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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre tomates


por Ricardo Sangiovanni*

Tomate em italiano diz-se pomodoro. Não é novidade, todo mundo que compra molho pronto de caixinha sabe. Pomodoro, pomo d´oro, pomo de ouro, o fruto avermelhado que o sol do Mediterrâneo doura.

Plural de pomodoro é pomodori – é assim na língua de Dante: “i” no final para o plural masculino, “e” para o feminino, via de regra. Mas entre os mais velhos do sul da Itália ouve-se dizer pomidori. Não é ignorância, senão sabedoria: por detrás do erro à primeira vista fortuito esconde-se uma renitente denúncia às violências que toda gramática impõe ao caminho comum do sentido: pois o plural de pomo d´oro era para ser, no mínimo, pomi d´oro, frutos de ouro. Mas não. É como se, entre nós, o plural de fruta-pão fosse fruta-pães. Então, na ausência da lógica na base da regra, os anciões tripudiam: estranho por estranho, melhor pomidori que pomodori.

Mas esse intróito todo foi para tomar coragem de contar a vocês que certa feita cultivei tomates. Adoraria poder contar tê-lo aprendido de pequeno, quando ainda usava calças curtas e suspensórios, respirando aquele arzão amarelado do terreno em que nonno Franceschino cultivava alguns pés de agrumes na carina Mormanno, encravada nas montanhas que separam a Calabria da Basilicata. Mas não: a verdade, se não é menos bela, é sempre menos cinematográfica, de sorte que não fui criado no campo senão num apartamento miúdo nesta Bahia transatlântica, nunca cultivei tomateiros na infância, tampouco meu avô, embora italiano, jamais me foi apresentado como “nonno Franceschino” – pois quando nasci ele já havia se transmutado no brasilianíssimo sertanejo vovô Chico.

Em todo caso, já tive sim a honra de cutivar tomates no sul da Itália. Não na calabresa Mormanno, mas numa horta pequena nos arredores da siciliana Catania.

Quando cheguei para dar uma mãozinha na lida, os tomateiros já estavam plantados, mas ainda em broto. Antes de tocar nas plantinhas, precisei demonstrar talento para a coisa limpando o terreno do mato ao redor de cada pé. Agachado, de joelhos na terra. Joelhos e mãos. Não sei se aprendi bem o serviço, mas pude entender de onde vem a saúde mental de quem cultiva a terra: cada toco de mato vale um pensamento dispensável; cada palmo de terreno limpo é metáfora de nossa própria mente, sempre tão necessitosa de ordem e de paz. Aquilo é uma beleza, serve para o sujeito achar o fio da meada no novelo das ideias, purgar o mal que eventualmente tenha feito a alguém, redimir-se, enfim, de todas as misérias.

Porque o mato consome o viço da terra, de maneira que a terra, estando limpa, cede mais viço aos tomateirinhos. No terreno limpo eles crescem mais rápido, mas não feito arvorezinhas: vão-se enramando pelo chão. Espalham-se em todas as direções, e desse jeito arriscam dissipar energia em uma porção de galhos fracos, que roubam vigor ao tronco central. E o que é pior: espalham-se rasteiros, suscetíveis às formigas e demais bichos da terra.

É quando os tomateiros pedem uma mão ao cultor da terra.

Fui então instruído, nessa fase, a enfiar cânulas (de bambu, mas pode ser qualquer pau) próximo ao caulezinho de cada pé. E, em seguida, a erguer cada um deles, e a encontrar seu galho mais forte, para então amarrá-lo docemente à estaca, dando-lhe direção, sustentação. É como erguer do chão alguém que nos pede ajuda – requer sobretudo crer que, dando uma mão àquela vida disforme, ela irá no futuro florescer e dar seus frutos de volta ao mundo, agradecida.

Mas para o tomateiro crescer forte, para que os frutos venham bonitos, precisa podar. E nas mãos de quem só aprendera a arrancar, a destruir o mato brabo, uma tesoura de poda parece arma perigosa. Com que critério afinal se escolhem os galhos certos a serem eliminados da massa de vida folhada de cada tomateirinho verde?

Pois – isso logo aprende-se – o certo é cortar os galhos de baixo, de baixo para cima, os que concorrem com o tronco principal. Dá pena quando são bonitos, mas é preciso: se não os cortamos, acaba que a planta não toma rumo e, crente de estar realizando todas, no fim não realiza nenhuma das promessas de vida que cada ramificação encerrava em si. O certo mesmo é cortá-los, pedindo licença a cada tomateiro para tal. Com ou sem palavras, o homem que cultiva a terra dialoga com cada planta, como se lhe tentasse identificar o talento maior, o rumo certo entre todos aqueles destinos possíveis que ela propõe quando jovem. Novamente não sei se aprendi bem o serviço, mas pude entender como o cultivo da terra poupa o homem da leitura de Freud (ou, melhor, ajuda-o a compreendê-lo melhor), como o ensina a conduzir e educar planta, bicho ou pessoa, respeitando-lhe a alegria vivaz de querer expandir-se para todos os lados, mas orientando-lhe a fazer escolhas à medida em que cresce, porque afinal não se pode ser tudo o que se quer nessa vida.

Ao longo do processo, é claro, não se pode esquecer de molhar os tomateiros – com pouca água a cada vez, mas cuidando para que o terreno esteja sempre úmido e fértil. Passados uns dois, talvez três meses, começam a despontar os primeiros ospomodori (ou pomidoro. Ou pomidori). E eu – agora já me fora delegada a função de gestor autônomo da horta – enchia, cheio de orgulho paternal, os cestos e baldes com os mais maduros, para comê-los em seguida n’alguma receita deliciosa do Mediterrâneo.

E por aqui vou encerrando, amigo leitor, porque já vai dando a hora do almoço e essa conversa de tomates me deu fome. E se toquei no assunto nesta semana sem ter falado de preços, de crises, de inflação, é porque não entendo muito dessas coisas. Perdão, caro leitor, mas isso é tudo o que sei sobre tomates.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. Ilustração em imagem da agência GettyImages

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Que calor!

Que calor! Enquanto o centro comercial do bairro fervilha, como um vespeiro atiçado, aqui no meio da Vila Romana os cães estão esparramados pelos jardins, como se estivessem na natureza. As férias escolares trazem tranquilidade. A frota circulante diminui. As piruas, cheias de estudantes, não correm mais ladeira abaixo e, principalmente, não buzinam mais histericamente às seis horas da tarde em frente à casa da vizinha de parede, a Denise, que, apesar de ser jovem – a maior gata do pedaço –, já é mãe de um menino de cinco anos. Eu gosto desta época do ano.

As crianças, enjoadas de ficar em casa vendo TV e jogando videogame, vão timidamente ganhando a rua, como se avançassem por território inimigo. A princípio é assim. Não demora, já estão reunidos na calçada para admirar as primeiras pipas das férias, sob o olhar zeloso de algumas mães, que aproveitam a oportunidade para jogar conversa fora, pôr o papo em dia, como elas dizem, o que na prática pode significar muitas coisas, mas principalmente falar mal dos outros, atualizar o obituário, o cadastro dos doentes, desempregados, desenganados, loucos, e também dos novos endinheirados, que se mudaram para os novíssimos edifícios de nome francês. Queixam-se sobretudo do calor. É o assunto principal. Que calor! Não se encontra posição na cama. Os pés estão inchados que só vendo! Assim quem é que aguenta? Melhor dormir na sala, onde é mais fresquinho (mas, aqui entre nós, também pra tirar uma folga do marido, que ronca que nem motor de barco).

Enquanto as velhas conversam, a molecada já invadiu a rua transversal, longe do olhar materno, onde eles esticam as linhas entre os postes pra passar cerol. Estão de olho nas pipas que já subiram. É só o início da longa temporada das pipas. Primeiro, comprar as varetas de bambu, o papel de seda, a cola; depois, arranjar umas garrafas de vidro para fabricar o cerol – a arma usada nos duelos incríveis que se travam nos ares. “Chupa, trouxa!”, um moleque grita de uma rua da Ipojuca, enquanto no céu uma pipa vem descendo, boiando, desmaiada. “Pipa no alto não tem dono!”. E é uma correria para ver quem chega primeiro.

