Amanhã termina a Mobilização Nacional Indígena convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) em defesa dos direitos dos povos indígenas e tradicionais. Entre as reivindicações, está a derrubada da PEC 215/2000, de autoria do ex-deputado Almir Sá, de Roraima, que propõe transferir a competência da União na demarcação das terras indígenas para o Congresso Nacional.
A proposta também possibilita a revisão das terras já demarcadas. Outra mudança seria nos critérios e procedimentos para a demarcação destas áreas, que passariam a ser regulamentados por lei, e não por decreto com é atualmente.
Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre.
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013
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terça-feira, 3 de setembro de 2013
Curvas
por Carlos Conte ilustração Ligia Morresi*
A tropa marchava sob o sol forte de janeiro. Eventualmente se revezavam chapéus, cangas, toalhas, camisetas, o que servisse para cobrir do sol as partes mais expostas do corpo. Debaixo de seus pés, do areal infinito, subia um bafo picante que pouco a pouco ia pegando na pele, junto com a areia que vinha de toda parte trazida pelo vento. Aliás, nas praias uruguaias o vento nunca dá descanso.
Nada que atrapalhasse a caminhada. Há alguns dias tinham encarnado o espírito “buena onda” dos uruguaios. Nem mesmo as dunas, enormes obstáculos que se sucediam como numa paisagem desértica, os desanimava. Era caminhar. Uma ânsia deambulatória que se misturava com uma vontade louca de falar. O único grilo foi do Pelo, que não sabe nadar, e preferiu atravessar o “arroyo” de barquinho junto com as bagagens. De resto, nenhuma chateação. Pacha empunhava seu inseparável cajado de outras viagens enrolado numa canga feminina, talvez da Juca, o que para os olhos chapados dos demais era a perfeita imagem de um visionário, um messias encarregado de anunciar ao povo alguma coisa muito boa, talvez a paz mundial ou algo do gênero. Tudo bem, estavam loucos de LSD e sua viagem era outra.
Tinham uma missão, na verdade. Chegar ao vilarejo de Cabo Polônio, ver os lobos e leões marinhos – que são bem diferentes, explicava Khan, os lobos são menores, os leões maiores e mais gordos, mas ambos extremamente agressivos, Khan lhes dizia. Sim, queriam chegar ao Polônio antes do sol se pôr, primeiro para não correr o risco de perder o último caminhão que os traria de volta a Valizas, onde estavam hospedados, depois porque queriam ver os tais lobos e leões marinhos – que são fedidos pra cacete, alertava Khan.
Chico, o mais falante da turma, contava a história de Juancho, um velho sábio uruguaio, rouco como todos os uruguaios (pois entraram na noia de que todos os uruguaios são roucos, uma maluquice, sem dúvida), e Juancho, com sua voz sempre tranquila e sempre rouca, tipicamente uruguaia, portanto, costuma dizer aos viajantes que passam por sua cabana que na vida só existem dois caminhos: “el camino del mar y el camino del bosque”. Assim, alerta Juancho, pelo caminho do mar deve-se tomar cuidado com os lobos, e pelo caminho do bosque, com “los cascaveles”.
A missão era chegar ao Polônio a tempo de ver os lobos e os leões marinhos, mas pelo caminhar da tropa via-se que seria difícil estar no Polônio antes do entardecer. Era aparecer um inseto exótico, ou pegadas animais misteriosas, uma borboleta colorida, rochas revestidas com uma trepadeira que parecia maconha, era alguém ter uma ideia, subir numa pedra e começar a solar sobre qualquer bobagem que a turma parava a caminhada para ouvir a explanação. Uma formação curiosa de nuvem. Paravam. Analisavam, como se aquela nuvem fosse a nuvem mais bonita e bem feita entre todas as nuvens. Numa baixada, passaram por um pedaço de areia que, para alguns, seria movediça, mas na realidade não era areia movediça nenhuma, apenas uma paranoia de quem está muito louco e quer experimentar enfiar o pé naquela areia fofa e úmida – e era de fato gostoso brincar de afundar o pé na areia – que, de todo modo, não chegava a ser movediça, como afirmavam, quem sabe uma prima distante da verdadeira e temível areia movediça que só se vê na televisão.
