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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Obrigado ao menino do mato

Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.

Manoel de Barros, o meu poeta preferido, foi-se neste dia 13 de novembro aos 97 anos na garupa de um bem-te-vi-cartola, a voar as miudezas e rir as ignoranças da gente toda. O menino do mato usou palavras de ave para escrever. E fez isso como ninguém. Como ninguém voou fora da asa.

O poeta nasceu em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em 1916, onde passou a infância. Rodou e em 1949 voltou ao Pantanal para tomar conta de uma fazenda que herdou do pai. Viveu em Nova York, Paris, Itália e Portugal. Aos 97 anos tem mais de 20 livros publicados e é considerado um dos poetas da língua portuguesa mais originais de todos os tempos. E o mais lido do Brasil.

Meu amigo Renato Pompeu, que também nos deixou esse ano, quando escreveu do lançamento da poesia completa de Manoel de Barros, há alguns anos, pontuou: "“Rosas de maio”, nome de canção gravada nos anos 1940 pelo grande Carlos Galhardo, é a frase que me ocorre para saudar o grande lançamento do mês: a “Poesia completa”, de mais de 490 páginas, do grande Manoel de Barros, volume lançado pela Leya, com capa dura e magníficas ilustrações coloridas." Um livro essencial.

Rosa de Maio
Carlos Galhardo

Rosa de Maio
É meu desejo
Mandar-te um beijo

Nesta canção...
Rosa de Maio...
Deste poema

Tu és o tema
E a inspiração
Rosa de Maio...

Já não consigo
Guardar comigo
Tanta paixão!
Rosa de Maio
Por qualquer preço
Eu te ofereço
Meu coração!

Obrigado poeta!

* * * * * * *

Algumas poesias de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

* * * * * * *

Thiago Domenici, editor e coordenador do NR

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Direito ao esquecimento

por Thiago Domenici*

A revista Retrato do Brasil publicou em agosto matéria de minha autoria "Esquecer ou não, eis a questão" sobre um tema dos mais espinhosos: o chamado “direito ao esquecimento” na internet. A Justiça da União Europeia decidiu que usuários têm esse direito nos buscadores de internet como, por exemplo, o Google, Yahoo e Bing!.

Na matéria explico que também fora da rede o tema gera grande debate ao envolver questões como liberdade de expressão e de imprensa. O que motivou a decisão judicial na Europa foi um ação do espanhol Mario Costeja González. Em 1998, o diário espanhol La Vanguardia publicou, em sua versão impressa, anúncio relativo a um leilão de um imóvel de 90 metros quadrados localizado na cidade de Barcelona. O texto detalhava uma dívida dos donos do imóvel – no caso, Mario e sua ex-mulher – com a seguridade social. A divida acabou quitada antes da realização do leilão, mas a informação que revelava o nome dos ex-devedores, tornou-se um problema quando o mesmo jornal disponibilizou seu acervo digital na internet. Desde então, quem pesquisasse o nome deles no Google, por exemplo, seria remetido ao link da página do periódico com a informação desabonadora.

Com a decisão favorável ao espanhol validada em maio desse ano, válida, vale esclarecer, somente para os mecanismo de buscas, o Google criou um formulário on-line para esses pedidos. Segundo matéria mais recente do El País já foram mais de 90 mil “solicitações de esquecimento.” Na matéria que fechei em meados de julho, eram 70 mil pedidos. A seguir nessa toada, o Google vai se afogar em pedidos de esquecimento. Mas tem um grande problema nessa decisão: a sentença obriga o Google a fazer julgamentos difíceis sobre o direito do indivíduo a ser esquecido e o direito público à informação. Tanto é que o buscador já removeu links e depois teve que voltar atrás na decisão.

Além disso, o assunto esquentou no Brasil como mostra uma matéria do site Consultor Jurídico. Nela, detalha-se uma decisão judicial que negou pedido similar num processo movido por um juiz do Espírito Santo, que exige a remoção de uma matéria envolvendo seu nome das buscas do Google. Para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), a versão brasileira do Google não é obrigada a excluir links em resultados de pesquisa a pedido de um usuário. Como se percebe, um entendimento contrário ao do Tribunal de Justiça da União Européia.

Confesso a vocês que formar um entendimento a respeito desse assunto é coisa complexa. Daí que vou sugerir a reflexão de todos que chegaram até aqui a partir de um texto da Eliane Brum. Lá pelas tantas, ela diz: “Há várias implicações nessa decisão do tribunal europeu. Sem contar o debate complexo que tem oposto os direitos à informação e à liberdade de expressão ao direito à privacidade. Mas há uma, subjacente, que me interessa mais: a construção da memória depois da internet. Ou, sendo mais específica, não apenas se é possível ser esquecido, mas um pouco mais: é possível morrer?”

* * * * * *

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Então assim: trabalhar não basta para ser feliz


por Thiago Domenici  ilustração Kelvin Koubik (Kino)*

É preciso um ano – 365 dias – para que a terra complete a sua rotação em volta do sol. Durante esse tempo a lua descreve doze rotações em torno da terra. O mês corresponde, aproximadamente, à duração de cada uma dessas rotações. Por isso, o nosso calendário foi estabelecido levando-se em conta os movimentos da lua em torno da terra, da terra em torno do sol e em torno dela mesma. Então, o ano tem 12 meses, o mês tem 30 dias, a semana sete dias e cada dia tem 24 horas – tempo em que a terra dá uma volta em torno dela mesma.

Mas o povo trabalhador "temos" direito a trinta dias por ano de férias remuneradas, finais de semana – que não são todos que têm direito – e os feriados. Com a Copa do Mundo vamos ganhar, ao menos nos jogos da primeira fase da competição em que a canarinha for jogar, três dias de folga. Além disso, cinco feriados – repito, cinco! – cairão no final de semana. Num país que conta oficialmente com oito feriados nacionais, disciplinados pela Lei Federal 10.607/02, é uma sacanagem com o trabalhador.

Lá em 2009, conversei com o então deputado federal Milton Monti (PR-SP) que propôs um projeto de lei (2756/2003) para alterar feriados que caiam entre terças e sextas-feiras. Para ele, seria bom antecipar para as segundas-feiras os feriados que caíssem nesses dias para evitar a "semana morta". Quer dizer, pela proposta, se o calendário diz que o feriado é quarta, ele seria usufruído na segunda anterior. Mas feriados no sábado e domingo não teriam a mesma regalia.

Imaginei algumas ideias livres para um possível projeto de lei de iniciativa popular. Quem anima? A primeira sugestão é coisa simples e você já deve ter pensado nisso. Não seria o caso de alongar o final de semana para três dias seguidos ou alternados? Por exemplo: sábado, domingo e segunda ou então: sexta, sábado e domingo. A minha preferência é sábado, domingo e quarta-feira pois tente mais ao equilíbrio. Você descansa dois, trabalha dois, descansa um e trabalha dois.

Outro cenário abrange períodos maiores de tempo. Imagine: o sujeito trabalha o ano todo e tem abolido os feriados (não se pode abusar!) mas tem mantido os finais de semana (período inegociável). O que você ganharia com isso? Que tal um ano inteiro de férias com remuneração? Trabalha um ano, folga outro. Seria possível implantar uma espécie de rodízio e um certo grau de critérios para ter uma parcela da população ativa e outra não. Exagerado?

Outra boa seria, pelo menos, férias de trinta dias a cada seis meses, tal como usufruem estudantes, parlamentares e juízes. Ou então a cada quatro anos trabalhados um ano sabático remunerado pelo estado por meio de um imposto pago pelas empresas e estendido ao trabalhador informal, frilas e afins. Na minha cabeça tudo isso é possível.

É verdade que o trabalho dignifica, mas a liberdade de viver períodos sem trabalhar é fundamental. E saber usar o tempo livre para o que bem entendermos nos traria uma vida menos doente, mais produtiva e feliz. Produção, sim, mas com mais prazer, mais descanso e menos estresse, eis o ideal para mim.

* * * * * * 

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Cada um que cuide da sua bituca


por Thiago Domenici*

O dono da banca de jornal localizada na esquina da rua Ministro Godoy com a Turiassú, em Perdizes, mantém o ritual diário da antiga dona. Todos os dias ele disponibiliza um cinzeirão para os fumantes de plantão.

“Aqui jazem bitucas”, como se vê na imagem acima. Eis uma irônia e também uma dura realidade. Diz o jornaleiro que muitas delas, de fato, jazem ali no cinzeirão ao fim do dia. É “uma atração” dos passantes, ele conta. “Fazem fotos e dizem que é legal”. Diariamente, sem folga, ele tem de limpar a área para novas bitucas serem depositadas. A guimba é o fim do cigarro fumado. É um resíduo diminuto, formado de papel, filtro e tabaco e que pesa, em media, meio grama. Meio grama e muitas substâncias tóxicas. Meio grama que aos montes pesam toneladas e poluem a cidade.

