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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Lina Bo Bardi: a arquiteta-antropóloga

CENTENÁRIO: autora de projetos famosos, como os do Masp e do Sesc Pompeia, Lina Bo Bardi, que ainda na Itália juntou-se à resistência antifascista e se dizia “stalinista”, alcança um nível de reconhecimento que não teve em vida.

por Marcos Grinspum Ferraz
[texto originalmente escrito para a revista Retrato do Brasil]

Lina Bo Bardi, nascida em Roma, na Itália, em dezembro de 1914, não só escolheu o Brasil como pátria, como foi apaixonada por este país, suas paisagens e culturas. Como ela mesma escreveu: “Naturalizei-me brasileira. Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e da fronteira”. Mas, se a arquiteta escolheu o Brasil com tamanha convicção, o Brasil não parece tê-la aceitado, ou compreendido, do mesmo modo. Hoje celebrada como um dos maiores nomes da arquitetura mundial da segunda metade do século XX, sendo tema de exposições, livros, artigos de jornais e estudos acadêmicos, Lina não teve o mesmo reconhecimento em vida.

Na verdade, de 1946, quando desembarcou no Brasil, até sua morte, em 1992, a arquiteta enfrentou uma série de dificuldades na carreira, passou por longos períodos de ostracismo e deixou, ao todo, não mais de dez obras construídas. Entre elas estão algumas das mais notáveis edificações do Brasil moderno, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Sesc Pompeia (ambos na capital paulista) e o restaurado Solar do Unhão (em Salvador), mas poderia ter deixado mais. E, se é difícil explicar com precisão os motivos de tantas adversidades – que passam pelos fatos mais óbvios de ser mulher em uma sociedade machista, ser “estrangeira” em tempos de nacionalismo ou, ainda, ser casada com um sujeito polêmico, como Pietro Maria Bardi –, há algo notável sobre a arquiteta que se relaciona à maioria de seus fracassos e sucessos: Lina não seguiu padrões, modelos prontos e modismos, nunca escolheu os caminhos fáceis e não hesitou em experimentar, subverter e ir contra os discursos hegemônicos na política ou na cultura. Sem se enquadrar – mesmo dentro do modernismo ou da esquerda –, ela fez da arquitetura sua arma para a transformação do mundo em um lugar mais igualitário e “humano”. Incomodou e por isso pagou preços, mas deixou, ao fim, um valioso legado para a arquitetura e para o País.

“Hoje as pessoas veem a obra dela com certa esperança, com grande frescor, algo que não houve à época”, diz Zeuler Lima, professor da Washington University em Saint Louis (EUA) e autor de extensa pesquisa sobre Lina. “O discurso modernista também não abria espaço para certos experimentos, e acho que a obra dela foi bastante experimental, não só do ponto de vista tecnológico, prático, mas também na maneira como ela pensava.” O pesquisador costuma dizer que Lina foi uma arquiteta moderna, mas não modernista, já que não perseguia uma linguagem específica nem seguia determinadas regras formais em sua produção – ao contrário, por exemplo, de outros grandes, como Oscar Niemeyer. “A Lina constrói com tijolo, concreto, ferro, pedra, barro, palha, com qualquer tipo de coisa”, diz o arquiteto André Vainer, que trabalhou com Lina por cerca de 13 anos, entre 1977 e 1992. “Você olha a cobertura da Casa do Benin [Salvador, 1987], de barro, e compara com o Masp [São Paulo, 1957–1968], são coisas diametralmente opostas, e isso é um sinal de liberdade enorme, de abertura para projetar.”

Construir sem regras técnicas e formais não era algo gratuito, mas parte de uma concepção de que o arquiteto deve entender os contextos sociais e humanos de cada local para poder projetar. Para Lina, cada caso era um caso, e a arquitetura deveria ter como protagonista o ser humano, não o espaço, como ela mesma disse certa vez. “Ela olhava o espaço não como os arquitetos geralmente definem, que é um espaço vazio cartesiano geométrico, mas como os antropólogos definem, que é o espaço vivido”, diz Lima. “Iniciava um projeto com o que ela tinha, seus princípios, mas recebia do mundo e das situações, e esse diálogo criava-se na própria obra.” Quando, num fim de semana, foi pela primeira vez à velha fabrica instalada no bairro paulistano da Pompeia – que seria transformada em uma das sedes do Serviço Social do Comércio (Sesc) – e viu famílias comendo e conversando, com seus filhos brincando, Lina afirmou: “É essa a atmosfera que quero manter aqui”. Nesse sentido, diz Vainer, “a Lina representa um tipo de arquitetura que tem um respaldo com a realidade muito grande, o que é raro hoje. Ela sempre trabalhava a partir de ideias que não eram de arquitetura, mas de relacionamento humano, de sociedade, de justiça entre os homens e de comportamento”.

