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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Exclusivo e histórico: “crise de consciência” da grande imprensa


por Thiago Domenici*

Num momento histórico das comunicações do Brasil, os principais grupos de mídia, aqueles controlados, principalmente, por sete famílias (Grupo dos Sete), publicaram um editorial conjunto, divulgado recentemente, inclusive em horário nobre de televisão, em que admitem a parcialidade das coberturas jornalísticas ao longo da história. “Enganamos nossos leitores, ouvintes e telespectadores durante décadas ao imprimir em nossas coberturas um tom de imparcialidade, quando, na verdade, sempre tivemos intenções que valorizassem somente nossos interesses privados. Admitimos: a imparcialidade não existe”.

Esses interesses, esclarecem, pautavam, sobretudo, as questões políticas, econômicas e sociais. Como forma de amenizar o que chamam de “notícias enviesadas em detrimento da informação de interesse público”, esses grupos de mídia irão lançar um Portal de Transparência, inspirado na Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 2012. A ideia é corrigir – com a participação direta do público e dos que se julgarem prejudicados – as informações que estiverem “comprometidas do ponto de vista jornalístico” e que “estão distantes da  possível verdade factual dos acontecimentos”.

Uma Comissão Nacional da Verdade dos Crimes de Imprensa (CNVCI) também será formada, mas a atuação e duração seguia indefinida até o fechamento desta matéria. A CNVCI foi sugestão dos controladores do jornal diário carioca de maior circulação, que recentemente admitiram ter errado ao apoiar o golpe militar de 1964. Além dessas medidas, os donos dos jornais alegaram que o movimento inédito, de aparente arrependimento e acerto de contas com a sociedade, faz parte do que chamaram de “delação de amenização de consciência”, ou seja, algo de difícil compreensão, mas que, uma vez a cada mil anos, pode ocorrer na humanidade. “O capitalismo selvagem fez com que eu e meu jornal perdêssemos o prumo. Por isso, prejudicamos pessoas, instituições e governos, ao passo que isso precisa acabar”, disse o dono da revista semanal de maior circulação do país.

Em busca de uma credibilidade real, não falseada por propagandas que “vendem a ilusão do correto a se fazer”, o grupo propôs um novo Marco Regulatório das Comunicações. “Já passou da hora de assegurar a pluralidade de ideias e opiniões nos meios de comunicação, os métodos de financiamento equânimes, além de promover a participação popular na tomada de decisões acerca do sistema de comunicações brasileiro”, disse o apresentador do telejornal de maior audiência no país. O editorial conjunto, publicado em primeira mão no site www.sonhomeu.org, enumera várias razões para uma guinada nas comunicações, entre elas:

* ausência de pluralidade e diversidade na mídia atual o que esvazia a dimensão pública dos meios de comunicação;
* a Constituição Federal de 1988 carece da regulamentação da maioria dos artigos dedicados à comunicação (220, 221 e 223), deixando temas importantes, como a restrição aos monopólios e oligopólios e a regionalização da produção sem nenhuma referência legal.

O último item, inclusive, é o ponto principal do Projeto de Lei de Iniciativa Popular das Comunicações, lançado nacionalmente por um pool de entidades no dia 22 de agosto, em Brasília, que há anos lutam pela bandeira da democratização. O “Grupo dos Sete” afirmou endossar o apoio ao PL publicamente. Afirmaram em nota: “No Brasil há uma grave situação de concentração monopólica da mídia. Sabemos e admitimos que somos parte fundamental desse problema e estamos dispostos a corrigir, seja espontaneamente ou por via judicial, essa aberração. Por isso, vamos colaborar e apoiar qualquer iniciativa que vise romper com esse nó górdio das comunicações no país”.

A repercussão dessa inédita e surpreende decisão foi manchete de jornais em todo o mundo. Em pesquisa divulgada ontem pelo DataNR, a maioria dos veículos internacionais (80%) é contrária a postura do "grupo dos Sete". A população, no entanto, vê com bons olhos a iniciativa: 70% dos brasileiros querem regulação da mídia e, para 35% dos entrevistados, os meios de comunicação defendem os interesses dos donos; apenas 8% avaliam que estão a serviço da população.

Procurados pelo NR, políticos e autoridades que preferem não se identificar admitiram "confusão mental" com a notícia. “Muita gente vai se indignar com as 'novas verdades' que vão surgir”, comentou uma alta figura da república. De fato, o mundo não será mais o mesmo.

*Thiago Domenici, editor e coordenador do NR, escreve fantasias, caso dessa que você acaba de ler (as partes em negrito no texto são reais).

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quem escreve o Brasil?


por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall*

Não sou especialista em nada. Sou uma Pena de Aluguel. Passei os últimos trinta anos escrevendo roteiros, spots, slogans, textos para clientes variados. Aprendi a me apaixonar pela paixão dos outros.

Assim, já morri de amores por uma fábrica de parafusos, pontes estaiadas, bolos para festas, estatuto da criança e do adolescente, autoescola, biblioteca comunitária, casa de tintas, clube de campo, direitos humanos.

Também, é claro, escrevo crônicas dos meus temas. São as melhores de fazer, pois nelas tenho passe livre para escrevinhar o que penso e sinto. É o que hoje rabisco na coluna Mente Aberta do Yahoo e aqui neste delicioso Nota de Rodapé.

Mas mesmo não sendo doutora em nenhuma disciplina das humanas, quero dar alguns pitacos acerca do que andamos vivendo no mundo dos jornalistas e autores. Mundo em crise, acho que ninguém duvida.

O que eu mais vejo no meu Face são postagens, muitas delas desesperadas, alertando para a morte do jornalista profissional. Notícias de desrespeito social, demissões em massa, baixos salários, baixa autoestima.

No entanto, creio que não é a bonita, histórica, indispensável profissão de jornalista que está na UTI. Quem está terminal são os grandes veículos impressos de massa. Eles vão para a agonia por falência múltipla de visão.

Olha que não estou falando de modelo de negócio - esse papo não é de jornalista, é de dono de jornal. Estou falando de novos modelos de noticiar e ler notícias. Novos jeitos criados nas redes sociais e ignorados na maioria das redações.

Muitos seguem acreditando que o mundo é o mesmo do ano passado. Mas não é. Ele não é o mesmo nem da manhã de hoje. Pois tudo vai muito rápido. Corre na velocidade do curtir, comentar, compartilhar.

Mas a velocidade é uma das características da transformação. Existe outra mais acachapante: os leitores mudaram! São mais críticos e mais voláteis. Eles não cabem mais nas caixinhas de destinatários, público-alvo, consumidores.

Também são leitores sedentos de experiências e informações. Estão o tempo todo ligados. Usando seus notebooks, tablets, smartphones. Por ser tremenda a abundância de fontes e informações, são eles que escolhem o que, porque e quem ler.

Me parece que nesse ambiente, jornalistas e escribas em geral vão ter a oportunidade de florescer. Mais ainda, a oportunidade de brilhar com a matéria-prima do jornalismo - que faz algum tempo estava no limbo. Isto é, apuração correta e bom texto.

Não haverá mais a comodidade da mídia única. Nem o cargo, nem o título, nem o espaço da página, nem o compadrio darão ao jornalista a primazia de ser lido. Todo mundo vai ter que suar a caneta para conquistar o novo leitor.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O analfabeto midiático


por Celso Vicenzi (com a “ajuda” de Bertolt Brecht)*

O pior analfabeto é o analfabeto midiático.

Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.

O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista. O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.”

O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.


*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Afinal, quem são os Black Blocs?


por Vinícius Souza*

Para a Folha de São Paulo, os mais de dois mil manifestantes – na maior parte, jornalistas e ativistas pela democratização dos meios de comunicação – que estiveram no protesto na sede da Rede Globo em SP, no último dia 11 de julho, não somavam quinhentas pessoas. Ainda segundo o jornal, tal número seria adepto da ideia sem sentido de trazer o caos pela destruição do patrimônio público e privado, não propondo nada em troca. Para esclarecer a mídia e evitar erros como esse, convém dar algumas informações sobre os ditos “vândalos”.

Diferentemente de querer mudar o sistema pelo dano à propriedade (sempre privada e de preferência simbólica do grande capital), a tática Black Bloc pretende, entre outras coisas, dar visibilidade a lutas anti-capitalistas e anti-proibicionistas. Eles entendem que, independentemente da quantidade de gente, não adianta se manifestar pacificamente com cartazes seja qual for a causa.

No dia 8 de junho, mais de 12 mil pessoas fecharam a Avenida Paulista às 14h, percorreram a Augusta e a Consolação ocupando a Praça da República por cerca de quatro horas, com música, dança e discursos em prol da legalização da maconha. Como de praxe, nenhuma menção na TV e somente uma pequena nota interna nos jornais.

Na véspera, mais de cinco mil manifestantes pelo Passe Livre haviam sido reprimidos com gás lacrimogêneo na Marginal Pinheiros e perto de 500 conseguiram chegar ao vão do Masp, após negociarem com a PM. Essa dispersão pacífica na Paulista, sem incidentes, teve pouca repercussão.

