deste 2013.

NR – Como você consegue manter a contundência do texto num ritmo tão intenso? Fartura de material nesse nosso Brasil complicado?

Cidinha da Silva: O amigo e bailarino Rui Moreira diz que minha caneta é de Ogum, deve ser por isso. Mas minha meta é ser cada vez mais água, busco a beleza, a alegria, a poesia na escrita. Quero estetoscópios para descobrir a vida que escapa do cotidiano endurecido (e enfurecido). Quero uma espada banhada em mel na mão esquerda e uma caneta de Oxum na outra para traçar o caminho.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A sucursal do inferno

NR apresenta aos seus leitores com exclusividade a abertura do novo romance de Izaías Almada,  A SUCURSAL DO INFERNO, a ser lançado na segunda quinzena de março, em data a definir, pela editora Prumo. 

SÃO PAULO, BRASIL,
ANO DO SENHOR DE 2005

-É ela...

O delegado Montezuma, com sua voz grave, apenas confirmou as suspeitas. Pelo celular informava ao delegado Queiroz, seu superior e diretor da Polícia Federal em São Paulo, a identidade da mulher assaltada junto a uma das margens do lago do Ibirapuera, encontrada bastante ferida.
Ouviu do chefe o que tinha a fazer:

-Quero que dois dos nossos homens acompanhem a vítima até ao Hospital das Clínicas, ajudem no que for preciso e depois me enviem o relatório completo de tudo que for constatado.

A cena, deslocada para aquele recanto bucólico do parque, obrigava aos seus participantes a respirar um ar estranho, de odor pestilento.

Havia qualquer coisa que não se conseguia distinguir muito bem, é verdade, mas que sugeria ou pressupunha, pelo repentino silêncio do vento e dos pássaros madrugadores, terminar em murmúrios cheios de medo, ansiedade e... terror.

O ar, tornado úmido e pesado, alheio a quietude à sua volta, entrecortado aqui e ali de ligeiras sonoridades difusas, distantes, e até pelos primeiros roncos dos ônibus municipais, misturava sem nenhum pudor os cheiros excludentes de pinheiros e eucaliptos com o de peixes mortos a boiarem nas margens do lago.

Não muito distante dali, a maldade insinuava-se por ruas e avenidas da cidade tal qual serpente silenciosa a procura de alimento.

Era apenas outra das primeiras madrugadas de outono na cidade de São Paulo. Tempo em que tímidos recortes de verão, distraídos talvez, mas por vezes persistentes, vão ficando para trás nas irregulares mudanças de estação, assim como alguns dos imprevisíveis aguaceiros que costumam banhar a cidade entre o natal, o carnaval e até mesmo os calmos feriados da semana santa.

Conseguiria a vítima sobreviver?

Indiferentes ao fato, pequenas pontas de vento gelado, finas e cortantes, investiam como aríetes e batiam contra a copa das árvores e das vidraças dos nobres e elegantes edifícios das cercanias do parque, fazendo escorrer pela parte interna e semi aquecida das janelas dos apartamentos pequenas gotas de vapor criadas pelo contraste da temperatura.

Alguém madrugador que naquele instante se arriscasse a abrir as janelas ou persianas dos andares mais altos, em particular as que davam para o parque, teria sua atenção chamada para o piscar das luzes giroscópicas vermelhas e azuis de dois carros, um da Polícia Federal e outro da Polícial Civil, estacionados em frente a uma de suas muitas entradas e que, àquela hora matinal, já recebia os primeiros, corajosos e bem agasalhados andarilhos e ginastas.

O que não se podia descortinar dali, contudo, era o que se passava junto a uma das margens do lago interno, a que se voltava para o lado do monumento aos imigrantes, onde uma ambulância e outras duas viaturas policiais, também com suas luzes coloridas intermitentes, haviam conduzido a equipe da Polícia Federal.

Montezuma chefiava o mais competente e respeitável grupo da Divisão de Repressão a Crimes Financeiros. Sob sua observação atenta, homens trabalhavam, sisudos, alguns até de mau humor...