Se não teve tantas obras construídas, Lina foi incansável em sua produção em diferentes áreas. Foi também designer, cenógrafa, editora de revistas, curadora de museus e exposições e até “estilista” – chegou a desenhar roupas e joias, principalmente nos primeiros anos no Brasil. Mas, na verdade, tudo para ela era arquitetura. As coisas se misturavam, de modo híbrido, e tudo estava dentro de um jeito maior de pensar a profissão, o mundo e o ser humano dentro dele. “Arquitetura, para mim, é ver um velhinho, ou uma criança, com um prato cheio de comida atravessando elegantemente o espaço do nosso restaurante à procura de um lugar para se sentar, numa mesa coletiva”, disse certa vez no Sesc Pompeia. Lina trazia de sua formação em Roma, influenciada pelo professor Gustavo Giovannoni, uma ideia do “arquiteto total”. “Para ela, o arquiteto deve vestir a ‘pele do lobo’: ser cozinheiro para projetar uma boa cozinha, ser aluno e professor para projetar uma boa escola, ser ator e espectador para projetar um bom teatro”, escreve Marcelo Ferraz, arquiteto que trabalhou por 15 anos com Lina.

Para poder se propor a fazer uma arquitetura tão diversa e experimental e conseguir transitar com tamanho êxito por variados campos do conhecimento, ainda mais sendo mulher em meados do século XX, Lina precisava de conhecimentos e ferramentas poderosos. E os tinha, como relembra Vainer: “Uma capacidade de desenho e de síntese impressionante, um entendimento da história da arquitetura, uma postura ideológica muito bem definida e construída e uma postura de liberdade”. Para entender um pouco como isso foi criado, é preciso voltar à vida de Lina desde os primeiros tempos.

Os anos de infância e juventude de Achillina Bo (nome de batismo) na Itália não transcorreram em período tranquilo da história do país. Muito pelo contrário. Se a Primeira Guerra Mundial (1914–1918) acabou quando ela tinha apenas quatro anos, a ascensão do nazifascismo e a tensão do período entreguerras foram vividas de perto pela garota, que, em seus anos de formação, já demonstrava talento excepcional para a pintura e o desenho.

Após se formar na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma, em 1939, Lina mudou-se para Milão e foi trabalhar no escritório do célebre arquiteto Gió Ponti. Enquanto aprendia com a prática diária da profissão, Lina logo teve que lidar com a eclosão da guerra, o que a marcou de modo profundo. “Entre bombas e metralhadoras, fiz um ponto da situação: importante era sobreviver, de preferência incólume. Mas como? Senti que o único caminho era o da objetividade e racionalidade, um caminho terrivelmente difícil quando a maioria opta pelo ‘desencanto literário e nostálgico’. Sentia que o mundo podia ser salvo, mudado para melhor, que essa era a única tarefa digna de ser vivida. (...) Entrei na Resistência, com o Partido Comunista clandestino.” Em período pouco propício para a arquitetura – quando prevalecia a destruição, não a construção –, Lina intensificou o trabalho como ilustradora de revistas e jornais e como editora. Foi também aí que assimilou algumas das bases do que seria sua arquitetura até o fim da vida. “Quando as bombas demoliam sem piedade a obra e a obra [sic] do homem, compreendemos que a casa deve ser para a ‘vida’ do homem, deve servir, deve consolar, e não mostrar, numa exibição teatral, as vaidades inúteis do espírito humano. A guerra destruiu os mitos dos ‘monumentos’. Também na casa. (...) Os móveis devem ‘servir’, as cadeiras para sentar, as mesas para comer, as poltronas para ler e repousar, as camas para dormir, e a casa assim não será um lar eterno e terrível, mas uma aliada do homem, ágil e serviçal, e que pode, como o homem, morrer.”

Após chegar ao Rio de Janeiro, em 1946, Lina e Pietro (marchand, crítico de arte e jornalista) foram convidados por Assis Chateaubriand, magnata das comunicações, a ficar no Brasil para criar aqui um museu de arte. Encantada com o novo mundo, terra onde as coisas poderiam florescer livres das amarras do passado – feudal, monárquico, burguês ou de grandes guerras –, Lina convenceu Bardi a ficar. No Museu de Arte instalado na rua 7 de Abril, em São Paulo (sede do grupo Diários Associados, controlado por Chateaubriand), onde o excepcional acervo trazido pelo marido foi acomodado, Lina começou a desenvolver suas primeiras ideias de museu e expografia, que radicalizadas culminaram nos polêmicos cavaletes de vidro do Masp, hoje brutalmente banidos do local. O museu não deveria ser um recanto de memória, um túmulo obsoleto ou um depósito de obras humanas, dizia Lina, mas um lugar vivo e dinâmico, onde devem entrar “luz e ar puro”. Mais do que isso, o museu deveria ser popular, voltado a todos, em uma concepção que pautou todos os seus projetos para espaços coletivos até o fim da vida. “Tirar do museu o ar de igreja, tirar dos quadros a ‘aura’ para apresentar a obra de arte como um trabalho, altamente qualificado, mas trabalho; apresentá-lo de modo que possa ser compreendido pelos não iniciados”, escreveu Lina certa vez.

Inédito: a prisão preventiva de Lina revogada
Após a experiência no museu, para o qual também projetou uma série de móveis, e a criação da revista Habitat, Lina teve sua primeira obra construída em 1951, mesmo ano em que se naturalizou brasileira. A Casa de Vidro, erguida no bairro paulistano do Morumbi, residência construída para morar com Pietro, trazia ainda grande influência da arquitetura racionalista europeia, com a qual Lina tinha tido mais contato até ali. Após ser recusada – em concurso anulado – para dar aula na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo e com o projeto do Masp, construído na avenida Paulista, já em curso, Lina viajou para sua primeira grande estada na Bahia, o que representa talvez a grande transformação em suas ideias e obra.