Assim, erravam por aquele espaço imenso, tomado por dunas intercaladas por terrenos baixos, de charco: a aridez das dunas, a umidade das baixadas. Devido a essas distrações, acabavam não seguindo uma linha reta, que, como se sabe, é o caminho mais curto entre dois pontos, mas faziam curvas, de acordo com a necessidade da loucura. Faziam curvas, curvas que são. Traçavam parábolas absurdas naquele areal, cujo rastro logo seria desfeito pelo vento incessante do Uruguai. E assim o grupo se distraía, demorava, atrasava... Mas seu objetivo, na verdade, seu verdadeiro objetivo nisso tudo não era chegar ao Polônio antes de escurecer; sua missão, se é que se pode lhe dar esse nome, era atender ao chamado das curvas, curvas que são. E para aumentar o grau de curvice da viagem juntou-se a eles, de última hora, uma colombiana chamada Paola, que viajava sozinha pelo Uruguai. Em poucas horas, já era adorada por todos: Salchi, Lili, Ju, o europeu da turma Robert, Cisne, Line e o argentino Julio. Ao todo, treze. Doze sem Paola. Treze com Paola, que estava acampada junto com a turma do Pacha no camping do pirata Hernán, e mantinha um diário do qual não se desgrudava. Num momento de distração, Chico teve acesso ao diário e leu um trecho em que ela descrevia a sensação de ter visto discos voadores na noite anterior. Foi o bastante para que Khan e Line, no final da viagem, chegassem à conclusão de que, entre todos os curvas dessa temporada de férias no Uruguai, Paola era a maior de todas, uma espécie de Tamburello, uma curva da estrada de Santos, o “oconcur” da curvice sulamericana, estando à frente até mesmo do pirata Hernán, o dono do camping, que, durante um “asado” noturno, enquanto cortava uma peça de carne, meteu a faca na palma da própria mão, fazendo-lhe um talho até que profundo, de onde imediatamente começou a escorrer sangue, que foi se juntando ao sangue da carne bovina crua; e foi nesta noite que comungaram o sangue de Hernán, também chamado de Profeta, que não deu a mínima nem para o corte nem para o sangue, que serviu de tempero pra carne.
O Hernán é um velho hippie típico dessa parte do litoral uruguaio. Os curvas estavam no lugar certo. Como na lenda de Juancho, enveredaram pelo “camino del bosque”, onde felizmente não se depararam com nenhum “cascabel”, mas, aproveitando a sombra, pararam mais uma vez: largaram suas mochilas, estenderam suas cangas no solo duro e espinhoso, repleto de folhas secas, ramos, pinhas e cascas de madeira. Quanto tempo passaram dentro desse bosque! Conversavam compulsivamente. Estavam loucos por falar, como diria Jack Kerouac, inclusive sobre a possibilidade de, quem sabe um dia, sair da cidade grande e ir morar num desses vilarejos rústicos, pouco povoados, extremamente tranquilos, do litoral uruguaio. Chico liderou um grupo expedicionário pelo interior do bosque. Paola, a colombiana dos óvnis, abriu seu inseparável diário e começou a escrever; estaria vendo alguma coisa extraordinária no meio daquele pinheiral? Elfos. Fantasmas. Quem sabe o lendário Juancho ao lado de um “cascabel”? Mas a surpresa veio do europeu da turma, o Richard, que explicou aos demais que “curva”, em polonês, significa “puta”. Ou soa parecido com “puta”. A palavra “curva”, desde então, passou a fazer mais sentido para todos.
Claro que não chegaram a tempo de ver os lobos e os leões marinhos. Assim que entraram no vilarejo do Polônio, no entardecer, ficaram sabendo que os dois últimos caminhões estavam de saída.
