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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Viajar leve


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Viajar virou uma febre. O que até poucas décadas atrás era privilégio dos “happy few”, dos privilegiados que podiam bancar as altas contas de passagens e hospedagem, tornou-se amplamente acessível à classe média e menos média. O resultado é muita gente viajando e lotando os lugares que antes eram reservados para os poucos escolhidos pela fortuna.

Quem ainda acha que o ato de viajar implica conforto e glamour está precisando desembarcar no aeroporto de Lisboa ou de Miami às seis horas da manhã. Ali, parece que o fim do mundo é uma questão de minutos para aqueles que como nós, brasileiros, ostentam passaportes da base da hierarquia viajeira, apesar de estarmos generosamente irrigando economias do topo, para lá de combalidas. Dinheiro não é tudo, repetem convenientemente os que nasceram do lado de cima do mundo quando questionados sobre as agruras enfrentadas por quem vai lhes fazer o favor de comprar diárias de hotel e fartas bugigangas.

A bagagem é todo um tema. Para algumas pessoas, viajar significa quase só a oportunidade de comprar, e muito, para juntar com o outro muito que já trazem nas malas. Carregam bagagens inacreditáveis, como se o avião fosse seu e não houvesse a necessidade de acomodar a tralha de todos. Já presenciei cenas de franca selvageria por parte de passageiros e tripulantes de voos em que era impossível chegar aos assentos do fundo devido ao caos provocado pelo entulhamento de volumes por todos os milímetros cúbicos possíveis e impossíveis. Estas experiências, somadas a outras de viajar por terra em transporte público, estão me impondo um exercício disciplinar dos mais interessantes.

Não preciso andar carregada, não quero mais andar carregada. É trabalhoso e muito chato. Posso muito bem ir e voltar sem comprar absolutamente nada no lugar de destino, se não cruzar com algo realmente especial, que simbolize aquela viagem - e que tenha formato e dimensões fáceis de lidar. Buscando atentamente nos armários, encontro roupas, sapatos e acessórios em quantidade mínima, que se conjuminem o suficiente para uma semana, seja a viagem de dez ou trinta dias. Estou treinando, e gostando muito.

Viajar leve é levar-se a si mesma a andar por aí, sem precisar arrastar um guarda-roupa sobre rodinhas e acumular mais cinco camisetas, três perfumes e quatro pares de tênis porque estão muito baratos. É olhar para os lados atentamente, nas feiras livres, nos parques, nas praças e praias e ruas onde estão as pessoas do lugar. Provar suas comidas, sentir seus cheiros, ouvir sua língua e sua música, observar como constroem suas casas, como organizam a vida e levar consigo a bagagem do que lhe chamou a atenção nas cores, paisagens, sabores e sensações, misturando com o que trouxe de casa. Dessa misturança a gente vai tirando um mundo maior aqui dentro e fora também, que cada vez mais aguce nosso interesse e admiração, em sua inesgotável capacidade de nos surpreender e impressionar. Quero treinar muito mais.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ridículas ideias


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

 Escrevo sob o efeito do livro La ridícula idea de no volver a verte, o mais recente da escritora espanhola Rosa Montero, uma das minhas preferidas. Inovando mais uma vez, nesse livro a autora fica numa espécie de “limbo de gênero”, a meio caminho entre romance, memórias e biografia, misturando suas vivências pessoais com a história de Marie Curie. Bendito limbo, onde tudo é permitido, porque Rosa se permite tudo em sua alucinante capacidade criativa.

O livro gira em torno da perda de pessoas amadas e da enorme, quase insuperável dificuldade de conviver com o fato de que não as veremos mais, a despeito da realidade, que eventualmente se impõe. Como é possível admitir, entender que não voltaremos a vê-las? E quão ridícula nos soa esta ideia! Evitando entrar num campeonato de dor, suspeito ser esta uma das mais devastadoras, cinicamente ignorada por quem promove matanças mundo afora. Conviver diariamente com ela é um desafio e tanto, quase sempre solitário, pois, como bem registrou Chico Buarque, “a dor da gente não sai no jornal”.