Porém, nos três dias consecutivos de passeatas, apenas a destruição de vidros de estações do Metrô e fachadas de lojas, no dia 6, conquistaram manchetes. E quanto mais a polícia batia, mais gente se juntava no protesto seguinte, até o massacre de ativistas e jornalistas na noite de 13 de junho, que levou a mídia a mudar de posição, promover as manifestações “cívicas” e levantar bandeiras contra a corrupção, a PEC 37, a vinda de médicos estrangeiros, o Governo Federal etc.

De repente, os mascarados atacando a sede da Prefeitura, os vitrais do Theatro Municipal, saqueando lojas e ateando fogo em prédios ocupados por Movimentos de Sem Teto, não se vestem mais exclusivamente de preto e vermelho e nem trazem estandartes negros. Os skates e cabelos moicanos, tão comuns entre os Black Blocs, também desaparecem, dando lugar a cabeças raspadas, músculos definidos e, por vezes, roupas e relógios caros. Ainda há o grafiti (ou picho), mas não mais só de mensagens anarquistas e reivindicações pela tarifa zero. No lugar, palavrões e xingamentos contra o governo.

Só por má vontade ou desconhecimento da história recente das lutas mundiais é possível dizer que todos (e mais os ativistas contra os monopólios midiáticos) fazem parte do mesmo grupo.

Para quem não sabe, os Black Blocs apareceram pela primeira vez nos protestos anti-capitalistas do final do século passado nos encontros dos países ricos em Seattle, nos Estados Unidos, e Gênova, na Itália, com os principais embates contra a polícia, onde houve inclusive mortes entre os manifestantes. Eles reapareceram com força nos EUA, no Occupy Wall Street e, no Brasil, nas marchas anti-proibicionistas de 2010 e 2011.

A ação de pichação e, às vezes, destruição de filiais de grandes redes transnacionais, como McDonalds e Starbucks, além de agências bancárias, visa o ataque a símbolos de um sistema financeiro internacional que oprime populações em todo o mundo. De inspiração anarcopunk, amam as liberdades individuais, o faça-você-mesmo e as músicas pesadas. Compreendem a necessidade atual de um Estado que garanta os direitos e distribua as riquezas entre os mais pobres. O socialismo antes do anarquismo. Mas não são “patrióticos”, abominando associações a símbolos nacionais, como bandeira e o hino. Conectam-se por redes, coletivos e pequenos grupos, sem lideranças. Curiosamente, nenhum dos detidos por depredação de patrimônio se declarou Black Bloc.

*Texto e foto Vinícius Souza, jornalista do MediaQuatro, especial para o NR.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Eles querem se apropriar

por Thiago Domenici*

1 – A reivindicação principal é pela redução da tarifa do transporte em SP, é baixar de 3,20 para três reais, pra começar. Só pra começar. A tarifa zero não é utopia. Há que ser discutida.

2 – Antes de quinta, quando a PM aterrorizou, o movimento era de jovens "baderneiros", pedindo algo "impossível". A ideia era desacreditá-los. O discurso da mídia virou depois da ação truculenta da PM, vide um exemplo: Arnaldo Jabor se desculpando por falar asneira.

3 – A imprensa, nome aos bois mais vistosos: Globo, Veja e editoriais de Estadão e Folha agiram em prol da manipulação da pauta dos protestos desde o início.

4 – Daí teve ontem, um mar de gente e...

5 – Essa mesma imprensa pensou: “e agora?”. E o que fez? Seguiu deturpando a pauta principal das manifestações. Agora, dá um jeito de dizer que não é só pela “redução das passagens”. Que a coisa é geral, contra tudo que de ruim existe no país e blábláblá.

6 – Isso se explica, de certa forma, pelo seguinte: ontem teve tanta gente na rua, “sem partido”, “contra corrupção”, “acordando” e cantando o hino e outras firulas (lembram do “Cansei”?) que nisso viram [não só a imprensa, tá?] uma boa oportunidade de seguir jogando sujo. E seguem.

7 – Então assim: não se enganem. O Brasil dos movimentos sociais fortes não está acordando. Está desperto há tempos. Lutam, como grande parte da imprensa independente, por suas bandeiras verdadeiras e justas. A imprensa, a de massa, vai seguir tentando desqualificar e desmobilizar as ações por meio da informação torta, aquela que mais confunde do que esclarece. A independente, menor em alcance e recursos, mas tão capaz e forte, vai seguir limpando essa sujeirada toda com informação de interesse público.

PS: assistam o Roda Viva de ontem, com os representantes do Movimento Passe Livre, no qual o NR esteve presente na bancada de tuiteiros. Vídeos em quatro partes aqui.

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Futebol e “jornalismo do apocalipse”: tudo a ver


por Moriti Neto  ilustração Victor Zalma*

O que se faz, aproveitando o reforço das escassas inteligências e do quase zero de seriedade constantes no meio do jornalismo esportivo, é apostar maximamente no descartável, mola essencial da sociedade de consumo.

Deparei-me com exemplo disso no último dia 1º de maio, à tarde, um feriado, quando assistir ao jogo de volta entre Barcelona e Bayern Munique, disputado na Espanha, pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa, parecia boa opção. Parecia. Com a partida transmitida em sinal aberto pelas emissoras Bandeirantes e Globo, o que vi foi uma exibição de mau jornalismo, total descompromisso com a informação.

A vitória do time alemão por 3 x 0 e a incontestável classificação (o time bávaro já havia vencido a primeira partida pelo placar de 4 x 0) transformou o Bayern em novo xodó da mídia esportiva internacional, brasileira incluída. Mais do que isso, expõe a irresponsabilidade das equipes “jornalísticas” que transmitem competições esportivas de alto nível, já que alcançam – e influenciam – tantas pessoas.

O modelo do time a ser admirado nem é o problema. Isso vai de gosto pessoal. A questão é a falta de embasamento. O que leva narradores e comentaristas a afirmarem que “um gigante surge” e “o fim de uma era”?

Sim, o Bayern é ótimo. Apresenta valores individuais de excelente nível e bom jogo coletivo. Ganhou o último campeonato alemão de forma notável. Contudo, o que exatamente serve de parâmetro para guindá-lo ao gigantismo internacional promovido pelos Galvões da vida?

Os reis das obviedades tomam como fundamento duas partidas. Absolutamente nada que escape às duas derrotas impostas ao Barcelona, este, de fato, o gigante da história do futebol contemporâneo tanto pela qualidade técnica como por grandeza de títulos conquistados (vale ressaltar que, no momento, o Barça está claramente em declínio, motivado por diversos itens que vão muito além da ausência, na ocasião da partida, do contundido Lionel Messi).

Nem mesmo é possível classificar a recente alçada midiática do Bayern à condição de time mais forte do mundo como resultado de anos de construção. O projeto que colocou o clube em três finais da Liga dos Campões nas quatro últimas competições disputadas não é considerado. Está longe de ser o parâmetro para a conclusão dos gênios da cobertura esportiva, já que mal citado é.

Sai o Barcelona, entra o Bayern Munique. Numa simples operação que não leva em conta nenhum fator a não ser a busca de audiência e a venda da publicidade. Aqui entra a aposta no descartável. Mexe-se na prateleira, substitui-se um produto por outro e esquece-se a missão de informar.

Não estou aqui a defender o mau humor, mas a seriedade. São conceitos bem diferentes. O futebol, esporte mais popular do planeta, não é só diversão. É patrimônio cultural da humanidade. Merece precisão e responsabilidade na transmissão da informação, que é bem de interesse público.

No entanto, na ânsia pela venda do produto, o que prevalece são as bobagens ditas por falsos profetas, principalmente os do apocalipse. Eles adoram gritar fins e surgimentos. Amam antever os rumos do mundo. Triste. Ainda mais entristecedor é que isso vá bem além de uma transmissão esportiva. Invade as várias áreas do jornalismo. Sem piedade, a irresponsabilidade informativa vista em Barcelona x Bayern Munique atravessa a vida de quem acompanha as editorias de cada dia.

Precisão? Que se dane!

Só para reforçar o quanto o futebol serve de referência sobre a falta de competência na apuração e o quão são irresponsáveis as coberturas jornalísticas atuais, vale lembrar casos envolvendo os jogadores Neymar e Paulo Henrique Ganso, hoje no Santos e no São Paulo, respectivamente.

No limite da irresponsabilidade, tem veículo de comunicação que reforça o erro de outro, site que aposta em astrologia para fazer “jornalismo” e interesses nada nobres em jogo.

-- Ganso troca Santos por Corinthians

-- Astrologa prevê lesão de Ronaldo, alcoolismo de Neymar e queda do Vasco

-- A cruzada da mídia contra Neymar


*Moriti Neto, jornalista. ilustração de Victor Zalma, especial para o texto, faz sua estreia no time de colunistas do NR

quinta-feira, 21 de março de 2013

A mídia e o Papa


por Celso Vicenzi*

Nos últimos dias o noticiário sobre a eleição do novo papa tomou conta da mídia brasileira. Entre o ufanismo inicial e o (quase) desapontamento final, seguem algumas observações.

Não se sabia, até a renúncia de Bento XVI, que o Brasil era um país com tantos “jornalistas vaticanólogos”. Muitos deles sem nunca terem colocado os pés no Vaticano. No máximo, como turistas.

