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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 29 de abril de 2015

História Universal do Desperdício

por Ricardo Sangiovanni*

Meu tio me acha um desperdício. Não é maledicência, é bem-querer: pois tenho, ele diz, inteligência como em rara gente se encontra (perdoem o pobre: ele me viu nascer), devia estar era figurando nos altos escalões, sendo um da família a ter virado alguém.

Já poderia ter ficado rico, ou estar ficando. Calma lá também, que dinheiro não é tudo; mas é que gente assim inteligente merece mais é ter tudo do bom e do melhor: morar numa coberturazona no Corredor da Vitória, e ter carrão sim; não é pra morar em predinho feio, com esse carrinho de pobre envelhecendo no sol da vaga descoberta.

Assim diz meu tio. Assim subo do porão onde me empreguei como arraia miúda certo de ser um desperdício. Sim, mas que homem nesse mundo não é um desperdício? Que homem não é menos do que poderia, nesta terra patrimonialista em que subir na vida é, se muito, coisa franqueada a umas cepas de "inteligentes" ou de "fortes", de "bonitos" ou "espertos" no lugar e hora certos para serem incorporados ao sistema, nosso magnífico sistema social de ascensão pela exceção?

Não quero ser exceção de nada, não desejo o que se promete às exceções: quero mais é ser desta classe dos desperdiçados mesmo. Somos uns desperdícios, eu e meus colegas de todos os porões onde se sonha com a transformação das gentes e do mundo pela inteligência e pela educação, pelo talento e pelo trabalho, por tudo enfim de diverso que nos faça mais iguais. Nós, mas também os que ganham a vida correndo atrás de nós e dos mais pobres que nós: é que no fundo somos todos, maltrapilhos e engravatados, os da Federação e os da Vitória, cabos e coronéis, parangolés e barões, uns subaproveitados no que de melhor nos vai na alma. Somos a História Universal do Desperdício.

Aí, em minha fantasia, resigno-me a sentir-me mais rico que o maior dos magnatas quando desfruto a fortuna que meu empreguinho proporciona, que é encerrar o expediente às catorze, e subir a tempo de alcançar o sol ainda alto, e comprar um cacho de bananas, e olhar o jeito do povo, e ficar secretamente à espreita, à espera de, num dia desses, avistar dobrando a esquina uma multidão fazendo a revolução, e ir atrás dela, e não voltar nunca mais.

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Ricardo Sangiovanni, jornalista, mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 3 de março de 2015

Aos trinta, síndico, Carlos

por Ricardo Sangiovanni*

E eu que pensei que um dia viraria poeta, Carlos, acabei síndico de prédio. Aos trinta, Carlos: síndico de prédio!

Custou crer a meus amigos. Um perguntou se eu houvera faltado à reunião de condomínio e - oh, desgraça! - fora eleito à revelia. Não, não faltei. Outro riu-se indagando se acaso no prédio não havia algum aposentado no auge da carreira, mais disposto a abraçar o fardo. Não, não havia.

Aconteceu tem só três meses, Carlos, mas já pude confirmar o que previa: a vida de síndico empata mesmo a poesia. Porque a alma do poeta esmaece ante a burocracia mofada do cartório, que lhe obriga a ir três vezes ao maldito se não quiser pagar propina para registrar uma pinoia de documento. Alma de poeta não foi feita para pegar senha de banco em banco, Carlos, e ter que esperar uma vida para ouvir que não, obrigado, não temos interesse em abrir conta para prédio pequeno. Poeta não é para administrar caixinha, Carlos, nem para preencher tabela dinâmica, nem para gastar o latim renegociando os atrasados. Não é para se preocupar com vazamento de água, nem para descer de chinelo sábado à tarde para enquadrar o miserável do bêbado que meteu o carro na grade. O poeta morre se tiver que resolver todas as bagaças que ninguém mais quer resolver - e é aí, Carlos, que nascem o síndico e sua tragédia silenciosa.

Mas, Carlos, espera aí: os síndicos deste Brasil também têm direito a ser um pouco poetas, cara pálida. Então, como é que fica? Quem é que vai garantir o direito universal à poesia aos síndicos, e mais a todas as outras classes de pobres diabos iludidos de que há que se fazer, sem prevaricar, alguma coisa pelo que é coletivo? Até quando quem quiser ir além do próprio umbigo haverá de seguir pagando com a alma, que é o preço que cobram essa nossa falta de espírito público galopante, essa burocracia hedionda, esse tempo que já não dá para nada?

Também não precisa ter pena, Carlos - eu mesmo não tenho: ou o poeta em mim sobrevive ao síndico, ou melhor não haver diabo de poeta nenhum. A propósito, talvez o destino ainda me queira gauche: mês que vem começo, como você, a trabalhar em repartição. Valei-me, oh, Carlos! Valei-me!

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Ricardo Sangiovanni, jornalista, mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sobre palavras e coisas

por Ricardo Sangiovanni*

Põe as duas mãos na parede, cidadão. Abre as pernas, cidadão. Mais, cidadão. Documento, cidadão. Tira tudo da moto, cidadão. Fuma maconha, cidadão? Vou te levar preso, cidadão. Você está surdo, cidadão? - vocifera um soldado a um morador de um bairro pobre do Rio de Janeiro, num vídeo na internet.

Não sei se senti mais agonia por me colocar no lugar do homem, ou se pela centena irritante de vezes que o militar rugiu cidadão enquanto aviltava a cidadania do rapaz.

Sei que não deveria, para não parecer ingênuo, me espantar com esse tipo de manobra do vernáculo. Mas quando vejo esse soldado dizer cidadão - ou o papa católico exortar os jovens a serem revolucionários; ou o polemista liberal repelir discussões sobre liberdades civis - não fico imune ao espanto: estão sempre lá as benditas das palavras, usadas como se pudessem servir a qualquer propósito, sorrateiramente contradizendo até seus significados conhecidos.

Nisso não há novidade, dirão os especializados em dissecar o espanto de nós tolos: o vínculo entre o que se diz e o que se faz já não existe desde, sei lá, Maquiavel. Concordo até; mas as dicas do mestre florentino eram para políticos na gestão do Estado, não para gente comum na gestão da vida.

O que enxergo, cá com minha miopia, é uma naturalização alvoroçada desse divórcio entre as palavras e as coisas - entre "retórica" e "prova": parece que isso está se espalhando mais rápido entre nós comuns, se trivializando na medida em que nos ocupamos mais e mais em alimentar nossas próprias imagens públicas, potencializadas nas redes virtuais. Mas esse divórcio, como ensina o historiador Carlo Guinzburg, nada tem de natural: nossa ideia comum do que seja retórica hoje - "mera retórica", "retórica vazia" - não tem lugar na retórica original, lá de Aristóteles: a arte era de persuadir, sim, mas do que fosse verdadeiro.

O uso leviano das palavras, calculando antes o que possam agregar à imagem de quem as profere (as profana), é por fim adubo no terreno fértil das timelines, onde seguem brotando preconceitos - contra pobres, negros, mulheres, homossexuais - arados por gente espantosamente apta a sustentar que não, imagina!, não é classista, racista, machista, homofóbica.

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Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

As patinadoras


por Ricardo Sangiovanni*

Já ia dando a meia-noite, e a moça do caixa do supermercado não conseguia de jeito nenhum fazer passarem pelo leitor de códigos de barras os dois últimos produtos de minha cesta de compras. "Agora ela vai chamar a patinadora para trocá-los", torci infantilmente.

Torci inutilmente: pois há anos já que não se ouvem mais nos supermercados daqui o tilintar das rodinhas presas às pernas compridas daquelas mocinhas; nem se lhes vê mais o movimento gracioso dos braços e mãos ao deslizar, cujo charme guardo em minha recordação de menino.

Lamento, mas, na falta das patinadoras, perde o leitor dominical. Duplamente. Primeiro, porque faltará, ao cronista mundano que porventura eleja por tema "o supermercado", matéria poética para preencher o espaço da crônica.

Segundo porque, na falta do quelque chose das meninas, o mesmo cronista terá de preencher o mesmo espaço com algum outro e mais aborrecido assunto.

Pois bem: sem as patinadoras, perde o mundo em geral, em beleza; e os supermercados em particular, em presteza. (No caso, em vez da patinadora, a moça do caixa gritou, com cansaço ou ódio talvez na voz, um barrigudo "Luís", que levou uma eternidade para retornar com os produtos trocados).

E sem beleza nem presteza, o cidadão comum se irrita, e atenta mais facilmente para o fato de que não está ali plantado naquele diabo de supermercado por gosto, senão por melancólica necessidade. Emerge-lhe cristalina a convicção de que não há lugar mais insalubre para se estar à quase-meia-noite do que um supermercado, com seus víveres de duvidosa qualidade, suas filas abomináveis.

E por falar em fila, o cidadão comum, quando ocorre de ele ser também o cronista, aproveita para denunciar que grandes supermercados desta cidade estão ignominiosamente acabando com suas demoradíssimas filas únicas para compras de poucos volumes - atendidas por dois ou três parcos caixas -, substituindo-as por duas ou três demoradíssimas filas menores - em frente aos mesmos dois ou três malditos parcos caixas!

E assim termina a crônica, que era para ser leve, mas, por culpa dos supermercados, virou essa maçada. Já que nos tiraram a beleza das patinadoras, ao menos, pela presteza, botem mais caixas, seus sovinas.

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Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. Arte de Cínthya Verri

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sem graça


por Ricardo Sangiovanni*

Sentei já todo gaiato agora há pouco na frente do computador decidido a contar-lhes hoje a história da diarista da casa de minha sogra, que botou o marido no jeito na base do cipó quando o flagrou dando uns amassos numa sirigaita desenxabida detrás da igreja.

