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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 1 de setembro de 2015
O dia em que fizemos nevar na cabeça do governador (Parte Final)
por Fernando Evangelista*
... E como ia dizendo, essa história de recolher giz, triturar tudo e espalhar pelas pás do ventilador de teto da nossa sala de aula, bem no dia da visita do governador do Estado, tinha tudo para dar errado.
Luciano teve a ideia e procurou dois cúmplices, Cristiano e eu. O plano foi traçado na escadaria do colégio, numa segunda-feira de novembro de 1988.
– Vai ser divertido.
– Acho arriscado.
– Que nada, é moleza.
Naquele ano, estudantes do colégio foram campeões brasileiros de xadrez e fizeram bonito na Olimpíada de matemática, conquistando uma medalha de ouro e outra de bronze.
Três dos integrantes da equipe de xadrez eram da nossa turma e por isso o governador passou na nossa sala, antes do evento oficial, para uma “saudação mais informal”.
A trupe oficial chegou, a regente deu as boas-vindas, o governador deu os parabéns para os “pequenos gênios do xadrez”, falou ainda sobre o trabalho em equipe, lealdade, honra e outras coisas bonitas e todo mundo bateu palmas e tudo bem ia bem até que alguém reclamou do calor.
– Liga o ventilador – ordenou a regente.
A partir daí, na minha memória, tudo acontece como se eu estivesse assistindo a um filme, daqueles da Sessão de Gala, quando existia Sessão de Gala, um típico filme B, exagerado nos closes e nas emoções.
Neste filme, o ventilador de teto aparece em primeiro plano, espalhando pó para todos os lados, lentamente. Corta. Closes em sequência dos olhos arregalados da madre superiora, da regente, dos alunos, das alunas e também da professora, que ainda não tinha aparecido nessa história. O governador permanece impassível, quase indiferente.
A câmera foca os alunos, de frente. Eu sou aquele lá no fundo da sala, à esquerda, pertinho da porta. Tenho medo desses homens engravatados, tenho medo da madre superiora, medo da regente e da neve falsa que continua a cair, devagar e sempre.
As meninas estão vestidas de saia bordô, camiseta bordô, casaquinho bordô, meias bordô e sapatos bordô. Os meninos estão também, de cima a baixo, de bordô - e tudo isso vai ficando branco, inclusive o hábito preto da madre, o cabelo da regente, os ternos dos assistentes do governador e o próprio governador parece, agora, bastante branco.
Não há trilha, só alguns gritinhos de espantos e tosses. Muitas tosses.
Luciano, mentor de tudo aquilo, está encolhido, quase desaparecendo, na pontinha da cadeira, queixo encostado à mesa. Cristiano, de cabeça baixa, parece petrificado. Me vejo outra vez: pálido, sem ar, arrependido. Por que me meti nisso?
Por respeito ao Luciano, provavelmente. O cara é o craque do time e, como todo craque, há meninas querendo namorar com ele. No fundo, todas as estripulias que a gente fazia se resumiam a três objetivos: chamar a atenção dos pais, afrontar professores e impressionar as meninas, principalmente impressionar as meninas. Aí a gente cresce, amadurece e... continua com os mesmos objetivos.
A neve continua a cair. Os homens do governador estão perfilados em frente à turma. Percebo que um deles me olha fixamente. É um olhar de acusação, de cão farejador, olhar de ameaça. Como ele poderia saber? Tento disfarçar, olho para os lados, mas me imagino com uma placa luminosa grudada na testa, dessas que piscam em vermelho à beira da estrada, em frente a hotéis sem categoria: Culpado!
Aquele homem sabia. Como ele poderia saber?
– Não imaginava que fosse ver neve hoje – disse o governador, quebrando o gelo, fingindo descontração.
Mas o governador é um homem sério, os homens do governador são sérios, a regente é séria e a madre superiora seriíssima. A turma, batizada-catequisada-quase-crismada, 100% católica, amedrontada por pecados e punições, também é séria.
Aquilo é sério pra cacete. É o suficiente para um processo de expulsão, no caso uma tripla expulsão.
– Senhores, foi um prazer – disse o governador, seguindo em direção à porta. Seus homens o acompanham, em fila.
Sentado na minha cadeira, lá no fundo, perto da porta, observo a marcha oficial e torço para que aquele homem-cão-farejador passe logo por mim e desapareça. Ele, porém, mantem o olhar e caminha na minha direção. Finalmente, ficamos frente a frente.
É muito mais alto do que imaginava. Ele me olha de cima a baixo e, sem mudar a expressão, sem levantar a voz, aperta o indicador de sua mão direita contra o meu peito magricelo e diz, marcando bem as quatro sílabas:
– De-sa-ca-to.
Que diabo significa aquilo?
O homem segue, cabeça erguida, mas a palavra gruda em mim. Ainda hoje, nas situações mais banais, a cena me vem à memória: o homem, o dedo, a acusação: “de-sa-ca-to”.
Apesar das investigações, pressões e centenas de ameaças, nunca ninguém descobriu quem tinha feito aquilo. E sabe por quê? Por uma razão bem simples e já citada: para impressionar as meninas, os mancebos (era assim que nos chamavam!) começarama reivindicar a autoria da ação.
Em menos de meia-hora, havia uns 40 culpados que, de peito aberto, contavam orgulhosos como tinha feito nevar na cabeça do governador, tudo nos mínimos detalhes.
Vendo aquela mentirada correndo solta, Luciano e Cristiano ficaram quietos. Eu, não, não gosto de mentira. E aí, para quem quisesse ouvir, confessei minha participação naquele ato subversivo. Eu, sim, eu mesmo, eu, mancebo desengonçado e rebelde, era um dos autores daquele feito.
Ninguém acreditou em mim.
* * * * * *
Fernando Evangelista é jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Calendário
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Em algum momento do passado remoto, nossos ancestrais começaram a juntar observações sobre mudanças na vegetação, chuvas, temperatura e comportamento dos outros animais com a repetição periódica dos eventos, e concluíram que vivíamos sob o efeito de um fenômeno chamado tempo. Depois inventaram o calendário, tornando possível programar a vida de acordo com os humores sazonais, semeaduras e colheitas. Mais recentemente, com o imposto de renda, a fatura do cartão de crédito e os aniversários. Dependendo do temperamento e da rotina individuais, um ano da nossa vida moderna pode transbordar de celebrações as mais variadas, religiosas, cívicas, sociais, familiares e pessoais.
A memória me traz um dos grandes romances da minha adolescência, “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo, uma caudalosa saga dos começos do Rio Grande do Sul. Li os sete volumes de enfiada, como se perseguisse um seriado sobre as aventuras dos Terra-Cambará. Logo nas primeiras páginas, Ana Terra, moradora, com os pais e dois irmãos, de um campo perdido na conturbada fronteira das colônias disputadas por Espanha e Portugal, expressava seu profundo tédio pela rotina de trabalho incessante e isolamento, tal que não lhe permitia acompanhar a sequência dos dias da semana – que, afinal, não fazia nenhuma diferença, pois eram sempre iguais – ou saber exatamente em que ano estavam. Para a inquieta e curiosa leitora, ávida por finalmente completar os benditos dezoito anos, que nunca chegavam, uma inimaginável desconexão.
Fazemos com o tempo todo tipo de associações: “não lembro o ano, mas foi quando viajei de avião pela primeira vez”, ou “vi esse filme na época do impeachment do Collor”, ou ainda “quando isto aconteceu, eu estava grávida da segunda filha”. Isto porque, no fim das contas, o tempo fica marcado dentro da gente, os números são apenas uma referência, à qual nos ensinaram a dar demasiada importância.
E as datas comemorativas? Dá de um tudo, especialmente depois que a internet nos colocou nessas redes sociais. Com a minha enorme preguiça de celebrações obrigatórias, passo batida por todas elas. Até para aniversários me falta competência, o que às vezes me coloca numas tremendas saias justas.
Um dia desses, avisaram que era Dia do Amigo. Quem precisa dele? O encontro, a afinidade, a empatia, o prazer do contato e da companhia, a história compartilhada, o silêncio cúmplice, a conversa – fiada ou relevante – quando tudo isso se junta, com a assessoria de uma taça de vinho autorreabastecida, o tal Dia acontece. Beijinho no ombro pro calendário.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
Em algum momento do passado remoto, nossos ancestrais começaram a juntar observações sobre mudanças na vegetação, chuvas, temperatura e comportamento dos outros animais com a repetição periódica dos eventos, e concluíram que vivíamos sob o efeito de um fenômeno chamado tempo. Depois inventaram o calendário, tornando possível programar a vida de acordo com os humores sazonais, semeaduras e colheitas. Mais recentemente, com o imposto de renda, a fatura do cartão de crédito e os aniversários. Dependendo do temperamento e da rotina individuais, um ano da nossa vida moderna pode transbordar de celebrações as mais variadas, religiosas, cívicas, sociais, familiares e pessoais.
A memória me traz um dos grandes romances da minha adolescência, “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo, uma caudalosa saga dos começos do Rio Grande do Sul. Li os sete volumes de enfiada, como se perseguisse um seriado sobre as aventuras dos Terra-Cambará. Logo nas primeiras páginas, Ana Terra, moradora, com os pais e dois irmãos, de um campo perdido na conturbada fronteira das colônias disputadas por Espanha e Portugal, expressava seu profundo tédio pela rotina de trabalho incessante e isolamento, tal que não lhe permitia acompanhar a sequência dos dias da semana – que, afinal, não fazia nenhuma diferença, pois eram sempre iguais – ou saber exatamente em que ano estavam. Para a inquieta e curiosa leitora, ávida por finalmente completar os benditos dezoito anos, que nunca chegavam, uma inimaginável desconexão.
Fazemos com o tempo todo tipo de associações: “não lembro o ano, mas foi quando viajei de avião pela primeira vez”, ou “vi esse filme na época do impeachment do Collor”, ou ainda “quando isto aconteceu, eu estava grávida da segunda filha”. Isto porque, no fim das contas, o tempo fica marcado dentro da gente, os números são apenas uma referência, à qual nos ensinaram a dar demasiada importância.
E as datas comemorativas? Dá de um tudo, especialmente depois que a internet nos colocou nessas redes sociais. Com a minha enorme preguiça de celebrações obrigatórias, passo batida por todas elas. Até para aniversários me falta competência, o que às vezes me coloca numas tremendas saias justas.
Um dia desses, avisaram que era Dia do Amigo. Quem precisa dele? O encontro, a afinidade, a empatia, o prazer do contato e da companhia, a história compartilhada, o silêncio cúmplice, a conversa – fiada ou relevante – quando tudo isso se junta, com a assessoria de uma taça de vinho autorreabastecida, o tal Dia acontece. Beijinho no ombro pro calendário.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Menu principal
por Júnia Puglia
Eu sei quem sou, às vezes não. Muitas vezes sei de onde venho, e levo a vida a buscar o meu próprio caminho, que não sei aonde vai dar. Ou melhor, sei, mas evito pensar sobre isto, por inútil. Às vezes, me dá um tédio profundo de tudo o que fiz e vivi até agora, mas passa logo. Considero o sol essencial para manter minha conexão com a vida e continuar circulando por aí, tanto quanto é crucial ter ao meu alcance e sentir as pessoas que me são importantes.
Fico muito impressionada cada vez que me deparo com gente de olhos opacos, que apenas traduzem o nada que têm lá dentro. Nada me parece tão terrível quanto a energia vital desperdiçada, submetida ao piloto automático ou engolida pelas circunstâncias, ou pela simples impossibilidade de reagir a ela, acolhê-la, nutri-la. (Agora percebo por quê me foi tão definitiva a rápida visita que há poucos meses fiz a alguém que por muitos anos me inspirou, cujo brilho me alentou a juventude, mas que está entregue a uma desvida insuportável de tão dolorosa.)
Abomino esses condomínios fechados que são uma triste imitação de Miami, e se alastram como praga entre pessoas ávidas por se proteger da pretensa inveja alheia e da convivência com os diferentes, de modo a se sentirem valorizadas, diferenciadas, separadas daqueles que desprezam, por se sentirem as únicas merecedoras do que consideram o melhor em suas vidinhas pequenininhas. Estão cada vez mais apavoradas com a perspectiva de sermos menos desiguais.
Tenho lamentado muito os imensos gramados com que atapetamos o mundo urbano, padronizado pela negação do espontâneo. Mais árvores e vegetação nativa por perto nos ampliariam a percepção do quanto dependemos dos outros seres vivos para continuar existindo, e também do estrago que somos capazes de fazer no nosso mundo.
Depois de viver algumas décadas e, como todo mundo, aprender e absorver uma montoeira de coisas e fazer outras tantas (sempre menos do que eu gostaria), acho que estou mesmo é querendo voltar para o menu principal, e ficar só com ele. Neste caso, o vinho do supermercado é bom o suficiente, e melhor ainda quando compartilhado naquela conversa mansa, que não começa nem acaba, apenas flui.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
Eu sei quem sou, às vezes não. Muitas vezes sei de onde venho, e levo a vida a buscar o meu próprio caminho, que não sei aonde vai dar. Ou melhor, sei, mas evito pensar sobre isto, por inútil. Às vezes, me dá um tédio profundo de tudo o que fiz e vivi até agora, mas passa logo. Considero o sol essencial para manter minha conexão com a vida e continuar circulando por aí, tanto quanto é crucial ter ao meu alcance e sentir as pessoas que me são importantes.
Fico muito impressionada cada vez que me deparo com gente de olhos opacos, que apenas traduzem o nada que têm lá dentro. Nada me parece tão terrível quanto a energia vital desperdiçada, submetida ao piloto automático ou engolida pelas circunstâncias, ou pela simples impossibilidade de reagir a ela, acolhê-la, nutri-la. (Agora percebo por quê me foi tão definitiva a rápida visita que há poucos meses fiz a alguém que por muitos anos me inspirou, cujo brilho me alentou a juventude, mas que está entregue a uma desvida insuportável de tão dolorosa.)
Abomino esses condomínios fechados que são uma triste imitação de Miami, e se alastram como praga entre pessoas ávidas por se proteger da pretensa inveja alheia e da convivência com os diferentes, de modo a se sentirem valorizadas, diferenciadas, separadas daqueles que desprezam, por se sentirem as únicas merecedoras do que consideram o melhor em suas vidinhas pequenininhas. Estão cada vez mais apavoradas com a perspectiva de sermos menos desiguais.
Tenho lamentado muito os imensos gramados com que atapetamos o mundo urbano, padronizado pela negação do espontâneo. Mais árvores e vegetação nativa por perto nos ampliariam a percepção do quanto dependemos dos outros seres vivos para continuar existindo, e também do estrago que somos capazes de fazer no nosso mundo.
Depois de viver algumas décadas e, como todo mundo, aprender e absorver uma montoeira de coisas e fazer outras tantas (sempre menos do que eu gostaria), acho que estou mesmo é querendo voltar para o menu principal, e ficar só com ele. Neste caso, o vinho do supermercado é bom o suficiente, e melhor ainda quando compartilhado naquela conversa mansa, que não começa nem acaba, apenas flui.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
terça-feira, 19 de maio de 2015
O adesivo do Fusca
por Fernando Evangelista*
As seis letras estavam grudadas no vidro traseiro do fusca: vida ok.
Eliza estava no trânsito, viu o fusca e não esqueceu aquele adesivo. Alguns dias depois, no sofá da minha casa, já tarde da noite, ela me disse:
– O dono do carro poderia ter escolhido aquelas lições de autoajuda ou gratidões religiosas. Preferiu a simplicidade.
– Tá, e daí?
– Daí nada.
Mas mudou de ideia, tomou um gole do vinho tinto, e se corrigiu:
– Daí tudo – ela disse – porque, em primeiro lugar, é muito difícil ser objetivo e simples. A gente tem a tendência de complicar as coisas. E também porque é assim que deve ser a vida, pelo menos a vida que procuro ter: curta nas explicações e infinita nos sentidos.
