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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Líder dos bancários

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.


por Fernanda Pompeu ilustrações Fernando Carvall

Aluísio Palhano
Nascimento: 5 de setembro de 1922
Cidade natal: Pirajuí - SP
Data do desaparecimento: maio de 1971

Funcionário do Banco do Brasil, Aluísio tinha sangue de sindicalista. Foi um dos principais líderes da greve geral dos bancários em 1961. O que eles reivindicavam? Aumento salarial e garantia do décimo-terceiro. Veio o Golpe de 1964. Aluísio e outros companheiros (entre eles, meu pai Marcus Flávio Pompeu) foram cassados nos direitos políticos e demitidos do emprego por meio o Ato Institucional número 1. A partir daí, penúria para as famílias e perseguição política para eles. Aluísio se exilou no México e depois em Cuba. Voltou clandestinamente ao Brasil em 1970. Militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) até ser sequestrado em maio de 1971. Depois, a recorrente história: foi torturado, morto e desaparecido.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Sem depois

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.



por Fernanda Pompeu ilustrações Fernando Carvall

Wilson Silva
Nascimento: 21 de abril de 1942
Cidade natal: Taubaté - SP
Data do desaparecimento: 22 de abril de 1974

No dia anterior ao seu desaparecimento e de sua mulher Ana Rosa Kucinski, Wilson Silva havia completado 32 anos. Certamente no aniversário dele, e da morte de Tiradentes, deve ter lembrado de Taubaté - onde nasceu e viveu até os 19 anos. Depois, repassou sua vida de estudante de física na USP. Certamente pensou na sua paixão pela militância política, primeiro na Polop, agora na ALN. Ele e Ana estavam na ação por um país diferente do da ditadura militar. Uma terra melhor para todos. O que ele não sabia é que não haveria outros aniversários.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Hora Extra

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.


Santo Dias da Silva
Nascimento: 22 de fevereiro de 1942
Cidade natal: Terra Roxa - SP
Morte: 30 de outubro de 1979
Região final: bairro de Santo Amaro, cidade de São Paulo
Causa da morte: tiro

por Fernanda Pompeu    ilustrações Fernando Carvall

Muita gente valorosa lutou, se sacrificou ou foi sacrificada, durante os anos de arbítrio (1964 a 1985). Uma parte militou porque teve consciência das injustiças, desigualdades, amordaçamentos. Eram estudantes, intelectuais, políticos, gente da classe média esclarecida. Outra parte foi impulsionada pela necessidade de conquistar direitos trabalhistas e melhores salários. O pessoal que não “escolheu” lutar. Simplesmente era preciso para engendrar uma existência mais livre, mais confortável, mais segura. Santo Dias da Silva pertencia ao segundo grupo.

Primeiro filho de uma série de oito, ele conheceu as penúrias e asperezas seculares dos meeiros da terra. Ainda adolescente compreendeu que “sonho bom é aquele em que se sonha junto”. Lá foi o Santo participar das reivindicações dos trabalhadores rurais. Levou a primeira cassetada política: sua família foi expulsa da fazenda. Pais e irmãos viraram boias-frias, e o jovem Santo Dias tocou para São Paulo - na época apelidada de sul maravilha.

Iniciou-se no ofício de operário metalúrgico. Continuou sua história de guerreiro. Atuou nas Comunidades Eclesiais de Base - as combativas e famosas CEBs. Se meteu em todas as demandas - também de base - transportes, escolas, luz elétrica, água encanada, asfalto na rua, comida na panela. Tinha dentro dele a convicção que os direitos são batalhados, nunca vêm de mão beijada. Assim como acreditava que para vencer era necessário se organizar entre companheiros e companheiras.

Os sindicatos, sob a ditadura, eram muito limitados e ligados ao peleguismo. A brecha foi trabalhar nas Comissões de Fábrica. Uma reivindicação aqui, outra ali. Uma paralisação ali, outra aqui. Até que chegou o ano de 1979. Em agosto, foi assinada a Lei de Anistia. A ditadura era madeira oca prestes a desabar.

Os metalúrgicos da região do ABC, em São Paulo, articulavam greves significativas que ecoavam pelo país. Panfletagens, piquetes, comandos, comissões sindicais agitavam portas e chãos de fábricas. Santos Dias era um dos líderes do movimento.

No 30 de outubro de 1979, em frente à fábrica Sylvania, durante panfletagem e piquete, a polícia chegou conjugando os verbos da violência. A ordem era bater e prender. Mas um soldado da PM atirou nas costas de um dos grevistas.

Santo Dias da Silva caiu morto. Deixou a mulher Ana, sindicalista e feminista e dois filhos. Final da história para ele. Mas também mais uma pá de cal no regime militar. O assassinato do operário causou indignação nacional. Milhares de pessoas compareceram à missa de corpo presente na Catedral da Sé, conduzida por Dom Paulo Evaristo Arns. Na ocasião, o cardeal valente disse: “Quase nada está certo nesta cidade, enquanto houver duas medidas: uma para o patrão, outra para o operário”.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Morte no Araguaia

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.



Maria Lúcia Petit da Silva
Nascimento: 20 de março de 1950
Cidade natal: Agudos - SP
Morte: 16 de junho de 1972
Local da morte: Pau Preto, Araguaia
Causa da morte: tiro
Identificação da ossada: maio de 1996

por Fernanda Pompeu   ilustrações Fernando Carvall

Há quem diga que Maria Lúcia morreu em confronto com uma patrulha do Exército na região do Araguaia, sul do Pará. Nessa versão, ela tombou com a revólver na mão e a revolução no coração. Também há o relato de que Maria teria sido executada: recebeu o tiro e caiu morta. O assassino seria um camponês que se fazia de amigo, quando na verdade era inimigo. Dez minutos depois do disparo de carabina, helicópteros do Exército Brasileiro apareceram metralhando a área.

Passados 43 anos, as versões de como a jovem de 22 anos morreu ainda convivem. Mas há fatos irrefutáveis. Por exemplo, a ocultação do cadáver. Na época da ditadura militar, a ordem era matar, por tortura ou execução, e sumir com o corpo. Tal prática é a raiz da eternizada angústia de familiares e amigos que nunca puderam enterrar os seus queridos.

