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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Exclusivo e histórico: “crise de consciência” da grande imprensa


por Thiago Domenici*

Num momento histórico das comunicações do Brasil, os principais grupos de mídia, aqueles controlados, principalmente, por sete famílias (Grupo dos Sete), publicaram um editorial conjunto, divulgado recentemente, inclusive em horário nobre de televisão, em que admitem a parcialidade das coberturas jornalísticas ao longo da história. “Enganamos nossos leitores, ouvintes e telespectadores durante décadas ao imprimir em nossas coberturas um tom de imparcialidade, quando, na verdade, sempre tivemos intenções que valorizassem somente nossos interesses privados. Admitimos: a imparcialidade não existe”.

Esses interesses, esclarecem, pautavam, sobretudo, as questões políticas, econômicas e sociais. Como forma de amenizar o que chamam de “notícias enviesadas em detrimento da informação de interesse público”, esses grupos de mídia irão lançar um Portal de Transparência, inspirado na Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 2012. A ideia é corrigir – com a participação direta do público e dos que se julgarem prejudicados – as informações que estiverem “comprometidas do ponto de vista jornalístico” e que “estão distantes da  possível verdade factual dos acontecimentos”.

Uma Comissão Nacional da Verdade dos Crimes de Imprensa (CNVCI) também será formada, mas a atuação e duração seguia indefinida até o fechamento desta matéria. A CNVCI foi sugestão dos controladores do jornal diário carioca de maior circulação, que recentemente admitiram ter errado ao apoiar o golpe militar de 1964. Além dessas medidas, os donos dos jornais alegaram que o movimento inédito, de aparente arrependimento e acerto de contas com a sociedade, faz parte do que chamaram de “delação de amenização de consciência”, ou seja, algo de difícil compreensão, mas que, uma vez a cada mil anos, pode ocorrer na humanidade. “O capitalismo selvagem fez com que eu e meu jornal perdêssemos o prumo. Por isso, prejudicamos pessoas, instituições e governos, ao passo que isso precisa acabar”, disse o dono da revista semanal de maior circulação do país.

Em busca de uma credibilidade real, não falseada por propagandas que “vendem a ilusão do correto a se fazer”, o grupo propôs um novo Marco Regulatório das Comunicações. “Já passou da hora de assegurar a pluralidade de ideias e opiniões nos meios de comunicação, os métodos de financiamento equânimes, além de promover a participação popular na tomada de decisões acerca do sistema de comunicações brasileiro”, disse o apresentador do telejornal de maior audiência no país. O editorial conjunto, publicado em primeira mão no site www.sonhomeu.org, enumera várias razões para uma guinada nas comunicações, entre elas:

* ausência de pluralidade e diversidade na mídia atual o que esvazia a dimensão pública dos meios de comunicação;
* a Constituição Federal de 1988 carece da regulamentação da maioria dos artigos dedicados à comunicação (220, 221 e 223), deixando temas importantes, como a restrição aos monopólios e oligopólios e a regionalização da produção sem nenhuma referência legal.

O último item, inclusive, é o ponto principal do Projeto de Lei de Iniciativa Popular das Comunicações, lançado nacionalmente por um pool de entidades no dia 22 de agosto, em Brasília, que há anos lutam pela bandeira da democratização. O “Grupo dos Sete” afirmou endossar o apoio ao PL publicamente. Afirmaram em nota: “No Brasil há uma grave situação de concentração monopólica da mídia. Sabemos e admitimos que somos parte fundamental desse problema e estamos dispostos a corrigir, seja espontaneamente ou por via judicial, essa aberração. Por isso, vamos colaborar e apoiar qualquer iniciativa que vise romper com esse nó górdio das comunicações no país”.

A repercussão dessa inédita e surpreende decisão foi manchete de jornais em todo o mundo. Em pesquisa divulgada ontem pelo DataNR, a maioria dos veículos internacionais (80%) é contrária a postura do "grupo dos Sete". A população, no entanto, vê com bons olhos a iniciativa: 70% dos brasileiros querem regulação da mídia e, para 35% dos entrevistados, os meios de comunicação defendem os interesses dos donos; apenas 8% avaliam que estão a serviço da população.