As primeiras luzes da manhã invadiam o verdejante cenário, amalgamadas em tons alaranjados e lilases, e deixavam entrever por entre os grossos troncos de eucaliptos espalhados pelo parque, dependendo do ponto de vista do observador, os contornos retilíneos do prédio em formato retangular da Assembleia Legislativa estadual ou o arredondado das cabeças de cavalos e de homens em pedra, de Brecheret, que costumavam ilustrar muitos dos vários cartões postais da cidade.

O local onde estava caída a mulher, sua roupa rasgada, os hematomas por várias partes do corpo, a expressão de sofrimento, pareciam confirmar apenas uma hipótese para a polícia: um assalto premeditado, talvez uma vingança...

O delegado Montezuma e sua equipe foram para ali chamados após receberem o comunicado urgente do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil.

Homens que com seus semblantes sérios e mal protegidos para o frio que começava, mas acostumados a esse tipo de situação, faziam o seu trabalho de maneira mecânica, concentrada e pouco falavam entre si.

Sob o movimento nervoso do facho de luz das poderosas lanternas policiais, o delegado Montezuma abaixou-se enquanto colocava luvas de latex. Tinha o rosto contraído e preocupado, como se tentasse adivinhar o que iria acontecer dali para a frente, pois do caminho de casa para o parque já imaginava o que o esperava e deixou de lado qualquer dúvida sobre o ‘osso duro’ que seriam as investigações. Sua equipe e o doutor Queiroz não seriam importunados àquela hora da manhã por um assaltozinho qualquer...

A quem interessaria aquela violência?

Ano de eleições. O Ministério da Justiça iria jogar pesado, pois tinha interesse em que fatos daquela natureza não interferissem na campanha eleitoral que se iniciava. A opinião pública e determinados jornais, rádios e emissoras de televisão iriam se eriçar. Prato cheio, pensou.

Com delicadeza, o delegado Montezuma retirou a mecha de cabelos molhados que escondia parte do rosto de uma bela mulher, já próxima aos quarenta anos de idade. Em seguida, com os dedos indicador e polegar em forma de pinça, pegou o queixo da moça e virou-lhe delicadamente o rosto de um lado para o outro. Ainda respirava com imensa dificuldade.

A água se encarregara de limpar os vestígios de sangue, mas era nítido e expressivo o rictus de horror estampado naquela face. Os olhos, semiabertos, indicavam pelas pupilas dilatadas o pânico de quem enfrentara alguém ou alguma coisa aterrorizante, de força sobrenatural.

-Removam a moça o mais rápido possível para as Clínicas, ordenou Montezuma.

-Nenhum ferimento mais profundo?

-Delegado...

O policial que ajudava a segurar o corpo chamou a atenção de Montezuma. Indicava o que parecia ser um corte nas costas bem na altura do rim esquerdo. Corte superficial e que parecia ter sido feito propositalmente em forma de cruz. Ao redor do pescoço e nas costas, outros pequenos cortes e a presença de vergões arroxeados.

-Como descobriram a mulher?, perguntou o delegado da Federal para o da Civil.

-Um desses madrugadores que correm por aqui avistou as pernas por trás desses arbustos e ligou para o 190.

-Ele viu algum suspeito?

-Não, mas se identificou se precisarmos dele.

Com algum esforço, o delegado Montezuma conseguia disfarçar o desconforto e a preocupação que sentia, enquanto observava os paramédicos que colocavam a mulher na ambulância.

O silêncio entre os policiais se fez tão ou mais gelado quanto o da manhã que nascia.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Promoção do livro "A Invasão Corintiana"

Nota de Rodapé e LF Editorial vão sortear três exemplares de "A invasão corintiana", livro-reportagem de Tatiana Merlino e Igor Ojeda. Os vencedores serão conhecidos no dia 20 de dezembro.

Os vencedores:
1 - Juliana Sartori, São Paulo, SP
2 - Jean do Nascimento Flores, Leme, SP
3 - Walter Carlos da Silva Júnior, São Paulo,SP

O lançamento do livro é hoje, na livraria da Vila, em São Paulo (veja o convite). 