Ela esticou as pernas no sofá – sempre que se põe a filosofar ela estica as pernas – e continuou:
– Uma vida ok nas miudezas da rotina, simples no banal e no desimportante e, por isso mesmo, extraordinária. Tô viajando, né?”.
A viagem dela me fez pensar nas minhas crônicas e reportagens. Queria, sempre quis, e falei isso pra ela, produzir textos como o adesivo do fusca. Certeiros, sem firulas ou truques. Nunca consegui.
Citei Drummond em Confissões de Minas: – “certos espíritos dificilmente admitem que uma coisa simples possa ser bela, e menos ainda que uma coisa bela é, necessariamente, simples”.
A partir daí, pensando em voz alta, e nem um pouco impressionada com minha memória literária, ela juntou tudo e me confundiu, como de costume:
– No fundo, por alguns anos, andei procurando um amor que me levasse e um texto que me escrevesse e que ambos – amor e texto – deixassem a minha vida mais ok.
Não sabia a qual texto ela estava se referindo, supôs que estivesse falando da própria história.
– É tudo uma maneira de ver, entende? Quando menina, li uma frase assim: ‘Não vemos as coisas como são, mas como somos'. De quem será essa frase?
Eu não sabia. Ela continuou:
– Quando parei de procurar, encontrei. Não é louco isso?
– .....
– É louco ou não? – ela insistiu
– É – respondi.
Depois de algum tempo em silêncio, perguntei se ela estava bem. Eliza encolheu as pernas, tomou mais um gole de vinho, levantou as sobrancelhas e disse, sorrindo:
–Tudo ok.
E adormeceu no sofá.
* * * * * *
Fernando Evangelista escreve as terças no Nota de Rodapé. Foto: arquivo do autor.
terça-feira, 12 de maio de 2015
Loira Gina
por Fernando Evangelista*
Para Marcelo, Vitor, Beatriz e Catarina
A mãe foi chamada para uma reunião do outro lado da cidade. Não tinha como pegar as crianças na escola e apelou para seu irmão, que morava perto. As crianças adoravam aquele tio, contador de histórias e um compulsivo comprador de chocolates, chicletes, balas e outros venenos deliciosos.
Tinha 30 anos, o tio. O sobrinho mais velho oito e o outro cinco. Foram numa lanchonete próxima ao edifício dos meninos, “lugar imundo, onde só se vende porcaria”, segundo a insuspeita opinião da mãe. No meio do lanche, comendo hambúrgueres e batatas fritas, unidos como os três mosqueteiros, o tio comentou:
– A Gina é muito velha.
– Quem é Gina? – quis saber o sobrinho de cinco anos.
O tio mostrou a caixinha de palitos de dente, com a foto da loira Gina, escondida entre a bisnaga de mostarda e o porta-guardanapo. Os dois meninos observaram cuidadosamente a caixa. Foi o sobrinho maior quem disse:
– Não parece velha, essa mulher é nova.
O tio explicou que aquilo era uma foto, tirada há muitos anos e que o tempo passa rápido e era bom eles aproveitarem porque assim, de repente, quando menos se espera, a gente vira adulto e assim, também de repente, o adulto fica velho e os velhos morrem, sem mais nem menos.
– Mas tem gente que vive bastante – disse o menino de cinco. – A bisa Rosa viveu 101 anos.
– A bisa Rosa é uma exceção – contrapôs o tio. – Poucos chegam a essa idade.
– Conheço uma coisa que durou muito mais – comentou o sobrinho mais velho. – O cajueiro de Natal.
E contou que na véspera havia escrito uma redação sobre esse cajueiro, de quase 130 anos. Disse que pesquisara na Wikipédia, trocara informações com amigos por e-mail, comparara com outros textos do Yahoo e produzira o texto para o seu blog, “só para passar o tempo, entre um episódio e outro do Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E completou:
– É o maior cajueiro do mundo, foi plantado por um pescador no final do século XIX. O pescador morreu velhinho, deitado na sombra da árvore.
– Mas cajueiro não é gente – retrucou o sobrinho pequeno, enquanto limpava com guardanapo a boca suja de mostarda.
– Esse cajueiro de Natal foi tema da escola? – quis saber o tio.
– Não – respondeu o mais velho. – Fiz por conta própria porque gosto de ler e escrever sobre a natureza. A natureza nos ensina um bocado de coisas.
Tentando não demonstrar surpresa, porque demonstrar surpresa nessas horas é coisa de adulto inexperiente, o tio ficou com aquela sensação (ou seria constatação?) que atinge e atormenta os adultos ao conversarem com as crianças: elas são infinitamente mais espertas e inteligentes do que nós, adultos. Alguma coisa fundamental ocorrera nos neurônios desses pequenos seres. Ou isso é verdade, e ele esperava de coração que fosse, ou ele era, na infância, um completo retardado. Talvez as duas hipóteses fossem corretas, reconheceu.
Como que se defendendo daqueles dois espantos humanos, o tio pegou um jornal esquecido numa mesa ao lado e esbarrou os olhos na manchete: “Envelhecimento terá cura daqui a 25 anos”. Leu duas vezes para ter certeza. Era isso mesmo.
Achou estranha a notícia, fazendo crer que envelhecimento é uma doença à espera de cura, e considerou ainda pior a ideia de que será possível, de acordo com a reportagem, viver até os mil anos. Segundo o jornal, os cientistas estão desenvolvendo um remédio para bloquear o envelhecimento. Viver mil anos?
Mil anos são 365 mil dias ou 55 mil domingos. Se o tio, com 30 anos, já se considera um ancião idiota em frente das crianças, o que aconteceria se vivesse dez séculos? E então ele passou a vislumbrar os grandes pepinos à vista: Mil anos encarando filas de banco e engarrafamentos intermináveis, mil anos lavando louça no frio e fazendo tratamento de canal, mil anos desencravando unhas e indo a reuniões de condomínio, mil anos sendo obrigado a assistir propaganda eleitoral, mil anos recomeçando a dieta na segunda-feira.
Mil anos descascando abacaxis e andando em ônibus lotado, mil anos vendo o PFL mudar de sigla e o Renan Calheiros mudar de ideologia, mil anos esperando ganhar na loteria, mil anos vendo a cara jovem da velha Gina, a loira do palito.
Mesmo com o tal remédio no mercado, o tio decidiu que jamais, em hipótese alguma, viveria mil anos. Se 100 anos pode parecer pouco, mil é exagero.
Os meninos, alheios a essas reflexões, devoraram os lanches como se o mundo fosse mesmo terminar em breve. Pediram mais batatas fritas e, de sobremesa, dois enormes crepes de doce de leite com queijo.
Fernando Evangelista é jornalista. Escreve toda terça-feira no Nota de Rodapé. Esta crônica faz parte da série republicando.
Para Marcelo, Vitor, Beatriz e Catarina
A mãe foi chamada para uma reunião do outro lado da cidade. Não tinha como pegar as crianças na escola e apelou para seu irmão, que morava perto. As crianças adoravam aquele tio, contador de histórias e um compulsivo comprador de chocolates, chicletes, balas e outros venenos deliciosos.
Tinha 30 anos, o tio. O sobrinho mais velho oito e o outro cinco. Foram numa lanchonete próxima ao edifício dos meninos, “lugar imundo, onde só se vende porcaria”, segundo a insuspeita opinião da mãe. No meio do lanche, comendo hambúrgueres e batatas fritas, unidos como os três mosqueteiros, o tio comentou:
– A Gina é muito velha.
– Quem é Gina? – quis saber o sobrinho de cinco anos.
O tio mostrou a caixinha de palitos de dente, com a foto da loira Gina, escondida entre a bisnaga de mostarda e o porta-guardanapo. Os dois meninos observaram cuidadosamente a caixa. Foi o sobrinho maior quem disse:
– Não parece velha, essa mulher é nova.
O tio explicou que aquilo era uma foto, tirada há muitos anos e que o tempo passa rápido e era bom eles aproveitarem porque assim, de repente, quando menos se espera, a gente vira adulto e assim, também de repente, o adulto fica velho e os velhos morrem, sem mais nem menos.
– Mas tem gente que vive bastante – disse o menino de cinco. – A bisa Rosa viveu 101 anos.
– A bisa Rosa é uma exceção – contrapôs o tio. – Poucos chegam a essa idade.
– Conheço uma coisa que durou muito mais – comentou o sobrinho mais velho. – O cajueiro de Natal.
E contou que na véspera havia escrito uma redação sobre esse cajueiro, de quase 130 anos. Disse que pesquisara na Wikipédia, trocara informações com amigos por e-mail, comparara com outros textos do Yahoo e produzira o texto para o seu blog, “só para passar o tempo, entre um episódio e outro do Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E completou:
– É o maior cajueiro do mundo, foi plantado por um pescador no final do século XIX. O pescador morreu velhinho, deitado na sombra da árvore.
– Mas cajueiro não é gente – retrucou o sobrinho pequeno, enquanto limpava com guardanapo a boca suja de mostarda.
– Esse cajueiro de Natal foi tema da escola? – quis saber o tio.
– Não – respondeu o mais velho. – Fiz por conta própria porque gosto de ler e escrever sobre a natureza. A natureza nos ensina um bocado de coisas.
Tentando não demonstrar surpresa, porque demonstrar surpresa nessas horas é coisa de adulto inexperiente, o tio ficou com aquela sensação (ou seria constatação?) que atinge e atormenta os adultos ao conversarem com as crianças: elas são infinitamente mais espertas e inteligentes do que nós, adultos. Alguma coisa fundamental ocorrera nos neurônios desses pequenos seres. Ou isso é verdade, e ele esperava de coração que fosse, ou ele era, na infância, um completo retardado. Talvez as duas hipóteses fossem corretas, reconheceu.
Como que se defendendo daqueles dois espantos humanos, o tio pegou um jornal esquecido numa mesa ao lado e esbarrou os olhos na manchete: “Envelhecimento terá cura daqui a 25 anos”. Leu duas vezes para ter certeza. Era isso mesmo.
Achou estranha a notícia, fazendo crer que envelhecimento é uma doença à espera de cura, e considerou ainda pior a ideia de que será possível, de acordo com a reportagem, viver até os mil anos. Segundo o jornal, os cientistas estão desenvolvendo um remédio para bloquear o envelhecimento. Viver mil anos?
Mil anos são 365 mil dias ou 55 mil domingos. Se o tio, com 30 anos, já se considera um ancião idiota em frente das crianças, o que aconteceria se vivesse dez séculos? E então ele passou a vislumbrar os grandes pepinos à vista: Mil anos encarando filas de banco e engarrafamentos intermináveis, mil anos lavando louça no frio e fazendo tratamento de canal, mil anos desencravando unhas e indo a reuniões de condomínio, mil anos sendo obrigado a assistir propaganda eleitoral, mil anos recomeçando a dieta na segunda-feira.
Mil anos descascando abacaxis e andando em ônibus lotado, mil anos vendo o PFL mudar de sigla e o Renan Calheiros mudar de ideologia, mil anos esperando ganhar na loteria, mil anos vendo a cara jovem da velha Gina, a loira do palito.
Mesmo com o tal remédio no mercado, o tio decidiu que jamais, em hipótese alguma, viveria mil anos. Se 100 anos pode parecer pouco, mil é exagero.
Os meninos, alheios a essas reflexões, devoraram os lanches como se o mundo fosse mesmo terminar em breve. Pediram mais batatas fritas e, de sobremesa, dois enormes crepes de doce de leite com queijo.
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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve toda terça-feira no Nota de Rodapé. Esta crônica faz parte da série republicando.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Corrida maluca
por Carlos Conte*
Antes das 7 da manhã ainda é possível pegar 90 km/h na Marginal Pinheiros. Não há outra razão numa via expressa senão correr. E os caras metem o pé mesmo, inclusive eu. Acordo mais cedo só pra desfrutar desse prazer cada vez mais raro numa cidade congestionada.
André Gorz já havia anunciado o “apocalipse motorizado” (isso em 1973!): “o carro, como uma mansão à beira-mar, é somente desejável e vantajoso a partir do momento em que a massa não dispõe de um”, já que, segundo o filósofo, é impossível democratizar um bem de luxo sem diminuir o gozo de quem faz uso dele. Mas o problema é que o carro no Ocidente tornou-se “vaca sagrada”, em vez de ser tratado como deveria: um “luxo antissocial”. Diante do caos, o que fazem as pessoas motorizadas? Saem de casa cada vez mais cedo, pois continuam querendo gozar do privilégio de ter um carro. Inclusive eu. Sei que depois de um determinando horário a coisa engrossa. 7 da manhã. 7 milhões de automóveis nas ruas da cidade. Uma imagem que a mídia adora: uma fila de 7 milhões de carros é o suficiente para dar a volta ao mundo. Preciso chegar no Jabaquara às 7h15. O sinal da escola toca às 7h20. Professor não pode atrasar. Talvez seja uma das profissões em que o atraso é menos tolerado. Por isso, tenho tudo devidamente cronometrado. Nem pensar em me dar ao luxo, um luxo matinal do qual todos deveriam ter direito, de cagar, tomar café e ler o jornal, ou tomar café e ler o jornal cagando, ou ler o jornal e cagar tomando café... Não importa a ordem. Só sei que nos finais de semana faço tudo isso simultaneamente, só pra esbanjar.
24 de março, 15 minutos para as 7, cruzo a ponte da Cidade Universitária e aos poucos vou entrando na Marginal, sem dar seta (porque há tempos a seta da esquerda não funciona), primeiro pela via local, depois a expressa, onde automóveis, motos e caminhões, em alta velocidade, disputam furiosamente cada metro de pista, cada segundo do relógio. E pensar que estávamos todos dormindo alguns minutos atrás...
Às vezes acelerar torna-se um fim em si mesmo: estou adiantado, mas se posso correr, por que não fazê-lo? Piso no acelerador pelo prazer de correr, de ver os outros carros ficando para trás, como se ultrapassar veículos somasse pontos numa corrida maluca sem fim. E sem sentido. Meio sonolento, chego mesmo a esquecer pra onde estou indo, ouvindo no rádio o repórter Luiz Carlos Gertel falando que o sol vai aparecendo aos poucos entre nuvens e que o trânsito já vai mal nos principais corredores da cidade... A mesma coisa de sempre.
Quando chego à pista 3 (são 7 ao todo), um Palio cola perigosamente na minha traseira, mas finjo não dar importância. Que me passe pela esquerda, se quiser: hoje estou zen. Mudo de estação. Sei que mexer no rádio ao volante é um ato repreensível, mas faço isso com frequência. Está falando agora o professor Mário Sérgio Cortella: “Pensar bem nos faz bem, então vamos pensar juntos...”. Quando me dou conta, o Palio já me passou, agora está na pista 1, à minha esquerda, colado na traseira de um Corsa, que por sua vez está colado em outra traseira, isso a mais de 70km/h, até que a fila deles breca abruptamente: não há tempo, o Corsa freia, arrancando fumaça do asfalto, e entra com tudo na traseira do carro da frente, que é jogado imediatamente contra o carro seguinte... o Palio, por sua vez, se enfia na traseira do Corsa – strike! –, outro dá de cara na bunda do Palio, o seguinte tenta em vão manobrar para a direita, e fica praticamente sobre duas rodas, mas acaba destruindo a lateral dos outros carros, levando consigo retrovisores, lascas da lataria, estilhaços de vidro, até se chocar contra outro carro que vinha pela pista 2 a toda velocidade... E quando parece que as coisas enfim se acalmam, um carro semidestruído, vindo de não sei onde, cruza a pista à minha frente e, cambaleando, para na pista 4.
Apesar de tudo, continuo avançando mais alguns metros e só paro quando percebo que estou arrastando alguma coisa. Ligo o pisca alerta. Vejo que outros carros estão fazendo o mesmo. Há um retrovisor enorme de camionete preso entre o chão e o protetor de carter do meu Peugeot.