Os filtros dos cigarros são tão resistentes à biodegradação que ficam no solo e na água por mais de cinco anos. Esses restos são responsáveis por 25% de todos os resíduos encontrados em limpezas de praias pelo mundo. Aqui em São Paulo são algumas toneladas diárias. Todos os dias vejo centenas delas no chão ou sendo arremessadas a ele. Um péssimo hábito!

Um estudo de anos atrás apontou que duas guimbas de cigarro geram a mesma quantidade de poluição produzida por um litro de esgoto. Outro problema são os acidentes com fogo, por exemplo, queimadas, causadas, em sua maioria, pelo arremesso de bitucas dos veículos em movimento. O problema é tão constante que no ano passado, 90% das multas no Rio de Janeiro por jogar lixo no chão se referiam ao cigarro. No Paraná também já existe multa para os deseducados na bagana.

Um levantamento recente indicou que são cerca de 20 milhões de fumantes no País, além de 70 milhões de fumantes passivos (meu caso). O mesmo levantamento diz que nos últimos seis anos o número de fumantes no país diminuiu 20%. É uma ótima notícia a diminuição de fumantes. Péssimo é perceber que isso não se aplica a quantidade de chicas jogadas na rua.

Penso que além de multa a quem joga o troço no chão, uma campanha bem-humorada e educativa ao estilo “Aqui jazem bitucas” poderia adiantar alguma coisa. Mas a prerrogativa não é só brasileira. Em Paris, segundo cálculos, são jogadas 315 toneladas de pontas de cigarro nas calçadas anualmente. A lei francesa prevê multa de 35 euros – algo como 112 reais. Lá, a meta para esse ano é chegar a 30 mil cinzeiros espalhados pela cidade.

Fuma quem quer, é verdade, mas cada um que cuide da sua bagana, né?

* * * * * * * 

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Grande desafio das massagens: Parte 2



por Thiago Domenici    ilustração Ligia Morresi*

Tomas Chiaverini não gosta de ganhar massagem. Dá pra entender? Ele diz que não gosta e ponto. E o fato de ele não gostar acometeu esse texto e o dele, depois de um papo virtual despretensioso.

Faz tempo quero falar desse assunto. Faz tempo: digamos que há 5 mil anos existem registros de desenhos do uso de técnicas de massagem na China, Japão, Egito, Pérsia – atual Irã. Massagem, veja você, é a manipulação do corpo do outro por meio do toque o que nos traz muitas vantagens terapêuticas.

Minha experiência mostra que os pés são templos de sentidos. É um universo. As costas, talvez uma preferência nacional, são minha segunda opção. Apesar que o seguinte: minhas panturrilhas tem se destacado nos últimos anos como minhas preferidas zonas de dor e prazer. Ficar sentado muito tempo dá nisso. E dá noutras coisas também, mas deixa pra lá.

Massagem exige muita técnica e estudo. E a técnica somada a mais ou menos força gera prazer, libera endorfina – a substância do bem-estar. E o prazer, ao gosto do freguês, ora vem com ou sem dor. Muita atenção: não é só maçarocar o sujeito de qualquer maneira que tudo se resolve. Não, não, não.

Tem de tudo na massoterapia: da anti-celulite a ayurvédica; da anti-stress a holística; da massagem com velas a quick massage; da aromaterapêutica a biodinâmica; do shiatsu a tibetana; da sueca à redutora; da pedras quentes a tailandesa etc

Digo de brincadeira mas é muito sério: todo ser humano devia ter direito a massagem. E essa coisa toda tem base científica. Não é piração. Os gregos da antiguidade e chineses de séculos passados já praticavam massagem em seus atletas depois de exercícios.

E uma turma de cientistas no Canadá demonstrou que os gregos e chineses entendem do negócio. O estudo mostra que a massagem facilita a recuperação após danos musculares. Dez minutos de massagem reduziram os sinais de inflamação nas células. E, algo que vai merecer mais estudo, o "resultado foi parecido ao produzido por analgésicos”.

Bom, é preciso também ver o lado do massagista – “doador” –, profissão das mais nobres e difíceis. Há que se ter uma empatia entre massagista e massageado. Ele pode, oras, até negar a massagem. Seria justo caso o sujeito não se apresente em condições adequadas ou com ideias erradas na cabeça.

Pense bem: não é tão culturalmente natural deitar numa maca com parte do corpo despida diante de um desconhecido. E o massagista, por azar, pode pegar cheiros e texturas pouco ortodoxas durante sua jornada profissional. Massagista amiga minha é da tese que todo mundo devia tomar banho antes da sessão. Eu topo. Mas o Tomas não. Cada um na sua. Não tô aqui para provocar ninguém.

Como tudo que é bom – ou quase tudo – não é barato, penso que a popularização da massagem ia ter impacto econômico-social positivo na sociedade. Mas a felicidade, nesses casos, tem preço – e no caso em questão varia bem e não tem muito a ver com a inflação.

Para dar rumo final a essa prosa, não se pode negar que a questão prazer-dor tem uma vertente sexual – veja bem, sexual não é sexo. O ato de dar e receber massagem tem uma ligação de corpos, de sentidos e sensações. Portanto, a ver com doar e sensibilizar.

A melhor massagem da minha vida será sempre a próxima. Ao fim, aquele sono que me dá e um relaxamento gigantesco é o que todo corpo precisa para vencer o dia seguinte. Entendeu, Tomás?

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR. Ilustração especial para o texto de Ligia Morresi, designer e ilustradora

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Como assim você morreu, Renatão?

por Thiago Domenici*

Nos falamos pela última vez na sexta-feira. Ele estava bem, me disse. Combinávamos uma resenha para a Retrato do Brasil e uma matéria sobre Copa do Mundo para a edição de maio. Aos 72 anos, Renatão (Renato Pompeu) mantinha um ritmo de trabalho impressionante. E sempre estava em busca de frilas para pagar as contas.

Hoje você deveria me escrever e fazer uma troça da vitória da sua Ponte Preta sobre o meu São Paulo. E agora, quem é que vai me ligar quase que semanalmente para, antes de contar uma piada e esperar com ar de expectativa o veredicto, perguntar: “Thiagôô, quais são as novidades?” Eu nunca sabia o que responder. “Temos então um jornalista sem novidades, hummmm...”, me ironizava.

Quando ficávamos algum tempo sem contato você dizia: “Thiagôô, é de praxe, entre amigos, que um procure o outro, sabia disso?”. Pois é, Renatão. Pois é... vacilei muitas vezes. Você foi uma grande influência para mim. E tive a oportunidade de dizer isso pra você. E agora, vendo os jornais fazerem seu obituário, me parece uma puta injustiça com o que você foi e representou para tanta gente. Você foi muitos, Renatão, e de uma capacidade intelectual raríssima. Uma enciclopédia ambulante, eu costumava te dizer. Você era um crítico do que se transformou o jornalismo brasileiro. Se indignou com a forma como as mulheres eram tratadas nas redações. Você Renatão, como bem lembrou o Silvio Lancelotti, em depoimento no Facebook, era um tipo inesquecível. Ele diz: “Jamais me esquecerei da noite em que os meganhas do Doi-Codi foram buscá-lo na redação de "Veja" – e ele voltou até a sua mesa porque havia se esquecido do guarda-chuva...”

| Mais de Renatão |
 - Leia matéria abaixo, homenagem do Diário do Commercio
- Morre aos 72 anos Renato Pompeu, um mestre do jornalismo brasileiro (Rede Brasil Atual, por Paulo Donizetti de Souza)

 Um homem com tantas histórias que seus causos preencheriam muito mais do que os 22 livros que você publicou ao longo da vida. Livros, aliás, como Canhoteiro – o Homem que driblou a glória, Quatro-olhos, Memórias da Loucura. Livros incríveis.

Quando o conheci na Caros Amigos, em 2004, você chegava de mesa em mesa contando a mesma piada. Que figura! Lembro ainda de você contar a história do “parabéns para você” antes de iniciarmos a sua festinha com bolo e refrigerante, como era de seu agrado. Sabe, Renatão, tem um causo que sempre conto de você. Num fechamento, lá pelas tantas da noite, ao esperar por horas a chegada de uma reportagem que eu disse que chegaria em 20 minutos, você levantou da mesa e veio até mim com seu andar vagaroso para dizer em tom solene: “Thiagôô, se as minhas fodas durassem os 20 minutos que você diz eu seria um homem feliz...”.

Pois é, Renatão, quem viu você cantar em alemão a “Oração de mãe menininha” não esquecerá jamais. Outra boa sua é a entrevista que deu ao Jô Soares. Divertidíssima e tão lúcida sobre uma situação de grande delicadeza, a esquizofrenia que você tratava.

Em 2009, quando montei para você o seu blog – Blog do Renatão – me senti muito feliz por ajudá-lo a manter ativa sua produção intelectual. Você quis desistir, lembra? Dizia que ninguém lia. Eu retruquei que você tinha eu como leitor fiel e você riu. Obviamente você tinha muitos leitores, Renatão. Você é muito admirado. Então, te pergunto, como assim você morreu?

