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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 13 de março de 2014

Ferréz: "o meu olhar é de guerra"

UMA CONVERSA SEM FRESCURA E EXPLOSIVA! 



Pouco antes de o país explodir com as jornadas de junho do ano passado, o Nota de Rodapé, em parceria com a Bonita Produções, colocou em prática projeto concebido meses antes: um programa de entrevistas para a internet - e, quem sabe, para a televisão - no qual a ideia central é que não exista assunto proibido com o entrevistado.

Chamamos a empreitada de NR conversa. A ideia aqui é levantar temas de relevância nacional, tabus ou não, que contribuam para o debate social e político mais amplo, que fuja, eis o grande desafio, da mesmice dos programas do gênero que estão disponíveis ao público.

Caricatura de Carvall Estúdio Saci 
Para a primeira conversa, convidamos o romancista, cronista e contista Reginaldo Ferreira da Silva, conhecido pela alcunha de Ferréz. O autor de Capão Pecado, Manual Prático do Ódio e Deus foi Almoçar é também o criador da 1daSul, que, além de ser uma marca de roupas e acessórios criada para os moradores da periferia, promove eventos e ações culturais na região do Capão Redondo, bairro onde mora, com forte influência do movimento hip-hop.

Durante o NR conversa, no Bar Tubaína, em São Paulo, numa tarde fria e chuvosa, Ferréz opinou com propriedade sobre temas como a polícia militar, aborto, maconha, maioridade penal, literatura, partidos políticos, corrupção e educação, sempre com a verve contundente de quem respira o dia a dia da periferia paulistana. Logo de início, ele provoca: “Costumo dizer que o meu olhar é de guerra. Hoje em dia, nos vivemos numa sociedade que ninguém quer se apegar a nada”. “Quem tem ponto de vista machuca, quem não tem, não causa nada. Tem coisas que você têm que tocar mesmo no assunto, porque o país virou um groselha, mano”. Uma entrevista sem frescura e explosiva. Esperamos que você goste e compartilhe. Mais do que isso: que sirva de reflexão. Aproveite!

Os jornalistas entrevistadores do programa são: Thiago Domenici, coordenador e editor do Nota de Rodapé, também da revista Retrato do Brasil; Moriti Neto, colaborador do NR e um dos editores da Rede Brasil Atual, e Marina Amaral, sócia-diretora da Pública, a primeira agência de jornalismo investigativo do país.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Cada um que cuide da sua bituca


por Thiago Domenici*

O dono da banca de jornal localizada na esquina da rua Ministro Godoy com a Turiassú, em Perdizes, mantém o ritual diário da antiga dona. Todos os dias ele disponibiliza um cinzeirão para os fumantes de plantão.

“Aqui jazem bitucas”, como se vê na imagem acima. Eis uma irônia e também uma dura realidade. Diz o jornaleiro que muitas delas, de fato, jazem ali no cinzeirão ao fim do dia. É “uma atração” dos passantes, ele conta. “Fazem fotos e dizem que é legal”. Diariamente, sem folga, ele tem de limpar a área para novas bitucas serem depositadas. A guimba é o fim do cigarro fumado. É um resíduo diminuto, formado de papel, filtro e tabaco e que pesa, em media, meio grama. Meio grama e muitas substâncias tóxicas. Meio grama que aos montes pesam toneladas e poluem a cidade.

Os filtros dos cigarros são tão resistentes à biodegradação que ficam no solo e na água por mais de cinco anos. Esses restos são responsáveis por 25% de todos os resíduos encontrados em limpezas de praias pelo mundo. Aqui em São Paulo são algumas toneladas diárias. Todos os dias vejo centenas delas no chão ou sendo arremessadas a ele. Um péssimo hábito!

Um estudo de anos atrás apontou que duas guimbas de cigarro geram a mesma quantidade de poluição produzida por um litro de esgoto. Outro problema são os acidentes com fogo, por exemplo, queimadas, causadas, em sua maioria, pelo arremesso de bitucas dos veículos em movimento. O problema é tão constante que no ano passado, 90% das multas no Rio de Janeiro por jogar lixo no chão se referiam ao cigarro. No Paraná também já existe multa para os deseducados na bagana.

Um levantamento recente indicou que são cerca de 20 milhões de fumantes no País, além de 70 milhões de fumantes passivos (meu caso). O mesmo levantamento diz que nos últimos seis anos o número de fumantes no país diminuiu 20%. É uma ótima notícia a diminuição de fumantes. Péssimo é perceber que isso não se aplica a quantidade de chicas jogadas na rua.

Penso que além de multa a quem joga o troço no chão, uma campanha bem-humorada e educativa ao estilo “Aqui jazem bitucas” poderia adiantar alguma coisa. Mas a prerrogativa não é só brasileira. Em Paris, segundo cálculos, são jogadas 315 toneladas de pontas de cigarro nas calçadas anualmente. A lei francesa prevê multa de 35 euros – algo como 112 reais. Lá, a meta para esse ano é chegar a 30 mil cinzeiros espalhados pela cidade.

Fuma quem quer, é verdade, mas cada um que cuide da sua bagana, né?

* * * * * * * 

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sem graça


por Ricardo Sangiovanni*

Sentei já todo gaiato agora há pouco na frente do computador decidido a contar-lhes hoje a história da diarista da casa de minha sogra, que botou o marido no jeito na base do cipó quando o flagrou dando uns amassos numa sirigaita desenxabida detrás da igreja.

Mas acontece que vou ter que lhes pedir desculpas, não vai dar: caí na besteira de dar uma folheada nas internets antes de começar o relato, e li uma notícia que me levou a graça embora.

O título era “Ensino da cultura negra ainda sofre resistência nas escolas”, na BBC Brasil. Falava em geral dos problemas da implementação do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, mesmo tendo-se passado já dez anos da lei que determina a obrigatoriedade do dito cujo.

A matéria está bacana, honesta, normal. Tem, ademais, minha adesão ideológica: hoje mesmo comentava com o pessoal que, se alguém diz “macarronada”, logo pensamos na pequena Itália; falou “bacalhau”, acionamos o minúsculo Portugal; mas, se alguém diz “acarajé”, contentamo-nos com a ideia genérica e imprecisa de “África” – como se África fosse uma coisinha miúda, um vilarejo na beira da estrada, a primeira quebrada à direita depois que passa Feira de Santana.

Enfim: o que me roubou o bom humor foi o comentário de um cidadão que se identificou como “Diego”, “filho de negro com branco”, no pé da reportagem. Transcrevo: “Meu filho tem que aprender matemática, literatura portuguesa. Não é porque o Brasil teve um período escravagista que ele tem de estudar sobre a cultura “afro-brasileira”. Perda de tempo estudar isso, o ideal é substituir essa parte para aprender outro idioma. Pois assim estaria mais preparado para encarar a vida no resto do mundo. De preferência o idioma inglês, mais falado no mundo todo. Empreendedorismo, biologia na prática etc… Estudar cultura afro-brasileira é perda de tempo e não prepara as crianças para a vida, para esse mundo do cão.”