[Clique para ampliar]


COMO PARTICIPAR

Retuite essa mensagem no Twitter e publique no Facebook:
#Promoção @notaderodape: ganhe exemplares do livro "A invasão Corintiana", de Tatiana Merlino e Igor Ojeda: http://migre.me/6jt48
E depois responda a pergunta: 
"Qual foi o autor do gol e em qual minuto da partida em 1976 o timão empatou o jogo contra o Fluminense?"

Sobre o livro

O dia em que a Fiel tomou o Rio de Janeiro para ver seu time no maior estádio do mundo é uma obra dos jornalistas Igor Ojeda e Tatiana Merlino que resgata um acontecimento singular da história do mais popular clube paulista e sua relação inebriante com a Fiel torcida.

O livro-reportagem “A invasão Corinthiana" remonta há exatos 35 anos, em 5 de dezembro de 1976, os cerca de 70 mil corinthianos que invadiram o Rio de Janeiro para apoiar seu time na partida única da semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano contra o favoritíssimo Fluminense de Roberto Rivellino, equipe conhecida na época como “Máquina Tricolor”.

Das 147 mil pessoas presentes no Maracanã, estima-se que metade eram torcedores alvinegros, que se deslocaram de ônibus, trem, carro, avião, barco, bicicleta e até mesmo a pé para apoiar um Corinthians que amargava duas décadas de fila, mas cuja legião de seguidores não parava de crescer.

O rigor jornalístico baseado em uma profunda pesquisa e nas 30 entrevistas realizadas pelos autores faz deste livro um documento de memória e um registro histórico de como o futebol está entranhado na sociedade brasileira.

As experiências de jogadores, jornalistas e torcedores que participaram daquele momento ajuda a costurar o feito histórico da torcida corinthiana com o contexto social e cultural vivido na época.

Nas palavras de Juca Kfouri, que assina a quarta capa do livro, “A Invasão Corinthiana” é uma história única e muito bem contada: “Contada por quem a viveu simplesmente como torcedor, como jornalista ou por meio do que a imprensa, à época, dezembro de 1976, publicou.

E da perplexidade de jogadores experientes ao experimentarem algo que ninguém mais havia visto ou voltou a ver. Os autores remontam os altos e baixos da trajetória corintiana para que tudo faça sentido ou para que nada faça sentido - seja apenas sentido”.

Serviço
Título: A Invasão Corinthiana
Subtítulo: O dia em que a Fiel tomou o Rio de Janeiro para ver seu time no maior estádio do mundo
Autores: Igor Ojeda e Tatiana Merlino
Quarta-capa: Juca Kfouri
Ano de publicação: 2011
ISBN: 9788578611224
Preço: R$ 49,00
Editora: LF Editorial

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

As capas dessa história

"Este livro foi alinhavado através do trabalho de uma equipe do Instituto Vladimir Herzog de jornalistas, historiadores e pesquisadores que, a partir das capas das publicações, foi atrás desta incrível trajetória da imprensa alternativa, clandestina e no exílio que, cada uma a seu modo, soube resistir à ditadura instalada em 64. Sem contar o prazer de levantar um material lindo e inédito", resume Ricardo Carvalho, coordenador do projeto Resistir É Preciso, sobre o lançamento do livro "As capas dessa história".

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Lançamento do Livro Saci, de Paulo Pepe e outros autores

"Vocês todos sabem que os sacis estão por ai, esperando o momento de nos pregar uma boa peça. Pois bem. Escrevo para avisá-los que no próximo dia 27/08 todo o cuidado é pouco.

Eu e mais seis autores lançaremos o livro infanto juvenil SACI, pela Editora Mundo Mirim. Além de relatos de aparições desse perneta, o livro trás receitas dos pratos preferidos dele. Delícia! Envio o convite aqui, será uma alegria recebê-los lá. Mas vá com atenção e cuidado com a ventania!".

