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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Bar do Elvis

por Carlos Conte*

Mais uma crônica de bar. Na verdade, um ex-bar: depois da morte do Vavá, foi demolido e se não me engano virou estacionamento. Vavá era dono de bar à moda antiga. Jaleco branco, cabelos igualmente brancos e meio amarelados, metodicamente penteados para trás e fixados com gel, magro, alto, fã do Elvis. Tão fã que muita gente chamava o lugar de bar do Elvis: um bar temático numa época em que não se falava em bares temáticos. Ali era parada obrigatória do bloco de carnaval Vai-Quem-Quer.

O lugar era bem estreito, pequeno, com um longo balcão dividindo o salão em duas partes desde a porta até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram forradas de objetos do rei: cartazes, quadros, discos. Na TV, sempre estava passando algum vídeo do Elvis, e me lembro de ter visto inteiro o show que ele fez no Havaí nos anos 70: o Elvis de colar havaiano usando aquelas roupas coloridas bregas que eu nunca entendi direito, e que são a sua marca registrada, tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou dourada de um macacão, além de umas costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa. Eu estava de gladiador. Uma dupla realmente incrível.

Ali no bar do Elvis tinha umas figuras carimbadas. Todo bar tem. Sempre estava lá um velho barbudo que eu e o Dudu apelidamos só entre nós de Velho Marinheiro, por causa da boininha na cabeça. Uma vez, o Velho Marinheiro dormiu no balcão, e logo em seguida as pessoas começaram a ver uma poça de mijo crescendo embaixo dele, formando uma represa de mijo no chão do bar! Sonhando estar diante de uma privada ou uma árvore, o Velho simplesmente tirou pra fora e começou a fazer ali mesmo. Mas não foi de sacanagem. O Velho, na verdade, era um tipo muito interessante. Tinha estilo. Mijou de bêbado, mas mijou com estilo, dormindo, a braguilha discretamente aberta, apoiando-se no balcão. Depois, como sempre, alguém chamou o táxi, pôs o Velho lá, e o Vavá telefonou para a mulher avisando que o marido bebum estava a caminho.

Num texto chamado “Supermarket”, eu anunciei, bem de passagem, a história que eu vou contar agora. Na verdade foi o irmão mais novo João, e não o próprio Vavá, que uma vez puxou papo comigo e me revelou o verdadeiro motivo da morte do rei do rock. João era tão fanático pelo Elvis quanto o Vavá. Acho que nesse dia o Galo estava tomando cerveja comigo.

– Vou contar uma coisa – disse o João, como se viesse dar uma notícia quente. –Infelizmente o Elvis morreu.

– Morreu sim – respondi.

– Pois tem gente que acha que ele não morreu, mas que ele fugiu, sem deixar pistas! Hoje vive escondido em algum lugar, protegido por uma tal lei de proteção a testemunhas ou alguma coisa do tipo. Mas isso é coisa de fanático! Eu não caio nessa conversa! Com tanto paparazzi, já teriam pegado ele de sunga numa praia do Caribe, você não acha?

Concordei com o João: Elvis estava morto.

– “Elvis não morreu” é uma isca pra manter as lojas vendendo – eu disse, com ares de sociólogo de boteco.

– Dizem que foi droga, mas não foi droga.

– Isso eu não sabia, João. Achei que tinha sido abuso de calmante ou...

– Ele morreu cagando.

– Sério?

– Sério. Acharam o corpo caído no chão do banheiro, mas ele estava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.

– Quê?!

– Ele só comia lanche do Mc Donald’s! Gente assim não dura. Falta fibra no organismo e aí prende tudo. O Elvis fez tanta força que a veia não aguentou! E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo etc. e tal... mas a realidade pouca gente sabe. Eu sei porque estudei.

– Leu numa biografia?

– Nenhuma biografia vai falar isso porque todos foram muito bem pagos para calar o bico. Você mesmo disse: as lojas têm que continuar vendendo camisas com a cara do rei. E assim a banda toca. Você sabe...

Então, calou-se. Enquanto passava flanela na TV, seus olhos fixaram a tela: ali estava Elvis cantando Love Me Tender. Seu rosto, cada vez mais próximo do rosto do Rei, iluminou-se, e em movimentos circulares João passava o pano na tela como se fizesse carinho no jovem Elvis que cantava “Ame-me com ternura / Ame-me com doçura / Nunca me deixe partir”. Da escatologia às lágrimas: João começou a chorar. Aí me dei conta de que o assunto era sério. Resolvi não perguntar mais nada. É duro falar da morte de um ídolo.

“Então o Rei morreu no lugar apropriado: o trono!”. Ia fazer essa piada mas felizmente desisti. Era hora de chorar.

* * * * * * *

Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Imagem: Futepoca

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Balcão, bebiba, barra, Biro

por Carlos Conte*

O bar do Biro é o melhor que eu conheço. Baiano albino, o Biro tem esse apelido por causa do ex-volante corintiano dos anos 80, o Biro-Biro (que o presidente Mateus certa vez chamou de Lero-Lero...). O Biro me lembra um personagem sertanejo da Rachel de Queiroz chamado José Alexandre, “caboclo hercúleo” que vivia isolado numa fazendinha no Ceará e que pelo fato de falar muito pouco sua voz era sempre rouca, “como a de um bicho que aprendesse a falar”. O Biro também não é de falar muito e está sempre rouco. Algumas pessoas são roucas por natureza e acho que esse é o caso do Biro. Por isso, pra ser escutado no meio do barulho do boteco, ele é obrigado a forçar a voz: “vai uma seLEta?”, ele pergunta, com ênfase na tônica, como se levasse um susto no meio da frase.

Crônica tem um quê de conversa de bar. E tem bares que merecem uma crônica. Já escrevi sobre o Silveirinha, poderia escrever sobre o Valadares, o Biu, o bar do Paulo, o bar do finado Vavá... Esses são os meus bares. Meus bares! Com pronome possessivo e tudo. Desses todos, porém, o Biro é o meu predileto, pois no quesito mais importante que existe quando se julga um bar, o Biro vence.

Variedade de cervejas? Sem dúvida esse quesito é importante, mas o Sagarana não é o meu bar preferido, muito menos o Frangó lá da Freguesia. Petiscos? Claro, são fundamentais (aliás, descobri que tem um bar de happy-hour numa travessa da Paulista que tem rodízio de petiscos, mas nunca fui). Atendimento? Limpeza? Serviço delivery?...

Quando elejo o Biro, não me refiro a nenhum desses quesitos adotados pelos críticos dos Guias e Revistas de São Paulo, até porque o Biro perderia em todos, exceto atendimento, pois simpatia e solicitude são a marca registrada do Biro, auxiliado por seu fiel escudeiro Geladeira (porque ele sempre está atrás do balcão, de pé, parado, como uma geladeira... Apelidos de bar é um tema que daria outra crônica).

Para mim, o principal aspecto quando se avalia um bar é tão subjetivo quanto o conceito de liberdade: cada um sente de um jeito diferente, cada um pode relatar experiências, manifestações reais, efêmeras ou duradouras, mais intensas ou menos, mas é difícil cravar “liberdade é isso”, “felicidade é aquilo”, como para mim é difícil encontrar a melhor palavra que defina essa adoração que tenho pelo bar do Biro.

Tem a ver com acolhimento. Sem dúvida. O Biro é meu refúgio. Eu procuro isso num bar. Nem sempre, é claro. Algumas vezes procuro mulheres. E cada vez mais elas estão indo ao Biro. O Biro é um bar que o Antônio Prata chamaria de “meio intelectual, meio de esquerda”, com seu balcão velho de fórmica, os bancos gastos, um enorme mapa múndi, um barrilzinho de pinga com o distintivo do Corinthians, a mesa de sinuca no fundo (onde as caçapas são tão apertadas que às vezes parece que o jogo não vai acabar nunca), mas o principal são os dois grandes painéis laterais, retratando cavalgadas e paisagens bucólicas. Esses painéis são realmente incríveis, eu não me canso de olhar para eles. A típica coisa brega/autêntica que a galera pira, e eu já me acostumei tanto com aqueles cavalos ali, me olhando, que não imagino como seria o bar sem eles. Até que um dia, dando na telha ou entrando um dinheiro extra, o Biro manda passar uma tinta, faz uma parede com textura ou algo do tipo, mais “moderno”, mais fácil de limpar, e acaba com a graça da galera hipster.

Voltando ao meu critério para preferir o Biro, refiro-me a um estado de bem-estar simples, absolutamente trivial: encostar-me ao balcão, tendo a minha frente uma garrafa de cerveja e um copo americano. Isso é o básico de um bar. O resto é acessório. Isso remonta, sem dúvida, ao primeiro bar da história da humanidade e ao seu primeiro frequentador, que certamente saiu de lá, montando em seu cavalo, satisfeito e surpreso com aquela experiência incrível, tão simples, tão fundamental: sentar-se ao balcão e beber, se possível beliscando um amendoim, mas isso já é secundário. O principal: balcão, bebida, barra. Sem pentelhação, sem encheção de saco, ninguém tagarelando na orelha. Balcão, bebida, barra – com aliteração e tudo! Sem dar satisfação, sem olhar o cardápio, sem ter que xavecar ninguém, sem ter que escolher a roupa antes de sair de casa. Balcão, bebida, barra e foda-se a menina que você tem que paquerar, que você tem que dar em cima, senão algum filho da puta incansável vai levar a melhor nessa história. Balcão, bebida, barra e não preciso me posicionar politicamente, nem falar de trabalho, nem convencer ninguém sobre nada. Balcão, bebida, barra, Biro e foda-se o mundo, amanhã eu volto a me preocupar com ele...

