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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sinal da cruz


por Ricardo Sangiovanni*

Não foi pouquinho tempo – foram anos e anos da vida que Jorge Martins passou fazendo o sinal da cruz daquela maneira.

Não fora por invenção sua, senão por exortação de certo frei mestre de gramática da criançada lá de sua saudosa Guimarães – ai de mim, Guimarãezinha… – onde dom Afonso Henriques primeiro declarou existência aos Portugais.

Chamava-se o homem Álvaro de Monção, ele recordava. Era esse o nome do homem que havia sessenta anos pouco mais ou menos persuadira-lhe a si e ao restante dos putos que o certo era que se benzessem d’outro jeito.

Alegava o dito cujo que “no credo dizemos Filium ejus, et qui sedet ad dexteram Patris, e que David, no seu salmo diz dixit dominus domino meo sede adexteris mieis, e no símbolo de Atanaseu, sedet dexteram dei Patris, e noutros versos da Igreja, qui sedes adexteram miserere nobis”.

Para então sustentar, a si e aos miúdos, persuasivo feito só mesmo Satanás havia de ser, que o certo não era descer com a mão da cabeça até o peito na hora de falar “em nome do Filho”. Pois se o Filho, conforme comprovavam as escrituras, sentava-se à direita do Pai, mais fiel então seria levar a mão da cabeça ao ombro direito: In nomine Patris, et Filis…

De sorte que, desde que ouvira tal ensinamento, Jorge Martins passara a fazer o sinal da cruz daquele jeito, em forma de roda, indo primeiro da cabeça ao ombro direito, depois ao centro do peito, e dali ao ombro esquerdo, amen.

E assim o fizera desde sempre, seguro por mais de cinquenta anos, em Portugal e depois também quando veio para a Vila de São Jorge, que ajudou a levantar na capitania dos Ilhéus.

Só largou o costume há bem uns cinco anos, quando, já espreitando a morte, resolveu averiguar se aquilo fosse porventura pecado, e então uns padres disseram-lhe que tomasse tendência e passasse a se benzer normal, igual a todos os cristãos, que era o melhor que fazia.

E a quem a esta altura já esteja pensando tratar-se de anedota inventada, que trate de consultar a confissão de cujo homem ao Santo Ofício, no tempo da graça em que a todos os pecados se absolvia, em data de 3 de agosto, ano 1591.

Só o que me atrevo a afirmar é que, mesmo absolvido, Jorge Martins jamais deixou de temer, por todos os dias até o dia de sua morte, que nem sua confissão, nem seu arrependimento, nem nada pudesse ser suficiente para salvar-lhe a alma do inferno. Pois que absolvição de padre bastaria, contra toda uma vida vivida em pecado?

Jamais também deixou de pensar na desgraça que, àquela altura, já teria sombreado (ou que haveria de sombrear ainda) a vida de seus coleguinhas das aulas de gramática, aquela boa e ora já velha malta de Guimarães – ai de mim, Guimarãezinha…

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*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Conto do vigário



por Ricardo Sangiovanni*

Alguém nesses tempos de troca de papa recordou Padre Pinto, até o pediu para Sumo Pontífice. Achei graça.

Padre José Pinto, para quem não é vezeiro em Bahia, é um sacerdote da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que ficou famoso em 2006 por celebrar missa de Reis vestido ora de Oxum, divindade do Candomblé, ora de entidades ancestrais de cultos indígenas. Trajou-se, pintou-se e dançou danças rituais sincréticas, com o apuro técnico que lhe permite a formação de bailarino pelo Balé do Teatro Municipal do Rio.

“Dom Geraldo [arcebispo hoje emérito de Salvador, que recentemente elegeu o novo papa] está sabendo. A CNBB também está sabendo. O povo é que se assusta”, disparou Pinto ao microfone da Rede Globo, em cadeia nacional. E clamou: “Eu não quero sair daqui! Quero morrer aqui, no altar!”