Mas no caso de Maria Lúcia Petit da Silva, em 1991, a história começou a mudar quando a ossada de uma mulher, enrolada num pedaço de pano de paraquedas, foi encontrada no cemitério de Xambioá (em tupi, pássaro feroz), no atual Tocantins. Os indícios apontavam se tratar dos restos mortais de uma guerrilheira do Araguaia.

Cinco anos depois, houve o reconhecimento feito por técnicos da Unicamp. Maria Lúcia foi sepultada em Bauru, com a presença de sua mãe Julieta. No entanto, seus irmãos Jaime e Lúcio seguem desaparecidos, como aliás todos os outros militantes da Guerrilha do Araguaia. Para nunca esquecer: 434 pessoas morreram ou desapareceram nos anos de chumbo. É claro que estamos falando dos nomes notificados.

Apesar da existência breve, Maria Lúcia fez história política. No fulgurante 1968 - ano marcado por juventudes nas ruas em vários países - ela participou do movimento estudantil secundarista. Dois anos depois, militante do PCdoB, foi para Goiás e logo após para o sul do Pará. A ideia era estar ao lado dos camponeses para tecer a resistência à ditadura de 1964 e preparar a revolução que - na visão daquela esquerda - derrubaria as injustiças do Brasil. Roubaram-lhe a vida por conta disso.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Tic-tac-tac

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história. 


Nome: Gildo Macedo Lacerda
Nascimento: 8 de julho de 1949
Cidade natal: Ituiutaba - MG
Morte: 28 de outubro de 1973
Cidade final: Recife, PE
Causa da morte: tortura
Versão da ditadura: troca de tiros entre militantes

por Fernanda Pompeu  ilustrações Fernando Carvall

A ficha acima é fria como todas as fichas, sejam elas de nascimento, casamento, emprego, pedido de bolsa de estudo. Fichas são como aquelas pulseiras usadas nos hospitais. Nome do paciente e de sua mãe. Dependendo da idade, o aviso-alerta PERIGO DE QUEDA. Ou seja, as fichas também nos humilham. Feitas para particularizar, tiram nossa identidade. Pois parecem comprimir a história de uma longa vida num sujeito que tende a cair.

Mas, é claro, as fichas não são todas iguais. Essa do Gildo Macedo Lacerda diz algo de um garoto morto aos vinte quatro anos sob tortura. Morrer sob tortura significa morrer sofrendo de forma violenta. Não em consequência de uma cirrose hepática, de um câncer generalizado, ou em decorrência de uma batida de carro, desastre de avião, mordida de cobra. Morrer sob tortura significa que alguém matou você. Também no caso do Gildo - e de muitos outros e outras - o corpo foi desaparecido. Leia-se ocultado da família e dos amigos. Cortejo fúnebre que nunca foi visto pela caixa da padaria, pelo jornaleiro da esquina, pelo fantasma do Farol da Barra, pelo ascensorista do Elevador Lacerda, pelo país.

Qualquer ficha que traz a data da morte é uma espécie de congelamento. Significa que a partir daquele dia e hora, tudo na pessoa vira passado. Sem futuro. Mas isso não quer dizer que a gente não possa imaginar. Não possa trafegar no universo do se. Se Gildo não tivesse sido morto teria visto a filha nascer e crescer, teria se tornado avô. Não faço ideia em quem ele teria votado nas eleições de 2014. Mas isso tem importância?

O que interessa é que ele estaria com sessenta e seis anos e poderia se sentar à mesa e contar muitas histórias. Tristes, divertidas, edificantes ou irônicas. Certamente ele narraria muitas vezes a sua prisão, o medo que sentiu por ele e por sua mulher grávida que também foi presa. Contaria da violência sofrida, mas também do sonho, da juventude, do projeto de um Brasil melhor, mais justo. Com certeza, ele teria ouvintes. Gente nova que arregalaria olhos assustados para o país dos anos da ditadura.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Réquiem caboclo

1964 + 50
 Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira.

(episódio 21)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Na manhã do 24 de agosto de 1954, Getúlio Dornelles Vargas atirou contra o próprio peito obtendo 100% de resultado, se tornando um estraga-prazeres, uma mala sem alça, uma pedra no sapato, um estorvo para militares e políticos que estavam prontinhos para surrupiar a presidência da República e sentar seus respeitáveis traseiros nas cadeiras do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Antes do tiro, a oposição tinha razão em acreditar que havia encurralado o pai-dos-pobres, a esfinge-dos-pampas, o velho, a raposa. Carlos Lacerda, o Corvo, não dava trégua. Acusava Getúlio de ser o mandante do atentado contra sua vida, que matou o major da aeronáutica Rubens Vaz. Este fazia a vez de segurança de Lacerda. O episódio ficou conhecido como o Atentado da Rua Tonelero, em Copacabana.

A oposição ao Raposa, liderada pelo Corvo, investigou parentes, auxiliares, e principalmente o chefe da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato, que por seu cargo e cor da pele era chamado de o Anjo Negro. Os interrogatórios aconteciam na base área do Galeão, melhor dito, na República do Galeão - por conta do poder concentrado.

Também pipocaram denúncias de corrupção e arrepios da lei. Irmão, filho, genro, dono de jornal foram para a frigideira. É claro que o alvo era o presidente, mas no final não conseguiram provar sua participação em nada. Ao menos, não diretamente. Porém o estrago estava feito.

Hoje, há quem analise que a grande carta do jogo era a recém-criada Petrobras e o projeto da Eletrobras. Evidente que Getúlio Vargas queria uma petrolífera estatizada. Já altas patentes militares, grandes empresários, o Corvo, vários políticos desejavam um modelo aberto ao capital privado e, principalmente, ao capital americano. Argumentavam: “Tupiniquins não são capazes de gerir empresas complexas”.

O Brasil é complicado, mas sua elite política é simples. Ela sempre esteve dividida entre entreguistas e nacionalistas, pró-americanos e pró-cubanos, Miami e Paris, esquerda e direita. Sendo que em todos os governos, com variação de grau, o povo raramente é consultado para as grandes mudanças.

Aliás, no dia seguinte ao suicídio de Getúlio e após a divulgação de sua carta-testamento, finalmente o povo subiu ao palco. Sem pedir licença. Uma multidão chorou a cântaros a morte do três-em-um: revolucionário, ditador, democrata. Rapidamente o clima político favorecendo um Golpe se desfez. O presidente se tornou mártir. Com mitos não se brinca.Os golpistas tiveram esperar por dez anos.