Convidada para dar um curso e, posteriormente, criar o Museu de Arte Moderna da Bahia, no teatro Castro Alves, a arquiteta entrou em contato com outro Brasil, com a cultura popular e com realidades que desconhecia em São Paulo e no Rio. Lá também projetou a restauração do Solar do Unhão, um importante conjunto arquitetônico de Salvador, e conheceu o cineasta Glauber Rocha, o etnólogo Pierre Verger e outros importantes intelectuais.

Em 1964, de volta a São Paulo, já com as tensões geradas pelo golpe militar, Lina continuou tocando as obras do Masp, inaugurado finalmente em 1968. No entanto, mais engajada com a contracultura e com a luta contra a ditadura, Lina passou a apoiar a guerrilha nos chamados anos de chumbo, num capítulo pouco conhecido de sua vida. Sabe-se que a arquiteta sediou em sua casa reuniões da Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo de Carlos Marighella, e foi perseguida pelos agentes da repressão. Com os bons contatos que tinha, principalmente o apoio do marido – homem bem relacionado e não engajado na luta política –, Lina se exilou na Itália por cerca de uma ano, enquanto um processo de prisão corria na Justiça Militar brasileira. Lina voltou em 1971, quando os militares revogaram sua prisão preventiva (imagem ao lado). A posição política da arquiteta, aparentemente bastante à esquerda e engajada quando se analisam episódios como esse, é relativizada por alguns pesquisadores de sua vida, que enxergam uma série de contradições em suas posições ao longo da vida. Lina foi amiga de figuras conservadoras e trabalhou com políticos de direita em certos momentos, ao mesmo tempo em que foi próxima de artistas libertários e chegou a afirmar, mais de uma vez, ser “stalinista”.

Sesc Pompéia, SP: espaço público igualitário e democrático 
“É uma pessoa muito complexa”, diz Vainer. “Às vezes eu fico tentando enquadrá-la, mas a verdade é que não dá. Quando ela dizia que era ‘stalinista’, isso estava muito mais ligado ao papel que Stalin teve durante a Segunda Guerra Mundial, que possibilitou que os Aliados vencessem os nazifascistas, do que a qualquer outro sentido atribuído ao termo, como os relacionados a expurgos, matanças. Ela era mais ligada a uma esquerda mais moderna, desligada do ‘partidão’, da União Soviética. Era heterogênea.” O documento da revogação do pedido de prisão na época da ditadura , por exemplo, foi dado por Lina à Vainer e Ferraz nos anos 1980, em uma pastinha que continha também uma foto de Che Guevara e outra de Lenin. “Ela tinha uma vida burguesa, afinal o Bardi tinha muito dinheiro”, diz Vainer. “E por isso também fez gratuitamente os projetos do Masp e da Igreja de Uberlândia. E acho que isso é também uma espécie de distribuição de renda, uma postura socialista de certa maneira. Algo como: ‘Eu não preciso desse dinheiro, mas quero doar meu conhecimento’.” Seja como for, com suas contradições e coerências – Lina também gostava de chocar, o que deve ser levado em conta –, o fato é que sua arquitetura sempre foi de propósito social, acessível e humanizada. O Sesc Pompeia, para o qual a arquiteta foi chamada após longos anos “colocada de escanteio” pelo poder político e também pela arquitetura dominante, talvez seja a experiência mais bem-sucedida de Lina no sentido de utilizar a arquitetura para criar um espaço democrático e igualitário. Nos anos seguintes, entre 1986 e 1990, já bastante madura e calejada, Lina pôde, em seu segundo período na Bahia, fazer uma série de projetos, como Casa do Benin, Casa do Olodum e Ladeira da Misericórdia – o qual viu ser abandonado e parcialmente destruído ainda em vida. Ali levou ao máximo sua experiência como arquiteta-antropóloga, se assim podemos dizer, investigando e vivenciando intensamente a cultura popular baiana e afro-brasileira.

“Lina tinha um grande idealismo. E isso é diferente de utopia, pois era um idealismo de pensar não o impossível, mas o possível. Pensar um futuro melhor não abstratamente, mas no que existe, no aqui e no agora”, diz Lima. “Ela era uma pessoa extremamente generosa com a arquitetura, com a ideia de que a arquitetura tem um propósito e que ele tem que ser social, humano”, conclui. Com a visão de alguém que conviveu de perto por tanto tempo, com uma experiência não só profissional, mas afetiva e de amizade, Vainer ressalta que a generosidade ia para muito além da arquitetura. “Tanto que ela deu para mim e para o Ferraz isso tudo que temos. Ela nunca regulou conhecimento, sempre nos ensinou, exigiu que a gente tivesse uma postura em relação ao trabalho, às ideias. Quando a gente se conheceu, ela tinha 63 anos, eu 23 e o Ferraz, 22. E acho que ela pensou: ‘Vou pegar esses dois caras, porque eu preciso de alguém para fazer os desenhos e tal, mas também vou pegar para ensinar’.”