Os nossos “jornalistas vaticanólogos”, com raras exceções, divulgaram notícias que oscilaram entre a obviedade e o triunfalismo. Mais fácil ler direto no Google.

Ao tomar conhecimento de que outros “especialistas” apontavam o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como um dos candidatos com boas chances, a cobertura tupiniquim entrou em campo em clima de jogo de futebol. Brasil zilzil... Um verdadeiro espetáculo de torcida organizada. Vai que é tua, Odilo!

Odilo foi, viu,votou, mas não venceu. Deu zebra! Nenhum dos candidatos apontados pelos jornalistas foi eleito. Tomaram um baile dos cardeais. A Argentina venceu de goleada, pelo que disseram depois.

A exemplo do que acontece com nossos cronistas esportivos, somos especialistas também em comentar “depois do lance”. E de uma hora para outra – sem fontes – soube-se que já no conclave anterior Bergoglio teria sido o segundo mais votado. Ora, então por que não estava entre os favoritos?

Em Santa Catarina, vários jornalistas chegaram a cogitar a hipótese de um papa catarinense. Rendeu manchete. Sim, tudo era possível. Mas jornalistas não são pagos para fazer análises fidedignas dos fatos? Para investigar com boas fontes mais do que fazer torcida? Infelizmente, tudo muda muito rápido. Jornalismo tornou-se algo bem próximo do entretenimento, e jornalista, não raro, vira personagem das reportagens. De narrador oculto a estrela dos fatos. Muito distante das lições do mestre Joel Silveira: “Jornalista é para ver a banda passar. Não é para fazer parte da banda”.

Muito se falou que a preferência do Vaticano seria por um papa mais jovem. Quem disse isso deve ter faltado às aulas de comunicação e marketing. Com tantas horas de mídia gratuita cada vez que morre um papa e se elege outro, é um bom negócio não escolher um papa muito jovem, não é?

E agora que foi aberta a “porteira” para a renúncia por “motivos de saúde”, salvo se o papa for muito idolatrado, tudo indica que a fórmula pode vir a ser usada mais vezes.

Impressionante a quantidade de espaço, em todas as mídias. É bom lembrar que, embora o cristianismo seja a maior corrente religiosa, a maior parte do planeta não professa a fé católica, mas o islamismo, o hinduísmo, a religião tradicional chinesa, o budismo e o sikhismo, entre outras. A cobertura é desproporcional à real importância global. Por tão generoso espaço, o Vaticano, penhoradamente, agradece.

Por trás de todo o discurso da fraternidade e solidariedade, há uma Igreja que se autointitula única, a verdadeira, a do papa infalível, e diz que fora dela não há salvação. Ao tentar impor um só Deus para todas as culturas, abrem-se as portas para os conflitos. Embora o discurso seja de paz, as religiões estão na raiz de muitas guerras. Ontem e hoje.

Nessa imensa centimetragem de jornais e infindáveis horas de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais – quanta overdose! – pouca coisa se viu sobre as intrigas do Vaticano e a onipresente mistura entre religião e política. O tom foi quase sempre igrejeiro, tudo divino e maravilhoso. Mas há esperança: eu, por exemplo, sou um crente. Creio na boa reportagem jornalística. Tenho fé que nem tudo está perdido.

Mesmo com tanto oba-oba, em tempos de redes sociais, não deu para represar as denúncias de envolvimento ou omissão do novo papa com a ditadura argentina. Há muito ainda para explicar.

Pelos próximos anos, a pauta da pedofilia abre espaço para a da tortura nos porões da ditadura. O Vaticano tenta, mas não consegue exorcizar os seus fantasmas.

É quase certo que teremos um papa populista e conservador. Contra o casamento gay, contra o aborto, contra a ordenação de mulheres na igreja. Talvez um aliado em alguns embates contra a vergonhosa acumulação de riqueza no planeta. Mas de leve, porque o telhado do onipotente Vaticano também é de vidro.

A escolha de um papa não europeu, e especificamente da América Latina, é uma tendência que pode se repetir no futuro. No último século, o número de católicos europeus caiu pela metade e hoje representa apenas 25% do total mundial. Na América Latina a tendência é oposta. Na região já se concentram 42% dos fiéis do planeta, e estima-se que até 2050 esse número terá crescido mais de 40%.

A eleição de um papa argentino renovou o estoque de piadas dos humoristas brasileiros no mínimo até a próxima década.

As minhas contribuições, a seguir.

Não bastasse o Messi, agora temos um papa argentino. Não dá mais para dizer que Deus é brasileiro.

A Argentina foi com Jorge Mario (Bergoglio). O Brasil deveria ter escalado Mario Jorge (Lobo Zagallo): “Zagallo é o papa” tem 13 letras!

São tantos os escândalos sexuais da Igreja Católica que a fumaça no conclave do Vaticano bem que poderia ter saído em cinquenta tons de cinza.


*jornalista, Celso Vicenzi é ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia, com passagens por rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. O autor autorizou a publicação no Nota de Rodapé.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ele enganou o El País?

NR entrevista Tommaso Debenedetti, 43 anos, que se diz professor de literatura e história em Roma, com “vida normal” e pai de “dois filhos”. Ele afirma ser o responsável por plantar a falsa foto de Hugo Chávez publicada na capa do jornal espanhol El País no mês passado. Além desse ato, Debenedetti alega ser o autor de outras mentiras publicadas em jornais e divulgadas na internet nos últimos anos.

por Ricardo Viel, de Lisboa

No último 24 de janeiro o prestigiado jornal espanhol El País cometeu um erro que custou à empresa cerca de 300 mil euros e arranhou profundamente sua credibilidade: publicou uma suposta foto do presidente venezuelano Hugo Chávez sendo operado em um hospital cubano. Como se confirmou em seguida, não era Chávez, mas uma fraude grosseira.

Durante a madrugada daquela sexta-feira, o periódico espanhol, após perceber o erro, colocou em marcha uma operação para resgatar seus exemplares das bancas. Conseguiu, em parte, recuperá-los e substituí-los por outra edição, mas a foto falsa já havia se espalhado pelo internet – onde o jornal também a publicou com destaque em seu site.

Como foi possível que um dos mais prestigiados periódicos do mundo cometesse um erro tão grosseiro? Parte da resposta deu o próprio jornal, ao publicar no domingo dia 26 um extenso relato em que conta, passo a passo, a sucessão de erros cometidos até a publicação da imagem (leia aqui).

Falhas tão absurdas como, por exemplo, não contatar o seu correspondente na Venezuela e nem sua colunista em Cuba. O jornal relata que a foto foi comprada por 15 mil euros de uma agência que prestava serviços ao jornal. Venderam a foto como tendo sido feita por uma enfermeira cubana que tinha familiares na Espanha. Era mentira.

O que o jornal não explica é como essa foto chegou à agência. Um personagem pode ter a resposta. Tommaso Debenedetti é um italiano que ficou famoso em 2010 quando foi desmascarado (o próprio El País publicou uma entrevista muito divertida com ele).

Durante dez anos o jornalista inventou entrevistas que nunca aconteceram e as vendeu para pequenos jornais da Itália. Foram mais de cem, com personalidades como Mijaíl Gorbatchov, Dalai Lama, Joseph Ratzinger, além de dezenas de prêmios Nobel de literatura. Ficou conhecido como o campeão italiano da mentira, e foi descoberto quando o escritor norte-americano Philip Roth, indagado sobre uma suposta entrevista em que criticava Obama, disse nunca ter feito tal afirmação. Foi quando a farsa veio abaixo.

Debenedetti classifica suas mentiras como um “jogo literário” e continua gerando falsas notícias na rede. Recentemente criou um perfil de Vargas Llosa no Facebook e plantou declarações polêmicas publicada por vários meios como sendo do Nobel peruano.

No ano passado, o italiano “matou” o escritor Gabriel García Márquez e Fidel Castro. Agora, assegura ser o autor da falsa foto que o El País publicou. O Nota de Rodapé o entrevistou por email. Leia a seguir.

O "campeão" da mentira Debenedetti (Foto: Stephanie Gengotti / Iberpress / Caters)

NR – Foi você que fez a foto que o El País publicou?
TD – Sim, eu sou o “autor” da falsa foto de Chávez publicada pelo El País. Posso dizer que se tratava de um jogo, um jogo de suplantar midiaticamente uma notícia para denunciar a falta de credibilidade dos meios.

NR– Como foi que criou esse jogo?
TD – No dia 10 de janeiro, por circunstâncias casuais, encontrei no Youtube o vídeo de um homem sendo entubado. Pensei: “parece um pouco a Chávez. Um pouco não, muito!” Portanto, como um jogo, tomei uma foto desse vídeo e a enviei a três agências de notícias, uma na Costa Rica, outra na Venezuela e outra de Cuba. Enviei a foto de uma conta falsa no nome do ministro venezuelano de cultura Pedro Calzadilla. Mandei com as seguintes palavras: o comandante Hugo Chávez hospitalizado em Havana. Não recebi resposta e a foto não foi publicada, mas dois dias depois um homem que se apresentava como jornalista cubano respondeu o correio: “muito importante, vamos enviar a Porto Rico e Madri.” Dias depois a conta de e-mail falsa que eu criei foi bloqueada, não sei por que, e não tive mais respostas. Só na manhã do dia 24 a foto apareceu na capa do El País. Tenho para mim que a foto foi enviada a Madri por jornalistas cubanos com duas finalidades: tirar dinheiro e, sobretudo, desacreditar o El Pais e, de certa forma, a imprensa ibérica.