Suas realizações e trajetória no jornalismo são de arrepiar, apesar de você dar importância menor a isso. Foi copidesque da Folha (então Folha da Manhã) aos 18 anos. Esteve na turma que revolucionou o Jornal da Tarde na década de 1960, participou da revista Veja no seu início, quando era uma revista para ser lida com maior entusiasmo. Ganhou prêmio Esso e tudo o mais. Em 1999, quando ingressou na revista Caros Amigos, onde ficou mais de uma década, levado pelo nosso Serjão, você escreveu que era preciso sair do jornalismo para ser jornalista.

De cabeça, lembro de você ter colaborado para o Jornal do Commercio, Carta Capital, Estadão, Revista do Brasil além desses veículos já citados... E quando te perguntaram em 2008 que conselhos você daria para alguém que está começando no jornalismo você me saiu com essa: “1) Abandonar imediatamente a profissão e escolher outra. 2) Se não for possível isso, procurar se estabelecer por conta própria na internet, com patrocínio próprio que não interfira na sua independência. 3) Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios."

Renatão, guardo com carinho sua mensagem do ano passado, depois de nos desentendermos por uma questão menor, quando você diz, “Saiba que você, entre as pessoas que conheço, é uma das mais queridas”. “Sempre a nossa amizade”, Renatão, como você costumava finalizar ao cantar parabéns para seus amigos. Você vai fazer muita falta.

Essa minha homenagem no NR, blog que você colaborou tantas vezes, é só um carinho a quem tanto quero bem. Seu talento, amizade e grandeza deixa um grande vão nessa selva toda em que vivemos. O jornalista e mestre Carlos Azevedo disse algo muito bonito sobre você no Facebook, Renatão: "O Renato é aquele cara que não morre, que não machuca ninguém, a não ser quem sabe pelo seu imenso rompante amoroso. Lamento muito porque a perda é grande. Uma luz forte que rasgava as trevas da ignorância se apaga. Viva para sempre, Renato, no brilho de seus trabalhos!”. Ao que soubemos seu coração parou na madrugada de domingo. E o meu bate mais forte agora de saudade de você.

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os gatos de minha vida


por Thiago Domenici

 Para Mentor

Alvinegros, muita coisa diferencia a Piaf e o Zola. Nela, o nariz cor de rosa ganhou um leve “ponto final” preto. Nele, o nariz e o queixo, ambos brancos, ganharam uma cobertura preta sutil e meio triangular. Nela, o pelo é preto escuro e brilha. Nele, se esconde por baixo do preto uma tonalidade rajada num cinza grafite que só se vê com boa luz. Não são de sangue, mas são irmãos. E se amam. Nesse um ano de convivência, nem à distância é possível confundir a espreguiçada elegante da Piaf e o olhar de expectativa do Zola. O ritual da lambida de um e a faceirice da outra ao se jogar ao chão de barriga para cima ao identificar alguém que gosta é espetáculo à parte.

A adoção dos dois tem sido uma vivência das mais apaixonantes. Eu, que sempre gostei de bichos, tive algumas experiências dolorosas antes da emancipação a vida adulta. Emancipação significa ser o responsável, de fato, pelo bem estar do animal. Ao voltar no tempo lembro, por exemplo, de dois poodles (Snoopy e Baby) da minha infância que amei. Certo dia, sem mais, foram embora por conta de uma mudança de casa. Foi repentino e chorei muito.

Antes, tive outro cachorro vira-lata que nem Cesar Millan, o encantador de cães, daria jeito tão rapidamente. Eu, criança em flor, não sabia lidar e tive medo. E a cachorra se foi a desfrutar outro lar. Surgiria um gato siamês no horizonte. Era o Don Juan da rua Cantiga do Desencontro, onde morei parte da minha infância. Além dos amores e desamores felinos, o siamês arrumou inimigos zumanos na vizinhança, de quem roubava comida da panela. Era um boêmio e chegava sempre estropiado de suas quentes noitadas. Era livre. E um dia não voltou mais.

Antes de Piaf e Zola chegarem a bordo da nave, convivi com outro siamês: o Mentor. Além dele, ainda convivo com as persas Nina – carinhosamente chamada de Pipoca – e Fumaça. Tem ainda o Sombra, um vira-lata como a Piaf e o Zola, mas que de tão grande e peludo é confundido com a raça Maine Coon (aquela dos maiores gatos do mundo). Pois são quatro gatos e um cachorro além da Piaf e do Zola. Uma cachorra que tem certeza que é gato, no caso: a Lisa, uma pastora de shetland encantadora que merece um texto só para ela.

Todos são da família materna da Natalia (e dela também, é claro). Por assim dizer: da minha sogra e seu marido, além do meu cunhado. Nina lembra um algodão doce ou um pedaço de nuvem bem branquinho. Tem uma espécie de síndrome de down felina. A Fumaça, uma pequena maravilha, é de um cinza tenaz, desconfiada, mas amorosa, dona de um corpo lânguido que flutua em vez de andar. De olhos amarelo-ouro e expressão blasé, o Sombra, que é todo preto, não esconde sua verve gato de pelúcia dengoso.

E o Mentor? Ah, o Mentor. Logo nos primeiros meses de casa nova fora confundido com uma fêmea. Era macho, oras! E de olhos firmes e atentos. Um siamês voluptuoso e dono de uma inteligência difícil de explicar. Certa vez, conta Natalia, pegou uma caneta com uma patinha só e sentou com as duas patas traseiras. “Lembro que brinquei e cheguei a oferecer um papel pra ele”. Além disso, suas artes foram inúmeras: ficou preso no forro da cama-box, no edredon, com uma patinha presa na janela, no esgoto/fossa do banheiro, no telhado da casa do zelador. E sempre que alguém ia trocar uma lâmpada ele subia na escada e ficava estendendo a patinha como se fosse ajudar. Diz minha sogra que ele pegou uma mosca com uma pata só. É, sem dúvida, o felino mais perspicaz e curioso que conheci. Era dono de si mesmo, independente e orgulhoso. Resume bem o que o historiador Frances Taine escreveu: “conheci muitos pensadores e muitos gatos, mas a sabedoria dos gatos é infinitamente superior.”

Piaf e Zola vieram da UIPA – União Internacional Protetora dos Animais. Zola chegou adulto e um tanto traumatizado. É um gato especial, sem dúvida. Seu miado é sua marca registrada: um cantarolar, quase um mantra, que varia de entonação conforme o seu desejo. Piaf, harmoniosa de ritmo próprio, dormia em meio a centenas de outros quando foi escolhida. “É calminha”, disse Natalia. De fato, é tranquila, mas com períodos de turbulência. Já Zola nos escolheu, estava decidido: olhou bem fundo nos nossos olhos e cantarolou: “me leva daqui, vai...”.

A adaptação nos primeiros meses foi complexa. Zola, por exemplo, se escondeu debaixo do armário da cozinha e depois no escritório. Foi preciso conquistar sua confiança,  coisa que veio umas 24h depois de sua chegada. Hoje, dorme diariamente ao pé da cama, acorda com minha esposa, toma “café” junto e volta a dormir. É um ritual, uma rotina inabalável.

Piaf, que adaptou-se bem a mudança de ambiente, foi acometida por uma espécie de gripe de gatos e sofreu com medicação pesada e rações especiais. Hoje, é a lady da casa e adora subir nas cadeiras, sofás (além de destruí-los) e se esfregar em nossas cabeças. Nesse um ano, nossa casa se encheu de alegria e nosso prazer é tão bom quanto o ronronar deles.


Thiago Domenici
, jornalista, coordenador e editor do NR. Ilustração: quadro do artista Aldemir Martins.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Hora do almoço

por Thiago Domenici*

Não teve dúvidas. Apontou o dedo na cara do sujeito e gritou:

– Você roubou! Devolve!

O centro apinhado de gente e o calor dava àquela cena um ar cinematográfico. Ao meio-dia a rua 7 de abril é um corredor congestionado. Não se pode vacilar. É São Paulo, centrão, no universo chamado Praça da República.

– Devolve agora.

– Não peguei nada, não, dona!

A amiga agitada olhava no entorno a procura de alguma ajuda. A roda viva de curiosos se formou em segundos.

– Devolve essa porra logo seu filho da puta! – acusou um desconhecido.

O circo estava armado. Um senhor de cabelos brancos falou com o suspeito algo incompreensível. Ele concordou com a cabeça nervosamente. Estava rodeado. Se tentasse correr, toparia com um muro de gente. A situação não era confortável.

– Você já ligou para você mesma? – gritou um sujeito risonho.

A mulher pronunciou impropérios. A amiga – que desistira da polícia – sacou o telefone do bolso.  “Será?", pensei comigo. A acusadora revirou a bolsa.

– Não foge, não! – gritou a plenos pulmões para o suspeito imóvel.

O sujeito não iria fugir. Ele deu de ombros e esperou. Um telefone tocou longe. Claramente é música sertaneja. O celular era de capa rosa com penduricalhos de bichinhos. E estava no bolso interno do casaco.