Nesse ínterim, tiveram JK e Brasília, Jânio e a renúncia, Jango e as reformas de base. Até que, num quartel em Minas Gerais, um general tocou a corneta da alvorada de 1964. Tempo que voa. Todas as personagens dessa crônica: corvo, anjo, raposa, generais, presidentes, ditadores estão mortos. O único que segue vivo é a nossa vontade de saber e de contar.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Se

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira. 

(Episódio 19)


por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall

Quando vi meu pai morto, faz um ano, pensei para me consolar: ele teve uma vida imensa. Conheceu o fracasso, mas também o sucesso. Tentou, errou, tentou novamente. Foi homem capaz de uma consistente história de amor de vida inteira com a minha mãe. Acreditou no comunismo dos quinze aos oitenta e três anos de idade. Deu muito azar em várias situações, mas, no balanço das perdas e ganhos, ele foi um sujeito de sorte.

Ao ler trechos das biografias dos mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, percebo o quanto a maioria era jovem. Gente que nem havia encostado nos trinta. Olho para as fotografias e me ponho a imaginar o que eles seriam hoje. Certamente, velhinhos e velhinhas interessantes. Talvez, alguns até desinteressantes. Não importa. Teriam décadas inteiras para viver suas histórias.

Por exemplo, me detenho no rosto de Stuart Edgar Angel Jones, o Tuti. Um rapaz findo aos 25 anos. Não por conta do vírus Ebola ou por desastre de carro. Ele foi torturado até a morte dentro do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, no Rio de Janeiro. Amarram-no a uma viatura, com a boca colada ao cano de escapamento. Daí deram voltas no pátio. A viatura acelerava e freava. Tuti com a pele esfolada, tossia forte.

Essa cena foi testemunhada - e depois relatada a Zuzu Angel, mãe de Stuart - por um outro preso, o Alex Polari de Alverga. Fim da história? Não. Até hoje, novembro de 2014, os restos mortais do rapaz não foram encontrados. Há dois relatos diferentes: o primeiro diz que seu corpo foi jogado de um helicóptero em alto-mar. O segundo, ele teria sido enterrado como indigente em algum cemitério carioca. Grandes chances para ser o Cemitério de Inhaúma, aquele que Lima Barreto (1881-1922) eternizou no estupendo conto Os Enterros de Inhaúma.

Procuro mais informações e descubro que antes de ingressar no MR-8 - um dos pequenos grupos que optaram pela luta armada para enfrentar a ditadura - Stuart Angel havia sido um desportista, tendo ganho o bicampeonato de remo pelo Flamengo. Também tivera vida de estudante de economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Dois mais dois igual a quatro, tento imaginar o que Stuart teria feito se não tivesse a vida interrompida naquele maio de 1971. Medalhista de Olímpiada? Economista de banco? Professor de educação física? Vendedor de secos e molhados? Qualquer coisa poderia ter acontecido na vida dele, do mesmo jeito que qualquer coisa acontece nas nossas.

Na data de sua prisão, ele era casado com Sônia Moraes Jones. Uma moça também militante, também torturada e morta em 1973. Também desaparecida. Também cheia de possibilidades. Será que eles estariam juntos até hoje? Será que teriam filhos? Quem sabe agora teriam netos? Nenhum dos dois viveu para contar o futuro deles para nós.

Aliás, eles não tiveram foi tempo. Porque na casa dos vinte anos, a gente ainda nem tem um passado muito grande. Temos, em geral, a cabeça cheia de sonhos futuros. Eu por exemplo, em 1971, achava que seria médica. Acabei estudando cinema e me tornando escritora - entenda-se, alguém que escreve por prazer de escrever.

Mesmo quando narro uma história dolorida como essa, há a delícia de contar.

Stuart e Sônia foram apenas dois entre os muitos jovens que a ditadura militar torturou, matou e sumiu com os corpos. Também fizeram isso com pessoas mais velhas. Os torturadores e seus mandantes não faziam cerimônia. Eram todo-poderosos. E, até os dias atuais, esses senhores da morte estão livres e soltos por aí. Não digo leves. Pois não acredito que sejam.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Rubens Paiva e seu otimismo contagiante

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira.

(Episódio 18)


por Manuel Carvalheiro ilustração Fernando Carvall

Convivi com Rubens Paiva como Engenheiro nas obras da Paiva Construtora em Santos e como seu companheiro na ação Política.

A imagem que guardo do Rubens é de uma pessoa contente com a vida, com tudo que fazia, com a família, com a profissão, com a Ação Política. Dos relatos que tenho lido a seu respeito talvez falte uma referência maior a sua liderança na ação Política do Grupo que girava em seu torno e do qual faziam parte nomes como Almino Afonso e Gasparian. Mais do que um líder, era um coordenador e orientador das prioridades a fazer.

Todas as suas ações tinham como prioridade absoluta a defesa do interesse nacional. Como Engenheiro todos os projetos e obras dos quais participou sempre priorizaram a inovação e a melhor e mais moderna técnica existente.

Sempre teve como parceiros os melhores Arquitetos e Engenheiros, ajudou a introduzir no Brasil o uso do concreto protendido pagando o estágio de dois Engenheiros que foram estudar a técnica na França e ajudou financeiramente o primeiro técnico europeu que trouxe esta técnica para o Brasil.

Os prédios construídos pela sua firma em Santos tiveram inumeras inovações e todos tem na sua entrada obras de arte. Levava para suas atividades políticas e profissionais um otimismo contagiante. O Rubens que tenho na memória é o de alguém sempre otimista e contente com o que fazia.

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Manuel Carvalheiro, engenheiro, especial para o Nota de Rodapé. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

De pássaros e mortes

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso  e também de personagens de papel  que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira.

 (Episódio 17)

 por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Antes de ser uma designer internacional de moda, ela foi costureira  dessas que se debruçam sobre a máquina Singer e tratam agulha e linha com dedos de anjo. Antes de abrir uma loja de roupas no badalado Ipanema carioca, ela nasceu em Curvelo  uma das portas de entrada do sertão mineiro. Antes de se tornar persona non grata para os militares da ditadura, ela era a mãe de três filhos  duas moças e um rapaz.