Mas há outra ideia, igualmente ridícula: a de que nós mesmos não morreremos. A vida é tão interessante e sedutora, apesar de tudo, que a grande maioria de nós vive como se a morte não fosse uma certeza. Vivemos para viver, não para morrer. Tomo por mim mesma, que há décadas tento me acostumar com a ideia de que um dia vou desaparecer, e o mundo continuará existindo, com as pessoas que amo, os livros, as árvores e toda essa complexa e maravilhosa imensidão.

Tão presente quanto a morte certa é a pressão que sofremos para aproveitar a vida, ser feliz. Essa tal felicidade varia conforme o freguês, mas quase sempre se refere a ter muito dinheiro e/ou poder, viver paixões alucinadas, entregar-se ao prazer interminável ou a uma fé religiosa, viajar freneticamente, criar uma família linda e perfeita, realizar-se numa profissão apaixonante, ser famoso, e por aí vai. Isto quando não estamos num contexto em que a simples sobrevivência é felicidade suficiente.

É preciso pensar grande, desejar mais ainda, e atender à expectativa social ou familiar de sucesso e realização segundo receitas e fórmulas consagradas. Uma vida de bom tamanho, que caiba em mim ou em você, parece muito chinfrim, não é? Ridícula ideia!

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Solilóquio sobre a monotonia



por Alexandre Luzzi*

A oportunidade da escrita tem transformado a forma como vivencio o mundo. Tenho prestado mais atenção nas coisas que me cercam, incluindo meu mundo interior. Aliás, sempre tive dúvidas quanto a essa separação entre exterior e interior, afinal, emoções e sentimentos também são feitos de carne, ossos e mundo.

As motivações para o texto de hoje são duas: a primeira diz respeito a um sonho que tive  certa noite. Eu era observador em uma partida de futebol vibrante e disputada, em que dois times se digladiavam sem definição. Enquanto isso, os torcedores cantavam de forma penetrante das arquibancadas: “jogamos o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

Identifiquei a música, das minhas preferidas, que é do álbum In the flesh (na carne) de Roger Waters. O que teria motivado tal material onírico? Qual o significado dessa canção dentro desse sonho? Alguém conhece algum psicanalista por aí?

Confesso que fiquei inquieto com o assunto e fiz uma investigação partindo dos pensamentos conscientes que mais me importunaram nos últimos dias. Fiz a seguinte associação: sentado em meu sofá, dias atrás, em uma manhã de domingo meio nublada, enquanto via um desses programas esportivos espetaculares pensei:

– Como anda monótona e ordinária essa minha vida perto das aventuras que vivem esses esportistas e jornalistas que arriscam tudo por uma sensação “extra-ordinária”.

Maratonas exaustivas em lugares exóticos, escaladas em montanhas com alto grau de risco, ondas gigantes surfadas no fio da navalha, mega-rampas de skate que desafiam a gravidade, lutas agressivas que fazem qualquer filme de gladiadores virar desenho animado.

Mais perguntas tomaram de assalto meus pensamentos. Que tipo de experiência estão buscando essas pessoas? Que corpo é esse que hoje suporta todo tipo de provação esportiva? Onde estão ancorados nossos ideais de felicidade e bem-estar? Em que medida a cultura modula tudo isso? Além de todas essas perguntas, o que mais me intrigava era entender a relação desses pensamentos com o sonho. Será que nossa mente inconsciente é capaz de apresentar respostas simbólicas para anseios e angustias reais?

O fato era que realmente me senti insatisfeito com minha própria vida diante de tanta exuberância sensorial espetacular mostrada naquele programa. No mesmo instante outro pensamento colocou-me um contraponto:

– Rechear a vida com êxtase sensorial significa ser mais feliz?

Sem respostas fui atrás de alguma literatura que desse uma luz sobre o assunto. Encontrei algumas coisas muito interessantes que gostaria de dividir (a segunda razão do texto de hoje).

Diz o psicanalista Jurandir Freire Costa, por exemplo, que a atualidade é marcada pelo peso dado ao desempenho sensorial do corpo na construção dos ideais de felicidade. Nossa cultura associa, cada vez mais, êxtase sensorial com felicidade, é a cultura da “adrenalina”, diz ele.

Valorizamos atualmente objetos e imagens que excitam os sentidos despertando o corpo para uma nova prontidão prazerosa. O problema é que essa estrutura é similar ao arranjo bioquímico do vício, ou seja, depois de um certo limiar a pessoa não consegue parar de aumentar a dose.

