por Izaías Almada
Faleceu em São Paulo, com 81 anos de idade, na manhã do último dia 19 de abril, o companheiro Jose Adolfo de Granville Ponce, editor e jornalista profissional, preso no exercício de sua profissão durante a ditadura como militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) em janeiro de 1969.
Como a maioria de seus companheiros na altura sofreu inúmeras torturas passando dois anos e meio na prisão, deixando o Presídio Tiradentes em junho de 1971.
Organizou com o também jornalista Alípio Freire e o escritor Izaías Almada uma coletânea de depoimentos sobre o período: TIRADENTES, UM PRESÍDIO DA DITADURA, editado pela Scipione Cultural.
Como jornalista trabalhou nos jornais Correio da Manhã, Tribuna da Imprensa e Asa Press, no Rio de Janeiro, e Diários Associados, revista Realidade em São Paulo.
Alegre, comunicativo, após a sua aposentadoria costumava receber em sua casa no Jardim Previdência antigos companheiros de militância, promovendo alguns memoráveis churrascos e acaloradas discussões sobre o processo político brasileiro após a redemocratização do país.
Granva, como era chamado carinhosamente pela família e pelos companheiros, nasceu na cidade de Pirajuí, São Paulo em 16 de maio de 1933, tendo sido militante do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), de onde saiu para ingressar na ALN, liderada por Carlos Marighela.
Deixou a companheira Maria Aparecida Baccega, professora aposentada da USP e os filhos Walter e Fabiano.
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 21 de abril de 2015
quarta-feira, 15 de abril de 2015
O Galeano morreu e isso é uma merda enorme
por Ricardo Viel, de Lisboa
Era começo de 2004. Entre vinho e churrasco planejávamos uma improvável viagem a Argentina, até que Fernando disse: “E antes passamos pelo Uruguai para entrevistar o Galeano”. Todos achamos graça, menos ele. Falava sério. “O povo da Caros [Amigos] tem o contato dele, vou tentar”. Uns meses depois estávamos sentados no Café Brasilero, em Montevidéu, diante de Eduardo Galeano.
Pode soar exagerado, mas aquela conversa e aquela viagem mudaram a minha vida. Foi ali, e também por insistência do Fernando, que comecei a pensar que talvez eu poderia me dedicar ao jornalismo. Provavelmente, eu seria um péssimo advogado mesmo, mas ser jornalista se tornou um horizonte real.
As lembranças daqueles dias são confusas, embaralhadas. São, provavelmente, um acumulado das versões que fui contando, ao longo do tempo, sobre essa nossa viagem e essa nossa entrevista. Não tem importância nenhuma. O que importa é que guardo a recordação de um Galeano amável e gentil, que nos encheu de boas histórias e de afeto. Era uma entrevista, mas era sobre tudo um grupo (éramos quatro) a fazer perguntas a um escritor que admirávamos – e não há mal nenhum nisso porque nunca acreditamos que o jornalista pode ou deve ser imparcial.
“Como dicen los mexicanos, nos estamos viendo", foi o que ele, nessa primeira vez, disse ao se despedir da gente. E nos vimos, meses depois, em Curitiba. Mais abraços e palavras bonitas. E ainda o vimos uma vez mais, em Porto Alegre, naquele janeiro de 2005 que nos fez acreditar que o outro mundo estava mesmo muito próximo.
Eduardo Galeano continuou conosco. Nas muitas vezes que falamos sobre aquela entrevista; nos seus livros, que lemos e relemos; nos textos que mandamos aos nossos amigos e amadas. Nas lembranças, nas muitas lembranças.
Galeano foi uma espécie de embaixador dessa sonhada república da América Latina livre de fronteiras e preconceitos, esse espaço que alguns de nós – que muitos de nós – acreditamos ser possível de construir. Ensinou-nos a amar esse continente tão maravilhoso e desgraçado; mostrou-nos que a indignação não é incompatível com a poesia, o sonho e a beleza. Fez-nos enxergar o encanto das pequenas coisas e ver que as histórias banais, dos esquecidos (os ninguéns, os que custam menos que a bala que os mata), podem ser mais interessantes e grandiosas que a história oficial. Escreveu sobre futebol de maneira única, e disse o que todos nós tentamos dizer e não conseguimos.
A minha geração, a dos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre, teve Galeano como um de seus grandes porta-vozes. Com beleza e ternura – e com aquela capacidade de síntese invejável – ele expressou o que sentíamos, as nossas dores e amores.
Quando Saramago morreu – outro dos nossos mentores intelectuais –, Galeano disse que suas palavras continuariam vivas por meio dos seus livros, e isso era uma maneira de existir. Agora, chegou a vez do uruguaio partir. Os livros respiram, ele dizia. Seus livros continuarão respirando enquanto nós estivermos por aqui, enquanto tivermos a curiosidade de aproxima-los aos ouvidos, para escuta-los, e senti-los.
Tudo isso é verdade, mas também é verdade que a presença física, esse abraço que possivelmente nunca aconteceria (ou se repetiria), mas que poderia um dia acontecer, já nunca mais virá. Já não será possível dizer obrigado, pedir-lhe um autógrafo, ou escutá-lo falar as belezas que o caracterizam. Seus livros ainda respiram, e é esse o único conforto que resta num momento tão triste. Benedetti, Saramago, Gelman, Gabo e Galeano. São muitas mortes em pouco tempo. Muitas perdas para administrar. Certa vez perguntaram ao Luis Fernando Verissimo o que ele pensava sobre a morte. “É uma sacanagem, sou contra”, rebateu certeiro. Somos todos contra, Verissimo, ainda mais quando se trata da morte de uma figura como Galeano.
“Foi-se o Eduardo Galeano, que bosta”, escrevi ao Fernando assim que soube. Depois, já à flor da pele com a notícia, o agradeci por ter me empurrado para o jornalismo. Mas é isso, o resumo da história é este: o Galeano morreu e isso é uma merda enorme, uma sacanagem gigantesca.
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Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal. Especial para o Nota de Rodapé
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Lina Bo Bardi: a arquiteta-antropóloga
CENTENÁRIO: autora de projetos famosos, como os do Masp e do Sesc Pompeia, Lina Bo Bardi, que ainda na Itália juntou-se à resistência antifascista e se dizia “stalinista”, alcança um nível de reconhecimento que não teve em vida.
por Marcos Grinspum Ferraz
[texto originalmente escrito para a revista Retrato do Brasil]
Lina Bo Bardi, nascida em Roma, na Itália, em dezembro de 1914, não só escolheu o Brasil como pátria, como foi apaixonada por este país, suas paisagens e culturas. Como ela mesma escreveu: “Naturalizei-me brasileira. Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e da fronteira”. Mas, se a arquiteta escolheu o Brasil com tamanha convicção, o Brasil não parece tê-la aceitado, ou compreendido, do mesmo modo. Hoje celebrada como um dos maiores nomes da arquitetura mundial da segunda metade do século XX, sendo tema de exposições, livros, artigos de jornais e estudos acadêmicos, Lina não teve o mesmo reconhecimento em vida.
Na verdade, de 1946, quando desembarcou no Brasil, até sua morte, em 1992, a arquiteta enfrentou uma série de dificuldades na carreira, passou por longos períodos de ostracismo e deixou, ao todo, não mais de dez obras construídas. Entre elas estão algumas das mais notáveis edificações do Brasil moderno, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Sesc Pompeia (ambos na capital paulista) e o restaurado Solar do Unhão (em Salvador), mas poderia ter deixado mais. E, se é difícil explicar com precisão os motivos de tantas adversidades – que passam pelos fatos mais óbvios de ser mulher em uma sociedade machista, ser “estrangeira” em tempos de nacionalismo ou, ainda, ser casada com um sujeito polêmico, como Pietro Maria Bardi –, há algo notável sobre a arquiteta que se relaciona à maioria de seus fracassos e sucessos: Lina não seguiu padrões, modelos prontos e modismos, nunca escolheu os caminhos fáceis e não hesitou em experimentar, subverter e ir contra os discursos hegemônicos na política ou na cultura. Sem se enquadrar – mesmo dentro do modernismo ou da esquerda –, ela fez da arquitetura sua arma para a transformação do mundo em um lugar mais igualitário e “humano”. Incomodou e por isso pagou preços, mas deixou, ao fim, um valioso legado para a arquitetura e para o País.
“Hoje as pessoas veem a obra dela com certa esperança, com grande frescor, algo que não houve à época”, diz Zeuler Lima, professor da Washington University em Saint Louis (EUA) e autor de extensa pesquisa sobre Lina. “O discurso modernista também não abria espaço para certos experimentos, e acho que a obra dela foi bastante experimental, não só do ponto de vista tecnológico, prático, mas também na maneira como ela pensava.” O pesquisador costuma dizer que Lina foi uma arquiteta moderna, mas não modernista, já que não perseguia uma linguagem específica nem seguia determinadas regras formais em sua produção – ao contrário, por exemplo, de outros grandes, como Oscar Niemeyer. “A Lina constrói com tijolo, concreto, ferro, pedra, barro, palha, com qualquer tipo de coisa”, diz o arquiteto André Vainer, que trabalhou com Lina por cerca de 13 anos, entre 1977 e 1992. “Você olha a cobertura da Casa do Benin [Salvador, 1987], de barro, e compara com o Masp [São Paulo, 1957–1968], são coisas diametralmente opostas, e isso é um sinal de liberdade enorme, de abertura para projetar.”
Construir sem regras técnicas e formais não era algo gratuito, mas parte de uma concepção de que o arquiteto deve entender os contextos sociais e humanos de cada local para poder projetar. Para Lina, cada caso era um caso, e a arquitetura deveria ter como protagonista o ser humano, não o espaço, como ela mesma disse certa vez. “Ela olhava o espaço não como os arquitetos geralmente definem, que é um espaço vazio cartesiano geométrico, mas como os antropólogos definem, que é o espaço vivido”, diz Lima. “Iniciava um projeto com o que ela tinha, seus princípios, mas recebia do mundo e das situações, e esse diálogo criava-se na própria obra.” Quando, num fim de semana, foi pela primeira vez à velha fabrica instalada no bairro paulistano da Pompeia – que seria transformada em uma das sedes do Serviço Social do Comércio (Sesc) – e viu famílias comendo e conversando, com seus filhos brincando, Lina afirmou: “É essa a atmosfera que quero manter aqui”. Nesse sentido, diz Vainer, “a Lina representa um tipo de arquitetura que tem um respaldo com a realidade muito grande, o que é raro hoje. Ela sempre trabalhava a partir de ideias que não eram de arquitetura, mas de relacionamento humano, de sociedade, de justiça entre os homens e de comportamento”.
Se não teve tantas obras construídas, Lina foi incansável em sua produção em diferentes áreas. Foi também designer, cenógrafa, editora de revistas, curadora de museus e exposições e até “estilista” – chegou a desenhar roupas e joias, principalmente nos primeiros anos no Brasil. Mas, na verdade, tudo para ela era arquitetura. As coisas se misturavam, de modo híbrido, e tudo estava dentro de um jeito maior de pensar a profissão, o mundo e o ser humano dentro dele. “Arquitetura, para mim, é ver um velhinho, ou uma criança, com um prato cheio de comida atravessando elegantemente o espaço do nosso restaurante à procura de um lugar para se sentar, numa mesa coletiva”, disse certa vez no Sesc Pompeia. Lina trazia de sua formação em Roma, influenciada pelo professor Gustavo Giovannoni, uma ideia do “arquiteto total”. “Para ela, o arquiteto deve vestir a ‘pele do lobo’: ser cozinheiro para projetar uma boa cozinha, ser aluno e professor para projetar uma boa escola, ser ator e espectador para projetar um bom teatro”, escreve Marcelo Ferraz, arquiteto que trabalhou por 15 anos com Lina.
Para poder se propor a fazer uma arquitetura tão diversa e experimental e conseguir transitar com tamanho êxito por variados campos do conhecimento, ainda mais sendo mulher em meados do século XX, Lina precisava de conhecimentos e ferramentas poderosos. E os tinha, como relembra Vainer: “Uma capacidade de desenho e de síntese impressionante, um entendimento da história da arquitetura, uma postura ideológica muito bem definida e construída e uma postura de liberdade”. Para entender um pouco como isso foi criado, é preciso voltar à vida de Lina desde os primeiros tempos.
Os anos de infância e juventude de Achillina Bo (nome de batismo) na Itália não transcorreram em período tranquilo da história do país. Muito pelo contrário. Se a Primeira Guerra Mundial (1914–1918) acabou quando ela tinha apenas quatro anos, a ascensão do nazifascismo e a tensão do período entreguerras foram vividas de perto pela garota, que, em seus anos de formação, já demonstrava talento excepcional para a pintura e o desenho.