*
Hora de fugir para as montanhas, como costuma sugerir o Binho Miranda quando a barra pesa. Melhor, disse Pacha há um mês no facebook, voltemos às planícies uruguaias, banhadas pelo Atlântico, rever os “arroyos” translúcidos que cortam o país em direção ao oceano, os bosques litorâneos cheios de coelhinhos e esquilos, quem sabe trombar o Mujica de bobeira por lá, viver modestamente, mas felizes, com certeza, arrumar uma chica, comprar um pedacinho de terra e daí encher este mundo de “niños uruguayos”, que em vez de dizer “tchau” diriam “que pase lindo!” todo dia antes de ir pra escola. Será que por aqui a água está batendo no umbigo, meu chapa? A barra pesando, toca pro Uruguai! Viver com o pirata Hernán, entre o oceano e o bosque, num chalezinho hipponga, e quem sabe um dia topar com o mitológico Juancho, que certamente irá falar sobre os dois caminhos da vida e o perigo de se encontrar pela frente um lobo ou um “cascabel”.
* Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013
O pão, a pomba e as sandálias prateadas
por Tomás Chiaverini ilustração Victor Zalma*
Segunda-feira. Acordo com uma sensação estranha e intensa de que nada faz sentido. Levantar da cama, sobretudo, não faz sentido. São nove horas, um horário ridiculamente preguiçoso para qualquer cidadão de bem. Mesmo assim programo o celular para tocar trinta minutos mais tarde. Não chego a dormir de novo. Fico lá, debaixo das cobertas, imaginando a manhã fria e tentando entender o que, afinal, não faz sentido com tanta força.
Foi um bom fim de semana. Priscila veio ficar comigo, bebemos vinho sem moderação, saímos para jantar, assistimos a filmes velhos na TV. No domingo fizemos torta de maçã, com uma receita indicada pela Clau. Estava um dia muito frio, mas mesmo assim fomos a pé comprar os ingredientes. Quando saímos havia uma pomba parada bem ao lado da entrada do prédio, numa esquina do bairro das Perdizes. Estava muito quieta e não voou quando nos aproximamos. Provável que estivesse doente ou machucada.
Na volta do supermercado, dobramos a esquina conversando animados e um homem fez um gesto com a mão, pedindo que parássemos ou que nos aproximássemos devagar. Estava agachado ao lado da pomba, com uma caixa de papelão nas mãos. – Parece que ela está doente – disse.
Nós concordamos em silêncio e entramos. Fizemos a torta e um caldo verde. Quando ficou tudo pronto, saímos para comprar pãezinhos frescos. A pomba não estava mais lá, nem o homem. Apenas a caixa de papelão vazia. E um par de sandálias. Sandálias prateadas, de salto alto, colocadas juntinhas sobre a calçada, perto da parede externa do prédio. Não faz sentido nenhum. A pomba, o homem a sandália. Também essa crônica não faz sentido nenhum.
E agora, lá se vão mais de sete horas desde que acordei. Tomei café, revisei algumas páginas do próximo romance que não fica pronto nunca, fiz exercícios, tomei banho, almocei os restos do caldo verde com duas fatias grossas de pão integral. Cheguei tarde na redação e o dia está mal parado. Passei o olho pelos jornais, facebook, conversei com amigos pelo comunicador instantâneo, depois me ocupei em escrever este texto. O fato é que a coisa não melhorou. Muito pelo contrário.
Cada vez mais, nada faz sentido.
*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma
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quinta-feira, 8 de agosto de 2013
É difícil abandonar
por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall*
Mesmo quando você já se convenceu que uma determinada inovação facilita sua vida. Mesmo quando você migrou para um novo ambiente de fazer as coisas. Mesmo assim, parece tão custoso deixar hábitos, procedimentos, protocolos.
Acho que é por conta do coração. Por causa de um sentimento chamado afetividade. Pois somos, numa conta grosseira, 50% razão, 50% emoção. A segunda é mais lenta e profunda do que a primeira. Para sair do lugar, ela precisa de uma experiência além-René Descartes.
Também por isso o discurso muda mais rápido do que o comportamento. O povo sempre soube no seu adágio: falar é fácil, difícil é fazer. A encrenca não está em abraçar o novo, reside em abandonar o velho.
Porque amamos o antigo. Ele foi nosso companheiro e garantiu, no passado, alguma alegria e um punhado de sucesso. Por exemplo, eu sei que usar um editor de textos é mais prático e simples do que escrever no Word. Este é pesadão e cheio de firulas que nunca precisamos.