Pinto levou um puxão de orelha da Cúria, mas voltou a aprontar, ora pintando em boate gay, ora roubando em público um selinho a Caetano Veloso. Só então é que tomou um gancho de verdade: foi deslocado da Lapinha, no centro, à periférica paróquia de São (surpresa) Caetano, rebaixado a pacato vice-pároco.

Mas ia-lhes dizendo que me divirto, mas advirto que a faceirice do Padre Pinto é só um exemplar mais recente da longa história clerical de desvios dos preceitos da fé na Bahia – e, por tabela, no Brasil.

Arrisco inclusive dizer, na falta de quem bem me desminta, que o primeiro caso aqui registrado remonta à alma de padre Frutuoso Álvares, português, vigário de Nossa Senhora da Piedade de Matoim desta Cidade da Bahia na segunda metade do século 16, primeiro da colonização lusa e cristã dessas terras do Brasil.

Corria o ano de 1591, e nem bem a Visitação do Santo Ofício abrira seus trabalhos na colônia, lá estava padre Frutuoso, sem nem ter sido chamado, primeiríssimo da fila, todo ardoroso para uma confissão voluntária.

Jurou com a mão direita sobre a bíblia e açodou-se a contar que havia quinze anos, desde que chegara à Bahia, vinha cometendo de maneira contumaz “a torpeza dos tocamentos desonestos com algumas quarenta pessoas pouco mais ou menos, abraçando, beijando (…) moços e mancebos que não conhece nem sabe os nomes”, conforme anotação do notário do Santo Ofício, Manuel Francisco.

“Em especial”, lê-se, “com um moço que chamam Gerônimo”.

Do tal moço ficamos sabendo, através de depoimento do próprio, tratar-se de Jerônimo Parada, “estudante, cristão-velho, natural desta Bahia, de idade dezessete anos”. Em sua confissão, o moçoilo ratifica que, há coisa de dois ou três anos, em dia de Páscoa, fora de fato à casa do clérigo. “E o dito Frutuoso Álvares o começou a apalpar, dizendo-lhe que estava gordo e outras palavras meigas…”

Deitaram-se coisa de uma dezena de vezes. Até um belo dia em que Jerônimo resolveu dar um basta naquilo. Louco de amor, o padre ofereceu um vintém ao moço por mais um amasso – mas este, tenaz na fé, recusou.

Aí o padre, irresistível, ofereceu dois. E deitaram-se de novo.

Pelo depoimento do padre Frutuoso ficamos sabendo ainda que seu histórico era antigo, longo e deveras conhecido da Igreja. O clérigo já praticara os tais “tocamentos desonestos” com um rapazote de Braga, Portugal – motivo pelo qual fora desterrado, primeiro para Cabo Verde, depois, sob nova acusação do mesmo crime, “sentenciado e condenado em degredo para sempre nestas partes do Brasil”.

Que ninguém pense que eu estou aqui insinuando que Padre Pinto seja por acaso homem dado a tocamentos com mancebos, como Frutuoso; tampouco que padre Frutuoso tenha-se desviado da doutrina, como Pinto. Então, afinal, que nos ensinam essas duas parábolas, queridos irmãos?

Sem dúvida, uma porção de lições mais ou menos edificantes sobre o passado e o futuro do Brasil e da religião católica, as quais porém falta-me agora o tempo e sobra-me uma enorme (uma existencial) preguiça de enunciar. A mais importante de todas, no entanto, é que essa Bahia velha não deixa a gente levar muito a sério esse papinho mole de Igreja. Pois então, conta outra, papa Chico.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A mídia e o Papa


por Celso Vicenzi*

Nos últimos dias o noticiário sobre a eleição do novo papa tomou conta da mídia brasileira. Entre o ufanismo inicial e o (quase) desapontamento final, seguem algumas observações.

Não se sabia, até a renúncia de Bento XVI, que o Brasil era um país com tantos “jornalistas vaticanólogos”. Muitos deles sem nunca terem colocado os pés no Vaticano. No máximo, como turistas.