Procurados pelo NR, políticos e autoridades que preferem não se identificar admitiram "confusão mental" com a notícia. “Muita gente vai se indignar com as 'novas verdades' que vão surgir”, comentou uma alta figura da república. De fato, o mundo não será mais o mesmo.

*Thiago Domenici, editor e coordenador do NR, escreve fantasias, caso dessa que você acaba de ler (as partes em negrito no texto são reais).

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cansei de ser honesto

Cansei de ser honesto. Daqui por diante roubarei, passarei a perna nos outros, seguirei à risca nossa famosa lei de Gérson, “levar vantagem em tudo”. Para me livrar de toda e qualquer acusação, direi apenas: sou jornalista.

Claro, isto é uma grande bobagem – a primeira parte, apenas. Infelizmente. Foi o que pensei ao assistir a retirada dos nomes de Policarpo Júnior, redator-chefe e diretor de Veja em Brasília, e de mais quatro jornalistas da CPI do Cachoeira, no final do ano passado. Policarpo relaciona-se com Cachoeira, segundo o relatório, desde 2004, atuando em favor do grupo do contraventor. Servir também “aos desideratos valorativos e às visões de mundo que movimentavam uma determinada linha editorial”, como explica reportagem de Carta Capital. A CPI pedia o indiciamento de PJr por formação de quadrilha.

Em suma, no mínimo uma séria investigação deveria ser feita, e foi, por parte da comissão. Entretanto seu resultado será nulo.

Em seu site, no texto que relata a retirada dos nomes, Veja trata o relatório como “ataques à imprensa”, “tentativa de atingir sua credibilidade”. No entanto, as dezenas de capas publicadas com denúncias infundadas, falta de provas e textos tendenciosos são plenamente aceitos em sua redação. Suposições transformam-se em fatos, e ninguém se importa com provas. As gravações com conversas entre Policarpo e Cachoeira, bastante contundentes, parecem entretanto não convencer seus editores.

O jornalista Luis Nassif, autor de ampla análise sobre o semanário, resume o “método Veja de fazer jornalismo”: Veja se especializaria em “construir” matérias que assumiam vida quase independente dos fatos que deveriam respaldá-las. Definia-se previamente como “seria” a matéria. Cabia aos repórteres apenas buscar declarações que ajudassem a colocar aquele monte de suposições em pé.

O juiz britânico Brian Levenson
A liberdade de imprensa é, sim, direito assegurado a todo jornalista. Da mesma forma, está escrito no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, muito próximo ao direito à informação: “a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas”. Porém, estranhamente esta parte nunca é citada pela grande mídia que adora reclamar qualquer questionamento como “censura”.

Tal liberdade também precisa ser analisada com critério, levando-se em conta quem comanda a telecomunicação no Brasil. Basicamente, podemos dizer que seis grupos pautam o noticiário em nosso país – aí incluídos jornais, TVs e rádios: Globo, Abril, Folha, Estado, Bandeirantes e Record. Apenas a Abril, dona da Veja, detém 74 veículos, conforme o site Donos da Mídia. Toda a proposta de regulamentação é tratada como tentativa de censura, ainda que emissoras sejam concessões públicas. Enquanto isto, no Reino Unido, o juiz Brian Leveson recomenda a existência de uma lei de imprensa, após os escândalos com o magnata das comunicações Rupert Murdoch.

A grande mídia age defendendo claros interesses políticos e econômicos – todavia travestidos na carapuça da “imparcialidade e objetividade”.