NR – Teme ser processado? Recebeu algo pela foto?
TD – Ninguém me ameaçou e eu não tenho nenhum medo de ser processado: sou o autor “intelectual” da farsa, mas não tenho responsabilidade nenhuma na publicação da foto por um periódico. Não me deram qualquer dinheiro pela foto.

NR – Crê na versão que o El País dá sobre toda essa história?
TD – Acho que a reconstrução que o jornal faz é justa e verdadeira. Mas eu, como “autor” da foto e quem iniciou sua circulação, posso dizer que o jornal foi claramente vítima de uma manobra política que não deve ser ignorada. Repito: creio que de dentro de Cuba alguém quis desacreditar a imprensa europeia e por isso inventou essa história de que a foto teria partido de uma enfermeira cubana com familiar na Espanha.

NR – Mudando um pouco de assunto. Gostaria de saber sobre as entrevistas que o senhor criou. Como as justifica? Nesses casos o senhor recebeu pelo trabalho?
TD – As entrevistas eram jogos literários. Eu recebi 20 euros por cada entrevista, e só isso. Era um jogo de suplantar a identidade própria da literatura do último século. Eu gostava muito de fazer e a imprensa italiana, onde normalmente ninguém checa qualquer informação, me ofereceu a possibilidade de fazê-lo.

NR – Depois das entrevistas falsas, o senhor partiu para as redes sociais. Criou perfis falsos e plantou notícias. Há alguma surpresa que está preparando?
TD – Continuo com o Twitter e tenho duas grandes surpresas: um texto literário que aparecera assinado por um grande escritor Prêmio Nobel e que é, na verdade, meu. Também sou o autor de vários erros no Wikipédia. Faço para demonstrar como falta credibilidade na internet. Eu aconselharia os jornalistas a ficarem atentos com textos e fotos que são apresentadas como exclusivas. O caso Chávez pode se repetir em outros países.

Finalizada a entrevista durante a semana passada, Debenedetti enviou-me uma nova mensagem, em que dizia:

Posso lhe passar outra informação sobre ideias minhas futuras. As contas do Twitter do Papa (especialmente as em inglês, espanhol e português) não são seguras: é muito fácil encontrar o password e entrar. Se o Vaticano não muda seus critérios, será possível para mim escrever tweets com o nome do Papa. A mesma fragilidade de senhas há no Brasil com duas personalidades. Um famosíssimo escritor e um político. Saudações, Tommaso Debenedetti

Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Realidade catastrófica

O mundo deveria acabar no último dia 21 de maio. Ao menos é no que apostavam os adeptos do grupo cristão evangélico estadunidense Family Radio, que comprou dezenas de espaços nas principais cidades dos Estados Unidos e Canadá para anunciar que o juízo final viria na data.

Com sede na Califórnia, o Family Radio lançou uma campanha mundial na qual advertia que “só os verdadeiros crentes se salvariam”. Em sítios na internet, assim como nas ruas, o grupo gastou uma fábula para estampar frases como: "o Dia do Juízo Final é o dia 21 de maio de 2011. A Bíblia garante".

A não ser que eu ainda não tenha percebido o fim e que o Nota de Rodapé tenha ultrapassado barreiras dimensionais, indo muito além do virtual, acredito que o planeta, assim como a vida que nele existe, resolveu contrariar a previsão.

Comunicação
e ironia


Dirão que estou sendo irônico em demasia. Talvez. Contudo, grandes ironias se dão no âmbito da comunicação. Exemplo clássico disso ocorreu a partir das 20h de 30 de outubro de 1938. Era o Dia das Bruxas nos Estados Unidos e Orson Welles transmitia uma dramatização de "A Guerra dos Mundos", de H.G. Wells, pela rádio CBS.

Por uma hora, músicas eram interrompidas com entradas de repórteres em crescente tom de desespero à medida que relatavam explosões em Marte e meteoritos caindo na Terra, o que, na sequência, seria descrito como uma invasão alienígena que aniquilaria o mundo. Pura travessura de Welles. Uma traquinagem midiática que, como experimento, testou a capacidade das pessoas em acreditar no que os veículos de comunicação transmitem.

Na semana do dia 21 de maio, a mídia circulou a informação do “fim do mundo”. Muitos crentes ficaram crédulos. Uns não trabalharam. Outros pensaram em suicídio. A maioria das pessoas não levou as notícias a sério. No geral, emissores e receptores compartilhavam mensagens em tom de zombaria. Desde a propaganda patrocinada pelo grupo evangélico até a divulgação por veículos jornalísticos, a coisa toda deu sinais de nova brincadeira.

Dura realidade

Após tanta invencionice, uma dose cavalar de realidade. Chega a ser um coice. Eis que se apresenta a falta de cuidado de boa parte da mídia ao trabalhar informações – não tomando por base o fim do mundo da Family Radio ou a destruição alienígena de Welles, mas os noticiosos cotidianos.

Bastou uma edição regular do Jornal Hoje, da Rede Globo, no dia 24 de maio, para esquecer o catastrofismo e a ficção. Reportagem sobre o crescimento do número de celulares no Brasil e a repórter larga para a entrevistada: “entre dois rapazes, se um tiver o aparelho da sua operadora e outro não, você liga pra quem?”. Resposta: “ligo pro que tiver o da minha operadora”.

Depois dessa, para que preocupação com o fim do mundo ou com invasões alienígenas? Hoje, o maior cuidado é tirar minhas filhas da sala quando começa um telejornal.

Moriti Neto é jornalista

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Do blogaço a barrigada

No post logo abaixo desse você tem disponível a entrevista que o criador do WikiLeaks, Julian Assange, concedeu aos internautas brasileiros e que foi publicada, com exclusividade, pela blogosfera no último dia 26 de janeiro. Um fato inédito, sem dúvida, iniciativa de Natalia Viana, que faz a mediação pelo Wikileaks no Brasil. Abaixo, uma análise valiosa, importante de se ler, sobre a repercussão da entrevista, praticamente ignorada pela imprensa clássica. Reproduzo na íntegra o texto da jornalista.

Como nascem as notícias

Natalia Viana

Julian Assange dar uma entrevista para internautas brasileiros é notícia. Seria notícia mesmo se a entrevista não fosse interessante, rica e divertida – afinal, muitas entrevistas suas a dezenas de veículos de imprensa do mundo têm sido reproduzidas pelos sites noticiosos brasileiros.
Mas a entrevista em questão foi interessante, revelou coisas sobre o entrevistado que ajudam a compor na cabeça das pessoas a imagem de quem é o fundador do WikiLeaks, afinal. E fala sobre o Brasil. Desde o lançamento dos documentos diplomáticos dos EUA, ele havia dado uma entrevista – uma apenas – a um grande jornal brasileiro. Nada mais.
A coisa ia ficar por aí. Mas Julian topou a ideia de falar direto com o público brasileiro, embora sob a minha mediação. A ideia lhe pareceu interessante. E, de fato, as perguntas diretas do público têm um gostinho mais despachado, mais direto. Ninguém, por exemplo, havia lhe perguntado por que o WikiLeaks trabalha com a grande imprensa. Para os próprios veículos estabelecidos, a resposta é óbvia. Mas nem sempre o é para o público em geral.
A entrevista de Assange foi publicada, simultaneamente, às 10h da manhã, por vinte e três blogs que toparam fazer parte da iniciativa, uma espécie de “blogaço”. A repercussão foi bastante boa, no twitter, no facebook e em diversos blogs. Já os sites de notícia online passaram boa parte do dia ignorando o assunto.
Havia, é claro, certa desconfiança com relação à entrevista – até mesmo dos internautas. Afinal, que critérios seriam usados? Quem garantia que não se tratava de um golpe de marketing do WikiLeaks? E quem é essa tal Natalia Viana para decidir que perguntas seriam feitas, e que a entrevista seria mesmo real? Recebi diversos comentários apontando para isso.
Bom, eu sou eu, jornalista independente que preza o interesse público acima de tudo. Isso vocês já sabem. Ainda está pouco claro na cabeça das pessoas que eu não sou do WikiLeaks, que não faço parte da organização e que mantenho minha posição independente embora esteja colaborando com eles na divulgação dos documentos do Cablegate.
A minha autoridade, nesse caso, é a mesma de um jornalista de uma empresa que é escalado para fazer uma entrevista. E a tarefa, selecionar os melhores tópicos, organizar a entrevista de maneira que fique interessante e “redonda”, editar, traduzir. No meu caso, contei com a ajuda de centenas de leitores deste e de outros blogs.
Qual a diferença? A diferença é que não tem veículo por trás. Nem por isso a entrevista, enquanto produto jornalístico, deixa de ser notícia.
Entretanto, assim ela foi considerada pelos veículos online. Não vejo nisso uma oposição ou má vontade; vejo uma excelente oportunidade de entender como funciona o processo de elaboração das notícias. Como elas nascem.
Ao longo do dia, o blog “Toda Mídia”, do Nelson de Sá, deu. Um jornal de Osasco deu. A Rede Brasil Atual deu. Veículos pequenos, que podem ser considerados “alternativos” – que não é demérito nenhum. A Carta Capital, é claro, deu.
No começo da noite, a agência espanhola “EFE” decidiu dar uma materinha. Citou “uma entrevista realizada por internautas e divulgada nesta quarta-feira pela revista ‘Carta Capital’”. E manchetou: “Assange diz que aceitaria asilo político no Brasil”.
Não demorou muito, e os sites começaram a reproduzir o texto. Com informações da EFE – escritas por um jornalista como eu, mas que trabalha dentro de uma redação – e o logo da EFE embaixo, endossando. O UOL Economia noticiou às 19h44, o Yahoo Notícias também; o Terra e a Época Negócios também. Virou notícia, a entrevista, somente à noite.
A verdade é que ainda predomina, mesmo nos veículos online, o padrão de buscar respaldo em outros veículos e em fontes oficiais. É compreensível, mas não é mais condizente com a maneira como as coisas acontecem. Há uma pluralidade de vozes e fontes que com a internet ganham visibilidade e respaldo público – como aliás, é o próprio caso do WikiLeaks. Não tem volta.
É um enorme desafio separar o joio do trigo. O que não quer dizer que uma boa apuração, critério jornalístico por excelência, não possa resolver esse conflito.
Mas no caso da entrevista de Assange, em vez de buscar apurar se era verdadeira ou não, os veículos online preferiram esperar para ver se alguém dava primeiro. Coube a uma agência espanhola, que acabou ‘furando’ os nossos veículos nacionais. Aliás, ‘furando’ não. No jargão jornalístico, uma informação falsa é chamada de “barriga”. E a matéria da EFE acabou levando todos os sites digitais para uma grande barrigada.
Julian Assange jamais disse que aceitaria asilo político no Brasil. Questionado, disse: “Eu ficaria, é claro, lisonjeado se o Brasil oferecesse ao meu pessoal e a mim asilo político. Nós temos grande apoio do público brasileiro”.
Típica resposta de Julian Assange.