Após se formar na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma, em 1939, Lina mudou-se para Milão e foi trabalhar no escritório do célebre arquiteto Gió Ponti. Enquanto aprendia com a prática diária da profissão, Lina logo teve que lidar com a eclosão da guerra, o que a marcou de modo profundo. “Entre bombas e metralhadoras, fiz um ponto da situação: importante era sobreviver, de preferência incólume. Mas como? Senti que o único caminho era o da objetividade e racionalidade, um caminho terrivelmente difícil quando a maioria opta pelo ‘desencanto literário e nostálgico’. Sentia que o mundo podia ser salvo, mudado para melhor, que essa era a única tarefa digna de ser vivida. (...) Entrei na Resistência, com o Partido Comunista clandestino.” Em período pouco propício para a arquitetura – quando prevalecia a destruição, não a construção –, Lina intensificou o trabalho como ilustradora de revistas e jornais e como editora. Foi também aí que assimilou algumas das bases do que seria sua arquitetura até o fim da vida. “Quando as bombas demoliam sem piedade a obra e a obra [sic] do homem, compreendemos que a casa deve ser para a ‘vida’ do homem, deve servir, deve consolar, e não mostrar, numa exibição teatral, as vaidades inúteis do espírito humano. A guerra destruiu os mitos dos ‘monumentos’. Também na casa. (...) Os móveis devem ‘servir’, as cadeiras para sentar, as mesas para comer, as poltronas para ler e repousar, as camas para dormir, e a casa assim não será um lar eterno e terrível, mas uma aliada do homem, ágil e serviçal, e que pode, como o homem, morrer.”
Após chegar ao Rio de Janeiro, em 1946, Lina e Pietro (marchand, crítico de arte e jornalista) foram convidados por Assis Chateaubriand, magnata das comunicações, a ficar no Brasil para criar aqui um museu de arte. Encantada com o novo mundo, terra onde as coisas poderiam florescer livres das amarras do passado – feudal, monárquico, burguês ou de grandes guerras –, Lina convenceu Bardi a ficar. No Museu de Arte instalado na rua 7 de Abril, em São Paulo (sede do grupo Diários Associados, controlado por Chateaubriand), onde o excepcional acervo trazido pelo marido foi acomodado, Lina começou a desenvolver suas primeiras ideias de museu e expografia, que radicalizadas culminaram nos polêmicos cavaletes de vidro do Masp, hoje brutalmente banidos do local. O museu não deveria ser um recanto de memória, um túmulo obsoleto ou um depósito de obras humanas, dizia Lina, mas um lugar vivo e dinâmico, onde devem entrar “luz e ar puro”. Mais do que isso, o museu deveria ser popular, voltado a todos, em uma concepção que pautou todos os seus projetos para espaços coletivos até o fim da vida. “Tirar do museu o ar de igreja, tirar dos quadros a ‘aura’ para apresentar a obra de arte como um trabalho, altamente qualificado, mas trabalho; apresentá-lo de modo que possa ser compreendido pelos não iniciados”, escreveu Lina certa vez.
Após a experiência no museu, para o qual também projetou uma série de móveis, e a criação da revista Habitat, Lina teve sua primeira obra construída em 1951, mesmo ano em que se naturalizou brasileira. A Casa de Vidro, erguida no bairro paulistano do Morumbi, residência construída para morar com Pietro, trazia ainda grande influência da arquitetura racionalista europeia, com a qual Lina tinha tido mais contato até ali. Após ser recusada – em concurso anulado – para dar aula na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo e com o projeto do Masp, construído na avenida Paulista, já em curso, Lina viajou para sua primeira grande estada na Bahia, o que representa talvez a grande transformação em suas ideias e obra.
Convidada para dar um curso e, posteriormente, criar o Museu de Arte Moderna da Bahia, no teatro Castro Alves, a arquiteta entrou em contato com outro Brasil, com a cultura popular e com realidades que desconhecia em São Paulo e no Rio. Lá também projetou a restauração do Solar do Unhão, um importante conjunto arquitetônico de Salvador, e conheceu o cineasta Glauber Rocha, o etnólogo Pierre Verger e outros importantes intelectuais.
Em 1964, de volta a São Paulo, já com as tensões geradas pelo golpe militar, Lina continuou tocando as obras do Masp, inaugurado finalmente em 1968. No entanto, mais engajada com a contracultura e com a luta contra a ditadura, Lina passou a apoiar a guerrilha nos chamados anos de chumbo, num capítulo pouco conhecido de sua vida. Sabe-se que a arquiteta sediou em sua casa reuniões da Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo de Carlos Marighella, e foi perseguida pelos agentes da repressão. Com os bons contatos que tinha, principalmente o apoio do marido – homem bem relacionado e não engajado na luta política –, Lina se exilou na Itália por cerca de uma ano, enquanto um processo de prisão corria na Justiça Militar brasileira. Lina voltou em 1971, quando os militares revogaram sua prisão preventiva (imagem ao lado). A posição política da arquiteta, aparentemente bastante à esquerda e engajada quando se analisam episódios como esse, é relativizada por alguns pesquisadores de sua vida, que enxergam uma série de contradições em suas posições ao longo da vida. Lina foi amiga de figuras conservadoras e trabalhou com políticos de direita em certos momentos, ao mesmo tempo em que foi próxima de artistas libertários e chegou a afirmar, mais de uma vez, ser “stalinista”.
“É uma pessoa muito complexa”, diz Vainer. “Às vezes eu fico tentando enquadrá-la, mas a verdade é que não dá. Quando ela dizia que era ‘stalinista’, isso estava muito mais ligado ao papel que Stalin teve durante a Segunda Guerra Mundial, que possibilitou que os Aliados vencessem os nazifascistas, do que a qualquer outro sentido atribuído ao termo, como os relacionados a expurgos, matanças. Ela era mais ligada a uma esquerda mais moderna, desligada do ‘partidão’, da União Soviética. Era heterogênea.” O documento da revogação do pedido de prisão na época da ditadura , por exemplo, foi dado por Lina à Vainer e Ferraz nos anos 1980, em uma pastinha que continha também uma foto de Che Guevara e outra de Lenin. “Ela tinha uma vida burguesa, afinal o Bardi tinha muito dinheiro”, diz Vainer. “E por isso também fez gratuitamente os projetos do Masp e da Igreja de Uberlândia. E acho que isso é também uma espécie de distribuição de renda, uma postura socialista de certa maneira. Algo como: ‘Eu não preciso desse dinheiro, mas quero doar meu conhecimento’.”
Seja como for, com suas contradições e coerências – Lina também gostava de chocar, o que deve ser levado em conta –, o fato é que sua arquitetura sempre foi de propósito social, acessível e humanizada. O Sesc Pompeia, para o qual a arquiteta foi chamada após longos anos “colocada de escanteio” pelo poder político e também pela arquitetura dominante, talvez seja a experiência mais bem-sucedida de Lina no sentido de utilizar a arquitetura para criar um espaço democrático e igualitário. Nos anos seguintes, entre 1986 e 1990, já bastante madura e calejada, Lina pôde, em seu segundo período na Bahia, fazer uma série de projetos, como Casa do Benin, Casa do Olodum e Ladeira da Misericórdia – o qual viu ser abandonado e parcialmente destruído ainda em vida. Ali levou ao máximo sua experiência como arquiteta-antropóloga, se assim podemos dizer, investigando e vivenciando intensamente a cultura popular baiana e afro-brasileira.
“Lina tinha um grande idealismo. E isso é diferente de utopia, pois era um idealismo de pensar não o impossível, mas o possível. Pensar um futuro melhor não abstratamente, mas no que existe, no aqui e no agora”, diz Lima. “Ela era uma pessoa extremamente generosa com a arquitetura, com a ideia de que a arquitetura tem um propósito e que ele tem que ser social, humano”, conclui. Com a visão de alguém que conviveu de perto por tanto tempo, com uma experiência não só profissional, mas afetiva e de amizade, Vainer ressalta que a generosidade ia para muito além da arquitetura. “Tanto que ela deu para mim e para o Ferraz isso tudo que temos. Ela nunca regulou conhecimento, sempre nos ensinou, exigiu que a gente tivesse uma postura em relação ao trabalho, às ideias. Quando a gente se conheceu, ela tinha 63 anos, eu 23 e o Ferraz, 22. E acho que ela pensou: ‘Vou pegar esses dois caras, porque eu preciso de alguém para fazer os desenhos e tal, mas também vou pegar para ensinar’.”
Em tempos de arquitetura monumental e extremamente cara, por vezes pouco conectada às realidades e contextos locais, Lina ressurge como outro modo possível de se pensar e fazer. Se isso ocorre um tanto tardiamente, o que importa é que a arquiteta é cada vez mais lembrada e difundida, especialmente no ano de seu centenário. “A obra da Lina não era como essa arquitetura ‘do espetáculo’, que é basicamente um exercício de técnica e virtuosismo, tão distante da realidade do homem”, diz Vainer, referindo-se a uma arquitetura de obras faraônicas que predominou nos anos 1990 e 2000. Na mesma linha, Lima conclui: “A arquitetura de Lina é espetacular, não é ‘do espetáculo’. É de propósito à vida”.
Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. Crédito da imagem de abertura: Arquivo Joaquim Guedes
por Marcos Grinspum Ferraz
[texto originalmente escrito para a revista Retrato do Brasil]
Lina Bo Bardi, nascida em Roma, na Itália, em dezembro de 1914, não só escolheu o Brasil como pátria, como foi apaixonada por este país, suas paisagens e culturas. Como ela mesma escreveu: “Naturalizei-me brasileira. Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e da fronteira”. Mas, se a arquiteta escolheu o Brasil com tamanha convicção, o Brasil não parece tê-la aceitado, ou compreendido, do mesmo modo. Hoje celebrada como um dos maiores nomes da arquitetura mundial da segunda metade do século XX, sendo tema de exposições, livros, artigos de jornais e estudos acadêmicos, Lina não teve o mesmo reconhecimento em vida.
Na verdade, de 1946, quando desembarcou no Brasil, até sua morte, em 1992, a arquiteta enfrentou uma série de dificuldades na carreira, passou por longos períodos de ostracismo e deixou, ao todo, não mais de dez obras construídas. Entre elas estão algumas das mais notáveis edificações do Brasil moderno, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Sesc Pompeia (ambos na capital paulista) e o restaurado Solar do Unhão (em Salvador), mas poderia ter deixado mais. E, se é difícil explicar com precisão os motivos de tantas adversidades – que passam pelos fatos mais óbvios de ser mulher em uma sociedade machista, ser “estrangeira” em tempos de nacionalismo ou, ainda, ser casada com um sujeito polêmico, como Pietro Maria Bardi –, há algo notável sobre a arquiteta que se relaciona à maioria de seus fracassos e sucessos: Lina não seguiu padrões, modelos prontos e modismos, nunca escolheu os caminhos fáceis e não hesitou em experimentar, subverter e ir contra os discursos hegemônicos na política ou na cultura. Sem se enquadrar – mesmo dentro do modernismo ou da esquerda –, ela fez da arquitetura sua arma para a transformação do mundo em um lugar mais igualitário e “humano”. Incomodou e por isso pagou preços, mas deixou, ao fim, um valioso legado para a arquitetura e para o País.
“Hoje as pessoas veem a obra dela com certa esperança, com grande frescor, algo que não houve à época”, diz Zeuler Lima, professor da Washington University em Saint Louis (EUA) e autor de extensa pesquisa sobre Lina. “O discurso modernista também não abria espaço para certos experimentos, e acho que a obra dela foi bastante experimental, não só do ponto de vista tecnológico, prático, mas também na maneira como ela pensava.” O pesquisador costuma dizer que Lina foi uma arquiteta moderna, mas não modernista, já que não perseguia uma linguagem específica nem seguia determinadas regras formais em sua produção – ao contrário, por exemplo, de outros grandes, como Oscar Niemeyer. “A Lina constrói com tijolo, concreto, ferro, pedra, barro, palha, com qualquer tipo de coisa”, diz o arquiteto André Vainer, que trabalhou com Lina por cerca de 13 anos, entre 1977 e 1992. “Você olha a cobertura da Casa do Benin [Salvador, 1987], de barro, e compara com o Masp [São Paulo, 1957–1968], são coisas diametralmente opostas, e isso é um sinal de liberdade enorme, de abertura para projetar.”
Construir sem regras técnicas e formais não era algo gratuito, mas parte de uma concepção de que o arquiteto deve entender os contextos sociais e humanos de cada local para poder projetar. Para Lina, cada caso era um caso, e a arquitetura deveria ter como protagonista o ser humano, não o espaço, como ela mesma disse certa vez. “Ela olhava o espaço não como os arquitetos geralmente definem, que é um espaço vazio cartesiano geométrico, mas como os antropólogos definem, que é o espaço vivido”, diz Lima. “Iniciava um projeto com o que ela tinha, seus princípios, mas recebia do mundo e das situações, e esse diálogo criava-se na própria obra.” Quando, num fim de semana, foi pela primeira vez à velha fabrica instalada no bairro paulistano da Pompeia – que seria transformada em uma das sedes do Serviço Social do Comércio (Sesc) – e viu famílias comendo e conversando, com seus filhos brincando, Lina afirmou: “É essa a atmosfera que quero manter aqui”. Nesse sentido, diz Vainer, “a Lina representa um tipo de arquitetura que tem um respaldo com a realidade muito grande, o que é raro hoje. Ela sempre trabalhava a partir de ideias que não eram de arquitetura, mas de relacionamento humano, de sociedade, de justiça entre os homens e de comportamento”.