Quando um prédio desaba, o engenheiro responsável é procurado. Se esquecer um bisturi na barriga de alguém, o médico sofrerá consequências. Então por que jornalistas não devem ter responsabilidades, ou pior, não podem ser investigados quando agem com má-fé? A imprensa não está acima do bem e do mal, embora goste de pensar assim, e deve obedecer às mesmas leis que qualquer cidadão. Ao escrever, o jornalista tem o dever de informar sem distorcer informações, como diz o juramento que fazemos todos os egressos desta academia. Torçamos para que assim seja.

Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mirella carrega o legado da ditadura

Em tempos de Comissão da Verdade, um caso recente, que estourou nas redes sociais – dessas coisas que acontecem com frequência razoável –, nos faz pensar por que é importante desencavar os ossos das vítimas da ditadura brasileira. A violência que impera hoje, principalmente, nas periferias, as ultracomuns violações de direitos humanos no sistema carcerário, não terá fim, nem sequer vai diminuir, sem desvelarmos esse passado de nossa história que alguns setores da sociedade insistem em que fique trancafiado.

O caso a que me refiro é o da repórter baiana Mirella Cunha. Repórter da pior estirpe, reproduziu o jornalismo mais canalha e violento em uma matéria para um programa local da Bahia, da Rede Bandeirantes, a versão local do “Brasil Urgente”. Está pagando o pato, atualmente, sozinha, pelo seu péssimo trabalho, ainda que ela tenha apenas parcela da responsabilidade por sua bárbara tortura psicológica contra um detido.

 Mirella da Bandeirantes e entrevistado humilhado
Mirella Cunha entrevistava um suspeito de assalto e estupro. O jovem de 18 anos, preso no dia 31 de março (que bela comemoração do aniversário do golpe de 1964), estava algemado, com marcas de violência absolutamente visíveis no rosto. Ele cresceu nas ruas, nunca se alfabetizou, vendeu balas em ônibus. Na tela, a chamada da matéria já condenava o jovem: “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”. Ou seja, ele alegar inocência é “chororô”.

Mirella já foi mais direta, chamando-o de “estuprador”. O jovem confessa que assaltou uma mulher, que roubou um celular e uma corrente dela, mas mostra desespero ao dizer que não a estuprou, e que não tinha essa intenção.

A repórter pergunta da marca que ele tem no rosto, e o jovem conta que foi espancado. A informação passa batido. Um jovem de 18 anos que é espancado enquanto está sob custódia do Estado não levantou NENHUMA curiosidade na repórter, NENHUM questionamento.

O vídeo é conhecido, sua versão mais curta, com cerca de um minuto, já teve mais de um milhão de visualizações no YouTube. A versão maior mostra os comentários do apresentador do programa, Uziel Bueno, brincando insistentemente com o fato de o garoto topar fazer um exame de próstata. Em determinado momento, Uziel enrola uma folha de papel ao redor de dois dedos da mão, transformando-o num símbolo fálico, e diz que é urologista nas horas vagas e vai ajudar a fazer o exame.

Os abusos continuam, com a repórter humilhando e rindo do jovem, que não sabia o nome ou o tipo de exame a que teria que se submeter para comprovar sua inocência. Mirella e Uziel Bueno aumentam o tom das piadinhas quando ele se dispõe a fazer o exame de próstata, com provocações absurdamente homofóbicas. Lembrando da dificuldade que é convencer a maioria da população masculina de fazer tal exame. E lembrando da quantidade de homens que morrem todos os anos por câncer de próstata, um tipo comum, mas tratável, de câncer.
O apresentador Uziel do Brasil Urgente da Bandeirantes

Esse tipo de jornalismo policial que é, na verdade, policialesco, mostra como a cobertura jornalística, em especial de televisão e rádio, do que se convencionou chamar (principalmente pelo setor mais “intelectual e enlevado” dos jornalistas) de “programas sensacionalistas” reproduz uma lógica afinada com o que há de mais despudoradamente violento nas forças policiais. E isso é uma herança direta de um passado que se tenta deixar “quieto”.