O itinerário de sucesso de Zuzu Angel se tornou trágico quando, um ano depois do desaparecimento de seu filho Stuart Angel, ela leu uma carta escrita pelo preso político Alex Polari. Nela, Alex conta ter testemunhado o assassinato do jovem de 26 anos nas dependências do Cisa  Centro de Informação da Aeronáutica, na Cidade Maravilhosa. Angel era quadro de direção do MR-8, um dos vários pequenos grupos de resistência armada.

Diz a carta: "Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem-número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semiesfolada, era arrastado de um lado para outro no pátio, amarrado a uma viatura e de quando em quando obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos."

A partir da leitura da carta, Zuzu Angel se tornará incansável e irredutível na denúncia do assassinato do filho e na procura de seu corpo. Enterrar ou cremar corpos amados é direito básico e inalienável do ser humano. Somos  até aonde eu sei  a única espécie a fazer isso. Trata-se de um ritual de homenagem e encerramento.

Que digam, com lágrimas e propriedade, familiares e amigos dos desaparecidos na ditadura militar e nas favelas e periferias de hoje. Mães de Stuarts e Silvas se igualdam no pranto. Zuzu Angel (1923 1976) se tornou símbolo da mãe à procura do corpo do filho por tenacidade própria, mas também por suas circunstâncias. Já explicou o filósofo espanhol Ortega y Gasset: "Eu sou eu e minhas circunstâncias."

Inteligente e bem relacionada, ela soube tirar partido da dupla nacionalidade do filho (brasileira e americana), chegando a entregar um dossiê para o então secretário americano Henry Kissinger. Também mobilizou algumas celebridades de Hollywood. Estas a conheciam pela excelência de seu corte e costura. Mas tudo isso foi em vão, pois as autoridades brasileiras negavam inclusive a prisão do rapaz. Seu rosto continuava impresso em cartazes de Procurados.

Zuzu estampou seu protesto e sua dor nos tecidos em que trabalhava. Se antes eles eram cheios de cor e de alegres motivos tropicais, agora vinham com pássaros engaiolados, anjos amordaçados e balas de canhão. Há quem diga que com essa ação, ela inaugurou a primeira coleção de moda política da História. Quem passasse por ela dando bom dia, ouviria: você pode ajudar a encontrar o corpo do meu filho?

Contam também que numa viagem aérea, minutos antes da aterrissagem, ela tomou o microfone de uma comissária e passou o seguinte recado aos atônitos passageiros: "Vocês vão descer no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, Brasil. Saibam que neste país torturam e matam jovens estudantes."

Firmeza e insistência cessaram na manhã de 14 de abril de 1976. Na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, o carro de Zuzu bateu na mureta de proteção e capotou. Ela morreu na hora. Um tempo antes, ela havia deixado uma carta com o compositor Chico Buarque, na qual avisava: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho." 

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Desafinando o coro dos contentes

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

 (Episódio 15)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

A frase do título é verso de Torquato Neto (1944-1972). Aquele que, em sua brevíssima vida, desafinou mesmices do redigir. O cara experimentou para valer e pôs a alma para fora. Salve, menino Torquato! O craque da máquina de escrever.

Foi pensando no poeta e letrista piauense que me recordei do carioca Carlos Lamarca (1937-1971). Não que os dois (que eu saiba) tivessem afinidades ideológicas. De certo, o primeiro estaria mais para o caos do que para a sonhada nova ordem do segundo. Mas o que os aproxima, na minha memória, é justamente o desejo - transformado em ação - de desafinar o status quo.

Lamarca, capitão do Exército, poderia ter vivido numa boa no Brasil comandando por seus colegas de farda. No entanto por não concordar com a ditadura, nem com o capitalismo, tramou um assalto de armamentos no quartel de Quitaúna, Osasco, São Paulo. E entrou em cheio na clandestinidade e na luta armada.

Parece evidente que a semelhança entre os dois acaba por aqui. Será? Lamarca optou pelas armas como forma de derrotar os ditadores e entrar para a História. Torquato optou por se matar como forma de pular fora da História. No seu bilhete de suicida, ele escreveu: "Para mim chega!"

O fim dois se deu sob o chumbo da mesma época. O líder guerrilheiro foi assassinado por militares em Brotas de Macaúbas, interior da Bahia, em 1971. Um ano depois, no Rio de Janeiro, Torquato Neto acendeu o gás no banheiro de sua casa.

Lembro bem do começo dos anos 1970. Adolescente, regava mil sonhos, entre eles, o da liberdade de expressão e manifestação. Tudo o que então eu sabia sobre regimes democráticos era narrado pelo meu pai, militante do Partidão e louco pelo socialismo.

Se alguém perguntar se guardo boas recordações dessa época, direi que sim e que não. A parte negativa é óbvia, pois foi horrível ser jovem debaixo da repressão a ideias e informações. A parte positiva era a crença cega de que haveria um futuro mais bonito e mais desafinado.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O professor

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 14)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wrigth celebrariam uma missa em memória do jornalista Vladimir Herzog. Na verdade, o ato era bem mais. Estar na Praça da Sé naquele cair de tarde significava afrontar a ditadura militar.

A garota, com exatos 20 anos, sabia de tudo isso. E também esperava que ele, o professor, também soubesse. Na verdade eles estavam tendo um namorico. Se nos dias de Facebook fosse, diríamos que eles ficavam. Mas na década de 1970 ninguém falava assim. Ele era professor de História, dos melhores. Ela andava mais interessada na História do que nele, mas isso ela concluiu tempos depois, ao cavoucar as cinzas da memória.

Dentro da Catedral, ouvia-se um desagravo em nome de Herzog. Menos de uma semana antes, o jornalista da TV Cultura foi morto sob tortura no Doi-Codi da rua Tutoia - uma seção do inferno no bairro do Paraíso. Seus algozes tentaram vender a versão de que o preso havia se suicidado dentro da cela. Só que ninguém acreditou.

Onze anos depois dos militares terem roubado o poder em nome de um Brasil mais seguro, ordeiro, ovelha, muita gente já estava de saco cheio. Pelas promessas não cumpridas e pela violência contra os opositores. Violência tão desproporcional quando é - hoje, 2014 - a do exército de Israel contra os civis da Faixa de Gaza.