Se não teve tantas obras construídas, Lina foi incansável em sua produção em diferentes áreas. Foi também designer, cenógrafa, editora de revistas, curadora de museus e exposições e até “estilista” – chegou a desenhar roupas e joias, principalmente nos primeiros anos no Brasil. Mas, na verdade, tudo para ela era arquitetura. As coisas se misturavam, de modo híbrido, e tudo estava dentro de um jeito maior de pensar a profissão, o mundo e o ser humano dentro dele. “Arquitetura, para mim, é ver um velhinho, ou uma criança, com um prato cheio de comida atravessando elegantemente o espaço do nosso restaurante à procura de um lugar para se sentar, numa mesa coletiva”, disse certa vez no Sesc Pompeia. Lina trazia de sua formação em Roma, influenciada pelo professor Gustavo Giovannoni, uma ideia do “arquiteto total”. “Para ela, o arquiteto deve vestir a ‘pele do lobo’: ser cozinheiro para projetar uma boa cozinha, ser aluno e professor para projetar uma boa escola, ser ator e espectador para projetar um bom teatro”, escreve Marcelo Ferraz, arquiteto que trabalhou por 15 anos com Lina.
Para poder se propor a fazer uma arquitetura tão diversa e experimental e conseguir transitar com tamanho êxito por variados campos do conhecimento, ainda mais sendo mulher em meados do século XX, Lina precisava de conhecimentos e ferramentas poderosos. E os tinha, como relembra Vainer: “Uma capacidade de desenho e de síntese impressionante, um entendimento da história da arquitetura, uma postura ideológica muito bem definida e construída e uma postura de liberdade”. Para entender um pouco como isso foi criado, é preciso voltar à vida de Lina desde os primeiros tempos.
Os anos de infância e juventude de Achillina Bo (nome de batismo) na Itália não transcorreram em período tranquilo da história do país. Muito pelo contrário. Se a Primeira Guerra Mundial (1914–1918) acabou quando ela tinha apenas quatro anos, a ascensão do nazifascismo e a tensão do período entreguerras foram vividas de perto pela garota, que, em seus anos de formação, já demonstrava talento excepcional para a pintura e o desenho.
Após chegar ao Rio de Janeiro, em 1946, Lina e Pietro (marchand, crítico de arte e jornalista) foram convidados por Assis Chateaubriand, magnata das comunicações, a ficar no Brasil para criar aqui um museu de arte. Encantada com o novo mundo, terra onde as coisas poderiam florescer livres das amarras do passado – feudal, monárquico, burguês ou de grandes guerras –, Lina convenceu Bardi a ficar. No Museu de Arte instalado na rua 7 de Abril, em São Paulo (sede do grupo Diários Associados, controlado por Chateaubriand), onde o excepcional acervo trazido pelo marido foi acomodado, Lina começou a desenvolver suas primeiras ideias de museu e expografia, que radicalizadas culminaram nos polêmicos cavaletes de vidro do Masp, hoje brutalmente banidos do local. O museu não deveria ser um recanto de memória, um túmulo obsoleto ou um depósito de obras humanas, dizia Lina, mas um lugar vivo e dinâmico, onde devem entrar “luz e ar puro”. Mais do que isso, o museu deveria ser popular, voltado a todos, em uma concepção que pautou todos os seus projetos para espaços coletivos até o fim da vida. “Tirar do museu o ar de igreja, tirar dos quadros a ‘aura’ para apresentar a obra de arte como um trabalho, altamente qualificado, mas trabalho; apresentá-lo de modo que possa ser compreendido pelos não iniciados”, escreveu Lina certa vez.
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| Inédito: a prisão preventiva de Lina revogada |
Convidada para dar um curso e, posteriormente, criar o Museu de Arte Moderna da Bahia, no teatro Castro Alves, a arquiteta entrou em contato com outro Brasil, com a cultura popular e com realidades que desconhecia em São Paulo e no Rio. Lá também projetou a restauração do Solar do Unhão, um importante conjunto arquitetônico de Salvador, e conheceu o cineasta Glauber Rocha, o etnólogo Pierre Verger e outros importantes intelectuais.
Em 1964, de volta a São Paulo, já com as tensões geradas pelo golpe militar, Lina continuou tocando as obras do Masp, inaugurado finalmente em 1968. No entanto, mais engajada com a contracultura e com a luta contra a ditadura, Lina passou a apoiar a guerrilha nos chamados anos de chumbo, num capítulo pouco conhecido de sua vida. Sabe-se que a arquiteta sediou em sua casa reuniões da Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo de Carlos Marighella, e foi perseguida pelos agentes da repressão. Com os bons contatos que tinha, principalmente o apoio do marido – homem bem relacionado e não engajado na luta política –, Lina se exilou na Itália por cerca de uma ano, enquanto um processo de prisão corria na Justiça Militar brasileira. Lina voltou em 1971, quando os militares revogaram sua prisão preventiva (imagem ao lado). A posição política da arquiteta, aparentemente bastante à esquerda e engajada quando se analisam episódios como esse, é relativizada por alguns pesquisadores de sua vida, que enxergam uma série de contradições em suas posições ao longo da vida. Lina foi amiga de figuras conservadoras e trabalhou com políticos de direita em certos momentos, ao mesmo tempo em que foi próxima de artistas libertários e chegou a afirmar, mais de uma vez, ser “stalinista”.
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| Sesc Pompéia, SP: espaço público igualitário e democrático |
“Lina tinha um grande idealismo. E isso é diferente de utopia, pois era um idealismo de pensar não o impossível, mas o possível. Pensar um futuro melhor não abstratamente, mas no que existe, no aqui e no agora”, diz Lima. “Ela era uma pessoa extremamente generosa com a arquitetura, com a ideia de que a arquitetura tem um propósito e que ele tem que ser social, humano”, conclui. Com a visão de alguém que conviveu de perto por tanto tempo, com uma experiência não só profissional, mas afetiva e de amizade, Vainer ressalta que a generosidade ia para muito além da arquitetura. “Tanto que ela deu para mim e para o Ferraz isso tudo que temos. Ela nunca regulou conhecimento, sempre nos ensinou, exigiu que a gente tivesse uma postura em relação ao trabalho, às ideias. Quando a gente se conheceu, ela tinha 63 anos, eu 23 e o Ferraz, 22. E acho que ela pensou: ‘Vou pegar esses dois caras, porque eu preciso de alguém para fazer os desenhos e tal, mas também vou pegar para ensinar’.”
Em tempos de arquitetura monumental e extremamente cara, por vezes pouco conectada às realidades e contextos locais, Lina ressurge como outro modo possível de se pensar e fazer. Se isso ocorre um tanto tardiamente, o que importa é que a arquiteta é cada vez mais lembrada e difundida, especialmente no ano de seu centenário. “A obra da Lina não era como essa arquitetura ‘do espetáculo’, que é basicamente um exercício de técnica e virtuosismo, tão distante da realidade do homem”, diz Vainer, referindo-se a uma arquitetura de obras faraônicas que predominou nos anos 1990 e 2000. Na mesma linha, Lima conclui: “A arquitetura de Lina é espetacular, não é ‘do espetáculo’. É de propósito à vida”.
* * * * * * * * *
Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. Crédito da imagem de abertura: Arquivo Joaquim Guedes
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Bar do Elvis
por Carlos Conte*
Mais uma crônica de bar. Na verdade, um ex-bar: depois da morte do Vavá, foi demolido e se não me engano virou estacionamento. Vavá era dono de bar à moda antiga. Jaleco branco, cabelos igualmente brancos e meio amarelados, metodicamente penteados para trás e fixados com gel, magro, alto, fã do Elvis. Tão fã que muita gente chamava o lugar de bar do Elvis: um bar temático numa época em que não se falava em bares temáticos. Ali era parada obrigatória do bloco de carnaval Vai-Quem-Quer.
O lugar era bem estreito, pequeno, com um longo balcão dividindo o salão em duas partes desde a porta até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram forradas de objetos do rei: cartazes, quadros, discos. Na TV, sempre estava passando algum vídeo do Elvis, e me lembro de ter visto inteiro o show que ele fez no Havaí nos anos 70: o Elvis de colar havaiano usando aquelas roupas coloridas bregas que eu nunca entendi direito, e que são a sua marca registrada, tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou dourada de um macacão, além de umas costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa. Eu estava de gladiador. Uma dupla realmente incrível.
Ali no bar do Elvis tinha umas figuras carimbadas. Todo bar tem. Sempre estava lá um velho barbudo que eu e o Dudu apelidamos só entre nós de Velho Marinheiro, por causa da boininha na cabeça. Uma vez, o Velho Marinheiro dormiu no balcão, e logo em seguida as pessoas começaram a ver uma poça de mijo crescendo embaixo dele, formando uma represa de mijo no chão do bar! Sonhando estar diante de uma privada ou uma árvore, o Velho simplesmente tirou pra fora e começou a fazer ali mesmo. Mas não foi de sacanagem. O Velho, na verdade, era um tipo muito interessante. Tinha estilo. Mijou de bêbado, mas mijou com estilo, dormindo, a braguilha discretamente aberta, apoiando-se no balcão. Depois, como sempre, alguém chamou o táxi, pôs o Velho lá, e o Vavá telefonou para a mulher avisando que o marido bebum estava a caminho.
Num texto chamado “Supermarket”, eu anunciei, bem de passagem, a história que eu vou contar agora. Na verdade foi o irmão mais novo João, e não o próprio Vavá, que uma vez puxou papo comigo e me revelou o verdadeiro motivo da morte do rei do rock. João era tão fanático pelo Elvis quanto o Vavá. Acho que nesse dia o Galo estava tomando cerveja comigo.
– Vou contar uma coisa – disse o João, como se viesse dar uma notícia quente. –Infelizmente o Elvis morreu.
– Morreu sim – respondi.
– Pois tem gente que acha que ele não morreu, mas que ele fugiu, sem deixar pistas! Hoje vive escondido em algum lugar, protegido por uma tal lei de proteção a testemunhas ou alguma coisa do tipo. Mas isso é coisa de fanático! Eu não caio nessa conversa! Com tanto paparazzi, já teriam pegado ele de sunga numa praia do Caribe, você não acha?
Concordei com o João: Elvis estava morto.
– “Elvis não morreu” é uma isca pra manter as lojas vendendo – eu disse, com ares de sociólogo de boteco.
– Dizem que foi droga, mas não foi droga.
– Isso eu não sabia, João. Achei que tinha sido abuso de calmante ou...
– Ele morreu cagando.
– Sério?
– Sério. Acharam o corpo caído no chão do banheiro, mas ele estava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.
– Quê?!
– Ele só comia lanche do Mc Donald’s! Gente assim não dura. Falta fibra no organismo e aí prende tudo. O Elvis fez tanta força que a veia não aguentou! E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo etc. e tal... mas a realidade pouca gente sabe. Eu sei porque estudei.
– Leu numa biografia?
– Nenhuma biografia vai falar isso porque todos foram muito bem pagos para calar o bico. Você mesmo disse: as lojas têm que continuar vendendo camisas com a cara do rei. E assim a banda toca. Você sabe...
Então, calou-se. Enquanto passava flanela na TV, seus olhos fixaram a tela: ali estava Elvis cantando Love Me Tender. Seu rosto, cada vez mais próximo do rosto do Rei, iluminou-se, e em movimentos circulares João passava o pano na tela como se fizesse carinho no jovem Elvis que cantava “Ame-me com ternura / Ame-me com doçura / Nunca me deixe partir”. Da escatologia às lágrimas: João começou a chorar. Aí me dei conta de que o assunto era sério. Resolvi não perguntar mais nada. É duro falar da morte de um ídolo.
“Então o Rei morreu no lugar apropriado: o trono!”. Ia fazer essa piada mas felizmente desisti. Era hora de chorar.
Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Imagem: Futepoca
Mais uma crônica de bar. Na verdade, um ex-bar: depois da morte do Vavá, foi demolido e se não me engano virou estacionamento. Vavá era dono de bar à moda antiga. Jaleco branco, cabelos igualmente brancos e meio amarelados, metodicamente penteados para trás e fixados com gel, magro, alto, fã do Elvis. Tão fã que muita gente chamava o lugar de bar do Elvis: um bar temático numa época em que não se falava em bares temáticos. Ali era parada obrigatória do bloco de carnaval Vai-Quem-Quer.
O lugar era bem estreito, pequeno, com um longo balcão dividindo o salão em duas partes desde a porta até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram forradas de objetos do rei: cartazes, quadros, discos. Na TV, sempre estava passando algum vídeo do Elvis, e me lembro de ter visto inteiro o show que ele fez no Havaí nos anos 70: o Elvis de colar havaiano usando aquelas roupas coloridas bregas que eu nunca entendi direito, e que são a sua marca registrada, tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou dourada de um macacão, além de umas costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa. Eu estava de gladiador. Uma dupla realmente incrível.