Os nossos “jornalistas vaticanólogos”, com raras exceções, divulgaram notícias que oscilaram entre a obviedade e o triunfalismo. Mais fácil ler direto no Google.

Ao tomar conhecimento de que outros “especialistas” apontavam o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como um dos candidatos com boas chances, a cobertura tupiniquim entrou em campo em clima de jogo de futebol. Brasil zilzil... Um verdadeiro espetáculo de torcida organizada. Vai que é tua, Odilo!

Odilo foi, viu,votou, mas não venceu. Deu zebra! Nenhum dos candidatos apontados pelos jornalistas foi eleito. Tomaram um baile dos cardeais. A Argentina venceu de goleada, pelo que disseram depois.

A exemplo do que acontece com nossos cronistas esportivos, somos especialistas também em comentar “depois do lance”. E de uma hora para outra – sem fontes – soube-se que já no conclave anterior Bergoglio teria sido o segundo mais votado. Ora, então por que não estava entre os favoritos?

Em Santa Catarina, vários jornalistas chegaram a cogitar a hipótese de um papa catarinense. Rendeu manchete. Sim, tudo era possível. Mas jornalistas não são pagos para fazer análises fidedignas dos fatos? Para investigar com boas fontes mais do que fazer torcida? Infelizmente, tudo muda muito rápido. Jornalismo tornou-se algo bem próximo do entretenimento, e jornalista, não raro, vira personagem das reportagens. De narrador oculto a estrela dos fatos. Muito distante das lições do mestre Joel Silveira: “Jornalista é para ver a banda passar. Não é para fazer parte da banda”.

Muito se falou que a preferência do Vaticano seria por um papa mais jovem. Quem disse isso deve ter faltado às aulas de comunicação e marketing. Com tantas horas de mídia gratuita cada vez que morre um papa e se elege outro, é um bom negócio não escolher um papa muito jovem, não é?

E agora que foi aberta a “porteira” para a renúncia por “motivos de saúde”, salvo se o papa for muito idolatrado, tudo indica que a fórmula pode vir a ser usada mais vezes.

Impressionante a quantidade de espaço, em todas as mídias. É bom lembrar que, embora o cristianismo seja a maior corrente religiosa, a maior parte do planeta não professa a fé católica, mas o islamismo, o hinduísmo, a religião tradicional chinesa, o budismo e o sikhismo, entre outras. A cobertura é desproporcional à real importância global. Por tão generoso espaço, o Vaticano, penhoradamente, agradece.

Por trás de todo o discurso da fraternidade e solidariedade, há uma Igreja que se autointitula única, a verdadeira, a do papa infalível, e diz que fora dela não há salvação. Ao tentar impor um só Deus para todas as culturas, abrem-se as portas para os conflitos. Embora o discurso seja de paz, as religiões estão na raiz de muitas guerras. Ontem e hoje.

Nessa imensa centimetragem de jornais e infindáveis horas de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais – quanta overdose! – pouca coisa se viu sobre as intrigas do Vaticano e a onipresente mistura entre religião e política. O tom foi quase sempre igrejeiro, tudo divino e maravilhoso. Mas há esperança: eu, por exemplo, sou um crente. Creio na boa reportagem jornalística. Tenho fé que nem tudo está perdido.

Mesmo com tanto oba-oba, em tempos de redes sociais, não deu para represar as denúncias de envolvimento ou omissão do novo papa com a ditadura argentina. Há muito ainda para explicar.

Pelos próximos anos, a pauta da pedofilia abre espaço para a da tortura nos porões da ditadura. O Vaticano tenta, mas não consegue exorcizar os seus fantasmas.

É quase certo que teremos um papa populista e conservador. Contra o casamento gay, contra o aborto, contra a ordenação de mulheres na igreja. Talvez um aliado em alguns embates contra a vergonhosa acumulação de riqueza no planeta. Mas de leve, porque o telhado do onipotente Vaticano também é de vidro.