Na mesma hora a turma entoou uma vaia avassaladora e a mulher, sem chão, sem desculpas, mas com o celular, saiu apressada com a amiga em direção ao metrô.

– Vai à merda sua vaca maluca – disse o suspeito indignado que ficou a berrar que deveria processá-la.

Testemunhas não iriam faltar. Meia dúzia a toa ria da bizarra situação. A confusão deve ter animado os papos na hora do almoço. Em segundos tudo voltou ao normal.

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O enigma do martelo


por Thiago Domenici*

Márcia chegou cedo na academia. Não havia dormido. Abriu a porta com o dia ainda escuro, chuvoso e frio. Deixou a chave na mesa da recepção e reparou em tudo que havia construído até ali. Tinha orgulho da empresária que se tornara.

Naquela manhã, porém, seria diferente. Márcia parecia transtornada. A palidez de seu rosto e a testa molhada de suor denunciava a aceleração do corpo. Márcia, definitivamente, não estava num dia normal.

Deixou a academia por volta das sete horas da noite do dia anterior. Atravessou a rua e foi ao prédio da mãe, que mora em frente. Um apartamento amplo e imponente que impressiona pela grande varanda. Ali, Márcia gostava de fumar um baseado sempre que podia.

Parecia feliz com a sua vida. Falou com a mãe sobre amenidades e tomou banho antes do jantar. Seria servido medalhão de filé mignon ao molho madeira com arroz japonês.

Com a mãe e o marido à mesa, Márcia mastigava sem ânimo. Estava distante. O marido quis saber. Sem resposta. O que aconteceu entre o banho e o jantar?

Quando subiu as escadas para o segundo andar ela chorou. Lembrou de cada detalhe. Ao chorar, murmurou: “como fui capaz?”. Respirou fundo antes de entrar na sala de ginástica principal, repleta de aparelhos dispostos lado a lado com uma imensa janela de pé direito alto.

Tremia. Observou segundos. Chorou ainda mais. Mordeu os lábios, caiu no chão de joelhos. Um grito abafado e dolorido. “nããããooooo!”. Perto dela, um martelo solto. “Como não acreditei?”, indagou.

Lavou o rosto antes de sair. Atravessou a rua decidida a não viver aquela culpa. E não viveu. Não deixou bilhete. Horas antes falou “Eu te amo” ao marido sem vida. “O martelo...”, no entanto, era a prova da inocência. A polícia recolheu os corpos distantes 5 km um do outro. A investigação iria começar. Seria crime passional.

E a cidade continuava igual: fria, chuvosa e escura.

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Boas lembranças de Roberto Manera

por Thiago Domenici*

Aprendi que é fundamental homenagear os nossos mestres, amigos e pessoas que queremos bem, que nos dão energia positiva sem pedir paga. A vida é um sopro, já dizia Oscar Niemeyer. Penso que achar formas e tempos de registrar pessoas memoráveis, sejam públicas ou não, é mais do que um dever; é uma forma de eternizar aquilo que tem significado para nós, que toca a gente e pode, por consequência, chegar a outras pessoas.

Roberto Manera, desconhecido para a maioria dos que vão ler esse texto, é uma dessas figuras que merecem minha lembrança com carinho. Havia tempos, precisamente desde 2008, que eu não sabia de seu paradeiro. Uma notícia aqui e ali dava conta de que teria se mudado para a região Sul, em Florianópolis. Tentei contato de algumas maneiras, mas sem sucesso. Eu e Natalia, minha esposa, e amigos, como Rodrigo Menitto, sempre falávamos dele com muito carinho, no sentido de preocupação pela sua saúde e pela vontade de estar perto dele. Não deu.

Acho que seu objetivo era mesmo se isolar, perder contato com mundo, com as pessoas. Quando um bando de gente saiu de Caros Amigos em 2008, incluindo eu, o Maneirita, como eu o chamava, nos deu muito apoio e ficou ao nosso lado. Mostrava pra gente, do seu jeito, que não estávamos fazendo nada de errado, muito ao contrário, seguíamos o curso natural dos acontecimentos.

Já naquele período, ele lutava meio marotamente, como quem não se importa, e acho que não se importava mesmo, contra as agruras de uma diabetes que o debilitou muito e que foi o motivo de seu falecimento. Mas não se rendia, pelo menos não publicamente. Desde as mais inusitadas, saborosas e engraçadas, era um grande contador de histórias. O papo com Manera nunca era banal. Sempre se aproveitava algo, sempre tinha alguma informação ou lição, de vida e de jornalismo.

"nosso ofício tem de ser sério, mas não pode deixar de ser prazeroso, e que o prazer pode vicejar além da redação, em torno de uma mesa de sinuca, de futebol de botão ou de bar. Qualquer lugar em que se possa pensar”.

Com Natalia, por exemplo, teve um episódio que a marcou muito. Era seu primeiro emprego em jornalismo, vindo de uma faculdade de Letras. Insegura, caindo num universo com muita gente experiente e sem nenhuma formação na área, mas com desejo de fazer parte e aprender, certa vez, num evento social ela sentiu segurança para contar a Manera uma ideia que não conseguira compartilhar com ninguém até então. “Ele passava uma segurança, por isso tomei coragem e falei”. A ideia era crua, sobre fascículos sobre mulheres, mas sem saber exatamente o foco a ser dado. No papo, Manera incentivava e questionava para que ela desenvolvesse a ideia, mas sempre de um jeito muito amável e cuidadoso. “Uma firmeza acolhedora. Aquele papo de igual pra igual que dá confiança para alguém que está no começo de carreira.”

Quando de sua apresentação em uma reunião de pauta, o Serjão, um dos criadores e o editor da revista, disse a todos que Manera era um dos “grandes jornalistas” do país. Os dois eram muito amigos. Foi Manera que apresentou Serjão a Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica. Foram parceiros de Globo Rural, da editora Abril, onde se conheceram na década de 1970, se não me engano, época em que a revista chegou a ser a mensal de maior circulação no país. Lá tinha gente como José Hamilton Ribeiro, José Trajano e a minha amiga Marina Amaral, hoje diretora da Agência Pública de Jornalismo Investigativo.

Na edição especial que fizemos após a morte do Serjão, ainda em 2008, Manera escreveu que para além do gosto comum em cavalos, "não tanto pela corrida, mais pelo animal", aprendera com Serjão “que nosso ofício tem de ser sério, mas não pode deixar de ser prazeroso, e que o prazer pode vicejar além da redação, em torno de uma mesa de sinuca, de futebol de botão ou de bar. Qualquer lugar em que se possa pensar”.

Com a notícia de sua morte, na última sexta-feira, a qual soube somente ontem, fiquei muito triste. Outra perda irreparável, como a de Ruy Fernando Barboza, no mês passado. Os bons se vão, infelizmente. Escrevo esse texto meio torto para registrar minha admiração e meu muito obrigado ao amigo que eu gostaria de ter ficado em contato. Adjetivos que o enquadrem são vários, mas seu sorriso maroto, humor irônico, charme e generosidade, além de grande texto e inteligência, serão sempre marcantes para mim. Uma das grandes tristezas de Manera foi a perda de seu filho Júlio, de três anos, numa madrugada de inverno, em 1990. Desde então, “nunca mais fui o mesmo”, lembro de me contar certa vez na feijoada da Lana, local na Vila Madalena que frequentávamos quase diariamente.

Fizemos juntos uma viagem ao Rio de Janeiro, para entrevistar o cantor Ney Matogrosso. Ele arranjou hospedagem na casa de um amigo, na Barra da Tijuca. A entrevista foi muito bacana e a viagem divertida, apesar de estarmos nos recuperando da morte do Serjão. É provável que tenha sido um de seus últimos trabalhos jornalísticos. O jornalista José Antonio Severo escreveu sobre ele no Jornal Já (leia aqui) e pontuou muito bem um pouco de sua trajetória. Diz, inclusive, algo que não sabia: que Manera foi um grande fotógrafo. Mas, infelizmente, pouco se acha sobre ele na rede, nem mesmo uma boa fotografia sua. Uma pena. Uma injustiça.

E nenhum texto, por melhor intenção que tenha, conseguirá captar aquela figura que tomava cerveja comigo enquanto comia uma feijoada. Pesa pensar, como descreve Severo, que Manera morreu sozinho, longe da maioria dos amigos e dos filhos. Mas se foi sua escolha, prefiro acreditar nisso, só mostra que grandes decisões são tomadas por pessoas com muita coragem. Manera fará imensa falta por aqui.

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Exclusivo e histórico: “crise de consciência” da grande imprensa


por Thiago Domenici*

Num momento histórico das comunicações do Brasil, os principais grupos de mídia, aqueles controlados, principalmente, por sete famílias (Grupo dos Sete), publicaram um editorial conjunto, divulgado recentemente, inclusive em horário nobre de televisão, em que admitem a parcialidade das coberturas jornalísticas ao longo da história. “Enganamos nossos leitores, ouvintes e telespectadores durante décadas ao imprimir em nossas coberturas um tom de imparcialidade, quando, na verdade, sempre tivemos intenções que valorizassem somente nossos interesses privados. Admitimos: a imparcialidade não existe”.