Ali no bar do Elvis tinha umas figuras carimbadas. Todo bar tem. Sempre estava lá um velho barbudo que eu e o Dudu apelidamos só entre nós de Velho Marinheiro, por causa da boininha na cabeça. Uma vez, o Velho Marinheiro dormiu no balcão, e logo em seguida as pessoas começaram a ver uma poça de mijo crescendo embaixo dele, formando uma represa de mijo no chão do bar! Sonhando estar diante de uma privada ou uma árvore, o Velho simplesmente tirou pra fora e começou a fazer ali mesmo. Mas não foi de sacanagem. O Velho, na verdade, era um tipo muito interessante. Tinha estilo. Mijou de bêbado, mas mijou com estilo, dormindo, a braguilha discretamente aberta, apoiando-se no balcão. Depois, como sempre, alguém chamou o táxi, pôs o Velho lá, e o Vavá telefonou para a mulher avisando que o marido bebum estava a caminho.
Num texto chamado “Supermarket”, eu anunciei, bem de passagem, a história que eu vou contar agora. Na verdade foi o irmão mais novo João, e não o próprio Vavá, que uma vez puxou papo comigo e me revelou o verdadeiro motivo da morte do rei do rock. João era tão fanático pelo Elvis quanto o Vavá. Acho que nesse dia o Galo estava tomando cerveja comigo.
– Vou contar uma coisa – disse o João, como se viesse dar uma notícia quente. –Infelizmente o Elvis morreu.
– Morreu sim – respondi.
– Pois tem gente que acha que ele não morreu, mas que ele fugiu, sem deixar pistas! Hoje vive escondido em algum lugar, protegido por uma tal lei de proteção a testemunhas ou alguma coisa do tipo. Mas isso é coisa de fanático! Eu não caio nessa conversa! Com tanto paparazzi, já teriam pegado ele de sunga numa praia do Caribe, você não acha?
Concordei com o João: Elvis estava morto.
– “Elvis não morreu” é uma isca pra manter as lojas vendendo – eu disse, com ares de sociólogo de boteco.
– Dizem que foi droga, mas não foi droga.
– Isso eu não sabia, João. Achei que tinha sido abuso de calmante ou...
– Ele morreu cagando.
– Sério?
– Sério. Acharam o corpo caído no chão do banheiro, mas ele estava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.
– Quê?!
– Ele só comia lanche do Mc Donald’s! Gente assim não dura. Falta fibra no organismo e aí prende tudo. O Elvis fez tanta força que a veia não aguentou! E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo etc. e tal... mas a realidade pouca gente sabe. Eu sei porque estudei.
– Leu numa biografia?
– Nenhuma biografia vai falar isso porque todos foram muito bem pagos para calar o bico. Você mesmo disse: as lojas têm que continuar vendendo camisas com a cara do rei. E assim a banda toca. Você sabe...
Então, calou-se. Enquanto passava flanela na TV, seus olhos fixaram a tela: ali estava Elvis cantando Love Me Tender. Seu rosto, cada vez mais próximo do rosto do Rei, iluminou-se, e em movimentos circulares João passava o pano na tela como se fizesse carinho no jovem Elvis que cantava “Ame-me com ternura / Ame-me com doçura / Nunca me deixe partir”. Da escatologia às lágrimas: João começou a chorar. Aí me dei conta de que o assunto era sério. Resolvi não perguntar mais nada. É duro falar da morte de um ídolo.
“Então o Rei morreu no lugar apropriado: o trono!”. Ia fazer essa piada mas felizmente desisti. Era hora de chorar.
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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Imagem: Futepoca
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
O encantador de palavras
por Celso Vicenzi*
Constam nos registros que Manoel Wenceslau Leite de Barros, que se assinava Manoel de Barros, faleceu no dia 13 de novembro de 2014, aos 97 anos. Posto que tudo é finito e um dia completa o seu ciclo, isso é o que menos importa. O essencial é que semeou palavras que brotam e rebrotam a cada nova leitura. Sabia que a vida tem hora marcada para terminar. E não perdeu tempo. No documentário “Só dez por cento é mentira”, lançado por Pedro Cezar em 2008, o poeta, que construiu uma obra exuberante sobre as “grandezas do ínfimo”, resumiu, pleno de consciência: “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”.
Ciente de que “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”, estabeleceu para si uma outra rotina. “Não aguento ser apenas um sujeito que abre / portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que / compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, / que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. / Perdoai. / Mas eu preciso ser Outros. / Eu penso renovar o homem usando borboletas.”
Poetas, escritores, músicos, artistas de modo geral são alguns dos que procuram “amarrar o tempo no poste”. Dão algum sentido à vida para que não seja apenas a soma de esforços pela sobrevivência – e, em muitos casos, a busca desenfreada da opulência, com apetites insaciáveis que destroem a natureza, sem que tanto consumo e riqueza sejam capazes de preencher os buracos da alma e dar um pouco de plenitude ao tempo que vai do nascimento à morte.
Manoel de Barros, desde cedo, foi enfeitiçado pelo verbo que “delira”. E se tornou “encantador de palavras”. Fez desse feitiço o seu ofício, não sem antes esbarrar com todas as exigências de uma vida que pede muito mais utilidades do que poesias “sobre nada”. Ele só “queria crescer pra passarinho” e essa sabedoria o levou a roçar o infinito e devolver o ínfimo grão de pó à poeira interestelar.
Foi o poeta que iluminou “o silêncio das coisas anônimas”, desconstruiu estruturas para se aproximar da “infância da língua” com o intuito de “causar distúrbios no idioma”. Tanta originalidade e beleza acabou por criar um “idioleto manoelês archaico”. Uma nova forma de “desver o mundo”. É uma poesia que se faz de “inutensílios”, coisas, objetos e resíduos desprezados no cotidiano, tudo “o que pode ser carregado como papel pelo vento”. E tudo o que está na natureza: aves, árvores, rãs, lesmas, musgo, limo, água, barro, bichos e gentes, de todos os tipos, principalmente como Bernardo, dono de um acervo que incluía “um martelo de pregar água” e um “guindaste de levantar vento”.
A fábrica de palavras de Manoel de Barros vai do chão ao céu e contempla tudo que se move e respira, e presta atenção – mais que isso, louvação! – às miudezas de seres e objetos que compõem a paisagem dos dias e noites de uma vida a contemplar o infinito ao seu redor.
Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.
Constam nos registros que Manoel Wenceslau Leite de Barros, que se assinava Manoel de Barros, faleceu no dia 13 de novembro de 2014, aos 97 anos. Posto que tudo é finito e um dia completa o seu ciclo, isso é o que menos importa. O essencial é que semeou palavras que brotam e rebrotam a cada nova leitura. Sabia que a vida tem hora marcada para terminar. E não perdeu tempo. No documentário “Só dez por cento é mentira”, lançado por Pedro Cezar em 2008, o poeta, que construiu uma obra exuberante sobre as “grandezas do ínfimo”, resumiu, pleno de consciência: “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”.
Ciente de que “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”, estabeleceu para si uma outra rotina. “Não aguento ser apenas um sujeito que abre / portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que / compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, / que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. / Perdoai. / Mas eu preciso ser Outros. / Eu penso renovar o homem usando borboletas.”
Poetas, escritores, músicos, artistas de modo geral são alguns dos que procuram “amarrar o tempo no poste”. Dão algum sentido à vida para que não seja apenas a soma de esforços pela sobrevivência – e, em muitos casos, a busca desenfreada da opulência, com apetites insaciáveis que destroem a natureza, sem que tanto consumo e riqueza sejam capazes de preencher os buracos da alma e dar um pouco de plenitude ao tempo que vai do nascimento à morte.
Manoel de Barros, desde cedo, foi enfeitiçado pelo verbo que “delira”. E se tornou “encantador de palavras”. Fez desse feitiço o seu ofício, não sem antes esbarrar com todas as exigências de uma vida que pede muito mais utilidades do que poesias “sobre nada”. Ele só “queria crescer pra passarinho” e essa sabedoria o levou a roçar o infinito e devolver o ínfimo grão de pó à poeira interestelar.
Foi o poeta que iluminou “o silêncio das coisas anônimas”, desconstruiu estruturas para se aproximar da “infância da língua” com o intuito de “causar distúrbios no idioma”. Tanta originalidade e beleza acabou por criar um “idioleto manoelês archaico”. Uma nova forma de “desver o mundo”. É uma poesia que se faz de “inutensílios”, coisas, objetos e resíduos desprezados no cotidiano, tudo “o que pode ser carregado como papel pelo vento”. E tudo o que está na natureza: aves, árvores, rãs, lesmas, musgo, limo, água, barro, bichos e gentes, de todos os tipos, principalmente como Bernardo, dono de um acervo que incluía “um martelo de pregar água” e um “guindaste de levantar vento”.
A fábrica de palavras de Manoel de Barros vai do chão ao céu e contempla tudo que se move e respira, e presta atenção – mais que isso, louvação! – às miudezas de seres e objetos que compõem a paisagem dos dias e noites de uma vida a contemplar o infinito ao seu redor.
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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Obrigado ao menino do mato
Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.
Manoel de Barros, o meu poeta preferido, foi-se neste dia 13 de novembro aos 97 anos na garupa de um bem-te-vi-cartola, a voar as miudezas e rir as ignoranças da gente toda. O menino do mato usou palavras de ave para escrever. E fez isso como ninguém. Como ninguém voou fora da asa.
O poeta nasceu em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em 1916, onde passou a infância. Rodou e em 1949 voltou ao Pantanal para tomar conta de uma fazenda que herdou do pai. Viveu em Nova York, Paris, Itália e Portugal. Aos 97 anos tem mais de 20 livros publicados e é considerado um dos poetas da língua portuguesa mais originais de todos os tempos. E o mais lido do Brasil.
Meu amigo Renato Pompeu, que também nos deixou esse ano, quando escreveu do lançamento da poesia completa de Manoel de Barros, há alguns anos, pontuou: "“Rosas de maio”, nome de canção gravada nos anos 1940 pelo grande Carlos Galhardo, é a frase que me ocorre para saudar o grande lançamento do mês: a “Poesia completa”, de mais de 490 páginas, do grande Manoel de Barros, volume lançado pela Leya, com capa dura e magníficas ilustrações coloridas." Um livro essencial.
Rosa de Maio
Carlos Galhardo
Rosa de Maio
É meu desejo
Mandar-te um beijo
Nesta canção...
Rosa de Maio...
Deste poema
Tu és o tema
E a inspiração
Rosa de Maio...
Já não consigo
Guardar comigo
Tanta paixão!
Rosa de Maio
Por qualquer preço
Eu te ofereço
Meu coração!
Obrigado poeta!
* * * * * * *
Algumas poesias de Manoel de Barros
O livro sobre nada
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Retrato do artista quando coisa
A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
O fazedor de amanhecer
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
Tratado geral das grandezas do ínfimo
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.
Os deslimites da palavra
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas
* * * * * * *
Thiago Domenici, editor e coordenador do NR
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Volta!
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Minha querida,
Desde a nossa conversa de ontem, não me sai da cabeça a frase que li na traseira de uma van, à minha frente no sinal vermelho: “viva sem dor”. Era propaganda de analgésico, que em sua tolice atropelava o momento amargo e desolado que eu estava vivendo. Já faz um tempão, mas ficou marcado pela ironia. Como viver sem dor, se ela é parte do pacote? Como identificar a alegria e o prazer sem o contraponto da dor e do sofrimento? Como entender a luz sem a treva? Simples assim.
Queria ter a capacidade de dizer ou fazer algo que te buscasse lá no fundo desse abismo oceânico e te fizesse flutuar de novo. Que te devolvesse a deliciosa capacidade de olhar à volta e, em dois minutos, produzir comentários demolidores sobre o senso comum e a mediocridade, seus e de todos nós, porque, na sua grandeza, você se sabe tão limitada e pequena quanto a humanidade inteira. Que te reconectasse com o riso e o prazer, como quando ríamos sem parar de qualquer bobagem, sob as árvores à beira do lago do clube náutico.
Mas não tenho. Espero muito que alguém tenha, e consiga derreter essas grossas camadas de desamor, incompreensão e tristeza. Nem mesmo sei o que te dizer, só sei como me sinto quando penso em você: com o coração espremido. E tenho pensado muito.
Aqui, do lado de fora de você e de mim, há um lugar enorme e complicado, difícil de ser decodificado, inóspito, povoado de gente mesquinha e superficial. E com muita dor sobrando pra todo lado. Mas tem crianças, mixiricas, passarinhos, arroz com feijão, céu azul, livros, ipês floridos, chocolate, maçãs, chuva, doce de leite com coco, pijama molinho, tênis surrados, filmes, amigos, torta de frango. Tudo esperando por você. Volta pra cá!
* * * * * *
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Mário Pereira, o Quixote das Letras
por Fernando Evangelista*
Mário Pereira, grande contador de histórias, solitário Quixote das letras, inimigo da insensatez e da ignorância, escritor lírico e indignado, professor dos professores, amigo de São Francisco de Assis e de Ernest Hemingway, amante do Central Park e dos jardins de Florianópolis, conhecedor das coisas simples e das almas complicadas, faleceu.