Mas acontece que vou ter que lhes pedir desculpas, não vai dar: caí na besteira de dar uma folheada nas internets antes de começar o relato, e li uma notícia que me levou a graça embora.

O título era “Ensino da cultura negra ainda sofre resistência nas escolas”, na BBC Brasil. Falava em geral dos problemas da implementação do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, mesmo tendo-se passado já dez anos da lei que determina a obrigatoriedade do dito cujo.

A matéria está bacana, honesta, normal. Tem, ademais, minha adesão ideológica: hoje mesmo comentava com o pessoal que, se alguém diz “macarronada”, logo pensamos na pequena Itália; falou “bacalhau”, acionamos o minúsculo Portugal; mas, se alguém diz “acarajé”, contentamo-nos com a ideia genérica e imprecisa de “África” – como se África fosse uma coisinha miúda, um vilarejo na beira da estrada, a primeira quebrada à direita depois que passa Feira de Santana.

Enfim: o que me roubou o bom humor foi o comentário de um cidadão que se identificou como “Diego”, “filho de negro com branco”, no pé da reportagem. Transcrevo: “Meu filho tem que aprender matemática, literatura portuguesa. Não é porque o Brasil teve um período escravagista que ele tem de estudar sobre a cultura “afro-brasileira”. Perda de tempo estudar isso, o ideal é substituir essa parte para aprender outro idioma. Pois assim estaria mais preparado para encarar a vida no resto do mundo. De preferência o idioma inglês, mais falado no mundo todo. Empreendedorismo, biologia na prática etc… Estudar cultura afro-brasileira é perda de tempo e não prepara as crianças para a vida, para esse mundo do cão.”

Diego, meu camarada: aí você pegou pesado. Talvez tenha sido só uma fala infeliz essa sua, mas arrisco dizer que gente que pensa assim como você pensou nessa fala reproduz um esquemão colonial secular, que é justamente o que mais precisamos superar (muito embora com toda consciência): de um lado, um mundo globalizado, moderno, competitivo, que requer conhecimentos funcionais que nos “preparem para encarar a vida no resto do mundo”; de outro, um mundo tradicional, ancestral, “africano”, que é até curioso e tal, mas que a rigor não serve para nada, afinal essa história de escravidão já passou faz é tempo, vamos deixar isso para lá, para depois, para nunca, no fundo do baú.

Não sei, Diego, em que parte de “ensino de cultura afro-brasileira” pessoas que pensam como você nessa fala lêem “em detrimento do ensino de tudo o mais necessário para se viver nesse mundo cão”. De contrabando nesse seu argumento, parece haver uma ideia atravessada de que aprender sobre a África significa praticamente arriscar-se a uma espécie de “reescravização”. E mais: que basta ir branqueando, quando não a pele, o jeito de ser, de pensar, de viver, no passar das gerações, para superar a tragédia que foi esse “um período escravagista” que durou mais de 300 anos nesse Brasil.

Qual nada, Diego: precisamos saber mais – quando digo mais, é ao nível corrente da conversa mundana, no nosso dia-a-dia de arraia miúda – sobre a África sim, porque precisamos entender um tiquinho melhor e respeitar mais trejeitos, costumes, heranças africanas que estão no nosso dia-a-dia, mas que ignoramos ou tomamos por simples e “genuinamente brasileiros”.

Precisamos saber da África, Diego, porque em cada pedaço dela existem povos e culturas diferentes, tantas quantas – ou provavelmente mais que – as que existem nos retalhinhos da miuditica Europa. Será que ignorá-los nos ajuda a aprender melhor o inglês?

Precisamos saber da África, meu bom Diego, porque o cabelo encaracolado do garoto entrevistado nessa matéria que você leu tem origem, tanta e igualmente humana origem quanto os cabelinhos escorridos meio alourados dos coleguinhas que provavelmente lhe puseram o apelido de “Bombril”. Não, Diego, não vamos pedir ao garoto que simplesmente não dê ouvidos aos coleguinhas bobos – porque ante a discriminação não dá para se fazer de surdo, porque dói; discriminação é uma desgraça, Diego – você sabe.

Em vez disso, que mal há em pretender que se ensine (falo ensinar à vera, não só por “3 meses, por 30 minutos a cada 4 dias apenas”, como você propõe) a toda essa molecada de tudo quanto é cor que na África existem povos que são tão povos quanto qualquer povo de pele clara desse mundo, e que muito do que somos descende diretamente de alguns deles, os quais portanto merecem tanto respeito e reverência quanto qualquer outro?

Enfim, Diego, precisamos saber da África por muitos outros mais motivos. Para encurtar conversa: você me deixou de mal humor, cara. E privou meus leitores das risadas que dariam com a história ótima do cipó do amor. Estamos todos putos contigo, Diego. Abre o olho.

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Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Crianças de nossos dias


por Ricardo Sangiovanni*

 Pedro chega chorando para a professora.

- Não sou falso nada!

- É sim, você é o falso sim. O verdadeiro é o outro Pedro. Você é o F-A-L-S-O – repisa Gilmar, seu coleguinha.

- Sou falso nada! – repete Pedro, e chora mais.

A professora pergunta o porquê da polêmica.

- Ele é o falso porque, quando ele chegou aqui na escola, já tinha um Pedro antes. Quem chega na escola antes é o verdadeiro. O que chega depois fica sendo o falso. Eu mesmo, sou o Gilmar verdadeiro.

***

Outros dois meninos desenham.

- Esse lápis aqui, é que cor?

- É cor-de-pele.

- N’é nada!

- É sim!

E vão tirar a dúvida com a professora.

- Esse aqui é o cor-de-pele, n’é? – pergunta um.

- É sim – confirma a professora.

- Mas cor-de-pele não é esse outro aqui? – pergunta o outro.

- Esse aí também é cor-de-pele. Os dois são cor-de-pele, e além desses existem mais vários cor-de-pele diferentes.

Desfaz-se a querela. Os lápis em questão eram um rosa clarinho, e o outro, aquele amarelinho esmaecido. Os dois meninos eram negros.

***

O pai, engravatado, enquanto espera o filho na porta da escola, compra um saco de pipocas. Leva a boca do saco diretamente à sua, despejando as pipocas de cima para baixo. De dentro da escola, uma garotinha o flagra.

- Hei! – grita. Você tá BEBENDO a pipoca! Não pode beber a pipoca não, pipoca não é de beber! É de comer, assim, ó – e ilustra – , com a mãozinha.

O homem estacou. Jamais tornou a beber pipoca de novo na vida.


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*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sinal da cruz


por Ricardo Sangiovanni*

Não foi pouquinho tempo – foram anos e anos da vida que Jorge Martins passou fazendo o sinal da cruz daquela maneira.

Não fora por invenção sua, senão por exortação de certo frei mestre de gramática da criançada lá de sua saudosa Guimarães – ai de mim, Guimarãezinha… – onde dom Afonso Henriques primeiro declarou existência aos Portugais.

Chamava-se o homem Álvaro de Monção, ele recordava. Era esse o nome do homem que havia sessenta anos pouco mais ou menos persuadira-lhe a si e ao restante dos putos que o certo era que se benzessem d’outro jeito.

Alegava o dito cujo que “no credo dizemos Filium ejus, et qui sedet ad dexteram Patris, e que David, no seu salmo diz dixit dominus domino meo sede adexteris mieis, e no símbolo de Atanaseu, sedet dexteram dei Patris, e noutros versos da Igreja, qui sedes adexteram miserere nobis”.

Para então sustentar, a si e aos miúdos, persuasivo feito só mesmo Satanás havia de ser, que o certo não era descer com a mão da cabeça até o peito na hora de falar “em nome do Filho”. Pois se o Filho, conforme comprovavam as escrituras, sentava-se à direita do Pai, mais fiel então seria levar a mão da cabeça ao ombro direito: In nomine Patris, et Filis…

De sorte que, desde que ouvira tal ensinamento, Jorge Martins passara a fazer o sinal da cruz daquele jeito, em forma de roda, indo primeiro da cabeça ao ombro direito, depois ao centro do peito, e dali ao ombro esquerdo, amen.

E assim o fizera desde sempre, seguro por mais de cinquenta anos, em Portugal e depois também quando veio para a Vila de São Jorge, que ajudou a levantar na capitania dos Ilhéus.

Só largou o costume há bem uns cinco anos, quando, já espreitando a morte, resolveu averiguar se aquilo fosse porventura pecado, e então uns padres disseram-lhe que tomasse tendência e passasse a se benzer normal, igual a todos os cristãos, que era o melhor que fazia.

E a quem a esta altura já esteja pensando tratar-se de anedota inventada, que trate de consultar a confissão de cujo homem ao Santo Ofício, no tempo da graça em que a todos os pecados se absolvia, em data de 3 de agosto, ano 1591.

Só o que me atrevo a afirmar é que, mesmo absolvido, Jorge Martins jamais deixou de temer, por todos os dias até o dia de sua morte, que nem sua confissão, nem seu arrependimento, nem nada pudesse ser suficiente para salvar-lhe a alma do inferno. Pois que absolvição de padre bastaria, contra toda uma vida vivida em pecado?

Jamais também deixou de pensar na desgraça que, àquela altura, já teria sombreado (ou que haveria de sombrear ainda) a vida de seus coleguinhas das aulas de gramática, aquela boa e ora já velha malta de Guimarães – ai de mim, Guimarãezinha…

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*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Nesta semana que passou

por Ricardo Sangiovanni*

Nesta semana que passou, as crianças evangélicas não quiseram fazer o dever de casa sobre cultura africana.