Por trás de uma neblina de pneu queimado, vejo atrás de mim carros destruídos, air bags inflados, vidros estilhaçados. Motoristas descem dos veículos falando no celular; outros, perplexos, continuam segurando o volante... A princípio, ninguém preso nas ferragens ou seriamente ferido. Carros desviam do engavetamento pelas pistas da direita. Não sou médico. O resgate certamente está a caminho. Vejo que o melhor a fazer é dar o fora dali.
Numa metrópole como São Paulo, ficamos tão habituados às tragédias da civilização que acabamos desenvolvendo um mecanismo de defesa muito peculiar: a indiferença. Sabe quando a gente se esquece de um sonho e só vai se lembrar dele mais tarde, horas depois, às vezes dias depois? Pois foi isso que aconteceu nesse dia. Trabalhei a manhã inteira como se nada tivesse acontecido. Até que no almoço, entre uma garfada e outra, a imagem do acidente voltou, e junto dela pensamentos sombrios sobre o futuro desta cidade. Pensei nas pessoas acidentadas e, claro, me senti culpado. Sentindo raiva de tudo, e sobretudo de mim mesmo, terminei o almoço, paguei a conta, e fui buscar meu carro.
Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.
Antes das 7 da manhã ainda é possível pegar 90 km/h na Marginal Pinheiros. Não há outra razão numa via expressa senão correr. E os caras metem o pé mesmo, inclusive eu. Acordo mais cedo só pra desfrutar desse prazer cada vez mais raro numa cidade congestionada.
André Gorz já havia anunciado o “apocalipse motorizado” (isso em 1973!): “o carro, como uma mansão à beira-mar, é somente desejável e vantajoso a partir do momento em que a massa não dispõe de um”, já que, segundo o filósofo, é impossível democratizar um bem de luxo sem diminuir o gozo de quem faz uso dele. Mas o problema é que o carro no Ocidente tornou-se “vaca sagrada”, em vez de ser tratado como deveria: um “luxo antissocial”. Diante do caos, o que fazem as pessoas motorizadas? Saem de casa cada vez mais cedo, pois continuam querendo gozar do privilégio de ter um carro. Inclusive eu. Sei que depois de um determinando horário a coisa engrossa. 7 da manhã. 7 milhões de automóveis nas ruas da cidade. Uma imagem que a mídia adora: uma fila de 7 milhões de carros é o suficiente para dar a volta ao mundo. Preciso chegar no Jabaquara às 7h15. O sinal da escola toca às 7h20. Professor não pode atrasar. Talvez seja uma das profissões em que o atraso é menos tolerado. Por isso, tenho tudo devidamente cronometrado. Nem pensar em me dar ao luxo, um luxo matinal do qual todos deveriam ter direito, de cagar, tomar café e ler o jornal, ou tomar café e ler o jornal cagando, ou ler o jornal e cagar tomando café... Não importa a ordem. Só sei que nos finais de semana faço tudo isso simultaneamente, só pra esbanjar.
24 de março, 15 minutos para as 7, cruzo a ponte da Cidade Universitária e aos poucos vou entrando na Marginal, sem dar seta (porque há tempos a seta da esquerda não funciona), primeiro pela via local, depois a expressa, onde automóveis, motos e caminhões, em alta velocidade, disputam furiosamente cada metro de pista, cada segundo do relógio. E pensar que estávamos todos dormindo alguns minutos atrás...
Às vezes acelerar torna-se um fim em si mesmo: estou adiantado, mas se posso correr, por que não fazê-lo? Piso no acelerador pelo prazer de correr, de ver os outros carros ficando para trás, como se ultrapassar veículos somasse pontos numa corrida maluca sem fim. E sem sentido. Meio sonolento, chego mesmo a esquecer pra onde estou indo, ouvindo no rádio o repórter Luiz Carlos Gertel falando que o sol vai aparecendo aos poucos entre nuvens e que o trânsito já vai mal nos principais corredores da cidade... A mesma coisa de sempre.
Quando chego à pista 3 (são 7 ao todo), um Palio cola perigosamente na minha traseira, mas finjo não dar importância. Que me passe pela esquerda, se quiser: hoje estou zen. Mudo de estação. Sei que mexer no rádio ao volante é um ato repreensível, mas faço isso com frequência. Está falando agora o professor Mário Sérgio Cortella: “Pensar bem nos faz bem, então vamos pensar juntos...”. Quando me dou conta, o Palio já me passou, agora está na pista 1, à minha esquerda, colado na traseira de um Corsa, que por sua vez está colado em outra traseira, isso a mais de 70km/h, até que a fila deles breca abruptamente: não há tempo, o Corsa freia, arrancando fumaça do asfalto, e entra com tudo na traseira do carro da frente, que é jogado imediatamente contra o carro seguinte... o Palio, por sua vez, se enfia na traseira do Corsa – strike! –, outro dá de cara na bunda do Palio, o seguinte tenta em vão manobrar para a direita, e fica praticamente sobre duas rodas, mas acaba destruindo a lateral dos outros carros, levando consigo retrovisores, lascas da lataria, estilhaços de vidro, até se chocar contra outro carro que vinha pela pista 2 a toda velocidade... E quando parece que as coisas enfim se acalmam, um carro semidestruído, vindo de não sei onde, cruza a pista à minha frente e, cambaleando, para na pista 4.
Apesar de tudo, continuo avançando mais alguns metros e só paro quando percebo que estou arrastando alguma coisa. Ligo o pisca alerta. Vejo que outros carros estão fazendo o mesmo. Há um retrovisor enorme de camionete preso entre o chão e o protetor de carter do meu Peugeot.
Por trás de uma neblina de pneu queimado, vejo atrás de mim carros destruídos, air bags inflados, vidros estilhaçados. Motoristas descem dos veículos falando no celular; outros, perplexos, continuam segurando o volante... A princípio, ninguém preso nas ferragens ou seriamente ferido. Carros desviam do engavetamento pelas pistas da direita. Não sou médico. O resgate certamente está a caminho. Vejo que o melhor a fazer é dar o fora dali.
Numa metrópole como São Paulo, ficamos tão habituados às tragédias da civilização que acabamos desenvolvendo um mecanismo de defesa muito peculiar: a indiferença. Sabe quando a gente se esquece de um sonho e só vai se lembrar dele mais tarde, horas depois, às vezes dias depois? Pois foi isso que aconteceu nesse dia. Trabalhei a manhã inteira como se nada tivesse acontecido. Até que no almoço, entre uma garfada e outra, a imagem do acidente voltou, e junto dela pensamentos sombrios sobre o futuro desta cidade. Pensei nas pessoas acidentadas e, claro, me senti culpado. Sentindo raiva de tudo, e sobretudo de mim mesmo, terminei o almoço, paguei a conta, e fui buscar meu carro.
* * * * * * *
Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Sete dias entre a vida e a morte
por Fernando Evangelista*
Quando acordei no hospital, depois de sete dias em coma, não conseguia me lembrar do que havia acontecido.
Não recordava do chute, nem do impacto da bola contra a minha cabeça, nem da cabeça batendo no chão de cimento. Era maio de 1987.
Eu cursava o sexto ano do ensino fundamental e, como boa parte dos adolescentes, achava o colégio uma perda de tempo e de imaginação. Suportáveis mesmo só as duas aulas de educação física em sequência, porque o professor era boa gente e ensinava esportes ao ar livre. Com três diplomas universitários – educação física, teologia e filosofia – ele unia essas formações na aula de futebol, exclusiva para meninos. As meninas faziam atividades na quadra ao lado.
“Vamos treinar cobrança de pênalti”, orientou o professor. “Antes de chutar, cada um dos senhores pegará um papel dentro deste copo plástico e vai ler bem alto, o mais alto possível, a palavra sorteada. Dentro do pote, vocês vão encontrar os sete pecados capitais, entre outras coisas. Ficou claro?”
Pecados capitais? Não, a molecada estava confusa, mas deixou por isso mesmo e eu fui para o meu lugar cativo, o gol. Eis uma lei futebolística imutável: Todo perna de pau que se preze, a não ser que seja o dono da pelota, será escalado para o gol. Ou fica na zaga dando bico pra frente.
“Você” – continuou o professor, apontando o dedo pra mim, “deve defender cada uma destas bolas-palavras com gana e seriedade”.
Alguns anos depois, quando assisti ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, tive certeza de que o meu professor inspirou a criação do sensível e sábio John Keating, interpretado por Robin Williams. Como no filme, os garotos tiravam os papeizinhos, gritavam o que estava escrito e chutavam as bolas em direção ao gol. Entre um chute e outro, o mestre declamava trechos de um livro do Ferreira Gullar, seu poeta favorito.
Papel, palavra, chute, defesa, poesia. Modéstia à parte, defendi tudo. “Avareza”, gritava alguém antes de chutar. E eu defendia a avareza. Defendi também a inveja, a gula, a preguiça, a luxúria e a inveja. Os pecados estavam misturados entre os capitais e os outros, que os meninos supunham menos graves. Uma por uma das cobranças – no canto direito, no esquerdo, no alto, no ângulo – eu pegava. O vento desviava para longe os chutes indefensáveis.
O último tiro coube ao Rômulo, o brutamonte. Seu apelido era Escadinha, em referência a um famoso bandido daquele tempo. Como já tinha repetido dezenas de vezes cada um dos sete pecados capitais, o professor deu a ordem, sem sortear a palavra. “Vai, Rômulo, chuta a vida”.
Rômulo Escadinha era um sujeito revoltado com a vida. Ele tomou uma distância exagerada, pegou de bico na bola e ela voou como uma pitomba no meio do gol, diretamente contra a minha cabeça. Meu reflexo falhou e os braços permaneceram imóveis ao lado da cintura.
A bola bateu um pouco acima da testa e voltou na direção do meio-campo. Ela, a bola, não entrou – fato que considero importante registrar. Desabei para trás, provavelmente já desmaiado. Minha cabeça chocou-se contra o chão de cimento. Fiquei sete dias em coma e nunca mais me recuperei. Desisti do futebol e me apaixonei por Ferreira Gullar.
Com força, a bola da vida bateu em mim e continua batendo, insistentemente. Por mais que tente, não consigo segurá-la ou compreendê-la. Ela me confunde e escapa e então volta, sem aviso, sem cerimônia e sem manual de instruções.
Fernando Evangelista é jornalista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé. Esta crônica, publicada aqui ano passado, foi reescrita e fará parte do livro o Piano de Casablanca (editora Insular), a ser lançado em maio.
Quando acordei no hospital, depois de sete dias em coma, não conseguia me lembrar do que havia acontecido.
Não recordava do chute, nem do impacto da bola contra a minha cabeça, nem da cabeça batendo no chão de cimento. Era maio de 1987.
Eu cursava o sexto ano do ensino fundamental e, como boa parte dos adolescentes, achava o colégio uma perda de tempo e de imaginação. Suportáveis mesmo só as duas aulas de educação física em sequência, porque o professor era boa gente e ensinava esportes ao ar livre. Com três diplomas universitários – educação física, teologia e filosofia – ele unia essas formações na aula de futebol, exclusiva para meninos. As meninas faziam atividades na quadra ao lado.
“Vamos treinar cobrança de pênalti”, orientou o professor. “Antes de chutar, cada um dos senhores pegará um papel dentro deste copo plástico e vai ler bem alto, o mais alto possível, a palavra sorteada. Dentro do pote, vocês vão encontrar os sete pecados capitais, entre outras coisas. Ficou claro?”
Pecados capitais? Não, a molecada estava confusa, mas deixou por isso mesmo e eu fui para o meu lugar cativo, o gol. Eis uma lei futebolística imutável: Todo perna de pau que se preze, a não ser que seja o dono da pelota, será escalado para o gol. Ou fica na zaga dando bico pra frente.
“Você” – continuou o professor, apontando o dedo pra mim, “deve defender cada uma destas bolas-palavras com gana e seriedade”.
Alguns anos depois, quando assisti ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, tive certeza de que o meu professor inspirou a criação do sensível e sábio John Keating, interpretado por Robin Williams. Como no filme, os garotos tiravam os papeizinhos, gritavam o que estava escrito e chutavam as bolas em direção ao gol. Entre um chute e outro, o mestre declamava trechos de um livro do Ferreira Gullar, seu poeta favorito.
Papel, palavra, chute, defesa, poesia. Modéstia à parte, defendi tudo. “Avareza”, gritava alguém antes de chutar. E eu defendia a avareza. Defendi também a inveja, a gula, a preguiça, a luxúria e a inveja. Os pecados estavam misturados entre os capitais e os outros, que os meninos supunham menos graves. Uma por uma das cobranças – no canto direito, no esquerdo, no alto, no ângulo – eu pegava. O vento desviava para longe os chutes indefensáveis.
O último tiro coube ao Rômulo, o brutamonte. Seu apelido era Escadinha, em referência a um famoso bandido daquele tempo. Como já tinha repetido dezenas de vezes cada um dos sete pecados capitais, o professor deu a ordem, sem sortear a palavra. “Vai, Rômulo, chuta a vida”.
Rômulo Escadinha era um sujeito revoltado com a vida. Ele tomou uma distância exagerada, pegou de bico na bola e ela voou como uma pitomba no meio do gol, diretamente contra a minha cabeça. Meu reflexo falhou e os braços permaneceram imóveis ao lado da cintura.
A bola bateu um pouco acima da testa e voltou na direção do meio-campo. Ela, a bola, não entrou – fato que considero importante registrar. Desabei para trás, provavelmente já desmaiado. Minha cabeça chocou-se contra o chão de cimento. Fiquei sete dias em coma e nunca mais me recuperei. Desisti do futebol e me apaixonei por Ferreira Gullar.
Com força, a bola da vida bateu em mim e continua batendo, insistentemente. Por mais que tente, não consigo segurá-la ou compreendê-la. Ela me confunde e escapa e então volta, sem aviso, sem cerimônia e sem manual de instruções.
* * * * * *
Fernando Evangelista é jornalista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé. Esta crônica, publicada aqui ano passado, foi reescrita e fará parte do livro o Piano de Casablanca (editora Insular), a ser lançado em maio.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Indiana, aborto e a heterocronia.
por Nina Madsen*
Nunca deixa de me surpreender a insistente e, muitas vezes,
dramática convivência de avessos no campo da cultura e das mentalidades e de
tudo que a partir delas se produz para regular nossa vida em sociedade. É quase
como se os universos paralelos de fato se materializassem e coexistissem,
permitindo que diferentes tempos históricos passassem a avizinhar-se no
espaço-tempo presente.
Aplicando essa reflexão ao campo dos direitos das mulheres
especificamente, a feminista Emily Hicks propôs, na década de 1960, o conceito
de heterocronia, em oposição ao de sincronia, para dar conta desse fenômeno: a
incoerência dos avanços, ou o descompasso entre avanços, permanências e
retrocessos no campo dos direitos humanos e todas as suas derivações.
Pois a heterocronia me espanta sempre, como eu dizia. No
Brasil, parece-me chocante termos gente como Erika Kokay, Luiza Erundina e Jean
Wyllys de um lado, e gente como Bolsonaro, Eduardo Cunha e Feliciano de outro.
No mesmo Parlamento. Ao mesmo tempo. Representando cada qual milhares de
criaturas que convivem (serão vizinhos, familiares, amigos, colegas) e que
votaram no mesmo dia, quiçá na mesma hora, cada qual em um candidato, mas
também em um tempo histórico particular, em uma mentalidade diferente.
Aqui no estrangeiro, duas notícias me chamaram a atenção
esses dias. Primeiro, uma lei estadual pendente de sanção do governador do
estado de Indiana que, ao reconhecer o direito à livre manifestação religiosa,
na verdade, camufla a permissão para a prática deliberada da discriminação
contra LGBTs (leia mais aqui).
Soa familiar? No rádio, transmitem o governador desconversando ao ser
questionado: “Com essa lei, passa a ser legal em seu estado que um restaurante
se recuse a atender um casal homoafetivo, governador?”.