Faleceu hoje pela manhã, 21 de julho, dia em que completou 73 anos, vítima de edema pulmonar. Dono de um estilo sóbrio e elegante, que não admitia gorduras, grossuras ou excessos, buscava sempre a palavra correta, a frase certeira. Como professor, Mário influenciou gerações de jornalistas. Mas isso foi depois, quando já havia caminhado pelas redações do Rio de Janeiro e do sul do país, de repórter de polícia a editor chefe.
Ele nasceu nos pampas, embora não gostasse de ser chamado de gaúcho – dizia ser porto-alegrense. Foi lá que começou no jornalismo, “quase por acaso”, naqueles anos escuros da ditadura militar. Havia concluído a faculdade de Direito, mas aquela coisa burocrática – terno, gravata e datas-vênias – não lhe dizia nada.
Foi então que encontrou, num balcão de cafezinho, Paulo Amorim, diretor do jornal Zero Hora. O convite veio em tom de intimidação: “Mário, vamos trabalhar juntos”. O jovem recém-formado tentou desconversar, tomou outro café, espiou as horas, quis ir embora, mas não houve jeito e se rendeu. Pouco depois já era o editor-chefe do jornal. Tinha 26 anos.
E nesse interim – ele que me perdoe, mas contarei um segredo – foi também autor de uma famosa coluna social no Rio Grande do Sul, com pseudônimo, naturalmente. Veio para Florianópolis em 1986 com a equipe que iniciou o Diário Catarinense, do grupo RBS, o primeiro jornal informatizado do Brasil. Depois foi editor-chefe de O Estado, também na capital, e lá fez história em coberturas memoráveis, ao lado de amigos que ficaram para a vida toda.
Como um bom filho pródigo, voltou ao DC, onde, por quase duas décadas, foi editor de opinião. Vivia do jornalismo, mas sua grande paixão, ao lado dos seus inseparáveis cães e gatos, eram os livros. Sua primeira obra é de 1993, Fazendo a Cabeça – Jornalismo de Ideias e Críticas (Editora Paralelo 27). No ano seguinte, escreve Pequena História de Florianópolis (Editora Terceiro Milênio), relançada anos depois, e com grande sucesso de vendas, pela editora Cuca Fresca, com novo título: Histórias de Florianópolis para ler e contar.
Em 1995, publica Certas Certezas (Editora Terceiro Milênio) e recebe o Prêmio Othon Gama D’Eça, conferido pela Academia Catarinense de Letras ao melhor livro do ano. Nesses ensaios, como de costume, Mário não foge à polêmica e tem a coragem de criticar o multiculturalismo, “esse traiçoeiro rio”, e a síndrome do politicamente correto, “um dos seus mais poluídos afluentes”, além de detonar, sem piedade, o pagode, a lâmpada fosforescente e o atual jornalismo brasileiro.
“Os jornais de hoje”, dizia ele, “são imbatíveis para embrulhar peixe no mercado, forrar a gaiola do canário e a casinha do cachorro”. Cada vez mais descrente do “quarto poder”, faz seu primeiro mergulho na ficção com o conto Nem todas as Kombis são Brancas, incluído na antologia Círculo de Mistério, lançado pela Editora Garapuvu em 2000.
Dois anos depois, pela mesma editora, Mário homenageia os escritores do Estado com o delicioso Ao Pé da Letra – Escritores Catarinenses Contemporâneos e Outros textos. Em 2004, lança o primeiro livro de ficção, 12 Histórias, e conquista, outra vez, o Prêmio Othon Gama D’Eça.
Mário foi eleito para a Academia Catarinense de Letras em 2009. Em 2011, pela Insular, lança Saudade do Futuro, com crônicas sobres seus temas mais caros: os bichos, o cinema, os amigos... Sua última obra, Roteiro Histórico e Sentimental pelas ruas de Florianópolis, foi lançada pela Unisul em 2013.
Como jornalista, escritor e queridíssimo amigo, Mário tinha a capacidade de perceber o invisível, de captar o não dito, de fotografar o perfume. Apesar de ser um crítico de grande rigor, era extremamente generoso. Tinha sempre a mão estendida e com ela uma frase qualquer, dita de improviso, que fazia o interlocutor rir do mundo e de si mesmo. E seguir em frente com mais coragem.
Mário fará muita falta. Mas ainda bem que sua obra está aí, cada vez mais atual, mais necessária e sempre deliciosa. O exemplo de sua honestidade, elegância, dignidade, o exemplo de sua indignação ética e de suas inesquecíveis aulas também vão ficar. Portanto, sem choro, porque ele não gostava disso.
Obrigado, mestre. Obrigado por tudo.
* * * * * *
Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Crédito foto: Glaicon Covre (Diário Catarinense)
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sexta-feira, 27 de junho de 2014
Roda mundo roda moinho
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
E ele fez setenta anos na semana passada, celebrado e paparicado. Na minha opinião, sempre menos do que merece, pela vertiginosa quantidade de maravilhas que já produziu, em palavras e notas, desde a mais delicada filigrana até os gritos de dor e impotência diante das inesgotáveis complicações da vida.
Deparei-me com uma daquelas comemorações contábeis, em que alguém fez uma lista das dez canções de Chico Buarque que considera mais bonitas. Já não gostei da proposta, pois eu aqui posso citar umas quarenta e cinco, de carreirinha, sem piscar. Mas fui ver a tal lista, para constatar que seu autor e eu nada temos em comum, exceto a tietagem do Chico. Espremeu tanto para tirar dez, deixando de fora “Beatriz”, “Todo o sentimento” e “Roda viva”, por exemplo. Deve ter sido escolha de computador. Mas é que são tantas, tantas, que posso entender a enorme dificuldade da tarefa.
Comecei a me interessar pela MPB lá pelos quinze anos. Antes disso, só curtia Jovem Guarda. Um belo dia, sem aviso prévio, aquelas canções ingênuas ou açucaradas sobre carros, namoradinhas e beijos no cinema perderam o sentido. Foi como amanhecer um dia com febre, uma enorme vontade de mergulhar na música que eu entreouvia aqui e ali, que era de outro jeito, falava de outras coisas. “Roda viva” já era um grande sucesso, fui ler a letra, aprender a cantar junto. Senti-me muito mais inteligente e adulta do que na véspera.
Tantas coisas cabem numa canção, bendito clichê, ainda mais quando saída de neurônios e sentimentos capazes de ler e traduzir a experiência humana. O tempo rodando as voltas do coração naqueles dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu. O mundo cresceu ou foi a gente que estancou? Remamos contra a corrente até não poder resistir, e quando o barco faz a volta sentimos o quanto faltou cumprir. A gente toma a iniciativa, sai cantando pela rua de viola em punho, mas é tudo ilusão passageira, levada pela primeira brisa. O concreto mesmo é a roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião. Parece que estamos sempre atrasados? É ilusão.
* * * * * *
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
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segunda-feira, 21 de abril de 2014
Gracias, Gabo
por Ricardo Viel*
O mar traz a uma pequena vila de pescadores um afogado que, de tão grande, é confundido pelos meninos que brincam na praia com uma baleia. Retirado do mar, vê-se que se trata de um morto desconhecido. É limpo e cuidado pelas mulheres da localidade, que se apaixonam ao verem sua beleza e virilidade. Os homens o invejam e o respeitam. Depois de um esplêndido funeral, digno da altura e beleza do morto, a vila cai em um desamparo. “Não tiveram necessidade de olhar-se uns aos outro para perceber que já não estavam completos, nem voltariam a estar jamais. Mas também sabiam que tudo seria diferente a partir de então, que suas casas passariam a ter as portas mais largas, os tetos mais altos, os pisos mais firmes, para que a lembrança de Esteban pudesse andar por todas as partes sem tropeçar com traves”. Embelezariam a vila com flores para que de longe percebessem que aquele era o lugar de Esteban.
Assim como o afogado do seu conto, Gabriel García Márquez deixou marcas indeléveis em nossas vidas. Um antes e um depois. Já não somos os mesmos após ler sobre a solidão dos Buendía, a saga dos amores contrariados de Florentino e Fermina e Maria de Los Placeres, a absurda morte de Santiago Nasar, a infinita tristeza de Cândida Erêndira. E tanto é assim, que já não nos contentamos com chama-lo de García Márquez. É nosso Gabo, mudou nossas vidas, passou a pertencer a nosso espaço e como o afogado Esteban criou entre nós (seus leitores) laços familiares.
Eu, particularmente, a Gabo lhe devo muito desde aquele verão ainda do século passado quando comprei em algum lugar do Peru ou Bolívia dois livrinhos usados, gastos, com o objetivo de me entreter na viagem e tentar aprender espanhol. Era “Crônica de uma morte anunciada” e “Relato de um náufrago”. Depois daquele dia eu já não seria o mesmo. Quis aprender espanhol para ler Gabo. Li e reli tudo dele e sobre ele, e nunca nenhum escritor voltou a me maravilhar tanto. A ele devo em boa parte o fato de ter me tornado jornalista, e lhe sou grato pelo mês mais intenso e enriquecedor da minha vida que passei em Cartagena fazendo um curso na fundação Gabriel García Márquez.
Gabo dizia que escrevia para que seus amigos o amassem mais. Conseguiu mais do que isso. Conseguiu que uma legião de pessoas espalhadas pelo mundo o amassem e o considerassem amigo ao ponto de chama-lo simplesmente de Gabo. Mas seu sucesso foi também um castigo que o impedia de ter uma vida normal. Comparava a fama com o poder pela solidão a que ambos condenavam. Numa conversa com Plínio Apuyelo disse que o livro que passou a vida escrevendo não era o de Macondo, mas sim “o livro da solidão”. É por isso que foto de Daniel Mordzinski (que ilustra essa texto) em que Gabo aparece vestido de branco e amarelo sentado na beira de cama de sua casa em Cartagena é a imagem definitiva. Está só e tem um olhar perdido e sereno, que provoca afeto e certa pena. Para mim, a foto dá a exata dimensão do tamanho daquele homem e de sua solidão.
Na quinta-feira, 17 de abril, logo após o anúncio da sua morte, recebi mensagem de muita gente querida que dizia basicamente que havia lembrado de mim. Gente que sabia o quanto eu amava e era grato àquele homem a quem nunca conheci, mas que tanto fez e fará parte da minha vida. Minha dívida só não é maior do que minha admiração. Muchas gracias, Gabo.
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Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal. Imagem: Daniel Mordzinski
sexta-feira, 18 de abril de 2014
De como Gabo transformava mentiras em verdades
por Ricardo Viel*
Morreu ontem, 17 de abril, aos 87 anos, um dos mais influentes e brilhantes escritores de todos os tempos: o colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Nobel de Literatura de 1982. Em 2010, nosso colunista Ricardo Viel fez uma reportagem sobre Márquez que achamos por bem republicá-la. Gabo, como era carinhosamente chamado, disse certa vez: “A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.” Para Ricardo, as muralhas que protegem a cidade colombiana de Cartagena de Índias, de calor inclemente, com sacadas das típicas casas do centro antigo, tornou difícil sua missão de dizer qual a lembrança mais marcante da “cidade mais bela do mundo”, segundo o próprio escritor. Na reportagem, você vai conhecer um pouco mais os lugares e histórias das pessoas que fazem parte da obra do colombiano. “De lá, além das histórias, trouxe uma semente de amêndoa, árvore presente nos relatos de Gabo”, relembra o repórter.
Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores
Um senhor de estatura mediana, óculos exageradamente grandes, pele morena e cabelos e bigodes grisalhos, caminha pelo pátio do convento de Santa Clara, em Cartagena de Índias, no Caribe colombiano. Misturado aos engenheiros, arquitetos e operários que trabalham na restauração do prédio, o homem vestido de branco e com um chapéu panamá enterrado na cabeça transita pelo mosteiro em busca de inspiração para sua nova novela. Na visita a uma tumba, o escritor, um colombiano conhecido mundialmente como Gabo, se recorda de uma visita que fez ao convento, quarenta anos antes, por conta de uma reportagem. Lembrança tão viva como se tivesse voltado ao meio dia daquele outubro de 1949 e vivesse aquilo pela primeira vez.
Gabriel Garcia Márquez venceu com dificuldade as poucas quadras que separavam a redação do “El Universal” do convento de Santa Clara. Buscou refúgio na sombra das varandas coloridas do centro da histórica cidade, mas chegou ao mosteiro empapado de suor e descrente de que a tarefa de acompanhar a desocupação das tumbas poderia render muito mais do que alguns centímetros no jornal do dia seguinte. O prédio do século 17 estava prestes a mudar de função: sairiam as freiras e entrariam os hóspedes de um hotel de luxo – motivo da retirada dos restos mortais. Nos fundos da capela, o processo da desocupação das tumbas onde, há séculos, repousavam religiosos e nobres da cidade, já estava em marcha. De um buraco no chão, imersos em uma nuvem de poeira, três operários, em um ritual silencioso e coordenado, retiravam os ossos, faziam com eles pequenos montes e os identificavam. Quando da abertura da terceira cripta, que trazia escrito o nome sem sobrenome de Sierva Maria de Todos los Ángeles, o repórter se deu conta de que aquele 26 de outubro de 1949 ficaria marcado para sempre em sua vida. Quarenta e cinco anos depois, Gabo dedicaria o prólogo de seu livro “Do Amor e de Outros Demônios” a contar essa história.