Jair Bolsonaro deu um murro na barriga de Randolfe Rodrigues.

Pastor Lucinho cheirou a bíblia, para mostrar à juventude que a bíblia dá mais prazer do que as drogas.

Marco Feliciano chamou a polícia para prender as meninas se beijando no meio do culto. Disse que oraria pela salvação delas.

O dono da pasta Barilla falou que não quer saber de vender macarrão para viado.

A fixação anal – sem meias palavras: a mania de cu – da Bahia contemporânea virou matéria de um jornal.

E os sádicos de um outro fizeram a dondoca rica trocar a limusine pelo ônibus, e a empregada dela andar por um dia de carro, só para ver como é que é.

E Dilma – essa foi a melhor – Dilma encontrou Dilma Bolada.

Nesta semana que passou, estive preocupado em arranjar uma casa para morar; descolei um trabalho de jurado de concurso literário infanto-juvenil; e o resto do tempo passei desperdiçando minha saúde com um par de serviços que em nada alterarão os desarranjos desse mundo, em troca de trinta dinheiros, nada mais.

Então ocorre que, misturando isso aí tudo, minha cuca ferveu antes que eu pudesse reunir coisa sequer que prestasse em grau de concorrer com as anedotas desse museu de grandes novidades.

Nesta semana que passou, vocês não me levem a mal, meus amigos, mas eu passei.

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*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Primavera


por Ricardo Sangiovanni*

 Faz tempo que não falo de amor nesta tribuna. E sendo os escritos de amor campeões de audiência deste blog – e de todos os mais que possam haver – , fica de saída comprovada a proposta anti-populista de minha atuação neste espaço.

Mas é que faz tempo mesmo que não falo de amor, nem aqui nem em conversas de mesa de bar ou de beira de cozinha por aí.

Isso – não fui sempre assim – é de uns anos para cá. Já enchi os ouvidos de muita gente que me quer bem com lamentos angustiados e odes românticas, imprecações veementes e declarações derramadas, e sobretudo com uma porção de teorias sobre ser o amor isso ou aquilo ou aquilo outro.

Aliás, espanando a memória, recordo que esse negócio de amor já amolou muito meu coração nessa vida.

Comecei cedo a me importar com isso, aos nem bem sete anos, com um amor platônico que me consumiu os quatro anos do primário na escola. Era uma coleguinha diante da qual me sentia completamente abestalhado. O máximo que consegui foi que um dia déssemos as mãos – não por investida minha, senão por um sorteio que nos colocou lado a lado em uma caminhada pelo Sete de Setembro, ou era o Dia da Árvore, já não lembro.

Fui salvo de tamanha consumição quando passamos para o ginásio, e a menina mudou de escola. Mas, logo no ano seguinte, arranjei outra musa, que por fim consegui, depois de três anos de tenaz e secreta admiração, namorar por alguns meses. Ela me disse que me amava, e logo depois me deu um mui amoroso fora, e então penei, Deus como sofri, sofri como não gostaria que um dia o filho que ainda não tive sofresse.

Depois experimentei um longo relacionamento com amor meio curto, e uma trinca ou quadra de longos amores com curtos relacionamentos, histórias nas quais ora novamente sofri, ora também fiz sofrer de maneiras que, igualmente, não gostaria que se repetissem. Em comum entre todos, noto agora o fato de terem sempre me consumido as vísceras, em certos casos mesmo tirado-me o ar (não sei como é isso para vocês, mas em mim o amor recusado, reprimido, provoca a sensação real, física mesmo, do sufocamento).

Tudo isso, porém, sem apreço nenhum pela loucura. Quero dizer: nunca achei que o amor devesse ser louco, desmedido, desvairado. Sempre enfrentei tudo fazendo o máximo para que cada confusão passasse logo. Logo cedo, naquelas primeiras experiências, aprendi a repugnar o amor demasiado romântico, e desde então sempre sonhei com uma companhia calma e boa, com quem pudesse estar no máximo de situações com o mínimo de incômodo, de alteração de meu estado natural possível.

Acontece que matutar muito, maturar cedo demais para o amor faz a gente demorar de aprender um negócio essencial para poder viver esse nobre sentimento em paz. É minha opinião, vocês talvez pensem diferente, mas a gente só se apronta para o amor depois que experimenta ser sozinho na vida, depois que se expõe à encruzilhada do Grande Sertão – que é onde aparecem os heróis e os demônios de cada um – , depois que se arrisca a ela e se retorna vivo dela. Porque afinal a pessoa não é o que pensa, não é o que busca, nem é o que quer; a pessoa é o que sobra.

E tendo de mim sobrado algo, bati pé firme de que esse negócio de amor era para ser fácil. Não quero dizer leviano, nem sempiternamente plácido, nem carente de beleza nem de paixão ou musicalidade. Queria que fosse simplesmente bonito e presente, que me fosse espelho ao passo em que me movesse para frente – que fosse, em suma, alegre, íntimo, sonhador e real, e que, no saldo, me trouxesse paz de espírito, porque afinal essa vida já tem coisas demais para consumir a carcaça da gente. Em troca, minha contrapartida seria ficar quieto, calado, deixar de ficar fazendo filosofê e tratar de viver o danado quando ele de novo me aparecesse, para ver se dele aprendia algo.

Deu resultado: não demorou muito e, precisamente hoje, abre-se já a terceira primavera desde que a mulher mais radiante e plena que já tive a sorte de conhecer surgiu em minha vida, com um sorriso branco e uns olhinhos de girassol que amoleceram – jamais amolaram – meu coração.

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*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. Ilustração de Aitana Carrasco

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Saudades Eterna

por Ricardo Sangiovanni*

Alithea, esposa de James Woodcock, morreu em 26 de agosto de 1850. Partiu jovem, com 28 anos apenas.

Dali a quinze anos, em 1865, morreria também a filha do casal, Elizabeth, também num agosto – dia 12 – e também jovem – com 24 anos.

Mais dez anos passariam até que morresse Benjamin, irmão de Elizabeth, filho de Alithea e James Woodcock, em 14 de abril de 1875. Jovem ele também: tinha 24 anos.

De tudo isso fiquei sabendo no dia em que visitei o cemitério abandonado de Sheffield, uma simpática e cinzenta cidade do norte da Inglaterra onde pude viver por alguns meses. Terra de que tenho saudades, muito embora não devesse – afinal em Sheffield sofri com o frio cortante e a renitente garoa, comi mal, bebi, fumei e trabalhei muito, e não vivi nenhum amor. Mas, enfim, saudade é essa coisa, a gente não explica.

Talvez por ter sido um período em que me sentisse criativo e imensamente poeta – aliás, foi lá que comecei com este bendito NR. A lápide da família Woodcock e as de outras eu fotografei para caso um dia houvesse precisão de pôr nome verossímil n’algum personagem literário que porventura viesse a criar.

Acontece que desde então já mais de dois anos se passaram, e nenhuma história de personagem nenhum me surgiu – nem sei se um dia surgirá – , de maneira que eis-me hoje aqui revelando-lhes os truques de minha vida literária sem jamais ter tido uma.

Mas também, olha, isso de vida literária virou uma franca bobagem, porque requer mais mesmo é que o denominado escritor acumule pilhas de filigraninhas inúteis sobre livros e literatos, e que viva destilando menções sobre eles, e barroquiando a palavra fácil, e dando entrevistas para explicar seus processos criativos e influências e afins; enfim: requer bem mais vestir-se de toda uma parafernália pop, bem menos tratar de viver e pesquisar e padecer e lapidar até chegar a algo que preste que mereça ganhar forma de livro.

De sorte que, ao tomar a família Woodcock por mero estoque onomástico, por pura ansiedade literária, eludi a pergunta fundamental, da qual talvez parisse alguma literatura: por que será que a mulher e os filhos de Woodcock morreram todos tão cedo? Terão sido vítimas do trabalho extenuante nas fábricas insalubres da região? Ou terão morrido cada um por um motivo: Alithea de complicações do parto de Benjamin; Elizabeth pela saúde frágil que passou a ter desde que precisou trabalhar para suprir a falta da mãe; Benjamin porque, na falta da irmã e da mãe, deprimiu-se e entregou-se ao álcool e ao frio? Ou, pior: terão sido progressivamente eliminados pelo próprio Woodcock? Ou, ainda pior, por sua segunda esposa, Hannah Rodwell, ou por ambos mancomunados, uma vez que esses dois só morreriam (como informa também a lápide) muitos anos depois, já próximos de completar 80 anos?

Cada uma dessas perguntas daria início a uma bela história inventada, de fato. Mas, ainda assim, talvez nenhuma delas fosse a pergunta correta. Talvez mãe e filhos tenham morrido vítimas de alguma maldição conhecida em toda a cidade na época, feito uma maldição que já se passou na cidade de Poções – Bahia, entre final dos anos 1960 e início dos 70. Foi uma doença congênita, cujo nome agora ignoro, que levou cedo três irmãs, aliás as moças mais bonitas da cidade: Vaneide, aos 23, Rosa Amélia, aos 22, e Vera Lícia aos 26 anos.

Assim contou-me meu pai, em uma visita que fizemos ao cemitério da cidade certa feita. Se fosse para eu ser escritor, talvez já tivesse transformado essa história em algum conto, ou com ela dado início a algum romance. Mas não, segue me interessando mais ir amealhando semelhanças, miudezas que vou guardando num baú infinito de lembranças soltas e trocos de pinga, coisas que talvez ainda volte a encontrar no futuro, talvez não.