A discussão está quentíssima e a pressão para que a lei não
seja sancionada é enorme. Diversos estados, como Washington e Connecticut, já
anunciaram boicotes caso a lei entre em vigor (leia mais aqui).
Grandes empresas, como a Apple, também se manifestaram contra a proposta (aqui).
Já a outra notícia anuncia a abertura de uma nova clínica de
aborto no estado de Maryland, aqui do lado, com direito a outdoor e tudo.
“Aborto. Sim, a gente faz”, diz a campanha pra lá de corajosa.
“Nós não
queremos sussurrar sobre o assunto, nós não tememos chamar as coisas pelo
nome”[tradução livre], afirmou o presidente da clínica (leia a matéria completa
aqui).
O lugar, segundo a matéria do Washington Post, assemelha-se a um spa – procura
ser um espaço acolhedor, que recebe as mulheres com chá e muita informação
sobre o método adotado ali.
A iniciativa é uma aposta de inovação na abordagem
pró-escolha frente a uma onda pesada de retrocessos em todo o país em termos de
legislação (no estado de Ohio, por exemplo, tentaram recentemente modificar a
legislação sobre o aborto para proibi-lo a partir do momento em que batimentos
cardíacos são identificados no embrião).
Um pouco como o projeto para a legalização do aborto
recém-apresentado por Jean Wyllys e elaborado (em sincronia, dessa vez) com um
grupo de grandes feministas brasileiras. Uma aposta, um movimento, um
atrevimento.
Resistências. Persistências.
Resistências. Persistências.
Em um mundo onde heterocronia e sincronia operam o tempo
todo sem cessar, as resistências e as persistências parecem ser o que detém ou
amparam a queda frente a subidas quase impossíveis. Ganchos e fendas que mantém
os corpos alçados, tesos e prontos para subir mais um pouco, sempre mais um
pouco.
Nina Madsen. Escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Desde janeiro de 2015, vive em Washington, DC – novo cenário de aventuras e leituras pelo avesso do mundo.
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terça-feira, 10 de março de 2015
Quem tem saudade da Oban?
por Tomas Chiaverini*
– O que você acha? – o doutor Carlos, meu médico, perguntou uma semana atrás, enquanto eu sentava em frente à mesa ampla do consultório no bairro do Jardins.
Fiz cara de quem não entendeu e ele foi adiante.
– Não acha que a gente tem de pegar em armas? Você que trabalha na televisão, sabe das coisas de bastidores, não acha que a gente tem de soltar umas bombas em Brasília, arrancar esse povo de lá e começar tudo de novo?
Na hora confesso que fiquei um pouco sem ação. Desconfortável e sem jeito argumentei que não, que qualquer democracia é melhor do que qualquer ditadura, que os problemas devem ser resolvidos dentro das instituições estabelecidas.
O doutor Carlos rebateu dizendo que democracia é muito bom quando o povo é educado, mas que aqui não tem jeito, porque com os votos do Nordeste o PT vai ficar no poder pra sempre.
Ainda tentei argumentar mais um pouco, mas, como o doutor Carlos estava prestes a examinar partes um tanto delicadas, minha resposta foi curta e rasa. Agora que o exame já passou, tudo está bem e estou a uma distância segura do estimado discípulo de Hipócrates, vou tentar melhorar minha sustentação verbal.
Eu não só não acho que devemos pegar em armas como acho que, no nível atual da nossa democracia, pessoas educadas como o senhor, doutor Carlos, deviam ter vergonha de sequer aventar tal hipótese. Vou tentar simplificar, pra não ter perigo de o senhor não entender.
Na última vez que alguém resolveu pegar em armas pra resolver as coisas, o país viveu vinte dos mais negros anos de sua história. Médicos como o senhor, ou como meu avô, doutor Reinaldo Chiaverini, eram expulsos de universidade pelos simples fato de pensaram diferente do pessoal das armas. O pessoal das armas, claro, não gosta de pensar porque, por ser dono das armas, não precisa. Por isso mesmo odeia os que pensam, acha que são ameaças. Então, da última vez que estava no poder, o pessoal das armas saiu à caça dos que pensavam. Agora imagine um país em que só por pensar o senhor podia ser preso num lugar como, por exemplo, a Operação Bandeirantes, a Oban.
A Oban era um carcinoma típico da ditadura, um modelo logo replicado por todo o país. Era uma espécie de delegacia financiada com dinheiro de gente como o senhor, que achava o povo das armas legal, e comandada por um homem que gostava de judiar dos outros, o delegado Sergio Paranhos Fleury. Também tinha espaço para os sádicos do exército, mas o senhor, uma vez preso lá no meio, nunca saberia direito quem era o que.
Em lugares como a Oban, o povo das armas torturava. Hoje, a nossa Polícia ainda gosta de usar métodos parecidos e o pessoal do panelaço finge que não vê porque as vítimas, em geral, são pretas e pobres. Mas na época a coisa era mais profissional. Eles tinham aparelhos feitos especialmente para infligir dor. O mais famoso era o pau de arara, onde penduravam gente como se fossem pedaços de carne num açougue.
Mas tinha coisas mais elaboradas, como a “cadeira do dragão”, onde os presos eram sentados nus pra longas sessões de eletrochoques, ou a “coroa de cristo”, uma braçadeira de metal com parafusos que apertava lenta e implacavelmente o crânio dos interrogados, causando dores lancinantes. Ou ainda o “telefone”, um magneto ligado numa manivela pros torturadores irem aumentando pouco a pouco dose de energia dos choques, o que ajudava a desestabilizar os presos. Antecipar a dor provoca tanta agonia quanto a dor em si.
Eles gostavam especialmente de eletrocutar órgão genitais porque isso humilha, ajuda a implodir a autoestima. Eles realmente adoravam machucar essas partes mais queridas. Enfiavam arames pelas uretras dos presos e iam esquentando até ficar incandescente. Amputavam os bicos dos peitos com alicates para cortar metal.
As mulheres sofriam mais. Eram estupradas, não só por vários homens da lei, mas por cassetetes, porretes e barras de ferro. Eles gostavam muito também de torturar casais. Enquanto a mulher era estuprada, levava choques, safanões, pontapés, cusparadas e mijadas, o companheiro era obrigado a assistir. Depois invertiam as posições e o que tinha apanhado era obrigado a assistir, sabendo como ninguém a dor que seu ente querido estava experimentando.
Se o senhor acabasse preso, doutor Carlos, eles poderiam torturar o senhor por meses a fio. E nem o senhor nem ninguém poderia fazer algo pra mudar isso porque as instituições simplesmente não funcionavam. Eles se divertiam muito com tudo isso. Quando algum preso falava, tinham uma bandinha dos torturadores, que descia as escadas tocando marchinhas pra comemorar.
Como torturavam por muito tempo e com muita violência, eles tinha um médico que cuidava pros presos não morreram. Mesmo assim, alguns presos, que podiam muito bem ser inocentes porque nunca haviam sido julgados, acabavam morrendo. Nem por isso a diversão terminava.
Eles cortavam os corpos, quase sempre de jovens universitários, em vários pedaços pra enterrar em lugares diferentes. Mas guardavam as pontas dos dedos. Depois saíam com elas numa viatura descaracterizada, de preferência na hora do rush, e iam largando os pedacinhos de gente sobre o asfalto. Assim os outros carros passavam por cima e destruíam de vez as digitais.
Isso tudo, doutor Carlos, aconteceu na rua Tutóia, a menos de três quilômetros do consultório do senhor. Foi há pouco tempo, talvez na época que o senhor começasse a pensar na carreira de medicina.
Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha no Nota de Rodapé.
– O que você acha? – o doutor Carlos, meu médico, perguntou uma semana atrás, enquanto eu sentava em frente à mesa ampla do consultório no bairro do Jardins.
Fiz cara de quem não entendeu e ele foi adiante.
– Não acha que a gente tem de pegar em armas? Você que trabalha na televisão, sabe das coisas de bastidores, não acha que a gente tem de soltar umas bombas em Brasília, arrancar esse povo de lá e começar tudo de novo?
Na hora confesso que fiquei um pouco sem ação. Desconfortável e sem jeito argumentei que não, que qualquer democracia é melhor do que qualquer ditadura, que os problemas devem ser resolvidos dentro das instituições estabelecidas.
O doutor Carlos rebateu dizendo que democracia é muito bom quando o povo é educado, mas que aqui não tem jeito, porque com os votos do Nordeste o PT vai ficar no poder pra sempre.
Ainda tentei argumentar mais um pouco, mas, como o doutor Carlos estava prestes a examinar partes um tanto delicadas, minha resposta foi curta e rasa. Agora que o exame já passou, tudo está bem e estou a uma distância segura do estimado discípulo de Hipócrates, vou tentar melhorar minha sustentação verbal.
Eu não só não acho que devemos pegar em armas como acho que, no nível atual da nossa democracia, pessoas educadas como o senhor, doutor Carlos, deviam ter vergonha de sequer aventar tal hipótese. Vou tentar simplificar, pra não ter perigo de o senhor não entender.
Na última vez que alguém resolveu pegar em armas pra resolver as coisas, o país viveu vinte dos mais negros anos de sua história. Médicos como o senhor, ou como meu avô, doutor Reinaldo Chiaverini, eram expulsos de universidade pelos simples fato de pensaram diferente do pessoal das armas. O pessoal das armas, claro, não gosta de pensar porque, por ser dono das armas, não precisa. Por isso mesmo odeia os que pensam, acha que são ameaças. Então, da última vez que estava no poder, o pessoal das armas saiu à caça dos que pensavam. Agora imagine um país em que só por pensar o senhor podia ser preso num lugar como, por exemplo, a Operação Bandeirantes, a Oban.
A Oban era um carcinoma típico da ditadura, um modelo logo replicado por todo o país. Era uma espécie de delegacia financiada com dinheiro de gente como o senhor, que achava o povo das armas legal, e comandada por um homem que gostava de judiar dos outros, o delegado Sergio Paranhos Fleury. Também tinha espaço para os sádicos do exército, mas o senhor, uma vez preso lá no meio, nunca saberia direito quem era o que.
Em lugares como a Oban, o povo das armas torturava. Hoje, a nossa Polícia ainda gosta de usar métodos parecidos e o pessoal do panelaço finge que não vê porque as vítimas, em geral, são pretas e pobres. Mas na época a coisa era mais profissional. Eles tinham aparelhos feitos especialmente para infligir dor. O mais famoso era o pau de arara, onde penduravam gente como se fossem pedaços de carne num açougue.
Mas tinha coisas mais elaboradas, como a “cadeira do dragão”, onde os presos eram sentados nus pra longas sessões de eletrochoques, ou a “coroa de cristo”, uma braçadeira de metal com parafusos que apertava lenta e implacavelmente o crânio dos interrogados, causando dores lancinantes. Ou ainda o “telefone”, um magneto ligado numa manivela pros torturadores irem aumentando pouco a pouco dose de energia dos choques, o que ajudava a desestabilizar os presos. Antecipar a dor provoca tanta agonia quanto a dor em si.
Eles gostavam especialmente de eletrocutar órgão genitais porque isso humilha, ajuda a implodir a autoestima. Eles realmente adoravam machucar essas partes mais queridas. Enfiavam arames pelas uretras dos presos e iam esquentando até ficar incandescente. Amputavam os bicos dos peitos com alicates para cortar metal.
As mulheres sofriam mais. Eram estupradas, não só por vários homens da lei, mas por cassetetes, porretes e barras de ferro. Eles gostavam muito também de torturar casais. Enquanto a mulher era estuprada, levava choques, safanões, pontapés, cusparadas e mijadas, o companheiro era obrigado a assistir. Depois invertiam as posições e o que tinha apanhado era obrigado a assistir, sabendo como ninguém a dor que seu ente querido estava experimentando.
Se o senhor acabasse preso, doutor Carlos, eles poderiam torturar o senhor por meses a fio. E nem o senhor nem ninguém poderia fazer algo pra mudar isso porque as instituições simplesmente não funcionavam. Eles se divertiam muito com tudo isso. Quando algum preso falava, tinham uma bandinha dos torturadores, que descia as escadas tocando marchinhas pra comemorar.
Como torturavam por muito tempo e com muita violência, eles tinha um médico que cuidava pros presos não morreram. Mesmo assim, alguns presos, que podiam muito bem ser inocentes porque nunca haviam sido julgados, acabavam morrendo. Nem por isso a diversão terminava.
Eles cortavam os corpos, quase sempre de jovens universitários, em vários pedaços pra enterrar em lugares diferentes. Mas guardavam as pontas dos dedos. Depois saíam com elas numa viatura descaracterizada, de preferência na hora do rush, e iam largando os pedacinhos de gente sobre o asfalto. Assim os outros carros passavam por cima e destruíam de vez as digitais.
Isso tudo, doutor Carlos, aconteceu na rua Tutóia, a menos de três quilômetros do consultório do senhor. Foi há pouco tempo, talvez na época que o senhor começasse a pensar na carreira de medicina.
* * * * * *
Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha no Nota de Rodapé.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Tarde na biblioteca
por Carlos Conte ilustração Tiago Candido
Duas mesas atrás de mim, o ex-sócio do meu tio lia o Estadão. Compenetrado, debruçado sobre o jornal, às vezes levantava a cabeça e, olhando pra frente, soltava algum comentário sobre as notícias, como se estivesse conversando com alguém, mas não tinha ninguém na cadeira ao lado. Na verdade, não tinha ninguém sempre. Esse cara já foi rico, chegou a ter motorista particular, vários imóveis pela cidade, mulheres lindas, mas não suportou a falência da empresa, hoje é viciado em analgésicos pesados e pode ser visto, pele e osso, vagando feito fantasma pelas ruas da Lapa ou falando sozinho enquanto lê o jornal numa biblioteca pública da Vila Romana.
Anos frequentando essa biblioteca e ainda não me acostumei com o bibliotecário. Ele tem uma deformidade no pescoço que me deixa intrigado. Não consigo pensar em outra coisa quando estou perto dele. Se ele passa pela minha mesa, meus olhos são instintivamente capturados pela imagem: parece que tem um canudo daqueles mais grossos de refrigerante implantado sob a pele, uma elevação tortuosa (a maquete de uma cordilheira) que vai do peito até o queixo, e enquanto admiro esse pescoço fico pensando que isso pode ser fruto de alguma intervenção cirúrgica, quem sabe até alienígena. Nunca se sabe. Além disso, o sujeito não me parece ser muito bom da cabeça, mas até aí estamos todos no mesmo barco, com a certeza de que ninguém se salva neste mundão cansado. Viver entre livros pode fazer mal à saúde, prova disso é o doidão do Piauí que vivia (ou ainda vive?) entrando e saindo da biblioteca da FFLCH.
Dia agitado na biblioteca da Rua Catão. Vários tipos interessantes. Quanto mais acabados, mais interessantes. E eu ali no meio, querendo silêncio, fingindo ser um normal (repito: estamos todos no mesmo barco, estamos todos desesperados). Outro dia bati boca com duas faxineiras que estavam conversando alto no corredor, e hoje penso que o errado ali talvez seja eu. Um amigo arquiteto me falou que o melhor jeito de se projetar uma praça é o seguinte: instale uma câmera escondida, veja de que forma as pessoas estão usando esse espaço – isso vai determinar onde ficarão as passarelas, os canteiros, os postes e todo o resto. No caso da biblioteca, vejo que seus antigos frequentadores e funcionários já deram utilidades para o espaço, que não necessariamente é o uso considerado correto ou normal para uma biblioteca.