Fonte: http://cartacapitalwikileaks.wordpress.com/

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Retrospectivas: escolha o texto piegas que será dispensado aos mineiros chilenos

Dezembro trará consigo as retrospectivas na televisão. Via de regra, textos dinâmicos recheados de lugares-comuns farão conexões improváveis entre os fatos, numa torrente de informações que destina 15 segundos a cada tema.
Os assuntos considerados importantes ganham 30 segundos. Como me cabe no Nota de Rodapé falar também de América Latina, seguramente o resgate dos mineiros chilenos figurará entre estes temas. Vale se antecipar, ludicamente, sobre qual a característica coletiva que será mais exaltada no texto piegas destinado a este reality show mais reality do que se poderia desejar. Quem quiser arriscar um palpite, que fique à vontade:

1. Solidariedade (“A solidariedade foi a chave para que os mineiros chilenos sobrevivessem às dificuldades 600 metros abaixo do solo”);
2. Coragem (“Os mineiros chilenos foram uma prova de que a coragem vence as barreiras mais difíceis, como a vida durante mais de um mês em um buraco 600 metros abaixo do solo”);
3. Superação (“A superação dos mineiros chilenos foi uma inspiração para o mundo todo, que acompanhou atônito, em silêncio, a um resgate dramático");
4. Persistência (“Durante mais de 30 dias, os mineiros chilenos deram uma aula de persistência, sobrevivendo com pouca água e pouca comida às terríveis dificuldades).

Por último, alguém se lembrará que, antes de heróis, os mineiros chilenos são vítimas de uma legislação trabalhista flexibilizada pelo ideário neoliberal? Terá, alguma das retrospectivas, a preocupação em mostrar o estado atual dos mineiros, alguns com problemas psicológicos decorrentes da vida no buraco e da superexposição a que foram submetidos após a saída?

João Peres é jornalista, colunista do NR e repórter da Rede Brasil Atual

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Reportagem 360º e as diferentes caras de um assunto

Felipe Lloreda é um jovem jornalista colombiano. Atendeu gentilmente o pedido de entrevista do Nota de Rodapé com a mensagem “Con mucho gusto”. Diretor de Novos Meios do El País da Colômbia, neste bate-papo exclusivo o assunto é reportagem 360º. “Reportagem o que?” você se pergunta. Uma explicação: “É a reportagem onde graficamente podem-se visualizar as diferentes caras de um assunto”, diz ele. Criado em 2009, o projeto completa neste janeiro seu primeiro ano de vida. As três reportagens disponíveis, a primeira sobre Cali, a ciudad que no duerme, a segunda sobre La hoja sagrada e a terceira sobre Cali una industria salsera são de arrepiar. Difícil explicar o que será o futuro do jornalismo com tanta inovação. Essa, no entanto, é merecedora do destaque tamanha a qualidade do que fazem usando áudio, vídeo, texto e muita criatividade e bom gosto. É a tecnologia a favor do bom jornalismo. Sem mais, é preciso ver, brincar e descobrir o que aqui no Brasil ainda não existe ou não se descobriu. O Nota de Rodapé apresenta, em certa medida e sem pretensões, esta novidade dos vizinhos periodistas da Colômbia. Por Ricardo Viel, Rodrigo Menitto e Thiago Domenici

NR - conceitualmente e praticamente o que é e como surgiu no cotidiano de vocês a reportagem 360º? Em que categoria de informação poderíamos enquadrar o que vocês fazem? Jornalismo interativo? Multimídia? Ou reportagem 360º é uma nova categoria?
É uma nova forma de informar, a partir de todos os ângulos. Surge da necessidade de provocar impacto e de nos ajustar aos usuários de hoje, àqueles que estão navegando em sites onde se obtêm uma experiência virtual. É jornalismo interativo. É multimídia. É um pouco de tudo. É também uma aposta para conseguir mais visitas ao jornal diário tradicional online. A categoria: inovação jornalística, aproveitando todas as ferramentas que existem na web, por isso chama-se 360. Porque graficamente podem-se visualizar as diferentes caras de um assunto.

NR - O conceito de reportagem jornalística tradicional pressupõe volume de informações, profundidade do tema, apuração, de preferência, no local, muitas entrevistas, em alguns casos vivência da pauta e fotografias relevantes e bem feitas. Como diretor de Novos Meios, como você define o tipo de reportagem proposto por vocês? No que ela se diferencia da reportagem jornalística tradicional além da utilização e interação de outras mídias?
O tipo de reportagem é documental aproveitando as ferramentas da web possíveis, onde a forma se converte em protagonista e o fundo é secundário. Por isso, quando pensamos na produção de um conteúdo, planejamos primeiro desde o ponto de vista visual, não necessariamente jornalístico. Devem-se imaginar tudo. É fazer documentários com interação e participação.

NR - Desde quando existe a reportagem 360º? Como começou, se basearam em algum projeto? Existem outros projetos como o de vocês no mundo que conheçam? Onde se inspiraram?
Nasceu como projeto em janeiro de 2009, pela necessidade de inovar e tem como modelo a Repórter Indigo, um web site, de estilo revista-virtual espetacular do México, que foca na investigação ou denúncias temáticas conjunturais primordialmente e apresentando-as em formatos digitais inovadores. No mundo existem os especiais que desenvolvem o (jornal) Clarín da Argentina, HBO, Olé, Mediastorm e New York Times.

NR - A qualidade estética é especialmente chamativa no trabalho. Usam muitos efeitos sonoros, muitos vídeos, áudios, fotografias. O texto, no trabalho da reportagem 360º, não me parece ser o eixo principal, mas parte do conjunto da obra. É isso mesmo? É o jornalismo que vocês acreditam para o futuro?
Para nós é uma forma de fazer jornalismo interativo e moderno. Não sei se é o futuro, mas está prendendo a atenção dos usuários, inovando, impactando e gerando muitas opiniões positivas.

NR - Pensando no longo prazo, onde vocês querem chegar com este trabalho? Torná-lo cotidiano e popular depende, sobretudo, de uma maior acessibilidade a internet nos termos da inclusão digital. O que pensam a respeito?
Queremos chegar a fazer uma reportagem quinzenal, porque transformar em algo cotidiano perde sua especialidade. Além disso, os navegantes demoram em consumir e apreciar a reportagem. Eles consomem por espaços, dias, semanas... No caso da Colômbia a acessibilidade da web já chegou a metade da população e cresce em grandes medidas. Então, cada dia que passa mais gente vai poder ver nosso especial.

NR - Acho que o equipamento que vocês usam não é algo muito caro que impeça que a grande maioria dos jornais da América do Sul também os tenha. Porque então não existem mais projetos como estes? Existem resistências dos jornalistas para fazer este tipo de reportagem? O público também apresentou resistência a esta linguagem?
Os jornalistas, engenheiros e designer deste projeto são independentes do impresso. É um time separado, mas que gradualmente tomaram empatia pelo 360º. O tradicionalismo foi um obstáculo que enfrentamos em algum momento (“estávamos loucos!”). No entanto tudo é um processo. Já a redação do jornal está muito mais envolvida em nosso projeto e temos um plano de integração com eles para fazer trabalhos em conjunto e aproveitar sinergias.