Tudo isso eu encontro lá, talvez você encontre em outro bar, talvez isso não faça o menor sentido pra você, e neste caso eu recomendo o happy-hour-rodízio-de-petiscos da Paulista ou qualquer lugar novo na Vila Madalena onde a gente não consegue nem escutar o próprio pensamento.

Sobre a barra, o Migue, amigo que entende de bar como poucos e que por isso adora o Biro, me contou que foi ela, a barra, que deu origem ao nome “bar”. Ela é essencial. É onde a gente apoia os pés – quer coisa mais importante do que isso? Mas não é todo mundo que tem consciência da importância dessa barra, sem a qual a gente começa a sentir desconfortos terríveis nas pernas e nas costas. Muito dono de bar não sabe disso e simplesmente manda tirar, como se não fosse fazer falta.

Do outro lado do balcão, está o Biro, solícito, honesto, atento (qualidades que lembram o seu Zé, o garçom que fez tanta fama que acabou dando nome ao bar das empanadas chilenas. Que fim ele teve?). Ali está o Biro e toda vez eu tenho vontade de dizer pra ele como eu gosto do seu bar, como para mim é bom estar ali olhando os cavalos, o mapa, o Geladeira, as bolas numeradas correndo pra lá e pra cá, escutando os frequentadores da velha guarda combinando seus churrascos de aniversário, suas caravanas para o litoral... Enquanto isso, amigos de facebook fumam seu cigarro na calçada. Enquanto isso, eu medito, e bebo.

* * * * * * *

Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Neguinho, o pistoleiro

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

“Oi… Marcio?”

“Isso!”

“Boa noite!” saúdo o taxista do apllicativo, entrando no carro.

“Posso te dar uma dica?”.

“Pode, claro”, respondi, um pouco apreensiva.

“Nunca pergunte o nome do taxista antes de entrar. Sempre diga ‘você veio buscar quem?’. Porque o cara pode tá agindo de má fé e vai falar que é o taxista quando ele não é, sabe”.

“Ahn…” me limitei a grunhir, um pouco perplexa com a paranoia do motorista.

“Hoje em dia a gente nunca sabe moça. E aí, vamo pra onde?”.

“Vamo lá pra Vila Romana. Acho que você pode ir aqui por dentro, pela Vanderlei, sabe?”.

“Ah esse caminho né bom não. Por dentro é escuro, vai que uma moto segue a gente…”

“Bom, moço, então faz o caminho que o senhor quiser”.

“To falando pro nosso bem senhora. Hoje em dia tem um monte de motoqueiro ladrão. Você nunca foi assaltada por um motoqueiro?”.

“Já….” respondi, agora já um tanto arrependida.

“Pois então. Esses dias um colega meu matou um filha da puta desses”.

“Como assim moço? Que horror”.

“Foi a reação dele ué”.

“Mas ele não ficou em choque de matar uma pessoa?”

“Ficou. Mas é o que dizem né, depois do primeiro…”

“Hein?”

“Sabe como é moça. Quem mata um pega gosto”.

“Na verdade não, não sei não”.

“O meu amigo neguinho que falava isso. Trabalhou pro meu pai lá na Mooca, quando a família tinha negócio no bairro. Na verdade ele começou a dormir lá porque era meio desabrigado, não tinha casa, mas era boa gente sabe. Aí meio que cuidava da loja, tipo vigia, sabe? Um dia entrô um cara lá pa roubar o caixa e assustou, de certo, quando viu o neguinho. Diz que o ladrão partiu pra cima, era ele ou o cara”.

“Eu hein”.

“Pois é… aí o neguinho matou o bandido na facada. Vomitou a noite inteira, ficou mal, disse que nunca mais ia conseguir dormir. Precisou remédio pra derrubar o hômi. E olha que ele era grande. Ma nunca tinha relado o dedo em ninguém sabe”.

“Sei…”

“Fia, eu sei que o hômi pegou um gosto pela coisa. Ma um gosto. Que depois disso ele virou o maior matador de aluguel que a Mooca já viu”. “Como assim moço?”.

“Assim ué. Matava com prazer. Tinha vez que ele matava sem receber, quando os cara assaltava loja de amigo dele”.

“Geeente… que horrível”.

“Tem quem goste né”.

“Tem?”

“Ô…”

“Mas e aí moço, que fim deu o neguinho?”

“Morreu”.

“Do que?”

“Matador de aluguel. Encomendaram a morte dele”.

“….”

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração Ligia Morresi, especial para o texto

terça-feira, 22 de julho de 2014

Vou perder esse trem

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

Não sei se você já notou, mas é comum, ao menos no metrô de São Paulo, que algumas pessoas não entrem no trem quando ele chega.

Não precisa ser no horário de pico. Esses dias mesmo peguei o metrô às 10 da manhã, pouco movimentado. Partindo da Estação Vila Madalena, entrei apressada no trem, como sempre faço, atrasada ou não. Sentei defronte à plataforma e pude observar um senhorzinho, meia idade, camisa social branca com o terceiro botão estirado, sentado naquele banquinho verde-água de plástico.

Quem são? O que fazem? O que comem?, me pus a pensar, do lado de dentro, que já fechava as portas para dali adiante berrar o simpático “next station”, tradução feita para os além mar que vieram ver a Copa do Mundo aqui.

Não cheguei a nenhuma conclusão, mas formulei algumas hipóteses.

A primeira é a do livro bom. Já deve ter acontecido com você de perder um ponto ou uma estação por se distrair com uma boa narrativa. Os que podem matar um tempo, suponho, nem entram no trem. O que me soa um pouco estranho porque aquela luz fluorescente, as paredes de cimento frio, o subterrâneo… Não é exatamente o lugar mais agradável da cidade. Mas a oriental que lia avidamente o último do John Green não parecia se importar.

A segunda hipótese é a do sono. Sim, porque vejo várias dessas pessoas dormindo nas desconfortáveis cadeirinhas de plástico em letargia profunda. A maioria jovens, que me parecem estudantes matando aula do cursinho.

Minha terceira suposição é a do TOC. Pode parecer bobagem, mas o transtorno obsessivo compulsivo é mais frequente do que parece. Vai saber se o sujeito não entra num vagão que comece com a letra H. (Ok, confesso que só pensei nisso depois de ver um senhorzinho muito excêntrico no purgatório das cadeirinhas de plástico fazendo movimentos repetitivos com os dedos, como os de quem escuta uma mesma batida de música – com o detalhe de que ele não estava ouvindo música).

Não consigo pensar em quaisquer outros motivos para um não entrar no maldito trem. Até tentei esboçar um mapeamento etnográfico desse público, mas sem sucesso.

Sei que toda a minha angústia se resolveria ao primeiro ímpeto de coragem de me dirigir a quaisquer dessas pessoas para perguntar: “oi, sou enxerida e tenho ânsia de saber: o que você faz aqui, sentado, em lugar de entrar no trem?”. Mas tenho algum receio da resposta…

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Ligia Morresi, especial para o texto

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Maratona étnica

por Carlos Conte*

Ainda estou tentando entender o que aconteceu na semifinal contra a Alemanha. De vez em quando tenho um pesadelo. Sonho com gols adversários. São como fantasmas. Como o garotinho do filme “Sexto sentido”, eu digo “Vejo gols da Alemanha...”. “Com que frequência, Carlos?”. “Todos os dias!”. Para driblar o trauma, tento esquecer. Vim para a Chapada Diamantina, na Bahia, de onde escrevo esta crônica. Para mim, a Copa do Mundo acabou depois dos 7 X1. Para alguns, ela nem deveria ter começado.

Apesar da goleada humilhante, vou falar da Copa pela última vez.

Primeira fase. Meu espírito ainda dividido: #nãovaitercopa X #vaitercopa. Tinha que ter escrito dois textos durante a semana, mas não deu: fiquei vidrado na TV vendo e revendo lances dos primeiros jogos.

Bateu o desespero! Cheio de trabalho, mais apertado que saco de cantor sertanejo, mas nem um pouco a fim de trabalhar. Ainda mais quando o Gongom me ligou perguntando se eu queria assistir ao jogo da Itália no Bexiga e, na sequência, ver o Japão na Liberdade. Lógico! Copa do mundo: maratona étnica em São Paulo! Bem melhor que Fun Fest da FIFA no Anhangabaú.