Crianças com uniforme da escola fazem “trabalho” em grupo com canetas coloridas e cartolina (imitam aos berros a professora de ciências). Um mendigo dorme profundamente duas mesas ao lado, de vez em quando soltando um ronco grave e profundo, um ronco clássico, que me faz lembrar aqueles roncos do Leôncio do Pica-Pau. Um homem de terno e mãos bem peludas e suadas faz exercícios numa apostila de inglês básico: esse ainda não desistiu, não largou a rapadura. Na mesa de trás, novamente o ex-sócio do meu tio sussurra alguma coisa que eu não escuto. E tudo isso na mesma sala de leitura, aonde eu fui com o objetivo de escrever uma crônica sobre o carnaval sem saber que seria forçado a mudar de assunto na última hora. Escrever crônica tem dessas.
Como se não bastasse, entrou um grupo de quatro mulheres falando pelos cotovelos, como se entrassem na padaria ou na mercearia, mas logo descobri que a biblioteca para elas era uma espécie de sala de estar: estavam ali para descansar as pernas e bater papo. Sentaram-se em frente à estante de revistas, uma delas pegou uma Super Interessante e começou a folheá-la, molhando a ponta do dedo cada vez que ia virar uma página, até que alguma coisa na revista a fez arregalar os olhos:
– Olha só o que diz aqui: pedra nos rins pode ser maior que um caroço de maracujá!
– Isso eu já sabia – completou a mais velha, a voz da experiência. – O Artur, filho do vizinho de fundos do... – e aí ela foi emendando um monte de nomes e referências até que as outras se lembrassem – o Artur quase teve um troço quando viu o tamanho da pedra que tiraram dele. Do tamanho de uma azeitona!
As outras ficaram chocadas. Eu também. O bibliotecário se levantou e foi na direção da mesa delas. Estavam largadas sobre as cadeiras como se estivessem num sofá. Uma bandeja com café e sequilhos ia bem, pensei. Nem o trabalho de ciências do 6º ano era tão barulhento, por isso imaginei que o bibliotecário estava indo até elas pedir silêncio, afinal aquilo ainda era uma biblioteca.
Quando ele passou por mim, não pude resistir ao seu pescoço, irresistivelmente feio. Sentou-se numa cadeira vaga junto delas e falou:
– Eu conheço o Artur, Margarete! Ele mora no meu prédio.
Só eu não conhecia o Artur. Estava mesmo deslocado.
Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Tiago Candido, ilustrador, especial para o Nota de Rodapé
Duas mesas atrás de mim, o ex-sócio do meu tio lia o Estadão. Compenetrado, debruçado sobre o jornal, às vezes levantava a cabeça e, olhando pra frente, soltava algum comentário sobre as notícias, como se estivesse conversando com alguém, mas não tinha ninguém na cadeira ao lado. Na verdade, não tinha ninguém sempre. Esse cara já foi rico, chegou a ter motorista particular, vários imóveis pela cidade, mulheres lindas, mas não suportou a falência da empresa, hoje é viciado em analgésicos pesados e pode ser visto, pele e osso, vagando feito fantasma pelas ruas da Lapa ou falando sozinho enquanto lê o jornal numa biblioteca pública da Vila Romana.
Anos frequentando essa biblioteca e ainda não me acostumei com o bibliotecário. Ele tem uma deformidade no pescoço que me deixa intrigado. Não consigo pensar em outra coisa quando estou perto dele. Se ele passa pela minha mesa, meus olhos são instintivamente capturados pela imagem: parece que tem um canudo daqueles mais grossos de refrigerante implantado sob a pele, uma elevação tortuosa (a maquete de uma cordilheira) que vai do peito até o queixo, e enquanto admiro esse pescoço fico pensando que isso pode ser fruto de alguma intervenção cirúrgica, quem sabe até alienígena. Nunca se sabe. Além disso, o sujeito não me parece ser muito bom da cabeça, mas até aí estamos todos no mesmo barco, com a certeza de que ninguém se salva neste mundão cansado. Viver entre livros pode fazer mal à saúde, prova disso é o doidão do Piauí que vivia (ou ainda vive?) entrando e saindo da biblioteca da FFLCH.
Dia agitado na biblioteca da Rua Catão. Vários tipos interessantes. Quanto mais acabados, mais interessantes. E eu ali no meio, querendo silêncio, fingindo ser um normal (repito: estamos todos no mesmo barco, estamos todos desesperados). Outro dia bati boca com duas faxineiras que estavam conversando alto no corredor, e hoje penso que o errado ali talvez seja eu. Um amigo arquiteto me falou que o melhor jeito de se projetar uma praça é o seguinte: instale uma câmera escondida, veja de que forma as pessoas estão usando esse espaço – isso vai determinar onde ficarão as passarelas, os canteiros, os postes e todo o resto. No caso da biblioteca, vejo que seus antigos frequentadores e funcionários já deram utilidades para o espaço, que não necessariamente é o uso considerado correto ou normal para uma biblioteca.
Crianças com uniforme da escola fazem “trabalho” em grupo com canetas coloridas e cartolina (imitam aos berros a professora de ciências). Um mendigo dorme profundamente duas mesas ao lado, de vez em quando soltando um ronco grave e profundo, um ronco clássico, que me faz lembrar aqueles roncos do Leôncio do Pica-Pau. Um homem de terno e mãos bem peludas e suadas faz exercícios numa apostila de inglês básico: esse ainda não desistiu, não largou a rapadura. Na mesa de trás, novamente o ex-sócio do meu tio sussurra alguma coisa que eu não escuto. E tudo isso na mesma sala de leitura, aonde eu fui com o objetivo de escrever uma crônica sobre o carnaval sem saber que seria forçado a mudar de assunto na última hora. Escrever crônica tem dessas.
Como se não bastasse, entrou um grupo de quatro mulheres falando pelos cotovelos, como se entrassem na padaria ou na mercearia, mas logo descobri que a biblioteca para elas era uma espécie de sala de estar: estavam ali para descansar as pernas e bater papo. Sentaram-se em frente à estante de revistas, uma delas pegou uma Super Interessante e começou a folheá-la, molhando a ponta do dedo cada vez que ia virar uma página, até que alguma coisa na revista a fez arregalar os olhos:
– Olha só o que diz aqui: pedra nos rins pode ser maior que um caroço de maracujá!
– Isso eu já sabia – completou a mais velha, a voz da experiência. – O Artur, filho do vizinho de fundos do... – e aí ela foi emendando um monte de nomes e referências até que as outras se lembrassem – o Artur quase teve um troço quando viu o tamanho da pedra que tiraram dele. Do tamanho de uma azeitona!
As outras ficaram chocadas. Eu também. O bibliotecário se levantou e foi na direção da mesa delas. Estavam largadas sobre as cadeiras como se estivessem num sofá. Uma bandeja com café e sequilhos ia bem, pensei. Nem o trabalho de ciências do 6º ano era tão barulhento, por isso imaginei que o bibliotecário estava indo até elas pedir silêncio, afinal aquilo ainda era uma biblioteca.
Quando ele passou por mim, não pude resistir ao seu pescoço, irresistivelmente feio. Sentou-se numa cadeira vaga junto delas e falou:
– Eu conheço o Artur, Margarete! Ele mora no meu prédio.
Só eu não conhecia o Artur. Estava mesmo deslocado.
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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Tiago Candido, ilustrador, especial para o Nota de Rodapé
terça-feira, 3 de março de 2015
Aos trinta, síndico, Carlos
por Ricardo Sangiovanni*
E eu que pensei que um dia viraria poeta, Carlos, acabei síndico de prédio. Aos trinta, Carlos: síndico de prédio!
Custou crer a meus amigos. Um perguntou se eu houvera faltado à reunião de condomínio e - oh, desgraça! - fora eleito à revelia. Não, não faltei. Outro riu-se indagando se acaso no prédio não havia algum aposentado no auge da carreira, mais disposto a abraçar o fardo. Não, não havia.
Aconteceu tem só três meses, Carlos, mas já pude confirmar o que previa: a vida de síndico empata mesmo a poesia. Porque a alma do poeta esmaece ante a burocracia mofada do cartório, que lhe obriga a ir três vezes ao maldito se não quiser pagar propina para registrar uma pinoia de documento. Alma de poeta não foi feita para pegar senha de banco em banco, Carlos, e ter que esperar uma vida para ouvir que não, obrigado, não temos interesse em abrir conta para prédio pequeno. Poeta não é para administrar caixinha, Carlos, nem para preencher tabela dinâmica, nem para gastar o latim renegociando os atrasados. Não é para se preocupar com vazamento de água, nem para descer de chinelo sábado à tarde para enquadrar o miserável do bêbado que meteu o carro na grade. O poeta morre se tiver que resolver todas as bagaças que ninguém mais quer resolver - e é aí, Carlos, que nascem o síndico e sua tragédia silenciosa.
Mas, Carlos, espera aí: os síndicos deste Brasil também têm direito a ser um pouco poetas, cara pálida. Então, como é que fica? Quem é que vai garantir o direito universal à poesia aos síndicos, e mais a todas as outras classes de pobres diabos iludidos de que há que se fazer, sem prevaricar, alguma coisa pelo que é coletivo? Até quando quem quiser ir além do próprio umbigo haverá de seguir pagando com a alma, que é o preço que cobram essa nossa falta de espírito público galopante, essa burocracia hedionda, esse tempo que já não dá para nada?
Também não precisa ter pena, Carlos - eu mesmo não tenho: ou o poeta em mim sobrevive ao síndico, ou melhor não haver diabo de poeta nenhum. A propósito, talvez o destino ainda me queira gauche: mês que vem começo, como você, a trabalhar em repartição. Valei-me, oh, Carlos! Valei-me!
Ricardo Sangiovanni, jornalista, mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
E eu que pensei que um dia viraria poeta, Carlos, acabei síndico de prédio. Aos trinta, Carlos: síndico de prédio!
Custou crer a meus amigos. Um perguntou se eu houvera faltado à reunião de condomínio e - oh, desgraça! - fora eleito à revelia. Não, não faltei. Outro riu-se indagando se acaso no prédio não havia algum aposentado no auge da carreira, mais disposto a abraçar o fardo. Não, não havia.
Aconteceu tem só três meses, Carlos, mas já pude confirmar o que previa: a vida de síndico empata mesmo a poesia. Porque a alma do poeta esmaece ante a burocracia mofada do cartório, que lhe obriga a ir três vezes ao maldito se não quiser pagar propina para registrar uma pinoia de documento. Alma de poeta não foi feita para pegar senha de banco em banco, Carlos, e ter que esperar uma vida para ouvir que não, obrigado, não temos interesse em abrir conta para prédio pequeno. Poeta não é para administrar caixinha, Carlos, nem para preencher tabela dinâmica, nem para gastar o latim renegociando os atrasados. Não é para se preocupar com vazamento de água, nem para descer de chinelo sábado à tarde para enquadrar o miserável do bêbado que meteu o carro na grade. O poeta morre se tiver que resolver todas as bagaças que ninguém mais quer resolver - e é aí, Carlos, que nascem o síndico e sua tragédia silenciosa.
Mas, Carlos, espera aí: os síndicos deste Brasil também têm direito a ser um pouco poetas, cara pálida. Então, como é que fica? Quem é que vai garantir o direito universal à poesia aos síndicos, e mais a todas as outras classes de pobres diabos iludidos de que há que se fazer, sem prevaricar, alguma coisa pelo que é coletivo? Até quando quem quiser ir além do próprio umbigo haverá de seguir pagando com a alma, que é o preço que cobram essa nossa falta de espírito público galopante, essa burocracia hedionda, esse tempo que já não dá para nada?
Também não precisa ter pena, Carlos - eu mesmo não tenho: ou o poeta em mim sobrevive ao síndico, ou melhor não haver diabo de poeta nenhum. A propósito, talvez o destino ainda me queira gauche: mês que vem começo, como você, a trabalhar em repartição. Valei-me, oh, Carlos! Valei-me!
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Ricardo Sangiovanni, jornalista, mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Tic-tac-tac
Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.
Nome: Gildo Macedo Lacerda
Nascimento: 8 de julho de 1949
Cidade natal: Ituiutaba - MG
Morte: 28 de outubro de 1973
Cidade final: Recife, PE
Causa da morte: tortura
Versão da ditadura: troca de tiros entre militantes
por Fernanda Pompeu ilustrações Fernando Carvall
A ficha acima é fria como todas as fichas, sejam elas de nascimento, casamento, emprego, pedido de bolsa de estudo. Fichas são como aquelas pulseiras usadas nos hospitais. Nome do paciente e de sua mãe. Dependendo da idade, o aviso-alerta PERIGO DE QUEDA. Ou seja, as fichas também nos humilham. Feitas para particularizar, tiram nossa identidade. Pois parecem comprimir a história de uma longa vida num sujeito que tende a cair.
Mas, é claro, as fichas não são todas iguais. Essa do Gildo Macedo Lacerda diz algo de um garoto morto aos vinte quatro anos sob tortura. Morrer sob tortura significa morrer sofrendo de forma violenta. Não em consequência de uma cirrose hepática, de um câncer generalizado, ou em decorrência de uma batida de carro, desastre de avião, mordida de cobra. Morrer sob tortura significa que alguém matou você. Também no caso do Gildo - e de muitos outros e outras - o corpo foi desaparecido. Leia-se ocultado da família e dos amigos. Cortejo fúnebre que nunca foi visto pela caixa da padaria, pelo jornaleiro da esquina, pelo fantasma do Farol da Barra, pelo ascensorista do Elevador Lacerda, pelo país.
Qualquer ficha que traz a data da morte é uma espécie de congelamento. Significa que a partir daquele dia e hora, tudo na pessoa vira passado. Sem futuro. Mas isso não quer dizer que a gente não possa imaginar. Não possa trafegar no universo do se. Se Gildo não tivesse sido morto teria visto a filha nascer e crescer, teria se tornado avô. Não faço ideia em quem ele teria votado nas eleições de 2014. Mas isso tem importância?
O que interessa é que ele estaria com sessenta e seis anos e poderia se sentar à mesa e contar muitas histórias. Tristes, divertidas, edificantes ou irônicas. Certamente ele narraria muitas vezes a sua prisão, o medo que sentiu por ele e por sua mulher grávida que também foi presa. Contaria da violência sofrida, mas também do sonho, da juventude, do projeto de um Brasil melhor, mais justo. Com certeza, ele teria ouvintes. Gente nova que arregalaria olhos assustados para o país dos anos da ditadura.
Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.
Nome: Gildo Macedo Lacerda
Nascimento: 8 de julho de 1949
Cidade natal: Ituiutaba - MG
Morte: 28 de outubro de 1973
Cidade final: Recife, PE
Causa da morte: tortura
Versão da ditadura: troca de tiros entre militantes
por Fernanda Pompeu ilustrações Fernando Carvall
A ficha acima é fria como todas as fichas, sejam elas de nascimento, casamento, emprego, pedido de bolsa de estudo. Fichas são como aquelas pulseiras usadas nos hospitais. Nome do paciente e de sua mãe. Dependendo da idade, o aviso-alerta PERIGO DE QUEDA. Ou seja, as fichas também nos humilham. Feitas para particularizar, tiram nossa identidade. Pois parecem comprimir a história de uma longa vida num sujeito que tende a cair.
Mas, é claro, as fichas não são todas iguais. Essa do Gildo Macedo Lacerda diz algo de um garoto morto aos vinte quatro anos sob tortura. Morrer sob tortura significa morrer sofrendo de forma violenta. Não em consequência de uma cirrose hepática, de um câncer generalizado, ou em decorrência de uma batida de carro, desastre de avião, mordida de cobra. Morrer sob tortura significa que alguém matou você. Também no caso do Gildo - e de muitos outros e outras - o corpo foi desaparecido. Leia-se ocultado da família e dos amigos. Cortejo fúnebre que nunca foi visto pela caixa da padaria, pelo jornaleiro da esquina, pelo fantasma do Farol da Barra, pelo ascensorista do Elevador Lacerda, pelo país.