Na terceira urna, ao lado do evangelho, ali estava a notícia. A lápide se espedaçou com o primeiro golpe de picareta, e uma cabeleira viva, de uma cor de cobre intenso, se derramou para fora da cripta [...] Estendida no chão, a cabeleira esplendida media vinte e dois metros e onze centímetros.
A novela é inspirada na lenda, contada por sua avó, de uma marquesa, dona de uma cabeleira ruiva, tão grande "que se arrastava como véu de noiva", que após morrer de raiva aos 12 anos de idade passou a ser venerada no Caribe por seus milagres. "A ideia de que essa tumba pudesse ser a sua, foi minha notícia daquele dia e a origem deste livro."
Uma catacumba é o atrativo
O antigo convento de Santa Clara é hoje um hotel cinco estrelas, o mais luxuoso da cidade. Em 1987, a rede Sofitel comprou o prédio com a condição de restaurá-lo e preservar suas características. A capela, os quartos das freiras clarissas (transformados em habitações para os hóspedes) e as criptas funerárias, foi recuperado em um processo que durou quase uma década. E são justamente as catacumbas do prédio, em especial uma delas, o maior atrativo do lugar. No centro de um bar estilo “lounge”, entre um sofá e outro, escondida pela pouca luz do ambiente, há uma escada. Três metros abaixo do nível do chão, em uma salinha pequena, sufocante, e decorada com um candelabro, está a tumba aberta e vazia de Sierva Maria de Todos los Ángeles.
“Não gosto muito de ficar aqui. Não sei, me dá um pouco de medo”, cochicha Yanelis Sepúlveda enquanto desce os seis degraus que levam à cripta. A mulata de 28 anos, bela e elegante, é consierge do hotel Santa Clara desde 2002. Está acostumada a mostrar a "hóspedes especiais" (leia-se autoridades e afins) o amplo jardim do antigo convento onde as clarissas cultivavam rosas, os túneis que ligavam clandestinamente as freiras ao mundo exterior e as antigas habitações do mosteiro.
Com um sorriso no rosto, apresenta aos visitantes a capela barroca, o antigo refeitório (hoje um luxuoso restaurante) e lhes pousa Clara, um simpático tucano, nos braços para fotos. Mas se não for solicitado, Yanelis desvia das lápides e das celas onde as freiras de mau-comportamento (como Sierva Maria de Todos los Ángeles no livro de García Márquez) eram enclausuradas. Para ela, o lugar é assombrado.
“Dizem que há uma mulher, vestida de vermelho, que costuma andar pelos corredores. Eu nunca vi. Mas também nunca ando sozinha aqui de noite. Nunca vi nada, mas já escutei uma gargalhada muito alta vinda de um quarto que estava desocupado. Também já senti uma respiração no meu pescoço quando eu entrava na capela”, mostra o braço com os pêlos levantados.
Leitora atenta de Garcia Márquez, Yanelis consegue identificar no convento os cenários descritos pelo escritor na novela, mas traz consigo uma dúvida: “Gostaria de perguntar a ele, saber o que é sua criação e o que é verdade nessa história toda. Se ele realmente entrou na cripta, se a Sierva Maria estava lá. O que ele viu, de verdade, quando entrou lá”.
A pergunta poderia ter sido feita pessoalmente ao escritor em duas oportunidades, mas faltou coragem à mulata. “Em uma delas, era para um encontro muito confidencial. Estava cheio de seguranças, ele ia se encontrar com alguém para mediar um processo de paz. Alguma coisa a ver com a ONU. Não me atrevi. Da outra, era uma festa. Eu vi aquele velhinho tão divino e fiquei com vergonha de atrapalhar a festa dele”, lamenta.
O hotel, cuja hospedagem mais econômica custa 350 dólares, permanece algumas horas do dia aberto à visitação. Diariamente, curiosos acudem à sala das criptas. Em um livro de presença aberto sobre à lápide os amantes da prosa de García Márquez deixam suas mensagens; em geral, registros de passagem como este: “No dia 11 de agosto de 2009, Vinicius e Carolina estiveram em Cartagena e visitaram a tumba de Sierva Maria de Todos los Ángeles.” Há muitos anos, a história dos metros de cabelos encanta e comove leitores do mundo todo.
"É preciso pinçar o que ele escreve"
A poucos metros do convento, um muro alto alaranjado esconde um sobrado de esquina, com um jardim amplo e bem cuidado. O morador do número 38-205 da rua Del Curato, era Gabriel Garcia Márquez. A construção da casa do escritor – que desde os anos 60 vivia no México –, explica muito da história de Sierva Maria de Todos los Ángeles. “Na época em que escreveu o livro, Gabito passou muitos meses em Cartagena, porque acompanhava as obras em sua casa. Seguramente a restauração do convento o influenciou a escrever a história”, conta Jaime García Márquez, um dos 14 irmãos do escritor e diretor da fundação criada em 1995 por Gabo para fomentar o jornalismo na América Latina, a FNPI.
Quanto à reportagem citada no início do livro, Jaime García faz uma observação enigmática: “É preciso pinçar o que ele escreve”.
A explicação para o comentário surge quando as peças do quebra-cabeça são aproximadas. Elas não se encaixam. O convento de Santa Clara foi o hospital local universitário de Cartagena até a metade dos anos 1970. Abandonado e em ruínas, o prédio foi comprado pela cadeia de hotéis Sofitel em 1987. Gabriel Garcia Márquez pode até ter visitado o local em 1949, mas não acompanhou nenhuma remoção, pelo simples fato de que elas, se de fato existiram, aconteceram quarenta anos depois, na época da restauração.
Os textos de García Márquez em sua época de repórter em Cartagena e Barranquilla foram recompilados, mas não há nenhuma reportagem sobre o convento de Santa Clara. O jornalista colombiano Gustavo Arango, autor do livro “Un ramo de no me olvides: Gabriel García Márquez en El Universal” (inédito no Brasil), buscou e jamais encontrou a reportagem de Gabo no convento.
“O que ele fez no prólogo do livro foi sobrepor eventos. Detrás das imprecisões dos fatos por ele narrados, há verdades muito certeiras. Acredito que a mais importante é apontar essa época como muito importante em sua vida. Suas primeiras experiências como repórter e a influência de Clemente Manuel Zabala no seu início [o nome de Zabala, primeiro chefe e mentor de Gabo, é citado na introdução do livro]”, explica Arango. Segundo o pesquisador, tampouco é de toda verdadeira a afirmação de Gabo de que dia 26 de outubro de 1949 não foi um “dia de grandes notícias” em Cartagena.
“Me dediquei a procurar o que havia acontecido nesse dia, e de fato, na Assembléia Municipal, houve uma violenta briga entre os políticos. Aqueles dias foram intensos em matéria política”, acrescenta.
Arango também teoriza sobre a data citada pelo novelista no prólogo do livro. “Fiz várias conjecturas, talvez descabeladas. Gabo gosta muito do mês de outubro. Em 'Ninguém escreve ao coronel' (1961) ele fala de outubro, das chuvas de outubro. Em muitos outros livros aparecem 'outubros chuvosos'. O 'Outono do Patriarca' (1975) está cheio de outubros. Quanto à data exata, há um dado curioso: em alguns livros antigos fala-se que o momento em que Deus diz: 'faça-se a luz' foi em 26 de outubro. Aproximadamente às nove da manhã.”
Jaime García Márquez também lê o prólogo de "Do Amor e de Outros Demônios" como uma homenagem a Clemente Manuel Zabala. Uma forma que o escritor encontrou de "reconhecer a importância do chefe em seu começo de carreira como jornalista". Para ele, a chave para entender toda a obra do irmão está na autobiografia “Viver para Contar” (2002), mas precisamente na frase fundamental do livro: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”. Para Jaime, a mensagem é endereçada aos amigos e familiares e tem como objetivo dizer-lhes: não busquem incoerências ou equívocos em minha biografia, essa foi minha vida porque assim são minhas lembranças. “Com essa frase ele nos venceu”, sorri, resignado, o irmão do Nobel de Literatura 1982.
Mas o próprio irmão, que largou o trabalho como engenheiro para assumir a fundação criada por Gabo, certa vez o indagou sobre uma passagem do livro em que é citado. “Ele diz que eu dividia quarto com dois irmãos mais novos e passava noites pregando aos menores sobre filosofia e matemática. Eu nunca dormi no terceiro andar daquela casa, nunca dividi quarto com os irmãos que ele cita... Eu tinha três anos, como podia falar sobre matemática com alguém?”. A resposta foi simples e irrefutável: “Você não entende nada. Se você tivesse, naquela época, divido quarto com eles e fosse mais velho, com certeza passaria todo o tempo falando de filosofia e matemática”.
Verdades do coração
A anedota contada pelo irmão Jaime faz crer que de certa forma nem o próprio escritor consegue delimitar exatamente onde termina a realidade e onde começa sua criação. “Não há em minhas novelas uma linha que não esteja baseada na realidade”, costumava repetir Gabo. “Acho que ele aplicou em seu trabalho como escritor um pouco da ideia de um de seus mestres, William Faulkner, que fala sobre as verdades do coração. A história pode não ser completamente fiel aos fatos, mas, mesmo quando se inventam detalhes, há um respeito profundo pelas verdades do coração”, analisa Gustavo Arango.
A fronteira nebulosa entre o real e o fantástico existente na obra do Nobel colombiano às vezes chega ao cúmulo de ser o limite entre a história pré e pós-García Márquez. Em alguns momentos, mais do que moldar-la, o escritor consegue, alterar a história. O chamado “massacre dos bananeiros” (1928) quando os funcionários da United Fruit Company resolveram protestar pelas péssimas condições de trabalho e foram violentamente reprimidos pelas forças armadas colombianas é exemplar. Revisto após a publicação de “Cem Anos de Solidão (1967)”, o episódio tem hoje uma importância histórica muito maior do que há algumas décadas. Inclusive o número de mortos na matança que costuma ser o mencionado – os 3 mil que Gabo cita no livro é muito maior do que o estimado por historiadores. Ou seja, depois de 1967 o que foi uma violenta repressão virou um massacre com milhares de mortos.
Jaime Garcia conta que nos anos 1970 recebeu uma bonita carta do irmão que falava do futuro deles e do país e terminando com uma incumbência: levantar dados sobre o massacre, em especial o número de mortos. Depois de meses de pesquisa, mandou a resposta ao irmão: comprovadas, haviam oito mortes, 2.992 menos do que as citadas pelo escritor em sua obra.
A história de Sierva Maria de Todos los Ángeles é outro exemplo dessa capacidade de Gabo de transformar a realidade. A cripta é visitada diariamente, e a reportagem que nunca existiu não raramente é citada como uma das melhores do escritor, não só por seus leitores, mas no meio acadêmico.
“O que ele faz ao mencionar a reportagem que não existiu é usar um expediente para dar verossimilhança à obra, uma coisa comum entre os escritores. Todos sabiamos que não era verdade aquilo, mas hoje há peregrinação para visitar o túmulo”, diverte-se Eric Nepomuceno, escritor e amigo pessoal de Garcia Márquez. Tradutor de alguns livros de Gabo, entre eles “Viver para Contar”, Nepomuceno minimiza a importância de se separar o real da criação na obra de García Márquez: “Quem conhece a América Latina sabe que tudo o que está na obra dele pode ou poderia ter acontecido”.
Em 1982, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez fez questão de falar sobre o tal realismo fantástico. Segundo ele, a realidade desse universo latino-americano é tão rica, que é preciso pedir “muito pouco” à imaginação. "O desafio maior para nós [latino-americanos] tem sido a insuficiência de recursos convencionais para fazer críveis nossa vida. Este é, amigos, o nó da nossa solidão."
Historinhas
Gabo recebeu pedido para mudar o final do livro
Ao finalizar “Do Amor e de Otros Demônios”, Gabo entregou o manuscrito do livro ao irmão Jaime e a cunhada Margarita. Eles já sabiam da história do livro, mas não conheciam o final. Margarita passou a noite lendo o manuscrito e, no dia seguinte, quando encontrou Gabo, lhe fez um comentário e um pedido: havia gostado muito da novela e nem um pouco do final. Tentou convencê-lo de que Sierva Maria não podia morrer. “Argumentou que em todos os seus livros, exceto ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ (1985) tinham finais tristes e de que os personagens, desta vez, mereciam ser felizes”, conta Jaime.