Quando desci do carro na 13 de maio, um menino veio perguntar se eu era italiano: como ia ver a Itália no Bexiga, pus minha velha boina do Pezzutti, uma camisa da Azzurra e um lenço vermelho no pescoço (será que italiano usa lenço vermelho?...); sei lá, resolvi me fantasiar. Até então só tinha acompanhado a Copa pela TV. E a TV mostrava uma Copa carnavalesca. Torcedores/foliões indo ao estádio fantasiados: mexicanos de sombrero, ingleses de cavaleiros templários, alemães à la Oktoberfest... Um desfile de estereótipos ao qual eu aderi ingenuamente, achando que no Bexiga eu encontraria meus pares. 13 de maio vazia... Portas fechadas, janelas fechadas. Um ou outro boteco aberto, mas tudo vazio. Respondi pro menino cantando a Tarantela e saí andando, me sentindo o Peppino di Capri.

Claro que não havia nenhum italiano no Bexiga! O Bexiga, hoje, vive da fama, nada mais. É o que dá grana pras cantinas da Dom Orione. Anos atrás, durante uma rifa na festa italiana de N. Sra. Achiropita, o mestre de cerimônias começou a fazer aquelas piadas sem graça para ocupar o tempo: “Quem aqui é italiano?”. Ninguém levantou a mão. “Quem é filho de italiano?”. Um ou outro levantou a mão. “Neto?...”. Vários. “Bisnetos?...”. Muitos levantaram a mão, inclusive eu. “Tataranetos?...”. Grande maioria. “E agora levanta a mão quem é descendente de japonês... Vocês vieram na festa errada!”. Gargalhada geral. Achei a piada besta, mas dei risada.

Na rua Santo Antônio, fomos ao Bar do Amigo Giannotti, a melhor fogazza de São Paulo! Portas fechadas. O Giannotti é genial mas imprevisível. O bar funciona de acordo com o estado de espírito do dono. Às vezes abre de segunda. Às vezes antes das 20h. Às vezes simplesmente nem abre. E não tem conversa. Uma amiga que morava no Bexiga, a Ciça, quis fazer uma festa de aniversário no Giannotti e ligou para fazer as reservas: o Amigo, pouco amigo, respondeu que não gosta de festas – muita gente, muito barulho... “Que medo de ganhar dinheiro, Giannotti!”, a Ciça bateu o telefone.

Em busca de alguma coisa italiana, entramos numa cantina, fugindo do glamour caríssimo da 13 de maio, e vimos Itália X Inglaterra tomando vinho nacional a 50 reais e comendo azeitonas pretas e uma gororoba sem gosto que atendia pelo nome de antepasto de berinjela, bem diferente do antepasto que o finado Giovanni servia num casarão na Brigadeiro Luis Antônio onde hoje funciona mais um estacionamento. Pra fazer jus à fama do bairro, decorações em verde, vermelho e branco, quadros de praias da Sicilia e um cardápio bilíngue. Tinha uma família animada perto da gente que torcia gritando “Que cazzo! Porca miséria! Avanti, Itália!”, pelo menos alguma coisa para alegrar o ambiente, que estava bem desanimado. A Itália ganhou, mas saímos frustrados.

Segunda parada: Liberdade. Talvez estivéssemos mal informados, porque custou a achar algum movimento. O jogo começaria às 22h, Japão X Costa do Marfim, duelo pouco atrativo, mas o futebol era apenas um pretexto para encontrar japoneses animados e salvar a nossa peregrinação étnica pela cidade. Nada de novo no Largo da Pólvora. A velha Liberdade com suas lâmpadas japonesas, fachadas japonesas, ideogramas, gatinhos com a pata levantada e budas de louça, mas nenhum japonês na rua pra contar a história. Na rua da Galvão Bueno, o karaokê estava lotado, fila para entrar, segurança na porta exigindo comandas, e ninguém com cara de quem ia assistir ao jogo. Fomos ao restaurante Samurai na rua da Glória, mas se fôssemos ver o jogo lá, só de cerveja teríamos que deixar as calças. Fiquei tomando uma latinha na porta e conversando com o manobrista. Ele me contou com orgulho que é amigo do brasileiro que venceu o maior concurso televisivo de karaokê do Japão. Isso deu notícia no Brasil: um brasileiro, mulato, fazendo sucesso na terra do sol nascente. Perguntou se eu queria ver uma foto deles juntos, querendo provar que estava falando a verdade. “Tudo bem”, eu disse. Mas demorou tanto pra encontrar a tal foto no celular que acabei desistindo. “Fica pra uma próxima!...”.

Pra não perder o começo do jogo, paramos num boteco qualquer, desses botecos pasteurizados que vêm dominando a cena em São Paulo, substituindo os velhos balcões de madeira. No fundo do bar, a TV mostrava as duas seleções perfiladas, enquanto tocava o hino nacional do Japão. Havia dois homens conversando no balcão, além do dono do bar, distraído com um bolo de notas fiscais. Na mesa ao lado, dois japoneses! Tínhamos ido à Liberdade por causa deles. Mas aqueles dois não queriam nada com a Copa. Clubbers, provavelmente sanseis, de costas para a TV, faziam o esquenta para a baladinha da noite, tomando vodca com energético. Conversavam em português. Riam como japoneses.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Arquétipos do busão

por Maria Shirts*

Quem anda de busão já deve ter notado que o transporte é cheio dos arquétipos.

Só de cobradores eu consigo tipificar uns 3. Por exemplo:

O cobrador que dorme

Quem usa o Bilhete Único não se relaciona com o cobrador que dorme . Mas quando a tarjeta eletrônica se esvai de créditos, é preciso passar por aquela situação do sorriso amarelo na cara, da delicada-cutucada na mão do sujeito que abre os olhos, assustado, enquanto pega o dinheiro estendido no ar.

O cobrador sociável

É o mais bacana dos cobradores. Faz piada, enche o saco do motorista e te conta milhões de casos que, provavelmente, não aconteceram de verdade. É o Forest Gump dos cobradores.

O cobrador xavequeiro

Tá sempre de óculos escuros e escutando música. E mesmo com os olhos escondidos é possível saber que ele mira a bunda de todas as meninas que passam pela catraca.

Falando em escutar música, quase todo ônibus tem o cara da música alta, que pode não ser o cobrador xavequeiro, mas sim um passageiro inconveniente que acha que todos merecem partilhar de seu gosto melódico. Quem não quer cantar junto que ponha os fones de ouvido, oras.

Do fone de ouvido

Sou eu, no caso. Fico balançando a cabeça junto do balancê do busão e paro de cantar, um pouco avexada, quando percebo que estou sendo observada por exceder os decibéis permitidos a uma cantante amadora no transporte público.

Do escandaloso do celular

Ele não fala, mas berra ao telefone móvel. Apesar da indiscrição, devo confessar que eu gosto um pouco do escandaloso do celular porque eu adoro ouvir conversa alheia. Quase sempre rende uma boa crônica.

Do babão

Aquele que dorme. Profundamente. (Eu não sei como essas pessoas não perdem o ponto. Ou perdem, né, vai saber.)

Do perdido

Para o busão pra perguntar pra onde ele vai, empata a fila da catraca pra perguntar onde para, não sabe se senta ou fica de pé e atrapalha toda dinâmica espaço-temporal do coletivo.

Do antisocial

É o que eu mais desgosto: senta na cadeira do corredor só para evitar que as pessoas sentem do seu lado. Constrangidos, os demais passageiros desistem de pedir licença para sentar na janela e escolhem outro assento.

E, por fim, há o motorista alucinado que simula cenas de Velocidade Máxima com gosto.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Discoteca de músico: Rashid


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

Michel Dias Costa, o Rashid, não teve um caminho fácil para chegar aonde chegou. Com pouca grana e estrutura, mas muito vigor criativo, começou ainda na adolescência a participar das batalhas de MC e a escrever seus primeiros versos. Nascido na zona norte de São Paulo em 1988, conquistou espaço aos poucos e é considerado um dos principais nomes da nova geração do rap nacional na atualidade. Porque se a vida não deu facilidades, ela “deu caneta e papel”, como ele canta em verso de “Nada Pra Ninguém”.

Rashid na foto de Rafael Kent
Conheci o rap de Rashid no ano passado, por meio do disco “Confundindo Sábios”. Quanto mais ouvi, mais gostei do estilo e das letras, que para além da crítica social e das narrativas urbanas, explicitam também essa energia de Rashid para seguir fazendo música independente de qualidade, sem se deslumbrar com o sucesso. “Sabe por que eu vim?/ Porque eu quero entregar o melhor/ Nem que eu pague com meu suor/ Se esse é o preço pra sonhar”, diz outro verso do MC.