Qualquer ficha que traz a data da morte é uma espécie de congelamento. Significa que a partir daquele dia e hora, tudo na pessoa vira passado. Sem futuro. Mas isso não quer dizer que a gente não possa imaginar. Não possa trafegar no universo do se. Se Gildo não tivesse sido morto teria visto a filha nascer e crescer, teria se tornado avô. Não faço ideia em quem ele teria votado nas eleições de 2014. Mas isso tem importância?
O que interessa é que ele estaria com sessenta e seis anos e poderia se sentar à mesa e contar muitas histórias. Tristes, divertidas, edificantes ou irônicas. Certamente ele narraria muitas vezes a sua prisão, o medo que sentiu por ele e por sua mulher grávida que também foi presa. Contaria da violência sofrida, mas também do sonho, da juventude, do projeto de um Brasil melhor, mais justo. Com certeza, ele teria ouvintes. Gente nova que arregalaria olhos assustados para o país dos anos da ditadura.
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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Outros paus
por Celso Vicenzi*
O pau do momento, nas tribos, nas praias, nas rodas sociais, até em casas de família – quem diria! – é o pau de selfie. Juro que não queria meter a minha colher de pau no assunto, mas não pude resistir. Afinal, em mãos de anônimos ou famosos, o tal disputa pau a pau com outras sensações do atual verão. Não sei se o veremos em outras estações, mas, atualmente, é um pau muito disputado. Por homens e mulheres – sem preconceito! Verdade que precisa ter um pouco de cara de pau para armar essa vara em pleno espaço público. Mas, mesmo correndo o risco de levar pau, em comentários ao vivo ou em rede, o sujeito toca o pau e segue em frente.
Outros paus, no entanto, já fizeram sucesso em terras brasileiras e além-mar. Na época em que aqui aportaram, os portugueses logo se interessaram pelo pau nativo. Calma! Não era exatamente o pau dos índios, que viviam pelados. A cobiça maior, além das índias, naturalmente, era pelo pau-brasil (Caesalpinia echinata), uma árvore originária da Mata Atlântica que foi largamente usada, principalmente, para tingir tecidos e fabricar a tinta para escrever e ilustrar as páginas de manuscritos. Nos primeiros 30 anos após a chegada da frota de Cabral, cortaram a árvore a dar com pau! E levaram tudo para Portugal. Essa exploração do pau brasileiro se estendeu ainda por três séculos, levando a árvore quase à extinção.
Em matéria de tamanho, o pau de selfie – por maior que seja o ego de quem o segura – é muito pequeno comparado ao pau-brasil, que chega a atingir 30 metros de altura e 1,5 metro de envergadura. Tão importante em nossa história que o nome do país deve-se exatamente a esse pau. Vermelho-púrpura. Lindo!
Não sei exatamente quantos paus valia, na época, cada árvore. Sei que Portugal e muitos portugueses enriqueceram. Só para ter uma ideia, uma única nau, em 1511, levou para a Europa 150 mil quilos de pau-de-tinta, um dos muitos nomes dessa árvore também conhecida por pau-rosado, pau-de-pernambuco, ibirapitanga, ibirapiranga, ibirapita, muirapiranga, orabutã e brasileto. O carregamento rendeu cerca de 2.500 ducados – ou 70 quilos de ouro. Coisa para o sujeito chutar o pau da barraca e viver feliz pelo resto de seus dias. Dinheiro suficiente para dar-se ao luxo de pagar um pintor para fazer um, digamos, self portrait.
Outro pau que ainda faz sucesso, mas foi mais festejado no passado, é o pau de fita. Uma dança folclórica trazida ao Brasil por portugueses e espanhóis, e também presente em países do México à Argentina. Um pau é fincado no chão e os participantes dançam segurando fitas coloridas que vão sendo entrelaçadas, em zigue-zague, até que o movimento, de tão encurtado, não seja mais possível. Daí, faz-se o movimento contrário, destrançando as fitas.
Nas festas juninas tem outro pau que faz muito sucesso: o pau de sebo, também denominado de cocanha ou mastro de cocanha. O costume vem do Egito e, nesse caso, o pau não é somente metafórico. É mesmo um falo, em homenagem ao deus da fertilidade, o pagão Baal. Mais tarde, a Igreja Católica cristianizou a tradição, que chegou aos nossos dias nos festejos de São João. A brincadeira consiste em tentar alcançar um prêmio no alto do mastro untado com uma substância gordurosa. O pau-de-sebo (Sapium sebiferum) é o nome de uma árvore da família das euforbiáceas, nativa da China, que foi aclimatada em solo brasileiro.
Nosso país tem ainda um outro pau bem conhecido, só que este é uma referência triste e trágica em nossa história. O pau de arara é o nome dado ao transporte de passageiros na carroceria improvisada de caminhões, ainda presente em muitos lugares pobres do país. Milhares de nordestinos, principalmente, se deslocaram por vastas regiões do Brasil usando esse meio de transporte, por vontade ou necessidade, como cantou Luiz Gonzaga, ao contar a saga de quem tentava resistir à seca e só iria abandonar suas terras, no Cariri, “no último pau de arara” (letra de Venâncio/Corumbá/J. Guimarães).
Pau de arara é também um método de tortura que foi muito utilizado pelo regime militar após o golpe de 1964. Consiste numa barra atravessada entre os punhos amarrados e a dobra dos joelhos da vítima, que fica pendurada e, com o passar do tempo, sofre dores terríveis que, se não bastassem, eram combinadas com eletrochoques, espancamentos e afogamento.
Era uma época em que boa parte da juventude brasileira enfrentava um inimigo que torturava e matava. Havia menos individualismo e mais sonhos de mudança, embora já fosse uma geração que desfrutava da sociedade de consumo, o que, desde então, só vem se acentuando. Mas essa idolatria narcísica não começou somente agora. Vivemos, há mais de uma geração, um culto exagerado à juventude, uma necessidade de se manter sempre “jovem”, de não querer envelhecer, de buscar a melhor imagem de si.
O que, em muitos casos, se resume em muitos sorrisos – nem todos sinceros – que ficarão registrados, em milhares de cenas compartilhadas, graças a um pau de selfie.
Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.
O pau do momento, nas tribos, nas praias, nas rodas sociais, até em casas de família – quem diria! – é o pau de selfie. Juro que não queria meter a minha colher de pau no assunto, mas não pude resistir. Afinal, em mãos de anônimos ou famosos, o tal disputa pau a pau com outras sensações do atual verão. Não sei se o veremos em outras estações, mas, atualmente, é um pau muito disputado. Por homens e mulheres – sem preconceito! Verdade que precisa ter um pouco de cara de pau para armar essa vara em pleno espaço público. Mas, mesmo correndo o risco de levar pau, em comentários ao vivo ou em rede, o sujeito toca o pau e segue em frente.
Outros paus, no entanto, já fizeram sucesso em terras brasileiras e além-mar. Na época em que aqui aportaram, os portugueses logo se interessaram pelo pau nativo. Calma! Não era exatamente o pau dos índios, que viviam pelados. A cobiça maior, além das índias, naturalmente, era pelo pau-brasil (Caesalpinia echinata), uma árvore originária da Mata Atlântica que foi largamente usada, principalmente, para tingir tecidos e fabricar a tinta para escrever e ilustrar as páginas de manuscritos. Nos primeiros 30 anos após a chegada da frota de Cabral, cortaram a árvore a dar com pau! E levaram tudo para Portugal. Essa exploração do pau brasileiro se estendeu ainda por três séculos, levando a árvore quase à extinção.
Em matéria de tamanho, o pau de selfie – por maior que seja o ego de quem o segura – é muito pequeno comparado ao pau-brasil, que chega a atingir 30 metros de altura e 1,5 metro de envergadura. Tão importante em nossa história que o nome do país deve-se exatamente a esse pau. Vermelho-púrpura. Lindo!
Não sei exatamente quantos paus valia, na época, cada árvore. Sei que Portugal e muitos portugueses enriqueceram. Só para ter uma ideia, uma única nau, em 1511, levou para a Europa 150 mil quilos de pau-de-tinta, um dos muitos nomes dessa árvore também conhecida por pau-rosado, pau-de-pernambuco, ibirapitanga, ibirapiranga, ibirapita, muirapiranga, orabutã e brasileto. O carregamento rendeu cerca de 2.500 ducados – ou 70 quilos de ouro. Coisa para o sujeito chutar o pau da barraca e viver feliz pelo resto de seus dias. Dinheiro suficiente para dar-se ao luxo de pagar um pintor para fazer um, digamos, self portrait.
Outro pau que ainda faz sucesso, mas foi mais festejado no passado, é o pau de fita. Uma dança folclórica trazida ao Brasil por portugueses e espanhóis, e também presente em países do México à Argentina. Um pau é fincado no chão e os participantes dançam segurando fitas coloridas que vão sendo entrelaçadas, em zigue-zague, até que o movimento, de tão encurtado, não seja mais possível. Daí, faz-se o movimento contrário, destrançando as fitas.
Nas festas juninas tem outro pau que faz muito sucesso: o pau de sebo, também denominado de cocanha ou mastro de cocanha. O costume vem do Egito e, nesse caso, o pau não é somente metafórico. É mesmo um falo, em homenagem ao deus da fertilidade, o pagão Baal. Mais tarde, a Igreja Católica cristianizou a tradição, que chegou aos nossos dias nos festejos de São João. A brincadeira consiste em tentar alcançar um prêmio no alto do mastro untado com uma substância gordurosa. O pau-de-sebo (Sapium sebiferum) é o nome de uma árvore da família das euforbiáceas, nativa da China, que foi aclimatada em solo brasileiro.
Nosso país tem ainda um outro pau bem conhecido, só que este é uma referência triste e trágica em nossa história. O pau de arara é o nome dado ao transporte de passageiros na carroceria improvisada de caminhões, ainda presente em muitos lugares pobres do país. Milhares de nordestinos, principalmente, se deslocaram por vastas regiões do Brasil usando esse meio de transporte, por vontade ou necessidade, como cantou Luiz Gonzaga, ao contar a saga de quem tentava resistir à seca e só iria abandonar suas terras, no Cariri, “no último pau de arara” (letra de Venâncio/Corumbá/J. Guimarães).
Pau de arara é também um método de tortura que foi muito utilizado pelo regime militar após o golpe de 1964. Consiste numa barra atravessada entre os punhos amarrados e a dobra dos joelhos da vítima, que fica pendurada e, com o passar do tempo, sofre dores terríveis que, se não bastassem, eram combinadas com eletrochoques, espancamentos e afogamento.
Era uma época em que boa parte da juventude brasileira enfrentava um inimigo que torturava e matava. Havia menos individualismo e mais sonhos de mudança, embora já fosse uma geração que desfrutava da sociedade de consumo, o que, desde então, só vem se acentuando. Mas essa idolatria narcísica não começou somente agora. Vivemos, há mais de uma geração, um culto exagerado à juventude, uma necessidade de se manter sempre “jovem”, de não querer envelhecer, de buscar a melhor imagem de si.
O que, em muitos casos, se resume em muitos sorrisos – nem todos sinceros – que ficarão registrados, em milhares de cenas compartilhadas, graças a um pau de selfie.
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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Bar do Elvis
por Carlos Conte*
Mais uma crônica de bar. Na verdade, um ex-bar: depois da morte do Vavá, foi demolido e se não me engano virou estacionamento. Vavá era dono de bar à moda antiga. Jaleco branco, cabelos igualmente brancos e meio amarelados, metodicamente penteados para trás e fixados com gel, magro, alto, fã do Elvis. Tão fã que muita gente chamava o lugar de bar do Elvis: um bar temático numa época em que não se falava em bares temáticos. Ali era parada obrigatória do bloco de carnaval Vai-Quem-Quer.
O lugar era bem estreito, pequeno, com um longo balcão dividindo o salão em duas partes desde a porta até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram forradas de objetos do rei: cartazes, quadros, discos. Na TV, sempre estava passando algum vídeo do Elvis, e me lembro de ter visto inteiro o show que ele fez no Havaí nos anos 70: o Elvis de colar havaiano usando aquelas roupas coloridas bregas que eu nunca entendi direito, e que são a sua marca registrada, tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou dourada de um macacão, além de umas costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa. Eu estava de gladiador. Uma dupla realmente incrível.
Ali no bar do Elvis tinha umas figuras carimbadas. Todo bar tem. Sempre estava lá um velho barbudo que eu e o Dudu apelidamos só entre nós de Velho Marinheiro, por causa da boininha na cabeça. Uma vez, o Velho Marinheiro dormiu no balcão, e logo em seguida as pessoas começaram a ver uma poça de mijo crescendo embaixo dele, formando uma represa de mijo no chão do bar! Sonhando estar diante de uma privada ou uma árvore, o Velho simplesmente tirou pra fora e começou a fazer ali mesmo. Mas não foi de sacanagem. O Velho, na verdade, era um tipo muito interessante. Tinha estilo. Mijou de bêbado, mas mijou com estilo, dormindo, a braguilha discretamente aberta, apoiando-se no balcão. Depois, como sempre, alguém chamou o táxi, pôs o Velho lá, e o Vavá telefonou para a mulher avisando que o marido bebum estava a caminho.
Num texto chamado “Supermarket”, eu anunciei, bem de passagem, a história que eu vou contar agora. Na verdade foi o irmão mais novo João, e não o próprio Vavá, que uma vez puxou papo comigo e me revelou o verdadeiro motivo da morte do rei do rock. João era tão fanático pelo Elvis quanto o Vavá. Acho que nesse dia o Galo estava tomando cerveja comigo.
– Vou contar uma coisa – disse o João, como se viesse dar uma notícia quente. –Infelizmente o Elvis morreu.
– Morreu sim – respondi.
– Pois tem gente que acha que ele não morreu, mas que ele fugiu, sem deixar pistas! Hoje vive escondido em algum lugar, protegido por uma tal lei de proteção a testemunhas ou alguma coisa do tipo. Mas isso é coisa de fanático! Eu não caio nessa conversa! Com tanto paparazzi, já teriam pegado ele de sunga numa praia do Caribe, você não acha?
Concordei com o João: Elvis estava morto.
– “Elvis não morreu” é uma isca pra manter as lojas vendendo – eu disse, com ares de sociólogo de boteco.
– Dizem que foi droga, mas não foi droga.
– Isso eu não sabia, João. Achei que tinha sido abuso de calmante ou...
– Ele morreu cagando.
– Sério?
– Sério. Acharam o corpo caído no chão do banheiro, mas ele estava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.
– Quê?!
– Ele só comia lanche do Mc Donald’s! Gente assim não dura. Falta fibra no organismo e aí prende tudo. O Elvis fez tanta força que a veia não aguentou! E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo etc. e tal... mas a realidade pouca gente sabe. Eu sei porque estudei.
– Leu numa biografia?
– Nenhuma biografia vai falar isso porque todos foram muito bem pagos para calar o bico. Você mesmo disse: as lojas têm que continuar vendendo camisas com a cara do rei. E assim a banda toca. Você sabe...
Então, calou-se. Enquanto passava flanela na TV, seus olhos fixaram a tela: ali estava Elvis cantando Love Me Tender. Seu rosto, cada vez mais próximo do rosto do Rei, iluminou-se, e em movimentos circulares João passava o pano na tela como se fizesse carinho no jovem Elvis que cantava “Ame-me com ternura / Ame-me com doçura / Nunca me deixe partir”. Da escatologia às lágrimas: João começou a chorar. Aí me dei conta de que o assunto era sério. Resolvi não perguntar mais nada. É duro falar da morte de um ídolo.
“Então o Rei morreu no lugar apropriado: o trono!”. Ia fazer essa piada mas felizmente desisti. Era hora de chorar.
Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Imagem: Futepoca
Mais uma crônica de bar. Na verdade, um ex-bar: depois da morte do Vavá, foi demolido e se não me engano virou estacionamento. Vavá era dono de bar à moda antiga. Jaleco branco, cabelos igualmente brancos e meio amarelados, metodicamente penteados para trás e fixados com gel, magro, alto, fã do Elvis. Tão fã que muita gente chamava o lugar de bar do Elvis: um bar temático numa época em que não se falava em bares temáticos. Ali era parada obrigatória do bloco de carnaval Vai-Quem-Quer.