Segundo a pesquisadora Kathryn Sikking, que conduziu estudos sobre respeito aos direitos humanos e como isso é diferente onde há diferenças ao se lidar com a históricos ditatoriais em mais de 100 países, “a quantificação de índices de respeito aos direitos humanos (elaborado pela Anistia Internacional) permite a afirmação de que os países que revisitaram seu passado e julgaram os perpetradores de tortura têm, hoje, um grau maior de respeito aos direitos humanos” (Correio da Cidadania, 5 de agosto de 2009). Os que não revisitaram têm “Brasil Urgente”, têm Mirella, têm Uziel.

Ou seja, ela afirma que há uma ligação direta nos países que souberam lidar melhor com seus esqueletos nos armários (ou nas valas) e buscaram a verdade e o respeito aos direitos humanos. Já nos países onde se varreu para baixo um passado de violência por parte do Estado, há uma herança perene, que permanece até hoje, e que faz com que haja muito menos percepção e, consequentemente, respeito aos direitos humanos. Esse é, claramente, o caso do Brasil, onde a forma de a polícia lidar com a população resguarda fortíssimas semelhanças com a da época da ditadura. Essa falta de “revisitar o passado” faz com quem não haja crítica, em um perpétuo “não se ver” o que acontece. A Polícia Militar, hoje, não se sente compelida em nenhuma medida a respeitar qualquer tipo de direito.

Segundo o site da revista Época, após a divulgação do vídeo, a Defensoria Pública da Bahia publicou o seguinte sobre o entrevistado por Mirella: “É réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência em Cajazeiras 11. Tem seis irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas dentro de ônibus. Ao ser questionado sobre como se sentiu durante a entrevista, ele diz: ‘Eu me senti humilhado, porque ela ficou rindo de mim o tempo todo. Eu chorei porque sabia que eu iria pagar por algo que não fiz, e que minha mãe, meus parentes e amigos iriam me ver na TV como estuprador, e eu sou inocente’” (Da coluna de 28 de maio de Eliane Brum, no site da revista Época).

Como bem disse Eliane Brum nessa mesma coluna, o caso que estourou está longe de ser exceção. Ele foi apenas mais um desses fenômenos de internet que estoura de uma hora para outra. Mas esse tipo de comportamento pode ser visto todos os dias. Na televisão e, principalmente, no rádio – esse meio de comunicação que é “primo pobre” mas que tem enorme penetração.

Não é incomum, nas redações de jornais, a editoria de Polícia ficar parada quando os policiais fazem greve. Porque essa editoria só funciona para reproduzir o que a assessoria de imprensa da polícia envia. É a única versão aceitável, e quando não há essa versão, não há nada a ser escrito. Vi isso com meus próprios olhos.

A Band afirmou que Mirella será demitida. Como se a reportagem e sua veiculação tivessem sido fruto da cabeça tresloucada da repórter, e não de uma cadeia de produção jornalística que tenta ser “do agrado do povão”, da fictícia “nova classe média”, que é um setor mais despolitizado e conservador que a média da população. Que é a favor da pena de morte e, contraditoriamente, contra o aborto por “defender a vida”. Que acha que suspeito que está algemado na delegacia “não é nenhum inocente” e, por isso, precisa ser humilhado, apanhar, “sofrer as consequências de seus crimes”; que não tinha “ninguém bonzinho” entre os mais de 111 presos do Carandiru.

Os arquivos que são mantidos fechados no Brasil não são referentes apenas à ditadura. Há documentos com mais de 130 anos, que vêm desde a Guerra do Paraguai, segundo a historiadora Ângela Mendes de Almeida. Ângela conta, em entrevista ao Correio de Cidadania em 2009, que “pouca gente percebe que aquele passado oculto pelo exército tem tudo a ver com a violência hoje, e ninguém quer enxergar a violência por parte do Estado. Ainda por cima temos uma opinião pública obscurantista que defende o extermínio dos pobres, ou faz alguns espetáculos de civilização que são inócuos.” Ora, estaria ela falando de Mirella três anos antes?