Em janeiro deste ano entrevistei Rashid para a revista Brasileiros (leia aqui) e o papo rendeu bastante. Agora, depois da estreia com Tim Bernardes da banda O Terno (leia aqui) é a vez do rapper ser o entrevistado da série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Cartola”, os dois, de 1974 e de 1976. Esses discos são de uma riqueza incrível. Alguns clássicos da música brasileira estão aí. Cartola me inspira muito pela sensibilidade e simplicidade da sua escrita, que é crua e extremamente rica ao mesmo tempo. O sofrimento (de amor principalmente) virava uma coisa muito bonita nas palavras dele.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Reasonable Doubt”, do Jay-Z. Ele é um dos caras que mais curto lá de fora, e esse disco é um clássico. É o primeiro disco dele. Tem muita coisa boa aí, desde os times de produtores até o conteúdo das letras, que nessa época falavam muito da vida dele no tráfico.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Brasileiro, “Se Me Chamar, Ô Sorte”, do Wilson das Neves. Estrangeiro, “Good Kid, Mad City”, do Kendrick Lamar. O disco do Wilson das Neves foi umas das melhores coisas que escutei ano passado, tanto liricamente, quanto nos arranjos. Um samba muito elegante e de muito bom gosto. Já o do Kendrick foi praticamente uma unanimidade quando saiu (em 2012). Ele trouxe uma riqueza poética que há tempos o Rap “mainstream” norte-americano não apresentava. Esse cara é muito bom, virei fã!

Um videoclipe que marcou sua formação

O Rappa, “O Que Sobrou do Céu”. A música é forte, e quando você junta a essas imagens, vira uma bomba. O roteiro desse clipe é muito bom, e a locação, os atores, todo mundo foi muito bem na minha opinião! Todas as vezes que assisto, ele causa um impacto. Sou fã dos caras também, sempre curti muito, posso dizer que são parte das minhas referências musicais.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Inquérito, “Meu Super Herói”. Inquérito é um grupo de Rap de Campinas, e os caras são bons demais. O Renan é um ótimo letrista e esse clipe é lindo, cara. Fala sobre a falta que o pai dele faz, sobre as lembranças e tal… As imagens são de um bom gosto incrível, e o moleque que é o personagem principal, mandou muito bem. Foi gravado na Favela do Flamengo, na zona norte de São Paulo, perto da minha casa. A direção é do Levi Vatavuk. Foi o primeiro trampo que vi dele, e pirei!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

terça-feira, 15 de abril de 2014

Vão do Masp: a arquitetura cidadã das manifestações


A arquiteta Lina Bo Bardi, cujo centenário se comemora neste ano, talvez não imaginasse que o vão livre do MASP se tornasse, além de palco cultural, o principal ponto de chegada e saída para as manifestações sócio-políticas da cidade de São Paulo

por Milena Buarque*

O “5º Ato Se não tiver saúde, não vai ter Copa”, que acontece hoje em São Paulo, espera reunir 5,3 mil pessoas. “Desde janeiro de 2014 diversas pessoas, coletivos e movimentos sociais indignados têm ido às ruas com a palavra de ordem ‘Se não tiver direitos, não vai ter Copa’. Em fevereiro e março os protestos exigiram o investimento de nossos impostos na educação e no transporte público. Em abril é a vez da saúde. Nossa manifestação sairá do MASP no dia 15 de abril, às 18h”, avisam na página do evento no Facebook. No começo do mês, outro protesto, nesse caso organizado pelo Sitraemfa, sindicato que representa os trabalhadores da Fundação Casa, reuniu cerca de mil pessoas, exigiam aumento salarial e contratação de mais funcionários.

Um elemento comum entre a manifestação a se realizar hoje e do Sitraemfa é o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP, apontado, segundo pesquisa da São Paulo Turismo (SPTuris), como o principal ponto turístico da cidade. Dali partem ou terminam grande parte das manifestações da cidade.

Nas chamadas “jornadas de junho” de 2013, por exemplo, não foi o prédio sustentado por quatro colunas que ganhou destaque, mas, sim, o vão livre de 74 metros desenhado pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914 – 1992). Ponto de encontro na avenida Paulista, o enorme vão é algo que impressiona aos primeiros olhares. A história conta que quando o poeta norte-americano John Cage veio à cidade, mandou parar o carro na frente do museu e, andando pelo belvedere, exclamou: “É a arquitetura da liberdade!”. Para o estudante de jornalismo do Mackenzie Diego Felix, que esteve em quatro atos de junho de 2013, o fácil acesso ao MASP é um ponto importante para a escolha do local. “É conhecido e fica na [avenida] Paulista, onde há concentração de todo tipo de gente, sobretudo da classe média.” Felix, que está fazendo seu trabalho de conclusão de curso sobre temas ligados às manifestações, como movimentos sociais, cobertura da mídia e redes sociais, acredita que a localização também é fator de segurança.

O elemento surpresa

Arquitetura propícia não é sinal necessariamente de cultura política. O elemento das manifestações foi a violência policial. Embora a presença das policias sob a alegação de preservar a “ordem pública” fosse esperada, o cientista político Marco Aurélio Nogueira diz que a PM não sabe lidar com manifestações. “No Brasil, a polícia não foi treinada para enfrentar protestos. Policiar manifestações políticas. Ela tem um componente militarizado. Enfrenta o conflito das ruas como se estivesse enfrentando uma guerra. E isso, em vez de pacificar, bota fogo na fogueira.”

Diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp, Nogueira lançou no fim de 2013 o livro “As Ruas e A Democracia”, conjunto de ensaios com reflexões e possíveis resultados das revoltas que tomaram as ruas do País. “O diferencial para mim está na cultura política das pessoas que protestam. [Cultura política] é o modo como as pessoas entendem o protesto. Em alguns países, o protesto é muito mais estruturado na vida cotidiana do que no Brasil”, diz, fazendo referência à Espanha, que, em sua opinião, tem uma maneira de viver os protestos mais aliada ao cotidiano.

As várias definições do termo “cultura política” não apontam apenas para as noções de atitudes e regras de determinada população. Sentimentos e percepções evidenciam a cultura da sociedade. Segundo Nogueira, “rapidamente, se escutaram palavras de ordem protestando contra tudo e contra todos. Mas o recado mais claro foi dado aos poderes Executivo, Legislativo e organizações sociais: ‘não nos representam’ virou termo comum repetido nas ruas”.

O convidado especial

Para o estudante de arquitetura e professor do Laboratório de Ideias (LABi) Mario Gallão, o MASP não foi pensado para ser um espaço de manifestações. “Mas essa era uma das possibilidades. Acho que ela [Lina Bo Bardi] ficaria feliz de ter visto essas manifestações democráticas no espaço que ela projetou, sendo a lutadora e defensora do povo que foi”

Lina, que faleceu em 1992, vítima de embolia pulmonar, continua marcando presença nos atos. O museu, inaugurado em 1968, contou com a presença da rainha Elizabeth II da Inglaterra. No entanto, a morada do MASP, em 1947, ano de sua fundação, se localizava no prédio de quatro andares dos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand, um dos idealizadores do museu. Lá, não havia vão livre.

Segundo Gallão, que não esteve presente nos protestos, Lina sempre teve uma preocupação especial com as pessoas que usam as suas obras. “O espaço do térreo do MASP servia a dois propósitos. O primeiro de ousar com aquele que era, até então, o maior vão livre do mundo no país que, naquele momento, tinha uma arquitetura de vanguarda. O segundo era o de abrir a visão para o público, criando um espaço de convivência com uma grande vista ininterrupta”, conta.

Como acontece no SESC Pompeia, também projeto da arquiteta, a ideia era a de que as pessoas usassem o espaço para tudo que elas achassem válido como atividade. Nas várias imagens dos estudos preliminares do MASP, o vão é destaque. “Esculturas praticáveis do Belvedere”, de 1968, mostra brinquedos, como carrossel, escorregadores vermelhos e cata-ventos. Além de crianças e adultos.

Com o uso sendo definido por quem de fato utiliza, o vão livre do MASP, no papel da participação cidadã, continuará a ser o convidado (e cenário) imprescindível em 2014.

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Milena Buarque, estudante do último ano de jornalismo no Mackenzie, integrante do Projeto Repórter do Futuro, onde foi confeccionado este texto publicado pelo Nota de Rodapé

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Entristecida Moda


por Maria Shirts*

Foi uma temporada meio maluca. Fogosa, eu diria. Estou falando da 37ª edição do São Paulo Fashion Week, ou “semana de moda” para os mais despretensiosos, que aconteceu entre os dias 31 de maio e 4 de abril.

Quem me conhece sabe que, de vez em quando, ajudo na cobertura jornalística desse evento para um site de moda. A princípio, acham incondizente com a minha pessoa. Mas eu já dismistifiquei essa e algumas outras premissas sobre o SPFW aqui.

É uma experiência e tanto. Entro em todos os camarins, de todos os desfiles, entrevisto vários profissionais, pergunto a respeito de tendências, questiono o uso de certos produtos...

Essa foi a minha quarta experiência. Costuma sempre ser agradável, divertido e também muito cansativo. Trabalho com jornalistas muito competentes, inteligentes e amigos. Independente disso, me reparei um pouco menos excitada, nessa temporada, com as ebulições deste “mundo fashion”. Tive uma percepção diferente, mais cética, talvez.

Aconteceu no terceiro dia, acho. Estava esperando para entrar no backstage de algum desfile para conversar com o maquiador responsável quando aconteceu o famigerado “cruzamento”. Calma, é menos animalesco do que parece (ou não): as modelos saem do camarim do desfile anterior para adentrar ao próximo. Parece simples, mas é um momento tenso porque elas têm pouquíssimo tempo para serem preparadas, já que tudo gera atrasos. Nessa temporada, então, que programaram 8 desfiles para o mesmo dia, por exemplo, foi mais confuso ainda.