O lugar era bem estreito, pequeno, com um longo balcão dividindo o salão em duas partes desde a porta até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram forradas de objetos do rei: cartazes, quadros, discos. Na TV, sempre estava passando algum vídeo do Elvis, e me lembro de ter visto inteiro o show que ele fez no Havaí nos anos 70: o Elvis de colar havaiano usando aquelas roupas coloridas bregas que eu nunca entendi direito, e que são a sua marca registrada, tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou dourada de um macacão, além de umas costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa. Eu estava de gladiador. Uma dupla realmente incrível.
Ali no bar do Elvis tinha umas figuras carimbadas. Todo bar tem. Sempre estava lá um velho barbudo que eu e o Dudu apelidamos só entre nós de Velho Marinheiro, por causa da boininha na cabeça. Uma vez, o Velho Marinheiro dormiu no balcão, e logo em seguida as pessoas começaram a ver uma poça de mijo crescendo embaixo dele, formando uma represa de mijo no chão do bar! Sonhando estar diante de uma privada ou uma árvore, o Velho simplesmente tirou pra fora e começou a fazer ali mesmo. Mas não foi de sacanagem. O Velho, na verdade, era um tipo muito interessante. Tinha estilo. Mijou de bêbado, mas mijou com estilo, dormindo, a braguilha discretamente aberta, apoiando-se no balcão. Depois, como sempre, alguém chamou o táxi, pôs o Velho lá, e o Vavá telefonou para a mulher avisando que o marido bebum estava a caminho.
Num texto chamado “Supermarket”, eu anunciei, bem de passagem, a história que eu vou contar agora. Na verdade foi o irmão mais novo João, e não o próprio Vavá, que uma vez puxou papo comigo e me revelou o verdadeiro motivo da morte do rei do rock. João era tão fanático pelo Elvis quanto o Vavá. Acho que nesse dia o Galo estava tomando cerveja comigo.
– Vou contar uma coisa – disse o João, como se viesse dar uma notícia quente. –Infelizmente o Elvis morreu.
– Morreu sim – respondi.
– Pois tem gente que acha que ele não morreu, mas que ele fugiu, sem deixar pistas! Hoje vive escondido em algum lugar, protegido por uma tal lei de proteção a testemunhas ou alguma coisa do tipo. Mas isso é coisa de fanático! Eu não caio nessa conversa! Com tanto paparazzi, já teriam pegado ele de sunga numa praia do Caribe, você não acha?
Concordei com o João: Elvis estava morto.
– “Elvis não morreu” é uma isca pra manter as lojas vendendo – eu disse, com ares de sociólogo de boteco.
– Dizem que foi droga, mas não foi droga.
– Isso eu não sabia, João. Achei que tinha sido abuso de calmante ou...
– Ele morreu cagando.
– Sério?
– Sério. Acharam o corpo caído no chão do banheiro, mas ele estava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.
– Quê?!
– Ele só comia lanche do Mc Donald’s! Gente assim não dura. Falta fibra no organismo e aí prende tudo. O Elvis fez tanta força que a veia não aguentou! E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo etc. e tal... mas a realidade pouca gente sabe. Eu sei porque estudei.
– Leu numa biografia?
– Nenhuma biografia vai falar isso porque todos foram muito bem pagos para calar o bico. Você mesmo disse: as lojas têm que continuar vendendo camisas com a cara do rei. E assim a banda toca. Você sabe...
Então, calou-se. Enquanto passava flanela na TV, seus olhos fixaram a tela: ali estava Elvis cantando Love Me Tender. Seu rosto, cada vez mais próximo do rosto do Rei, iluminou-se, e em movimentos circulares João passava o pano na tela como se fizesse carinho no jovem Elvis que cantava “Ame-me com ternura / Ame-me com doçura / Nunca me deixe partir”. Da escatologia às lágrimas: João começou a chorar. Aí me dei conta de que o assunto era sério. Resolvi não perguntar mais nada. É duro falar da morte de um ídolo.
“Então o Rei morreu no lugar apropriado: o trono!”. Ia fazer essa piada mas felizmente desisti. Era hora de chorar.
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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Imagem: Futepoca
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Impropriedades
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Qualquer pessoa que tenha um lugar de moradia para chamar de seu sabe como é: a quantidade de tralha com que entupimos nossas casas é chocante. A gente meio que finge que não vê, mas, cada vez que temos que fazer mudança e somos obrigados a encarar a realidade, constatamos, resignados, nossa capacidade de acumular coisas, independentemente da utilidade ou aplicabilidade dos trens empilhados e empaçocados em armários, estantes, gavetas ou qualquer fresta por onde passe mais que uma folha de papel. Somos acumuladores contumazes, inclusive de coisas que, se algum dia tiveram um papel a cumprir na nossa vida, como revistas, livros e CDs, atualmente desfrutam de um empoeirado sono eterno. Fora badulaques de tudo que é jeito. E um detalhe importante é que esta questão independe da metragem de que dispomos. Em quase todas as casas, por menores e mais modestas que sejam, há tralha suficiente para ocupar outra área equivalente.
O fato é que gostamos da ideia de ter, não só coisas, objetos, mas também pessoas e memórias. Ou seja, o sentimento de posse se estende àqueles por quem temos afeto e às lembranças daquilo que valorizamos na nossa experiência de vida. Daí a quantidade de fotos das pessoas queridas e dos lugares e situações que cultivamos na memória afetiva e gostamos de ter por perto, numa interminável reedição dos sentimentos que significam, mesmo guardadas em caixas ou computadores, e jamais organizadas.
Diz o dito popular, sábio como sempre, que caixão não tem gaveta. Tudo o que tiver sido importante para nós durante a nossa trajetória de vida vai ficar aqui quando já não estivermos. O máximo que levaremos conosco são as roupas que cobrirão a nudez em que todos aqui desembarcamos. Nem mesmo as pessoas que amamos poderão nos acompanhar na derradeira viagem. Já sabemos, mas não custa lembrar.
É bem por isto que tenho pensado muito em desencanar das tranqueiras, eventualmente me desfazer delas, e me dedicar a correr atrás de impropriedades, não na forma como as definem os dicionários (ou talvez sim, em certa medida), mas na maneira de ter e tratar as pessoas e coisas que me cercam e compõem o meu patrimônio imaterial. A propósito, esta expressão é um achado precioso, uma bela ideia, ao juntar duas saborosas palavras, que tinham tudo para ser inconciliáveis. Aliás, as palavras, paus para toda obra, pedregulhos e diamantes ao mesmo tempo, proporcionam fartas colheitas imateriais de bonitezas e feiúras para todos os gostos.
Os assuntos já se misturaram, mas eu estou gostando muito desse rumo e dessa prosa.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
Qualquer pessoa que tenha um lugar de moradia para chamar de seu sabe como é: a quantidade de tralha com que entupimos nossas casas é chocante. A gente meio que finge que não vê, mas, cada vez que temos que fazer mudança e somos obrigados a encarar a realidade, constatamos, resignados, nossa capacidade de acumular coisas, independentemente da utilidade ou aplicabilidade dos trens empilhados e empaçocados em armários, estantes, gavetas ou qualquer fresta por onde passe mais que uma folha de papel. Somos acumuladores contumazes, inclusive de coisas que, se algum dia tiveram um papel a cumprir na nossa vida, como revistas, livros e CDs, atualmente desfrutam de um empoeirado sono eterno. Fora badulaques de tudo que é jeito. E um detalhe importante é que esta questão independe da metragem de que dispomos. Em quase todas as casas, por menores e mais modestas que sejam, há tralha suficiente para ocupar outra área equivalente.
O fato é que gostamos da ideia de ter, não só coisas, objetos, mas também pessoas e memórias. Ou seja, o sentimento de posse se estende àqueles por quem temos afeto e às lembranças daquilo que valorizamos na nossa experiência de vida. Daí a quantidade de fotos das pessoas queridas e dos lugares e situações que cultivamos na memória afetiva e gostamos de ter por perto, numa interminável reedição dos sentimentos que significam, mesmo guardadas em caixas ou computadores, e jamais organizadas.
Diz o dito popular, sábio como sempre, que caixão não tem gaveta. Tudo o que tiver sido importante para nós durante a nossa trajetória de vida vai ficar aqui quando já não estivermos. O máximo que levaremos conosco são as roupas que cobrirão a nudez em que todos aqui desembarcamos. Nem mesmo as pessoas que amamos poderão nos acompanhar na derradeira viagem. Já sabemos, mas não custa lembrar.
É bem por isto que tenho pensado muito em desencanar das tranqueiras, eventualmente me desfazer delas, e me dedicar a correr atrás de impropriedades, não na forma como as definem os dicionários (ou talvez sim, em certa medida), mas na maneira de ter e tratar as pessoas e coisas que me cercam e compõem o meu patrimônio imaterial. A propósito, esta expressão é um achado precioso, uma bela ideia, ao juntar duas saborosas palavras, que tinham tudo para ser inconciliáveis. Aliás, as palavras, paus para toda obra, pedregulhos e diamantes ao mesmo tempo, proporcionam fartas colheitas imateriais de bonitezas e feiúras para todos os gostos.
Os assuntos já se misturaram, mas eu estou gostando muito desse rumo e dessa prosa.
* * * * * *
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Balcão, bebiba, barra, Biro
por Carlos Conte*
O bar do Biro é o melhor que eu conheço. Baiano albino, o Biro tem esse apelido por causa do ex-volante corintiano dos anos 80, o Biro-Biro (que o presidente Mateus certa vez chamou de Lero-Lero...). O Biro me lembra um personagem sertanejo da Rachel de Queiroz chamado José Alexandre, “caboclo hercúleo” que vivia isolado numa fazendinha no Ceará e que pelo fato de falar muito pouco sua voz era sempre rouca, “como a de um bicho que aprendesse a falar”. O Biro também não é de falar muito e está sempre rouco. Algumas pessoas são roucas por natureza e acho que esse é o caso do Biro. Por isso, pra ser escutado no meio do barulho do boteco, ele é obrigado a forçar a voz: “vai uma seLEta?”, ele pergunta, com ênfase na tônica, como se levasse um susto no meio da frase.
Crônica tem um quê de conversa de bar. E tem bares que merecem uma crônica. Já escrevi sobre o Silveirinha, poderia escrever sobre o Valadares, o Biu, o bar do Paulo, o bar do finado Vavá... Esses são os meus bares. Meus bares! Com pronome possessivo e tudo. Desses todos, porém, o Biro é o meu predileto, pois no quesito mais importante que existe quando se julga um bar, o Biro vence.
Variedade de cervejas? Sem dúvida esse quesito é importante, mas o Sagarana não é o meu bar preferido, muito menos o Frangó lá da Freguesia. Petiscos? Claro, são fundamentais (aliás, descobri que tem um bar de happy-hour numa travessa da Paulista que tem rodízio de petiscos, mas nunca fui). Atendimento? Limpeza? Serviço delivery?...
Quando elejo o Biro, não me refiro a nenhum desses quesitos adotados pelos críticos dos Guias e Revistas de São Paulo, até porque o Biro perderia em todos, exceto atendimento, pois simpatia e solicitude são a marca registrada do Biro, auxiliado por seu fiel escudeiro Geladeira (porque ele sempre está atrás do balcão, de pé, parado, como uma geladeira... Apelidos de bar é um tema que daria outra crônica).
Para mim, o principal aspecto quando se avalia um bar é tão subjetivo quanto o conceito de liberdade: cada um sente de um jeito diferente, cada um pode relatar experiências, manifestações reais, efêmeras ou duradouras, mais intensas ou menos, mas é difícil cravar “liberdade é isso”, “felicidade é aquilo”, como para mim é difícil encontrar a melhor palavra que defina essa adoração que tenho pelo bar do Biro.
Tem a ver com acolhimento. Sem dúvida. O Biro é meu refúgio. Eu procuro isso num bar. Nem sempre, é claro. Algumas vezes procuro mulheres. E cada vez mais elas estão indo ao Biro. O Biro é um bar que o Antônio Prata chamaria de “meio intelectual, meio de esquerda”, com seu balcão velho de fórmica, os bancos gastos, um enorme mapa múndi, um barrilzinho de pinga com o distintivo do Corinthians, a mesa de sinuca no fundo (onde as caçapas são tão apertadas que às vezes parece que o jogo não vai acabar nunca), mas o principal são os dois grandes painéis laterais, retratando cavalgadas e paisagens bucólicas. Esses painéis são realmente incríveis, eu não me canso de olhar para eles. A típica coisa brega/autêntica que a galera pira, e eu já me acostumei tanto com aqueles cavalos ali, me olhando, que não imagino como seria o bar sem eles. Até que um dia, dando na telha ou entrando um dinheiro extra, o Biro manda passar uma tinta, faz uma parede com textura ou algo do tipo, mais “moderno”, mais fácil de limpar, e acaba com a graça da galera hipster.
Voltando ao meu critério para preferir o Biro, refiro-me a um estado de bem-estar simples, absolutamente trivial: encostar-me ao balcão, tendo a minha frente uma garrafa de cerveja e um copo americano. Isso é o básico de um bar. O resto é acessório. Isso remonta, sem dúvida, ao primeiro bar da história da humanidade e ao seu primeiro frequentador, que certamente saiu de lá, montando em seu cavalo, satisfeito e surpreso com aquela experiência incrível, tão simples, tão fundamental: sentar-se ao balcão e beber, se possível beliscando um amendoim, mas isso já é secundário. O principal: balcão, bebida, barra. Sem pentelhação, sem encheção de saco, ninguém tagarelando na orelha. Balcão, bebida, barra – com aliteração e tudo! Sem dar satisfação, sem olhar o cardápio, sem ter que xavecar ninguém, sem ter que escolher a roupa antes de sair de casa. Balcão, bebida, barra e foda-se a menina que você tem que paquerar, que você tem que dar em cima, senão algum filho da puta incansável vai levar a melhor nessa história. Balcão, bebida, barra e não preciso me posicionar politicamente, nem falar de trabalho, nem convencer ninguém sobre nada. Balcão, bebida, barra, Biro e foda-se o mundo, amanhã eu volto a me preocupar com ele...
Tudo isso eu encontro lá, talvez você encontre em outro bar, talvez isso não faça o menor sentido pra você, e neste caso eu recomendo o happy-hour-rodízio-de-petiscos da Paulista ou qualquer lugar novo na Vila Madalena onde a gente não consegue nem escutar o próprio pensamento.
Sobre a barra, o Migue, amigo que entende de bar como poucos e que por isso adora o Biro, me contou que foi ela, a barra, que deu origem ao nome “bar”. Ela é essencial. É onde a gente apoia os pés – quer coisa mais importante do que isso? Mas não é todo mundo que tem consciência da importância dessa barra, sem a qual a gente começa a sentir desconfortos terríveis nas pernas e nas costas. Muito dono de bar não sabe disso e simplesmente manda tirar, como se não fosse fazer falta.
Do outro lado do balcão, está o Biro, solícito, honesto, atento (qualidades que lembram o seu Zé, o garçom que fez tanta fama que acabou dando nome ao bar das empanadas chilenas. Que fim ele teve?). Ali está o Biro e toda vez eu tenho vontade de dizer pra ele como eu gosto do seu bar, como para mim é bom estar ali olhando os cavalos, o mapa, o Geladeira, as bolas numeradas correndo pra lá e pra cá, escutando os frequentadores da velha guarda combinando seus churrascos de aniversário, suas caravanas para o litoral... Enquanto isso, amigos de facebook fumam seu cigarro na calçada. Enquanto isso, eu medito, e bebo.
Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.