Além da garotada, muitas pessoas escolhem tirar folga nesta época. Os rapazes aproveitam o tempo quente para jogar uma água no carro, tarefa que costuma durar horas, às vezes uma tarde inteira, dedicada a esguichar, esfregar, encerar o xodozinho, um Gol 2001, quatro portas. Mas isso é pretexto pra ficar na rua, olhando o movimento, as meninas. Sim, as meninas também saem. Nesse calor! Mas não ficam à toa na calçada, como os rapazes. Geralmente são vistas ou saindo ou entrando em casa, indo ou chegando do shopping, do cinema. Exceção são as que levam o cachorro pra passear. Não tem ocasião melhor para se conhecer a vizinha gata. Minha estratégia é também levar meu cachorro pra passear; se os cães se entendem, é meio caminho andado.

Dia desses, na padaria, enquanto pedia 200g de petit-four estilo ferradura, percebi que o Roque, meu cachorro, se agitou na calçada por causa da aproximação de alguém conhecido. Vi uma criança brincando com ele. Era o filho da Denise, a vizinha gata. Entrou rapidamente na padaria e parou de pé ao meu lado. Chamou o filho com rispidez. Mesmo usando roupa de trabalho, sapatinho de salto, vestido sóbrio, comprido, sem decote, estava linda. Apesar da cara de enfado, de quem passou o dia num escritório ou firma qualquer, numa sala com janelas fechadas, luz fria, ar-condicionado, ela continuava atraente, olhos grandes, lábios vermelhos, bem firmes, peitos firmes (que só vendo!...), sobre os quais os meus olhos se deitaram ansiosos e ingênuos, como os do Roque quando vê uma fêmea passeando; e vai segurar! Só que no mundo dos humanos é preciso que se cumpram certos rituais. Nem toda menina é papo reto. No geral é necessário lançar mão de estratégias galanteadoras, às vezes certas mumunhas, as palavras devidamente encaixadas, no tempo certo, evitando ser invasivo, óbvio ou clichê, todo esse papo aranha que a gente conhece de velho.

Mas Denise não estava de folga. Seu filho, agarrado às suas pernas, como um macaquinho, pedia sorvete com insistência. A atendente lhe perguntou se queria mais alguma coisa, além dos pães. Tentando conciliar as chaves de casa, bolsa, filho, atendente, pães, e o sorvete, claro, senão o menino vai ter um treco!, ela se virou, depressa, e finalmente me reconheceu. “Calor, hein?”, ela disse, dirigindo-se ao caixa com rapidez. Só tive tempo de responder o óbvio: “Que calor!”, antes dela sumir com chaves, bolsa, pães, sorvete e filho porta afora.


Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O casal vizinho nosso

Brigou na semana passada o casal vizinho nosso aqui de porta.

Ela disse estridente que ele lhe faltara o respeito. Minto: bem mais que a ela, que faltara o respeito à casa que recém-dividem. Que não poderia jamais ter feito aquilo. E que se não era suficiente homem, pois então que se fosse – que tirasse o diabo do nome do contrato, e de uma vez que se fosse.

Verdade que ela é um tanto coquete. E que ele, talvez demasiado garoto também. Não nos conhecemos muito. Nem muito nos parecemos tampouco.

Irmana-nos, contudo, o acaso de termos mudado para cá na mesma época, acho até que no mesmo mês.

Pois então, quando brigou na semana passada o casal vizinho nosso aqui de porta, ficamos nós meio tristes também.

É que talvez tenha-nos sobrevindo a tristeza real de saber que afinal pode muito bem um dia vir a pairar sobre nós – e então sombrear-nos para sempre o viço – a nuvem escura dos amores morrentes. Mais ou menos, o que sentimos foi o que se sente quando se fica sabendo que morreu aquele conhecido distante que tem a nossa mesma idade: menos que a dor pela perda da pessoa, entristece mesmo é a indesejável topada com nossa própria (nossa olvidada) mortalidade.

Mais que isso, a briga do casal vizinho nosso aqui de porta forçou-nos, no meio da tarde de terça, a lembrar que nós cá já perdemos uns quantos amores por esse mal terrível que é a falta de hombridade. Ora por falta alheia, ora por falta nossa – agora, passados uns anos, as culpas já menos importam: no profundo, doeu-nos mesmo foi lembrar, no meio da tarde de terça, que existe e que nos ronda a todos a fera humana da falta de hombridade.

Mas, felizmente, bem mais do que tudo isso, a briga do casal vizinho nosso fez-nos olhar para o bem puro que nos tem feito essa nossa casa serena, alegre de tão modesta. Pois então será por ela que seguiremos em frente, ora peleando, ora apenas mansamente convivendo com as feras todas – as nossas, as alheias. Não queremos ir embora daqui. Nem queremos mais que o amor nunca nunca de novo se vá.

***

Quanto ao casal vizinho nosso, ontem mesmo os vi passar de mãos dadas, em direção ao elevador. Pois: tem das suas a vida a dois.

Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Centenário

Agora virou um tal de celebrar centenário de gente morta que só.

A palavra, aliás – centenário – , existiu para mim muito antes de eu imaginar que pudesse significar uma centúria de anos. Era só um nome qualquer de rua, na verdade da avenida de que eu mais gostava quando era pequeno, porque tinha túnel, e eu adorava passar dentro do túnel, pedia a meus pais que desviassem o caminho só para passarmos dentro do túnel, do túnel acanhado que meu olhar de menino acreditava ser imenso e interminável túnel.

Centenário então ficou sendo nome próprio até meus mais ou menos sete anos, até o dia em que, de passagem por outra cidade – Ilhéus, ou Itabuna talvez – demos pela frente com uma engraçada avenida Cinquentenário. Desparafusando o sufixo, caiu-me nas mãos um imprestável numeral cinquenta. Então caí na besteira de repetir a operação com a palavra centenário, e ela nunca mais tornaria a ser só um nome aleatório de alameda.

Mas queria falar mesmo era dessa mania de gastar papel com centenário de famoso morto que o jornalismo brasileiro achou de pegar. Não que se deva deixar de homenagear quem quer que seja; é só que, sendo jornalista, a gente sabe o mórbido que é listar quem são os mortos que farão cem anos no ano corrente, e ficar contando os dias para chegar o aniversário do morto, e então publicar a matéria, carregada nas tintas ou na criatividade duvidosa, não raro aquela feita há séculos e estocada na gaveta, quando não recauchutada da efeméride passada. Pior é saber que todos os nossos infaustos colegas de imprensa farão a mesma coisa, e que por fim se entulhará o noticiário nacional de uma enxurrada de matérias quase todas meio iguais.

Tenho mais pena dos mortos que tiveram a infelicidade de nascer no segundo semestre, que são os que sangram mais tempo nas páginas dos jornais e revistas, nos especiais e reprises de tevê. Pois recordem-se vocês quanto se inventou de assunto sobre Jorge Amado, nascido em agosto, no ano passado. Que dirá de Nelson Rodrigues, também ele agostino, melancolicamente tornado em mais uma das unanimidades burras que ele próprio abominara. Gonzagão (coitado, foi nascer em dezembro!) foi metido em mil e uma prosápias – incluso numa assinada por este velhaco aqui, a qual teria passado muito bem obrigado sem que fosse preciso tocar-lhe no nome. Aplausos ao velho Rubem Braga, homem todavida precavido: escolheu nascer em janeiro, assim pelo menos falam logo de uma vez o que dele tiverem a falar, e deixam-no em paz no restante do ano. Mas o melhor de todos foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que mesmo depois de morto não poderia perder a piada: enquanto os colegas de geração completam cem, ele vai e completa 90; sarro puro.

Fico daqui pensando em quem serão os mortos centenários de daqui a pouco, em quem os de daqui a cem anos. Fico ademais prometendo a mim mesmo que, no jornal que um dia haverei de criar – na vida ou na literatura – , jamais se tratará centenário nenhum por efeméride, e sim a outros e mais democráticos números, como 47, 83, e mesmo o competitivo 99 (ah, com este daremos furo atrás de furo em toda a mídia centenarista!).

Ou então, bem melhor: só homenagearei centenários de grandes homens que o respeitável público não teve a sorte e a honra de conhecer. Como a buonanima de Franceschino, batizado Amedeo Giovanni Sebastiano Sangiovanni – o meu vovô Chico, famoso por erguer-nos nos braços, a mim e a minha irmãzinha, quando corríamos na direção de sua voz exclamando piccolini, de lá do final do corredor escuro da casa fria da rua da Itália, município de Poções – Bahia.