Taí o recado do amigo e fotógrafo Paulo Pepe. Abaixo o convite.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Tadeu Breda, colaborador do NR, lança livro sobre o Equador

Livro do jornalista Tadeu Breda desfaz mitos
sobre o governo Rafael Correa e ajuda a decifrar
o processo de transformação política no Equador e na América Latina

No próximo dia 5 de maio, o jornalista Tadeu Breda lança em São Paulo um extenso livro sobre o Equador antes, durante e depois da ascensão do presidente Rafael Correa e sua Revolução Cidadã. Porém, O Equador é verde – Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento não fala apenas de política: questões econômicas, sociais e ecológicas permeiam as 320 páginas que constroem o retrato mais fiel já publicado em língua portuguesa sobre a história recente do país vizinho.
O livro aborda a transição reformista que vem ocorrendo no Equador e os conflitos produzidos no seio da sociedade equatoriana devido ao processo de transformação. Para cumprir com este objetivo, Tadeu Breda acompanhou de perto as eleições de 2009 e conversou pessoalmente com os principais candidatos: Lucio Gutiérrez, Álvaro Noboa e, claro, Rafael Correa, que acabou vencendo a peleja e garantindo mais quatro anos no cargo.
Igual atenção foi dada ao movimento indígena, principal força social do país e ponta de lança das transformações políticas, econômicas e sociais que estão acontecendo por lá. Uma delas é a nova Constituição Plurinacional, que ocupa posição de destaque no livro. A Carta Magna equatoriana foi a primeira na América Latina em reconhecer direitos à natureza e adotar um princípio indígena (Sumak Kawsay ou bom-viver) como modelo de desenvolvimento.
O autor também dedicou suas atenções para as influências ideológicas que definem o governo da Revolução Cidadã. Assim, pôde trazer elementos que ajudam a compreender porquê Rafael Correa fala tanto em Simón Bolívar e o que significa Socialismo do Século XXI.
Os desafios ecológicos estão presentes no tocante relato sobre um dos maiores desastres ambientais de que se tem notícia – e que aconteceu na Amazônia equatoriana quando a companhia estadunidense Chevron-Texaco despejou na floresta milhões de galões de petróleo e outros elementos tóxicos. O resultado foi a contaminação do ar, da água e do solo devido às piscinas negras que há mais de 30 anos permanecem à céu aberto em meio à mata. A população sofre diretamente os efeitos da tragédia: os índices de câncer são os mais altos do país, e o desenvolvimento humano, o mais baixo.
O livro termina com um texto aprofundado sobre a tentativa de golpe de Estado (ou teria sido motim policial?) que em setembro de 2010 manteve Rafael Correa sequestrado e à mira de pistola durante horas – e quase lançou o país novamente na instabilidade institucional.
“Fruto do que pretendia ser uma grande reportagem, o trabalho de Tadeu Breda ultrapassou o almejado pela qualidade das questões e análises sobre o que vem acontecendo no Equador”, opina Maria Helena Capelato, titular de História da América Latina na Universidade de São Paulo.
“O Equador é um país que historicamente esteve distante do noticiário brasileiro. Aliás, todos os vizinhos latino-americanos têm sido alvo de nosso esquecimento. A situação mudou um pouco com a ascensão dos presidentes de esquerda, mas a cobertura dos meios de comunicação, muitas vezes superficial, acaba não contribuindo para a compreensão do que de fato está acontecendo nestes países”, explica o autor.
“Os episódios narrados no livro devem ser encarados como parte de um processo cujas engrenagens estão em pleno movimento. Nada está definido no Equador. Por isso, mais que jogar luzes sobre o futuro do país, busquei entender o que aconteceu no passado e o que está acontecendo no presente. Espero que essa tentativa ajude a desfazer mitos e preconceitos sobre a realidade equatoriana e consiga informar, da melhor maneira possível, o leitor interessado em decifrar o momento vivido pela América Latina neste alvorecer de século e (já não tão) novos governos.”