Aliás, naquela visita, fixei-me, mais do que na história das moças, no epitáfio escrito nas lápides delas: Saudades Eterna. Reparando, vi que é o que está escrito não só nas lápides delas, mas em quase todas as lápides do cemitério: Saudades Eterna. Estranho: achava que o certo fossem saudades eternas. Ou saudade eterna. Enfim, não importa, de qualquer jeito é saudade, essa coisa que a gente não explica.

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*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Souvenir de Angola

por Ricardo Sangiovanni*

De todas as imagens de Luanda que pude ver, escolho a poética para deixar-lhes aqui de registro: um sol vermelho pendurado no meio da tarde, desenhando no chão a sombra de um majestoso baobá desfolhado; e o vento levantando poeira. Sol sob o qual vi que de fato ardem muitas misérias, mas muito mais atenção do que elas me chamou o jeito de ser do povo, tão sorridente e barulhento, tão entropicamente parecido ao de nosso Brasil, ao desta Bahia em especial.

À guisa de fundo musical minha memória elege a canção que pude apreciar cantarem sete, talvez oito senhoras da comunidade do Zango, na periferia da periferia da cidade. Delas lhes pouparei de minha descrição imprecisa: vistam-nas com aqueles panos coloridos de nossa imaginação de África; ponham-lhes umas unhas coloridas salientes nos dedos dos pés rachados; dêem-lhes a pele enrugada do rosto daquelas senhoras das fotografias de Pierre Verger, e não estarão distante do que vi.

Mas sobretudo ouçam-nas, ouçam-nas entoar num ecumênico kimbundo ancestral a música que ensaiavam para cantar na missa católica de logo mais. E, se for o caso, deixem-se tocar pela melodia, pelas vozes, pela afinação imemorial capaz de elevar o espírito de quem ouve, de transformar tudo o mais ao redor em passageira banalidade.

Gana tukuatele renda, tuakuai tuxi – para quem quiser escutar, são só 4:57. 

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

domingo, 1 de setembro de 2013

Chegando em África

por Ricardo Sangiovanni*

Gostaria, amigos, de já ter um ótimo causo para lhes contar, ou alguma anedota animada para lhes entreter, ou algum palavreado exótico para lhes informar, mas ocorre de eu me encontrar um bocado cansado, vítima de um primeiro dia de trabalho já intenso, por sua vez precedido por dez horas de voo, cinco de aeroporto e só duas de sono.

Mas o que me impede mesmo de escrever hoje é a emoção, uma grande emoção cheia também de pensamentos ricocheteantes que tento apanhar pelo rabo para transformar numa crônica mas não consigo. É a imensa emoção e honra de estar pisando, desde hoje de manhãzinha, em solo africano pela primeira vez.

De sorte que vou lhes poupar – e a mim mesmo, afinal estou me esforçando para levar a sério essa coisa de pensar o humano, o social, o cultural – de qualquer tentativa de por as impressões em palavras agora.

Vou-lhes ficar devendo a crônica que não redigi, a foto tosca de celular que não tirei, o video mirando minha cara com o sol se pondo no mar desta cidade de Luanda – que ainda não me concedeu licenca para que falasse dela – que não fiz.

Porque qualquer uma dessas coisas, neste momento, seria puro jogo de cena, puro anteprojeto de lixo virtual, puro arremedo de antecipação barata das experiências que ainda hei de vivenciar aqui – e principalmente das que não, haja vista o tiro curtíssimo da estadia. Qualquer coisa dita agora seria só uma bandeira a mais fincada, ainda que virtualmente, sobre este solo, este solo onde tantas bandeiras alheias já foram irremediavelmente fincadas, que não precisa de mais nenhuma.

Volto então na semana que vem, contando alguma coisa. Ou quem sabe nem conte nada, quem sabe o certo seja ver e sentir as coisas daqui, depois guardar tudo calado mesmo dentro de mim.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Carona solitária


por Ricardo Sangiovanni*

Sou um tipo ranzinza, pouco novidadeiro, é verdade; e é justamente por isso que cuido de redobrar no espírito a dose de uma antiga precaução: a de não desgostar de novidade nenhuma, a priori, apenas por tratar-se de coisa ou fato novo.

Porém que não me venha abusar da boa vontade esse pessoal que “inventa”, como se novidade fosse, alheias invenções do arco da velha, inventadas alhures, antanho, distante daqui. Descabelo-me mais ainda quando a invenção copiada, a original, já deu provas de sua redonda ineficiência – e, mesmo assim, é replicada.

O caso concreto em questão: a fabulosa “Faixa Solidária”, criada em Salvador, Bahia, Brasil, na quarta-feira passada. Foi o seguinte: a intelligentsia transporteira da prefeitura municipal netocarlista resolveu separar, em reduzidíssima porção da orla da cidade, meia pista de quem vai para ser usada por quem vem, desde que quem vem esteja dirigindo junto, no carro, com mais alguém.

A aposta, dizem, é que, a partir dessa iniciativa genial, desencadeie-se uma doce onda de solidariedade – tema, aliás, da Campanha da Fraternidade de mil novecentos e não-sei-quantos, não se esqueçam, irmãos em Cristo. Nobre sentimento que, espera-se, será decisivo para reduzir a quantidade de carros nas ruas de nossa urbe rude; sentimento que nos conduzirá, com fé, à vitória final prometida sobre esse terrível, esse dito adventício mal do século que é o engarrafamento.

Perfeito. Só que esqueceram de avisar aos baianos (ao menos aos que, como eu, passam de vez em quando o olho pelos jornais para saber o que está para acontecer na cidade) que a faixa solidária é uma artimanha já tentada em uma outra cidadezinha brasileira, uma cidadezinha acanhada e desconhecida, da qual quase nunca se ouve falar – talvez por isso ninguém tenha se lembrado dela – chamada São Paulo.

Foi no final dos anos 90 – acertou quem disse 1997 – e foi implantada não em uma, mas em oito vias movimentadas da cidade, coisa de 12 quilômetros, na soma. Começou reservada para carros com pelo menos três pessoas. Mas aí, vista a baixa adesão, liberaram para carros com duas pessoas. Passaram-se cinco anos, os engarrafamentos seguiram aumentando, e a quantidade de carros saindo pelo ladrão. Cadê solidariedade? Ora, amigo leitor, aí não teve solidariedade certa: nem bem 2002 tinha chegado à metade, a intelligentsia transporteira local (petista, nesse caso; intelligentsia não tem partido) não aguentou e resolveu liberar as tais faixas solidárias também para os motoristas dirigindo sozinhos, tamanha era a solidariedade que eles demonstravam consigo próprios em comoventes caronas solitárias.

E então as tais faixas solidárias paulistanas cumpriram seu verdadeiro destino, que seria cômico se não fosse trágico: tornaram-se mais e mais pistas engarrafadas, capazes, quando nada, de dar um aumentozinho no calibre das já entupidas artérias do trânsito de São Paulo. Pistas engarrafadas das quais, evidentemente, a São Paulo hoje já não pode mais prescindir. E os motoristas, pergunte se ficaram mais solidários…

Mas parece que nada disso aconteceu, que nada disso importa, que nada disso tem a ensinar a esse nosso intransponível bairrismo de Primeira Capital da Colônia.

Pois se o caminho é esse, começamos bem: em três dias, poucos usaram a faixa solidária, e o principal êxito foi ter-se criado um congestionamento onde não havia (a saber, no sentido de quem vai, que afinal ficou mais estreito). E assim segue a Bahia, sãopaulizando-se a cada dia. Aliás, sendo sãopaulizada, sãopaulizada no que a cidade de São Paulo – onde tive a sorte de poder aprender coisas da vida e fazer grandes amigos – tem de pior.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Há que se ser grave

por Ricardo Sangiovanni*

É sábado de manhã e faz sol, estou de saída para um caruru, hoje estava só na intenção de contar aqui, rapidinho, o caso das meninas que semana passada fugiram de minha aula chata para ir tomar café e imaginar Gramado, a linda e cordial, a bucólica e pacífica e feliz Gramado do Rio Grande do Sul que não conheço.

Mas não, porque há que se ser grave na vida quando nem bem uma semana faz que mataram com um tiro na cabeça uma colega de trabalho, e atiraram seu corpo no asfalto imundo em troca de um carro, de trinta dinheiros, de sei lá o quê de rico e desimportante aqui, tão longe de Gramado, nesta Cidade da Bahia.

Há que se ser grave, amigos, com ternura que seja, mas há que se ser grave, porque não há válvula de escape, não há leveza pura, não há risada burra, não há recortar-se do mundo que valha se depois o sujeito tiver de voltar e enfrentar de novo o mesmo mundo, o mesmo ou até piorado mundo, quando acordar segunda-feira.br

Há que se ser grave diante da brutalidade, da expressão aparentemente pura e banal da maldade perpetrada por um, por dois bandidos de meia tigela, que não sabem por que mataram, mataram simplesmente porque mataram, incapazes que foram de tomar outra decisão para cumprir sua missão bandida daquela noite.

Há que se ser grave quando se sabe que não foi o primeiro nem será o último crime de semelhante natureza nesta cidade, neste país; quando se sabe que não-sei-quantos mil crimes bárbaros nunca foram nem serão suficientes para despertar uma reflexão sincera, severamente auto-crítica, sobre o porquê de haver gente no Brasil assim, ruim, cruel, incapaz de pensar, antes de puxar o gatilho, na barbaridade do ato que está prestes a cometer.