Diego, meu camarada: aí você pegou pesado. Talvez tenha sido só uma fala infeliz essa sua, mas arrisco dizer que gente que pensa assim como você pensou nessa fala reproduz um esquemão colonial secular, que é justamente o que mais precisamos superar (muito embora com toda consciência): de um lado, um mundo globalizado, moderno, competitivo, que requer conhecimentos funcionais que nos “preparem para encarar a vida no resto do mundo”; de outro, um mundo tradicional, ancestral, “africano”, que é até curioso e tal, mas que a rigor não serve para nada, afinal essa história de escravidão já passou faz é tempo, vamos deixar isso para lá, para depois, para nunca, no fundo do baú.

Não sei, Diego, em que parte de “ensino de cultura afro-brasileira” pessoas que pensam como você nessa fala lêem “em detrimento do ensino de tudo o mais necessário para se viver nesse mundo cão”. De contrabando nesse seu argumento, parece haver uma ideia atravessada de que aprender sobre a África significa praticamente arriscar-se a uma espécie de “reescravização”. E mais: que basta ir branqueando, quando não a pele, o jeito de ser, de pensar, de viver, no passar das gerações, para superar a tragédia que foi esse “um período escravagista” que durou mais de 300 anos nesse Brasil.

Qual nada, Diego: precisamos saber mais – quando digo mais, é ao nível corrente da conversa mundana, no nosso dia-a-dia de arraia miúda – sobre a África sim, porque precisamos entender um tiquinho melhor e respeitar mais trejeitos, costumes, heranças africanas que estão no nosso dia-a-dia, mas que ignoramos ou tomamos por simples e “genuinamente brasileiros”.

Precisamos saber da África, Diego, porque em cada pedaço dela existem povos e culturas diferentes, tantas quantas – ou provavelmente mais que – as que existem nos retalhinhos da miuditica Europa. Será que ignorá-los nos ajuda a aprender melhor o inglês?

Precisamos saber da África, meu bom Diego, porque o cabelo encaracolado do garoto entrevistado nessa matéria que você leu tem origem, tanta e igualmente humana origem quanto os cabelinhos escorridos meio alourados dos coleguinhas que provavelmente lhe puseram o apelido de “Bombril”. Não, Diego, não vamos pedir ao garoto que simplesmente não dê ouvidos aos coleguinhas bobos – porque ante a discriminação não dá para se fazer de surdo, porque dói; discriminação é uma desgraça, Diego – você sabe.

Em vez disso, que mal há em pretender que se ensine (falo ensinar à vera, não só por “3 meses, por 30 minutos a cada 4 dias apenas”, como você propõe) a toda essa molecada de tudo quanto é cor que na África existem povos que são tão povos quanto qualquer povo de pele clara desse mundo, e que muito do que somos descende diretamente de alguns deles, os quais portanto merecem tanto respeito e reverência quanto qualquer outro?

Enfim, Diego, precisamos saber da África por muitos outros mais motivos. Para encurtar conversa: você me deixou de mal humor, cara. E privou meus leitores das risadas que dariam com a história ótima do cipó do amor. Estamos todos putos contigo, Diego. Abre o olho.

* * * * * * *

Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

domingo, 18 de agosto de 2013

10 anos de autonomia Zapatista

por Aleksander Aguilar*

Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.

Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!

[Foto: Moysés Zúñiga Santiago]
Eles fizeram a data da rebelião coincidir com a implementação do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México, chamado pelos Zapatistas de “uma sentença de morte”. A estridente oposição ao NAFTA deu aos rebeldes o apoio de organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais de diversas partes do mundo.

São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.

Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.

ESCOLA PARA A LIBERDADE

No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.

No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal New York Times denominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.

Mas desde La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos.

Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.

Por quê tudo isso?

“¿Será porque acaso intuyen, saben, conocen, que la luz no viene de arriba, sino que nace y se crece desde abajo? ¿Que no es producto de un líder, jefe, caudillo, sabio, sino del común de la gente? ¿Será que en sus cuentas lo grande empieza pequeño y lo que sacude al mundo cada tanto, inicia con apenas un murmullo, quedo, bajo, casi imperceptible? O tal vez imaginan cómo es el estruendo de un mundo cuando se desmorona. Tal vez saben que los mundos nuevos se nacen con los más pequeños.”

Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Pragueações breves

Nas minhas andanças por aí, já passei alguns sufocos típicos de estar em viagem. Como pedir informação onde se deve, e receber desinformação. Já me aconteceu várias vezes, inclusive em lugares com fama de sérios, competentes e precisos, onde não se espera este tipo de falha. Sempre me faz lembrar que gente é gente em qualquer lugar, até naqueles onde se acha que as pessoas alcançaram uma condição “mais adiantada”. Lembrar disso é muito bom.
Depois de saber que o belo cemitério que vejo da janela do meu quarto de hotel abriga os restos mortais de Franz Kafka, fui até lá “tomar a bênção”
 Meu analfabetismo também me choca. Explico: desde a primeira vez que estive num país onde meu limitado conhecimento de idiomas era inútil, constatei a miséria que é não conseguir ler instruções, placas, cardápios, nada. Cada vez que isto me acontece, como agora, aqui em Praga, penso em como a leitura e, mais que isso, a capacidade de entender e interpretar o que se lê, é essencial. Conclusão nada original: deixar de investir pesado na educação é uma escolha perversa, mas parece que os governantes leem isto e não entendem...

Ontem pude conversar um bom tempo com uma senhora daqui, em espanhol. Considerando minha notável ignorância sobre esses lados do mundo, ouvir um pouco sobre esta cidade encantadora e seu povo foi um luxo. Tendo ela vivido todo o período do regime comunista e presenciado a divisão da Tchecoslováquia em dois países, perguntei-lhe qual tinha sido a melhor coisa do socialismo. No seu jeito suave e direto, ela respondeu: “A melhor coisa é que eu era jovem. Mas, falando sério, duas coisas eram muito boas: a inexistência de desigualdades de renda e acesso à educação, e o fato de que todos trabalhavam muito menos do que atualmente. Isto era considerado um absurdo por alguns, mas a verdade é que esta vida que se leva hoje, de trabalhar doze, catorze horas por dia e jamais ter tempo para outras coisas, é horrível. Os jovens de hoje não vivem, só trabalham.”

Depois de saber que o belo cemitério que vejo da janela do meu quarto de hotel abriga os restos mortais de Franz Kafka, fui até lá “tomar a bênção”. E depois de ver um pouco desta cidade tão linda, que transpira arte, cultura e humanismo em cada detalhe, vou dormir pensando na necessidade urgente de reabrirmos o espaço do ócio e da contemplação da beleza.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Aids, educação permanente

 Hoje, Dia Mundial de Luta contra a Aids, podemos dizer que muito se avançou no seu combate e prevenção. Mas, como tudo, ainda tem chão, muito chão pela frente.

Em 1977 e 1978 surgiram os primeiros casos da doença, ainda sem nome, nos EUA, Haiti e África Central. Somente em 1982 foi definido o nome da nova síndrome - data também do primeiro caso diagnosticado oficialmente no Brasil.

Em novembro deste ano, a Unaids, organismo da ONU responsável pelo combate à Aids, divulgou um relatório sobre a evolução da doença no período de 1990 a 2010. O estudo mostra que o número de pessoas infectadas caiu 21% no período.