E não escreverei muito; apenas que tenho tanta pena de não ter conversado mais com você, vovô Chico, porque tinha vergonha de não entender direito o italiano misturado com português que você falava – depois, quando aprendi a falar italiano, foi tarde, já não havia mais você para conversar. E que hoje não lhe cultivo como nenhum mito, mas como um homem simples e bom, com quem até hoje sonho de tempos em tempos, mais nos tempos em que a vida se me afigura difícil. E que sinto tanto orgulho por você ter cruzado o oceano e ter vindo viver aqui, até por aqui morrer, e no final da história ter podido te ver ser aplaudido de pé por todos na rua, no cortejo da casa até o cemitério.

Eis então meu viva, vovô Chico, por seu centenário hoje, por você ser uma lembrança boa daquele tempo bonito em que eu não sabia o que centenário queria dizer.


Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Do rés-do-chão para o Olimpo



Confesso que soube do teu aniversário de 100 anos, comemorado sábado, por um jornal paulista, Rubem Braga. Não acho que gostarias de uma festa com música alta, canapés gordurosos, mulheres siliconadas e uísque de procedência duvidosa para celebrar o teu centenário de nascimento - nem talvez caderno especial, suplemento grampeado ou edição extraordinária. Defendo, porém, que merecias mais que uma matéria que comparou a tua efeméride retumbante com a dos 90 anos do teu amigo Sérgio Porto, que caíra no dia anterior, sexta-feira.

 Escreveu lá o repórter que tu, Braga, estás ganhando reedições, que pesquisadores preparam para breve o lançamento de volumes de inéditos teus, que uma exposição em Vitória vai relembrar a tua vida errante e a tua obra inesquecível. Para o Stanislau, nem livro, nem brinde, nem novidades, nem lambe-lambe pendurado na parede do museu.

Ora, esse confronto de cuidados com o legado de vocês, feito assim, com frieza jornalística e nenhum brilho literário, bem sabes, é expediente de paulista, que volta e meia encontra um jeito de expor a sua solidão sem tamanho e a sua felicidade nunca plena agarrando-se ao contorcionismo dos números e açulando rixas caducas. No Rio, tenho certeza, os jornais devem ter sido mais generosos com vocês.

***

Todavia, alguém de bom senso lá da sucursal carioca do jornal paulista foi à Barão da Torre investigar o estado de conservação do teu jardim suspenso, projetado pelo Burle Max e agora sob os cuidados do teu filho Roberto, que vive com a mulher na cobertura invejável. E escuta só que notícia boa: o menino tem metido a mão na terra e laborado como gente grande, e as plantas, as árvores, os passarinhos, o verde das folhas e o colorido das flores estão vivíssimos, como quando os deixaste.

De lá de cima não se tem mais a vista para a praia de Ipanema e para a Praça General Osório, pois prédios enormes foram erguidos ali em volta, e é preciso reconhecer que a morte do teu vizinho Millôr Fernandes agravou ainda mais a aridez do entorno. No entanto estão lá a jabuticabeira, a pitangueira, a goiabeira e até a rede na qual te deitavas para olhar o Rio e sentir saudades de Cachoeiro do Itapemirim.

Arrisco dizer que se o jornal tivesse tratado só do pomar e só da horta, sem os mexericos de um ganha isso, outro não ganha nada, teria oferecido aos leitores um registro muito mais simpático e digno da tua memória.

***

Olhando a semana que passou em retrospecto, me lamento por não ter percebido, aqui de Florianópolis, a aproximação do teu aniversário, e ter deixado que uma reportagem ingrata de jornal me pusesse a par do assunto. Pistas não faltaram, e eu só as reconheço agora.

Imagine que descobri no Centro da cidade um sujeito que esmola livros. Ele fica sentado numa curva de escadaria, sobre um pedaço de papelão coberto por romances baratos, e escreveu assim numa tira: “Aceito doações”. Pois na terça-feira eu passei os olhos sobre as mercadorias dele, voltando do almoço, e havia coletânea tua à venda, mas eu não percebi a tua presença.

Na quinta de manhã, no ônibus a caminho do trabalho, ouvi a música: era clássica, ou erudita, com violino, harpa, contrabaixo, tuba e fagote, tensa, nervosa, irrequieta. Ninguém portava radinho. E então fez-se a crônica, e eu imaginei que, sem saber, estávamos todos ali dentro rumando para um fim trágico, com a trilha sonora adequada, à lá tristes heróis gregos! Por isso, até o momento em que desembarquei, tossi em protesto ao ranger dos violinos, como aprendi contigo, que padecia de acessos de pigarro no teatro tão logo a primeira nota da orquestra fosse exigida pela batuta do maestro. Mas eu não percebi a tua presença.

No sábado do teu aniversário, só fui me dedicar à leitura depois de completar as tarefas da casa. E ouve essa: já faz uns meses que eu ando pondo em prática umas iniciativas de agricultor, e encasquetei, como resolução de ano-novo, que devo juntar às ervas que cultivo na sacada – alecrim cheiroso, salsinha selvagem e manjericão perfumado – um vaso grande, para plantar alface. E foi depois de pensar mais uma vez nas dificuldades desse projeto que eu peguei o jornal, e lá estava o teu jardim suspenso em fotos coloridas, vivíssimo, riquíssimo, onde de tudo dava e tudo nascia, menos dinheiro. E eu não percebera a tua presença.

No domingo, o mesmo jornal da véspera se redimiu da ranhetice e recuperou uma crônica tua, de 1952, sobre o joelho de uma amiga. Escreveste: “Há homens que não são atentos aos joelhos, nem reparam como eles mudam de personalidade quando a perna se estende e se dobra, ou melhor, como a personalidade de cada um depende de sua mudança nesse jogo”. Nada mais perspicaz. Mas o melhor estava no fim: não ficavas reparando muito no joelho, para que a amiga não pensasse que estavas de olho era na coxa. Eu gelei. Por sofrer de fotofobia, eu deveria usar óculos escuros, principalmente na praia, mas jamais consegui: me tortura a ideia de que as mulheres achem que, enquanto converso com elas, estou na verdade admirando coxas e seios, espertamente. E por elas eu deixo que o sol castigue os meus olhos...

És mestre até nas excentricidades e nos pudores, velho Braga! E eu te admiro ainda mais por isso.

Um forte abraço desse teu leitor.

Felipe Lenhart, jornalista e cronista, amigo deste NR, permitiu a reprodução do texto-homenagem a Rubem Braga originalmente publicado em De olho na Ilha

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Bem guardados

A memória é uma coisa louca: ora generosa, ora torturante, surpreendente, desalentadora, ou tudo ao mesmo tempo. Tem gente que defende a “exatidão” daquilo que lembra, como sendo a verdade, como se a memória fosse desinteressada e pudesse congelar o que aconteceu de forma objetiva. Nada mais enganoso. Cada pessoa que tenha estado presente numa determinada situação terá a sua própria memória do fato, pessoal e intransferível, moldada pela história e pelas características individuais.

Começo assim porque quero falar da infância, assunto que vem me rondando há algum tempo. Quem me companha aqui já leu várias menções à maternidade e aos filhos. Somos todos filhos, todos fomos fetos e bebês, e todos tivemos todas as idades anteriores à que temos hoje. No entanto, é muito comum que, uma vez encerrada determinada etapa da vida, guardemos dela uma memória idealizada. Deixando de lado a vida intrauterina e os três primeiros anos, dos quais poucos de nós se lembram de forma consciente, há uma espécie de consenso de que na infância se concentram as lembranças mais felizes.

Desconfio muito desse artifício. Aprender quem somos, o lugar onde estamos e como devemos nos comportar para obter aceitação e afeto – essenciais, mas nem sempre disponíveis – implicam um processo sumamente complexo e doloroso, que cada um de nós enfrenta como pode. Somos civilizados, enquadrados, moldados para caber naquilo que se espera de cada um, conforme a miríade de variáveis envolvidas na equação individual. Então, não me venham com esse papo de que tudo era lindo e perfeito. Não era, mas pode ter se tornado, para ficar mais confortável na memória.