NR - Qual foi a resposta que vocês receberam do público, de outros jornalistas e dos anunciantes a respeito das reportagens? Financeiramente para vocês já é rentável? Tem um custo alto fazer este tipo de trabalho?
O público adora isso! Incremento de visitas, usuários e felicitações dos jornalistas da web, de outras mídias. Financeiramente ainda não é rentável. Só começaremos a fazer orçamentos de publicidade em 2010. Embora nunca tenha nascido para ser um produto comercial.

NR - Quanto tempo leva fazer uma reportagem assim, desde a ideia até sua publicação? Quantas pessoas estão envolvidas (trabalham unicamente na reportagem 360 ou também no jornal impresso ou online)?
Demoramos um mês para fazer tudo. A pré-produção, produção, edição e teste. No entanto, temos um plano de conteúdos criativos que não são conjunturais, que vamos trabalhando cada um independentemente. Contamos com um grupo de um engenheiro, três designers web, três jornalistas, um fotógrafo, um editor de multimídia e eu, o diretor da área. Este grupo trabalha exclusivamente no 360º. Mas em 2010 teremos um grupo inteiro de novas mídias no El País S.A. gerando reportagens. Somos 19 no total.

NR - O que é preciso para fazer estas reportagens? É preciso que os repórteres sofram uma grande mudança para comunicar-se através desta linguagem? O que é preciso para um repórter trabalhar neste formato?
São repórteres web que pensam diferente, ou seja, em outro formato. Não levam gravadores e sim câmaras digitais e vídeo câmara. E são todos guiados pelo editor multimídia, quem conceitualiza quase todo o site com seus designers. Os jornalistas tradicionais normalmente não trabalham neste tipo de produto jornalístico. No entanto, no processo de integração estamos treinando vários. Hoje temos dois jornalistas que saíram do impresso.

NR - Os computadores com capacidade de processar vídeos estão cada vez mais acessíveis. Este tipo de linguagem se tornará mais comum?
A maioria é (o programa) Flash. É muito acessível.

NR - Que número de visitas vocês tem e como navega o público pelo site?
O público experimenta o site navegando. Não existe uma ordem, é de acordo com cada navegante e sua forma de pensar. As visitas variam entre 250 mil usuários até 500 mil, dependendo da temática.

NR - Já cogitaram fazer versões traduzidas ou legendadas do trabalho de vocês para ganhar novos públicos? Inglês? Português etc? Ou mesmo espalhar o conceito para outros países?
Não. Mas você acabou de me dar uma excelente ideia. Muito obrigado!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Democracia em perigo?

O lamentável episódio envolvendo o cidadão e cientista político Cesar Benjamim e o jornal Folha de S. Paulo, além de ter uma repercussão exagerada nos principais blogues jornalísticos brasileiros, revela – quanto a mim - parte dos caminhos tortuosos pelos quais vai avançando a incipiente democracia brasileira.
Analisemos as premissas acima. Por que uma repercussão exagerada? Porque os blogues caíram na armadilha da FSP e acabaram por transformar o artigo de um conhecido oportunista político num documento de contestação ao governo do presidente Lula, privilegiando o acusador sem ouvir o acusado. Oportunista político que se coloca, antes da acusação sem provas, como mártir e herói combatente da ditadura civil e militar que infelicitou o país entre os anos de 1964 e 1984. Ninguém, em princípio, é mártir ou herói por lutar contra um regime de exceção. Trata-se de uma opção política individual que, embasada numa consciência de viés ideológico, transforma-se em luta coletiva para mudar a sociedade, com a perspectiva de melhorá-la, torná-la mais justa, equânime, solidária. Muitos fizeram conscientemente essa opção nos anos 60 e 70 e, no Brasil, centenas de cidadãos morreram por suas ideias. A esses, sim, poderíamos chamar de mártires. Portanto, o passado de lutas contra a ditadura não oferece a ninguém, em princípio, base moral para – nos dias atuais – se arvorar em dono da verdade. Muito menos para acusações que não se podem comprovar.
E por que caminhos tortuosos? Porque passada a tempestade da repressão e da censura, das prisões e das torturas e desaparecimentos, o país imaginou que voltaria ao leito das águas calmas da democracia. Isto é verdade até certo ponto, pois cabe perguntar: como funciona a democracia brasileira? Muitos entendem ser a democracia burguesa o melhor dos regimes políticos. Prova-o a velha e surrada frase de Winston Churchill, usada logo após a Segunda Guerra Mundial, e volta e meia citada: “A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras já experimentadas”. Churchill talvez tenha se esquecido de que a História Política é uma ciência dinâmica e cria mecanismos de transformação conforme a humanidade avança.
Afinal, qual é a compreensão que tem o brasileiro do que seja a democracia? O que se defende por aí no varejo é que a democracia é “o governo do povo, pelo povo e para o povo”, na qual se pratica a “liberdade de imprensa”, “onde é livre a manifestação de opinião e de religião”, “onde o cidadão exerce o seu direito de ir e vir, sem cerceamento, o seu direito de votar”, enfim, esse conjunto de frases que se tornam vazias fora do contexto social em que se inserem e que servem para sustentar a democracia representativa burguesa, mas na verdade podendo se transformar num conjunto de lugares comuns mais condizentes e apropriados com a prática política daquilo que cada um de nós pensa num determinado momento histórico.
Em outras palavras: a democracia representativa brasileira, essa que nos é dada viver nesse início de século 21, é a expressão máxima de representação e dos direitos do poder econômico no país, da liberdade de ir e vir do capital, de alguma cartelização e da livre circulação de mercadorias. E também da regulamentação rígida do trabalho e dos deveres dos trabalhadores.
Fazendeiros, ruralistas, latifundiários, banqueiros, agiotas, doleiros, grandes e médios empresários, comerciantes importadores e exportadores, grandes cadeias de supermercados e lojas de varejo, mineradores, fabricantes de cimento, aço, ferro, papel, donos de grandes jornais, revistas, canais de televisão, rádios, donos de imobiliárias e revendas de automóveis, as grandes lojas de luxo, os cartéis da cerveja e dos refrigerantes, multinacionais do petróleo, as grandes agências de publicidade, vendedores de planos de saúde, os fabricantes de cigarros e os grandes traficantes de drogas, toda essa gente é grande defensora da democracia representativa burguesa, ou seja, seus representantes, através de lobbies e eleições apoiadas em campanhas milionárias, têm parte substancial dos assentos no Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas estaduais e nas câmaras de vereadores por todo o país. São eleitos governadores e prefeitos. Pois é o poder econômico, com minoritárias e muito dignas e honrosas exceções, que os elegem. Enfim, são os que fazem as leis, a Constituição e a própria democracia. A democracia deles.

Enquanto isso...
Do outro lado da balança, o povo, a grande maioria dos cidadãos. Os bancários, os comerciários, profissionais liberais, os metalúrgicos, os têxteis, as empregadas domésticas, os motoristas e cobradores de ônibus, os metroviários, os varredores de ruas, os empregados de bares, os lixeiros, os trabalhadores do campo, com ou sem terras, os taxistas, os motoboys, os garçons, as diaristas, os ambulantes, os artistas, os professores primários e universitários, os trabalhadores em construção, os mecânicos, os pipoqueiros, os frentistas de postos, os carteiros, os boias frias, os catadores de papel, os porteiros de edifícios, os bilheteiros, as manicures, os borracheiros, os enfermeiros, os jornaleiros, os funcionários públicos civis e militares. Enfim, toda essa chusma e mais alguma que cumpre e sofre as leis e as regras da democracia representativa.
Pessoas mais bem preparadas que eu chamam de luta de classes. E onde há desigualdade social e injustiça não floresce a democracia, mesmo que representativa. Onde só um dos lados tem voz, não há justiça e onde não há justiça não existe democracia.
Como também não há democracia quando se quer transformar os direitos que ela contempla em direitos da minoria e os deveres em deveres da maioria, quando se quer manipular e estratificar consciências, induzindo os cidadãos a pensar que só existe um tipo de democracia, aquela em que eu acredito. Aquela em que eu voto, mesmo que esse voto nem sempre seja respeitado.
Muitas dos artigos e das opiniões que li sobre o episódio Cesar Benjamim, deixaram-me com a impressão de que a nossa democracia ainda é frágil e corre perigo. E que a temporada de psicanálise sobre a luta contra a ditadura está aberta. Quem foi mais revolucionário? Quem sofreu mais nas prisões? Quem foi mais torturado? Ter combatido a ditadura capacita-me moralmente a fazer hoje qualquer tipo de crítica aos que, neste momento, governam o país? Em muitos casos sim, quando a crítica tem a preocupação do bem comum, dos benefícios para a maioria, da continuada luta pela correção das mazelas sociais que ainda são significativas no Brasil. Mas não como no caso do cidadão Cesar Benjamim que, covardemente usou as páginas de um jornal para lançar suspeitas sobre o passado de um Presidente da República, numa inegável atitude eleitoreira, para dizer o menos.
Repito: o episódio é emblemático da atual democracia brasileira, democracia que se quer para muitos, a de mão única, sem direito à defesa e ao contraditório, a da dúvida, da suspeita, da retaliação, da prática e do elogio à mentira, a democracia do “você é culpado até prova em contrário”. Sem saber, ou até mesmo sem o querer, podemos estar entrando na ante-sala do fascismo, onde a delação, em si só já condenável, não precisa de provas. Basta que se lancem as dúvidas.