Enquanto eu esperava, notei um homem de uns 30 anos na porta do camarim, um tanto quanto alucinado, berrando: “Cade a Tamara??? E a Luana??? Cade essas meninas???”. Não bastasse, o vi puxando uma das modelos pelo braço com tanta agressividade que pensei que fosse quebrar seu pulso frágil. Então me dei conta de que nunca havia notado essa personagem no evento: o booker.

Em suma, é ele quem cuida da agenda das modelos, que faz o meio de campo entre os contratantes e contratadas. Já havia ouvido falar, através de uma amiga que foi modelo, que eles podem ser muito sádicos. Não são todos, é claro. Não se pode generalizar, mas há muitos desses profissionais que parecem projetar alguma frustração nas meninas das quais “tomam conta”; são impacientes, hostis; exigem que elas emagreçam quando não precisam, mandam pintar o cabelo desnecessariamente, depilar sei lá aonde e já ouvi até em pedirem para raspar o osso do quadril, “porque é muito largo!”. Enfim, não parecem entender de que estão lidando com pessoas e não com um cabide.

Depois que eu presenciei essa cena fiquei bem entristecida. Percebi vários sofrimentos intrínsecos e pouco relatados. Para fechar com chave de ouro, a sala de imprensa do evento pegou fogo no último dia, deixando um bocado de pessoas assustadas, mas nenhum ferido. Mas essa já é outra história….

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 Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Tristes táxis


por Carlos Conte*

Na segunda-feira pós-carnaval (10/03), li com alegria um post no facebook do meu amigo Mariano Mattos (o folião dos foliões!), do bloco Viemos do Egito. Ele compartilhou um link do jornal O Globo – nada mais nada menos que coluna assinada por Caetano Veloso dizendo que brincar carnaval na Cinelândia no meio do bloco Viemos do Egito o fez relembrar toda a história recente do carnaval brasileiro e dos blocos de rua de Salvador de sua juventude. Ao som de “O canto da cidade”, na voz de Daniela Mercury, Caetano festeja sorridente “a volta às ruas da juventude carioca”. (Se quiser ler a coluna na íntegra, acesse).

Nesse mesmo post, comentando suas vivências carnavalescas, meu amigo Mariano recorda a experiência tipicamente “momística” de tentar tomar um táxi fantasiado durante o carnaval. (Detalhe: “momesco” ou “momístico”, esta última mais interessante, por fundir as palavras Momo + místico, são expressões usadas fartamente pelos integrantes dos novíssimos blocos de rua paulistanos. Então viva a “Momocracia”!).

Pois é, Mariano, os táxis não param mesmo. Senti isso na pele na madrugada da segunda-feira, depois de brincar carnaval no bloco Bastardo, em Pinheiros (na imagem acima). Minha fantasia esse dia estava “bem de boa”, como se diz. Nada de vestido, saia, sutiã, sunga, colares. Penso o que teria acontecido com o folião que foi fantasiado de Borat na praia... Já viram esse filme? Imagine um sujeito alto, bigodão preto, trajando um maiô verde mínimo, com um tremendo fio dental... A melhor fantasia. A mais ousada. Geralmente as melhores fantasias são as mais ousadas. Mas com certeza teria muitas dificuldades de entrar num táxi.

Não era o meu caso nessa madrugada de segunda. Estava com uma fantasia relativamente discreta. Saí de romano. Mais especificamente de Carlos Magno Máximos III (o Neto), para divulgar o nosso nascente bloco Quem Tem Boca Vaia Roma, que desfilou na segunda à tarde causando arrepios nas donas de casa da Vila Romana. Minha fantasia não era nada escandalosa: uma toga feita de trapo de lençol velho, uma espécie de saiote improvisado com o forro branco da minha cama, galhinhos atrás das orelhas imitando folhas de louro e, nos pés, sandálias de couro emprestadas do meu amigo Cabelo. E só. Vê se pode! Nenhum táxi parar por isso?

Que foi? Acharam a pouca roupa indecência, atentado ao pudor? O problema era o saiote? Ah, já sei: veadagem... É que os taxistas não conhecem as virtudes machas de um imperador romano, como Júlio César, ou um general como Pompeu, líder militar de inúmeras façanhas. Talvez se levassem isso em conta tivessem me deixado entrar. Tudo bem que o Nero fosse cheio das extravagâncias (com suas festas eróticas repletas de convivas nus), mas aos olhos dos machões de hoje em dia seria considerado, por seus feitos militares, um cara de respeito, sujeito de fibra, destemido, cabra homem.

Será que os taxistas estavam com medo? Talvez eu fosse mesmo uma ameaça. Eu e minhas virtudes belicosas de um guerreiro do exército mais entusiasmado e dedicado que existe, embora deliberadamente pouco disciplinado – que é o nosso exército de carnaval. Como diz a canção: “nas trincheiras da alegria / o que explodia / era o amor”. Sim, estava em missão de paz. E, se não podia me considerar derrotado, pelo cansaço, pela cerveja, pela folia, era certo que estava ansioso para chegar ao QG o quanto antes para me recuperar da batalha. Mas quem disse que os taxistas estavam a fim de ajudar este pobre soldado do carnaval?

Passavam, gesticulando as mais diversas coisas, e não paravam. Alguns nem gesticulavam. Nem olhavam. Simplesmente passavam, o carro fazendo aquele típico barulho de borracha alisando o asfalto, o som da rejeição. O gesto que mais se repetiu, entre dezenas de motoristas nos seus carros pálidos, foi o do indicador em riste apontando ora para a esquerda, ora para a direita, querendo que eu acreditasse que ele estava indo atender a um chamado em outro lugar. Pensa que engana quem? Todos os carros vazios. Almas vazias. Teve motorista com a cara de pau de fazer o típico gesto de abrir e fechar a mão com os dedos voltados para cima, polegar encontrando-se com os demais, sinalizando que o carro estava cheio, sendo que a luz estava acesa e o táxi, nitidamente, vazio. Deprimente.

Ora, para um guerreiro romano, natural da Vila Romana, que precisava urgentemente descansar para estar disposto na última batalha, terça-feira, não me sobrou alternativa senão apertar o fecho das sandálias, levantar a cabeça, e seguir adiante, travando disputa com as ladeiras de Pinheiros e Lapa. Não desviei um único olhar. Enfrentei. Há uma tarefa (pensei): desentranhar o espírito carnavalesco dessa gente. Agora era verdadeira batalha. Velhinhos saindo pra comprar pão. Senhoras levando o cachorrinho pra passear. Mamães e papais tomando média na padoca com o pequeno. Zeladores de prédio fumando o cigarro na calçada. Cabeça erguida. Como se o carnaval fosse a regra. Deixando que os primeiros raios de sol refletissem no meu corpo dourado de purpurina. E cochicharam. E me ignoraram. Mas será que aquela ali sentiu tesão? E aquele senhor, me olhando de lado, será que se lembrou de seus tempos passados, não menos dourados? Quase escapou um “Viva a Momocracia!”, mas ele não ia me entender. “Viva o carnaval!”, cumprimentei-o. E ele me respondeu um “Viva!” que me deixou feliz.

De novo, o facebook. Me desculpem. É que ando digerindo este último carnaval através dos infindáveis murais. Postei em tom de lamento, na quarta-feira de cinzas, que chegou a hora, infelizmente, de tirar a purpurina do corpo. E como é difícil! Em todos os sentidos. Mas fico com o que a Evelyn, uma amiga, me respondeu: “Deixa a purpurina!”.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Foto: Facebook do Bloco Bastardo.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Política de confinamento x direito à cidade


por Cidinha da Silva

Estava a pensar sobre as conexões entre a perseguição aos rolezinhos, vinda de tantos lados, e a postura de certos críticos à reabertura e revitalização do cine Belas Artes, na esquina da Consolação com Paulista.

Há décadas experimentamos o incremento da chamada política de gentrificação, que expurga as pessoas pobres do centro das cidades, das áreas nobres de interesse da especulação imobiliária para periferias, cada vez mais distantes. Por acaso nos esquecemos dos incêndios aparentemente involuntários que consomem favelas e seus moradores, estação seca após estação seca, e em seu lugar, logo depois são erguidos prédios suntuosos ou estacionamentos gigantescos para carros particulares?

Nessas periferias, a vida tem renascido, é de onde brotarão as soluções para o mundo, segundo o que dizia o professor Milton Santos. Mas, essa vida cultural que se reinventa e que, em alguma medida despreza o centro, produzindo em locais periféricos da cidade de São Paulo um movimento de contra-fluxo, ou seja, de gente do centro que vai curtir a periferia (de carro, lógico, prescindindo do transporte público da região), não responde aos anseios de todos os que vivem lá, notadamente dos meninos e meninas da geração digital-shopping.