Esses interesses, esclarecem, pautavam, sobretudo, as questões políticas, econômicas e sociais. Como forma de amenizar o que chamam de “notícias enviesadas em detrimento da informação de interesse público”, esses grupos de mídia irão lançar um Portal de Transparência, inspirado na Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 2012. A ideia é corrigir – com a participação direta do público e dos que se julgarem prejudicados – as informações que estiverem “comprometidas do ponto de vista jornalístico” e que “estão distantes da  possível verdade factual dos acontecimentos”.

Uma Comissão Nacional da Verdade dos Crimes de Imprensa (CNVCI) também será formada, mas a atuação e duração seguia indefinida até o fechamento desta matéria. A CNVCI foi sugestão dos controladores do jornal diário carioca de maior circulação, que recentemente admitiram ter errado ao apoiar o golpe militar de 1964. Além dessas medidas, os donos dos jornais alegaram que o movimento inédito, de aparente arrependimento e acerto de contas com a sociedade, faz parte do que chamaram de “delação de amenização de consciência”, ou seja, algo de difícil compreensão, mas que, uma vez a cada mil anos, pode ocorrer na humanidade. “O capitalismo selvagem fez com que eu e meu jornal perdêssemos o prumo. Por isso, prejudicamos pessoas, instituições e governos, ao passo que isso precisa acabar”, disse o dono da revista semanal de maior circulação do país.

Em busca de uma credibilidade real, não falseada por propagandas que “vendem a ilusão do correto a se fazer”, o grupo propôs um novo Marco Regulatório das Comunicações. “Já passou da hora de assegurar a pluralidade de ideias e opiniões nos meios de comunicação, os métodos de financiamento equânimes, além de promover a participação popular na tomada de decisões acerca do sistema de comunicações brasileiro”, disse o apresentador do telejornal de maior audiência no país. O editorial conjunto, publicado em primeira mão no site www.sonhomeu.org, enumera várias razões para uma guinada nas comunicações, entre elas:

* ausência de pluralidade e diversidade na mídia atual o que esvazia a dimensão pública dos meios de comunicação;
* a Constituição Federal de 1988 carece da regulamentação da maioria dos artigos dedicados à comunicação (220, 221 e 223), deixando temas importantes, como a restrição aos monopólios e oligopólios e a regionalização da produção sem nenhuma referência legal.

O último item, inclusive, é o ponto principal do Projeto de Lei de Iniciativa Popular das Comunicações, lançado nacionalmente por um pool de entidades no dia 22 de agosto, em Brasília, que há anos lutam pela bandeira da democratização. O “Grupo dos Sete” afirmou endossar o apoio ao PL publicamente. Afirmaram em nota: “No Brasil há uma grave situação de concentração monopólica da mídia. Sabemos e admitimos que somos parte fundamental desse problema e estamos dispostos a corrigir, seja espontaneamente ou por via judicial, essa aberração. Por isso, vamos colaborar e apoiar qualquer iniciativa que vise romper com esse nó górdio das comunicações no país”.

A repercussão dessa inédita e surpreende decisão foi manchete de jornais em todo o mundo. Em pesquisa divulgada ontem pelo DataNR, a maioria dos veículos internacionais (80%) é contrária a postura do "grupo dos Sete". A população, no entanto, vê com bons olhos a iniciativa: 70% dos brasileiros querem regulação da mídia e, para 35% dos entrevistados, os meios de comunicação defendem os interesses dos donos; apenas 8% avaliam que estão a serviço da população.

Procurados pelo NR, políticos e autoridades que preferem não se identificar admitiram "confusão mental" com a notícia. “Muita gente vai se indignar com as 'novas verdades' que vão surgir”, comentou uma alta figura da república. De fato, o mundo não será mais o mesmo.

*Thiago Domenici, editor e coordenador do NR, escreve fantasias, caso dessa que você acaba de ler (as partes em negrito no texto são reais).

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Para que lado vai?


por Thiago Domenici*

O ápice das mobilizações pelo país ocorreram entre os dias 17 e 21 de junho. Uma multidão de gente e reivindicações, frustrações e aspirações, por vezes difusas, ganharam forma em gritos de guerra e cartazes. Tivemos, sem dúvida, muito mais a névoa dos gases policiais e da violência do que céus de tranquilidade.

Passada a grande turbulência, os holofotes se voltam para o Planalto. A minha expectativa é de que o executivo tenha alguma carta na manga não marqueteira que dê vazão ao sentido de “urgência” das reivindicações. A ideia do plebiscito encalhou. Agora surge uma comissão da reforma política que terá 90 dias para propor algo. Depois, ao que consta, um referendo será realizado. A chamada “agenda positiva” foi criada justamente para dar respostas rápidas, ou seja, desencalhar projetos que estavam encalhados por morosidade, acordos políticos, lobbies e prioridades de guetos.

É curiosa essa esquizofrenia de hiperatividade do executivo e legislativo depois das agitações populares. Escancaram, sobretudo, a contradição de um sistema político desgastado. Não tenho dúvidas de que um bom começo seria fazer a reforma política. A ver o que virá nos próximos três meses. Gostaria de ver menos imagem e mais verdade nas ações gerais daqui pra frente.

***

Em terras paulistanas, Haddad disse em entrevista ao jornal Brasil Econômico que os manifestantes do Movimento Passe Livre “são ingênuos, mas espertos". Quis dizer que são ingênuos porque não se preocupam com a fonte de financiamento da tarifa zero, e espertos porque se negam a discutir os aspectos técnicos da isenção – que, no caso de São Paulo, pode somar R$ 6 bilhões.

Dizer que “se negam a discutir” e que “não se preocupam” soa injusto e errado. Sem muito esforço, caro prefeito, você encontra o site tarifazero.org, o qual deveria olhar, já que desde 2009 o espaço, que não é do movimento, mas é tocado por alguns militantes do MPL, trata questões pertinentes ao transporte público, entre elas, a viabilidade econômica do Tarifa Zero.

E mais: se negar a discutir pressupõe que a prefeitura tenha feito um convite ao diálogo nessa pauta específica. Alguém me diga, por favor, se isso ocorreu oficialmente e se o MPL negou tal convite. A questão fundamental na cidade é inverter as prioridades do transporte público.

Mas, sem grandes expectativas, como citou o economista Luiz Gongaza Beluzzo em coluna na Carta Capital, “hoje, mais do que nunca, a critica da sociedade existente não pode ser feita sem a critica da economia política”. É aí que se precisa romper o nó górdio. E nesse campo econômico/político, infelizmente, pouco tenho visto de "agenda positiva".

***

O vídeo abaixo é produção coletiva realizada pelo Projeto Cala-boca já morreu e pelo Coletivo EntreLinhas, como colaboração para a Campanha Tarifa Zero.



Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do Nota de Rodapé

terça-feira, 18 de junho de 2013

Eles querem se apropriar

por Thiago Domenici*

1 – A reivindicação principal é pela redução da tarifa do transporte em SP, é baixar de 3,20 para três reais, pra começar. Só pra começar. A tarifa zero não é utopia. Há que ser discutida.

2 – Antes de quinta, quando a PM aterrorizou, o movimento era de jovens "baderneiros", pedindo algo "impossível". A ideia era desacreditá-los. O discurso da mídia virou depois da ação truculenta da PM, vide um exemplo: Arnaldo Jabor se desculpando por falar asneira.

3 – A imprensa, nome aos bois mais vistosos: Globo, Veja e editoriais de Estadão e Folha agiram em prol da manipulação da pauta dos protestos desde o início.

4 – Daí teve ontem, um mar de gente e...

5 – Essa mesma imprensa pensou: “e agora?”. E o que fez? Seguiu deturpando a pauta principal das manifestações. Agora, dá um jeito de dizer que não é só pela “redução das passagens”. Que a coisa é geral, contra tudo que de ruim existe no país e blábláblá.

6 – Isso se explica, de certa forma, pelo seguinte: ontem teve tanta gente na rua, “sem partido”, “contra corrupção”, “acordando” e cantando o hino e outras firulas (lembram do “Cansei”?) que nisso viram [não só a imprensa, tá?] uma boa oportunidade de seguir jogando sujo. E seguem.

7 – Então assim: não se enganem. O Brasil dos movimentos sociais fortes não está acordando. Está desperto há tempos. Lutam, como grande parte da imprensa independente, por suas bandeiras verdadeiras e justas. A imprensa, a de massa, vai seguir tentando desqualificar e desmobilizar as ações por meio da informação torta, aquela que mais confunde do que esclarece. A independente, menor em alcance e recursos, mas tão capaz e forte, vai seguir limpando essa sujeirada toda com informação de interesse público.

PS: assistam o Roda Viva de ontem, com os representantes do Movimento Passe Livre, no qual o NR esteve presente na bancada de tuiteiros. Vídeos em quatro partes aqui.