Sim, é verdade que entre tudo o que eu não entendia e ninguém explicava, porque não há como explicar tudo, e não há como se desviar da dor dos filhos – como um dia desses a Eliane Brum escreveu lindamente em sua coluna semanal – vivi momentos mágicos quando criança. Entre eles, estão: olhar para as letras e entender como usá-las para formar palavras e expressar qualquer coisa – um deslumbramento; a banda de melancia devorada no quintal, com o suco escorrendo pelos braços e pingando dos cotovelos no chão – um prazer quase selvagem de tão intenso; acordar do sono da tarde banhada em suor, por causa do remédio para gripe, e encontrar minha mãe ao lado e uma jarra de Mirinda sobre a mesa. Estão lá, bem guardados, e de vez em quando os trago de volta. Você com certeza os tem também.


Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A janela

Há pouco para se ver da janela do meu quarto, além de um muro enfeitado com plantas trepadeiras, um obstáculo monótono que não me permite enxergar mais que umas janelas aqui e ali, quase sempre trancadas, o topo dos telhados das casas agrupadas e uma porção minúscula de céu. Muito pouco para minhas pretensões bisbilhoteiras. Sim, desde pequeno tenho verve fofoqueira; assumo. Como se morasse dentro de mim uma mulher velha e solitária, sentada há horas na varanda de casa em sua cadeira de vime, onde se dedica à eterna vocação de estar atenta a qualquer movimento da rua.

Por causa da visão desprivilegiada, uso os ouvidos. Pego no sono embalado pelo barulho da água corrente da criação de carpas do vizinho. Queria tanto um dia poder ver as carpas!

Foi numa dessas, mais exatamente na tarde do último feriado de 15 de novembro, enquanto trabalhava, que acompanhei a briga mais ferrada dos últimos tempos na Vila Romana, dessas que são lembradas pra sempre. Os gritos da mulher me arrepiavam. Incrível como grito de mulher assusta. Quando percebi que era mesmo coisa séria, larguei do computador e fui à janela para não correr o risco de perder nenhum detalhe. Mas essa briga de casal já tinha chegado no estágio em que o marido, um tanto arrependido por alguma bobagem que fez, tenta acalmar a esposa, que está em prantos, indignada, ameaçando romper definitivamente. Já o marido falava baixo. Vim saber, tempo depois, que era caso de agressão. No quarto da frente, o Cabelo, que mora comigo, também acompanhava a briga. Vimos de camarote a aproximação das viaturas, os dois na calçada; a mulher, mais calma, calada e descabelada; o marido, igual, com cara de bobo perdido, ouvia os policiais, balançando a cabeça pra cima e pra baixo, como um cachorro acompanhando o movimento dos talheres; pra cima e pra baixo; sim, senhor; até os policiais voltarem pras viaturas e sumirem, sob os olhares do povo janeleiro. Não ouvi falar mais no assunto. Deve ter ficado por isso mesmo.

Nesse mesmo feriado, que pra muita gente emendou com o do dia 20, teve mais duas brigas que eu acompanhei do meu quarto, enquanto corrigia envelopes intermináveis de provas da escola. Uma na casa do bebê recém-nascido: foi filho da puta pra tudo que é lado, uma gritaria terrível, portas batendo, criança chorando. A outra foi na casa do Alemão: que ele não pagava nenhuma conta, que não ajudava em nada, não trabalhava há quatro meses; e tudo isso ela gritava não para ele, mas para o bairro, porque tem certeza de que aqui no bairro o que não falta é gente querendo saber da vida dos outros; um escândalo.

Obrigadas a ficar em casa por causa do feriado, as famílias brigam. Lembrei-me de uma crônica em que eu narro a dificuldade que enfrentamos, eu mais quatro amigos, pra alugar esta casa. Os corretores queriam uma família, com marido, esposa, filhos. República?... Ah, república o proprietário não quer, porque tem as festas, o barulho...

Visitamos um prédio em que, logo no saguão, demos de cara com uma plaquinha, alertando: “Este é um prédio de família”. Nem subimos pra ver o apartamento. Famílias: briguem à vontade. Gritem. Xinguem. Só não chamem a polícia pra acabar com as nossas festas. Minha nova família, composta por cinco jovens, e uma infinidade de agregados, também tem direito de fazer o seu barulho de vez em quando.


Carlos Conte, sociólogo e cronista, estreia hoje a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A singularidade dos desodorantes

Tenho problemas com desodorantes (como inclusive já disse aqui). Eles estragam a roupa, ou não funcionam, ou têm cheiro de banheiro de rodoviária, ou tudo isso junto. Aquela gente das propagandas até tenta me convencer. Jatos refrescantes de prazer, mulheres que caem do céu arrancando as próprias roupas, carros velozes, esportes radicais... Mas nunca conseguiram.

Pra piorar, a última marca que me arrisquei a usar tinha outro problema. Produzia uma névoa tóxica no banheiro que, quando inalada, me irritava a garganta. Então criei uma técnica. Prendia a respiração, passava o desodorante, saía do banheiro e rapidamente fechava a porta atrás de mim. Assim continuei a usar esse desodorante por algum tempo. Não apenas porque fosse menos pior, mas, talvez, porque essa última implicância me agradasse.

Pois é. Me agradava. E me agradava porque fazia eu me sentir único. Todo mundo gosta de se sentir único. Uma programação biológica, provavelmente. Nossas mães dando à luz um por vez, e nos mimando como se o mundo girasse em torno do nosso umbigo.

No fundo, a verdade é que somos sete bilhões de atores principais nos trombando no palco, enquanto a plateia segue vazia.

Depois a vida vai aos poucos acabando com essa ilusão. Ou melhor, vai tentando acabar. Porque no fundo, em algum lugar do inconsciente e por mais comum que seja seu emprego, seu carro, sua mulher, todo mundo se acha um pouquinho único. Não há como ser diferente. Estamos vendo o mundo através dos nossos olhos, a vida nos é narrada por nossa própria consciência.

E assim temos a ilusão de que o mundo está lá pra gente, como um cenário onde protagonizaremos nossas aventuras. Uma espécie de engano primordial, eterna fonte de guerras, desavenças, divórcios e afins. No fundo, a verdade é que somos sete bilhões de atores principais nos trombando no palco, enquanto a plateia segue vazia.

É uma dura realidade essa. Ser só mais uma abelha no enxame. Por isso minha birra com o desodorante me dava prazer e, mais do que isso, me orgulhava. Tanto que há algum tempo, numa roda de amigos, me peguei genialmente discorrendo sobre os defeitos de cada marca de desodorante, sobre minha pele sensível, e sobre como minha visão do mundo cosmético se diferenciava da dos demais mortais.

No fim, comecei a contar de como minha garganta se irritava com a nuvem tóxica de sais de alumínio e aromatizantes e estava prestes a falar da minha técnica quando o Luli tomou a palavra. Assim, como se nada fosse e de um só golpe destruiu minhas ilusões de singularidade:

“Sim, essa marca é horrível. Eu sempre prendo a respiração antes de passar, saio do banheiro e fecho rápido a porta.”


Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Olha o fim do ano aí, gente!

Eu fico quietinha, tentando me fingir de morta, mas não funciona. Ele vem, vem mesmo, e acaba me achando assim, crente que estava invisível. O fim do ano, com pacote completo. Começa cada vez mais cedo, quando as lojas se enchem de luzinhas piscantes, botam “aquelas” músicas pra tocar o tempo todo (então é nataaaaaal...) e começam a se encher de gente. O resto, todo mundo sabe como é. Vontade de dormir hoje e acordar no 2 de janeiro – uma imagem escrita das mais surradas.

Este fim de ano está meio ameaçado por um fim de mundo anunciado. Já pensou? A festança organizada, geladeira abarrotada, presentes, árvore enfeitada, fantasia de papai noel comprada, amigo oculto esperando pra ser revelado e... caput! Acabou-se, instantaneamente, sem guerra nuclear e sem a revolta definitiva dos elementos naturais. Até que não seria mau. Não ficaria ninguém pra contar a história, nem Hollywood pra fazer o filme.