Em tempos de arquitetura monumental e extremamente cara, por vezes pouco conectada às realidades e contextos locais, Lina ressurge como outro modo possível de se pensar e fazer. Se isso ocorre um tanto tardiamente, o que importa é que a arquiteta é cada vez mais lembrada e difundida, especialmente no ano de seu centenário. “A obra da Lina não era como essa arquitetura ‘do espetáculo’, que é basicamente um exercício de técnica e virtuosismo, tão distante da realidade do homem”, diz Vainer, referindo-se a uma arquitetura de obras faraônicas que predominou nos anos 1990 e 2000. Na mesma linha, Lima conclui: “A arquitetura de Lina é espetacular, não é ‘do espetáculo’. É de propósito à vida”.

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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. Crédito da imagem de abertura: Arquivo Joaquim Guedes

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Centenário

Agora virou um tal de celebrar centenário de gente morta que só.

A palavra, aliás – centenário – , existiu para mim muito antes de eu imaginar que pudesse significar uma centúria de anos. Era só um nome qualquer de rua, na verdade da avenida de que eu mais gostava quando era pequeno, porque tinha túnel, e eu adorava passar dentro do túnel, pedia a meus pais que desviassem o caminho só para passarmos dentro do túnel, do túnel acanhado que meu olhar de menino acreditava ser imenso e interminável túnel.

Centenário então ficou sendo nome próprio até meus mais ou menos sete anos, até o dia em que, de passagem por outra cidade – Ilhéus, ou Itabuna talvez – demos pela frente com uma engraçada avenida Cinquentenário. Desparafusando o sufixo, caiu-me nas mãos um imprestável numeral cinquenta. Então caí na besteira de repetir a operação com a palavra centenário, e ela nunca mais tornaria a ser só um nome aleatório de alameda.

Mas queria falar mesmo era dessa mania de gastar papel com centenário de famoso morto que o jornalismo brasileiro achou de pegar. Não que se deva deixar de homenagear quem quer que seja; é só que, sendo jornalista, a gente sabe o mórbido que é listar quem são os mortos que farão cem anos no ano corrente, e ficar contando os dias para chegar o aniversário do morto, e então publicar a matéria, carregada nas tintas ou na criatividade duvidosa, não raro aquela feita há séculos e estocada na gaveta, quando não recauchutada da efeméride passada. Pior é saber que todos os nossos infaustos colegas de imprensa farão a mesma coisa, e que por fim se entulhará o noticiário nacional de uma enxurrada de matérias quase todas meio iguais.

Tenho mais pena dos mortos que tiveram a infelicidade de nascer no segundo semestre, que são os que sangram mais tempo nas páginas dos jornais e revistas, nos especiais e reprises de tevê. Pois recordem-se vocês quanto se inventou de assunto sobre Jorge Amado, nascido em agosto, no ano passado. Que dirá de Nelson Rodrigues, também ele agostino, melancolicamente tornado em mais uma das unanimidades burras que ele próprio abominara. Gonzagão (coitado, foi nascer em dezembro!) foi metido em mil e uma prosápias – incluso numa assinada por este velhaco aqui, a qual teria passado muito bem obrigado sem que fosse preciso tocar-lhe no nome. Aplausos ao velho Rubem Braga, homem todavida precavido: escolheu nascer em janeiro, assim pelo menos falam logo de uma vez o que dele tiverem a falar, e deixam-no em paz no restante do ano. Mas o melhor de todos foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que mesmo depois de morto não poderia perder a piada: enquanto os colegas de geração completam cem, ele vai e completa 90; sarro puro.

Fico daqui pensando em quem serão os mortos centenários de daqui a pouco, em quem os de daqui a cem anos. Fico ademais prometendo a mim mesmo que, no jornal que um dia haverei de criar – na vida ou na literatura – , jamais se tratará centenário nenhum por efeméride, e sim a outros e mais democráticos números, como 47, 83, e mesmo o competitivo 99 (ah, com este daremos furo atrás de furo em toda a mídia centenarista!).

Ou então, bem melhor: só homenagearei centenários de grandes homens que o respeitável público não teve a sorte e a honra de conhecer. Como a buonanima de Franceschino, batizado Amedeo Giovanni Sebastiano Sangiovanni – o meu vovô Chico, famoso por erguer-nos nos braços, a mim e a minha irmãzinha, quando corríamos na direção de sua voz exclamando piccolini, de lá do final do corredor escuro da casa fria da rua da Itália, município de Poções – Bahia.

E não escreverei muito; apenas que tenho tanta pena de não ter conversado mais com você, vovô Chico, porque tinha vergonha de não entender direito o italiano misturado com português que você falava – depois, quando aprendi a falar italiano, foi tarde, já não havia mais você para conversar. E que hoje não lhe cultivo como nenhum mito, mas como um homem simples e bom, com quem até hoje sonho de tempos em tempos, mais nos tempos em que a vida se me afigura difícil. E que sinto tanto orgulho por você ter cruzado o oceano e ter vindo viver aqui, até por aqui morrer, e no final da história ter podido te ver ser aplaudido de pé por todos na rua, no cortejo da casa até o cemitério.