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

“o povo unido é gente pra caralho”

São Paulo, 17 de junho de 2013: o dia histórico que reuniu gerações contra, principalmente, o aumento do transporte público, pela revogação do aumento de 0,20 centavos no ônibus e metrô. Um relato pessoal em três frentes, por três jornalistas, Natalia Mendes, Moriti Neto e Thiago Domenici. E mais; a ida do Nota de Rodapé ao programa Roda Viva e um apanhado das discussões durante a entrevista com os representantes do Movimento Passe Livre.




Vinte centavos, sim
(Moriti Neto)

“A Copa das Confederações parece que nem está acontecendo. Ou que está acontecendo só na Globo”. A frase corre entre os jornalistas que estão nas dependências da TV Cultura, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, dia 17, à espera do programa Roda Viva, no qual este NR esteve presente na bancada de tuiteiros para participar da entrevista com integrantes do Movimento Passe Livre (MPL). Não que o futebol tenha sido realmente esquecido, mas as palavras representam muito da sensação que se espalha pela capital paulistana após a manifestação que se estendeu pelas ruas da cidade. O ato foi tão impactante que, de fato, outros eventos ficaram infinitamente menores.

Tão intensos têm sido os protestos realizados há três semanas – com crescente incorporação de participantes – que acabam por produzir debates proporcionalmente fortes. Bastante disso é causado pela heterogeneidade do movimento. Várias tendências se encontram nele. Não de organizações político-partidárias constituídas. O que se vê é outro tipo de mobilização. De diversas cores e classes, elas têm no valor concreto, nos R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus em SP, o eixo que as une. Essa discussão é essencial.

Qualquer tentativa de rotular as manifestações e tirá-las do principal mote, o da reivindicação pela democratização do transporte coletivo, algo que não passa somente pela tarifa, mas pela revisão do modelo, é veementemente refutada por membros do MPL. “O Movimento Passe Livre não nasceu agora. É fruto de organização de anos. Muito tempo fazendo um debate que interessa à grande parcela da sociedade, pois isso passa pelo direito de se locomover. Assim, é claro que não perdemos de vista o principal das manifestações, que são, sim, os R$ 0,20”, explica ao NR Lucas Monteiro de Oliveira, professor de história e integrante do MPL, logo depois do fim do Roda Viva.

Tal firmeza de argumento não evita que análises apressadas se construam. À direita e à esquerda surgem comentários que buscam enquadrar o movimento. A bola da vez, na voz dos conservadores, é classificar as ações como acéfalas e carentes de lideranças, inclusive buscando estimular a ideia de que qualquer ato de violência policial-estatal se torna mais provável “pela falta de organização das manifestações”, como tentou sugerir o coronel reformado da Polícia Militar, José Vicente Filho, entre os entrevistadores na bancada do Roda. “Com mais de 100 mil pessoas, não houve violência hoje. E não haveria na quinta passada, se não fosse a agressividade da PM, estimulada por vários atores. Estamos mobilizados horizontalmente, mas muito bem organizados. Se não estivéssemos, como seria conduzida uma manifestação desse porte?”, destaca Lucas.

Por outro lado, há correntes esquerdistas que, perdidas na incapacidade de renovação do próprio pensamento, seguem na avaliação de que é necessária a aproximação com “gente gabaritada” para fortalecer e legitimar os protestos. Óbvio que os “gabaritados” seriam os sindicatos. Justamente o movimento sindical que, seduzido pelas benesses do poder público, tanto se perdeu desde que o PT assumiu o Governo Federal. “Dizer que o movimento não tem organização, que precisa de lideranças, não condiz com o real. A diferença é que nossa articulação é horizontal, o que não invalida nossas escolhas políticas. Desde as deliberações, passando pelos trajetos até as aparições públicas, todas as iniciativas são pensadas politicamente”, diz Nina Cappello, estudante de direito da Universidade de São Paulo (USP) e também membro do MPL.

Como se observa, qualquer busca por rotular apressadamente a multidão que protesta em São Paulo, parece mais uma jogada para arremessar o movimento à vala comum dos discursos vazios, casos do “Pelo fim da corrupção” e “Acorda, Brasil”. Tais lemas seriam válidos se não carecessem de direção. Na verdade, são vulneráveis a manobras populistas. Nesse caso, vale lembrar a caça aos comunistas da ditadura militar. Generalizante, o argumento funcionou apenas como ferramenta de marketing que mobilizou setores mais conservadores da sociedade e promoveu o massacre dos direitos civis.

Fora isso, existe o despreparo em lidar com novas formas de organização popular. Maneiras de agir sem hierarquia evidente e que, naturalmente, contêm menor grau de paternalismo. De um jeito ou de outro, enquanto os que avaliam a situação, governantes e mídia, seguirem sem pisar na rua, sem encarar os rostos de múltiplos tons e sem escutar as vozes que reivindicam a solução para os problemas concretos da população, pode-se até adiar a redução do preço da passagem de ônibus, porém nada fará perder o que esse movimento já conquistou: o amadurecimento político que assusta as formas velhas de gerir o que é público.

“São Paulo se reencontrou”
(Thiago Domenici)

A ponte Estaiada, ocupada por manifestantes
É difícil dar um início para esse texto que não saia do óbvio sentimento de energia pura, de grande felicidade que acometeu todos os que estiveram nas ruas de São Paulo ontem para protestar pela redução da tarifa de transportes. Na esteira dessa bandeira do Movimento Passe Livre (MPL), da revogação do aumento de 0,20 centavos, somado aos lamentáveis episódios de violação dos direitos humanos praticados com brutalidade e arrogância pela Polícia Militar de São Paulo na última quinta-feira, mais de 100 mil pessoas levaram sua voz a urbes paulistana.

Uma voz que uniu gentes – muitas – de todos os tipos, caras, idades, partidárias e apartidárias, marinheiros de primeira manifestação, pais e mães em apoio aos filhos, brasileiros em geral, que tentavam, a medida que engrossava a manifestação, compreender aquilo tudo. O jeito, meus caros, foi andar. E andamos um bocado. A rua tinha forma e direção. Estava tomada. Era nossa e não dos carros.

Mas vale dizer que o Brasil não estava dormindo. Pelo menos não o Brasil dos movimentos sociais fortes, de gente que já vem apanhando na rua faz tempo, se mobilizando e lutando sem ter a merecida voz dos meios de comunicação, os mesmos que dias atrás lançaram editorias fascistas e estavam às voltas com sua habitual manipulação de informação.

A coisa toda começou a partir do Largo da Batata, onde se deu a concentração, que depois rumou pela avenida Brigadeiro Faria Lima e, a partir dali, dividiu-se em três blocos: uma turma que seguiu para a Avenida Paulista, outra para a Ponte Estaiada e outro grupo ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo Estadual.

“Que coincidência, sem polícia não existe violência”, foi um dos gritos que reverberou durante a caminhada totalmente pacífica. Tão pacífica, que diante da primeiro vacilo de alguém, o povo repreendia. Aliás, hoje, se alguém tinha duvida do significado do termo “povo unido”, já aprendeu na prática.

Na Faria Lima, dos prédios e estabelecimentos comerciais, gente sacudia bandeiras brancas como forma de apoio. Outras dançavam. Tudo, sob aplausos e gritos de “vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Também foi curioso o festival de cartazes, que seria impossível descrever aqui de tantos que eram. Lembro de um, que me chamou a atenção: “nós fazemos a nossa própria nação”.

Os protestos, vale lembrar, levaram, dizem por aí, mais de 230 mil pessoas (foram muitas mais, sem dúvida) às ruas em 12 capitais nesta segunda-feira. Por fim, é indecifrável saber no que vai dar essa mobilização toda. A cabeça ainda está a milhão. Mas a sensação, depois da barbárie da PM, é que São Paulo se reencontrou consigo mesma. Deu uma reposta fantástica, cheia de entusiasmo e dormiu feliz para acordar revigorada nesta terça-feira. Amanhã vai ser maior? Tomara que sim.

“O que ouvi hoje não foi uma voz só”
(Natalia Mendes)

Avenida Paulista tomada por manifestantes
Lá pelas quatro da tarde, fomos para o ponto pegar o ônibus com destino ao Largo da Batata. Já encontramos alguns conhecidos e, logo no ponto seguinte, entraram vários adolescentes carregando cartazes, rostos pintados e energia pra dar e vender. Com isso, o ônibus foi tomado por manifestantes.

Ainda no caminho, a expectativa que tentava se disfarçar saiu pela garganta dos passageiros que já chamavam “Vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Pelas janelas, podíamos ver pessoas descendo a pé e cantando também. Não dava pra esperar o tempo dos veículos motorizados, saltamos alguns pontos antes para nos juntar aos outros.

No Largo, muitos rostos familiares, amigos e conhecidos. Recebi uma flor e um belo sorriso. No caminho, a mesma coisa. Encontros rápidos, abraços, sorrisos, alegria. Um clima leve. Não vi polícia nenhuma. “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”. Mas vi funcionários de uma famosa lanchonete dançarem animados, pessoas nas janelas acenando com lenços e lençóis brancos para os manifestantes, curiosos observando da calçada e batendo palmas.