Mas como dizer adeus? Como deletar o programa? Vem à mente tantos textos tricotados com a linha e a agulha wordianas. O afeto que se insere no processador que te ajudou a escrever aquela crônica ótima, que te auxiliou a melhorar as médias. Te encorajou a refazer as muito ruins.
A trava que segura a mudança se faz presente para lá do comezinho. Ela vai do menor para o maior. Do privado para o púbico. Pois tudo está conectado: a insistência em usar o Word e a perplexidade com os últimos protestos de rua.
A razão nos faz compreender que as recentes manifestações dos indignados brasileiros se expressam em um novo formato de reivindicar. Formato sem palanques, sem líderes, sem partidos, sem sindicatos. Uma pauta mais difusa, utópica, solta até. Chamamentos e mobilizações em redes sociais.
No entanto o afeto, ao menos para os maiores de cinquenta anos, está ligado a um outro padrão de fazer política. Ligado ao voto, à supremacia da maioria, às decisões tiradas em assembleias, à mesa de notáveis, ao fla-flu das tendências e partidos políticos.
É claro que eu compreendo o que está acontecendo. Quero dizer, mais ou menos. Uma vez que o cérebro chega antes do que a emoção. O que alimenta um sentimento? A memória, com certeza.
Recordo da minha juventude. Das passeatas, palavras de ordem, dos meus queridos e queridas da Liberdade & Luta. Lembro que acreditávamos em Trótski e no Mick Jagger. No centralismo democrático e no amor livre.
Foi tanta vida! Sufoco só de invocá-la. Mas, mulher madura, me esforço para acompanhar as inovações. Dobro a atenção para ouvir a garotada. Mas tudo o que quero, e espero, é que ela me toque o coração.
*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
O samba da nossa terra
por André Carvalho ilustração de Kelvin Koubik
Acontece que ele era baiano. Da Bahia, da praia de Itapuã, de Maracangalha, da lagoa escura do Abaeté, da ladeira do Bonfim, dos balangandãs e do samba que quando se canta todo mundo bole. Dorival Caymmi, que, a despeito do grande talento com tintas e pincéis – era um exímio pintor –, entrou para história da cultura brasileira como um dos mais geniais compositores do século XX. Criador de uma obra única, sem antecedentes nem sucessores, cantou, tocou – com seu violão – e registou, para a eternidade, o cancioneiro da Bahia.
Suas músicas são atemporais. Verdadeiras pérolas, que parecem brotadas da terra, ou trazidas à terra pelo sopro dos ventos que conduzem as embarcações no mar. Expressões divinas, lapidadas pela paciência dolente de um ourives das melodias e palavras, porta-voz de um lugar, uma época, um viver, que só a Bahia tem.
Caymmi observava a vida pelas janelas, tinha a sensibilidade para criar, sem pressa, em forma de música, cenas cotidianas que o cativavam – e compunha letra e melodia, de uma vez, sem necessidade do acompanhamento do violão. Demorava anos, às vezes décadas, para terminar as composições. Quando deixou a Bahia, e se mudou para o Rio de Janeiro, levou um caderno cheio de músicas iniciadas, que foram concluídas sob o sopro de outros mares, das águas da Guanabara.
Tinha por convicção que a verdadeira música popular era aquela feita para os garis, os pedreiros, as lavadeiras e os pescadores cantarem. Seu sonho era criar canções que se incorporassem ao imaginário, ao folclore popular dos brasileiros. Considerando que a expressão “quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé” virou ditado popular, e que suas canções praieiras se incorporam ao cancioneiro do povo brasileiro, pode se dizer que Caymmi alcançou seu objetivo.
Além das canções praieiras, que distinguem o compositor de todos os outros criadores de melodias e versos da história da música popular brasileira, a obra caymmiana possui outras três vertentes: os temas baseados no folclore, os sambas “sacudidos, corridinhos, mexidinhos” (como ele os definia) – influenciados pelo samba de roda local –, e os sambas-canções, urbanos, cariocas.
Suas influências são os sons que vinham das ruas soteropolitanas, a nascente música popular – que tinha em Sinhô, nos anos 20, seu máximo expoente –, além de compositores como Debussy, Fauré, Mozart, Bach e Gershwin. Atento às expressões do folclore, nutriu-se também da literatura de Drummond, Neruda, Bandeira e daquele que viria a ser um de seus grandes amigos, Jorge Amado.