O que se constata com as recentes pesquisas é que o maior acesso aos medicamentos contribuiu para uma tendência mundial de queda da doença. Por exemplo: entre 2005 e o ano passado baixou em 18% o número de mortes causadas pela doença.

A entidade estima que haja hoje no mundo 34 milhões de pessoas portadoras do vírus HIV

Segundo o Ministério da Saúde, de 1980 até junho de 2011, o Brasil registrou  mais de 608 mil casos em que a doença já se manifestou.

O tratamento atinge entre 60% e 79% do total dos infectados. E entre 250 mil e 300 mil pessoas têm o vírus e não sabem, de acordo com a Unaids.

Considerados, no entanto, somente aqueles que têm diagnóstico, a cobertura do tratamento sobe para 97%. Entre grávidas, o tratamento chega a 50% dos casos estimados.

Para saber mais                                                                  

O departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde tem boas informações sobre a doença, desde aos interessados em saber mais e, principalmente, aos que têm a doença.

Ali você pode acessar o Vidas em Crônica, criado para "dar voz àqueles que desejam contar suas histórias, suas experiências e, de alguma forma, dar força a quem precisa enfrentar a doença, o preconceito e a discriminação."

O espaço também tem a finalidade de estimular a produção literária, e à época o concurso selecionou 15 histórias reais, ambientadas nas décadas de 1980, 1990 ou período de 2000 até os dias atuais.

No vídeo abaixo, um anúncio francês, em formato de animação, muito criativo e divertido sobre o uso da camisinha como mecanismo de prevenção contra a Aids.

O mote da campanha, numa tradução livre, seria algo como "viver tempo suficiente pra encontrar o melhor/o que é bom".



Thiago Domenici

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pessoa com deficiência defende a sua vaga

Uma cadeira de rodas sobre a qual foi borrado um X em vermelho. Acima dela, a frase "EU NÃO RESPEITO A VAGA DO DEFICIENTE". O fundo é branco e o adesivo redondo. Criado pelo artista gráfico Ivan de Sá a partir de uma ideia (e por encomenda) do jornalista Ruy Fernando Barboza (editor de texto da revista Retrato do Brasil), tem sido afixado em carros em Florianópolis, mas Ruy pretende que a ideia se espalhe, numa campanha de objetivos educativos.

Ruy, deficiente físico desde 2002, quando foi atingido no Rio de Janeiro por uma bala de fuzil, se diz "cansado de discutir com os que desrespeitam as vagas dos deficientes fisicos". Resolveu então começar sua campanha educativa: encomendou o adesivo e o cola em parabrisas de carros dirigidos por motoristas sem a menor sombra de deficiência que ocupam as vagas. "Até agora, o resultado foi melhor do que eu imaginava", conta ele. "Houve até quem me pedisse desculpas pelo abuso. Além disso, outro dia, no aeroporto, um soldado da PM multou um carro, ao ver um casal, sem qualquer problema físico, pegar o carro infrator que eu tinha carimbado. Foi a primeira vez que vi isso acontecer em Floripa".

Se você quiser aderir a essa campanha proposta por Ruy pegue a imagem e faça também seu adesivo!

terça-feira, 9 de março de 2010

Comercial sobre cinto de segurança é exemplo para nossos tupiniquins da criação

Existem formas muito criativas, sensíveis e menos apelativas de causar impacto no telespectador de tevê ou de internet através de comerciais. É o caso, por exemplo, desse vídeo produzido pelo Sussex Sager Roads Website do condado de Sussex, Inglaterra, sobre segurança em rodovias intitulado Embrace Life - Always Wear Your Seat Belt ("Abraçe a vida - use sempre o cinto de segurança" - numa tradução não tão fiel).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Binária # 1


Para que uma rede estatal?


Dizem que o presidente Lula não chegou nem a olhar a proposta de Plano Nacional da Banda Larga elaborado pelo Ministério das Comunicações. Não que o documento trouxesse grandes novidades, na verdade os números apresentados são praticamente os mesmos que a Anatel (Agência Nacional das Telecomunicações) já havia mostrado em outubro de 2008 quando publicou o Plano Geral de Atualização da Regulamentação das Telecomunicações no Brasil (PGR). Na época não se falava em plano nenhum de banda larga, só no aperfeiçoamento do marco regulatório e na evolução natural do mercado.
O fato é que o governo já está decidido de que o caminho para conseguir aumentar a penetração da banda larga no Brasil é por meio de uma nova empresa estatal que forneça serviços às operadoras e complemente a infraestrutura que elas têm.
A ideia é simples. Falta banda larga porque o sinal não chega. E o sinal não chega porque as empresas não querem investir em regiões em que não há "viabilidade econômica", ou seja, onde não dá para obter lucro. Caberia ao estado, assim, a missão salvadora de dar solução ao problema criando uma estatal que vai oferecer a rede nas áreas menos interessantes para as operadoras. Será mesmo a solução?
Posso imaginar uma cena. O sujeito da cidade que até então só tinha a banda estreita (ou banda nenhuma) e que passou a fazer parte do mundo digital, agora consegue acompanhar o último hit viral no YouTube. Ele está lá feliz navegando pela internet quando a conexão cai. Ele liga para a operadora (considerando que o telefone ainda funciona) e ouve: "Estamos enfrentando problemas em nossa estrutura de acesso e estamos trabalhando para resolver o problema o mais rápido possível, senhor". Sem muito a fazer, se senta à frente da TV e no noticiário vê que o problema de acesso foi na rede do governo. Alguma coisa como o novo apagão que atingiu o país em novembro. E agora? A quem reclamar? Como saber se o problema foi mesmo da rede do governo ou se foi desculpa da operadora?
Se o problema é mesmo da rede do governo, o que acontece? A operadora dá desconto para o cliente pelo tempo parado e manda a fatura para o governo? Como o governo vai pagar? Aumento da carga tributária? Criação de um novo imposto para financiar a estrutura de banda larga pública? E a Anatel? Vai ter poder (político, sobretudo) para fiscalizar a atuação da estatal?
O problema é complexo mas o “remédio estatal” pode ter efeitos colaterais graves. As leis que regulam o setor estão aí, elas só precisam ser cumpridas. Se estão erradas ou não funcionam direito, o legislativo existe para isso, certo? Não é uma nova empresa estatal que vai fazer o desenvolvimento acontecer, ela só vai ser uma nova moeda de troca política, mais um foco de corrupção. Ninguém precisa reinventar a roda, só calibrar o pneu.
Tem-se questionado muito sobre o que fazer com os milhares de quilômetros de fibra óptica construídos pelo governo que estão sem uso por todo o país. A pergunta correta é por que mesmo essa estrutura, que foi montada com dinheiro público, esta parada há tantos anos? A estatal responsável, Eletronet, está em processo de falência. São mais de R$ 400 milhões em dívidas com fornecedores. Se o negócio já não funcionou uma vez, por que insistir de novo nessa questão? Essa não parece ser uma estratégia muito interessante para se pensar o futuro da inclusão digital do país.
Não seria melhor fortalecer o poder de fiscalização da Anatel, que tem funcionários com excelente conhecimento e capacidade técnica, mas que só consegue fazer uma coisa por vez? E também reforçar o orçamento do órgão regulador que ano após ano é contingenciado para gerar superávit primário? É muito difícil pensar na criação de uma infraestrutura estatal. Que tal objetivar conectar todos os órgãos públicos dentro de um projeto de modernização e desburocratização do atendimento à população e que ao mesmo tempo ajudasse a alimentar a indústria de tecnologia e telecomunicações no Brasil com projetos inovadores? Esse sim é o papel do estado para desenvolver o país no longo prazo.