Eis então meu viva, vovô Chico, por seu centenário hoje, por você ser uma lembrança boa daquele tempo bonito em que eu não sabia o que centenário queria dizer.


Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Do rés-do-chão para o Olimpo



Confesso que soube do teu aniversário de 100 anos, comemorado sábado, por um jornal paulista, Rubem Braga. Não acho que gostarias de uma festa com música alta, canapés gordurosos, mulheres siliconadas e uísque de procedência duvidosa para celebrar o teu centenário de nascimento - nem talvez caderno especial, suplemento grampeado ou edição extraordinária. Defendo, porém, que merecias mais que uma matéria que comparou a tua efeméride retumbante com a dos 90 anos do teu amigo Sérgio Porto, que caíra no dia anterior, sexta-feira.

 Escreveu lá o repórter que tu, Braga, estás ganhando reedições, que pesquisadores preparam para breve o lançamento de volumes de inéditos teus, que uma exposição em Vitória vai relembrar a tua vida errante e a tua obra inesquecível. Para o Stanislau, nem livro, nem brinde, nem novidades, nem lambe-lambe pendurado na parede do museu.

Ora, esse confronto de cuidados com o legado de vocês, feito assim, com frieza jornalística e nenhum brilho literário, bem sabes, é expediente de paulista, que volta e meia encontra um jeito de expor a sua solidão sem tamanho e a sua felicidade nunca plena agarrando-se ao contorcionismo dos números e açulando rixas caducas. No Rio, tenho certeza, os jornais devem ter sido mais generosos com vocês.

***

Todavia, alguém de bom senso lá da sucursal carioca do jornal paulista foi à Barão da Torre investigar o estado de conservação do teu jardim suspenso, projetado pelo Burle Max e agora sob os cuidados do teu filho Roberto, que vive com a mulher na cobertura invejável. E escuta só que notícia boa: o menino tem metido a mão na terra e laborado como gente grande, e as plantas, as árvores, os passarinhos, o verde das folhas e o colorido das flores estão vivíssimos, como quando os deixaste.

De lá de cima não se tem mais a vista para a praia de Ipanema e para a Praça General Osório, pois prédios enormes foram erguidos ali em volta, e é preciso reconhecer que a morte do teu vizinho Millôr Fernandes agravou ainda mais a aridez do entorno. No entanto estão lá a jabuticabeira, a pitangueira, a goiabeira e até a rede na qual te deitavas para olhar o Rio e sentir saudades de Cachoeiro do Itapemirim.

Arrisco dizer que se o jornal tivesse tratado só do pomar e só da horta, sem os mexericos de um ganha isso, outro não ganha nada, teria oferecido aos leitores um registro muito mais simpático e digno da tua memória.

***

Olhando a semana que passou em retrospecto, me lamento por não ter percebido, aqui de Florianópolis, a aproximação do teu aniversário, e ter deixado que uma reportagem ingrata de jornal me pusesse a par do assunto. Pistas não faltaram, e eu só as reconheço agora.

Imagine que descobri no Centro da cidade um sujeito que esmola livros. Ele fica sentado numa curva de escadaria, sobre um pedaço de papelão coberto por romances baratos, e escreveu assim numa tira: “Aceito doações”. Pois na terça-feira eu passei os olhos sobre as mercadorias dele, voltando do almoço, e havia coletânea tua à venda, mas eu não percebi a tua presença.

Na quinta de manhã, no ônibus a caminho do trabalho, ouvi a música: era clássica, ou erudita, com violino, harpa, contrabaixo, tuba e fagote, tensa, nervosa, irrequieta. Ninguém portava radinho. E então fez-se a crônica, e eu imaginei que, sem saber, estávamos todos ali dentro rumando para um fim trágico, com a trilha sonora adequada, à lá tristes heróis gregos! Por isso, até o momento em que desembarquei, tossi em protesto ao ranger dos violinos, como aprendi contigo, que padecia de acessos de pigarro no teatro tão logo a primeira nota da orquestra fosse exigida pela batuta do maestro. Mas eu não percebi a tua presença.

No sábado do teu aniversário, só fui me dedicar à leitura depois de completar as tarefas da casa. E ouve essa: já faz uns meses que eu ando pondo em prática umas iniciativas de agricultor, e encasquetei, como resolução de ano-novo, que devo juntar às ervas que cultivo na sacada – alecrim cheiroso, salsinha selvagem e manjericão perfumado – um vaso grande, para plantar alface. E foi depois de pensar mais uma vez nas dificuldades desse projeto que eu peguei o jornal, e lá estava o teu jardim suspenso em fotos coloridas, vivíssimo, riquíssimo, onde de tudo dava e tudo nascia, menos dinheiro. E eu não percebera a tua presença.

No domingo, o mesmo jornal da véspera se redimiu da ranhetice e recuperou uma crônica tua, de 1952, sobre o joelho de uma amiga. Escreveste: “Há homens que não são atentos aos joelhos, nem reparam como eles mudam de personalidade quando a perna se estende e se dobra, ou melhor, como a personalidade de cada um depende de sua mudança nesse jogo”. Nada mais perspicaz. Mas o melhor estava no fim: não ficavas reparando muito no joelho, para que a amiga não pensasse que estavas de olho era na coxa. Eu gelei. Por sofrer de fotofobia, eu deveria usar óculos escuros, principalmente na praia, mas jamais consegui: me tortura a ideia de que as mulheres achem que, enquanto converso com elas, estou na verdade admirando coxas e seios, espertamente. E por elas eu deixo que o sol castigue os meus olhos...

