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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Morte no Araguaia

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.



Maria Lúcia Petit da Silva
Nascimento: 20 de março de 1950
Cidade natal: Agudos - SP
Morte: 16 de junho de 1972
Local da morte: Pau Preto, Araguaia
Causa da morte: tiro
Identificação da ossada: maio de 1996

por Fernanda Pompeu   ilustrações Fernando Carvall

Há quem diga que Maria Lúcia morreu em confronto com uma patrulha do Exército na região do Araguaia, sul do Pará. Nessa versão, ela tombou com a revólver na mão e a revolução no coração. Também há o relato de que Maria teria sido executada: recebeu o tiro e caiu morta. O assassino seria um camponês que se fazia de amigo, quando na verdade era inimigo. Dez minutos depois do disparo de carabina, helicópteros do Exército Brasileiro apareceram metralhando a área.

Passados 43 anos, as versões de como a jovem de 22 anos morreu ainda convivem. Mas há fatos irrefutáveis. Por exemplo, a ocultação do cadáver. Na época da ditadura militar, a ordem era matar, por tortura ou execução, e sumir com o corpo. Tal prática é a raiz da eternizada angústia de familiares e amigos que nunca puderam enterrar os seus queridos.

Mas no caso de Maria Lúcia Petit da Silva, em 1991, a história começou a mudar quando a ossada de uma mulher, enrolada num pedaço de pano de paraquedas, foi encontrada no cemitério de Xambioá (em tupi, pássaro feroz), no atual Tocantins. Os indícios apontavam se tratar dos restos mortais de uma guerrilheira do Araguaia.

Cinco anos depois, houve o reconhecimento feito por técnicos da Unicamp. Maria Lúcia foi sepultada em Bauru, com a presença de sua mãe Julieta. No entanto, seus irmãos Jaime e Lúcio seguem desaparecidos, como aliás todos os outros militantes da Guerrilha do Araguaia. Para nunca esquecer: 434 pessoas morreram ou desapareceram nos anos de chumbo. É claro que estamos falando dos nomes notificados.

Apesar da existência breve, Maria Lúcia fez história política. No fulgurante 1968 - ano marcado por juventudes nas ruas em vários países - ela participou do movimento estudantil secundarista. Dois anos depois, militante do PCdoB, foi para Goiás e logo após para o sul do Pará. A ideia era estar ao lado dos camponeses para tecer a resistência à ditadura de 1964 e preparar a revolução que - na visão daquela esquerda - derrubaria as injustiças do Brasil. Roubaram-lhe a vida por conta disso.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

De pássaros e mortes

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira.

 (Episódio 17)

 por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Antes de ser uma designer internacional de moda, ela foi costureira – dessas que se debruçam sobre a máquina Singer e tratam agulha e linha com dedos de anjo. Antes de abrir uma loja de roupas no badalado Ipanema carioca, ela nasceu em Curvelo – uma das portas de entrada do sertão mineiro. Antes de se tornar persona non grata para os militares da ditadura, ela era a mãe de três filhos – duas moças e um rapaz.

O itinerário de sucesso de Zuzu Angel se tornou trágico quando, um ano depois do desaparecimento de seu filho Stuart Angel, ela leu uma carta escrita pelo preso político Alex Polari. Nela, Alex conta ter testemunhado o assassinato do jovem de 26 anos nas dependências do Cisa – Centro de Informação da Aeronáutica, na Cidade Maravilhosa. Angel era quadro de direção do MR-8, um dos vários pequenos grupos de resistência armada.

Diz a carta: "Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem-número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semiesfolada, era arrastado de um lado para outro no pátio, amarrado a uma viatura e de quando em quando obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos."

A partir da leitura da carta, Zuzu Angel se tornará incansável e irredutível na denúncia do assassinato do filho e na procura de seu corpo. Enterrar ou cremar corpos amados é direito básico e inalienável do ser humano. Somos – até aonde eu sei – a única espécie a fazer isso. Trata-se de um ritual de homenagem e encerramento.

Que digam, com lágrimas e propriedade, familiares e amigos dos desaparecidos na ditadura militar e nas favelas e periferias de hoje. Mães de Stuarts e Silvas se igualdam no pranto. Zuzu Angel (1923 –1976) se tornou símbolo da mãe à procura do corpo do filho por tenacidade própria, mas também por suas circunstâncias. Já explicou o filósofo espanhol Ortega y Gasset: "Eu sou eu e minhas circunstâncias."