Na boa mesmo, não tenho nada contra festas, confraternizações e presentes, muito pelo contrário. Mas tem que dar liga, e liga é uma coisa que o calendário não consegue criar, porque a especialidade dele é impor, controlar e cobrar. A mistura de espírito festivo com obrigação desanda sempre, e deixa um gosto de “ufa, que bom que acabou”. Enquanto a gente é criança, tem a magia da inocência, que gera expectativa e surpresa, mesmo que repetida. Uma vez acionado o piloto automático, parece que se não houver festas, comilanças e presentes, tudo grande, animado e com muita gente, estaremos numa uma espécie de limbo pessoal, que, se assim for percebido, pode ter efeitos profundos. Sem falar na desigualdade, que ganha um ímpeto especial nesta época, quando corações momentaneamente amolecidos querem fazer parecer que somos mais iguais que durante o resto do ano.

Mas não, não quero azedar a festa de ninguém, nem a minha própria. É só uma tentativa de lembrar que a celebração das coisas que são importantes pra nós podia ser menos programada e mais sentida. Só isso. No mais, vem ni mim, fim de ano!


Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lembrança de uma lembrança

Passou tanto tempo que

já não me lembro de como eram tuas mãos,

embora me recorde, perfeitamente, que eram lindas;

E agora tenho medo de que ao voltar a vê-las

elas já não me pareçam tão encantadoras.

Se isso acontecer, saberei que

não foram elas que mudaram, mas eu
H.M.S, em “Cartas Inéditas”

“Se olho para trás e tento recordar os acontecimentos que vivi, os passos que me trouxeram até aqui, nunca estou completamente seguro de se estou rememorando ou inventando (…) O que já aconteceu e o que está por vir, na minha cabeça, são apenas conjecturas”, escreveu o colombiano Héctor Abad Faciolince em seu livro “Traiciones de la Memoria”.

Faciolince tem total razão: a memória é ficção, talvez a maior e mais bem construída de todas. E está viva. E é mutável. (As lembranças que tenho hoje da minha infância são diferentes das de dez anos atrás, e em dez anos seguramente serão outras.)

No filme “O segredo dos seus olhos”, o jovem viúvo que teve a mulher assassinada lamenta que, passado um ano da morte, começa a se esquecer de como era sua esposa. “Tenho que fazer esforço para recordar dela todo dia, dia e noite”. E comenta que já não se lembra se o último chá que ela lhe preparou era com limão ou com mel. “Então começo a duvidar, e já não sei se isso que vai ficando é uma recordação ou a recordação de uma recordação”, sentencia.

Se a vida é o original, a memória é a cópia, diz Faciolince. E agora divago eu: só que a cópia vai perdendo a cor, sofre a ação do tempo, amarela, fica menos nítida, e não raro perde mesmo algumas folhas. É preciso então fazer nova cópia, que não é feita a partir do original (porque esse já não se sabe onde está), mas da cópia. Até que chega um tempo em que a sucessão das cópias faz com que reste bem pouco do conteúdo daquela matriz. A recordação da recordação vira uma cópia bem pouco precisa do original.

Ainda assim e mesmo sabendo que seremos um dia vencidos, lutamos contra o esquecimento. Tratamos de preencher os vazios da memória com a ficção. Romantizamos, distorcemos, criamos, mentimos a nós mesmos, e assim construímos o que somos. “Ya somos el olvido que seremos”, dizia o poema de Borges achado no bolso da jaqueta do pai de Faciolince no dia em que foi assassinado. Vinte anos depois, o escritor contou a história do seu pai e a desse poema, e diz que o fez para que ela não caísse no esquecimento.

Ricardo Viel, jornalista, escreve de Lisboa, Portugal

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Moto contínuo

Das pessoas que moram no meu coração, duas estão grávidas. Esta continuação da vida, que não deixa as misérias humanas dominarem tudo, sempre me comove. Já imaginou o que seria de nós se soubéssemos que não haveria mais bebês, que a vida humana acabaria na nossa geração?

Meus dois filhos nasceram há mais de duas décadas – e, antes que se arme alguma confusão, esses bebês do momento não estão vindo deles. Mesmo não sendo das mais nostálgicas, há anos sinto que a infância dos meus filhos, que, enquanto acontecia, com toda a proverbial intensidade, exigiu de mim o que já se sabe que exige, durou uns cinco minutos. Foi tão rápido, no meio de tanta coisa, e numa idade minha tão borbulhante, que quando eu me dei conta, já havia acabado.

Deixou um gosto de coisa boa, de baião-de-dois bem temperado, com um toque de pimenta malagueta, delícia total. Eles fizeram de mim uma pessoa melhor, com o perdão do clichê. Porque eu sinto que virei gente grande de verdade quando percebi que trazia em algum lugar uma reserva de energia até então desconhecida, essencial para driblar a exaustão completa, frequente na ralação da mãe-que-trabalha-muito-e-viaja. E quando, por causa deles, tive que exercitar intensivamente a superação de limites, a tolerância, a compreensão e o acolhimento. Acompanhava-me alguém muito especial, com quem compartilhei a travessia do oceano desconhecido, durante a qual aquelas crianças viraram adultos.

Espero com comovida expectativa os dois bebês a caminho desse mundão besta, que estamos dando conta de estragar bem, mas que tem música, passarinhos, macarrão e livros. Como não dá pra guardá-los no armário, vamos ter que contar pra eles que, misturadas com a beleza, o afeto e a harmonia, os humanos sabem fazer coisas terríveis. Vamos ajudá-los a absorver as novidades e se ajustar ao programado pra eles, que já é um bocado de coisa, tentando não esquecer que eles poderão fazer aquilo que quiserem com o que estaremos oferecendo. Nessa troca inigualável, que dá sentido ao momento presente, o frescor e a energia deles nos abastecerão para o futuro.



Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Brasil vs Portugal (ou por que tanto desprezo?)

 Foi há muito tempo, mas parece que foi ontem de tarde que os portugueses chegaram ao Brasil. Nós – brasileiros e portugueses – continuamos nos tratando com uma terrível mistura de desprezo e desconhecimento em relação ao outro.

Aqui em Portugal, a imagem – que a Rede Globo ajudou a construir (melhor, destruir) – que se tem dos brasileiros é a de que não somos “gente séria”. As mulheres, em sua maioria, são putas, e os homens, promíscuos. Preferível que a filha tenha um tumor a um namorado brasileiro (porque o tumor, com alguma sorte, é benigno).

E do lado de lá (digo, daí), olha-se para os portugueses com a miopia que já tanto conhecemos: são ignorantes, burros, atrasados e passam o dia escutando fado e comendo bacalhau (para não falar das mulheres de bigode e dos donos de padaria chamados Joaquim e Manuel).

Desde que o primeiro português aportou na costa brasileira esse muro feito de desprezo e essa ignorância foi, com extrema eficiência, sendo construído (e de ambos os lados). E quando você se depara com alguém de 25 anos, que já não vive em uma aldeia, que tem acesso a informação e possibilidade de conhecer o mundo, e que reproduz o discurso de sempre, percebe que, 500 anos depois, nos comportamos ainda como se nunca tivéssemos nos conhecido (talvez porque, de fato, não nos conhecemos).

Hamilton de Holanda
Mas há, ainda há, alguma esperança. E ela vem não das instituições, dos governos, das academias de letras ou institutos de línguas, vem dos artistas, dos intelectuais, dos que com sua arte provam que não será um acordo ortográfico que nos aproximará, pois já falamos a mesma língua – o problema é que nos recusamos a qualquer tipo de diálogo.

Falo de gente como Hamilton de Holanda, que na sexta-feira passada fez um show estrondoso aqui em Lisboa. Em mais de uma hora de música, e apenas meia dúzia de palavras. E não foi preciso mais. Chamou ao palco músicos portugueses, tocou canções de cá e de lá, e demonstrou que o remédio contra o preconceito é a arte.

Espero que o Brasil se permita conhecer figuras como a fadista Carminho e o fadista Camané, o poeta José Luis Peixoto e o escritor Valter Hugo Mãe, que seguramente ajudarão, com sua produção, a desconstruir essa barreira que nos separa. E espero que do lado de cá eles também joguem no lixo os rótulos e se abram para escutar-nos – e assim poderão apreciar coisas sublimes como o bandolim de Hamilton de Holanda.

Nota: sobre o tema, recomendo a leitura da "Carta Aberta ao Brasil" de José Luis Peixoto, e um texto que Miguel G. Mendes escreveu para O Globo.