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| grandes amigos: Jorge Amado e Caymmi |
“Quando se canta,
todo mundo bole”
Dorival Caymmi brinca com as palavras, encaixando-as nas melodias de forma buliçosa, dando um andamento “corridinho” aos sambas que fez. “Quando você se requebrar, caia por cima de mim, caia por cima de mim, caia por cima de mim”. Diferente do uso constante da síncope, que caracteriza o samba carioca, o samba baiano, que o compositor se nutriu, é o samba de mote e glosa, com estribilhos fortes, que pedem resposta do côro. “Lá tem vatapá. Então vá! Lá tem caruru. Então vá! Lá tem munguzá. Então vá! Se quiser sambar. Então vá!”
Quando chegou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1938, Caymmi já havia desenvolvido muitos de seus sambas. Chegou para fazer história, ingressando, com destaque, na Era de Ouro da música brasileira, iniciada em 1929 e que perduraria até 1945. Trouxe, de Salvador, um violão embrulhado, escondido – não queria se passar por malandro (naquela época, era crime de vadiagem tocar violão pelas calçadas da então Capital Federal).
Mas, em seu quarto de pensão, primeiro lar em terras cariocas, longe de tudo e de todos, seguia criando melodias. Fazia seus acordes dissonantes, que gostava de criar, com os sons que, segundo ele, lembravam os toques de berimbau das ruas da Bahia de São Salvador. Não demoraria muito, entretanto, para entrar no meio artístico. E a entrada não poderia ter sido melhor: com o sucesso estrondoso de “O que é que a baiana tem?”, que ganhou o Brasil (e depois, os Estados Unidos) na voz de Carmen Miranda. Um detalhe importante: a partir daí, Carmen não abandonaria mais os balangandãs, o torço de seda, os brincos de ouro, o pano da Costa, a saia engomada e as sandálias enfeitadas.
Cantando suas próprias canções, originais na estética e no conteúdo, e dispensando orquestras e conjuntos regionais, valendo-se apenas de seu violão, o compositor baiano seguia criando, sem pressa e com a paciência que sempre o acompanhou, novas peças. Muitos sambas “sacudidos” vieram, quase sempre lembrando – na letra – o requebrar, o balançar, o remelexo, o bolir das baianas, que seguiam presentes em seu imaginário. Do requebrado da nega, da baiana, da moreninha da sandália do pompom grená, surgiram clássicos. Este requebrar, presente nas letras, também são sentidos nas melodias “corridinhas”.
“É no mexido, é no descanso, é no balanço
É no jeitinho requebrado que essa nega tem
Que todo mundo fica enfeitiçado
E atrás do dengo dessa nega todo mundo vem”
(O dengo que a nega tem)
“Quando você se requebrar caia por cima de mim”
(O que é que a baiana tem)
“Acontece que eu sou baiano, acontece que ela não é
Mas, tem um requebrado pro lado
Minha Nossa Senhora
Meu Senhor São José
Tem um requebrado pro lado
Minha Nossa Senhora
E ninguém sabe o que é”
(Acontece que eu sou baiano)
“Requebre que eu dou um doce
Requebre que eu quero ver
Requebre, meu bem, que eu trouxe
Um chinelo pra você, ai
Pra você requebrar
Moreninha da sandália do pompom grená”
(Requebre que eu dou um doce)
Mexer as cadeiras, bolir, sambar. Quem escuta os sambas de Caymmi, não consegue ficar parado.
"Ela mexe com as cadeiras pra cá
Ela mexe com as cadeiras pra lá
Ele mexe com o juízo
Do homem que vai trabalhar"
(A vizinha do lado)
“Samba da minha terra deixa a gente mole
Quando se canta todo mundo bole
Quando se canta todo mundo bole”
(O samba da minha terra)
“Não vou porque não posso resistir à tentação
Se ela sambar, eu vou sofrer
Esse diabo sambando é mais mulher
E se eu deixar ela faz o que bem quer”
(Lá vem a baiana)
Há, ainda, outras páginas de ouro do livro do samba brasileiro escritos pelas mãos do genial compositor baiano, como “O vestido de bolero”, “Maracangalha”, “Vatapá”, “365 igrejas”, “Eu não tenho onde morar” e “Você já foi a Bahia?”