Antes de Vladimir Herzog, vários haviam sido torturados. Entre eles se somavam os mortos e desparecidos. Em razão disso, perto de oito mil pessoas se concentravam na Catedral e na Praça da Sé. No meio deles, ela. Com um olho na História e outro no relógio.

A aluna marcara o encontro com o professor em torno do Marco Zero - bem no centro da praça. Ele garantiu que compareceria, pois o país não podia seguir do jeito que estava. Mesmo quando a missa terminou, quando as pessoas começaram a ir embora, ela ainda esperou. Mas ele não apareceu.

No dia seguinte se encontraram na sala de aula. Lá estava o professor falando da Revolução Russa, entusiasmado com os bolcheviques e suas ações. Ele sorriu várias vezes para ela. Ela retribuiu com um olhar triste. Estava decepcionada. De alguma forma, a garota pressentia que o namorico dos dois tinha terminado.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Coisinhas que nos fazem

1964 + 50 
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 13)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Em 11 de junho de 2006, os restos mortais de Iara Iavelberg foram retirados do setor dos suicidas do Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo. Vitória da família e dos amigos que nunca acreditaram na versão - dada pelos órgãos de segurança - de que Iara teria se matado ao perceber o cerco policial no apartamento onde morava, no bairro de Pituba, Salvador. Sua morte ocorreu em 20 de agosto de 1971.

Além do oficial, há outros relatos, inclusive de um sargento envolvido diretamente na operação, que indicam que Iara Iavelberg foi na verdade baleada sem nenhuma chance de defesa. Considerando o modus operandi da repressão da época, provavelmente a moça, então com 27 anos, foi mesmo assassinada. Quero dizer, os caras entraram fuzilando. Matar e depois perguntar.

A biografia política de Iara é bastante conhecida. Ele foi militante da Polop (Política Operária); VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares); VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e, finalmente, integrou o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Também viveu um romance com Carlos Lamarca, assassinado três meses depois do cerco ao apartamento em Pituba.

Todas essas informações podem ser consultadas no vigoroso Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964 - 1985). O livro foi organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e pelo IEVE - Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado. A primeira página vem assinada por Aloysio Nunes, participante da luta armada e vice atual do candidato a presidente Aécio Neves.

Mas, pela natureza do trabalho do Dossiê, os perfis são um tanto secos. Por conta disso, fiquei surpresa e feliz ao ler a entrevista da professora e pesquisadora Ecléa Bosi - dada a Mariluce Moura, revista Pesquisa Fapesp de abril de 2014. Ecléa é autora de vários importantes livros, entre eles, o delicioso Memória e Sociedade - Lembranças de velhos.

Pois na entrevista, parágrafos tantos, ela rememora a presença de Iara Iavelberg na Faculdade de Psicologia da USP: "Fui colega de classe da Iara, o que me marcou muito. Lembro-me da colega como uma moça muito bonita, muito inteligente e que cantava muito bem. Gostava de Ponteio, de Edu Lobo, também de Disparada, de Vandré. Era muito boa em estatística (...) e íamos à casa dela estudar. A Iara histórica todos lembram, mas foi a perda da colega que acompanhei e vi o quanto nossa turma sofreu com isso."

Ao ler essa passagem, minha cabeça fez plim! Pensei que talvez seja isso que falte - os detalhes, as preferências musicais, a maneira de sorrir - aos biografados mortos e desaparecidos sob a ditadura militar. Saber das pequenas coisas revela a humanidade dos personagens. Trazem eles para mais perto de nós. A ditadura não matou só ideias, matou principalmente pessoas. Então a jovem morta em Pituba gostava da canção Ponteio, letra de José Carlos Capinan, e vencedora do mítico Festival de Música da Record em 1967.

"Parado no meio do mundo / Senti chegar meu momento / Olhei pro mundo e nem via / Nem sombra, nem sol / Nem vento. Quem me dera agora / Eu tivesse a viola / Prá cantar. Jogaram a viola no mundo / Mas fui lá no fundo buscar / Se eu tomo a viola / Ponteio / Meu canto não posso parar /. Talvez, nesta manhã invernosa de 2014, Iara Iavelberg esteja cantando esses versos em alguma nuvem.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

As filhas

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 11)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall*

se vão quase trinta anos que minha amiga, num gesto tresloucado e para sempre inexplicável, atirou contra a própria cabeça interrompendo uma mente brilhante. Pois, com 20 anos, ela era rápida, criativa, ousada e, supreendentemente para sua idade, muito culta. Por que se matou? Essa resposta só terei se um dia encontrá-la quando eu me mudar para as nuvens. Mas a história que vou contar começa numa festa. Já embriagadas, ela me sussurrou - em tom de confidência - que seu pai foi um dos caras que mataram Carlos Marighella (1911-1969). O assassinado, todos sabemos, foi tachado pela ditadura como seu inimigo número 1.

Fiquei surpresa com a revelação. Por delicadeza, não fiz nenhum comentário. Mas ela estava com vontade de desabafar. Contou que seu pai era da equipe de Sérgio Paranhos Fleury, uma espécie de delegado pit bull dos milicos (sem querer ofender os cachorros dessa raça). Ela era uma menininha de pré-primário quando da emboscada a Marighella. Ouviu a história em casa e se encheu de orgulho: Papai havia matado o monstro vermelho!

Toda orgulhosa - afinal toda criança reverencia um papai que mata monstros - espalhou para os coleguinhas o feito. Isso foi lá atrás. À medida que ela foi crescendo e sabendo das coisas, a admiração pelo pai virou constrangimento. Tanto que ela só me revelou a história depois de altos graus etílicos. A festa acabou, cada uma foi para sua casa, e nunca mais retomamos esse assunto.

Mas, por certo, pensei bastante sobre a situação. Minha amiga fazia letras na USP, em meados dos anos 1980, quando 95% dos alunos eram de esquerda, com a sociedade sedenta pelas liberdades democráticas e por novas possibilidades. Daí compreendi que o pai delegado, matador do Marighella, era uma mancha na alva toalha dos cafés da manhã dela.