Se fizermos uma breve panorâmica dos equipamentos culturais das periferias de São Paulo, veremos que a moçada dos rolezinhos não freqüenta com regularidade os CEUs, saraus, Centros Comunitários de Juventude, Fábricas de Cultura, bibliotecas públicas e/ou comunitárias, rede SESC, teatros e casas de cultura. Esses espaços não lhes dão respostas e, por sua vez, os bailes funk que os agrega, eram perseguidos pelos policiais reformados que geriam as sub-prefeituras e continuam a sê-lo pela polícia, hoje.

Contudo, aos empresários e suas diversas ações de coibição ao rolezinhos, às práticas policialescas de criminalização de jovens que querem apenas o direito de ir e vir, de circular livremente por parte da cidade (os shoppings), à justiça e sua indústria de liminares que proíbem esse tipo particular de encontro de jovens na área dos shoppings somam-se os intelectuais orgânicos das periferias. Estes, desejosos de que esses meninos e meninas frequentem os locais de resistência cultural da periferia.

Esses mesmos intelectuais criticam o apoio dado pela prefeitura para recuperar o cine Belas Artes, alegando que ele é patrimônio apenas da classe média e do povo cult que circula pela Paulista. Eu mesma nunca fui cult, não tenho origem na classe média e sempre gostei muito de arte, tudo assim, superposto, e frequentei assiduamente o Belas Artes e entristeci quando foi fechado.

O Belas Artes em São Paulo, como o Nazaré, o Pathé e o Palladium, em Belo Horizonte, marcaram a minha juventude, de alguém que morava a 40 kilômetros do centro de BH e saía de casa para ir ao cinema ou ficava na rua, porque não havia tempo para ir em casa e voltar fresca a tempo de pegar o início da sessão de cinema.

No Nazaré, assisti Boys in the rude que, como outros filmes do circuito não-comercial permaneciam uma mísera semana em cartaz. No Palladim assisti Blade Runner, clássico hi-tech dos anos 80 e no Pathé, por quatro ou 5 vezes, naquele tempo em que ao fim de uma sessão podia-se permanecer na sala para assistir a próxima, vi Sonhos, de Akira Kurosawa. No Belas Artes, além de ter acesso a filmes africanos pela primeira vez na vida, vi Faça a coisa certa, de Spike Lee, que só chegou em Belo Horizonte dois ou três meses depois e ficou em cartaz durante uma semaninha no cine Nazaré.

A política de confinamento nas periferias das grandes cidades tem muitas faces, algumas inusitadas, e o direito a usufruir da cidade vai do rolezinho nos shoppings (periféricos e centrais) aos filmes do Belas Artes, agora com intervenções da prefeitura para a criação de programas escolares, de barateamento de ingressos para facilitar a circulação de trabalhadores assalariados pela boa programação do cinema.

É certo que muita gente da Angélica e da Paulista dirá que o Belas Artes não é mais o mesmo, que agora é frequentado por uma gente diferenciada. Oxalá seja mesmo assim. Que o pessoal do outro lado da ponte possa exercitar o direito pleno de fruir pela cidade.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Nazis Soltos, Rolezinhos no Corredor Polonês


por Cidinha da Silva*

Fazia sol bonito depois da chuva que havia espantado muita gente da Benedito Calixto. A mulher albina, de dreads grossos no cabelo crespo, meio amarelo, meio branco, circulava protegida por óculos escuros que lhe guardavam parte da face. Vez ou outra renovava a proteção dos lábios e da pele com cremes importados.

Ela vasculhava os produtos das barracas em busca das últimas lembrancinhas encomendadas pelos amigos estadunidenses, sandálias de dedo, de todos os tipos, cores e estampas, eram o must daquele verão.

Depois de finalizar as compras, a estrangeira decide comer algo. Em meio a tantos pratos saborosos escolhe um bacalhau gratinado com batatas. Pede na barraca ao lado um caldo de cana, bem gelado. Um cheiro de dendê fumegante move seus olhos para os boxes seguintes e ela paralisa o garfo a caminho da boca quando vê um homem a espera de um acarajé, tatuado com a suástica no peito.

Era branco, tinha quase dois metros, corpanzil trabalhado no anabolizante. Usava botas de alpinista, calça do exército do país dela, cortada como bermuda. A cabeça era raspada, o peito nu e a tatuagem cravada ali, deixando-a em estado de alerta.

Em situações de perigo (e em política, circunstância não menos perigosa), reza a norma que você imagine cenários. Ela já conhecia as assimetrias brasileiras o suficiente para saber quem pode se sentir protegido e quem é o suspeito preferencial na escala cromática do biopoder.

Ninguém molestava o indivíduo, cuja presença parecia não incomodar a ninguém. Aquela tatuagem não era Mandela, Gandhi, Benazir Butho, não, era a suástica! Embora ela tivesse consciência plena de que quem vê tatuagem de pacifista inscrita em um corpo, não vê coração. Há muita gente do fã clube do Mandela morto incapaz de agradecer ao ascensorista ou à faxineira que segura a porta do elevador para que a beldade entre. Mas a suástica é diferente, é explícita, direta. Ela emite uma mensagem instantânea de ódio racial dirigido às pessoas que não são arianas e isso deveria ser reprimido por quem zela pelas liberdades civis.

A moça passa os olhos ao redor em busca de um policial. Quem sabe se avisasse sobre o homem da tatuagem odiosa, talvez tratassem pelo menos de observar os movimentos do suspeito. Não há polícia e mesmo que houvesse, costumam ser treinados para garantir a segurança dos civis de classe média e para reprimir a circulação de meninos pretos e pobres em shopping centers, em nome da garantia da liberdade de consumo dos que têm dinheiro para consumir.

Está sozinha. Apavora-se. Vê então outro homem tatuado, desta vez perto de si, na barraca de churrasco. A tatuagem é verde e fica esmaecida na pele preta do homem. Ele a observa com cara amigável. Ela pede socorro com os olhos. Ele entende e sorri. Levanta um espeto bem acima da cabeça, olhando-o contra o Sol para conferir se está mesmo limpo. Faz isso com vários outros instrumentos perfurantes. A moça resolve mudar de lugar e senta-se próxima ao homem. Nunca se sabe quando um espeto de churrasco será útil.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Perseguição


por Carlos Conte   ilustração Leandro Lobo*

Enquanto ela descia, eu subia a Av. Angélica. Pena que foi dessa maneira, ao acaso, no meio da cidade. Apenas uma desconhecida. Vejo hoje uma pessoa na rua e provavelmente não voltarei a vê-la.

Mas foi impossível ignorá-la. Sim, tinha cruzado meu caminho, enquanto eu subia e ela descia a Av. Angélica: o encontro de dois roteiros, um que leva ao centro, outro que leva ao bairro. Sei que faz parte da rotina cruzar com meninas interessantes, totalmente desconhecidas. E ninguém é louco de sair se apresentando, ainda que seja a mais bonita de todas as meninas.

Como andava rápido! Paulistana demais. Calça jeans apertada, marcando-lhe as coxas, cintura, bunda. Caminhava com o tronco firme, mas a cintura rebolando. Seus braços, como se atendessem a uma rígida disciplina, não se afastavam muito do corpo; apenas se movimentavam para frente e para trás. Pulseira discreta no pulso direito, mais o relógio. Cabelos pretos, cacheados, até a cintura, contrastando com a pele branca, sob a blusinha de alça vermelha (e fiquei imaginando o ritmo dos seus seios, já que a observava de costas). Estava apaixonado.

Atravessou a rua, entrou na Sergipe. Quem sabe uma vestibulanda... Ou talvez procurasse pelo número de um laboratório, uma clínica médica. Impassível, atravessou a rua imersa nas sombras gigantescas das árvores, caminhou mais alguns metros e parou no sinal. Assim ficamos lado a lado, esperando o farol fechar.

Atravessamos e descemos a Consolação. Juntos. Já não pensava nas minhas obrigações. Meus compromissos do dia foram subjugados pela loucura. Pelo desejo. Queria me aproximar o suficiente para sentir o seu perfume. Queria sussurrar alguma coisa no seu ouvido.

Entrou na padaria. Eu entrei também, e nos sentamos juntos ao balcão. Ela pediu café com leite. Eu pedi um expresso e peguei um livro na mochila, para disfarçar. Acho que ela me olhou. Pela primeira vez eu pensei, um pouco humilhado, que tinha me desviado do caminho de casa há 20 minutos, em plena segunda-feira, por causa de um rabo de saia. Mas levantei a cabeça e continuei minha perseguição, assim que ela pagou a conta e se levantou.

Viramos na Rua Augusta, atravessamos na faixa, atingimos a outra calçada. Aonde me levava? Ela me guiava, eu consentia. Nossa relação era essa.

Até que parou em frente a um sobrado. Sacou da bolsa o telefone celular, depois um batom e um pente de plástico. Virou-se na minha direção: “Oi, gato!”, como se nos conhecêssemos. Pelo que entendi, deveria esperar meia hora. Em meia hora ela estaria pronta. “Sabe que fui com a sua cara, gato? Gosto de homem corajoso... Você faz isso sempre?”. “Isso o quê?”. “Seguir as meninas na rua... Não que eu tenha me incomodado”. Respondi que não, que raramente fazia isso.