Caymmi é mar, areia, vento e embarcações. É Itapuã, Maracangalha, Bonfim e Abaeté. É Bahia. Caymmi é folclore brasileiro. É Copacabana. É violão. É Rio de janeiro. É Brasil. Caymmi também é samba. Sacudido, corridinho e mexidinho. Samba da nossa terra.
Escute os sambas de Caymmi:
* André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Ano 70
Com certeza um dos nomes mais importantes da música brasileira, Tim Maia foi fundamental para a transição e evolução da Black Music no Brasil.
Em setembro de 2012, Sebastião Rodrigues Maia completaria 70 anos de idade. Tim partiu aos 55 anos de idade, em março de 1998 deixando para nós 32 discos em mais de 42 anos de estrada, mas o seu jeito, suas músicas e sua inconfundível voz não nos deixou.
Ainda vai aguentar e nos influenciar por muitos anos. Obrigado 'Babulina'! A música brasileira agradece.
Kelvin Koubik, artista visual e músico de Porto Alegre, colunista do NR. Veja + do autor
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Chama o síndico
Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
A vez dos soldados
Nas guerras, a história é velha, os soldados vão para a linha de frente matar ou morrer. Enquanto isso os generais traçam estratégias protegidos por outros soldados. Bem longe do front, governantes das partes beligerantes tentam tirar o dinheiro do povo para os gastos com o conflito.
Terminada a guerra, a história também é velha, os generais ganham nomes de ruas, praças, pontes, elevados. Entram nos compêndios escolares. Já a soldadesca cai no profundo anonimato. Ao menos, social. Porque, evidente, os soldados seguem nos corações dos seus.
Em tempos de paz, os civis também fazem coisas parecidas. Mesmo a esquerda, tradicionalmente comprometida com a justiça e a igualdade, comete seus pecadilhos. Por exemplo, quando ela dá força ao culto de seus líderes, ignorando seus soldados.
Nesse caso "soldado" corresponde a centenas, às vezes milhares, de militantes do cotidiano dos movimentos sociais. O pessoal que dedica a vida à construção de um mundo melhor. Que pavimenta a estrada onde os líderes passarão com notoriedade.
Todos sabemos muito do Che Guevara. Como ele era, do que gostava, do que não gostava. Seu rosto é tão conhecido quanto o da Mona Lisa. Você já parou para pensar quantas camisetas existem no mundo com a estampa do Che? Deve ser da ordem de milhões.
Mas pouco ou nada sabemos dos rostos e nomes dos camponeses que lutaram ao seu lado. Nas cidades, os fatos são semelhantes. Líderes que construíram suas histórias apoiados pela base, de repente se entopem de doril quando desembarcam no Poder.
Penso que talvez a plataforma internet seja, no longo prazo, capaz de reparar essa injustiça com os soldados anônimos – mulheres e homens – de todas as lutas. Pois pela primeira vez, na longa evolução da informação e da comunicação, é possível conhecer não a história de um, mas a história de muitos.
Mais ousado ainda: é possível que cada um registre a sua versão dos fatos. Defenda seu ponto de vista. Só assim, uma história repetitiva e personalista terá chance se tornar criativa e coletiva. Oxalá!
fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Fernando Carvall, ilustração especial para o texto
Terminada a guerra, a história também é velha, os generais ganham nomes de ruas, praças, pontes, elevados. Entram nos compêndios escolares. Já a soldadesca cai no profundo anonimato. Ao menos, social. Porque, evidente, os soldados seguem nos corações dos seus.
Em tempos de paz, os civis também fazem coisas parecidas. Mesmo a esquerda, tradicionalmente comprometida com a justiça e a igualdade, comete seus pecadilhos. Por exemplo, quando ela dá força ao culto de seus líderes, ignorando seus soldados.
Nesse caso "soldado" corresponde a centenas, às vezes milhares, de militantes do cotidiano dos movimentos sociais. O pessoal que dedica a vida à construção de um mundo melhor. Que pavimenta a estrada onde os líderes passarão com notoriedade.