A tensão inicial, a expectativa, o receio pelas balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram se perdendo.

Não sei dizer o quanto andamos, algumas horas. Paramos em uma esquina e ficamos observando aquele mar de gente. Era muita gente, mas muita mesmo. Era lindo, era impressionante. Isso que a manifestação tinha se dividido em três. Não conseguíamos imaginar quantas pessoas ocuparam as ruas. Ainda não sabemos ao certo.

Li relatos de gente que nem imaginei que estivesse lá. Soube de cantos que não ouvi. Encontrei (e vi de longe) pessoas que não esperava, que não sabia que estariam ali. Vi fotos de lugares que não passei. Parece que foram várias manifestações pela cidade. Todas parceiras.

O que ouvi hoje não foi uma voz só. Foram muitas, muitas mesmo.

Imagens: Joel Silva/Folhapress / Moacyr Lopes Júnior/Folhapress /Mídia Ninja.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Vídeo: jornalista é preso e agredido injustamente em SP

Pedrão Ribeiro Nogueira, jornalista, foi preso ontem durante a manifestação contra o aumento de passagem de ônibus e metrô em São Paulo. Ele estava fazendo a cobertura para o Portal Aprendiz, no qual é repórter. Como mostra o vídeo abaixo, ele foi preso. Antes, foi agredido inúmeras vezes de forma covarde e ilegal pela Polícia Militar de SP.

O jornalista é amigo próximo de muitos conhecidos deste Nota de Rodapé. É pessoa séria e competende no que faz. Já  parte da imprensa brasileira, a meu ver, faz novamente uma cobertura factual que insiste em criminalizar o movimento Passe Livre, com a velha lógica de dizer que fazem "vandalismo", "tumulto" e que são "baderneiros" e "criminosos".

Os pseudo-analistas de plantão, ah, são muitos nessas horas, não perdem a chance de descontextualizar os acontecimentos. Em palavreado curto e grosso, eles dizem nas entrelinhas que "se um fez merda, todos são iguais." Não é assim, nunca foi e não podemos deixar que isso se torne verdade mais uma vez. 

Os direitos de greve e manifestação são garantias constitucionais. O vandalismo, não. A quem comete crimes a lei precisa valer.

Mas alguém me diga, como fica a acusação contra o jornalista Pedro de "formação de quadrinha e dano qualificado" ao ver o vídeo abaixo?

As imagens foram feitas em frente a um hotel, na rua São Carlos do Pinhal, paralela à av. Paulista. Do que devemos chamar esses PMs? Torturadores? Covardes oficiais? Em quadrilha eles é que se revezam em agressões ao jornalista.

Também é de espantar as recentes declarações do prefeito Haddad sobre o assunto. Já do governador Alckmin, sinceramente, não esperava outra posição se não a tacanha de sempre.




Thiago Domenici
, jornalista, editor e coordenador do Nota de Rodapé

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Pelos olhos de um cão (guia)


por Thiago Domenici   ilustração Caco Bressane*

São oito da manhã de uma sexta-feira de abril. Àquela hora já passaram pela plataforma de embarque do metrô Palmeiras-Barra Funda, no sentido Corinthians-Itaquera, algumas milhares de pessoas. Na minha distração sonolenta, observando o vai e vem de uma escada rolante, o trem se aproximava. No mesmo momento, senti um solavanco leve nas costas.

Na esquiva instintiva, virei e topei um cego e seu cão-guia. Dei licença o mais rápido que pude, enquanto os dois, bem jovens, se falavam apressadamente sobre o destino. “Direita, para a plataforma de embarque”, pediu o rapaz, roupa social esportiva bem cortada. A cadela, uma beleza de labradora de pelo curto caramelo o olhava de soslaio como quem diz, “eu sei chefe, mas isso aqui tá uma bagunça”.

Com sua coleira adaptada para a situação, ela decifrou o caminho com seu jeitão apaixonante. O vagão lotou em segundos assim que a porta se abriu. Uma senhora pequena dessas com cara de avó, já sentada na cadeira azul clarinha – das que são reservadas por lei para idosos, grávidas, mulheres com crianças de colo e pessoas com deficiência – ficou confusa com aquele rapaz que, de surpresa, surgia com uma cachorra diante dela.

Após um vai não vai de segundos, ele solicitou com gentileza que ela sentasse na cadeira imediatamente ao lado, ao que foi atendido com um sorriso largo, benevolente, que diz tanta coisa sem dizer em verbo. Não tinha capricho nenhum naquele pedido, mas uma questão simples: quanto mais perto da saída, menos enrosco.

Acomodados, ele sacou do bolso um petisco que a cadela engoliu num piscar de olhos. Em seguida, ele fuçou um celular com teclado que puxou do bolso, colocou fones de ouvido brancos e se confortou ao som de alguma música que se iniciava. Na ligeireza habitué, o metrô corria pela estação Santa Cecília, a segunda da linha vermelha, a partir do nosso ponto de partida. Eu os observava de perto, num misto de admiração e encantamento.

Jogada no chão com seu focinho rente ao assoalho, ali no meio da passagem, com ar clássico de cachorro que deixa a gente babando e com vontade de fazer uma carícia, as pessoas desviavam de sua dócil cabeça, enquanto ela acompanhava com olhar de pouca importância.

Desci na estação República e os dois seguiram em frente. A cena ficou em mim. Coincidentemente, eu havia lido na Folha de S. Paulo no dia anterior um texto que dizia das dificuldades dos deficientes visuais em conseguir um anjo de quatro patas. Logo, conclui sem esforço, que a batalha foi árdua para aqueles dois estarem no metrô naquele dia.

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De fato, somente 80 deficientes visuais têm cães-guia no país, num universo que, segundo o IBGE, passa dos 2 milhões. É uma dificuldade atender a demanda de quem deseja um companheiro de quatro patas. Primeiro, por ser muito custosa a formação e treinamento, em média entre 20 e 40 mil reais fora do país. E a maioria dos bichos vem justamente do exterior, principalmente dos EUA, pois aqui, diz a matéria da FSP, a formação esbarra “na falta de boas linhagens e treinamento correto”. Do que pesquisei, posso dizer que o trabalho de quem busca dar conformo ao deficiente visual por meio de um companheiro cão é louvável. As iniciativas, como em tantas outras questões que merecem atenção pública, vem dos particulares que se organizam.

Também é recente (de 2005) a Lei que “Dispõe sobre o direito do portador de deficiência visual de ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhado de cão-guia.” Ou seja, todo restaurante, shopping, teatro, supermercado, casa noturna e meio de transporte não pode negar acesso sob risco de multa.

Mas o que significa ter um cão-guia? A parte do fato de ajudar o cego a desviar de obstáculos, atravessar a rua com segurança, encontrar caminhos mais simples e dar, sobretudo, autonomia e liberdade, o bichano faz companhia – é amor que se constrói –, traz aprendizado e desperta sorrisos gratuitos.

Outra vantagem é em relação à bengala, pois o cão-guia ajuda a desviar de objetos que estão acima do chão. Um deficiente visual, numa declaração que pesquei na internet, explica que com a bengala ele tem domínio de um metro e meio à frente o que torna mais difícil perceber um orelhão ou um galho de árvore, por exemplo.

Paciência na fila de espera de uma ONG por tempo indeterminado, ou tentar comprar o cão em outro país é, por enquanto, o principal caminho. Essa espera, no entanto, no Instituto IRIS – De Responsabilidade e Inclusão Social, chega a 4 mil pessoas, todas na expectativa de voltar a enxergar pelos olhos de um cão.

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E AOS INTERESSADOS: o site do Instituto IRIS, entidade sem fins lucrativos, fundada em 2002 em São Paulo, das poucas que trabalha na formação de cães-guia, traz mais detalhes sobre o assunto. A sua fundadora, a advogada Thays Martinez, também deficiente visual, contou sua experiência com o cão-guia Bóris no livro - e áudio livro - "Minha vida com Bóris". Bóris (que já faleceu) em 2004 foi o pioneiro ao abrir caminho na Justiça para deficientes visuais terem o direito de entrar no Metrô de São Paulo.

Além do IRIS, outro projeto, Cão Guia Brasil, treina cães para guiar pessoas com deficiência visual. E a escola de Cães Guia, Helen Keller, também está na rede. Para saber mais sobre deficiência visual vale se informar na Fundação Dorina Nowill para cegos.


*Thiago Domenici, jornalista, é editor e coordenador do Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Pequenos do mundo, boicotem



por Thiago Domenici   ilustração Ligia Morresi*

Hoje eu quero falar de utopias. Quero falar da força dos pequenos. Uma força que nós, os pequenos, não temos a dimensão. Nós, os pequenos, a maioria nesse mundão. Nós, os pequenos, explorados pelos grandes.

Conclamo a um ato de rebeldia extrema. Evoco, aqui, agora, o princípio de Gulliver, cunhado pelo filósofo francês Michel Onfray, que sugere que somando forças os pequenos podem multiplicar-se e fazer grande estrago.