Gustavo Brigatto é jornalista e cobre a área de tecnologia há 5 anos. Mantém o blogue http://commandcom.worpress.com e é colunista do Nota de Rodapé

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pretensão e água benta

Quando vivi em Portugal, nos anos 90, fiz muitos amigos. Entre eles, o Camané, apelido de Carlos Manuel Borges, jornalista e assessor político do até então presidente Ramalho Eanes. Foi diretor de um semanário em Macau, ocasião em que colaborei com crônicas enviadas do Brasil.
O Camané faleceu ainda jovem, vítima de infecção hospitalar pós operatória. Homem de muitas virtudes, o Camané era bastante criticado pelo comportamento egoísta que por vezes apresentava. Em particular às refeições, onde era o primeiro a se servir e a escolher os melhores nacos e pedaços dos pratos servidos, sem cerimônias. Certa vez, ele foi criticado e questionado pela mulher de um amigo comum e sua resposta foi simples: disse que fora educado na companhia de outros dez irmãos e que desde cedo teve que aprender a se virar, em particular durante as refeições. Embora simplória e até certo ponto injustificável, ainda que verdadeira, a explicação penso que convenceu pelo menos aos seus amigos mais próximos. E suas outras virtudes superavam essa, digamos, pequena mazela.
Essas lembranças e reflexões vêm a propósito de um fenômeno que acontece no Brasil nos últimos anos, notadamente nos últimos quatro ou cinco. Nos dias que correm, é comum ouvir-se em certas rodas ou grupos sociais as mais variadas críticas ao governo do presidente Lula. Em geral de pessoas bem nutridas, bem vestidas, com todos os dentes na boca, carros do ano, com títulos acadêmicos e ações na Bolsa de Valores, donos de terras griladas em São Paulo ou no Mato Grosso, frequentadores de Paris, Miami e Buenos Aires e que insistem em apontar e debochar do “jequismo” do presidente e sua mulher, da sua falta de preparo, das irregularidades, do oportunismo e da corrupção do seu governo, do assalto aos cofres públicos por aqueles que nunca tiveram nada... E por aí afora.
Esquecem-se, esses praticantes e defensores da moralidade pátria, do extremado egoísmo e da cultura neoliberal de que sentem saudades, que o Brasil, graças, sobretudo aos últimos oito anos de governo do presidente Lula, se transformou na casa dos dez irmãos do Camané. Muitos têm que defender o seu pão de cada dia, outros tantos ganharam – pela primeira vez em 500 anos – a oportunidade de se defenderem à mesa ou fora dela, com empregos, bolsa família, Prouni, crédito mais em conta, luz e vaso sanitário no lugar da fossa. Os juros bancários caíram de 27% ao ano (governo FHC) a 8,5% ao ano no atual governo, o país saldou a sua até então eterna dívida com os credores internacionais e hoje empresta dinheiro ao FMI.
Contudo, a arte de falar mal faz parte da nossa cultura. Disso é prova o cantor Caetano Veloso que em recente entrevista ao Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo disse, entre outras bobagens, que Lula é analfabeto e tem uma linguagem grosseira. Ou da atriz (?) Maitê Proença, a dizer bobagens e desfilar seu preconceito sobre o Portugal do Camané num desses programetes metidos a eruditos e inteligentes. Argumentos falaciosos de parte de uma elite branca, alguns até de sobrenomes estrangeirados, cujos pais e avós foram bem recebidos nessa terra encantadora, frustrados com a grande aceitação e o reconhecimento do atual Brasil no concerto das nações. País que ultrapassou a crise financeira mundial com uma estratégia adequada à superação de inúmeros problemas, sendo o desemprego o fortalecimento do mercado interno os principais deles.
Mas quem, por acaso e paciência, conseguiu ler até à última página o livro ‘Verdade Tropical’ (a que já chamei de ‘Vaidade Tropical’) não se surpreende mais com estes ataques elitistas do filósofo baiano da contemporânea escola sofista do Leblon e dos Jardins e que teve o desplante de dividir a cultura brasileira em antes e depois de Caetano Veloso (leia-se no tal livro a sua explicação sobre o tropicalismo). Quanta arrogância e quanta inveja e frustração ao mesmo tempo!
Fico aqui pensando se quando o Caetano vai dormir, ele não fica ali se imaginando no mesmo panteão de Machado de Assis, Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Carlos Gomes, Joaquim Nabuco. Ou a Maitê, sonhando em ser Cacilda Becker, Fernanda Torres, Madame Morineau, Miriam Muniz. Afinal, pretensão e água benta não fazem mal a ninguém. Sinto mais simpatias pela transparência e pela frontalidade do Camané ao falar do seu egoísmo aos seus críticos...

Izaías Almada é colunista do blogue Rodapé e autor, entre outros, do livro ‘Teatro de Arena: uma estética de resistência’, Editora Boitempo

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ferréz: Cronista de um Tempo Ruim

O escritor e embaixador da periferia, morador do Capão Redondo, Ferréz, lança nesta terça-feira (24) o livro "Cronista de um Tempo Ruim", no auditório da Ação Educativa, rua General Jardim, 660, Vila Buarque, Centro. O livro é o primeiro de uma série do selo Povo, que o próprio Ferréz criou. Com 130 páginas será vendido a R$ 5,00, uma raridade no país dos livros caros. É a boa literatura a preços populares e com edição e acabamento da melhor qualidade.

Promoção Rodapé
A partir de agora todos os leitores deste blogue que se cadastrarem no "Boletim Rodapé" (ao lado) concorrem a um total de cinco livros (Cronista de um Tempo Ruim) autografados pelo escritor; eles serão sorteados no dia 5 de dezembro e o resultado divulgado no blogue no dia 6.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Manifesto Porta na Cara

Discriminação no atual processo de segurança dos bancos? O manifesto porta na cara mostra como uma mesma bolsa pode ser a chave da resposta. Veja o flagrante feito pelo Núcleo Audiovisual do Circo Voador do Rio de Janeiro. Acesse www.circovoador.com.br e assine o manifesto!

Direito à comunicação

O coletivo Intervozes produziu um vídeo bem interessante sobre a concentração dos meios de comunicação existentes no país. Assista e espalhe. No site deles aqui.

domingo, 8 de novembro de 2009

Manchetes Rejeitadas # 14

Indignado que fiquei escrevi ao Tietê Campos: "o que esperar das universidades que punem vítimas em favor de moralismos e em nome de uma suposta ética?" e o Tietê respondeu com novas perguntas. Quem as responde?

"O que esperar de universidades que oferecem cursos conjuntos de graduação e pós-graduação? O que esperar de universidades que demitem professores de jornalismo por estes reprovarem alunos que cometem erros crassos de português?" - Tietê Campos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Que vontade, hem?