Em novembro de 2013, perdi meu pai. Lá no velório, um amigo dele pediu licença para discursar. Ele exaltou o quanto o falecido foi um companheiro comprometido com as lutas da esquerda, um militante incansável. Senti um orgulho! Por momentos, estiou a chuva dentro de mim. No dia seguinte, recordei da minha amiga de quase trinta anos atrás. Pensei que nem sempre é vantajoso ter um papai matador de monstros.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Nem toda fogueira é de São João

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 10)


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

em casa, quando eu era criança, não havia exatamente uma biblioteca. Modestamente tínhamos uma estante de livros. Eram todos do meu pai, comunista e sindicalista. Logo que aprendi a ler, passei a prestar atenção nos títulos. Puxo de memória: Que fazer?; O 18 Brumário; Capitães da Areia; O Capital; Ganhando meu Pão; O que é o Materialismo Dialético; Assim Foi Temperado o Aço; A Comuna de Paris, Aladim e a Lâmpada Mágica - este último reservado para quando nós, os filhos, começássemos a ler de verdade.

Quinze dias depois do Golpe de 1964, meu pai foi preso. Minha mãe passou um tempo sem saber para aonde o levaram. Ficou compreensivelmente apavorada. Existia uma histeria civil pró-golpe, com mulheres e carolas fazendo marchas em nome de Deus, da Pátria, da Família. O demônio da hora era o comunismo. Da mesma forma que hoje dizem que tudo é culpa da Copa, cinquenta anos atrás era culpa de Cuba e de seus simpatizantes brasileiros.

Meu pai adorava o partido comunista e adorava Cuba. Minha mãe adorava meu pai. Eu adorava os dois. Nesse adora, adora, o fato é que vi mamãe - junto com uma amiga - pegar todos os livros da estante e levá-los para o quintal da casa. Um parêntesis para descrever o quintal (tinha um pé de jabuticaba, antúrios à vontade, uma pilha alta de tijolos - onde eu e meu irmão, Júlio, brincávamos jogos sem fim).

Fiquei observando as duas mulheres. Elas empilharam os livros na terra batida, umedeceram os volumes com álcool, ao mesmo tempo que minha mãe gritava: "Pra longe, pra longe! Não quero nenhuma criança aqui!" Mas eu fiquei paralisada. Em choque vendo os livros de papai arderem. Perguntei o porquê. Mamãe respondeu: "Os livros são perigosos. Seu pai já está preso, mas a polícia pode voltar aqui".

Não voltou. Passados dois meses, mamãe descobriu onde meu pai estava. Começou a fase das visitas dominicais à cadeia. Mas isso é assunto para outro episódio. O que também me lembro é que, na noite que sucedeu à cremação dos livros, peguei meu boneco de pano - o Zequinha - e cortei ele em pedacinhos. Nunca havia contado a morte do Zequinha para ninguém. A verdade é que a cena estava debaixo do tapete da memória. Não sei a razão da lembrança. Mas agora que recordei, decidi contar para vocês.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Devemos tanto ao Jimi

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 9)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

Ela caiu ao tentar cobrir um ponto no Aterro do Flamengo. Tudo veloz. Quatro tiras a cercaram e um deles estourou um tapa no seu rosto. É evidente que não falaram perdeu, perdeu, pois isso é expressão dos tempos de hoje. Talvez tenham dito: dançou, dançou. Ou, o mais provável, não disseram nada.

Levaram-na para uma das tantas salas de interrogatório, dessas que tinham como mobiliário: cadeira-do-dragão, pau-de-arara, tanque de afogamento. Desceram o pau. Fizeram perguntas. E o aparelho? Quem é o chefe? Onde se escondem fulano, sicrana, beltrano? Qual o endereço da gráfica?

A moça falou? Não falou? Tanto faz. O fato é que após a prisão no Aterro, não se soube mais dela. Ela não foi vista, nem subindo nem descendo, as ladeiras de Santa Teresa. Não foi vista na praia Adão e Eva em Niterói. Não foi vista tomando chope no Amarelinho da Cinelândia. Não foi vista na primeira passeata feminista. Não foi vista comendo hot-dog no Bob´s do centro do Rio.

Escafederam com ela. Nenhuma pista, nenhum osso, nenhuma cinza. Mas ele a reteve na memória. Não. Isso é pouco. Por décadas, ele usou linha e agulha para bordar as recordações. Ela rindo. Ela dormindo. Ela chorando. Ela entrando com ele no mar num réveillon em Búzios. Ele chamava essas imagens de Arquivo da Amada.

Arquivo afetivo, é claro. Nada a ver com o arquivo do Dops, no qual constava, em linguagem burocrática-policial, a mentira de que ela havia fugido e posteriormente sido vitimada pelos próprios companheiros da organização. Era bem assim que os agentes da repressão se esquivavam de qualquer indagação.

Como um devoto, uma vez ao mês, ele visitou o Aterro do Flamengo. No começo, havia choro e emoção em profusão. Por anos, ele vivenciou o luto. Até as florezinhas e as borboletas pareciam lastimar a ausência da moça. Depois, o sentimento se tornou mais fluido, menos explicável, apesar de persistir doloroso.

Por muitos domingos, ele se deitava na grama e soltava no gravador cassete e mais tarde no walkman a versão do No Woman, No Cry, gravada por Gilberto Gil: Amigos presos, Amigos sumindo assim, Prá nunca mais. A letra era lâmina afiada rasgando seu corpo. Mas de maneira estranha, ou não, ele sentia prazer em curtir essa canção.

Depois houve a época em que ele se ligou na guitarra de Jimi Hendrix, o imenso. Paixão tardia, mas redonda. Ele até se lembrava, achando graça, que a amada havia apoiado, no final dos 1960, uma passeata contra as guitarras elétricas. Imposição de gringo, ela dizia. Mas ele passara a adorar o som de Jimi. A cara de Jimi. Quando adotou o filho, na época com cinco meses, pôs o nome de Jimi.

Afinal.

Hoje ele tem rareado as excursões ao Aterro do Flamengo. Está custoso caminhar. Doem os quadris e principalmente os joelhos. Mas seu coração continua batendo por ela. A desaparecida. Volta em meia ele assobia: Não, não chore mais. Menina, não chore assim. Hê! Hê!