Solidário à dor da cunhada, García Márquez tentou convencê-la de que, no contexto da obra, Cayetano Delaura não tinha outro destino do que aquele, permanecer só. Fez Margarita entender que ele, apenas um escritor, não podia mudar o final daquela história, que já estava escrita havia séculos antes de publicada. Só pôde, ao lado da cunhada, lamentar a má sorte que tiveram Sierva Maria e Cayetano Delaura, reféns, não de um escritor e seus desejos, mas de um destino que sabe quem governa com uma força imutável há séculos. E Margatina aceitou os argumentos de Gabo? “Não. De modo algum”, responde, risonho, Jaime García.
Presente
O título do livro escrito por García Márquez em 1994 foi dado de presente a ele pelo cineasta brasileiro Ruy Guerra. Quem conta a história é Eric Nepomuceno. "Em 1991, o Ruy me chamou para escrever um roteiro de um filme com ele, que se chamaria 'Lua Negra'. No meio do trabalho, ele mudou o nome para 'Do Amor e de Outros Demônios', título que para mim não dizia nada. Então veio o Collor, o filme nunca foi rodado, e um dia o Ruy contou essa história para o Gabo. Ele ficou encantado com o título e disse que seria perfeito para uma novela que estava escrevendo. O Ruy, então, deu pra ele de presente esse título."
“Dou de presente para você os direitos. Faça”.
Em 2005, em uma oficina de cinema em Cuba, Gabriel García Márquez conheceu a cineasta costarriquense Hilda Hidalgo. Durante o curso, em uma conversa, ela comentou com o escritor que achava que de todas as suas novelas a que melhor poderia ser adaptada ao cinema era “Do Amor e de Outros Demônios”. Lamentou que ninguém nunca tivesse feito. Gabo então lhe disse: “Dou de presente para você os direitos. Faça”.
Hilda Hidalgo precisou de dois anos para escrever o roteiro e encontrar os atores. A colombiana Elisa Triana, de 13 anos, foi a escolhida para fazer Sierva Maria de Todos Los Ángeles. Cayetano Delaura será o espanhol Pablo Derqui, de 28 anos.
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Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Como assim você morreu, Renatão?
por Thiago Domenici*
Nos falamos pela última vez na sexta-feira. Ele estava bem, me disse. Combinávamos uma resenha para a Retrato do Brasil e uma matéria sobre Copa do Mundo para a edição de maio. Aos 72 anos, Renatão (Renato Pompeu) mantinha um ritmo de trabalho impressionante. E sempre estava em busca de frilas para pagar as contas.
Hoje você deveria me escrever e fazer uma troça da vitória da sua Ponte Preta sobre o meu São Paulo. E agora, quem é que vai me ligar quase que semanalmente para, antes de contar uma piada e esperar com ar de expectativa o veredicto, perguntar: “Thiagôô, quais são as novidades?” Eu nunca sabia o que responder. “Temos então um jornalista sem novidades, hummmm...”, me ironizava.
Quando ficávamos algum tempo sem contato você dizia: “Thiagôô, é de praxe, entre amigos, que um procure o outro, sabia disso?”. Pois é, Renatão. Pois é... vacilei muitas vezes. Você foi uma grande influência para mim. E tive a oportunidade de dizer isso pra você. E agora, vendo os jornais fazerem seu obituário, me parece uma puta injustiça com o que você foi e representou para tanta gente. Você foi muitos, Renatão, e de uma capacidade intelectual raríssima. Uma enciclopédia ambulante, eu costumava te dizer. Você era um crítico do que se transformou o jornalismo brasileiro. Se indignou com a forma como as mulheres eram tratadas nas redações. Você Renatão, como bem lembrou o Silvio Lancelotti, em depoimento no Facebook, era um tipo inesquecível. Ele diz: “Jamais me esquecerei da noite em que os meganhas do Doi-Codi foram buscá-lo na redação de "Veja" – e ele voltou até a sua mesa porque havia se esquecido do guarda-chuva...”
| Mais de Renatão |
- Leia matéria abaixo, homenagem do Diário do Commercio
- Morre aos 72 anos Renato Pompeu, um mestre do jornalismo brasileiro (Rede Brasil Atual, por Paulo Donizetti de Souza)
Um homem com tantas histórias que seus causos preencheriam muito mais do que os 22 livros que você publicou ao longo da vida. Livros, aliás, como Canhoteiro – o Homem que driblou a glória, Quatro-olhos, Memórias da Loucura. Livros incríveis.
Quando o conheci na Caros Amigos, em 2004, você chegava de mesa em mesa contando a mesma piada. Que figura! Lembro ainda de você contar a história do “parabéns para você” antes de iniciarmos a sua festinha com bolo e refrigerante, como era de seu agrado. Sabe, Renatão, tem um causo que sempre conto de você. Num fechamento, lá pelas tantas da noite, ao esperar por horas a chegada de uma reportagem que eu disse que chegaria em 20 minutos, você levantou da mesa e veio até mim com seu andar vagaroso para dizer em tom solene: “Thiagôô, se as minhas fodas durassem os 20 minutos que você diz eu seria um homem feliz...”.
Pois é, Renatão, quem viu você cantar em alemão a “Oração de mãe menininha” não esquecerá jamais. Outra boa sua é a entrevista que deu ao Jô Soares. Divertidíssima e tão lúcida sobre uma situação de grande delicadeza, a esquizofrenia que você tratava.
Em 2009, quando montei para você o seu blog – Blog do Renatão – me senti muito feliz por ajudá-lo a manter ativa sua produção intelectual. Você quis desistir, lembra? Dizia que ninguém lia. Eu retruquei que você tinha eu como leitor fiel e você riu. Obviamente você tinha muitos leitores, Renatão. Você é muito admirado. Então, te pergunto, como assim você morreu?
Suas realizações e trajetória no jornalismo são de arrepiar, apesar de você dar importância menor a isso. Foi copidesque da Folha (então Folha da Manhã) aos 18 anos. Esteve na turma que revolucionou o Jornal da Tarde na década de 1960, participou da revista Veja no seu início, quando era uma revista para ser lida com maior entusiasmo. Ganhou prêmio Esso e tudo o mais. Em 1999, quando ingressou na revista Caros Amigos, onde ficou mais de uma década, levado pelo nosso Serjão, você escreveu que era preciso sair do jornalismo para ser jornalista.
De cabeça, lembro de você ter colaborado para o Jornal do Commercio, Carta Capital, Estadão, Revista do Brasil além desses veículos já citados... E quando te perguntaram em 2008 que conselhos você daria para alguém que está começando no jornalismo você me saiu com essa: “1) Abandonar imediatamente a profissão e escolher outra. 2) Se não for possível isso, procurar se estabelecer por conta própria na internet, com patrocínio próprio que não interfira na sua independência. 3) Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios."
Renatão, guardo com carinho sua mensagem do ano passado, depois de nos desentendermos por uma questão menor, quando você diz, “Saiba que você, entre as pessoas que conheço, é uma das mais queridas”. “Sempre a nossa amizade”, Renatão, como você costumava finalizar ao cantar parabéns para seus amigos. Você vai fazer muita falta.
Essa minha homenagem no NR, blog que você colaborou tantas vezes, é só um carinho a quem tanto quero bem. Seu talento, amizade e grandeza deixa um grande vão nessa selva toda em que vivemos. O jornalista e mestre Carlos Azevedo disse algo muito bonito sobre você no Facebook, Renatão: "O Renato é aquele cara que não morre, que não machuca ninguém, a não ser quem sabe pelo seu imenso rompante amoroso. Lamento muito porque a perda é grande. Uma luz forte que rasgava as trevas da ignorância se apaga. Viva para sempre, Renato, no brilho de seus trabalhos!”. Ao que soubemos seu coração parou na madrugada de domingo. E o meu bate mais forte agora de saudade de você.
Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR
Nos falamos pela última vez na sexta-feira. Ele estava bem, me disse. Combinávamos uma resenha para a Retrato do Brasil e uma matéria sobre Copa do Mundo para a edição de maio. Aos 72 anos, Renatão (Renato Pompeu) mantinha um ritmo de trabalho impressionante. E sempre estava em busca de frilas para pagar as contas.
Hoje você deveria me escrever e fazer uma troça da vitória da sua Ponte Preta sobre o meu São Paulo. E agora, quem é que vai me ligar quase que semanalmente para, antes de contar uma piada e esperar com ar de expectativa o veredicto, perguntar: “Thiagôô, quais são as novidades?” Eu nunca sabia o que responder. “Temos então um jornalista sem novidades, hummmm...”, me ironizava.
Quando ficávamos algum tempo sem contato você dizia: “Thiagôô, é de praxe, entre amigos, que um procure o outro, sabia disso?”. Pois é, Renatão. Pois é... vacilei muitas vezes. Você foi uma grande influência para mim. E tive a oportunidade de dizer isso pra você. E agora, vendo os jornais fazerem seu obituário, me parece uma puta injustiça com o que você foi e representou para tanta gente. Você foi muitos, Renatão, e de uma capacidade intelectual raríssima. Uma enciclopédia ambulante, eu costumava te dizer. Você era um crítico do que se transformou o jornalismo brasileiro. Se indignou com a forma como as mulheres eram tratadas nas redações. Você Renatão, como bem lembrou o Silvio Lancelotti, em depoimento no Facebook, era um tipo inesquecível. Ele diz: “Jamais me esquecerei da noite em que os meganhas do Doi-Codi foram buscá-lo na redação de "Veja" – e ele voltou até a sua mesa porque havia se esquecido do guarda-chuva...”
| Mais de Renatão |
- Leia matéria abaixo, homenagem do Diário do Commercio
- Morre aos 72 anos Renato Pompeu, um mestre do jornalismo brasileiro (Rede Brasil Atual, por Paulo Donizetti de Souza)
Um homem com tantas histórias que seus causos preencheriam muito mais do que os 22 livros que você publicou ao longo da vida. Livros, aliás, como Canhoteiro – o Homem que driblou a glória, Quatro-olhos, Memórias da Loucura. Livros incríveis.
Quando o conheci na Caros Amigos, em 2004, você chegava de mesa em mesa contando a mesma piada. Que figura! Lembro ainda de você contar a história do “parabéns para você” antes de iniciarmos a sua festinha com bolo e refrigerante, como era de seu agrado. Sabe, Renatão, tem um causo que sempre conto de você. Num fechamento, lá pelas tantas da noite, ao esperar por horas a chegada de uma reportagem que eu disse que chegaria em 20 minutos, você levantou da mesa e veio até mim com seu andar vagaroso para dizer em tom solene: “Thiagôô, se as minhas fodas durassem os 20 minutos que você diz eu seria um homem feliz...”.
Pois é, Renatão, quem viu você cantar em alemão a “Oração de mãe menininha” não esquecerá jamais. Outra boa sua é a entrevista que deu ao Jô Soares. Divertidíssima e tão lúcida sobre uma situação de grande delicadeza, a esquizofrenia que você tratava.
Em 2009, quando montei para você o seu blog – Blog do Renatão – me senti muito feliz por ajudá-lo a manter ativa sua produção intelectual. Você quis desistir, lembra? Dizia que ninguém lia. Eu retruquei que você tinha eu como leitor fiel e você riu. Obviamente você tinha muitos leitores, Renatão. Você é muito admirado. Então, te pergunto, como assim você morreu?
Suas realizações e trajetória no jornalismo são de arrepiar, apesar de você dar importância menor a isso. Foi copidesque da Folha (então Folha da Manhã) aos 18 anos. Esteve na turma que revolucionou o Jornal da Tarde na década de 1960, participou da revista Veja no seu início, quando era uma revista para ser lida com maior entusiasmo. Ganhou prêmio Esso e tudo o mais. Em 1999, quando ingressou na revista Caros Amigos, onde ficou mais de uma década, levado pelo nosso Serjão, você escreveu que era preciso sair do jornalismo para ser jornalista.
De cabeça, lembro de você ter colaborado para o Jornal do Commercio, Carta Capital, Estadão, Revista do Brasil além desses veículos já citados... E quando te perguntaram em 2008 que conselhos você daria para alguém que está começando no jornalismo você me saiu com essa: “1) Abandonar imediatamente a profissão e escolher outra. 2) Se não for possível isso, procurar se estabelecer por conta própria na internet, com patrocínio próprio que não interfira na sua independência. 3) Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios."
Renatão, guardo com carinho sua mensagem do ano passado, depois de nos desentendermos por uma questão menor, quando você diz, “Saiba que você, entre as pessoas que conheço, é uma das mais queridas”. “Sempre a nossa amizade”, Renatão, como você costumava finalizar ao cantar parabéns para seus amigos. Você vai fazer muita falta.
Essa minha homenagem no NR, blog que você colaborou tantas vezes, é só um carinho a quem tanto quero bem. Seu talento, amizade e grandeza deixa um grande vão nessa selva toda em que vivemos. O jornalista e mestre Carlos Azevedo disse algo muito bonito sobre você no Facebook, Renatão: "O Renato é aquele cara que não morre, que não machuca ninguém, a não ser quem sabe pelo seu imenso rompante amoroso. Lamento muito porque a perda é grande. Uma luz forte que rasgava as trevas da ignorância se apaga. Viva para sempre, Renato, no brilho de seus trabalhos!”. Ao que soubemos seu coração parou na madrugada de domingo. E o meu bate mais forte agora de saudade de você.