O porteiro a cumprimentou com um beijo no rosto e um abraço efusivo. “São 10 reais pra entrar”, ele me disse, “e enquanto a menina se apronta você pode ir tomando uma cerveja, uma caipirinha...”. Esse lero conhecido dos que experimentam descer a rua Augusta até o fim. Entrei.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Leandro Lobo, convidado especial para o texto

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Terminal Pinheiros 209P



por Maria Shirts    ilustração Camila Rocun*

Esses dias peguei um ônibus de Perdizes com destino à minha casa, que fica em algum limbo entre a Sumaré e a Vila Madalena (num daqueles bairros que ninguém nunca sabe o nome). O trajeto é fácil e corriqueiro na minha vida: basta aguardar o Terminal Pinheiros que vai toda vida pela Paulo VI, onde desço no último ponto.

Pra quem não sabe, sou uma ativista fervorosa do transporte público. Nunca aprendi a dirigir, e nem vontade tenho. Acho os automóveis inconvenientes, grandes carcaças de toneladas mal-educadas. Não sei porque, mas tenho algum incômodo com o individualismo que o modal representa.

Por isso, fico militando nas vidas virtual e real em prol do busão. Tento espalhar a notícia de que as novas faixas estão mudando a cidade e o nosso modo de se locomover. “É muito melhor do que você imagina”, costumo dizer com frequência. No mês passado, entretanto, o Terminal Pinheiros demorou um pouco mais do que o comum. Quando veio, chegou um ônibus enorme, daqueles de sanfona, anunciando uma mudança de numeração no letreiro.

Era o Terminal Pinheiros 209P, antiga linha 117Y. Perguntei pro cobrador o porquê da demora: “Muito trânsito senhor?”. “Não minha filha, é que essa linha mudou né, por enquanto tá meio confuso”.

É verdade, pensei comigo mesma, lembrando que a mudança faz parte da reestruturação nas linhas que procuram, até onde entendi, otimizar as viagens de ônibus, tornando-as menores e mais rápidas. “Entendi. Mas por que que trocaram por esse ônibus enorme?”, perguntei. “Pra levar mais gente né”, respondeu. “Uhm!” murmurei, um pouco envergonhada com minha própria ingenuidade.

Mas isso não pareceu incomodar o cobrador, o Sergio, que percebeu que eu sou dessas que puxa papo no busão. Sem mais delongas, ele começou a me mostrar todas as vantagens desse novo ônibus, que tinha duas câmeras (uma em cada saída) pra auxiliar o motorista, um painel eletrônico, luzes mais modernas e o melhor de tudo: era bem mais gostoso de dirigir. “Afinal, eu sou motorista também, sabe, tô de cobrador só por hoje”, avisou. E prosseguiu: “Adivinha quanto custa esse ônibus?”.

“Não tenho ideia!”. Já havia cometido uma ingênua gafe e fiquei tímida de lançar outra. “1 milhão e 200. E sabe quem paga? O BNDES”.

Fiz aquela cara de nossa, não sabia! Acho que o Sergio pressupôs o que eu estava pensando e continuou: “Pois é minha filha, os empresários não tiram R$ 1 do bolso, o preço da passagem é que vai pagar tudo!”.

O preço da passagem é que vai pagar tudo. E mais um pouco, concluí, mas quando fui responder já tinha chegado no meu ponto e me limitei a desejar apenas uma boa noite pro Sergio, que ia continuar a viagem naquele novo Terminal Pinheiros 209P, antigo 117Y.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Camila Rocun, graduanda em Design Digital, ilustradora e apaixonada por cinema, divide seu tempo entre fazer arte pelo Portal R7 e ser mãe do Léo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Hora do almoço

por Thiago Domenici*

Não teve dúvidas. Apontou o dedo na cara do sujeito e gritou:

– Você roubou! Devolve!

O centro apinhado de gente e o calor dava àquela cena um ar cinematográfico. Ao meio-dia a rua 7 de abril é um corredor congestionado. Não se pode vacilar. É São Paulo, centrão, no universo chamado Praça da República.

– Devolve agora.

– Não peguei nada, não, dona!

A amiga agitada olhava no entorno a procura de alguma ajuda. A roda viva de curiosos se formou em segundos.

– Devolve essa porra logo seu filho da puta! – acusou um desconhecido.

O circo estava armado. Um senhor de cabelos brancos falou com o suspeito algo incompreensível. Ele concordou com a cabeça nervosamente. Estava rodeado. Se tentasse correr, toparia com um muro de gente. A situação não era confortável.

– Você já ligou para você mesma? – gritou um sujeito risonho.

A mulher pronunciou impropérios. A amiga – que desistira da polícia – sacou o telefone do bolso.  “Será?", pensei comigo. A acusadora revirou a bolsa.

– Não foge, não! – gritou a plenos pulmões para o suspeito imóvel.

O sujeito não iria fugir. Ele deu de ombros e esperou. Um telefone tocou longe. Claramente é música sertaneja. O celular era de capa rosa com penduricalhos de bichinhos. E estava no bolso interno do casaco.

Na mesma hora a turma entoou uma vaia avassaladora e a mulher, sem chão, sem desculpas, mas com o celular, saiu apressada com a amiga em direção ao metrô.

– Vai à merda sua vaca maluca – disse o suspeito indignado que ficou a berrar que deveria processá-la.

Testemunhas não iriam faltar. Meia dúzia a toa ria da bizarra situação. A confusão deve ter animado os papos na hora do almoço. Em segundos tudo voltou ao normal.

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A dívida é nossa, Regina


por Moriti Neto   imagem Viviane Vallar*

Três semanas depois, ainda tinha a necessidade de escrever. Não tê-lo feito até pouco tempo, por aridez intelectual ou por estar atolado com os afazeres burocráticos da rotina, me causava um incômodo constante, dor de consciência mesmo. Era impossível esquecer os olhos de Regina, moradora de rua e dependente química, a quem encarei no dia 26 de setembro passado, constrangido pela minha incapacidade de intervir na realidade social trágica deste País, enquanto a mulher era varrida da Praça da Sé.

“Vai pra onde?”, foi a pergunta que consegui balbuciar depois de saber seu nome. A vergonha me impedia de falar muito. “Pra onde der, moço. Sou usuária de drogas e minha vida é assim, sempre foi, na rua. Onde conseguir espaço pra montar minha barraca é que vou ficar”, foi a reposta de Regina, de sobrenome Ferreira.

Naquele fim de manhã, ela era uma entre os cerca de 200 moradores de rua que haviam montado acampamento na Praça da Sé e despertaram com a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e equipes de limpeza da Prefeitura de São Paulo. A ordem era desmontar as barracas, “liberar espaço”. Um caminhão foi usado para retirar móveis, madeiras, lonas e demais objetos, que eram jogados na caçamba, muitos, inclusive, de uso pessoal.

Havia raiva no ar. Moradores protestavam contra o prefeito Fernando Haddad e afirmavam que não tinham para onde ir. Outros ofendiam e ameaçavam jornalistas, resultado óbvio da criminalização que a população de rua, principalmente os dependentes químicos, sofre de parte da mídia.

Regina não xingava, não ameaçava. O jeito, segundo ela, era mesmo procurar outra praça ou, como falava em tom mais baixo, esperar a saída da equipe da Prefeitura e voltar. Algo que uma parcela fez, a exemplo de 60 pessoas que, de novo, foram removidas, no dia 9 de outubro.

Não sei se Regina voltou. Não sei se foi novamente removida. Aliás, sei de pouca coisa, pois o mal-estar com a situação aumentou minha incompetência frente àquela tragédia social. Não consegui ficar mais tempo ali. Só graças a minha esposa, que nem jornalista é, tenho imagens registradas.

O peso ao ver as pessoas sendo varridas (quase literalmente) da ocupação na Sé, cheia de meninos de rua e famílias desabrigadas usando barracas de camping, me fez sentir e pensar por semanas. Refleti que Haddad, Alckmin, Kassab, eu, somos todos responsáveis. Mesmo a ausência de uma política séria voltada a essa população – que envolveria projetos habitacionais, assistenciais, educacionais e de saúde eficazes – é responsabilidade coletiva, nossa. Somente um debate constante, verdadeiro, comprometido e distante das soluções rasas pode retirar o tema da invisibilidade. O povo que circula na Sé – 3 milhões de seres humanos transitam diariamente por ali –ignora, por motivos diversos, a condição dramática exposta dos que ali ficam ao relento.

Marcante sobre a dificuldade dos governos na questão, a história de Regina e do grupo a que pertencia naquele dia (o verbo no passado indica que a formação de grupos e dos sentimentos de pertencimento e reconhecimento ficam comprometidos com a instabilidade da vida daquelas pessoas), passa pela Cracolândia, desocupada agressivamente pelo Governo do Estado em 2012, numa remoção motivada por disputa que envolve interesses imobiliários na área e que, já se sabe, espalhou pelo centro de São Paulo um problema socioeconômico e de saúde pública.