Ricardo Viel, colunista do NR,  escreve de Lisboa, Portugal

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A noviça rebelde e o paraíso racial*

Em 1994, Nelson Mandela tornou-se o primeiro Presidente negro da África do Sul, na culminância de uma biografia e um processo político que fazem dele, na minha opinião, o grande herói do nosso tempo. Não muito depois, o racismo e a desigualdade racial, sempre camuflados no Brasil, foram pela primeira vez reconhecidos por um Presidente da República, num pronunciamento oficial. Lembro-me do impacto que me causou ver e ouvir Fernando Henrique Cardoso dizer que o Brasil tinha uma dívida histórica com os negros, e que precisava tomar medidas importantes para começar a saldá-la.

O mandato de Mandela ia pela metade quando participei de um grande evento internacional em Salzburg, Áustria (num lugar onde eu me sentia dentro de “A noviça rebelde”, pronta pra encontrar Julie Andrews cantando no jardim). Estavam ali umas trezentas pessoas, de muitos países, sendo eu a única brasileira, para discutir estratégias de desenvolvimento durante cinco dias.

Como acontece frequentemente em reuniões desse tipo, as sessões de trabalho eram longas e burocráticas. Em bom brasileiro, um tédio. Era nos intervalos que as conversas e intercâmbios de fato aconteciam, e onde melhor se cumpriam os objetivos do seminário – o que também é muito frequente. É que as pessoas fazem muito enquanto conversam, mas acham que trabalhar “a sério” é colocar todo mundo dentro de uma sala escura e refrigerada e despejar sobre elas um falatório do qual praticamente nada se aproveita de verdade, e pouco fica registrado na memória individual. Mas aquele papo que rola no corredor, no almoço, no jardim, esse move as engrenagens.
O que mais me impressiona é a negação persistente do racismo, enquanto ele é incessantemente praticado, assim como a disseminada incapacidade de entender que a superação da discriminação e da desigualdade é boa para todos, e de maneira nenhuma implica favores descabidos. Aliás, a igualdade está na lei, o que mais custa é trazê-la para a vida.
Bom, então, as refeições eram todas feitas num grande salão, em mesas de doze lugares. Num determinado jantar, sentaram-se ao meu lado dois sul-africanos brancos. Como era de se esperar, Mandela e a extinção do odioso sistema do “apartheid” viraram o centro da conversa, até que alguém lhes fez a pergunta crucial: “como o seu país vai fazer pra superar o racismo?” De forma quase coordenada, eles responderam: “há vários caminhos e modelos, mas nós queremos que a referência seja o Brasil, onde se desenvolveu uma sociedade na qual não existem diferenças raciais”.

Eu quase caí da cadeira. Virei-me para o grupo e, declarando-me brasileira, comecei a falar sobre a extensão e profundidade da discriminação em nosso país, de como vinha sendo velada e negada desde sempre, mas que finalmente, poucos meses antes, fora pela primeira vez nomeada ao mais alto nível, sem eufemismos e sem panos quentes, e como era importante que a sociedade brasileira acordasse para o assunto e realmente começasse a agir no sentido de eliminá-la. Falei da luta incansável dos movimentos negros organizados e das dificuldades de combater um inimigo “inexistente”. E que, por favor, a África do Sul buscasse outro modelo, porque essa “democracia racial” era uma mentira completa.

Quando fiz uma pausa, todos me olhavam como se eu fosse um ET. Estavam chocados, mas curiosos, e começaram a fazer perguntas. A conversa se estendeu por mais umas duas horas.

Passaram-se vários anos desde esse episódio. Muita coisa já mudou, graças principalmente aos movimentos organizados e a iniciativas governamentais, sempre enfrentando muitas dificuldades. Aqui, não foi preciso um “apartheid” na lei para que os lugares dos negros fossem muito bem demarcados. O débito brasileiro nesta área ainda é enorme, mas poucos se dispõem a pagar o preço.

O que mais me impressiona é a negação persistente do racismo, enquanto ele é incessantemente praticado, assim como a disseminada incapacidade de entender que a superação da discriminação e da desigualdade é boa para todos, e de maneira nenhuma implica favores descabidos. Aliás, a igualdade está na lei, o que mais custa é trazê-la para a vida.

Esta não pode ser uma luta restrita aos negros ou outros grupos discriminados. É indispensável o engajamento dos brancos e de todas as pessoas que prezam a democracia e a igualdade como valores essenciais. O multiculturalismo é uma das características brasileiras mais apreciadas em todo o mundo. Nos últimos anos, estamos fazendo bonito em outras áreas também, e atraindo muita admiração e respeito.
Seríamos definitivamente irresistíveis se pudéssemos exibir, com muito orgulho, uma verdadeira democracia racial. Não aquela que é sem nunca ter sido, e que, se os sul-africanos tivessem copiado (será que realmente o cogitaram?), hoje teriam algo bem parecido com o que havia antes, mas sem nome.

*Este texto contou com a valiosa contribuição de Ana Carolina Querino. 

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Tudo ao mesmo tempo agora

Foram décadas de gestação do desejo de conhecer Berlim, uma cidade outrora efervescente, mas que se encontrava dividida por um muro, num país partido por razões difíceis de entender pra uma adolescente bisbilhoteira do que rolava pelo mundo. Nos últimos anos, a curiosidade só aumentou, pelo incrível desfecho da divisão, posta abaixo pelos moradores da cidade, com suas próprias mãos.

Cheguei agora, quando o que sobrou do malfadado muro é um traçado no chão, alguns pequenos trechos preservados intencionalmente e “lascas” que dizem ser dele, vendidas em medonhos invólucros de acrílico nas lojas de badulaques turísticos. Meu hotel fica na antiga parte ocidental, próximo à praça Wittenberg e a uma rua de comércio das mais concorridas. Até onde pude perceber numa visita de poucos dias, nada restou na vida cotidiana da cidade que sugira que algum dia ela foi dividida. Difícil imaginar o dia a dia controlado pela Stasi em sórdidos detalhes, magistralmente registrado no filme “A vida dos outros”.
enquanto algumas são obrigadas a se cobrir de preto e andar pela vida como zumbis anônimos, outras se submetem a tiranias diversas, como padrões de beleza e comportamento que nos roubam a autoestima e tentam eliminar as diferenças individuais que fazem de cada uma de nós aquilo que somos.
Tendo sido palco de tudo quanto é acontecimento relevante para a história da Alemanha, em que pese o gosto germânico pela grandiosidade, e destruída e reconstruída diversas vezes, a monumentalidade do miolo de Berlim é de deixar brasiliense de queixo caído e pés maltratados. Além das grandes distâncias, é preciso contornar quilômetros de tapumes. A cidade é bonita, com céu amplo e profundo, mas parece que resolveram reformar todas as avenidas, edifícios históricos e praças ao mesmo tempo. Para nossa sorte, os museus estão ali, paradinhos, esperando que entremos e aproveitemos tudo o que pudermos dos magníficos acervos. Valem a viagem, o frio e a chuva.

Multidões de turistas se deslocam pra lá e pra cá, e aposto que muitos nem percebem que o conjunto de blocos de concreto geométricos que formam um grande labirinto a céu aberto, ladeado pela rua Hannah Arendt, é o Memorial do Holocausto. Mas como não perceber?

Hoje, quando desci para o café da manhã no hotel, dei de cara com uma mulher toda coberta de preto, naquele traje que deixa aberta só uma frestinha para os olhos, usado pelas muçulmanas em algumas regiões mais conservadoras. Estava acompanhada de outras duas mulheres, que tinham a cabeça coberta mas vestiam roupas “ocidentais”, e um homem jovem, que ostensivamente comandava o grupo. Os quatro ocuparam sozinhos uma grande mesa. Foi difícil controlar o incômodo que aquele grupo me causou. Esta convivência é inevitável na Europa de hoje, e está na origem de tantas situações de estranhamento e intolerância.

Pois é, enquanto algumas são obrigadas a se cobrir de preto e andar pela vida como zumbis anônimos, outras se submetem a tiranias diversas, como padrões de beleza e comportamento que nos roubam a autoestima e tentam eliminar as diferenças individuais que fazem de cada uma de nós aquilo que somos. Mas tudo bem, eu sei, este é um outro assunto. Só está aqui porque me fez pensar em muros, barreiras que estão esperando para ser derrubadas e superadas.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Aconteceu numa primavera


Estou com preguiça de datas. Mas vamos lá. A coisa sucedeu no 22 de setembro de 1977. Peguei a maquininha de subtrair: há exatos trinta e cinco anos. Ou seja, muitas leitoras e leitores deste Nota de Rodapé nem tinham nascido.