Viagem irresistível
“Tadeu Breda nos convida para uma viagem irresistível: percorrer os marcos visíveis e os subterrâneos de uma sociedade em turbulência há mais de uma década”, escreve o pesquisador Gilberto Maringoni no prefácio do livro, lembrando que o Equador chegou a ter sete presidentes diferentes em dez anos. “O autor realiza com rara competência um exame deste que é um dos pontos luminosos do processo de reação continental à aventura ultraliberal que varre a América Latina desde o final dos anos oitenta.”
Rafael Correa foi eleito em 2006 na esteira de três golpes de Estado civis e militares que contaram com ampla participação popular. Abdalá Bucaram foi derrubado em 1996, Jamil Mahuad, em 2000 e Lucio Gutiérrez, em 2005. Em comum, todos eles traficaram com a esperança do eleitorado: foram eleitos com uma plataforma nacionalista que prometia desenvolvimento e bem-estar, mas, uma vez na Presidência, não hesitaram a adotar políticas neoliberais pautadas pela privatização e pelo corte nos investimentos sociais (educação, saúde e subsídios).
A subserviência ao FMI e ao Banco Mundial chegou a tal ponto que, em 1999, o país simplesmente abandonou sua moeda nacional (sucre) e adotou o dólar estadunidense como unidade de circulação interna. Até hoje, os equatorianos compram e vendem com notas retratando Benjamin Franklin, George Washington e Abraham Lincoln “Talvez nenhum outro país da região tenha ido tão longe na aplicação dos processos de ajuste estrutural”, pontua Maringoni.
A chegada de Rafael Correa virou a mesa. Quando assumiu o poder, o presidente equatoriano contava com um cenário geopolítico favorável: Hugo Chávez, Evo Morales, Michelle Bachelet, Tabaré Vázquez, Néstor Kirchner e Lula governavam Venezuela, Bolívia, Chile, Uruguai, Argentina e Brasil. O Equador passava a integrar, assim, a chamada “esquerda sul-americana”. Mais tarde, radicalizaria sua posição a favor do Socialismo do Século XXI e se tornaria membro da Aliança Bolivariana das Américas (ALBA).
“As políticas neoliberais, também fruto da crise capitalista e da globalização, trouxeram consequências muito negativas do ponto de vista social, e as reações contra a pobreza, desemprego e desequilíbrio econômico começaram a surgir”, contextualiza Maria Helena Capelato, professora de História da América Latina na Universidade de São Paulo (USP). “Assim foram se consolidando governos com projetos políticos que visavam mudar o rumo das políticas vigentes.” (cc)

Serviço

O quê: Lançamento do livro O Equador é verde – Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento, de Tadeu Breda.
Quando: 5 de maio, das 20 às 23 horas.
Onde: Sede do Projeto Cala-boca já morreu – Av. Henrique Schaumann, 125, Pinheiros, quase esquina com a Av. Rebouças, em frente ao McDonnald’s. São Paulo-SP
O livro custará R$ 25,00
Entrada franca

quarta-feira, 16 de março de 2011

Crônica do mundo ao revês

Lançamento nesta quinta-feira, dia 17 de março.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Livro “Realidade Re-vista”, lançamento nesta segunda-feira

O livro da Editora Realejo foi escrito por dois mestres, José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão. O livro conta o período mais brilhante do jornalismo em revista brasileiro, entre as décadas de 1960 e 1970. A obra, de 436 páginas, desvenda a fórmula revolucionária utilizada pela equipe de redação da revista “Realidade” (1966-1976), que levou a publicação a ser considerada uma das mais importantes já lançadas no Brasil. O livro faz uma análise dos métodos adotados pela redação da revista, traz histórias de bastidores de algumas de suas principais matérias e revela casos em off de muitas reportagens.


Saiba mais:
Por que falar de Realidade? - José Carlos Marão
Os 20 meses que revolucionaram a imprensa - Ricardo Kotscho
Realidade, a utopia do jornalismo - Celso de Campos Jr.



Serviço:  Editora: Realejo; Título: Realidade Re-Vista; Autores: José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão
Número de Páginas: 436; Preço: R$ 70,00. Lançamento e sessão de autógrafos: Data: 20 de dezembro de 2010 -2ª feira; Horário: 19h00; Local: Posto 6; Endereço: Rua Aspicuelta, 646 – Vila Madalena – São Paulo/SP

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Retrato do Brasil de novembro