Todos sabemos muito do Che Guevara. Como ele era, do que gostava, do que não gostava. Seu rosto é tão conhecido quanto o da Mona Lisa. Você já parou para pensar quantas camisetas existem no mundo com a estampa do Che? Deve ser da ordem de milhões.
Mas pouco ou nada sabemos dos rostos e nomes dos camponeses que lutaram ao seu lado. Nas cidades, os fatos são semelhantes. Líderes que construíram suas histórias apoiados pela base, de repente se entopem de doril quando desembarcam no Poder.
Penso que talvez a plataforma internet seja, no longo prazo, capaz de reparar essa injustiça com os soldados anônimos – mulheres e homens – de todas as lutas. Pois pela primeira vez, na longa evolução da informação e da comunicação, é possível conhecer não a história de um, mas a história de muitos.
Mais ousado ainda: é possível que cada um registre a sua versão dos fatos. Defenda seu ponto de vista. Só assim, uma história repetitiva e personalista terá chance se tornar criativa e coletiva. Oxalá!
fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Fernando Carvall, ilustração especial para o texto
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quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Vladimir Herzog: morte matada não é morte morrida
Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Minicraques da Política #2 (Edição de Colecionador)
![]() |
| [clique na caricatura para ver em tamanho grande] |
Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
domingo, 19 de junho de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Carvall: exposição a Idade do Meio
Neste sábado, a partir das 16h, exposição de Carvall e Rafael Kenji, na Vila Madalena, São Paulo. Ilustrador e caricaturista, Carvall publica na Folha de S. Paulo desde 1990. É um dos grandes nomes da ilustração brasileira. Ele também é professor do Senac há quase 20 anos e mantém o Estúdio Saci. Aqui no NR ele é nosso colaborador, confira alguns desenhos! Ao lado, o convite aos nossos leitores com todas as informações.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Para interpretar
Caco Bressane, 25 anos, arquiteto e ilustrador paulistano, mestrando em Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Não se preocupe, África
O artista Italiano, Cani&Porci, numa contuntende ilustração. Nem é preciso dizer nada. Se tiver interesse, conheça o blog dele, Mal d’estro.
quinta-feira, 24 de março de 2011
Sim, nós podemos
Fernando Carvall, ilustrador e caricaturista para o Nota de Rodapé. Conheça também seu blog: ONG PI.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
domingo, 30 de janeiro de 2011
Virando as páginas da história
Caco Bressane, 25 anos, arquiteto e ilustrador paulistano, mestrando em Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, cidade em que mora atualmente e colaborador do Nota de Rodapé.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Pescadores de Cajaíba
Dois irmãos pescadores de Cajaíba, próximo a Paraty, Rio de Janeiro. "Coloquei uma música do João do Vale chamada O Jangadeiro para acompanhar a imagem. Mas aí liguei a TV e vi o que ocorreu, a tragédia em Teresópolis, e o que irá ocorrer a partir de agora, aberta a temporada de temporais e tragédias de verão", explicou Caco Bressane, 25 anos, arquiteto e ilustrador paulistano, mestrando em Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, cidade em que mora atualmente e colaborador do Nota de Rodapé. O primeiro desenho de 2011.
O Jangadeiro (João do Vale)
O jangadeiro vai ganhar a vida
No alto mar
Vai sem saber se volta
Mas tem que a vida ganhar
a vida ganhar...
Quando ele vem voltando na beira da praia
Fica logo assim de gente pra peixe comprar
Peixe a cem mil réis o quilo ninguém quer pagar
Mas todos quer peixe bonito
No preço do fiscal
Que nunca enfrentou
Temporal...
Mas ele enfrenta tudo porque tem zezinho
Filho de estimação que quer aprender ler
Ver o filho estudando é seu maior prazer
É a razão de ir pra o mar
Sem medo de morrer
Pra um pescador
Zé não sei...
Nunca temeu ao mar mas sempre o respeitou
Por viver sempre no mar ele tem amor
Tem orgulho do que é mas o que ele não quer
É que seu filho pra viver
Tenha que enfrentar o mar
Tenha que vim ser
Pescador...
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