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista e editor de livros, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Catanduva e Massachusetts

A pedido da tia de William, que me procurou com a mensagem: "Meu sobrinho está preso por um crime que não cometeu. Eu pedi e peço a sua ajuda para a divulgação da matéria assinada por Richard Pedicini que fala do caso de Catanduva", este Nota de Rodapé publica o texto a seguir.

Catanduva e Massachusetts
Por Richard Pedicini

Semana passada em Massachusetts, uma ex-promotora perdeu uma eleição especial para o Senado americano, em parte devido ao seu papel no notório caso de Fells Acres, o pior desvio de Justiça naquele estado desde os processos dos bruxos de Salem, três seculos antes.
Mas o que interessa aqui não são os efeitos da eleição em Washington. É que a sentença da meritíssima juíza Sueli Juarez Alonso, na “rede de pedofilia” de Catanduva, assusta na sua semelhança com o condenação de Fells Acres. E com as condenações das bruxas de Salem.
Alegações impossíveis, falta total de evidências físicas, interrogatórios por psicólogos já convencidos que houve crime, foram parte da onda de supostos casos de abuso que varreu os Estados Unidos nos anos 80-90. Este eleição provocou retrospectivas destes casos, notavelmente de Dorothy Rabinowitz no Wall Street Jornal e no Psychology Today, este último disponível traduzindo aqui.

SEM EVIDÊNCIA OBJETIVA
Tanto em Catanduva quanto em Massachusetts, não há nenhuma evidência médica ou objetiva de que qualquer abuso aconteceu. Em suas quatorze páginas, a sentença da Dra. Sueli não cita nenhum laudo médico, nenhuma prova física, nenhuma evidência objetiva que estes crimes acontecerem.
O que ela cita é a testemunha e os reconhecimentos de crianças. Houve somente isso em Fells Acres, e em Salem.
Uma criança no caso Fells Acres contou que foi sodomizada com uma faca de açougueiro de 30 cm, que não deixou nenhuma machucada. Que nem a menina de Jardim Alpino que contou que foi cortado nos braços com um facão, estuprada, e mutilada na genitália, cujo laudo médico atesta que ela está sem cicatrizes, e como todas as outras supostas vítimas, virgem.
Olharemos primeiro porque a Justiça dos EUA parou de fazer condenações somente na base que a Dra. Sueli usou para condenar Zé da Pipa e seu sobrinho Willian (que ela chama de “William”) a mais de uma década de prisão.
O leitor de Catanduva deve lembrar os detalhes do caso da “rede de pedofilia”. Trataremos aqui de quatro momentos específicos: a caminhonete preta; a apreensão de março; o reconhecimento em Rio Preto em junho; e o micro do médico.

MÚLTIPLAS VÍTIMAS/MÚLTIPLAS OFENSORAS
A dra. Sueli diz que a psicologia é uma ciência. Bem, a matéria da maior revista do ramo, Psychology Today, fala das mudanças na maneira de interrogar crianças depois do caso Michaels em Nova Jersey. O autor, que é advogado e psicólogo, destaca que desde então psicólogos e investigadores policiais mudaram seus métodos de interrogar crianças pequenas, e mais nenhum caso MVMO [Múltiplas Vítimas/Múltiplas Ofensores] têm aparecido nos EUA
É exatamente este tipo de caso de que se trata na caça de bruxas de Catanduva.
Na sentença, a dra. Sueli nota que o psicólogo Paulo, que encontrou sinais de abuso sexual em quase todas as 61 crianças de Jardim Alpino que examinou, tem mestrado e está fazendo doutorado. Ela deixa de notar que estes estudos avançados são em educação especial. (http://lattes.cnpq.br/6015371368541783). Ela dedica quatro páginas da sentença à ciência de psicologia, citando “Psicologia: Uma introdução ao estudo de psicologia”, “Vocabulário de Psicanálise”, “Dicionário Técnico de Psicologia”, e três livros editados mais de um século atrás.
Com todo respeito aos conhecimentos de direito da juíza, que podem ser profundos, suas citações de psicologia sugerem um conhecimento superficial da psicologia. E de psicologia Paulo tem graduação, e só. Se psicologia é mesmo uma ciência, nem a Juíza de Direto nem o psicólogo do Fórum são cientistas.
As entrevistas das crianças de Jardim Alpino seguiu os padrões modernos de interrogação? Para responder precisaremos comparar as entrevistas conduzidas pelo psicologo Paulo com as diretrizes estabelecidas no caso Michaels. Lamentavelmente, enquanto a sentença é pública como em qualquer processo, as entrevistas estão sob sigilo, e talvez nem foram documentadas conforme prática moderna. Pode ser que o caso não foi conduzido seguindo a ciência mais diretamente relevante, mais profunda, e mais moderna, do que a das obras gerais e antigas citadas na sentença.