O teste propõe a criança não comer o marshmallow do prato dizendo que em vez de um ganhará outro quando a moça voltar a sala. É muito legal. Só vi esses dias indicado por uma querida amiga.

sábado, 31 de outubro de 2009

Mirna, 14, joia rara

Antonio, soldador, e Dilce, confeiteira, moram em Sertãozinho, interior de São Paulo. Há dois anos o casal reside com mais de cem famílias no assentamento sem-teto que ocupa um antigo galpão do INSS e vai virar moradia popular. Desempregados, vivem de “bicos”. “Ou a gente voltava pra nossa terra no Maranhão, ou ficava aqui”, explica Dilce, que apesar do sufoco está animada com tempos melhores. Um dos motivos é Mirna, 14 anos, uma das filhas, de voz doce e fala articulada, que levanta às 5h30 da manhã para tomar o ônibus às 6h20 até a escola estadual onde cursa a 8ª série. “Sempre foi muito estudiosa e esforçada. Quer ser engenheira mecatrônica”, diz a mãe, que ficou surpresa com o desejo da filha.
Mirna representou São Paulo na III Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente em Brasília, em 2008. Antes foi preciso vencer centenas de adolescentes na seleção regional e estadual com dois projetos: a horta comunitária e a casa de caixas de leite. A horta reverte parte da produção para a merenda escolar e outra para a comercialização na comunidade. Já a casa abriga uma sala de jogos de ciências e matemática. “São dois projetos coletivos, mas fui a selecionada para representar e fiquei muito feliz”, revela.
Em 2006, recebeu menção honrosa na Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas do Estado de São Paulo, comemorada ao som de violino e trompete, que também toca com desenvoltura. No computador que ganhou para os estudos falta o acesso à internet. “Faço os trabalhos na lan house e não dá pra ir sempre. Não importa de onde você veio, tem que fazer para merecer. Vou ser engenheira.”

Thiago Domenici é jornalista; texto publicado originalmente na Revista do Brasil, seção Retrato, outubro de 2009.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Companheiros do conhecimento

Você sabia que hoje (29 de outubro) é o Dia Nacional do Livro? Fiz uma seleção de dez citações de alguns autores discorrendo sobre esses companheiros do conhecimento e suas peculiaridades e sensações. É bom para refletir e pensar a importância que tem para cada um de nós. Para mim é essencial para sobreviver. No Brasil, foram produzidos 340,2 milhões de exemplares em 2008, segundo Pesquisa da Fipe/USP. Ao final, uma música de Caetano Veloso também sobre o livro.

1 - “Não peço aos livros a não ser que me dêem prazer por honesto divertimento; ou, quando estudo, procuro neles apenas a ciência que trata do conhecimento de mim mesmo, e que me ensine a bem morrer e a bem viver.” Montaigne (1533-1592), Ensaios: “Dos Livros”

2 - “Dir-se-ia que alguns livros não foram escritos para que com eles se aprenda, mas para se ficar sabendo que alguma coisa o autor sabia.” Goethe (1749-1832), Arte e Antiguidade

3 - “Vejo nossos livros como outros tantos bilhetes de loteria; realmente não valem mais do que isso. A posteridade, esquecendo uns e reimprimindo outros, é que proclamará os bilhetes premiados.” Stendhal (1783-1842), Do amor.

4 - “Um livro necessita de tanto tempo quanto um feto. Obra que se escreve rapidamente, em poucas semanas, em mim desperta certa desconfiança contra o autor. Mulher honesta não pare antes dos nove meses.” Heine (1797-1856), citado por Mário da Silva Brito em O I antasma sem Castelo.

5 - “No fundo, o mundo foi feito para acabar num belo livro” Mallarmé (1842-1898), Resposta ao Inquérito de Jules Huret.

6 -“Não há livros morais e livros imorais. Há livros bem escritos ou mal escritos. E é só.” Oscar Wilde (1854-1900), O Retrato de Dorian Gray.

7 - “Um país se faz com homens e livros” Monteiro Lobato (1882-1948)

8 - “Todos os livros bons se parecem: são mais reais do que se tivessem acontecido de verdade.” Hemingway (1889-1961)

9 - “Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.” Mário Quintana (1906), Caderno H.

10 – “Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação da primeira leitura, que não teremos renovada a felicidade de ignorá-los num dia e conhecê-los no dia seguinte!” Álvaro Lins (1912-1970), Notas de um Diário de Crítica.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Cientista da esperança


Aqui a íntegra da entrevista de Miguel Nicolelis do qual falei em postagem anterior. Publicada originalmente na Revista do Brasil, edição 37, julho. Entrevista realizada por mim e pela repórter Cida de Oliveira na sede da Associação Alberto Santos Dumont, em São Paulo. As imagens são do fotógrafo Jailton Garcia.

O paulistano Miguel Nicolelis dirige, desde 1994, o centro de neurociência da Universidade Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos. E é um dos fundadores do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), na capital do Rio Grande do Norte. A escolha de um local longe dos centros econômicos está ligada à sua batalha por descentralizar a produção do conhecimento, tornar a educação científica acessível às crianças das escolas públicas do Rio Grande do Norte. Seu grupo pesquisa origens da doença de Parkinson e como controlar ou amenizar seus efeitos no homem. Por esse estudo, que abre uma nova frente de pesquisas também sobre outras doenças do sistema nervoso, foi o primeiro brasileiro a ter destaque na capa da revista Science. Formado pela USP, Miguel Ângelo Laporta Nicolelis começou a ter seu trabalho projetado internacionalmente quando implantou uma prótese no cérebro de um macaco, por meio da qual o bicho moveu um braço robótico – com a “força do pensamento”. O trabalho foi listado pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT) como uma das dez tecnologias que vão mudar o mundo. Ele e seus colegas registraram também sinais elétricos emitidos por neurônios do cérebro de uma macaca e os transmitiram ao laboratório do MIT, distante mil quilômetros, onde um braço robô foi movido por esses impulsos. Posteriormente, o registro da atividade neural da macaca enquanto andava numa esteira foi enviado, via satélite, ao Japão, onde um macaco andou sob o comando cerebral da primata americana. A ideia dessas experiências é fazer pessoas com paralisia voltarem a andar. Para Nicolelis, mais importante que o Prêmio Nobel que corre o risco de ganhar é fazer com que a educação seja não um objeto de mecanização de ordens, mas de geração e difusão de conhecimento. E de construção de uma nova democracia.

Como transformar a sociedade pela ciência?
A ciência gera conhecimento novo e processos geradores de mais conhecimento, tecnologias, métodos e novos produtos. Gera poder. No século 21, a democratização de uma sociedade depende da democratização dos meios de produção de conhecimento de ponta. Ao longo da História fomos levados a crer que só a elite pode fazer ciência nesses lugares misteriosos que a gente chama de universidade, esses espaços originados nos mosteiros da Idade Média, que têm acesso restrito, onde para entrar é preciso passar no vestibular. Com isso, boa parte da sociedade fica sem saber como é gerada a inovação. É a ciência que vai mostrar como enfrentar questões como as da Amazônia, do meio ambiente, das nossas reservas de óleo. O que faremos com tudo isso? Onde aplicaremos o dinheiro que será gerado pelas reservas do pré-sal? Os brasileiros têm de participar dessa discussão. Mas para participar devem ter acesso aos métodos de produção de ciência.