És mestre até nas excentricidades e nos pudores, velho Braga! E eu te admiro ainda mais por isso.

Um forte abraço desse teu leitor.

Felipe Lenhart, jornalista e cronista, amigo deste NR, permitiu a reprodução do texto-homenagem a Rubem Braga originalmente publicado em De olho na Ilha

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Herivelto 100. Brasil 41

Ele formou sua própria Escola de Samba, ensaiou o coro de pastoras e colocou o samba pra frente, ajeitando a pancadaria. Diretor de harmonia de suas gravações, desenvolveu um novo formato para registros em discos e apresentações em rádios: já não era orquestra, nem tampouco conjunto regional, era a sonoridade dos carnavais de rua invadindo os estúdios. Autor de clássicos de nosso cancioneiro, travou parcerias com gigantes e foi gravado pelos maiores cartazes de sua época. É tempo de celebrar Herivelto Martins, um nome de ouro da cultura brasileira.

Ícone de nossa música popular, o sambista nasceu há 100 anos, na pequena cidade fluminense de Engenheiro Paulo de Frontin. Bons costumes se aprendem em casa, desde a tenra infância, e assim se deu com o pequeno Herivelto. Em seu lar, respirava-se cultura e tudo conspirou para fazer dele um ser dotado de inspiração artística. Com seu pai, Felix Bueno Martins (um entusiasta do teatro, promotor de várias peças amadoras), tomou gosto pelo teatro e pela música. Aos nove, compôs seu primeiro samba, “Nunca mais” e depois, adolescente, foi ganhar os picadeiros da vida, arriscando-se como palhaço em cidades vizinhas.

A veia artística pulsava e a também pequena cidade de Barra do Piraí, onde morava com a família desde os 4 anos, não poderia comportar suas ambições. Aos 18, após breve passagem por São Paulo, decidiu: iria se mandar para o Rio de Janeiro. Queria conhecer o berço do samba, o bairro do Estácio de Sá, e os bambas locais, professores do novo ritmo do samba.

Na então capital da República, Herivelto conheceu o compositor Príncipe Pretinho que o levou para o Conjunto Tupi, do cantor J.B. de Carvalho. Sagaz e atento às possíveis novidades que poderiam ser inseridas no arranjo das músicas, desenvolveu com o cantor Francisco Sena, uma nova maneira de cantar em duetos. Em vez de se valer do formato “pergunta e resposta”, como Francisco Alves e Mario Reis faziam, agora, os cantores atuavam juntos, com um deles alterando a melodia, cantando em terças. Foram pioneiros de um estilo que depois apresentaria grupos como Quatro Ases e um Coringa, Bando da Lua e Demônios da Garoa.

Com Francisco Sena, descolou-se do Conjunto Tupi e formou a Dupla Preto e Branco. Eram os anos 30 e as composições de Herivelto começavam a ser gravadas por nomes como Aracy de Almeida, Silvio Caldas, Carmem Miranda e Carlos Galhardo. Entretanto, a inesperada – e precoce – morte de seu companheiro o obrigou a voltar aos picadeiros da vida.

Com a obrigação de gargalhar, encarnou o palhaço Zé Catimba e passou a apresentar-se no Teatro Pátria, em São Cristóvão. Foi lá que conheceu Nilo Chagas, com quem formaria a segunda Dupla Preto e Branco. Também foi neste teatro que conheceu Dalva de Oliveira, sua futura esposa. Com ela e Nilo Chagas, iria compor o Trio de Ouro, conjunto vocal que marcou época na história da música popular brasileira (e que depois teria mais duas formações, com Herivelto à frente).

Apogeu do
sambista

Antes de se separarem e darem início a uma famosa – e depois global – polêmica, Herivelto e Dalva protagonizaram belas peças. O Trio de Ouro era inovador e se apresentava com uma legítima Escola de Samba e um coro de pastoras. Herivelto comandava tudo com seu apito – e apita quem pode apitar –, legando para nossa cultura fonográfica uma nova maneira de se apresentar os sambas. Até mesmo o clima festivo e de folia carnavalesca era transmitido pelos integrantes do conjunto nas gravações.

Nos anos 40, Herivelto alcançou o apogeu. Tudo o que um compositor poderia almejar, ele conquistou. Emplacou grandes sucessos, como “Praça Onze” (com Grande Otelo), “Ave Maria no Morro”, “Lá em Mangueira” (com Heitor dos Prazeres), “Isaura” (com Roberto Roberti), “Laurindo”, entre tantos outros. Além das históricas e seminais gravações do Trio de Ouro, foi gravado pelos maiores intérpretes da época, como Francisco Alves, Linda Batista, Isaurinha Garcia e Roberto Silva. No campo da criação, travou parcerias com grandes compositores como, por exemplo, Ataulfo Alves, Benedito Lacerda, Grande Otelo, Bide, Heitor dos Prazeres, Marino Pinto, David Nasser e Príncipe Pretinho.

