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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Ronque mais, meu amor

O engenheiro Marildo sonhava que estava de frente para o mar, de sungão, comendo uma porção de lula frita e um balde de cerveja gelada estava à sua espera. O sonho ia bem, quase perfeito, mas ao enfiar a mão no balde gelado, Marildo acordou assustado com um cutucão doído na costela direita.

– Ãããããã, que foi que eu fiz? – disse ensonado, percebendo que engolia uma saliva seca, não a cerveja, proibida desde que sua vida alimentar estava sob controle há meses por causa da diabetes e da pressão alta.

Josélia, sua esposa, veio então com o pedido inusitado.

– Ronque mais, meu amor, por favor!

– Roncar mais? Você enlouqueceu?

– Benhê, poxa, que custa ficar de barriga pra cima mais um pouco e não virar de lado?

Sem paciência, Marildo dormiu novamente sem lhe dar atenção.

Noite após noite, Josélia o acordava na alta madrugada pedindo para ele roncar. Aquela atitude suspeita o deixou com a pulga atrás da orelha, mas o sono o vencia, e ele retomava o descanso.

– Que mulher no mundo gosta do ronco do marido? – indagava ao papagaio Ivanildo, seu bicho de estimação. Nunca obteve uma resposta satisfatória. O papagaio, de tanto ouvi-lo falar no assunto, aprendeu a repetir.

– Ronque mais, meu amor, por favorrrr! Ronque mais, meu amor, por favorrrr!

Marildo estava transtornado. Estaria sua mulher tendo delírios? Seria sonâmbula? Os 20 anos do casamento até aquele episódio fora da curva era satisfatório. Ele, um engenheiro civil conservador, aposentado, responsável por grandes obras de infraestrutura no país. Ela, por sua vez, formada com êxito em todas as etapas da aviação civil brasileira era uma comandante, das poucas mulheres a pilotar um boing em voos intercontinentais. Sem filhos, por opção, levavam a vida a quatro, já que além do papagaio Ivanildo, existia a intempestiva poodle Leonor.

Certa noite, antes de dormir, Marildo jogou a toalha:

– O barulho do meu ronco te dá prazer?

– Hummmm...

–  Dá ou não dá, Josélia?

– Ahhhh, não! Quero dizer, dá, mas é de um jeito diferente...sabe?

– Não sei, não, explique!

– O meu grande sonho sempre foi ir a alguma guerra ou conflito e poder pilotar um avião de carga. É uma adrenalina! Daí que naquela noite eu sonhava justamente com isso...

– Tá, mas o que tem o meu ronco com isso?

– Era justamente o volume do seu ronco que mantinha meu inconsciente a achar que o motor do avião estava a toda potência. O avião começou a cair quando você parou de roncar...

– Não é possível...

– Acordei desesperada e te cutuquei; que delícia aquele motor! Nossa, só de lembrar fico arrepiada!

– Se controla, Josélia, por favor!

– Amorrr, preciso saber o que vai acontecer! Tento retomar aquele sonho toda noite, mas você precisa roncar, só mais um pouco vai, por favor, assim consigo chegar ao meu destino!

Thiago Domenici, jornalista

domingo, 3 de julho de 2011

A virada

Tomarei a última garrafa de whisky às cinco em ponto.

Seis horas depois estarei na contramão da rodovia norte-sul.

Lá alcançarei a máxima velocidade possível do porsche roubado uma hora antes.

Rodarei com uma dose cavalar de adrenalina por 5 km na faixa exclusiva dos caminhões.

Você pode imaginar a sensação da adrenalina misturada ao álcool? e a velocidade?

O vento entrará pela janela e seu barulho me libertará. Falta pouco.

As luzes crescem e com elas as buzinas e freios fazem coro a minha orquestra particular.

A 150 metros do fim o coração se iguala ao velocímetro.

Marca 200. E bate.

Assim, sem adjetivos e explicações formais, morrerei a meia noite do dia 31 de dezembro de 2018.

Será o dia da virada.

Fredo Sidarta, poeta, para a seção Cronetas do NR.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Elogio à leitura e à ficção

Sem os bons livros que lemos seríamos piores do que somos, mais conformistas, menos inquietos e insubmissos, e o espírito critico, motor do progresso, nem sequer existiria. Tal como escrever, ler é protestar contra as insuficiências da vida. Quem busca na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizer nem de saber, que a vida tal qual é não nos basta para saciar nossa sede de absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos as ficções para poder viver de alguma maneira as muitas vidas que gostaríamos de ter quando só dispomos de uma.
Mario Vargas Llosa, trecho do discurso do Prêmio Nobel, dez. de 2010
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