O bar do Biro é o melhor que eu conheço. Baiano albino, o Biro tem esse apelido por causa do ex-volante corintiano dos anos 80, o Biro-Biro (que o presidente Mateus certa vez chamou de Lero-Lero...). O Biro me lembra um personagem sertanejo da Rachel de Queiroz chamado José Alexandre, “caboclo hercúleo” que vivia isolado numa fazendinha no Ceará e que pelo fato de falar muito pouco sua voz era sempre rouca, “como a de um bicho que aprendesse a falar”. O Biro também não é de falar muito e está sempre rouco. Algumas pessoas são roucas por natureza e acho que esse é o caso do Biro. Por isso, pra ser escutado no meio do barulho do boteco, ele é obrigado a forçar a voz: “vai uma seLEta?”, ele pergunta, com ênfase na tônica, como se levasse um susto no meio da frase.
Crônica tem um quê de conversa de bar. E tem bares que merecem uma crônica. Já escrevi sobre o Silveirinha, poderia escrever sobre o Valadares, o Biu, o bar do Paulo, o bar do finado Vavá... Esses são os meus bares. Meus bares! Com pronome possessivo e tudo. Desses todos, porém, o Biro é o meu predileto, pois no quesito mais importante que existe quando se julga um bar, o Biro vence.
Variedade de cervejas? Sem dúvida esse quesito é importante, mas o Sagarana não é o meu bar preferido, muito menos o Frangó lá da Freguesia. Petiscos? Claro, são fundamentais (aliás, descobri que tem um bar de happy-hour numa travessa da Paulista que tem rodízio de petiscos, mas nunca fui). Atendimento? Limpeza? Serviço delivery?...
Quando elejo o Biro, não me refiro a nenhum desses quesitos adotados pelos críticos dos Guias e Revistas de São Paulo, até porque o Biro perderia em todos, exceto atendimento, pois simpatia e solicitude são a marca registrada do Biro, auxiliado por seu fiel escudeiro Geladeira (porque ele sempre está atrás do balcão, de pé, parado, como uma geladeira... Apelidos de bar é um tema que daria outra crônica).
Para mim, o principal aspecto quando se avalia um bar é tão subjetivo quanto o conceito de liberdade: cada um sente de um jeito diferente, cada um pode relatar experiências, manifestações reais, efêmeras ou duradouras, mais intensas ou menos, mas é difícil cravar “liberdade é isso”, “felicidade é aquilo”, como para mim é difícil encontrar a melhor palavra que defina essa adoração que tenho pelo bar do Biro.
Tem a ver com acolhimento. Sem dúvida. O Biro é meu refúgio. Eu procuro isso num bar. Nem sempre, é claro. Algumas vezes procuro mulheres. E cada vez mais elas estão indo ao Biro. O Biro é um bar que o Antônio Prata chamaria de “meio intelectual, meio de esquerda”, com seu balcão velho de fórmica, os bancos gastos, um enorme mapa múndi, um barrilzinho de pinga com o distintivo do Corinthians, a mesa de sinuca no fundo (onde as caçapas são tão apertadas que às vezes parece que o jogo não vai acabar nunca), mas o principal são os dois grandes painéis laterais, retratando cavalgadas e paisagens bucólicas. Esses painéis são realmente incríveis, eu não me canso de olhar para eles. A típica coisa brega/autêntica que a galera pira, e eu já me acostumei tanto com aqueles cavalos ali, me olhando, que não imagino como seria o bar sem eles. Até que um dia, dando na telha ou entrando um dinheiro extra, o Biro manda passar uma tinta, faz uma parede com textura ou algo do tipo, mais “moderno”, mais fácil de limpar, e acaba com a graça da galera hipster.
Voltando ao meu critério para preferir o Biro, refiro-me a um estado de bem-estar simples, absolutamente trivial: encostar-me ao balcão, tendo a minha frente uma garrafa de cerveja e um copo americano. Isso é o básico de um bar. O resto é acessório. Isso remonta, sem dúvida, ao primeiro bar da história da humanidade e ao seu primeiro frequentador, que certamente saiu de lá, montando em seu cavalo, satisfeito e surpreso com aquela experiência incrível, tão simples, tão fundamental: sentar-se ao balcão e beber, se possível beliscando um amendoim, mas isso já é secundário. O principal: balcão, bebida, barra. Sem pentelhação, sem encheção de saco, ninguém tagarelando na orelha. Balcão, bebida, barra – com aliteração e tudo! Sem dar satisfação, sem olhar o cardápio, sem ter que xavecar ninguém, sem ter que escolher a roupa antes de sair de casa. Balcão, bebida, barra e foda-se a menina que você tem que paquerar, que você tem que dar em cima, senão algum filho da puta incansável vai levar a melhor nessa história. Balcão, bebida, barra e não preciso me posicionar politicamente, nem falar de trabalho, nem convencer ninguém sobre nada. Balcão, bebida, barra, Biro e foda-se o mundo, amanhã eu volto a me preocupar com ele...
Tudo isso eu encontro lá, talvez você encontre em outro bar, talvez isso não faça o menor sentido pra você, e neste caso eu recomendo o happy-hour-rodízio-de-petiscos da Paulista ou qualquer lugar novo na Vila Madalena onde a gente não consegue nem escutar o próprio pensamento.
Sobre a barra, o Migue, amigo que entende de bar como poucos e que por isso adora o Biro, me contou que foi ela, a barra, que deu origem ao nome “bar”. Ela é essencial. É onde a gente apoia os pés – quer coisa mais importante do que isso? Mas não é todo mundo que tem consciência da importância dessa barra, sem a qual a gente começa a sentir desconfortos terríveis nas pernas e nas costas. Muito dono de bar não sabe disso e simplesmente manda tirar, como se não fosse fazer falta.
Do outro lado do balcão, está o Biro, solícito, honesto, atento (qualidades que lembram o seu Zé, o garçom que fez tanta fama que acabou dando nome ao bar das empanadas chilenas. Que fim ele teve?). Ali está o Biro e toda vez eu tenho vontade de dizer pra ele como eu gosto do seu bar, como para mim é bom estar ali olhando os cavalos, o mapa, o Geladeira, as bolas numeradas correndo pra lá e pra cá, escutando os frequentadores da velha guarda combinando seus churrascos de aniversário, suas caravanas para o litoral... Enquanto isso, amigos de facebook fumam seu cigarro na calçada. Enquanto isso, eu medito, e bebo.
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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Tempo de luta
por Nina Madsen*
O vento faz a curva e me sopra a saia, que seguro ligeiro para não passar por nenhum desnecessário constrangimento. Os cabelos emaranhados me entram na boca e nos olhos, que já ardem pela poeira levantada. Resisto ao impulso de praguejar e reconheço aquela presença forte que não pede passagem, anunciando tempos de luta.
Subo as escadas, passo pelo comitê eleitoral do candidato que não foi eleito. Fechado. Na foto, já sendo arrancada, ele aparece ao lado do outro candidato, que também não foi eleito. Sentada na soleira da porta fechada, uma senhorinha que todos os dias pede uma ajuda pelo amor de deus. A outra, mais jovem, negra também e mãe de um bebê de colo, hoje não estava.
Sigo. Atravesso a rua e vou subindo a galeria. Dia de feira, o rapa não vem. Blusas, bolsas, jaquetas, sapatos, desodorante e perfume, brinquedos, bijuteria, seu nome inscrito no arroz, eletrônicos, livros usados, frutas, açaí, quentinha pro almoço e o que mais se quiser comprar. O engraxate de expressão leve e resignada veste um paletó que é o dobro do seu tamanho e posso sentir a dignidade que habita o gesto de colocá-lo todos os dias, faça o calor que fizer.
Passa por mim uma jovem estudante correndo atrás de um rapaz a quem tenta abordar para convencê-lo a comprar chaveiros para ajudar a “salvar a família”. O rapaz nem olha, segue andando em seu passo acelerado. E ela acompanha e fala sem parar, imbuída daquela absurda missão. Dobro a esquina e me deparo com aquele corpo magro, muito magro, e praticamente nu. A pele amendoada, os cabelos amarelos em desalinho. Os olhos em desalinho, a alma em desalinho. Ela vaga por ali às vezes. E quando não aparece, me pergunto aflita se seguirá viva. Ela percebe meu olhar, ergue o queixo e passa as mãos pelos cabelos. Dignamente.
Entro no prédio – bom dia, dotôra. Me olho no espelho e me vejo tão branquinha, com essa minha cara de bem nascida, que imediatamente troco o não sou dotôra por um sorridente bom dia. Por aqui, dotôra, afinal. Suspiro. Entro no elevador. A subida é longa e lenta e sempre assenta em mim o peso da contradição cotidiana que carrego comigo, existindo dotôra naquele espaço de não-dotôres.
E começo a lida. Que não costuma trazer boas notícias, devo dizer. A vida em uma organização não governamental feminista no Brasil nunca foi exatamente fácil, mas, segundo me contam, já esteve mais farta de possibilidades de avanços. Elas hoje são escassas. Quando aparecem, nos agarramos com força. E enquanto não, a força é a de resistência para conter os absurdos multiplicantes que nosso sistema político tem conseguido produzir.
À beira desse segundo turno, é nesse espaço que situo meu voto. O espaço da (in)dignidade humana, das desigualdades e das contradições. O espaço tão reduzido para os avanços pelos quais lutamos. Não, não é o Brasil dos ovos de ouro. É certo que é um país diferente do que era 12 anos atrás. Melhor, apesar de tudo. Não melhor o suficiente, não melhor como poderia ser ou como gostaríamos que fosse. Mas melhor, com algumas escolhas acertadas que fazem muita diferença. Com outras tantas escolhas equivocadas, é verdade, que também fazem muita diferença e que embolam o meio de campo de um jeito complicado. A escolha desse segundo turno não me resulta difícil, é Dilma, sem dúvida. É uma escolha coerente com o esforço de conter retrocesso atrás de retrocesso. Mas é uma escolha que não me contempla inteiramente. Não responde às mudanças que gostaria de ver anunciadas e assumidas em compromisso.
Pelo menos daqui de onde vejo, muitas das mudanças de que também precisamos não vêm sendo anunciadas nos milionários programas do horário eleitoral gratuito e obrigatório. Por força de um sistema político escangalhado, de um conservadorismo crescente e fortalecido, elas não podem ser propagandeadas em campanha de candidato ou candidata que queira ser eleito. Pra se ganhar, tem que se jogar o jogo. Apertar a mão de quem não se deve. Silenciar o grito de quem não pode se calar. Pra ganhar, temos que perder muito (o que é, para mim, bastante devastador, tenho que admitir).
Meu voto em Dilma nesse domingo é um voto no contraditório que ainda identifico nesse governo. Um voto nos ideais ainda vivos e pulsantes de um partido sim de esquerda, um voto na voz crítica de seus militantes. Um voto nas frestas e nos poros por onde ainda podemos passar. Porque precisamos passar. Acima de tudo, acredito que o que irá decidir os próximos quatro anos no Brasil será a nossa capacidade de seguirmos organizadas, atentas e fortes, resistindo e insistindo. De estarmos prontas, sem medos que nos silenciem, sem amarras que nos impeçam o passo. Porque os ventos não sossegam: é tempo de luta.
Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico.
O vento faz a curva e me sopra a saia, que seguro ligeiro para não passar por nenhum desnecessário constrangimento. Os cabelos emaranhados me entram na boca e nos olhos, que já ardem pela poeira levantada. Resisto ao impulso de praguejar e reconheço aquela presença forte que não pede passagem, anunciando tempos de luta.
Subo as escadas, passo pelo comitê eleitoral do candidato que não foi eleito. Fechado. Na foto, já sendo arrancada, ele aparece ao lado do outro candidato, que também não foi eleito. Sentada na soleira da porta fechada, uma senhorinha que todos os dias pede uma ajuda pelo amor de deus. A outra, mais jovem, negra também e mãe de um bebê de colo, hoje não estava.
Sigo. Atravesso a rua e vou subindo a galeria. Dia de feira, o rapa não vem. Blusas, bolsas, jaquetas, sapatos, desodorante e perfume, brinquedos, bijuteria, seu nome inscrito no arroz, eletrônicos, livros usados, frutas, açaí, quentinha pro almoço e o que mais se quiser comprar. O engraxate de expressão leve e resignada veste um paletó que é o dobro do seu tamanho e posso sentir a dignidade que habita o gesto de colocá-lo todos os dias, faça o calor que fizer.
Passa por mim uma jovem estudante correndo atrás de um rapaz a quem tenta abordar para convencê-lo a comprar chaveiros para ajudar a “salvar a família”. O rapaz nem olha, segue andando em seu passo acelerado. E ela acompanha e fala sem parar, imbuída daquela absurda missão. Dobro a esquina e me deparo com aquele corpo magro, muito magro, e praticamente nu. A pele amendoada, os cabelos amarelos em desalinho. Os olhos em desalinho, a alma em desalinho. Ela vaga por ali às vezes. E quando não aparece, me pergunto aflita se seguirá viva. Ela percebe meu olhar, ergue o queixo e passa as mãos pelos cabelos. Dignamente.
Entro no prédio – bom dia, dotôra. Me olho no espelho e me vejo tão branquinha, com essa minha cara de bem nascida, que imediatamente troco o não sou dotôra por um sorridente bom dia. Por aqui, dotôra, afinal. Suspiro. Entro no elevador. A subida é longa e lenta e sempre assenta em mim o peso da contradição cotidiana que carrego comigo, existindo dotôra naquele espaço de não-dotôres.
E começo a lida. Que não costuma trazer boas notícias, devo dizer. A vida em uma organização não governamental feminista no Brasil nunca foi exatamente fácil, mas, segundo me contam, já esteve mais farta de possibilidades de avanços. Elas hoje são escassas. Quando aparecem, nos agarramos com força. E enquanto não, a força é a de resistência para conter os absurdos multiplicantes que nosso sistema político tem conseguido produzir.
À beira desse segundo turno, é nesse espaço que situo meu voto. O espaço da (in)dignidade humana, das desigualdades e das contradições. O espaço tão reduzido para os avanços pelos quais lutamos. Não, não é o Brasil dos ovos de ouro. É certo que é um país diferente do que era 12 anos atrás. Melhor, apesar de tudo. Não melhor o suficiente, não melhor como poderia ser ou como gostaríamos que fosse. Mas melhor, com algumas escolhas acertadas que fazem muita diferença. Com outras tantas escolhas equivocadas, é verdade, que também fazem muita diferença e que embolam o meio de campo de um jeito complicado. A escolha desse segundo turno não me resulta difícil, é Dilma, sem dúvida. É uma escolha coerente com o esforço de conter retrocesso atrás de retrocesso. Mas é uma escolha que não me contempla inteiramente. Não responde às mudanças que gostaria de ver anunciadas e assumidas em compromisso.
Pelo menos daqui de onde vejo, muitas das mudanças de que também precisamos não vêm sendo anunciadas nos milionários programas do horário eleitoral gratuito e obrigatório. Por força de um sistema político escangalhado, de um conservadorismo crescente e fortalecido, elas não podem ser propagandeadas em campanha de candidato ou candidata que queira ser eleito. Pra se ganhar, tem que se jogar o jogo. Apertar a mão de quem não se deve. Silenciar o grito de quem não pode se calar. Pra ganhar, temos que perder muito (o que é, para mim, bastante devastador, tenho que admitir).
Meu voto em Dilma nesse domingo é um voto no contraditório que ainda identifico nesse governo. Um voto nos ideais ainda vivos e pulsantes de um partido sim de esquerda, um voto na voz crítica de seus militantes. Um voto nas frestas e nos poros por onde ainda podemos passar. Porque precisamos passar. Acima de tudo, acredito que o que irá decidir os próximos quatro anos no Brasil será a nossa capacidade de seguirmos organizadas, atentas e fortes, resistindo e insistindo. De estarmos prontas, sem medos que nos silenciem, sem amarras que nos impeçam o passo. Porque os ventos não sossegam: é tempo de luta.
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Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico.
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