Cronista social de um Rio de Janeiro onde tanto malandro viveu, onde tanto valente morreu, Herivelto cantou a Praça Onze – seu desaparecimento físico e simbólico –, cantou Mangueira – seu morro e sua Escola de Samba – e cantou a cidade do Rio de Janeiro. Cantou os amores de uma gente, com seus encantos e com seus penosos reveses.

Versátil, Herivelto Martins compôs, também, muito samba-canção, valsa e até mesmo tango. Viveu até os 80 anos e deixou para a eternidade uma obra que acompanhou, ao longo de décadas, as transformações sociais e culturais que se acometeram sobre nosso país. É notória a percepção de como ele acompanhou a sensibilidade musical do ouvinte, fã, consumidor de seu produto. Se na Era de Ouro do rádio, emplacava sambas, pois isso era o que o povo consumia, depois, com a ascensão do bolero e do samba-canção no gosto das massas, ele passou a compor intensamente canções mais lentas, fazendo de Nelson Gonçalves seu intérprete mais frequente.

Tal ecletismo faz com que muitos sambas de altíssimo nível (como “Adeus Mangueira”, “Como eu chorei”, “Consulta teu travesseiro” e “Obrigado, General”) não sejam lembrados nas coletâneas das melhores e mais representativas composições do artista. No entanto, o samba era o carro-chefe de sua obra e foi principalmente com as gravações do Trio de Ouro, e as inovações proporcionadas pela genialidade de seu líder, que Herivelto foi lembrado por quem mais fez bonito em sua homenagem neste ano. Sua mais bela louvação veio por conta do samba, providência de Deus.

Sim, porque neste centenário do grande sambista, pouco se fez por sua memória. Diferentemente do ocorrido em anos passados, em que foram celebrados intensamente os centenários de nomes como Cartola, Adoniran Barbosa e Nelson Cavaquinho, as comemorações dos 100 anos de nascimento de Herivelto Martins não tiveram o mesmo confete. No entanto, de um grupo de amigos de Minas Gerais, formado por músicos amadores, sambistas, veio a redenção. Onde quer que esteja Herivelto Martins, ele pode ficar tranquilo. Uma homenagem à sua altura foi feita.
"O cara tem uma importância muito grande pra ser lembrado apenas pelas brigas com a mulher.”
Em Belo Horizonte, toda sexta-feira, a turma desperta, entoando um hino de harmonia. É dia de sambar até cansar. No número 41 da Avenida Brasil fica o bar Brasil 41. É lá que se reúne a roda de samba de mesmo nome. O formato é acústico, sem amplificação, com instrumentos de corda e de couro, com os sambas cantados em coro. O repertório contempla tanto compositores da Era do Rádio como sambas de terreiro das antigas Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Das rotineiras reuniões semanais nasceu um valoroso projeto, que culminou com a grandiosa homenagem à Herivelto Martins, realizada em julho e agosto deste ano, nas cidades de Belo Horizonte e Ouro Preto.

Mas tudo começou antes, em novembro de 2011. Os personagens: os mineiros Vinícius Terror, de Ouro Preto, e Daniel Capu, de Belo Horizonte. Quando o primeiro escutou, na roda de samba do Brasil 41, o samba “Controlando essa mulher” (com Benedito Lacerda), ficou maluco e foi pesquisar mais. “A cada áudio que ouvia meus olhos brilhavam ao perceber que estava diante de um dos mais expressivos compositores que o samba já teve”, diz Terror. Com a proximidade do centenário do bamba, sugeriu ao amigo Daniel a realização de uma homenagem ao baluarte, prontamente aceita. “Uma obra dessas não pode ficar guardada com tanta gente se interessando pelo bom samba hoje em dia. As canções de Herivelto foram pra nós uma grande descoberta”, completa o sambista de Ouro Preto.

Foram escolhidos 55 sambas, divididos em cinco blocos temáticos: “Exaltação à batucada”, "Tristeza, sofrimento e orgia”, “Súplica e exaltação à mulher”, “Crítica, favela e esperança” e “Exaltação à Mangueira”. Definido o repertório, era hora de ensaiar: foram cerca de 20 reuniões. “Era coisa de ensaio mesmo, com bronca do Daniel, nosso diretor de harmonia, e tudo o mais. Geralmente cada ensaio era dedicado a um ou dois blocos. Vez ou outra rolavam uns ensaios gerais, passando tudo. Teve uma vez que alugamos uma casa na roça e ficamos 4 dias só cantando Herivelto”, conta, saudoso.

Já se ouviam o som dos tamborins, anunciando que iria haver carnaval. E eles precisavam fazer um bom carnaval – ainda que fora de época – para o povo saber quem eles eram, afinal. Salve as pastoras e a bateria! Se o ritmo da batucada ficava cada vez mais redondo, era hora de formar o coro feminino. “As pastoras sempre frequentaram a roda, mas nunca tinham cantado. São namoradas e mães da galera da roda. Novamente, a ideia foi do Daniel. Elas toparam e foi tudo muito natural, pois já conheciam boa parte das músicas e estavam por dentro do processo, ouvindo Herivelto o dia inteiro. Nos ensaios, elas combinavam os arranjos do Trio de Ouro, os versos certos pra cantar, pra destacar o coro delas”, explica Terror. “Acabaram roubando a cena!”