Há, amigos, que se ser grave, diante de nossa incapacidade de compreender que o ódio que em nós desperta a figura daqueles dois pobre diabos é absolutamente normal, legítimo, humano – e, provavelmente, os defina mesmo. Mas mais graves ainda é necessário sermos para ponderarmos que tal sentimento não nos autoriza, enquanto indivíduos, enquanto sociedade, a fazer nenhuma leitura apressada, que repute simplesmente à “crueldade”, à “banalidade”, ao “mal” puro e simples e exterior a nós, “probos”, o homicídio daquela noite.

Há que se ser grave, em contrapartida, também diante da armadilha da culpa cristã: será que somos todos igualmente responsáveis, na soma e média aritmética de nossos atos individuais, por vivermos em uma sociedade capaz de semelhantes atrocidades? Sim, mas também não. Sim porque, de fato, reproduzimos e praticamos diariamente a exclusão de quem nos é exterior, de quem nos parece dessemelhante, e assim contribuímos para que a alguns seja dada a condição de homens, a outros, a de feras. Mas veementemente não, se a partir daí pretendermos acreditar poder banir o mal do mundo à base de pequenos, de individuais, de homeopáticos gestos de cordialidade, respeito, de caridade, de alguma forma elitista de bondade quiçá.

Há que se ser grave para tentar entender a natureza da “crueldade”, da “banalidade”, do “mal” que cada vez mais, no Brasil, se nos apresenta como “puro e simples”, entendê-lo no que nele houver de mais humano, para talvez, com sorte, descobrir e assumir a parcela de responsabilidade por ele que couber a cada fração de nossa sociedade. Nesse sentido, inspirado pelo ótimo filme sobre Hannah Arendt que assisti ontem – e recordando o pouco de seu trabalho que já li – palpito, mal comparando, que é preciso abandonarmos radicalmente a hipocrisia que nos leva a, feito escritores de maus folhetins, colocarmo-nos a nós mesmos no cômodo lugar de “vítimas”, e a partir de tal sentirmo-nos autorizados a exigir medidas, respostas, punições – da Polícia, do Governo, dos Céus enfim. Há mais é que se escrutinar, tenaz e continuamente, sem auto-complacência, a brutalidade à qual acreditamos estar meramente “expostos”. Porque se dois seres humanos são capazes de puxar um gatilho de revólver diante da cabeça de uma pessoa qualquer em nome de qualquer coisa que lhes pareça ser uma “missão maior” (ainda que tal não seja o complexo nazismo, mas “só roubar e escapar”), é sinal, amigos, de que algo de muito pernicioso há na sociedade, na cultura em que eles (nós) vivem(os) e se (nos) formam(os). Nada disso atenua a monstruosidade deles hoje, nem do crime que cometeram, mas é isso ou acreditar, simplesmente, que se trata de um par de feras, de erros da espécie, de “não-seres humanos”.

Enfim, há que se ser grave, ou então passar a vida sendo obrigados a dar uma fugidinha de vez em quando, para tomar café e ser feliz, lá longe, na distante, na imaginária Gramado de nossos sonhos.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O camarote do papa

por Ricardo Sangiovanni*

Disse outro dia a meus alunos – custa-me habituar-me a essa condição inverossímil – da faculdade de comunicação que não há ciência nenhuma na prática do jornalismo.

Torceram-se umas caras, uns quantos pares de olhos esbugalharam, e então perguntei se havia dito alguma besteira, se eles acreditavam no contrário. “Acredito, disse uma moça. Se não, não estaria aqui”.

Retruquei-lhe que não me levasse a mal, que estávamos todos nós ali na sala – como aliás estamos todos nessa vida - para perder ilusões. (Digo perder ilusões, não a capacidade de iludirmo-nos com ilusões novas, com sorte mais amadurecidas que aquelas perdidas.)

Pois avalie você, moça, o que foi a cobertura jornalística da visita do papa ao Brasil, e veja se não tenho um pinguinho de razão. Passamos uma semana inteira sendo massacrados por um noticiário que para mim foi o maior depoimento de que não há imprensa laica no país, nem critérios ditos jornalísticos que sobrevivam, na hora do vamos ver, ao olhar ideológico – pior, ao olhar hegemônico – das principais empresas brasileiras de comunicação. Qual ciência, então?

Pois digo e repito: não há, não há, não há ciência no fazer jornalístico em nosso país – nem sei se no mundo haverá. Fato que, se for verdadeiro, não deve nos espantar demais, afinal o jornalismo nasceu do prelo e tem como justificativa última (única) a propriedade dos meios de difundir informação, nada mais. Mas deve, sim, nos espantar um pouco, afinal, lá se vão décadas desde que abriram-se as faculdades de jornalismo – o que, se entendo bem, serve para atribuir critérios científicos à razão de ser da nobre atividade – , e a prática do dito cujo segue, tirando uma melhorinha aqui, uma piorinha ali, na mesma.

Se minto, é de boa fé, vocês me desculpem e por favor me corrijam. Mas sou levado a crer que, se por um lado o jornalismo de hoje em dia tornou-se mais permeável ao acesso de gente normal, sem sangue azul, às funções de imprensa – o que, isoladamente, é coisa interessante – , por outro, não faculta nem requer mais do jornalista função maior de pensador, à guisa de substituição dos antigos “intelectuais” das elites – o que, somado à tal permeabilidade, talvez resultasse em ganho, em ampliação do espaço para um jornalismo mais crítico, menos elitista, mais arguto, inteligente, democrático e, quando nada, confiável.

Mas o que ocorre é que, na falta de gestão e prática minimamente norteadas por critérios e debates científicos – e não por tecniquinhas do cu da gia – dá nisso aí: fora uma ou outra brecha, o fato é que quando chega a hora de falar de coisa séria, seguimos pedindo a benção a papas e afins, na maior faceirice (ver de 1min21s em diante).

E vamos nos acostumando, acoitados, a dourar a pílula de nossos pequenos méritos, a trocar os fins pelos meios, a reconhecer entre nós mesmos nosso valor profissional pelo “com quem conseguimos falar”, bem mais que “pelo que falamos, seja lá com quem consigamos (escolhamos) falar”.

Dou um exemplo: essa entrevista global, reputada como grandíssimo furo de reportagem, com o papa Francisco. Qual o grande êxito, senão o de “ter boas fontes”, senão o de “ter conseguido vencer a resistência do Vaticano” a que o papa desse a entrevista? Que ela tenha sido “a primeira”? Que tenha “durado 45 minutos”? Mas que moedas de avaliação de sucesso ou fracasso jornalístico são essas?

A quem a esta altura já esteja me acusando de estar polemizando isso apenas porque 1) não fui eu quem conseguiu entrevistar o papa, aliás a grande personalidade que terei conseguido ‘perfilar’ (oh, verbo mais infame!) na vida terá sido… Pablo do arrocha; ou 2) porque sou um baiano despeitado pelo fato de o autor da façanha ter sido um jornalista pernambucano; a quem pensa assim convido a dar uma revisada na entrevista – e na bolha de auto-vangloriação global que ela gerou.

Vocês notarão que 1) o papa não disse nada demais, nada além do que quis, sobre o que quis e como quis. Se tivesse mandado um video gravado na humilde choupana onde vive, o conteúdo bem que poderia ter sido o mesmo; 2) o repórter diz que não houve pauta combinada, mas também não perguntou nada realmente espinhoso (Ditadura na Argentina? Pedofilia? Aborto?), que dirá algo que permitisse ao espectador entender melhor o que há (se há) de concreto por detrás do humanismo-populista de Francisco; 3) no dia seguinte, o repórter foi o convidado de um programa da própria emissora para ser “sabatinado” pelos colegas jornalistas. No programa, ele ouviu dos pares orgulhosos que a entrevista fora o que “qualquer jornalista” (?!) gostaria de ter feito, e ficou-se ainda sabendo que ele presenteara o papa com um livro seu, com uma “dedicatória muito carinhosa”; 4) apesar da “entrevista exclusiva”, a única fala mais ou menos impactante do papa nesse balaio todo – o aceno, lido com lupa, nas entrelinhas e com muito boa vontade, de tolerância à homossexualidade – foi dada no dia seguinte, numa coletiva, no avião. Note-se que, apesar de ter sido em resposta a uma pergunta de uma jornalista brasileira, não havia sido bem aquilo o que ela perguntara… ; 5) o repórter, com aquela típica cara-de-ver-Deus, alumiada por um facho de luz dourada, admirou-se do fato de o papa ter tido a preocupação de perguntar a ele (a ele, pobre jornalista neste vale de lágrimas!) se tinha sido claro ao final de cada resposta.

Ora, tenha santa paciência. Entrevista por entrevista, tanto faz com papa, rei, milionário, artista ou mendigo: importa é que cumpra a função ou de problematizar uma/algumas questões, ou de apresentar criticamente alguém ao leitor ou espectador. Se o papa deseja parecer fofinho, aparece na tv mostrando-se um fofinho, dá uma entrevista exclusiva afirmando que é um fofinho, e quando chega domingo à noite você recebe um telefonema de sua mãe dizendo “você viu o papa, que fofinho?” (achou graça? pois eu recebi) – se isso aconteceu, é porque o rei está nu e ninguém percebeu; e, nesse caso, há algo de podre no reino do jornalismo, amigos.

Enfim, vou ficando por aqui, que não quero estragar o santo domingo de ninguém com meu fel blasfemo. Em resumo, assim cada vez mais segue sendo o jornalismo. E, com tristeza, cada vez menos jornalista sigo sendo eu.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Luta de classe


por Ricardo Sangiovanni*

 Escrevo hoje em solidariedade ao colega Antonio Prata, solitário cronista mundano de um jornal a serviço do Brasil.