Foi uma invasão. A polícia cercou o prédio. Entrou. Distribuiu cacetadas. Quebrou muita coisa. Feriu pessoas. Prendeu mais de 700 estudantes. Eu era um deles. Vou dizer: senti um medo medonho. Medo de apanhar, medo de ficar presa, medo da ditadura.

Vou fazer a narração linear. O assalto foi à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC. Eu era aluna da USP e estava na PUC, ao lado de mais de dois mil colegas, para tentar realizar um Encontro Nacional dos Estudantes.

Apenas isso. Um encontro de estudantes. Mas na ditadura, toda e qualquer oposição era vista pelos militares como um atentado à segurança nacional. Nitroglicerina pura. Eu sei que para os menores de 30 anos fica difícil acreditar nessas histórias de repressão e autoritarismo. Mas são fatos.

Então eu estava na PUC de Perdizes, quando vi a tropa de choque cercando o prédio novo (que hoje é velho). Daí passei a ouvir, ver, cheirar as bombas de gás lacrimogênio disparadas contra nós. A cor do gás era alaranjada, se é que a memória não está trapaceando.

Também lembro de um corredor polonês. De todos no estacionamento em frente à universidade. Ouço a voz do coronel Erasmo Dias (procurem por ele no google) ordenando: "Todos os que forem estudantes da USP estão presos!"

Estava claro, ele não podia prender os alunos da PUC: "Pois nem todos estavam aqui fazendo baderna." Aí vi uma fileira de ônibus da antiga CMTC abrindo as portas para nos carregar. Pela janela do ônibus olhava as pessoas nas varandinhas das casas. Me lembro da cara de espanto de um senhor.

Fomos levados para o Quartel Tiradentes, na avenida com o mesmo nome. Lá fomos fichados, constrangidos e, na manhã seguinte, a maioria foi liberada. Quem já havia sido preso foi encaminhado para mais constrangimentos no DOPS. Cujo prédio hoje abriga o Museu da Resistência.

Vida que segue. A ditadura caiu. A democracia chegou. Nos dias que correm, todo mundo pode fazer encontros nacionais do que quiser. A internet está aí garantindo o fluxo livre e contínuo de opiniões. O Brasil e o mundo são outros.

Eu também mudei. Deixei de crer em muitas coisas. Sigo acreditando em tantas outras. Estou me aproximando dos sessenta anos. Sou uma senhora, afinal. E como toda senhora tenho várias histórias para contar. Esta tarde, resolvi contar essa.

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e colunista do Nota de Rodapé, escreve a coluna mensal Observatório da Esquina. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Sangrando

Porque también somos lo que hemos perdido
Alejandro Iñarritu

Desejei com tantas ganas, e com tamanha fé, e rezei tanto, e para tantos santos, que numa noite por fim aconteceu. Surgiu, vinda da bruma, uma senhora muito bonita, cabelos presos em coque, salto alto e vestido preto ajustado no corpo esguio.

"pediu que eu fechasse os olhos para, como quem
sopra um dente-de-leão,  beijar-me à boca"
Caminhava com passos firmes, e ao chegar junto de mim acariciou com suas suaves mãos o meu rosto. O trouxe delicadamente até o seu e pediu que eu fechasse os olhos para, como quem sopra um dente-de-leão, beijar-me à boca – deixando um gosto adocicado nos meus lábios.

Sabe quem sou, perguntou com sua voz diáfana. Eu disse que não. Eu sou Deus, respondeu. Deus? Mas Deus não é homem? Eu sou qualquer coisa, sou o que quiseres, sou como me imaginas, sou tudo o que há. E prosseguiu: tens me perturbado muito, tens me reclamado a toda hora, realmente me chateado, e tens me chamado com tanta sanha que tive que vir realizar teu pedido. Mas advirto que se trata de algo muito perigoso. Antes de conceder teu desejo quero saber se realmente estás seguro.

E eu, com as mãos pousadas em sua cintura, como quem dança uma valsa, respondi no seu ouvido: é tudo o que mais desejo nesse mundo. Quero que apagues toda e qualquer marca dela na minha vida, como se nunca tivesse existido, ou que pelo menos nunca tivesse cruzado meu caminho. Elimine tudo o que me faça recordá-la, porque assim não consigo viver.

Assentiu com a cabeça, olhou-me com seus olhos vivos, armou-se de um sorriso cúmplice, e ainda beijou a minha boca novamente antes de dizer: então assim será. E desapareceu. Acordei e estava nu. Abri a janela em busca de luz e a paisagem que vi era um descampado sem qualquer sinal de vida. Não havia nada: os prédios, a rua da minha casa, o mar ao fundo, nem sequer a igreja de São Bento estava. Pensei ainda estar sonhando e fui, meio trôpego, em direção ao banheiro. Ao passar pela sala me apercebi que a biblioteca não existia mais e que os vasos de flores, assim como o aparelho de som, com todos os discos, haviam sumido.

Entrei na ducha, abri a chave da esquerda e deixei cair sobre meu corpo a chuva gelada. E quando já me sentia melhor, vi, tingida de vermelho, a água que escorria pelo ralo. Levei as mãos ao rosto e percebi que do meu nariz jorrava sangue. De nada adiantou levantar a cabeça, o ralo cada vez tragava uma arroio mais escuro.

Já em desespero fechei a ducha e agarrei a toalha azul, que se pintou rapidamente. Sem conseguir estancar o sangramento, cheguei à pia, e vi que nem a escova de dentes dela nem a minha estavam no copo vidro. E quando me olhei no espelho quem não estava era eu.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas, de Lisboa, Portugal. + Textos do autor.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Pragueações breves

Nas minhas andanças por aí, já passei alguns sufocos típicos de estar em viagem. Como pedir informação onde se deve, e receber desinformação. Já me aconteceu várias vezes, inclusive em lugares com fama de sérios, competentes e precisos, onde não se espera este tipo de falha. Sempre me faz lembrar que gente é gente em qualquer lugar, até naqueles onde se acha que as pessoas alcançaram uma condição “mais adiantada”. Lembrar disso é muito bom.
Depois de saber que o belo cemitério que vejo da janela do meu quarto de hotel abriga os restos mortais de Franz Kafka, fui até lá “tomar a bênção”
 Meu analfabetismo também me choca. Explico: desde a primeira vez que estive num país onde meu limitado conhecimento de idiomas era inútil, constatei a miséria que é não conseguir ler instruções, placas, cardápios, nada. Cada vez que isto me acontece, como agora, aqui em Praga, penso em como a leitura e, mais que isso, a capacidade de entender e interpretar o que se lê, é essencial. Conclusão nada original: deixar de investir pesado na educação é uma escolha perversa, mas parece que os governantes leem isto e não entendem...

Ontem pude conversar um bom tempo com uma senhora daqui, em espanhol. Considerando minha notável ignorância sobre esses lados do mundo, ouvir um pouco sobre esta cidade encantadora e seu povo foi um luxo. Tendo ela vivido todo o período do regime comunista e presenciado a divisão da Tchecoslováquia em dois países, perguntei-lhe qual tinha sido a melhor coisa do socialismo. No seu jeito suave e direto, ela respondeu: “A melhor coisa é que eu era jovem. Mas, falando sério, duas coisas eram muito boas: a inexistência de desigualdades de renda e acesso à educação, e o fato de que todos trabalhavam muito menos do que atualmente. Isto era considerado um absurdo por alguns, mas a verdade é que esta vida que se leva hoje, de trabalhar doze, catorze horas por dia e jamais ter tempo para outras coisas, é horrível. Os jovens de hoje não vivem, só trabalham.”

Depois de saber que o belo cemitério que vejo da janela do meu quarto de hotel abriga os restos mortais de Franz Kafka, fui até lá “tomar a bênção”. E depois de ver um pouco desta cidade tão linda, que transpira arte, cultura e humanismo em cada detalhe, vou dormir pensando na necessidade urgente de reabrirmos o espaço do ócio e da contemplação da beleza.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Ronque mais, meu amor

O engenheiro Marildo sonhava que estava de frente para o mar, de sungão, comendo uma porção de lula frita e um balde de cerveja gelada estava à sua espera. O sonho ia bem, quase perfeito, mas ao enfiar a mão no balde gelado, Marildo acordou assustado com um cutucão doído na costela direita.