A CAMINHONETE PRETA
Uma camionete preta supostamente levou as crianças para as orgias. Foi comprovado que um empresário estacionava a caminhonete na escola para conduzir um caso extra-conjugal: funcionários da escola sempre avistaram a caminhonete, até durante as férias escolares, mas nunca notaram nenhuma criança entrar. E o empresário não foi reconhecido pelas crianças.
Mas, é notório que as crianças falaram que foram levados numa caminhonete preta. Como que a meritíssima juíza resolve a contradição?
Da mesma maneira que ela resolve que a menina com os cortes profundos sarou sozinha, sem deixar cicatrizes. Ela pula completamente. A caminhonete não aparece na sentença.
Ela decidiu também que Willian cometeu os crimes que lhe foram atribuídos durante as duas horas que seu serviço dava para o almoço, e que levou uma das crianças no moto, para encontros com homens que não foram identificados, num lugar que não foi identificado.
Numa cidade pequena, como não se poderia identificar este lugar e estes homens, onde até 61 crianças foram supostamente levadas, durante meses, a luz do meio-dia? Como que é que ninguém presenciou nenhuma destas viagens?
Em Salem, pelo menos, diziam que as vôos de vassoura aconteciam a noite.

AS APREENSÕES DE MARÇO
Antes da visita da CPI em março, mandados de busca e apreensão assinadas pela dra. Sueli foram cumpridos por 40 policiais e 20 promotores, sob o olhar da mídia nacional, já posicionada para veicular o espetáculo.
Serviu muito bem para espalhar as acusações, e destacar Catanduva no olhar da nação, no mal sentido. Mas serviu em nada para colher evidências, pela sua ausência conspícua nesta sentença. Nem os micros, nem os cruzamento dos telefones cujo sigilo foi quebrado pela CPI, nenhum dado colhido por sessenta homens da lei e três Senadores da República tinha peso o suficiente para ser citado no julgamento da figura central da “rede”.

O RECONHECIMENTO DE JUNHO
O peso foi dado pela mídia, e pela juíza, aos reconhecimentos. Acompanhei do lado de fora o reconhecimento em São José do Rio Pardo em junho, e do que ouvi, quem mais foi reconhecido lá foi Zé da Pipa.
Neste momento, uns dos leitores deve estar prestes a abandonar este texto. Afinal, se Zé foi reconhecido, o resto é detalhe.
Antes, mais um detalhe: Zé não estava em Rio Preto naquele dia. Quem o "reconheceu" estava errado, e consequentemente desconfio dos outros supostos reconhecimentos, dois ou três, naquele ocasião e nos outros.