Prata foi pai recentemente e, a tirar por suas últimas crônicas, luta, entre banhos e talcos, mamadas e choradeiras e mais a diaba da babá eletrônica, para manter preenchido o espaço dominical que o periódico lhe reserva.

Nunca fui pai, mas imagino o quanto deve ser difícil ser cronista de jornal nessa circunstância. Vejam o caso de Prata: há duas semanas, gastou sua crônica-estepe, uma que tinha de gaveta para o caso de qualquer eventualidade. Semana passada, não tinha cérebro para escrever coisa com coisa, mas mesmo assim, brioso e profissional, entregou ao leitorado um punhado de anotações sobre a rotina de pai recém-parido, as quais a mim ao menos inspiraram mais pena do que graça: deixe essas besteiras de lado e vá descansar, homem, ou cuidar de sua menina em paz, que o leitorado sobrevive sem você. Nesta semana voltou em boa forma, é verdade – mas, enquanto a bebê for pequena, sabe-se lá o que será das semanas que virão.

Então o Prata – goste-se mais, goste-se menos das coisas que ele escreve – o Prata é merecedor, neste momento, de todo o apoio de nossa classe, classe em vias de extinção que é essa nossa dos cronistas.

Porque o cronista de jornal, mundano, aquele contratado para encher umas tripas semanais ou diárias de miudezas e reflexões sem especialidade, historicamente, ou é um aristocrata ou burguês-rico que não escreve para ganhar o de comer, ou é um plebeu enganado, um tolo que achou de aceitar, em troca da suposta liberdade de dizer o que quer sobre qualquer coisa, o atroz compromisso de viver para contar.

Aceitou, por heroísmo ou vaidade, pertencer a essa estirpe rara de jornalista que pode escrever “eu”, como dizia Drummond. Mas isso aí logo passa, e sobra a vil obrigação de sentar-se à frente do computador ou pegar do lápis para escrever qualquer coisa, a ser publicada sempre naquele mesmo santo dia, em troca daquele vintém que, quando dá por si, o camarada já não pode mais dispensar. Quando passa a ter que sustentar família, aí é que lascou-se tudo mesmo.

Não me deixa mentir o velho Rubem Braga, que tantas vezes escreveu a crônica só pela obrigação de ter que redigir qualquer bobagem, quando o certo era estar na roça, chupando caju ou caçando paca. E mais, estão aí de prova os grandes que já se enfiaram nessa maluquice que é a crônica para jornal: Machado, Bilac, García Márquez, todos enfim uma vezinha pelo menos já abominaram a obrigação de ter que escrever aquela maçada quando, na verdade, o certo era terem ficado calados, porque afinal lhes faltasse coisa que prestasse a dizer. Vá lá: não fosse pela obrigação, talvez não houvesse Braga, nem Drummond, Bilac, Machado, Márquez e muitas de suas crônicas maravilhosas. Mas talvez eles tivessem tido mais momentos livres, de descanso, ou apenas simplesmente mais momentos vagabundos na vida – e quem, leitor ou patrão, tem real direito a negar-lhes isso?

De sorte que nós do presente, nós jovens cronistas destes anos dous mil e poucos, nos solidarizamos ao colega Antonio Prata, e em seu nome requeremos a si uns bons meses de folga sem prejuízo de seus vencimentos, a fim de que possa dedicar-se à sua bebê em paz, sem ter que pensar em diabo de crônica nenhuma. Nós intercedemos por você, ó Prata, nós jovens cronistas mundanos de hoje, que em nossa imensa maioria não recebemos um centavo pelo que escrevemos de bom nem de ruim, mas que, talvez por isso mesmo, sejamos um dedinho mais livres, não só para cronicar sobre o que nos der na veneta, mas sobretudo para deixar nosso espaço em branco quando a vida se nos afigura dura, incompreensível ou apenas mais necessária do que a escrita. Nós cronistas, colega Prata, que, como você, iremos todos no final das contas parar na mesma vala comum, que é a lata do lixo ou o esquecimento, ou (dá na mesma) n’algum livrinho para o limbo dos anais que um dia – não é certo – alguém no futuro distante terá interesse em etnografar, para mostrar como se usava pensar nesta nossa epoquinha absurda e remota.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pão com propaganda


por Ricardo Sangiovanni*

Levantou-se preguiçosamente o cidadão na manhã de domingo, e a primeira coisa que ficou sabendo é que a Vent & Lar vende ventilador de teto de acrílico por R$ 115.

E mais que a Castro Embalagens fabrica sacos para lixo em rolo; que o botox, carbocisteína ou selante capilar no centro de beleza e cosméticos Beleza Fashion sai por cem pratas; que a Reclident oferece aparelho dentário, implantes e próteses; e que Mário Soares, do consultório de nutrição, dá 30% de desconto no atendimento com bioimpedância para quem levar o anúncio recortado.

E assim o cidadão que acordou querendo só comer um pão foi obrigado a consumir, goela abaixo, a moqueca de anúncios de varejo que virou o saco de papel em que a padaria agora embala o pão nosso de cada dia.

Pois é, amigos: aqui na Bahia – e, pelo jeito, não só – saco de pão, aquele secular saco amarelo-pardo de pão, está com os dias contados: a padaria aqui perto de casa – aquela mesma de que já lhes falei certa feita - acaba de adotar as fantásticas embalagens da Pãopaganda (“sua publicidade no pão de cada dia!”), que já vai pela segunda edição, desta vez com dez mil exemplares. Dizem eles (eu duvido) que já distribuíram mais de 7 milhões de embalagens de papel nas panificadoras – com as quais (olha a sustentabilidade aí) retiraram 7 milhões de sacolas plásticas de circulação.

Sabem bem meus mais chegados que não sou homem de reagir com muito entusiasmo às maravilhas criativas da publicidade, do marketing, dessas coisas. Portanto, quem quiser discordar, pensar o contrário, abominar-me a condição de chato de uma figa e condenar-me a morrer pobre e cheio de ideologia, mais duro que pão dormido, que fique à vontade. Mas sou da seguinte opinião: acho de uma picaretagem sem tamanho essa história de vender publicidade em saco de pão.

Porque quem vende publicidade em saco de pão vende, a rigor, a alma de sua própria clientela. “Ô Freitas, aqui vêm por dia 5.000 pessoas comprar pão. Quanto você paga por isso?”, pergunta o dono da panificadora ao genial inventor das embalagens publicitosas. “Dou-lhe X por cabeça, Santos, mais as embalagens de graça, negócio fechado?”, retruca-lhe o publicitário. E arremata a padaria, de porteira fechada.

Quem vende publicidade em saco de pão nos vende sem nem nos perguntar se queremos ou não comer propaganda junto com o pão. Esses espertalhões vendem nossa paciência, nossa saúde mental, nossa paz de espírito dominical. Vendem a entrada sorrateira no sagrado espaço de nossos lares, faturam um trocado gordo e sem nos dar nem o direito de escolher, quanto menos o de pagar mais barato pelo pão – pois não seria o justo, já que a publicidade está custeando uma parte da farinha?

É tempo de unirmo-nos, amigos. Unamo-nos nós que damos duro diariamente, porque nós sabemos que ganhar o pão nos custa é muito caro para ainda termos de dar dinheiro a panificadores de segunda, a publicitários de quinta, a anunciantes de última, ao diabo que lhes carregue. Se querem que consumamos publicidade, que nos consultem, que nos paguem, ou que nos dêem um desconto no preço do pão. E mais: que paguem royalties a toda a cadeia milenar em torno do negócio do pão: aos mesopotâmios, por terem-no inventado; a Jesus Cristo, por tê-lo repartido na ceia, e ainda inventado a reza de que hoje a publicidade infame saca seus slognas chinfrins; e principalmente aos braços de quem amassa o pão, de quem o produz diariamente, às fornadas, suando naquele calor infernal há gerações.

Que seja isso ou nada, amigos. Isso ou nada.

E se for nada, não esqueçam que a LigueSite faz sites de 4 páginas por R$ 400 e entrega em três dias. Que a Porto de Biquini dá 10% de desconto e a Dryclean – que é muito mais que uma lavanderia – dá 15%, mais delivery grátis…

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 16 de julho de 2013

O pijama de Antônio

por Ricardo Sangiovanni*

Queria fazer aqui uma denúncia ao pessoal das centrais sindicais: quinta-feira passada, dia da manifestação, Antônio, um dos dois Antônios que é porteiro aqui no prédio onde alugo este apartamento, veio trabalhar normal, não se abalou nem nada de ir para a rua protestar.

Mas trabalhando – disso fiquem sabendo vocês, pessoal das centrais – Antônio protesta mais, bem mais do que se parasse um dia só para se manifestar.

Antônio pega no serviço todo dia às dezoito da tarde, para largar só às seis do dia seguinte. (Por sinal, doze horas, pessoal das centrais sindicais: cadê vocês? Enfim, deixa quieto, que não é sobre isso a crônica.)

Se o morador daqui chega em casa cedo, até umas vinte, vinte-e-uma da noite, capaz que ainda pegue Antônio todo empertigado, de sapato lustrado, calça social, camisa de botão com o nome do condomínio bordado, de cinto e tudo, luxando numa fineza danada.

Mas passou desse horário, é batata: lá vai Antônio abrir o portão arrastando pendurado no pé seu borrachudíssimo chinelo (também, não tem pé que aguente aquele tijolo de sapato), já vestido com sua calça preta moleton (a mais velhinha que a pessoa tem, a do elástico folgado, sabe?), mais o usual blusão vermelho, puído mas de estimação – de manga comprida, é claro (porque de noite bate um ventinho, aquilo esfria os ossos que só vendo).