Não bastasse isso, o sofrimento seguiu com o fechamento, via prefeitura petista, da Tenda do Parque D. Pedro II, abrigo que funcionava próximo da região da Sé e foi reaberto recentemente, desorganizado e precário, segundo moradores de rua e até funcionários que lá estiveram após as “limpezas”.

Todas as gestões, de tucanos a petistas, têm discursos recheados de justificativas para as medidas, mas, na verdade, o que se vê são apenas discussões e ações precárias, seja no interior das administrações públicas, que mal apostam no princípio da transversalidade de gestão para atuar, seja na abordagem midiática, superficial e cheia de rótulos. Talvez admitir que não se sabe exatamente a forma de agir e que não se pode fazer muito sem grande envolvimento coletivo, fosse o passo a ser dado para tornar o debate tão amplo quanto necessita ser.

Enquanto tal discussão não ocorre, as “limpezas” continuam. Resulta disso, cada vez mais, um povo marcado, dizimado emocional e fisicamente, a quem os “homens de bem” culpam pelos maus-tratos à cidade, pela violência e a “praga da droga que destrói famílias”. A cobrança está errada, meus caros. Nós é que devemos.

* * * * * * *

Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O pão, a pomba e as sandálias prateadas



por Tomás Chiaverini ilustração Victor Zalma*

Segunda-feira. Acordo com uma sensação estranha e intensa de que nada faz sentido. Levantar da cama, sobretudo, não faz sentido. São nove horas, um horário ridiculamente preguiçoso para qualquer cidadão de bem. Mesmo assim programo o celular para tocar trinta minutos mais tarde. Não chego a dormir de novo. Fico lá, debaixo das cobertas, imaginando a manhã fria e tentando entender o que, afinal, não faz sentido com tanta força.

Foi um bom fim de semana. Priscila veio ficar comigo, bebemos vinho sem moderação, saímos para jantar, assistimos a filmes velhos na TV. No domingo fizemos torta de maçã, com uma receita indicada pela Clau. Estava um dia muito frio, mas mesmo assim fomos a pé comprar os ingredientes. Quando saímos havia uma pomba parada bem ao lado da entrada do prédio, numa esquina do bairro das Perdizes. Estava muito quieta e não voou quando nos aproximamos. Provável que estivesse doente ou machucada.

Na volta do supermercado, dobramos a esquina conversando animados e um homem fez um gesto com a mão, pedindo que parássemos ou que nos aproximássemos devagar. Estava agachado ao lado da pomba, com uma caixa de papelão nas mãos. – Parece que ela está doente – disse.

Nós concordamos em silêncio e entramos. Fizemos a torta e um caldo verde. Quando ficou tudo pronto, saímos para comprar pãezinhos frescos. A pomba não estava mais lá, nem o homem. Apenas a caixa de papelão vazia. E um par de sandálias. Sandálias prateadas, de salto alto, colocadas juntinhas sobre a calçada, perto da parede externa do prédio. Não faz sentido nenhum. A pomba, o homem a sandália. Também essa crônica não faz sentido nenhum.

E agora, lá se vão mais de sete horas desde que acordei. Tomei café, revisei algumas páginas do próximo romance que não fica pronto nunca, fiz exercícios, tomei banho, almocei os restos do caldo verde com duas fatias grossas de pão integral. Cheguei tarde na redação e o dia está mal parado. Passei o olho pelos jornais, facebook, conversei com amigos pelo comunicador instantâneo, depois me ocupei em escrever este texto. O fato é que a coisa não melhorou. Muito pelo contrário.

Cada vez mais, nada faz sentido.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A violência policial o cegou

Foto: Filipe Granado
por Moriti Neto e Robson Morais*

O clima na noite de quinta-feira, 13 de junho deste ano, como todos viram, foi quente para o fotógrafo Sérgio Silva, 31 anos. A trabalho pela agência Futura Press, Silva foi um dos milhares de brasileiros que captou a energia do “vem pra rua”, instalada no País nas chamadas “jornadas de junho”. E foi no meio da multidão, em São Paulo, enquanto trabalhava no protesto contra o aumento da tarifa de transporte coletivo, que o disparo de uma bala de borracha da Polícia Militar o feriu e cegou. Um professor o socorreu até o Hospital Nove de Julho.

O fotógrafo foi atingido no olho esquerdo pelo tiro da chamada “munição não letal”, na altura da rua da Consolação, na área central da cidade. “Ainda é difícil de olhar no espelho. Tem dias que acordo sem o tampão. A visão ainda choca. O abalo psicológico também foi grande”, explicou à reportagem do Nota de Rodapé, no último dia 12 de agosto, quando palestrou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) sobre os riscos da cobertura jornalística.

No local da palestra, em destaque, um cartaz com a sua foto e o slogan: “Fotógrafo Sérgio Silva, vítima do Estado”. Sobre a falta de segurança para os profissionais e os manifestantes, ele disse que nada do que a polícia “fizer ou disser daqui para frente vai justificar ou amenizar” o que aconteceu. “A educação tem que partir da polícia. Eles são o exemplo, são pagos para isso. E não o contrário”.

Silva garante que, nos primeiros dias de cobertura, sentiu o clima ruim e uma certa predisposição da PM à truculência. “Fui para a rua com um pressentimento e sabia que a PM seria truculenta. Apontei a câmera para ela, para mostrar essa truculência. Ponto”. Ele acredita que “não importa” estar atrás de um cordão policial, que a PM vai continuar “atirando” e que casos como o dele “vão continuar ocorrendo.”

A reflexão do fotógrafo também tratou do receio de repórteres e jornalistas na cobertura de pautas em comunidades da periferia, locais onde as “balas são de verdade” e a “violência policial diária.” Nessas horas, “jornalista precisa ter coragem”, disse.

“Não tenho isenção”

Quanto ao mito da imparcialidade no jornalismo e o que leva os veículos da grande mídia a publicar ou não um fato, o fotógrafo explica que não tem isenção. “Faço meu trabalho e produzo sobre aquilo que penso. Se o veículo onde vou trabalhar não publicar, o problema não é meu”.

Silva não ignora que o jornalismo é cada dia mais digital, com processos de produção de conteúdo estimulando a participação de mais pessoas nas abordagens. “Cada um pode ser repórter do próprio cotidiano. Agentes comunitários e moradores de comunidades podem pautar a mídia. Os jornalistas vão ter que, cada vez mais, se especializar”.

O fenômeno da Mídia Ninja, por exemplo, junta pessoas que vão à rua com uma câmera ligada para fazer desde cobertura até ativismo. “Há repórteres que estão a trabalho e pessoas que não estão. O que será produzido parte da visão do produtor. Ninja caminha nesta direção. Não consigo ver, porém, se a grande imprensa vai entender direito isso ou que rumos os Ninjas vão tomar”, opina.

Luta por direitos

Sérgio, que já tem advogado, ainda não abriu processo contra o Estado. Eles aguardam os laudos sobre a perda da visão e outros resultados médicos, que serão incluídos na ação.

Silva optou em não usar os advogados da agência em que trabalhava. Nem as despesas do hospital que fez o primeiro atendimento, cerca de 3 mil reais, ele aceitou que pagassem. “Vou pôr na conta do Governo do Estado”. Além disso, ele está à frente de uma petição pública com o tema “Não à utilização de armas letais nas manifestações”. O documento está disponível no site www.change.org.

O coletivo Menos Letais fez uma entrevista em vídeo com o fotógrafo, que você pode assistir no link disponível no youtube.

*Moriti Neto, jornalista e colunista do NR. Robson Morais, jornalista, especial para o NR. [Foto cedida por Filipe Granado]

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Índios na cidade

No último dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo, a Comissão Pró-Índio de São Paulo lançou o vídeo “Índios na Cidade: desafios e conquistas”, em que índios das cidades de Manaus, Boa Vista, Campo Grande, São Paulo, Osasco, Curitiba e Porto Alegre dão seu depoimento sobre os desafios de viver no contexto urbano.

Segundo o Censo de 2010, 36% da população indígena no Brasil reside em centros urbanos. Saiba mais e veja o vídeo abaixo, muito importante. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Hitler descobre o "Tucanoduto"

por Izaías Almada*

O grande jornalista Sergio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, costumava dizer que quando a situação não estava boa, o urubu de baixo cagava no de cima.

Parece que o Brasil descobriu o protesto de rua no ano de 2013 da Graça de Nosso Senhor. E o espanto foi tanto, que muita gente resolveu interpretar o fenômeno alegando perplexidade diante dos fatos.

Houve, e continua havendo, protestos para todos os gostos e uma avalanche de análises que, para meu espanto, demonstram o quão alienado o país ficou com o golpe civil/militar de 1964 e, sobretudo, com os anos dourados do neoliberalismo caboclo comandado por governos de viés conservador, para não dizer reacionário, como os anos de Sarney, Collor e Fernando Henrique Cardoso.

A democracia foi transformada em simples referência histórica e as cabeças são manipuladas por gente muito esperta e cheia do vil metal.

Abaixo mais uma das inúmeras versões que se espalham pelo youtube com o aproveitamento de imagens de um filme alemão sobre Hitler, quanto a mim a melhor delas.



*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.
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