A imersão na obra do compositor fluminense foi transformadora para o sambista. “Você lê a biografia dele e descobre que o cara era um gênio, um Pixinguinha da voz. Ele criou o Trio de Ouro e o sucesso estrondoso do conjunto se deve aos arranjos do Herivelto. Tem a história do apito, da Escola de Samba dentro do rádio. O cara tem uma importância muito grande pra ser lembrado apenas pelas brigas com a mulher. E acho que hoje, eu e a turma do Brasil 41 nos sentimos honrados, orgulhosos de ter mostrado pra um monte de gente que o Herivelto é uma brasa”.

O que se passou no dia 14 de julho, na roda de samba ocorrida em Belo Horizonte, e no dia 5 de agosto, em Ouro Preto, não dá pra ser narrado, apenas sentido. Assista ao vídeo, ouça o áudio abaixo da roda e aproveite para mergulhar na obra de Herivelto Martins no excelente blog dedicado ao centenário deste mestre, preparado pelo dedicado Vinícius Terror.



André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba, a ser publicada sempre na terceira quarta-feira do mês. Ilustração de Kelvin Koubik, artista visual e músico de Porto Alegre, especial para o texto

sábado, 26 de novembro de 2011

Centenário das muitas artes de Mário Lago

Mário Lago completaria 100 anos hoje. Boêmio e comunista assumido, Lago se destacou como poeta, escritor, dramaturgo, ator e torcedor do Fluminense. 

Mas o que que muita gente não sabe é que Lago, para além desse ecletismo, tinha uma inquietude social, desaguada na sua vertende de ativista político, o que o levou a se filiar ao Partido Comunista Brasileiro. Foi detido sete vezes ao longo da vida, a primeira vez, em 1932.

Muito há que se escrever sobre ele. No entanto, pego carona no projeto de seu centenário, “Homem do Século XX”, organizado por sua família. Em www.mariolago.com.br estão previstos documentário, exposição, um selo pelos Correios, uma estátua na praça Mario Lago, no Centro do Rio, e mais dois CDs – um de canções inéditas e poemas musicados por compositores como, por exemplo, Caetano Veloso, Lenine, Jards Macalé e Arnaldo Antunes.

O site também permite baixar o livro “O povo escreve a história nas paredes”, escrito por ele em 1948, que é curtinho, 31 páginas, o qual li e destaco A BANHA DOS OPORTUNISTAS – paródia de “Ai que saudades da Amélia", outra canção famosa, um tanto polêmica, acusada de ser machista. 

Nunca vi fazer tanta promessa
como em véspera de eleição.
Até a banha que é escassa anda à bessa
em troca de votos pra reação.

Palavras mil gasta a imprensa sadia
pra o povo nos demagogos ter fé.
Falando muito em democracia
que é coisa que ela não sabe o que é

Mas hoje o povo não é mais Amélia
que achava bonito não ter que comer.
Sabe o valor do seu voto e já sabe
quem seus problemas irá resolver.
É inútil a banha dos oportunistas.
O voto do povo é dos comunistas.

Para fechar, num especial sobre músicas carnavalescas, apresentado na década de 90 na TV Cultura, por outro notável, Paulinho da Viola, Lago fala da camaradagem entre os compositores e, no fim, entre um trago de cigarro e outro, dá uma palhinha de uma de suas marchinhas mais famosas, parceria com Roberto Roberti, “Aurora” (“Se você fosse sincera/ veja só que bom que era”) que estourou no carnaval de 1941.

Mario Lago faleceu em casa em 2002 aos 90 anos. Leia a cronologia resumida de sua vida e o ótimo especial multimídia do Estadão. 



Thiago Domenici

sábado, 29 de outubro de 2011

Cem anos das flores de Nelson

Nelson Cavaquinho (1911-1986), segundo o escritor Nelson Rodrigues, era um antídoto “para a obtusidade córnea reinante”. E neste 29 de outubro de 2011 completa-se 100 anos desde que nasceu. Ou melhor, ontem, sexta-feira, é a data verdadeira, segundo o próprio contou em documentário para a TV Cultura em meados da década de 1970.

E as homenagens a esse sambista graúdo, ex-PM, ajudante de eletricista, operário, bombeiro hidráulico e tirador de espolim (resíduos têxteis), criado na Lapa, estão em várias páginas de internet e nos jornais brasileiros. E muito mais na admiração de seus fãs. E Nelson, acreditem, começou na música dedilhando barbantes numa caixa de charutos.

Segundo o jornalista e pesquisador Tárik de Souza, em matéria para a Retrato do Brasil de julho – baixe o PDF aqui – “viveu na contramão da indústria cultural”. Cavaquinho morreu em 1985 por enfisema pulmonar – era um fumante compulsivo.

O NR indica, além da matéria de RB, outras duas, um especial multimídia do Estadão, da amiga Camila Matos e uma reportagem em quadrinhos, com texto de André Carvalho e arte de Alexandre de Maio, no Catraca Livre.

E para partir, seguir em frente, um samba clássico, no vídeo abaixo.



Thiago Domenici, jornalista
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