O camarada filósofo disse mais: “A razão é sempre minoritária, pois a inteligência é mais rara do que a obediência”. E mais: “As pessoas preferem uma ficção que lhes dê segurança em vez de verdades que inquietam ou certezas que angustiam”. Touché!

Já que o sistema está aí para nos azucrinar, azucrinemos com ele de vez em quando. Boicotem o que desejarem! Esse blog, se julgarem inoportuno esse texto. Que seja só por hoje, mas boicotem!

Escolham um alvo bem sacana no mundo do capital nosso de cada dia. Aquele que te põe numa encruzilhada. Esses, bem espertos, que te pegam e amarram psicologicamente e economicamente. Adicione uma dose cavalar de saco cheio, rejeições, indignações e vá em frente. Tente!

Imagine que por menor que seja o efeito colateral, no prazer – repito, no prazer! – de saber que você, o pequeno, não se dobrou ao grande: “Era pra fazer e não fiz!” Tudo o que é vendido nas propagandas dos meios de comunicação é passível de boicote. Inclusive, os próprios meios de comunicação.

Você pode se indagar: mas se todo mundo deixar de consumir algo comum, seja um produto, ideia, atividade etc. o estrago será grande? Será um estrago, acredite, a proporção vai depender da massa que se uniu ao boicote. O fato é que sem audiência, um seriado de televisão, por exemplo, por melhor que seja, acaba. A lógica é a mesma para quase tudo: grana, bufunfa, capital, ri-que-za!

Sem a audiência dos pequenos as coisas não tem sentido de existir. O seu boicote pode vir em forma de denúncia ou propaganda negativa. A sua opinião, sobretudo no mundo virtual onde tudo fica mais exposto, pode, sim, mudar as coisas.

Exemplo: o recente site BoicotaSP, que diz não ser o "Procon e nem o Reclame Aqui", ideia de um publicitário, sugere ao internauta que liste os lugares que exploram demais em São Paulo. O espaço pretende ser um "guia de boicote aos estabelecimentos, eventos e qualquer coisa que saia do razoável." Com pouco mais de uma semana na rede a audiência é altíssima e já conta com mais de 20 mil fãs no Facebook.

Inspiremo-nos em Rosa Parks, a brava negra que não cedeu seu lugar no ônibus para um homem branco em 1955 na localidade de Montgomery, EUA. Dar lugar aos brancos era lei (segregacionista, é claro). Presa por seu ato, Rosa angariou uma avalanche de apoio que detonou o boicote maciço aos ônibus levando, posteriormente, a Suprema Corte a abolir a lei. Rosa Parks, meio por acaso, ajudou na luta anti-segregacionista dos EUA.

Vamos, nobres leitores, vamos mudar o mundo sem tomar o poder (por enquanto!). Só por hoje, por uma utopia desse escriba, vamos cutucar o comando central e dizer: “tamo de olho e querendo te derrubar”.


*Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR. Ilustração especial para o texto de Ligia Morresi, designer e ilustradora, que estreia hoje no blog

quarta-feira, 13 de março de 2013

As galinhas do Água Branca

por Thiago Domenici*

A fuga das galinhas do Parque da Água Branca, na esquina da movimentada av. Francisco Matarazzo com a ministro Godoy é das observâncias mais inusitadas. De uns tempos pra cá faço um novo caminho diário ao ir e voltar do metrô Barra Funda: desço a ministro Godoy, cruzo a faixa de pedestres pela Matarazzo e pego, em seguida, após correr os olhos por uma banca de jornal e ver as manchetes de algum periódico, uma ruazinha estreita que vai desembocar defronte a estação, a poucos passos do exuberante Memorial da América Latina.

Nesse itinerário tenho me deparado diariamente, não sem espanto, com motobóis sem paciência e carros sem amor buzinando para galos e galinhas radicais e seus pintinhos emancipados que arriscam suas cristas e penas ao atravessar fora da faixa de pedestres.

Isso mesmo! Galos e galinhas que se aventuram no asfalto em busca de um mix de farelos qualquer. Os bichos, sem medo, retrucam às buzinadas; galos, principalmente, empostando seu canto alto e vigoroso. É um tal de Fom! Fom, Beep Beep e Có coró cóóó de dar inveja ao silêncio, que ali não tem espaço.

Pois outro dia a mamãe galinha e dois rebentos estavam a cacarejar com regateios solenes, com seus movimentos pescoçais ritmados em meio ao já citado ruído nauseante. Fotografei com o celular. Não deu boa foto. Pensei, oras, que a cena tem é de ser vista a olhos vivos, sem imagens ou registros que inibam a imaginação, sempre mais interessante (ou quase sempre) do que a realidade.

O Água Branca, para situar, é nome do bairro, localizado no distrito da Barra Funda, mas que oficialmente leva o nome do homem que o concebeu, Fernando Costa, secretário de agricultura no longínquo ano de 1929, data em que se iniciou uma grande crise na economia mundial, devido à quebra da Bolsa de valores dos Estado Unidos. Quando inaugurado em 2 de junho daquele ano, o objetivo era abrigar exposições e provas zootécnicas.

Hoje o lugar é patrimônio cultural, histórico, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico do Estado. Além desses títulos, o que mais importa é o que nele vive: além da farta (e cada vez mais rara) natureza e dos galos e galinhas que gostam de aventurar-se no além-parque, os outros bichos que vale a confraternização são os macacos, gatos, cavalos, patos, pavão, peixes e, claro, alguns espécimes de zumanos em busca de respiro. O lugar tem um certo ar de nostalgia, meio outro tempo.

Nos meus encontros com as aves, uma galinha em especial – de penas escuras – que já vi por mais vezes a saçaricar entre os andantes sempre ignora meu “boa tarde” com uma corrida meio trotada em direção oposta. Ela, a quem apelidei de Mafalda, não é de dar atenção fácil pra ninguém. O guardador de carros que fica no pedaço é dos poucos que oferece um rango farelístico sem que ela fuja.

Fico a imaginar, por pura curiosidade, aquela São Paulo mais antiga e rural que não vivenciei, com seus transeuntes ternados e chapelados, quando por essas bandas existia mais terra batida do que asfalto e mais horizonte, que ofuscado, dorme atrás dos edifícios.

*jornalista, Thiago Domenici é editor e coordenador do NR

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Papa arrependido?


por Thiago Domenici*

A renúncia do quase ex-papa Bento XVI é mais um desses assuntos mundano-celestiais que me intrigam. Querendo ou não, católicos e simpatizantes, sejam favoráveis a linha conservadora adotada, criam esperança com o anúncio da renúncia e vinda de um novo pontífice por um mundo, sei lá, menos desigual? mais espiritualizado? O que esperam as pessoas de um novo Papa? O que espera o Papa das pessoas?

Não sei se por ranhetice, não acho que a mudança do padre alemão para um latino-americano ou africano influencie atitudes mais nobres e humanas das pessoas. O que está em jogo nessa história é a tentativa de recuperação política da igreja que, desgastada e envolvida em brigas pelo poder e falta de carisma, busca um respiro de renovação.

A Igreja joga com essa renúncia os holofotes para si, num período em que perde fiéis para outras religiões e vive assombrada por escândalos de pedofilia. Entre 1960 e 2010, por exemplo, o Brasil viu a parcela de sua população que se declara católica cair de 93,1% para 64,6%, segundo dados do último senso do IBGE.

Seguindo nesse meu raciocínio, não entendo como uma Igreja que fala em amor ao próximo, fé em Deus, bondade, justiça social se mantém soberba em vestimentas, atitudes e pensamentos como, por exemplo, em relação ao uso da camisinha e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E as mulheres religiosas na Igreja, que tem papel sempre inferior ao do homem religioso. Por que isso ainda tem de ser assim? Será que somente nos próximos 700 anos veremos uma Papisa?

O Vaticano, um país sem povo, é um império cheio de riquezas e ostentação. É curioso que uma das últimas atitudes de Bento XVI foi escolher o novo presidente do banco do Vaticano, já que o anterior em busca de mais "transparência" foi demitido pelo secretário do Vaticano, o papável italiano Tarcisio Bertone.

A igreja católica que aplaudo, de uma vertente verdadeiramente social, a teologia da libertação, uma espécie de agulha no palheiro, rara mais ainda presente na figura de alguns batalhadores, como Dom Pedro Casaldáliga, que no último sábado fez 85 anos, e que foi soterrada com ajuda do mesmo que agora pede para sair, será apoiada por um novo santo padre?

É interessante que Bento XVI, a figura central do que se tornou a igreja católica nas últimas décadas, peça uma “verdadeira renovação” daqui em diante.  Ele usou essa expressão em cerimônia de despedida com padres de sua diocese em Roma e afirmou que ficará "escondido do mundo" depois de renunciar no fim deste mês. Será, diante de sua nítida fragilidade e da Igreja, um sinal de arrependimento?

*jornalista, Thiago Domenici coordena e edita o Nota de Rodapé
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