A revista mensal Retrato do Brasil traz, neste mês de novembro, reportagens sobre condições de vida, política, economia, ciência e cultura. A reportagem de capa traz um tema de interesse geral, a saúde. Intitulada “À beira da internação”, oito páginas indicam diferentes diagnósticos na primeira de duas reportagens sobre o caso do Sistema Único de Saúde, o SUS. Você já se perguntou quanto vale a liberdade? O repórter Ricardo Viel explica o que são os “crimes de bagatela”, que envolvem furtos de pequeno valor, tratados, em sua maioria, com penas muito severas. As ilustrações para a reportagem são de Caco Bressane.
A repressão a usuários de drogas fracassou, dizem especialistas. O debate agora é pautado por saúde pública e direitos humanos, é o que reporta Júlio Delmanto. Tadeu Breda explica que após confronto com policiais rebelados, Rafael Correa, do Equador, vai às ruas defender seu governo e ganha popularidade. De Buenos Aires, Mariana Camaroti, conta a Guerra da Mídia: o kirchnerismo, de olho na eleição de 2011, trava uma batalha para reduzir o poder dos grandes jornais como o Clarín.
Crise e revolta em Moçambique: protesto popular contra o aumento do custo de vida surpreende o governo e aumenta a tensão na região, detalha Yuri Martins Fontes. Rafael Hernandes explica porque as empreiteiras estão bombando. Grupos econômicos que controlam as grandes empreiteiras se dão muito bem atuando, inclusive, na ultralucrativa exploração de rodovias. Na praia da ciência, Flávio de Carvalho Serpa resenha a mais recente obra de Stephen Hawking que diz que Deus não é necessário na criação do Universo, mas, contraditoriamente, baseia suas análises na fé.
Em cultura, livro traça um panorama histórico da realidade econômico-cultural do cangaço após seu desaparecimento e Jean Rodrigues Sales resenha aos interessados em saber mais sobre a trajetória do Partido Comunista do Brasil, o PcdoB. Beatriz Rangel, fechando a edição, conta a história da Ação Griô Nacional, uma rica experiência cultural que vai servir de base para uma política pública permanente.

Lançamento quinta-feira:

quinta-feira, 25 de março de 2010

O lançamento do livro de Duarte Pereira é neste sábado na Pinacoteca em SP

Como havia informado na postagem da semana passada, neste sábado, 27 de março, das 11h às 14h, na Pinacoteca do Estado, o jornalista e amigo Duarte Pereira, lançara o livro 1924: O diário da revolução – Os 23 dias que abalaram São Paulo, edição conjunta da Imprensa Oficial e da Fundação Saneamento e Energia, com ilustrações e apresentações do professor Hubert Alquéres e do historiador Ricardo Maranhão. Duarte contou ao Nota de Rodapé que os direitos autorais foram cedidos gratuitamente e que sua preocupação “essencial” é “despertar a atenção para a pouco conhecida rebelião democrática 'tenentista' de 1924, sobretudo entre os jovens”. Quem for ao lançamento pode aproveitar para visitar a exposição de Andy Warhol no Espaço Pinacoteca, ao lado da Estação da Luz.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Guto Lacaz lança o livro omemhobjeto

Guto Lacaz lança o livro omemhobjeto pela Editora Decor Books. Lançamento em 24 de março, às 19h 30, no Museu da Casa Brasileira, Av. Faria Lima 2705. Guto Lacaz, 50, é paulistano e formou-se em arquitetura, em 1974, pela Faculdade de Arquitetura de São José dos Campos. Começou a vida profissional fazendo ilustrações para o Jornal da Tarde paulistano e editoras de livros. Ostenta dois prêmios Abril de Jornalismo em Ilustração. É artista independente e colaborador da Revista Caros Amigos. O site dele é bem bacana.

sábado, 13 de março de 2010

1924: O diário da revolução – Os 23 dias que abalaram São Paulo

A Imprensa Oficial do Estado de São Paulo vai lançar no próximo dia 27 de março, entre as 12 e as 14 horas, na Pinacoteca do Estado, um pequeno livro sobre a chamada “revolução de 24”, integrante do ciclo das rebeliões “tenentistas”. O livro é de autoria do amigo Duarte Pacheco Pereira que já nos honrou com textos neste Nota de Rodapé. Eis trecho da apresentação do professor Hubert Alquéres, diretor-presidente da Imprensa Oficial: "A maioria dos paulistanos não faz ideia dos combates sangrentos que foram travados nas ruas, praças e prédios de sua cidade em julho de 1924. Inconformados com os desmandos e a corrupção da primeira república brasileira, dominada por oligarquias estaduais, jovens oficiais, comandados pelo general Isidoro Dias Lopes, tentaram tomar a capital paulista para utilizá-la como base para atacar o Rio de Janeiro, destituir o presidente Artur Bernardes e implantar um conjunto de reformas democráticas e moralizadoras (...)" Vale conferir, pela história e pelo texto de Duarte que é muito bom. Sem contar o passeio na Pinacoteca.