Inteligente e bem relacionada, ela soube tirar partido da dupla nacionalidade do filho (brasileira e americana), chegando a entregar um dossiê para o então secretário americano Henry Kissinger. Também mobilizou algumas celebridades de Hollywood. Estas a conheciam pela excelência de seu corte e costura. Mas tudo isso foi em vão, pois as autoridades brasileiras negavam inclusive a prisão do rapaz. Seu rosto continuava impresso em cartazes de Procurados.

Zuzu estampou seu protesto e sua dor nos tecidos em que trabalhava. Se antes eles eram cheios de cor e de alegres motivos tropicais, agora vinham com pássaros engaiolados, anjos amordaçados e balas de canhão. Há quem diga que com essa ação, ela inaugurou a primeira coleção de moda política da História. Quem passasse por ela dando bom dia, ouviria: você pode ajudar a encontrar o corpo do meu filho?

Contam também que numa viagem aérea, minutos antes da aterrissagem, ela tomou o microfone de uma comissária e passou o seguinte recado aos atônitos passageiros: "Vocês vão descer no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, Brasil. Saibam que neste país torturam e matam jovens estudantes."

Firmeza e insistência cessaram na manhã de 14 de abril de 1976. Na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, o carro de Zuzu bateu na mureta de proteção e capotou. Ela morreu na hora. Um tempo antes, ela havia deixado uma carta com o compositor Chico Buarque, na qual avisava: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho." 

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Escolha sua data

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar.Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 1)

por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Todo mundo conhece a brincadeira do primeiro de abril. O mais verdadeiro dos dias, pois homenageia a mentira. Essa nossa companheira por toda a vida. A questão não é se a gente mente, mas quantas vezes e em que situações faltamos com a verdade. Por que mentimos? As respostas ocupariam uma internet inteira. A lembrança é que, na minha infância, eu adorava o primeiro de abril. Oportunidade de pregar uma peça em alguém e dizer em júbilo: "Caiu, primeiro de abril!"

Os militares e civis golpistas de 1964 também se preocuparam com a data. Eles pensaram: Não pode uma revolução aniversariar num primeiro de abril. É dar muita vantagem para a oposição. Daí, pelos vinte e quatro anos seguintes, se fixaram no 31 de março. Junto apelidaram o golpe de revolução, acrescida do adjetivo redentora. Qual o argumento? Os primeiros tanques de guerra começam a sair dos quartéis ainda na noite do 31 de março. Golpe é palavra feia. Melhor usar o substantivo revolução. Esta remete à mudança, novidade, esperança.

Até hoje estamos pagando a conta do Golpe do dia da mentira. Minha geração – eu tinha oito anos em 1964 – mergulhou numa adolescência e primeira juventude sem liberdade política. Leia-se sem direito ao voto, sem direito de se expressar com vigor e sinceridade. Submergimos num Brasil de uma única versão – a dos militares no poder. Eles diziam que queriam segurança, ordem, progresso. Conseguiram tudo isso para eles e seus amigos. Para a maioria das brasileiras e brasileiros, promoveram mordaça e eterno outono.

Os mais apressados dizem: "Já passou, já passou." Os mais jovens reclamam dos paradoxos da democracia e da caduquice do nosso sistema de representação. O slogan "Isso não me representa" ganha muros e postagens no Facebook. Muito lindo, muito bom. Pois, democracia a gente inventa todos os dias. Mas também temos que vigiá-la! O jeito fascista e truculento de tentar resolver os conflitos segue vivíssimo. Você tem alguma dúvida? O discurso de empregar a violência para derrotar a violência não é uma pegadinha de primeiro de abril.

A frase é batida, quase um clichê. Mas também é verdadeira: "O passado quando não conhecido é ameaça de volta". Mesmo que quando chega com outra máscara, outra roupa, outro corpo. A legítima lição da ditadura é uma só: nunca mais vivê-la!

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A verdade restabelecida

Pelo direito à memória e à verdade.

Hoje este NR publica a imagem do atestado de óbito de Wladimir Herzog, jornalista assassinado na Ditadura Militar, nas dependências do DOI-Codi de São Paulo. Esse atestado, verdadeiro, entregue a família na última sexta-feira (15), é o reconhecimento oficial de algo ocultado pelo Estado há décadas: de que ele, Herzog, ao contrário do que queriam fazer crer os torturadores, não se suicidou.

O documento traz como causa da morte “lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi”. Ou seja, tortura. No atestado anterior, a versão para a morte dizia em “enforcamento por asfixia mecânica”. Mentira. A verdade agora se restabelece. Há muito a se fazer, como descobrir as circunstâncias da morte do jornalista. Esse situação abre prerrogativa para que outras famílias tenham atestados na linha da verdade.


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