– Ãããããã, que foi que eu fiz? – disse ensonado, percebendo que engolia uma saliva seca, não a cerveja, proibida desde que sua vida alimentar estava sob controle há meses por causa da diabetes e da pressão alta.

Josélia, sua esposa, veio então com o pedido inusitado.

– Ronque mais, meu amor, por favor!

– Roncar mais? Você enlouqueceu?

– Benhê, poxa, que custa ficar de barriga pra cima mais um pouco e não virar de lado?

Sem paciência, Marildo dormiu novamente sem lhe dar atenção.

Noite após noite, Josélia o acordava na alta madrugada pedindo para ele roncar. Aquela atitude suspeita o deixou com a pulga atrás da orelha, mas o sono o vencia, e ele retomava o descanso.

– Que mulher no mundo gosta do ronco do marido? – indagava ao papagaio Ivanildo, seu bicho de estimação. Nunca obteve uma resposta satisfatória. O papagaio, de tanto ouvi-lo falar no assunto, aprendeu a repetir.

– Ronque mais, meu amor, por favorrrr! Ronque mais, meu amor, por favorrrr!

Marildo estava transtornado. Estaria sua mulher tendo delírios? Seria sonâmbula? Os 20 anos do casamento até aquele episódio fora da curva era satisfatório. Ele, um engenheiro civil conservador, aposentado, responsável por grandes obras de infraestrutura no país. Ela, por sua vez, formada com êxito em todas as etapas da aviação civil brasileira era uma comandante, das poucas mulheres a pilotar um boing em voos intercontinentais. Sem filhos, por opção, levavam a vida a quatro, já que além do papagaio Ivanildo, existia a intempestiva poodle Leonor.

Certa noite, antes de dormir, Marildo jogou a toalha:

– O barulho do meu ronco te dá prazer?

– Hummmm...

–  Dá ou não dá, Josélia?

– Ahhhh, não! Quero dizer, dá, mas é de um jeito diferente...sabe?

– Não sei, não, explique!

– O meu grande sonho sempre foi ir a alguma guerra ou conflito e poder pilotar um avião de carga. É uma adrenalina! Daí que naquela noite eu sonhava justamente com isso...

– Tá, mas o que tem o meu ronco com isso?

– Era justamente o volume do seu ronco que mantinha meu inconsciente a achar que o motor do avião estava a toda potência. O avião começou a cair quando você parou de roncar...

– Não é possível...

– Acordei desesperada e te cutuquei; que delícia aquele motor! Nossa, só de lembrar fico arrepiada!

– Se controla, Josélia, por favor!

– Amorrr, preciso saber o que vai acontecer! Tento retomar aquele sonho toda noite, mas você precisa roncar, só mais um pouco vai, por favor, assim consigo chegar ao meu destino!

Thiago Domenici, jornalista

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Se eu acreditasse em Deus

Advertência: material não recomendado a fanáticos religiosos

Se houve um estupro e dele resultou uma gravidez é porque Deus quis; logo, não se deve abortar. Foi o que disse na semana passada um político estadunidense em campanha para o Senado.

A concepção divina de Richard Mourdock é, grosso modo, a de muitos crentes. Ele [Deus] está em todos os lugares, é onipresente e nada acontece sem sua benção. “Não cai uma folha de uma árvore se Ele não quiser”. Portanto, se uma mulher ficou grávida era para ser assim, e o fato dele não querer aquele filho, do feto não ter cérebro ou qualquer outro “detalhe” é secundário.

Se eu acreditasse em um deus, o odiaria. Ao menos que aceitasse que esse deus, após criar o mundo e as pessoas, foi descansar e nunca mais acordou. Caso contrário, seria difícil ter qualquer apego por um ser sádico, perverso, implacável e injusto.

Tenho alergia a extremistas, e acredito que um ateu que pregue sua ausência de fé deve ser tão insuportável quanto um crente que faz o mesmo. Não pretendo que quem tenha um Deus deixe de tê-lo, mas apenas fazer um alerta que em nome de um deus se pode cometer barbaridades como obrigar uma mulher a parir uma criatura fruto de um estupro.

Um mundo com menos fanatismo religioso possivelmente seria um mundo melhor, sem tanto preconceito e intolerância, e talvez menos injusto - já que o discurso da existência de um ente superior que tudo vê e tudo pode acarreta em muitos o comodismo e a resignação.

Durante um tempo pensei que ter fé trazia paz e um certo sentido na vida, e cheguei até a invejar os crentes. Hoje me sinto livre por não acreditar numa força superior, já que nutriria por ele uma repulsa e um ódio que não faz bem que se cultive, muito menos contra algo que nem sequer existe.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas, de Lisboa, Portugal

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Correio sentimental

A culpa é do Ricardo Viel, que há algumas semanas publicou aqui um lindo texto sobre como era a vida “Antes do email”. Pegou-me prestes a encarar um centro cirúrgico (lugarzinho lúgubre) para uma intervenção programada, tranquila, mas que deixa qualquer um de cabelo em pé e coração mole. Não só porque você sabe que vão te cortar e te remexer por dentro, mas também porque vão fazê-lo enquanto você está sedada, vagando pelas galáxias. Saí de lá com uma pintura primitiva na barriga e uma sonolência boa, que me fez viajar pelas cartas que escrevi e recebi.

Foram muitas. Escrevia-as à mão, em papel especial, passava a limpo quando necessário, preparava o envelope com destinatário e remetente, dobrava o papel no formato que encaixava, colava e levava ao correio, onde ela recebia o selo e era despachada ao seu destino. Daí, ficava curtindo a ansiedade de esperar a resposta por vários dias, e quase sempre vinha. Vieram muitas. Fui uma missivista – como ainda se dizia – esforçada e prolífica por anos a fio, mantendo correspondência com parentes e amigos espalhados por algumas cidades e até países.
Sabe o que não mudou? A nossa necessidade de trocar afeto com as pessoas, compartilhar segredos, colocar em palavras escritas o que nos vai no coração, falar de impressões e sentimentos, ou de qualquer outra coisa, num tom que só funciona quando estamos sozinhos com nossos botões.
Uma das últimas novidades da era das cartas foi o aerograma, uma folha de papel bem leve, que permitia que a gente escrevesse de um lado e, do outro, trazia impresso o formato do envelope. Era só dobrar, endereçar e enviar. Numa IBM elétrica, eu ocupava todo o espaço interno com a carta, datilografada em letra pequena e espaçamento apertado. Rendia muito e ficava baratinho.

Pois é, o email acabou com esses rituais e quase eliminou a espera. Mais recentemente, outras formas de comunicação digital o estão substituindo, e daqui a pouco ele também será lembrado com esse tom nostálgico. O “videofone”, que encantava nas fantasias futuristas de poucas décadas atrás, está hoje acessível a qualquer pessoa que esteja diante de um computador e saiba usar seus inúmeros recursos de comunicação instantânea com som e imagem. Tanto que, atualmente, nenhuma viagem é tão longa ou distante que impeça o contato diário, o que, por sua vez, tirou do ato de viajar um certo glamour de se estar inacessível – e um distanciamento eventualmente muito desejado e apreciado.

Sabe o que não mudou? A nossa necessidade de trocar afeto com as pessoas, compartilhar segredos, colocar em palavras escritas o que nos vai no coração, falar de impressões e sentimentos, ou de qualquer outra coisa, num tom que só funciona quando estamos sozinhos com nossos botões. Não sabe como encarar a pessoa e dizer o que pensa ou sente? Tente escrever, procurando aquelas palavras que melhor expressem o que te vai no coração e na cabeça. No mínimo, será um exercício de autoconhecimento e moderação, que pode te surpreender muito. Depois de matutar bastante, talvez até decida não enviar o que escreveu, guardando para si mesmo uma reflexão preciosa ou reveladora do que te vai por dentro. É isso, escrever permite ajustar o foco.

Falando nisso, e fazendo uma ressalva importante, pense muito bem antes de colocar desaforos e impropérios por escrito, porque, que eu saiba, ainda não foi inventado um “delete”, uma tinta, uma borracha mágica que conserte sentimentos feridos por letras. Só o tempo, que, acredita-se, conserta tudo, mas demora pra passar.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.
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