Mas como os brasileiros podem ter esse acesso? A ciência produzida não fica restrita aos cientistas e seus ambientes, universidades, laboratórios?
Geralmente sim. É como se ficasse numa redoma de vidro à qual a grande massa da população não tem acesso. Costumo dizer que estamos melhorando muito, mas tudo é ainda muito caótico. A universidade pública, por exemplo, ainda não é pública na entrada nem na saída. Embora tenhamos hoje a melhor gestão do Ministério da Educação que jamais tivemos na história do Brasil, ainda falta muita coisa. O problema é muito grande, acumulado em séculos de negligência.

Como o senhor avalia o aumento quantitativo da produção científica brasileira?
Esse aumento nos últimos anos deu-se pela exigência dos métodos de avaliação das universidades, que cobram produção em número, e não em qualidade. A qualidade de um trabalho científico não é medida apenas localmente, e sim pelo seu impacto no mundo da ciência, que é muito objetivo. Por isso o impacto desse aumento na vida do país ou do mundo é questionável. Apesar de aumentar o número de pesquisas, o Brasil é um dos países que menos patenteiam propriedade intelectual e menos produzem inovação científica. Ainda temos uma visão cartorial da ciência, com algumas agências de financiamento brasileiras impondo uma burocracia absurda, que não pode se aplicar ao projeto de um cientista.

Isso é só no Brasil ou lá fora também?
O Brasil é campeão nisso. Precisamos construir mecanismos ágeis de fomento, de operacionalização. Não adianta ter só o dinheiro. Seria um exercício muito interessante, para vocês, pegar o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia e ver quanto dele foi executado. Nem os caras lá dentro conseguem se livrar da burocracia.

O senhor declarou numa entrevista que o ministro da Ciência e Tecnologia deveria sentar do lado do presidente da República. Por quê?
Na minha modesta opinião, os ministros da Educação, Saúde e Ciência e Tecnologia – a trindade – deveriam sentar do lado do presidente. E bem lá atrás o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central, fazendo contas. E temos gente altamente preparada, nessas três áreas, que tinham de receber o orçamento que determinassem. E então apertaríamos o cinto em outras coisas para garantir o cumprimento das prioridades, que trarão retorno para o país e para a humanidade. Há cientistas brasileiros brilhantes aqui que não precisavam sofrer para ser financiados, porque contribuem para a humanidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, a ciência e a tecnologia estão no centro do debate nacional e são tema da conversa do café de todo mundo.

Independentemente de quem esteja no governo?
Sim, e a grande vantagem da academia americana é que lá o cara que nasce na periferia de Nova York, por exemplo, tem chance de ser um professor universitário. Aqui, a ciência brasileira foi construída pela elite. Isso mudou um pouco, mas não o suficiente para um menino da periferia sonhar em ser cientista. Os meninos da periferia de Natal já têm mais chances porque nós desmistificamos a ciência para eles. Antes, quando perguntávamos o que queriam ser, respondiam jogador de futebol, atriz, modelo. Hoje há quem queira ser ortopedista, astrofísico, geólogo, químico, professor. Eles constataram que professor não é inimigo, e sim o adulto em que podem confiar porque vai lhes abrir portas.

O senhor convive com crianças em Natal e com neurocientistas num laboratório americano...
Ambas as realidades estão conectadas. Em nosso laboratório estudamos o cérebro e como é o processo de educação do cérebro. Então a neurociência e a educação andam lado a lado, como qualquer outra coisa que envolve a atividade humana. Porque tudo que vem do ser humano, do ponto de vista de produção motora-cognitiva-intelectual, tem como final da cadeia o cérebro. Os sistemas políticos, o mercado financeiro, a arte, enfim, tudo depende das propriedades biológicas do nosso cérebro. O mundo inteiro deveria ter interesse em saber como nosso cérebro funciona porque ele é a essência do que somos e explica tudo o que fazemos.

Foi o que o trouxe de volta ao Brasil?
Quando decidi voltar para o Brasil e fazer alguma coisa sabia que seria tudo muito difícil. Cheguei a ser tratado como estrangeiro por alguns setores das universidades. E eu só decidi entrar na briga porque queria disseminar a ideia de que a ciência é agente catalisador da transformação social, começando pela educação. Se eu quisesse que essas crianças passassem a ter prazer em aprender, em se envolver com a investigação científica, a única maneira seria colocá-las em contato com o critério lúdico da investigação científica. Criança adora ver a reação causal das coisas. Se uma pilha de blocos cai, ela logo percebe que é necessária uma estrutura para manter os blocos em pé – coisa que dificilmente perceberá em uma aula teórica, com o professor falando um monte de coisa que terá de ser reproduzida numa prova.

Como é esse trabalho em Natal?
A formação de professores levou seis meses. Nossa escola vai fazer três anos e é um esforço pequeno ainda. Atendemos mil crianças, mas queremos levar a experiên¬cia para o Brasil inteiro. Toda escola pública deveria ter aula em período integral. E a aula deveria ser diferente, livre desse modelo da autoridade, de o professor vomitar a “verdade” que deverá ser recitada pelo aluno. A verdade tem de ser descoberta. E esse é um método científico, que faz parte da nossa vida o tempo inteiro. É o caso de quem empresta dinheiro e não recebe. A chance de emprestar de novo diminui. Isso é experimento. Nossa vida inteira é assim. Quando andar de bicicleta pela primeira vez a criança vai cair e pôr a rodinha. Quando percebe que consegue, tira a rodinha. Essa realidade lúdica deve ser levada para dentro da sala de aula. Ou para os laboratórios de ciências para criança, embora muitos duvidassem que isso pudesse acontecer no Nordeste. O talento está lá. Está dentro das crianças e precisa ser garimpado. Por gerações temos negligenciado, abandonado e desperdiçado talentos. Nunca assumimos a responsabilidade de oferecer para as gerações futuras algo melhor do que nós tivemos. É uma visão de colonizados que ainda prevalece, a de que o futuro não vale a pena. Nunca assumimos um pacto de renúncia a certas coisas do presente para oferecer algo melhor para os que ainda nem nasceram. Nossos filhos, netos, bisnetos.

O senhor teve encontros com o presidente Lula para apresentar o projeto?
Eu conversei muito com o presidente. Senti que ele entendeu para onde estamos indo, e que aquilo era um experimento não de cientista, e sim de nação, de como o Brasil pode ser esse país que tem chance de acontecer, de entrar para a História e ser verdadeiramente de todos.

O senhor vê as pessoas, no exterior, manifestarem alguma visão sobre o atual momento do Brasil?
Quando viajo e encontro colegas franceses, alemães, russos, chineses, noto que estão todos desencantados com seus políticos e seus governos. Muitos dizem: “Sorte sua que é do Brasil, onde as coisas vão acontecer, que alimentará o mundo, produzirá energia limpa e ainda manterá o ambiente de pé. Como a gente vai conseguir criar uma democracia feliz, onde as pessoas vão poder perseguir a felicidade? Vocês têm um presidente que é admirado no mundo inteiro”. E então eu penso: se os brasileiros ouvissem metade do que ouço pelas minhas viagens, certamente se encantariam.