Izaías Almada é autor, entre outros, do livro VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS e colunista do Nota de Rodapé.

domingo, 29 de novembro de 2009

César Benjamin, Lula e a Folha de S. Paulo

A grave acusação de César Benjamin ao presidente Lula, inserida no artigo “Os filhos do Brasil”, publicado na “Folha de S. Paulo” do dia 27, continua repercutindo, como era de se esperar. Existem apenas duas alternativas e ambas são muito graves: ou o então sindicalista Lula tentou estuprar um jovem companheiro de cela, ou César Benjamin inventou uma calúnia infame e imperdoável. Ou é nojento o artigo, ou é nojento o episódio, para repetir qualificativo que vem sendo empregado por críticos de César Benjamin. Se o episódio relatado carece de qualquer veracidade, o presidente Lula tem o dever de processar o caluniador e obrigá-lo a retratar-se. Se César Benjamin tem provas adicionais da denúncia que fez, tem igualmente o dever de apresentá-las. Os leitores não podem ser induzidos a escolher uma das duas alternativas arbitrariamente, por afinidade política e pessoal com o denunciado ou com o denunciante. Nem uma controvérsia político-moral de tamanha seriedade pode ser considerada irrelevante e varrida para debaixo do tapete do esquecimento.
A “Folha de S. Paulo” também precisa esclarecer a decisão de publicar o artigo: apurou com o autor se ele poderia sustentar a acusação? Como escreve com bom senso um dos leitores da “Folha” no “Painel do Leitor”: “Publicar um artigo como o de César Benjamin impõe uma obrigação a um jornal como a Folha: a de sair a campo para apurar os fatos. O articulista nomeou no mínimo quatro pessoas facilmente localizáveis e entrevistáveis. E não deve ser difícil levantar o registro de todas as prisões de Lula e, a partir deles, tentar identificar quem seria o ‘menino do MEP’ que teria dividido a cela com o hoje presidente do país. O fato é que um artigo como o de César Benjamin não pode ficar restrito à rubrica de ‘opinião’.”
Recordo, enfim, mais uma vez, que o texto de César Benjamin não se limita à referência estarrecedora ao comportamento do então sindicalista Lula. Reconstitui também sua prisão ilegal aos 17 anos, o tratamento ignominioso a que foi submetido pelos verdugos da ditadura e o apoio digno e solidário que recebeu de presos comuns com os quais dividiu celas e cadeias. Se a trajetória passada do presidente Lula merece respeito, também merece respeito a trajetória passada de César Benjamin, independentemente das posições teóricas e políticas atuais de ambos, com as quais podemos concordar ou não.

Duarte Pacheco Pereira é jornalista, foi vice-presidente da UNE em 1964 e dirigente nacional da Ação Popular (AP) de 1965 a 1973, obrigado a viver e atuar clandestinamente durante 11 anos. Autorizou este blogue Nota de Rodapé a publicar seu ponto de vista a respeito da acusação de César Benjamin contra o presidente da República em artigo na Folha de S. Paulo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Direito à comunicação

O coletivo Intervozes produziu um vídeo bem interessante sobre a concentração dos meios de comunicação existentes no país. Assista e espalhe. No site deles aqui.

domingo, 8 de novembro de 2009

As laranjas podres e o plágio do jornalismo

O jornalismo brasileiro termina mais uma semana exemplar para a reflexão sobre aquilo que não se deve fazer. Como o jogo só acaba quando termina, correm até agora dois casos notórios de um tempo de pouca reflexão, quase nenhuma ação e muita cópia.
O primeiro caso da semana vem dos jornalões, que cometeram plágio em uma matéria sobre... plágio. Não poderia ter sido mais irônico. Diz a boa prática do jornalismo que se deve “dar o crédito” a quem tenha dado em primeira mão - o chamado furo - uma informação, relevante ou que se julgue relevante.
A Associação dos Docentes da USP (Adusp) manifestou em seu Informativo Adusp 296, páginas 3 e 4, a acusação de plágio em um artigo envolvendo a reitora da universidade, Suely Vilela. Diga-se de passagem que, apesar dos pesares, a principal acusação que pode recair sobre a reitora é de descuido. Ela co-assina um artigo feito por uma aluna de doutorado. Incentivada pela produtivismo que ela mesma tratou de dar corda, o mais provável é que a reitora tenha assinado o artigo para dar conta das elevadas metas anuais que devem ser cumpridas por docentes de universidades públicas – qualquer semelhança com banco ou telemarketing não é mera coincidência.
Eis que, na quarta-feira (4), Folha, Estado e O Globo encarregaram-se de reproduzir a denúncia. Nenhum deles tratou de dar o devido crédito à Adusp que, antes de mais nada, fez bom trabalho jornalístico: buscou ouvir todos os envolvidos e conseguiu apurar que o caso é investigado internamente na USP. Uma reclamação sobre o plágio foi encaminhada ao ombudsman da Folha que nada escreveu neste domingo (8). Se alguém quiser saber mais, deve ir ao site da Adusp, porque não serei eu o próximo a plagiar.

Cutrale devolve terras griladas
Num gesto único na história brasileira, a Cutrale vai devolver as terras públicas que grilou para plantar laranja. Segundo uma pessoa que ocupa cargo decisivo, "mais importante que sete mil pés de laranja derrubados, são as cem mil famílias de brasileiros que estão na beira das estradas". O único condicionante da empresa é que as terras sejam destinadas à reforma agrária, dando preferência às famílias que ocuparam o lugar dias atrás.

Esse é o primeiro parágrafo da história contada por Roberto Malvezzi no Correio da Cidadania em 29 de outubro. Achou estranho? Teve gente que não. A notícia rapidamente foi reproduzida em páginas e blogues de toda a internet. Caiu na rede é peixe, companheiro, e há muito pescador precisando de caça. Em um dos blogues, O Correio da Elite, o autor até tomou o cuidado de advertir com um sincero “Uai, será verdade?”, mas não tomou o cuidado básico de não publicar.
Coube a Malvezzi, dias depois, esclarecer que se tratava de ironia seu texto: “Quem já viu grileiro devolver terras, respeitar sem terra, reconhecer os problemas históricos dos índios etc.? Então, afirmo que o texto "Cutrale devolve terras griladas" é uma ficção e não podia ser outra coisa, tamanho o absurdo do conteúdo”. Da próxima vez, talvez seja melhor usar um (I!) de ironia para afastar do texto os inconsequentes.
Como bem lembra o amigo Thiago Domenici, criador deste blogue, perdeu-se a função mais básica do jornalismo, que é a apuração. Os erros desta semana revelam um jornalismo torpemente afoito em publicar tudo que lhe apareça. Não se nota que, em meio a tanto conteúdo despejado sobre a cabeça, o leitor nada assimila, tudo se torna etéreo e inútil. A pressa, inimiga da perfeição, é chegada da inconseqüência.
É o que permite que a GloboNews derrube um avião da Pantanal sobre um prédio em São Paulo, seja seguida por todas as outras rádios, TVs e sites, e depois diga que se tratou tão somente de uma loja de colchões em chamas e que ninguém saiu nem com arranhões. Bem, quase ninguém: imagine quem tinha parentes voando em aeronave da Pantanal naquele momento.
A discussão poderia ser estendida por muitos outros parágrafos, mas devo parar por aqui sob risco de que ninguém chegue ao fim da leitura. Só gostaria de lembrar que parece ter passado em branco a visita de Gay Talese ao país. Jornalista dos melhores, texto refinado, Talese cisma em ter calma para escrever e não consegue entender a cabeça de editores afoitos por dar antes de todos uma informação que em menos de 15 minutos estará diluída e perdida. Não sei onde pode parar essa teimosia (I!).

João Peres é jornalista e mantém neste blogue Rodapé a coluna Extremo Ocidente.

sábado, 31 de outubro de 2009

Manchetes Rejeitadas # 12

Do Tietê Campos:

Quer saber como pensa a Família Marinho?
Leia ou ouça Arnaldo Jabor.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mundão nosso de cada dia # 3

A capa do jornal El Espectador de Bogotá, Colômbia, é muito bonita graficamente com bela fotografia para retratar as chuvas que atingem a região. Em contrapartida, alguns jornais nacionais e as violências pelo país. O "A Notícia", de Vitória, ES, destaca a seleção para vendedor de drogas, que inclui entrevista de emprego e experiência. O "Correio da Bahia" destaca que deu a louca na polícia. E o "Super Notícia" de Belo Horizonte destaca a tolerância zero.