E assim, todo dia, Antônio se manifesta: imprime um pijâmico ritmo a uma parte de seu trabalho inglório, que é levantar-se da cadeira toda santa vez que chega alguém na porta, a pé ou de carro – aliás, a esse propósito, amigos, creiam: moro num prédio 1) de cujos portões nenhum morador possui a chave, dependemos todos do porteiro; e 2) no qual se arranja muito dinheiro para reformar as pastilhas da fachada, e nenhum para instalar um bendito de um portão automático para facilitar a vida ao trabalhador da portaria. (A síndica a esta altura estará pegando da caneta para escrever-me uma carta, lembrando-me de que o condomínio recentemente fez uma benesse aos porteiros, comprou-lhes uma televisão nova, grandona, inquirindo que isso eu não boto na crônica. Pois boto, dona síndica, e digo mais: arranja-se muito dinheiro para comprar televisão, e nenhum para instalar um bendito de um portão automá…)

E tem mais, pessoal das centrais sindicais: não é só Antônio não, viu? É todo mundo, no Brasil todo mundo é cedo ou tarde obrigado a dar um galho no trabalho, porque aqui pelo trabalho paga-se uma miséria, dá-se uns benefícios indignos do nome, e cobra-se em troca o couro do cidadão. Essa Bahia onde vivo é talvez a prova maior de que o ato, a noção mesma de trabalho, no Brasil, já leva em si, incorporada, um quê imenso e diário de protesto.

O brasileiro trabalhador já está se manifestando, pessoal das centrais sindicais, desde que se inventou o trabalho neste país. E está desde sempre acordado, pessoal das centrais sindicais. De pijama, que seja, mas muito bem acordado obrigado.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Consumidores perfeitos


por Ricardo Sangiovanni*

Sigo animado a conversar e escrever sobre esse tempo de manifestações, mas hoje resolvi escolher um tema específico, porque 1) sou ignorante na maior parte do que gostaria de falar; e 2) noto que há muita gente – gente muito boa – observando de longe, falando demais, demasiado rapidamente e, por isso, falando bobagem sobre tudo e cada coisa que está acontecendo.

Queria lembrar-lhes uma dicotomia interessante anotada por Milton Santos – que, se estivesse vivo, talvez nos ajudasse a entender melhor o que anda se passando, sem falar como se fosse alguma inteligência ex machina, sem tiradas satíricas do arco-da-velha, sem tratar o leitor comum como criança, como incauto partícipe menor de um inextricável teatro político.

Em “O Espaço do Cidadão”, de 1987, o geógrafo propõe a ideia de que o povo brasileiro teria passado, graças a um longo período de exposição a políticas neoliberais, da condição de “cidadão imperfeito” à de “consumidor-mais-que-perfeito”.

Quer dizer: no Brasil, antes que se consolidasse a formação dos indivíduos enquanto cidadãos, dotados de compreensão profunda das relações sociais e de seus direitos (os individuais e os de viver num país em que todos tenham iguais oportunidades e acesso a serviços), optou-se por impulsionar nossa condição de consumidores – ou seja, indivíduos dotados do direito universal ao consumo e nele justificados; capazes de se mover no sistema, mas não de questionar suas premissas e consequências, que dirá de propor-lhe transformações concretas.

Que acontecia há coisa de 30 anos, na visão de Milton Santos? Na falta de clareza sobre sua condição cidadã – do que se depreende a falta de consciência do poder de ação e transformação que dele decorreriam – tinha-se uma população de consumidores-mais-que-perfeitos – ou seja, consumidores que consumiam qualquer porcaria que se lhes fosse oferecida, e sem reclamar, afinal, devia-se dar graças a deus pela dádiva em si que era poder consumir. Não se tinha o hábito, por exemplo, de reclamar da má qualidade de produtos e serviços, e o Procon… bem, Procon nem bem existia.

O que mudou desde então? Amadurecemos, sem sombra de dúvida, em nossa condição de consumidores. Aprendemos a reclamar dos produtos defeituosos, a registrar queixa contra os serviços deficientes, até a processar quem nos tome por patetas que aceitam levar qualquer gato fajuto, tendo pago por lebre gorda.

Se levarmos isso ao extremo, notaremos que amadureceu também nossa relação de consumo com a política. Não estou confundindo as bolas: é que, num país em que se tem mais valor enquanto consumidor do que enquanto cidadão – num país em que inclusão social, inclusive, se mede pela inclusão na esfera do consumo – , a lógica do consumo torna-se a verdadeira moeda das relações político-eleitorais. Hoje, elege-se quem quer que seja subsumindo um trisquinho de debate de ideias e projetos num eficaz (tanto quanto pobre) pacote marketológico.

Então, em que pese o jogo de aparências pertinente à política desde Maquiavel (desde Aristóteles, alguém me corrigirá), é fato que, na balança que define a adesão popular a candidatos e partidos em momentos eleitorais, a tomada de decisão baseada numa lógica de consumo (e não numa discussão cidadã) tem desequilibrado.

O que pode não ser necessariamente um problema, afinal a política não se estrutura na oposição entre conteúdo e forma, entre idéias e retórica – ao contrário, ela é essas duas coisas, juntas. Mas “o consumidor não é o cidadão”, diria Milton Santos.

De maneira que essa forma de “consumir” política tem sim consequências – que podem ser graves e abrir vácuos de representatividade perigosos – quando os “produtos” político e partido mostram-se “podres” (no primeiro caso) e “defeituosos” (no segundo). Nessa hora, a reação do eleitor-consumidor será (tem sido) a de alguém que comprou um liquidificador que não funciona, ou um quilo de carne estragada: ele irá reclamar, dizer que detectou o defeito, e pedir uma troca (há quem fale em recall); ou, mais ainda, pedirá que alguém por favor invente um novo produto, capaz de lhe satisfazer mais.

Aí, para mim, é onde mora o problema – o perigo – de aceitarmos continuar entendendo a política, e falando dela, com a lógica e a linguagem do consumo – haja vista essa história de recall, esse tipo de palavreado.

Porque o consumidor é, por definição, incapaz de propor, de inventar, de pensar fora da estrutura que lhe é dada. O consumidor, a rigor, não produz, não é talhado nem teria as ferramentas para tanto, se o fosse. O consumidor sabe reclamar – e é desejável que o faça. Mas é preciso ser, mais que consumidor, cidadão para reclamar propondo novas soluções à política; para repudiar os atuais partidos criando um – ou vários – novos; para abominar o atual sistema político inventando um sistema renovado, que saiba a quais problemas deve dar solução. Isso tudo motivado não por mera ingenuidade política, senão pelo esgotamento do atual jeito/sistema de se fazer política.

O desafio de fundo me parece então o de tentar iluminar o entendimento desse momento num sentido que leve à transformação do consumidor mais-que-perfeito no que Milton Santos chamaria consumidor imperfeito: “É necessário que ele seja um verdadeiro cidadão para que o exercício de sua individualidade possa ter eficácia. Onde o indivíduo é também cidadão, pode desafiar os mandamentos do mercado, tornando-se um consumidor imperfeito, porque insubmisso a certas regras impostas fora dele mesmo.”

O desafio é, em vez de desqualificar, de achar os pontos débeis das manifestações que até agora têm ocorrido para mostrar o quanto elas são só “cosquinha” na sola do pé do sistemão, de denunciar, feito mangangão, o quanto fomos uns tolinhos ao ir para as ruas com cartolinas nas mãos; o desafio é contribuir para que a agitação um tanto atabalhoada desse momento se depure, se organize, se encha de informação mais aprofundada, se torne mais consciente de quais e quão complexos são os problemas que motivam tamanha indignação.

Do contrário, seguiremos sendo consumidores – consumidores que pelo menos já reclamam, ok, muito bem. Mas sempre e apenas consumidores – consumidores perfeitos.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

domingo, 23 de junho de 2013

De um a dez sobre os protestos



por Ricardo Sangiovanni*

Já chegou segunda e ainda não tenho nada concreto pensado a lhes dizer sobre o único assunto da semana digno dessa crônica.

Mas se não tenho nada concreto pensado sobre o que anda se passando, é menos por dificuldade de organizar o pensamento, e mais por dificuldade de entender com a devida precisão o que anda se passando.

Não será contudo por isso que deixarei o blog em branco – não é hora de deixar o blog em branco. Irei portanto enumerando alguns temas e alguma reflexão inicial sobre eles, convidando a todos de antemão ao debate, que é o único instrumento capaz de nos levar ao melhor entendimento, à melhor opinião, à melhor expressão do que cada um de nós leva no espírito.

1. De que protestos falamos? Parece que as manifestações de rua chegam ao final desta semana já são bem diferentes daquelas que começaram há duas semanas atrás. Protestar claramente contra o aumento do preço da passagem do transporte público – primeiro em São Paulo, em seguida em outras praças, mas sempre em torno da mesma demanda imediata (redução do preço já), da mesma agenda (vamos debater o modelo de transporte público), da mesma ideologia (o estado deve ser antetudo agente de pressão do empresariado a prestar serviços de qualidade que atendam às demandas dos cidadãos, e não o contrário) – me pareceu algo digno do maior apoio. Já protestar difusamente contra todo e qualquer problema, real ou irreal, visível ou invisível, palpável ou impalpável, de imediato ou de prolongado remédio, direcionando todas essas demandas, ainda que justas, a uma raiva desmedida da política em si, do Estado em si, tem-me parecido coisa difícil de apoiar.