Por que não sabemos de tudo isso?
Porque a informação não chega. Abrimos os jornais brasileiros e as manchetes são desanimadoras, não celebramos os avanços. Há frases ditas por brasileiros que eu odeio, como aquelas do tipo “só podia ser no Brasil mesmo”, ou “se a gente fizer assim, vira coisa de Primeiro Mundo”. Vivemos nos depreciando. O Primeiro Mundo está despencando, entrando num buraco negro e não sabe se vai escapar. A Europa tem problemas seríssimos, os Estados Unidos estão desesperados, precisam sair do problema que eles mesmos criaram. Sobrou quem para ser Primeiro Mundo? Nós somos o Primeiro Mundo. O Primeiro Mundo do amanhã, mas para isso precisamos acreditar em nós. O nosso complexo de inferioridade, tão gigantesco, vem do sistema educacional, que cria carneiro, e não leão, que cria gente que obedece a ordens.

As ordens não são necessárias no aprendizado?
Na escola, eu tinha de cantar o Hino Nacional porque era uma ordem, e não o meu desejo de exaltar a minha pátria. Um milico em algum lugar me mandava fazer isso. Eu tinha de decorar e cantar o Hino à Bandeira e o da Independência por decreto militar. Temos de incentivar nossas crianças a ir para a rua, a achar a cura do câncer, a construir uma democracia melhor, a remover esse entulho mental de inferioridade que acumulamos ao longo da nossa história. Por que o brasileiro não pode almejar qualquer coisa? Eu entro no avião e ouço: “O seu país é demais”. Aí viajo dentro do Brasil e metade do que eu ouço é depreciação.

Privilegiamos a mediocridade?
E ainda promovemos o que não tem relevância, a cultura da celebridade, do efêmero. Aí as pessoas dizem que no mundo inteiro os jornais estão desaparecendo, que há uma crise na mídia. A mídia criou essa crise quando não reportou o fato, quando não se comprometeu com a população, e transgrediu esse elo que havia ao abrirmos um jornal e acreditarmos no que líamos. O povo não é bobo. E o New York Times tem de retratar 180 páginas de reportagens falsas sobre as razões que levaram os Estados Unidos à Guerra do Iraque. Quem vai acreditar no jornal? E esse fenômeno acontece aqui com sérios jornais que trazem coisas sem relevância para a vida de cada um de nós. Essa quebra destruiu a nossa ligação com os intermediários que transmitiam os fatos para nós. Agora não queremos mais intermediários. A internet, apesar de todos os seus defeitos, está se transformando num lugar onde se pode tentar achar o que está acontecendo. O intermediário sumiu. Os políticos deveriam começar a se preocupar, porque o mundo inteiro não acredita mais nas promessas de eleição, nos congressos. As pesquisas de opinião da Europa, dos Estados Unidos e daqui mostram que os poderes representativos estão no fundo do poço. O pessoal precisa ficar de olho aberto porque ainda vai aparecer alguém com uma fala nova de representação, mais efetiva, barata e honesta. E o intermediário também pode sumir rapidamente.

Como é a vida nos Estados Unidos de um brasileiro que adora as coisas do seu país?
Eu não moro mais só nos Estados Unidos. Como agora tenho a chance de vir para cá mais vezes, tudo ficou mais fácil. Difíceis foram os primeiros 15 anos, eu sabia que só poderia voltar para o Brasil depois que tivesse construído algo fora. Então foi muito difícil. A cultura, o clima, a comida e as pessoas são diferentes. Todo brasileiro que tem visão pejorativa do Brasil deveria passar dez anos de exílio em algum lugar. Voltaria muito melhor. Porque o Brasil não é só São Paulo. O país é, na verdade, centenas de outros países. É impossível crescer na cidade de São Paulo e entender o Seridó, o sertão do Piauí, o interior da Bahia, ou mesmo a capital do Rio Grande do Norte.

Somos um imenso país de estrangeiros uns para os outros?
Embora todos falem português, as emoções transmitidas são diferentes em cada região, em cada sotaque. E isso nos dividiu, quando deveria ter unido. Essa diversidade cultural, linguística, vegetal, biológica é que faz o Brasil ser o que é. Aprendi na escola que o Nordeste é a caatinga, é o deserto. E lá vi que cinco milímetros de chuva, uma garoa miserável, fazem com que os cactos floresçam imediatamente. E o que era caatinga virou jardim. E é o maior exemplo de sobrevivência que já encontrei na minha vida. Porque tudo que existe lá evoluiu para sobreviver a qualquer custo. A valorização da vida, seja de inseto, animal, humana, é gigantesca. E isso é exemplo de sobrevivência, não de miséria. Ninguém no sertão se sente miserável. Ao contrário, as pessoas que encontrei, crianças e adultos, jamais querem sair de lá. Quando o pessoal sai é porque não tem mais jeito. Aquele lugar pode se transformar num engenho, num grande motor da economia, se for olhado de maneira correta, se a ciên¬cia for aplicada da maneira que acredito que pode ser aplicada lá.

Lidar com a possibilidade de descoberta de tratamento para o Parkinson é algo que atrai uma expectativa e tanto, não?
Cada vez que um trabalho novo é publicado há uma grande expectativa entre as famílias dos pacientes. Sei disso porque meu avô teve Parkinson e sempre temos a esperança de que alguma coisa possa ajudar. Eu sempre tento manter as pessoas esperançosas quanto à possibilidade de uma nova terapia, mais barata, eficiente, fácil de ser implementada cirurgicamente, minimamente invasiva, com menos riscos e que, se os testes em primatas e os estudos clínicos tiverem os mesmos resultados obtidos em roedores, poderá ampliar significativamente o número de pacientes beneficiados com o tratamento.

Não se trata de cura?
De forma alguma. É o tratamento dos sintomas motores e de alguns dos efeitos mais dramáticos do mal de Parkinson. Essa terapia, até onde sabemos, não paralisa o processo neurodegenerativo que causa a doença. Mas, de qualquer maneira, são milhões de pessoas afetadas que poderão se beneficiar. Quando publicamos esse trabalho com destaque na imprensa científica, recebemos milhares de e-mails de todo o mundo. É algo sério, que deve ser lidado com muita responsabilidade e com muito cuidado para não alimentar falsas esperanças. Então, evidentemente, essa distinção entre cura e tratamento é uma das primeiras coisas que tentamos fazer. Nosso esforço é para acelerar o avanço dessas pesquisas para que possamos dizer, com total segurança, que chegamos ao ponto X.