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Izaías Almada # 8


BRASIL: ANTES E DEPOIS DE LULA


Já não há como tapar o sol com a peneira. Tanto para os que são adeptos e correligionários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tanto para os que não o são (principalmente esses), o Brasil é um novo país interna e externamente.
Criticado pela esquerda mais radical (ou mesmo conservadora) e estigmatizado e enxovalhado pela oligarquia reacionária do país através de seus jornais, revistas e canais de televisão, em campanhas mentirosas e difamatórias sempre a serviço de interesses particulares, quando não impatrióticos, o presidente Lula vai chegando ao final dos seus oito anos de governo nadando de braçada.
Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, nos anos 50 do século 20, bem como o curto governo de João Goulart, no início dos anos 60, são períodos que se destacaram na mesma esperança e na mesma perspectiva do país poder construir o seu futuro, mas – tudo indica – é só agora nessa alvorada do século 21 que alguns vetores econômicos, políticos, sociais e ambientais se cruzaram e parecem proporcionar a um até então desconhecido e humilde operário nordestino a oportunidade de fazer do Brasil uma nação que começa a se respeitar (apesar dos descrentes, dos invejosos e das viúvas do neoliberalismo) e a ser respeitado pela comunidade internacional.
Nunca é demais lembrar que Getúlio se matou, João Goulart foi deposto por um golpe civil/militar com o apoio dos Estados Unidos da América e que Juscelino chegou ao final do seu mandato enfrentando tentativas de sedições militares e golpes de estado (Aragarças e Jacareacanga). Lula, forjado nas lutas sindicais, aprendeu – com certeza – a enfrentar patrões, geralmente testas de ferro das multinacionais e, ultimamente, as hienas da imprensa venal e mal intencionada.
Está certo que Lula nunca se disse socialista, longe disso. Foi um dos primeiros a saudar Lech Walesa, o líder polonês pró-ocidente, ainda no tempo da guerra fria. Selou um compromisso de governabilidade com a burguesia brasileira no início do seu governo, mas ainda assim tripula a nau brasileira com muita competência, não deixando nenhuma saudade dos anos FHC. Muito pelo contrário.
Com uma popularidade que ultrapassa os 60% de aceitação do seu governo, o presidente Lula tem se dedicado a aproximar o Brasil de seus vizinhos e irmãos sul-americanos, onde o Paraguai, Argentina, Bolívia, Cuba e a Venezuela se destacam nos acordos comerciais e perfila-se com independência e discernimento ao lado de nações emergentes como a China e a Índia, em busca de um mundo mais diversificado e menos concentrador. Aposta na riqueza do pré-sal como incentivo à melhor distribuição de renda dos brasileiros, em investimentos pesados nas áreas da educação, saúde, pesquisa científica e tecnológica, criando para o país uma infraestrutura capaz não só de elevar o patamar da nossa produtividade industrial e agropecuária, mas de nos tornar independentes e soberanos. E isso já não é pouco para quem governa um país como o Brasil no mundo contemporâneo.
Mas o Brasil mais conservador e atrasado não vê as coisas desta maneira, preferindo fazer tempestades em copo d’água como CPI’s impatrióticas, invenções de crises uma atrás da outra, factóides midiáticos de inegável aventureirismo eleitoral e irresponsabilidade com o país, onde o que há de pior e mais retrógrado é jogado sobre a mesa da ainda frágil (embora também consistente) democracia brasileira.
O teste de 2010 se aproxima. As armadilhas para o Brasil do futuro, de nossos filhos e netos, estão sendo armadas pelo Brasil mais atrasado, pelo Brasil que perdeu a noção de patriotismo, decência, soberania, nas redações de nossos dinossáuricos jornais, revistas e televisões e alguns recantos de São Paulo, Rio de Janeiro e alguns confins de Pará e Mato Grosso. O jogo, pelo que se viu até agora, será pesado, pois quando não se tem ideias para o debate sobre os caminhos mais progressistas, equânimes e solidários para a grande maioria do povo brasileiro, corremos o risco de ter que enfrentar o desespero, o despreparo, a mentira e a selvageria de grupos e pessoas que não perceberam que o país mudou. O Brasil AL e DL.
Uma eventual vitória PSDB/DEM/PPS em 2010 fará o Brasil retroceder na história. Quem viver, verá!

Izaías Almada, escritor, é autor – entre outros – do livro TEATRO DE ARENA: UMA ESTÉTICA DE RESISTÊNCIA, Editora Boitempo.

sábado, 8 de agosto de 2009

Izaías Almada # 4


Pensando Alto


O mundo segue com seus inúmeros e cada vez maiores problemas, entre eles a provável escassez de água potável, a ainda necessária obtenção e distribuição de petróleo (energia essencial pelos muitos e próximos anos) e, em consequência disto – além da destruição perversa do meio ambiente para satisfazer a ganância capitalista – a temerosa manutenção de vários focos de disputa pelo domínio e poder político/econômico: Afeganistão, Iraque, Palestina, Sudão, Colômbia, Honduras para ficarmos em alguns exemplos.
Por aqui, país do futebol, dos BBB’s televisivos, da corrupção político/empresarial e outras mais modestas do dia a dia, “divertimo-nos”, manipulados por uma mídia irresponsável e defensora de interesses, na maioria das vezes antipopulares e antinacionais, com as estripulias de jogadores e técnicos de futebol ou artistas e “celebridades” e seus astronômicos salários (a projeção do efêmero) ou com a possibilidade de aumentar o número de mortos com a gripe suína (a expectativa mediática do terror) ou ainda com a crise do senado (a tese do somos “quase” todos corruptos).
Por vezes sobra a impressão de que o Brasil, vivendo a crise da adolescência econômica (passando de país monocultor a país agroindustrial), sustentada em uma subdemocracia (onde todo mundo grita, mas ninguém tem razão), cujos três poderes constitucionais (Executivo, Legislativo e Judiciário) não passam de simulacros do chamado governo do povo, para o povo e pelo povo, sobra a impressão, repetimos, de que o Brasil vive num mundo à parte. Ou seja, o que se passa no resto do mundo não nos interessa, tanto se nos dá.
O único país que conheci em minha vida (e já conheci muitos) que sempre viveu uma espécie de autismo geopolítico e ideológico, com profundo desprezo por outras culturas que não seja a sua, chama-se Estados Unidos da América. Cultura do velho oeste baseada na invasão de territórios e grandes matanças de índios, onde os generais Colt e Winchester dão as ordens e fazem a alegria de milhares de acionistas. Único país no mundo, aliás, que até hoje usou a bomba atômica contra outro povo. Em nome da paz...
No momento em que a América Latina ou pelo menos vários de seus países se empenha para a conquista da independência e soberania de seus povos, com a defesa de suas riquezas naturais, é natural o desejo de evoluir-se para o estabelecimento de uma democracia participativa, onde o valor da consulta popular e o exercício do voto não se baseiam somente no poder econômico e na corrupção daí advinda.
Quando povos despertam em defesa de suas culturas, em defesa de um modelo econômico alternativo ao neoliberalismo, que tanto dano provocou às nações menos desenvolvidas, isso põe em alerta as mentes mais conservadoras e reacionárias do mundo. Quando se convocam Assembléias Constituintes para ajustarem as constituições às necessidades dos novos tempos, criando a possibilidade de que as leis de uma Carta Magna não atendam apenas, na prática, aos interesses de oligarquias nacionais ou regionais, isso acaba por estabelecer uma nova linha divisória naquilo que há mais de cento e cinqüenta anos, pelo menos, se conhece como luta de classes.
O Brasil tem procurado marcar presença nessa nova história latino americana com o comportamento do realismo pragmático, o que – se em muitos casos é profícuo – em outros pode se transformar em covarde egoísmo ou medo de enfrentar os desafios com maior coragem e discernimento. Batemos uma no cravo e outra na ferradura, consoante os interesses de momento. Em princípio uma política que se entende e que até proporciona atitudes coerentes, como a revisão do acordo de Itaipu com o vizinho Paraguai, por exemplo, reparando-se uma injustiça com o país irmão, vítima de um contrato selvagem de exploração de suas águas.
Outras situações, no entanto, exigem mais presença e mais firmeza do nosso país no cenário sul americano. Quando a Colômbia, ampliando os limites de sua frágil e discutível soberania, permite a instalação de mais bases norte-americanas dentro de seu território, numa evidente manobra de desestabilização da região noroeste da América do Sul e do Caribe, cabe indagar qual a posição do governo brasileiro a respeito, quando a Amazônia – uma das regiões mais ricas do mundo – fica a alguns poucos quilômetros dessas bases militares de um país estrangeiro dentro de outro país estrangeiro e limítrofe.
Alguém acredita, sinceramente, que tais bases militares são para ajudar a combater o narcotráfico? Ou para protegê-lo? Relatórios recentes da ONU indicam que o maior produtor mundial de cocaína ainda é a Colômbia e que o maior consumidor da droga são os Estados Unidos da América. Como é que fica? O país de Barack Obama já não engana ninguém há muito tempo com essa sua baboseira de defender a democracia pelo mundo. Qual democracia? Existem tantas, para tantos usos. A italiana, por exemplo, permite que o primeiro ministro Berlusconi se divirta com prostitutas e garotas menores de idade. A francesa permite a discriminação contra cidadãos estrangeiros que trabalham há anos no país. A norte-americana incorporou a tortura como forma de interrogatório. A brasileira permite que um banqueiro, Daniel Dantas, condenado pela justiça, continue lavando dinheiro e comprando jornalistas e juízes para se manter em liberdade. A chilena permite a discriminação contra grupos indígenas. A hondurenha foi substituída por um golpe de estado.
Quem nos defenderá dessas democracias?

Izaías Almada é autor entre outros do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Editora Boitempo) e colunista do Blog Rodapé.
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