A escolha de um papa não europeu, e especificamente da América Latina, é uma tendência que pode se repetir no futuro. No último século, o número de católicos europeus caiu pela metade e hoje representa apenas 25% do total mundial. Na América Latina a tendência é oposta. Na região já se concentram 42% dos fiéis do planeta, e estima-se que até 2050 esse número terá crescido mais de 40%.

A eleição de um papa argentino renovou o estoque de piadas dos humoristas brasileiros no mínimo até a próxima década.

As minhas contribuições, a seguir.

Não bastasse o Messi, agora temos um papa argentino. Não dá mais para dizer que Deus é brasileiro.

A Argentina foi com Jorge Mario (Bergoglio). O Brasil deveria ter escalado Mario Jorge (Lobo Zagallo): “Zagallo é o papa” tem 13 letras!

São tantos os escândalos sexuais da Igreja Católica que a fumaça no conclave do Vaticano bem que poderia ter saído em cinquenta tons de cinza.


*jornalista, Celso Vicenzi é ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia, com passagens por rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. O autor autorizou a publicação no Nota de Rodapé.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Papa arrependido?


por Thiago Domenici*

A renúncia do quase ex-papa Bento XVI é mais um desses assuntos mundano-celestiais que me intrigam. Querendo ou não, católicos e simpatizantes, sejam favoráveis a linha conservadora adotada, criam esperança com o anúncio da renúncia e vinda de um novo pontífice por um mundo, sei lá, menos desigual? mais espiritualizado? O que esperam as pessoas de um novo Papa? O que espera o Papa das pessoas?

Não sei se por ranhetice, não acho que a mudança do padre alemão para um latino-americano ou africano influencie atitudes mais nobres e humanas das pessoas. O que está em jogo nessa história é a tentativa de recuperação política da igreja que, desgastada e envolvida em brigas pelo poder e falta de carisma, busca um respiro de renovação.

A Igreja joga com essa renúncia os holofotes para si, num período em que perde fiéis para outras religiões e vive assombrada por escândalos de pedofilia. Entre 1960 e 2010, por exemplo, o Brasil viu a parcela de sua população que se declara católica cair de 93,1% para 64,6%, segundo dados do último senso do IBGE.

Seguindo nesse meu raciocínio, não entendo como uma Igreja que fala em amor ao próximo, fé em Deus, bondade, justiça social se mantém soberba em vestimentas, atitudes e pensamentos como, por exemplo, em relação ao uso da camisinha e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E as mulheres religiosas na Igreja, que tem papel sempre inferior ao do homem religioso. Por que isso ainda tem de ser assim? Será que somente nos próximos 700 anos veremos uma Papisa?

O Vaticano, um país sem povo, é um império cheio de riquezas e ostentação. É curioso que uma das últimas atitudes de Bento XVI foi escolher o novo presidente do banco do Vaticano, já que o anterior em busca de mais "transparência" foi demitido pelo secretário do Vaticano, o papável italiano Tarcisio Bertone.

A igreja católica que aplaudo, de uma vertente verdadeiramente social, a teologia da libertação, uma espécie de agulha no palheiro, rara mais ainda presente na figura de alguns batalhadores, como Dom Pedro Casaldáliga, que no último sábado fez 85 anos, e que foi soterrada com ajuda do mesmo que agora pede para sair, será apoiada por um novo santo padre?

É interessante que Bento XVI, a figura central do que se tornou a igreja católica nas últimas décadas, peça uma “verdadeira renovação” daqui em diante.  Ele usou essa expressão em cerimônia de despedida com padres de sua diocese em Roma e afirmou que ficará "escondido do mundo" depois de renunciar no fim deste mês. Será, diante de sua nítida fragilidade e da Igreja, um sinal de arrependimento?

*jornalista, Thiago Domenici coordena e edita o Nota de Rodapé
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