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

As gêmeas e o ditador

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 8)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Ana Maria e Maria Ana tinham oito anos. Elas estudavam na Escola Galinho Carijó, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Eram chamadas, conhecidas, referidas como as gêmeas. Tal insensibilidade dos adultos causava danos no coração das irmãs. Cada uma sentia sua individualidade roubada. Não bastasse a chatice da mãe vesti-las iguaizinhas e do pai sempre falar com elas no plural.

O fato é que a professora Eulália havia escolhido Ana Maria e Maria Ana para entregarem dois buquês de flores ao presidente da República. Ele viria inaugurar um centro de reabilitação física para crianças carentes, ligado ao Galinho Carijó. Tratava-se de evento importantíssimo, pois quantas escolas viviam o privilégio da visita do homem mais poderoso do país? Quase nenhuma.

O presidente de turno era Emílio Garrastazu Médici. Maria Ana detestou o nome Garrastazu, por difícil de pronunciar. Já Ana Maria não gostou nada da cara do senhor. Olhando o retrato do sujeito com a faixa presidencial pendurada no peito, ela lembrou (melhor, associou) com o seu Antonino da quitanda. Este havia passado a mão no corpo da menina, num abuso que ela não teve coragem de relatar para os pais.

Ou seja, se para os adultos o momento era de júbilo, para as gêmeas era constrangedor. Dona Eulália resolveu ensaiar a entrega dos buquês. Insistiu que as meninas dessem passos suaves e ritmados, "pois a suavidade e o ritmo fazem parte do feminino", ela pontuou. Depois de muito adestrar, Ana Maria e Maria Ana conseguiram.

Na véspera da visita, em casa, o tio das gêmeas resolveu contar para as sobrinhas quem era o Emílio Garrastazu Médici. Disse ele: "Trata-se de um general do Exército, estilo linha dura. Ele acoberta as torturas contra presos políticos. Sabe muito bem de mortes e desaparecimentos de opositores. Seu lado simpático é gostar de futebol e de canções nacionalistas: Eu te amo, meu Brasil, eu te amo. Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil."

No dia seguinte, estava tudo preparado para a festa. A escola colorida, as gêmeas segurando cada uma seu buquê. Mas um compromisso de última hora impediu a presença do general no Galinho Carijó. Foi triste para os professores e as mães. Mas Ana Maria e Maria Ana suspiraram de alívio. Veja só como o mundo pode ser um lugar feliz.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Cabeça no capacete

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 7)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

Faz uns dias que o general Olympio Mourão Filho anda pisando duro nas ideias. Pôs todo o quartel em prontidão. Ontem fez uma preleção para as tropas: Vamos lutar pelo Brasil contra o comunismo! Só os fracos e frouxos assistem à comunização da nossa pátria sem pegar em armas. Nós, o exército brasileiro, vamos cortar as nove cabeças da Hydra vermelha. Ele seguiu falando muito e bonito.

Quando eu era menino, lá em Curvelo, conheci um comunista de carne e osso. Era amigo do meu avô. Sapateiro como ele. Chama-se Tonho e residia em Niterói. Acho que ainda reside. Porque se ele tivesse morrido, meu avó teria comentado. Certo verão, Tonho foi de visita na casa do meu avô, passou uns dias. Eu tinha meio medo dele. Pois minha professora, irmã Angelina, dizia que comunista comia criancinhas.

Mas o Tonho não me comeu. Ao contrário, foi simpático. Dedicou um pouco de sua atenção para mim. De noite, apontou no céu estrelas. Disse até o nome de algumas delas. Fiquei confuso com um comunista que gostava de estrelas. Depois, memória que adormece, me esqueci completamente do amigo do meu avô.

Agora voltei a lembrar dele por conta do general Mourão Filho. Fico imaginando quantos Tonhos vamos ter que enfrentar no Rio de Janeiro. Pois é para lá que a tropa está indo. Os tanques de guerra já fazem manobras no pátio. Desta vez, a coisa é séria. O Jango está com as horas contadas.

Eu mesmo nunca fui com a cara do presidente. Nem concordo com essa história de reforma agrária. Onde já se viu tirar a terra dos outros? Cada qual com o seu qual. O mundo sempre teve ricos e pobres. Brancos e negros. Mulheres e homens. Deus escreveu um destino para todos eles. Os pobres ficarão ricos no reino do Senhor. Os ricos vão prestar contas tintim por tintim. Os negros têm talento para servir, para praticar trabalhos braçais ou miúdos. As mulheres nasceram para engravidar da espécie e serem companheiras dos homens.

Nós, os homens, nascemos para proteger as mulheres e comandar as mudanças do mundo. Desconfio que estamos marchando para ajeitar as coisas. Para recolocar o que foi tirado do lugar. Os comunas gostam de bagunça. Enfiam bobagens na cabeça dos jovens e dos trabalhadores. Os sindicalistas também são o diabo. Querem fazer greve toda semana.

Trinta e um de março de 1964, lembrei que é aniversário da minha mãe. Dona Regina, a maior cozinheira das Minas Gerais. Uma mulher corajosa. Suportou os berros do meu avô até se casar com o meu pai. Depois teve que aguentar a violência de papai quando bebia. Mas ela nunca disse um ai, um ui. Dona Regina sabe que quando nascemos nossa vida inteira já está escrita. Depois da morte, Deus na certa vai explicar porque disso, porque daquilo outro.

Quando a revolução acabar, tenho que arranjar um jeito de escrever uma cartinha para minha mãe. Acredito que ela ficará orgulhosa deste filho que luta para que tudo siga em ordem. Cuida para que o mundo gire do mesmo jeitinho com que sempre girou. Galinhas põem ovos, garanhões cobrem éguas, o sol nasce e morre todos os dias. Vamos nessa, meu general!

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Irene não ri

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 6)


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

O casal era clandestino. Ele, um dos sujeitos mais procurados pela repressão. Tipo inimigo número 1 da ditadura. Ela, companheira de luta e de vida. O Doi-Codi tinha o sonho sádico de sentar os dois na cadeira do dragão.

Daí, imaginem.

Ele punha e raspava o bigode. Ora era loiro, ora ruivo. Sempre de calças Lee e camisetas Hering. Assim passava por estudante, contador, eletricista, auxiliar de escritório. A ordem era ser o mais comum dos comuns dos mortais.