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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Bruno Maranhão, presente
por Aleksander Aguilar*
Teimoso, polêmico, dedicado, afetuoso, louco, aberração. De todos os muitos adjetivos usados para descrever Bruno Maranhão o último, que pode ser visto como o mais curioso e pesado, é paradoxalmente o que dá o melhor sentido para justificar a celebração da sua da sua vida, pela qual lutou, como fez em toda sua trajetória política, até o dia 25 de janeiro deste ano.
Bruno, filho de usineiros de açúcar por parte de mãe e de pai, um herdeiro típico da alta burguesia tradicional pernambucana, legada diretamente da relação Casa Grande/Senzala, fez-se aberração suficiente para deixar o chicote opressor e lutar pelas emancipações dos oprimidos ao lado dos mais destacados comunistas da época das revoluções guerrilheiras no Brasil, e seguir lutando ao longo de toda sua existência. De sucessor da estrutura de dominação social pela terra, passou a vida em militância por reforma agrária.
“Origem de classe não tem a ver com consciência de classe”, me disse em uma das inúmeras reuniões que tivemos no seu escritório no bairro Casa Amarela, em Recife. Bruno fez muitos amigos e amigas em sua história política, de tão longa data como da clandestinidade na ditadura e do exilio no exterior. Eu, porém, tive apenas a oportunidade de conviver com ele durante os últimos seis meses do vigor da sua militância, em 2011, quando nos reuníamos quase que diariamente, em Pernambuco e outros estados, para organizar a “Marcha da Reforma Agrária do Século XXI”, do Movimento de Libertação do Sem Terra (MLST), do qual ele foi um dos principais coordenadores.
Bruno tinha uma inquietude otimista motivadora, e gostava muitas vezes de desafiar as “condições objetivas”, acreditava que só lançando-se aos projetos poderia faze-los realidade.
− Vai ser muito difícil conseguir a condição ideal pra caminhar 250 km com quase 1000 militantes, Bruno, em tão pouco tempo, argumentava-se.
− Nem sempre há tempo para conseguir o ideal, companheiro, mas ao fazermos já vencemos, respondia.
Levamos 20 dias naquele ano, de agosto até o 7 de setembro, para caminhar da capital do Estado de Goiás, até Brasília. “Aperte a mão de quem o alimenta!” foi o lema, e a Marcha promoveu pelas cidades onde passou seminários para evidenciar a importância e a necessidade da reforma agrária para a superação da pobreza no Brasil. Essa atividade idealizada pelo Bruno foi sua última grande articulação de movimentos populares. Ele infelizmente não pode conclui-la, pois justamente ali se iniciou a manifestação da doença que levou o lutador. As fotos que fiz durante a Marcha são suas últimas imagens em plena militância, no ato de lançamento da jornada, em que o vimos com punho levantado e de microfone à mão, como o foi na sua história de lutas por emancipação.
Em plena ditadura militar brasileira, aos 20 e poucos anos ingressou no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e integrou o Comitê Central ao lado de lendas como Apolônio de Carvalho, Jacob Gorender e Mário Alves. Foi exilado político, e no retorno ao país ajudou a fundar o PT, tendo sido membro da Executiva nacional, e já com mais de 50 anos fui fundador do MLST, onde militou até a sua morte, aos 74 anos de idade.
Sua capacidade de liderança era inegável e era tão destacada quanto o seu carisma. Bruno ensinou gerações de militantes, do campo e da cidade, de movimentos sociais e de partido, aquelas particularidades do comportamento político, do trato com o adversário, da hora de ser firme, de negociar, de flexibilizar, que só a experiência forjada em muitos anos de prática podem dar. Desde a roda de camponeses em um galpão de pouca cobertura no interior do Nordeste até o gabinete do governador do Estado, pelos assentamentos e acampamentos sem-terra à reuniões ministeriais no Distrito Federal, via-se aquela postura e leitura sociopolítica inabalável da realidade. Era o que lhe motivava a apostar e entregar-se a necessidade de transformações estruturais no país que, vista como uma grande excentricidade por parte de muitos, foi justamente o que lhe garantiu o respeito e um lugar certeiro na história da esquerda brasileira; uma coerência e chama sempre acesa por justiça social que fez de Bruno um militante revolucionário na juventude, na idade adulta e mesmo na terceira idade.
Bruno Maranhão foi um brasileiro que teve uma história particular. Na dedicatória do livro Os Colares e as Contas (2012), a síntese poética de uma experiência política, segundo seu próprio autor, o jornalista Marcelo Mario de Melo, que também foi militante do PCBR, aparece a homenagem a Bruno entre aqueles “que se mantém socialistas e de esquerda depois dos 60 anos”. E Bruno ainda depois dessa idade não apenas manteve suas ideias como as expressou constantemente desde caixotes improvisados em assembleias e reuniões camponesas nos campos desse Brasil. Só se pode respeitar uma trajetória assim. O sonho e a luta por reforma agrária permanecem vivos na memória de Bruno Maranhão.
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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Evoé, velho Madiba, espelho da liberdade!
por Cidinha da Silva*
Li em algum lugar que a saudade é o amor que fica. Achei tão bonito. Já sentimos saudade de você há algum tempo, velho Madiba, desde que você se recolheu, calou-se depois da morte de Zenani, sua bisneta, atropelada por um carro ao fim da abertura do Mundial de Futebol em seu país natal.
Sabíamos que você estava adoentado, iniciava o caminho de volta, mas ainda estava entre nós. A saudade agora dói mais, é o sentimento de adeus a um dos nossos que partiu para o país dos ancestrais.
Eu achava que não sentiria dor, não lamentaria, pois pensava estar conectada a sua necessidade de desenlace. Que nada! Caí do alto do cajueiro e espatifei no chão.
E gente sonhadora conseguiria manter-se incólume à passagem de Madiba pela Terra, o grande espelho da liberdade? Todos nós que um dia sonhamos com a vida plena e humana, em algum momento nos vimos refletidos em sua voz firme, seu sorriso franco, seu olhar terno, sua coluna ereta e suas mãos de pugilista.
Nós ousávamos pensar, velho Mandela, que fazíamos parte de você. Sentíamos que o melhor de nós habitava você. Era nosso jeito de crescer e de nos tornarmos dignos da sua luta sem trégua contra o racismo institucional. Queríamos ser persistentes como você, que a determinação se encaixasse em nós como sobrenome e que sua tenaz ternura nos apaziguasse.
O sonho não acabou, honorável Madiba! Seguimos! Um tanto tristes, um pouco órfãos, temerosos pelos destinos da África do Sul que não conseguiu ainda responder aos anseios da juventude, tampouco contar com a colaboração dela para pensar os caminhos novos.
Sabemos que estará conosco, velho Madiba. Em cada um de nós que tenha aprendido com você a primar pela justiça e pela liberdade comprometida com quem está nos piores lugares do mundo, com a política como busca comum do bem comum a partir de quem mais precisa.
O venerável Rei dos xhosa volta para Qunu, onde seu povo oferece a terra fértil para descanso do corpo do Grande Guerreiro e florescimento dos guerreiros novos. Ele dá a seu povo a alegria de ter em casa o filho mais ilustre, depois da missão de vida cumprida.
N’Zaambi ye Kwaatesá, velho Madiba! N’Zaambi ye Kwaatesá!
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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Morre um morubixaba
por Spensy Pimentel, especial para o Nota de Rodapé*
Na noite de 01/12/13, o líder kaiowa Ambrosio Vilhalva, 53 anos, morreu depois de ser esfaqueado no acampamento onde residia, na Terra Indígena Guyraroka, em Caarapó (MS). Ambrosio se tornou internacionalmente conhecido como o protagonista do filme Terra Vermelha, de Marco Becchis. No filme, como o cacique Nádio, ele interpretava sua própria vida de luta pela terra. Conheci pessoalmente o Ambrósio em 2009, logo que começava minha pesquisa de campo do doutorado. Foi pouco depois do sucesso de Terra Vermelha. Quase lhe pedi o autógrafo naquela Aty Guasu – a Grande Assembleia Kaiowa e Guarani – em Amambai. Era fascinante vê-lo falar em público, porque sua presença e discurso tinha mesmo algo de cinematográfico.
Na minha investigação, tentava entender melhor as figuras da política kaiowa e guarani. E sabe aqueles morubixabas dos quais ouvimos falar nas aulas de história, comandando esquadras de canoas em guerras intestinas nesse litoral entre São Paulo e Rio que hoje fica apinhado de turistas no verão? O sul de Mato Grosso do Sul está cheio de versões atualizadas desses personagens, tão imponentes como o Cunhambebe das aventuras de Hans Staden, mesmo que, aos nossos olhos, vistam andrajos e estejam cobertos de poeira vermelha. Em guarani, eles são chamados de mburuvicha.
Ambrósio venceria Clint Eastwood num duelo, certamente. Só com o olhar. Os Kaiowa, frequentemente, têm esse olhar firme, de quem não tem nada a perder, de quem está pronto para a morte. Olhar de samurai.
Os xamãs cantam para espantar a morte que ronda as comunidades kaiowa. Ela chega sem cerimônias. Se esconde nas garrafinhas plásticas de cachaça, carinhosamente chamadas de “barrigudinhas”. Aproveita a tristeza trazida pelo choro das crianças com fome, de noite, no chão, nos barracos de lona preta, para se deitar ao lado de pais e mães, assoprando em seus ouvidos cantigas de desespero. Chega junto com os presentes e o dinheiro dos fazendeiros, sempre em busca da traição.
O pior, o mais revoltante é que logo ali, do outro lado da cerca, tudo está verde. Verde como as pilhas de dólares que o agronegócio produz, a partir da cana, da soja e do milho transgênico que produzem sobre as terras indígenas que o Estado brasileiro transferiu para colonos brancos, nos tempos do autoritarismo.
Manter a sanidade em meio à loucura de um lugar onde as pessoas não se espantam com esse contraste tão violento é para os fortes. Não são poucos os que sucumbiram: mais de 1.000 apelaram para a corda desde os anos 1980.
E Ambrósio resistiu, foi um forte. Ameaçado? Há muito, quase sempre, quase todo dia. Como tantos por aqui. Um Pixote, como arriscou um amigo? Um Paul Walker, talvez? Quem lhe enfiou a faca? Um parente? Um traidor? Quem sabe? A polícia deve apurar, é claro. Mas, quem vai ser capaz de conseguir a homologação da Terra Indígena Guyaroka? E disso, quem dará conta?
Em suas virtudes e defeitos, Terra Vermelha foi um marco na divulgação da luta guarani-kaiowa, disso não há dúvida. Logo esses índios que, aos olhos dos brasileiros em geral, são aculturados, integrados, que já nem são índios, para alguns: ficaram famosos. A pequena revolução que os Guarani-Kaiowa estão operando no imaginário brasileiro apenas começou. E muito disso se deve à figura de Ambrósio, que conseguiu, com seu olhar, transmitir ao público o que significa arriscar a vida, dia a dia, nos mais de 30 acampamentos indígenas do sul de MS que buscam, teimosamente, recuperar as terras chamadas pelos Kaiowa de tekoha – “o lugar onde se pode ser do nosso próprio jeito”.
Era só isso que Ambrósio perseguia. Um projeto próprio de vida, longe do que foi imposto pelos brancos. Longe desse pobre cotidiano nas reservas indígenas implantadas bem ao lado das cidades do sul de MS, projetadas para serem depósitos de gente barata para trabalhar nos moinhos do nosso heróico agronegócio.
Ele era só isto: um mau exemplo, aos olhos dos brancos. O negativo de tudo aquilo que os políticos, fazendeiros e pastores de Mato Grosso do Sul procuram impor aos indígenas do estado. Ele bebia. Ele brigava com parentes e se feria (e daí?). Ele venerava outros deuses, dançando e cantando. Ele “invadia terras produtivas”. Talvez, até, para fazer com que deixassem de produzir. Essa foi, talvez, sua suprema heresia, perante os fiéis da religião cristã-capitalista.
Como tantos indígenas – dos livros de história e de hoje –, Ambrósio só queria fazer as coisas do seu próprio jeito. Queria somente a liberdade para cometer seus próprios erros e acertos. Tristemente, ele morreu antes de ver sua família recuperar de fato os quase 12 mil hectares de terra vermelha que o governo brasileiro já reconheceu como a Terra Indígena Guyraroka.
A presidenta Dilma Rousseff, em vez de assinar a homologação da terra de Ambrósio, conseguiu mais um risquinho na parede de seu gabinete. Os Kaiowa e Guarani perderam mais um líder, um homem que, contra todas as razões e papeis dos brancos, foi capaz de reunir sua família e conduzi-la até seu tekoha, sua Terra sem Males. Quantos de nós temos coragem para tanto?
Os brasileiros têm mais um motivo para envergonhar-se. A maioria de nós jamais chegará aos pés da dignidade que Ambrósio alcançou em sua vida. Quem aqui encara o olhar que ele nos legou?
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Spensy Pimentel, Jornalista e antropólogo, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da USP, especial para o Nota de Rodapé
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