O que é o pensamento? E o sonho?
O pensamento é uma corrente elétrica, uma tempestade se espalhando pelo cérebro. Só isso. É um relâmpago em milivolts, em milissegundos. Tudo o que fazemos vem de uma tempestade elétrica na nossa cabeça. Uma tempestade tão complexa e tão difícil de prever como as que acontecem no céu. Mas move tudo o que nós fazemos, como sonhar, imaginar, pensar, prever, andar, falar, correr, tudo. Essa é a raiz de toda a humanidade, centenas de bilhões de elementos disparando pequenas descargas elétricas que geram um campo magnético muito pequeno, mas mesmo assim poderoso o suficiente para gerar tudo que a história da humanidade já gerou. E o sonho é uma atividade do sistema nervoso que, pelo que se debate muito hoje em dia e pelas teorias mais modernas, responde pela recapitulação do que aconteceu recentemente com tudo o que foi acumulado ao longo da vida e gera reverberações elétricas quando dormimos. Ele tem várias funções. Se considerarmos pesquisas mais recentes, nada mais é do que a consolidação das nossas memórias.

Quais os próximos lugares em que o senhor pretende instalar um centro semelhante ao de Natal?
Nesse momento nem estou falado nisso porque Natal demanda muita energia. Estamos tentando criar um programa de autossustentação, capaz de manter o campus de Natal independente, com parceria público-privada. E ainda vivemos a luta contínua para manter a coisa viva. Então, apesar de ter essa ambição, só vou para outros lugares em outras condições. Se quisermos construir o segundo instituto em outro lugar, o lugar tem de querer e criar condições para receber esse know -how. Há outros lugares onde chegamos até a conversar, assinamos documentos, mas nada sai, é uma perda de tempo. É importante que as pessoas valorizem esse esforço e, se quiserem realmente embarcar numa parceria, saibam que existem responsabilidades de ambos os lados. Não é simplesmente dizer “eu quero um negócio desses aí”. Em Natal aconteceu dessa maneira porque era o embrião, a semente que tinha de florescer e está florescendo.

Seus estudos são financiados pelo governo americano e fundações de todo o mundo. É legítimo dizer que se trata de pesquisa brasileira?
Sim. A ideia saiu de um cérebro que nasceu na Bela Vista, foi escrita por alguém que cresceu em Moema, assinada por um pesquisador com diploma da Universidade de São Paulo e quem assina o cheque é um torcedor do Palmeiras. Se isso não é brasileiro, então não sei o que é. O fato de trabalhar nos Estados Unidos, numa universidade americana, financiada pelo governo americano e por fundações de vários países não significa que essa produção não seja brasileira. Primeiro de tudo porque ciência não é de ninguém, é da humanidade. No meu trabalho tem pesquisadores do Chile, Suécia, Canadá, Brasil e Estados Unidos. Mas, se for para definir uma nacionalidade, quem teve a ideia do trabalho, recrutou as pessoas e foi atrás de dinheiro veio daqui. E escreveu parte dele enquanto andava pela praia de Natal, na sede da associação, no Parque Antártica, no avião. Vem da nossa condição colonial a dificuldade de acreditar que tenhamos condição de fazer essas coisas. É como se alguém dissesse: “Mas o Oscar Niemeyer fez um monumento na Argélia. Será que é dele? Quem pagou foi um argelino”.

O que é mais fácil: o Palmeiras ser campeão do mundo ou o senhor ganhar o Prêmio Nobel?
Ah, não tem dúvida de que é o Palmeiras. O Nobel é um fetiche nacional. É como o Oscar. Para a ciência nacional ser legitimada alguém tem de ganhá-lo. Eu não tenho nada a ver com isso. Não acredito que isso faça a diferença que todo mundo acha que faz.

O Nobel não é importante para a ciência brasileira?
Esse prêmio só terá grande repercussão se for consequência de um projeto estratégico nacional científico em que dezenas de pessoas têm chance de ganhar. Ninguém ganha o Nobel sozinho. É como uma célula do cérebro que produz uma faísca elétrica. Mas para produzir a faísca teve uma série de células por trás dela que a alimentaram de informação para ela poder disparar. Eu não dou muita atenção para essas coisas porque acho que é uma glorificação muito egocêntrica do indivíduo, quando a ciência é o próprio time. É como um jogo de futebol. É possível ter um grande jogador no time e não ganhar nada. Mas, se há um time, há como ganhar. O capitão levanta a taça. Mas é o time que ganha o jogo. A nossa cultura é muito de dar a recompensa para um indivíduo.

Como os brasileiros poderiam contribuir com seus projetos?
Somos uma organização da sociedade civil com interesses públicos. Temos o nosso site (www.natalneuro.org.br), vivemos de doações mínimas, a partir de R$ 1. As pessoas entram no site, ficam enamoradas pelas perspectivas. Agora temos tentado ampliar nossa rede de doadores para não depender tanto dos grandes doadores. É uma campanha que vamos começar a intensificar porque acho que é uma forma alternativa de mostrar que é possível construir coisas com a participação de um grande número de pessoas que possam ser cúmplices de uma empreitada social, sócias de um sonho. Creio que todo mundo tem a chance de realizar um sonho, canalizar seu desejo. É a oportunidade que muitas pessoas não tinham e agora têm. Por isso se encantam. Mas acho que é importante que as pessoas ajudem começando a tomar ciência dos problemas da sua comunidade, a ser mais participativas em suas escolas, dos seus filhos, nas suas cidades, e começar a exigir tudo o que elas deveriam ter e não ainda não têm

domingo, 19 de julho de 2009

Um grande brasileiro: Miguel Nicolelis

Para tentar algo para mudar o Brasil o neurocientista Miguel Nicolelis foi fazer seu pé de meia nos EUA. Ficou lá 20 anos e trouxe na bagagem um conceito que todos precisam conhecer: a ciência como agente de transformação social. Para isso a base é a educação. Em Natal, no Rio Grande do Norte, o seu Instituto de Neurociências já dá passos largos nesse sentido. Escrevo sobre ele porque o entrevistei - pela segunda vez - agora para a Revista do Brasil e gostaria que os leitores deste blog pudessem ter contato com esse grande brasileiro. Aqui indico o seu instituto com muito material e entrevistas que ele deu pelo mundo. Apesar de negar, Nicolelis é um candidato forte a conquistar o Nobel por tudo que vem realizando pela ciência. Ele diz que a ciência é da humanidade e afirma: “Temos de incentivar as crianças a aprender se divertindo, a construir uma nova democracia e a remover o entulho de inferioridade que acumulamos.”

sábado, 28 de março de 2009

Socializar a miséria

Vou colocar aqui algumas aspas das entrevistas que fiz com alguns professores temporários e que não entraram na matéria para a edição de abril da Revista do Brasil. Relembro, isso dá um dos vários lados do problema do ensino público no Estado, a maior rede do país.

"O principal problema para o professorado é a questão salarial e salas superlotadas. Eu tenho salas de manhã que têm mais de 40 alunos. E sei de colegas na periferia com salas de 50 alunos."

"A minha filha teve que estudar um ano na escola pública. Pra mim foi desesperador. Porque eu conhecia a escola e sabia que a coisa não funcionava bem. Depois ela foi, quando deu, para um colégio particular."
Maria Cristina, Campinas, temporária há mais de 10 anos

"A atribuição de aulas é briga de tapa mesmo. É socializar a miséria. Sobra migalha e aí tem que repartir."

Não é só a parte pedagógica que está complicada. A questão é social. A escola reflete o que está acontecendo aí fora. Falta de perspectiva."
Pedro (nome fictício), 47, temporário há mais de 20 anos no interior de São Paulo
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