O MICRO DO MÉDICO
A delegada Rosana da Silva Vanni foi duramente criticada por ter telefonado para o advogado do médico, em março, para dizer que ia executar uma busca na casa dele. Chegado vinte minutos depois, ela foi informada que o micro estava na oficina.
No CPI, este incidente foi agarrado como sendo "as provas sumiram", e que “os culpados escapariam” por isso.
Mas vamos com calma. As supostas fotos não foram encontradas em nenhuma das dúzias de computadores apreendidos no caso. Os abusos supostamente acontecerem durante meses, com o suposto intuito de distribuir fotos pelo internet. E elas não foram encontradas na internet.
Não foram encontradas no computador de Zé da Pipa, porque o borracheiro não tinha computador: sua câmera falava diretamente com a impressora que usava para imprimir as caras das crianças nas pipas. E nenhuma foto física ilegal foi encontrada.
A suposição de que existia uma rede de distribuir pornografia, mas que não distribuiu fotos, mas mantinha uma única copia, e apesar do barulho dos caçadores se aproximando durante semanas, deixou para sumir com as evidências vinte minutos antes da chegada da polícia, é absurda!
Acredito mais nos vôos de vassoura.

MAIS A SER DITO
Há mais a ser dito sobre esta investigação e esta sentença, e creio que será dito, que o caso de Catanduva será estudado no Brasil da mesma maneira de que o caso de Fells Acres é estudado nos Estados Unidos: um modelo de como não se faz a investigação deste tipo de acusação.

PRESUNÇÃO DA INOCÊNCIA
Qualquer acusado, não importando a natureza da suposto crime, é presumido inocente. Sua culpa tem que ser provada.
Muitas das acusações e detalhes mais espetaculares que Brasil inteiro ouviu, foram cabalmente desmentidos. Muitas das acusações feitas pelas crianças foram falsas: francamente absurdas ou desmentidas pelos laudos médicos. A sentença não explica nada disso, aparentemente ecoando a onda americana destes casos, quando a regra foi que tudo que criança falava que não era comprovadamente falso era verdade pura, e onde a atitude para com inconsistências foi, “Dane-se e condena-se!”
A falta total de evidência física na sentença, especialmente aquela que deveria existir, assusta, especialmente à luz dos casos americanos. Que toda a prova é fruto de entrevistas feitas por um especialista em educação especial, cuja taxa de diagnosticar abuso é “quase 100%”, perturba. Que a condenação está apoiada tal-somente nos conhecimentos de uma psicologia sem formação avançada na disciplina, e os conhecimentos da área mais superficiais ainda da juíza, causa desconfiança.

SOLTEM OS PRESOS
Há quatro presos na suposta rede de pedofilia de Catanduva. Há os dois menores (“recolhidos à Fundação Casa”, mas dá no mesmo), e Willian. É absolutamente comprovado que estes três foram vítimas de crimes. Willian foi sequestrado e só escapou da morte devida a ação rápida da PM, que tinha os telefones da PCC grampeados. Os dois menores tiverem seus nomes veiculados na imprensa como acusados, em violação da ECA, e um deles foi fisicamente atacado em frente ao Fórum, em frente a imprensa.
O caso de José Barra Nova de Mello, o "Zé da Pipa", é um pouco mais complicado. Ele confessou delitos. A juíza deu pouco peso a isso, condenando pelo que ele confessou e o que não confessou.
Ouvi falar desta confissão de Zé quando visitei Catanduva em junho, e voltei para casa convencido que realmente Zé tinha feito alguma coisa, mas que tudo apontava que ele agiu sozinho.
Chegando em São Paulo, fui ler sobre os processos das bruxas de Salem, e fiquei abismado ao ler os conselhos de uns sábios de 300 anos atrás, de que nestes casos não se deve acreditar nem em confissões. Pois umas das bruxas de Salem confessou também.
A juíza diz que “a prova é robusta”, de que “não há dúvidas quanto a veracidade”. Falaram assim em Salem, faz 300 anos, e no caso Fells Acres, também.
Os quatro devem ser soltos já, enquanto o Tribunal de Justiça julga as apelações, presumivelmente na luz da lei e não da psicologia.

Richard Pedicini é formado em filosofia pela universidade Yale e escreve sobre aviação e crimes de imprensa. Foi envolvido, preso e posteriormente libertado e inocentado no caso da Escola Base, em 1994
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