2. A quem esse tipo de protesto interessa? Não tenho como afirmar que a maior parte das pessoas que estão na rua esteja protestando desse jeito amorfo e difuso. Tampouco afirmaria que, ainda que amorfas e difusas, as demandas de qualquer pessoa que esteja na rua sejam infundadas ou injustificadas – viver no Brasil é difícil mesmo, cada um sabe de si. Entretanto, a soma de protestos inconscientes de sua natureza mais profunda – de sua natureza ideológica – é que me parece a coisa perigosa. Perigosa porque basta que alguém, pessoa ou grupo, consiga pilotar a indignação popular, para que as demandas originais – a ideologia original – seja subvertida. De maneira que ir às ruas “para dizer que sou brasileiro”, convocar as pessoas para “mudar o Brasil”, animar-se porque “o gigante acordou”, dizer-se revoltado “contra isso tudo que está aí” significa menos ajudar a obter a universalização da cidadania no país (esse nosso mais grave problema) e mais abrir espaço para projetos de apropriação das instituições para finalidades completamente opostas a essa – já volto a essa questão.

3. É demais imaginar que possa estar-se desenhando um golpe? Infelizmente, acho que não. Porque à medida em que cresce o movimento de descredibilização da política, dos partidos, do governo em si – descredibilização essa embasada no simples fato de que a política, os partidos, o governo existem – cresce o risco de que as manifestações se traduzam em caos social incontrolável aos olhos de quem detém as armas, a força, o porrete. Ou seja: mesmo que não haja um golpe milimetricamente arquitetado em curso, criar um clima de ódio da política pode servir muito bem a quem deseje a supressão da agitação popular por um golpe mais duro de força, um golpe que, por um suposto bem da paz nas ruas, poderia atentar contra a institucionalidade democrática – coisa que o Brasil levou tanto tempo e tanta porrada para conquistar. Afinal, se nossa democracia tem problemas, esses talvez sejam menos decorrência do sistema, e mais da expressão da luta de classes que se faz através dele. Me parece difícil acreditar simplesmente que, se o modelo institucional fosse outro, e os atores esses mesmos, teríamos as transformações severas de que o Brasil precisa.

4. É hora de sair das ruas? Questão complicada. A princípio responderia que não, porque é sempre possível disputar na própria rua a escolha que cada pessoa fará do direcionamento a ser dado à sua indignação. E também por acreditar que a maioria das pessoas que está protestando estaria sim propensa a direcionar sua indignação a demandas claras de democratização acelerada da condição cidadã – como era, por exemplo, a dos 0,20 do Passe Livre, um rótulo excelente para aglutinar pessoas e pautar uma discussão mais ampla, de um novo modelo de transporte público. Mas interponho a esse meu entusiasmo um problema: será que essa disputa pode ser de fato ganha nas ruas na atual circunstância, tendo em vista a quantidade de atores/grupos sociais que já entrou na concorrência pelo direcionamento e pelos resultados de uma mesma revolta popular? Será que, dado o atual grau de agitação, o chamado a se batalhar por coisas claras (algo que demanda pesquisa, conversa, entendimento, coisas que levam tempo e requerem um investimento que muita gente não sabe ou não quer fazer) tem condições de enfrentar o facilismo da argumentação “pelo Brasil”, “contra os políticos”, “contra o governo”, “contra tudo que está aí”? Gostaria de crer que sim, mas não creio. Talvez, entre sair ou ficar nas ruas, a alternativa seja continuar a se reunir gente na rua, porém começando a tentar formar, ainda que na própria rua, grupos com nome e cara, a separar de forma mais evidente quem é quem nos protestos, a procurar saber ao lado de quem está se protestando, pelo que se está protestando, onde se está protestando, quais são as ideias que se somam de fato ao que se tem como alvo de protesto.

5. A repressão policial. Apenas para repisar que segue vergonhosa. Porque não consegue distinguir protesto de verdade de vandalismo picareta, e quase sempre massacra mais quem se manifesta por alguma razão justa. Porque, afinal, essas são as pessoas mais frágeis, seus inimigos mais antigos: a gente pobre comum, historicamente massacrada.

6. Sobre as redes sociais. Muita gente tem falado que as redes sociais são a grande diferença dessas manifestações, já vi “especialista” por aí dizendo que “chegou a hora do pessoal que ficava debatendo e se manifestando virtualmente ir se manifestar na rua”. O problema é que não consigo ver nas redes todo esse debate. Pela rede se consegue sim agendar atos públicos, se consegue aglutinar quem pensa de forma parecida, mas a regra até agora não tem sido o debate de fato, a polêmica, o amadurecimento de ideias. Nas redes sociais me parecem ainda ser predominantes os desaguadouros de posicionamentos que não precisam necessariamente de debate, porque, quando encontram as portas fechadas em um grupo, correm para outro onde sejam mais amplamente aceitos. Outro cuidado que temos que ter é de não misturar a horizontalidade do movimento Passe Livre – uma forma convencionada entre os integrantes do movimento, uma decisão coletiva e política – com a suposta horizontalidade de toda e qualquer manifestação marcada pelas redes. Rede social não é sinônimo de horizontalidade e falta de liderança. Quem marca cada protesto? Os perfis são todos verdadeiros? Dizer/escrever o que pensa significa pensar com a própria cabeça? São perguntas que me faço.

7. A mídia nessa história. Retomando o ponto 2, um dos grupos a quem interessa pilotar essa onda de manifestações que sou capaz de individualizar é certamente a mídia. A mídia quer dizer os quatro ou cinco grandes grupos familiares de comunicação do país e, com nuances, seus sucedâneos nos Estados a fora. Grupos que, por sua vez, representam, diretamente ou por solidariedade ideológica, a classe empresarial (ou a parte dela) preocupada em manter a atual repartição do bolo nacional de privilégios. De maneira que me parece muito estranho que a reação raivosa da mídia contra as manifestações pela redução da passagem, semana passada, tenham se tornado tão rapidamente apoio entusiasmado – até incitação, em alguns casos – à continuidade dos protestos “contra os governos”. Tudo se torna muito esquisito quanto William Bonner aparece dando dicas de como se diferenciar dos “vândalos” nas manifestações, dicas as quais ele teria visto circulando por aí, nas redes sociais. Mais estranho ainda quando a Globonews encerra seus noticiários com o hino nacional, homenageando as manifestações. Quando os grandes veículos de comunicação brasileiros se viram diretamente implicados como alvos da revolta popular – após seus editoriais contrários às manifestações, defendendo a repressão policial há duas semanas – , tiveram a sacada magistral e oportunista de passarem rapidamente a se posicionar a favor dos manifestos. Desse modo, a mídia conseguiu retornar ao papel que lhe é mais conveniente ocupar aos olhos do espectador: o de suposta “refletidora” e “debatedora” do que está se passando no mundo, nas ruas, como se não estivesse ela mesma implicada nesse cenário e no que leva as pessoas a se manifestarem. E assim, excluindo-se do contexto social, a mídia exclui também (por solidariedade de classe, já sabemos) toda a classe empresarial brasileira do tabuleiro dos manifestos. Como se o que estivesse em jogo fosse uma revolta do povo apenas contra os governos, contra os partidos, contra os políticos. Como se esses governos, políticos e partidos fossem corruptos sozinhos, como se não houvesse uma classe empresarial corrupta/corruptora por detrás deles, pressionando-os a continuarem a ser corruptos, a continuarem a utilizar o poder que recebem do povo para manter privilégios. De maneira que não adiantará muito pressionar os governos, mudar ou depor os governos, recomeçar a democracia no Brasil, sem questionar o papel do alto empresariado – do capital, me perdoe quem não gosta dessa terminologia – numa suposta reconstrução desse sistema. No fundo, esses grupos – entre os quais a mídia – sabem que, qualquer que seja o resultado de uma rebelião popular sem consciência da velha luta de classes em questão, toda reconstrução que advir daí não prescindirá deles.

8. Do preço do ônibus ao fora Dilma. Tento há dias recuperar a conexão lógica entre essas duas pontas. Não consigo. Vá lá que a postura de Haddad em São Paulo tenha sido vexatória no episódio do preço das passagens. Mas a velocidade com que se virou o leme das manifestações é tremenda. E, infelizmente, não me parece que seja resultado da luta de esquerda contra os erros do PT e do governo Dilma. Na falta de argumento que me convença do contrário, entendo que os protestos chegaram ao ponto em que chegaram porque alguns setores descontentes com o governo viram neles uma oportunidade de tirar proveito da situação. Lembremos que Dilma, apesar de toda crítica que possamos (e devamos) fazer a seu governo, mexeu recentemente com os bancos, reduzindo as taxas de juros; mexeu com as energéticas, baixando as contas de luz; mexeu com o PMDB, ao pressionar que 100% dos royalties do petróleo vão para a educação; enfrenta resistência na MP dos Portos; enfrenta uma campanha pela volta da inflação, o que ressuscitaria o PSDB para as eleições de 2014. Enfim: se os que estão à esquerda do governo não estão contentes, os que estão à direita estão menos contentes ainda. E as alternativas que eles oferecem não são nada animadoras.

9. Por falar em inflação, vou aproveitar para contar um caso, e já encerro este bolodório. Estive nesta semana na Ceasa de Campinas, um dos maiores centros de distribuição de alimentos do país. Me parou um senhorzinho, que há décadas vende tomates na feira. Falou assim: p"or que é que, quando tem pouco tomate para vender e sai na televisão que o preço do tomate disparou, chove gente aqui para fazer reportagem de que o tomate está caro; e agora, quando sobra tomate e o preço vai lá para baixo, não aparece ninguém para fazer matéria?” Me disse isso na frente de pilhas e pilhas de caixas de tomates não vendidos.

10. Em qualquer desses pontos, por favor me corrija quem tiver informação ou reflexão de melhor qualidade.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
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