Ela usava vestidos compridos e sem decotes. Também portava discreto óculos escuros para esconder seus olhos azuis. Os brasileiros costumam guardar feições de pessoas com olhos claros, pois é raro.

O casal mudava constantemente de endereço. Moraram na Lapa, na Penha, na Capela do Socorro, no Centro da cidade, no Butantã, no Largo da Concórdia. Em cada casa atendiam por um nome. Antonio, Sérgio, Eliseu, Roberto, Sidinei, Valter. Cláudia, Cristina, Ana, Alice, Vilma, Irene.

Apesar de originalmente expansivos, evitavam como podiam a curiosidade dos vizinhos. Ele saía às seis da manhã e só retornava depois das vinte e duas. Ela cozinhava, lavava, passava sem abrir as janelas. Rádio, ouvia bem baixinho.

O som é sempre um problema, uma vez que diz muito sobre os indivíduos. Ela gostava de rir gostoso, baianamente. Um dia, ele contou uma piada inteligente, engraçada. Ela gargalhou.

Ele então a repreendeu:
- Não faça assim! Você deve rir o mínimo. As pessoas reparam muito em gente alegre.

Ela então recolheu o sorriso. Deixou para soltar a gargalhada quando o Brasil se tornasse comunista.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O arrivista

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 2)


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Em 1964 - depois de um passado político e tanto, alcunhado de "o corvo" pelos getulistas, ferrenho anticomunista, apesar de na juventude ter sido um deles - Carlos Lacerda era o governador da Guanabara (leia-se da cidade do Rio de Janeiro, ex-Distrito Federal, status usurpado pela novíssima Brasília de JK). Aliás entre seus vários desafetos - e foram muitos - estava o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek, que ensaiava sua volta na futura eleição de outubro de 1965. Ser presidente da República também era o sonho dourado do governador da Guanabara. Só que pelo gosto da opinião pública tudo indicava que Juscelino levaria a melhor.

Carlos era um golpista. Estava na alma dele. Sempre pensando no bem do Brasil, dizia. Assim, ele foi um fanático propagandista do Golpe Militar. Deposto João Goulart, o marechal Castello Branco se sentou no trono do poder. O governador teceu mil e uma loas aos fardados. Confabulava com o Castello. Visitava o Costa e Silva, então ministro da Guerra. Lacerda queria sangue! Dizia que era preciso limpar o país dos contrarrevolucionários. Quando JK teve seus direitos políticos cassados, em público Carlos Lacerda silenciou. Mas nos bastidores, exultou a aniquilação de seu adversário direito. Pelos seus cálculos, não sobraria para mais ninguém. A presidência da República estava no papo. Desde, é claro, que houvesse as urnas!

Lacerda desenvolveu uma política de amor e ódio com Castello. Mordia sempre que percebia uma inclinação militar pela ditadura total. Assoprava quando o marechal garantia que seu governo era nuvem passageira e haveria o escrutínio em 1965. Os militares bobos não eram e passaram a sacar o jogo do governador. O resto da história a gente conhece. Não tiveram eleições para presidente coisa nenhuma. Depois de Castello, vieram os generais Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Todos amantes da ditadura, todos beijando a mão do autoritarismo e promovendo a violência contra adversários. Lacerda ainda surpreenderia tentando uma aliança estratégica com Juscelino e Goulart, mas era tarde demais. Finalmente teve seus direitos políticos surripiados com o AI-5, em dezembro de 1968. A partir daí, sua verve e estrela foram se apagando. Morreu nove anos depois. Mas, façamos justiça, Carlinhos, a exemplo de seu mais feroz inimigo Getúlio Vargas, também saiu da vida para entrar na história.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Grande décio

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar.Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 2)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

Ele viveu uma infância e adolescência danadas. Fazia o que dava para engolir as chacotas e os dedinhos apontados. Chegou a sonhar em trocar seu problema por outro menos ofensivo às pessoas. Gostaria ter nascido dentuço, ou vesgo, até mesmo manco. O mais intolerável era a solidão que sua condição causava. Eram os anos 1940, muitas famílias escondiam crianças diferentes no quartinho dos fundos. Os pais de Décio até que foram corajosos, botaram ele na escola. Socializar foi torturante para o menino. Ninguém o tratava como um igual. Mas infância e adolescência uma hora acabam.

Décio entrou na vida adulta como um sobrevivente. Um forte. Afastou, como pôde, os preconceitos e as discriminações que entristeciam seu caminho. Fez curso para técnico de som e conseguiu um emprego em uma rádio estatal. Mostrou-se um bom profissional. Fita magnética, durex e gilete ganhavam asas e arte nas mãos dele. Quando se deu por si, havia passado vinte anos no mesmo emprego. Décio não se casou, aliás nunca namorou. Depois da morte dos pais, sua vida social se restringia a domingos na casa da irmã Ivete. Ele também se dava bem com o cunhado, delegado de polícia. Era o início da década de 1970. A ditadura rugia solta no país. Décio dava a mínima para a política. Para ele política e futebol americano eram iguais. Ele não entendia nada e também jogos de bola e poder lhe eram indiferentes.

Mas o cunhado se importava e muito. Um dia perguntou para o Décio se ele conhecia os comunas da rádio estatal. Pois se conhecesse, que tal fazer uma lista com os nomes dos subversivos? "Você não precisa se envolver com nada. Ninguém nunca ficará sabendo. Top secret! É só me passar os nomes", explicou o cunhado. Por algum tempo, Décio se fez de desentendido. Não estava na alma dele ser um dedo duro. Pois lembrava e lembrava da dor provocada por dedinhos apontados para ele. Mas seus domingos se tornaram nublados por uma certa frieza de Ivete e a cara amarrada do delegado. Décio baixou a guarda. Afinal, os comunistas da rádio nem eram seus amigos. "Danem-se!", concluiu durante uma noite insone.

Aos pouquinhos dedurou um produtor de programa, um músico, uma moça do departamento pessoal. E foi gostando da coisa. Sentia a adrenalina subir ao pesquisar, se certificar e canetar o nome na lista. Passou a curtir a carícia sensual do poder. O último que Décio entregou foi um foca de jornalismo. Ele experimentou um prazer particular nessa delação, pois o comunazinho media quase dois metros. Ele odiava homens altos. Décio, agora alcaguete, nascera anão.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.
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