Referências:
Livro: 1924: O diário da revolução – Os 23 dias que abalaram São Paulo
Autor: Duarte Pacheco Pereira
Editora: edição conjunta da Imprensa Oficial e da Fundação Saneamento e Energia, com ilustrações e apresentações do professor Hubert Alquéres e do historiador Ricardo Maranhão.

Le Monde Diplomatique Brasil lança novo site na segunda-feira


Recebi um e-mail informando que dia 15 de março o Le Monde Diplomatique Brasil vai lançar um novo site. Compartilho com vocês a informação e o convite.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Meneghetti: no Dops, salva pelo U do nome?

Zilda Meneguetti, nome de solteira, é minha mãe. Na década de 60 e perto dos 20 anos a então empregada doméstica com sotaque do norte do Paraná, Sertanópolis, vivia suas histórias. Cresci cercado por elas, sempre marcadas por uma narração precisa, com detalhes e ambiente. Um desses causos da minha infância é sobre Gino Meneghetti (1878-1976), o ladrão italiano que marcou época em São Paulo por seu estilo particular de assaltar, ganhando fama por seus roubos e fugas espetaculares.
Apelidado de “o bom ladrão” e tendo o mesmo sobrenome de minha mãe, nunca tivemos certeza se era ou não nosso parente. Dona Zilda soube de sua existência no lugar mais inóspito possível, o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Ao chegar com uma amiga para tirar a identidade o enquadro: “A senhorita conhece ou é parente do Gino Meneguetti?”, perguntou o Feijoada, nome do fulano responsável pela emissão do documento. “Quem?”, respondeu.
Detida por 6 horas para averiguação, o tal do Feijoada, um “negro miúdo”, achou que ela podia estar acobertando o bandido histórico, que havia fugido mais uma vez da cadeia. Após interrogatório no qual só não perguntaram para qual time de futebol torcia a liberaram com o argumento. “É, você não tem cara de malandra e sua certidão é MenegUetti e não MenegHetti. Essa H salvou você”.
De fato, o U e o H são letras distintas no sobrenome de ambos. A argumentação do Feijoada é que me intrigou. Bem sabemos que erros são comuns em registros de nomes. A dúvida do parentesco permanece. Sorte da minha mãe que se livrou do infeliz e nada sofreu, uma raridade naqueles tempos. Afinal, ser ainda uma menina numa época de repressão braba pode tê-la ajudado. “Lembro que o Feijoada queria colocar, depois de tudo, azul como cor dos meus olhos. São verdes. Quer dizer, fico detida e ele ainda quer mudar a cor dos meu olhos no documento?”, lembrou minha mãe. A identidade ela tem guardada até hoje. Precisou, depois de mais de 40 anos, tirar uma nova para poder receber sua aposentadoria.

“Meneghetti, honestamente ladrão”
Essa história trago para refrescar as memórias da infância e indicar que Mouzar Benedito lança, nesta quinta-feira, 28 de janeiro, na livraria da Vila, a partir das 19h, o livro de sua autoria com pesquisa de Antonio Biondi e Marcel Gomes, intitulado “Meneghetti, honestamente ladrão”. Lançado pela Boitempo Editorial, o livro traz ainda uma história em quadrinhos de Luiz Gê - que inspirou o curta-metragem de Beto Brant - publicada no jornal Versus em 1976. O livro (136 páginas) faz parte da coleção Pauliceia, coordenada por Emir Sader. A Livraria da Vila fica na rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo, SP. O telefone é: (11) 3814-5811.

Documentário: Dov´è Meneghetti?
Beto Brant (1989/12 minutos)
"Minha primeira visão do mundo foi a cidade de Pisa, com sua torre inclinada. Tal como a torre, também o meu destino estaria sempre inclinado, cai-não-cai

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