Segundo o mesmo autor, êxtase é um ponto de intensidade que, uma vez atingido, decai rapidamente, e ao se tornar familiar, perde o atrativo. E além de cessar com o fim da excitação, raramente o indivíduo reproduz o gozo na forma original. Desse ponto de vista a felicidade erguida sobre o êxtase sensorial é precária, vacilante e passiva.

E temos o extremo oposto dessa engrenagem: dor, sofrimento, angústia e perdas, que são sensações a serem exterminadas pelo primeiro pastor, médico, curandeiro ou, até mesmo, educador físico que aparecer. Quanto mais falamos em minimizar o sofrimento e otimizar o prazer, mais nos privamos de prazer e mais nos atormentamos com os sofrimentos que não podemos evitar.

A busca da felicidade é um horizonte perseguido pela maioria das pessoas, no entanto, poucos se dão conta da dependência desse conceito com pressupostos culturais.

Dependendo do sentido e dos ideais que nos mobilizam nessa busca, corremos o risco de como na torcida do meu sonho, “jogar o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

O que quero dizer é que damos muito valor a realidade e pouco valor a imaginação – sorte dos poetas e escritores que se refugiam da monotonia da existência criando um mundo novo a cada escrita. Talvez, mais importante do que ser feliz é ser criativo. A compulsão pela felicidade sensorial é a ação criativa em seu mais baixo grau de expressão. Já o seu mais alto grau, é coisa que só Fernando Pessoa sabe expressar:
“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto.”
*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A verdade restabelecida

Pelo direito à memória e à verdade.

Hoje este NR publica a imagem do atestado de óbito de Wladimir Herzog, jornalista assassinado na Ditadura Militar, nas dependências do DOI-Codi de São Paulo. Esse atestado, verdadeiro, entregue a família na última sexta-feira (15), é o reconhecimento oficial de algo ocultado pelo Estado há décadas: de que ele, Herzog, ao contrário do que queriam fazer crer os torturadores, não se suicidou.

O documento traz como causa da morte “lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi”. Ou seja, tortura. No atestado anterior, a versão para a morte dizia em “enforcamento por asfixia mecânica”. Mentira. A verdade agora se restabelece. Há muito a se fazer, como descobrir as circunstâncias da morte do jornalista. Esse situação abre prerrogativa para que outras famílias tenham atestados na linha da verdade.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Cadê a minha vaga?



por Júnia Puglia       ilustração Fernando Vianna*

Quando alguém ataca de “no meu tempo” não era assim, era assado, tudo era muito melhor etc., me dá uma preguiça danada. Mesmo que a pessoa seja um tanto mais velha que eu, sempre acho que o tempo de quem está vivo é agora. Se, no entanto, disser que “trinta anos atrás os computadores não dominavam a nossa rotina como hoje” e outras constatações sobre a inevitável passagem do tempo, vou concordar com muitas delas.

Um das boas que têm frequentado as conversas Brasil afora é “no meu tempo, empregada doméstica se vestia de empregada, não tirava férias e nem pensava em viajar de avião”. Outra: “no meu tempo, era fácil estacionar; hoje em dia, está impossível encontrar vaga, depois que todo mundo comprou carro em sessenta prestações”. Mais uma: “antigamente, só vinha gente bonita nesse shopping; agora, dá de tudo”. É, minha gente, os últimos anos viraram nosso mundinho classe média de pernas pro ar.

Quinze anos atrás, as filas de check-in nos aeroportos, bem como as salas de embarque e os aviões, eram territórios demarcados de homens brancos engravatados, quase sempre viajando a trabalho. Éramos poucas mulheres, umas gatas pingadas, as exceções que confirmavam a regra. Aeroporto não era lugar de multidão e caos, pois cabíamos todos, e éramos quase sempre bem adestrados.

Neste nosso tempo de hoje, seu, meu e de todo mundo que respira, as cartas se embaralharam mesmo. Sabe por que? Os pobres e incultos de ontem estão comendo, estudando e acessando informação como nunca. Em consequência, a miséria vai ficando pra trás, num caminho sem volta dos mais virtuosos, que tenho o privilégio de acompanhar no meu tempo. Se nenhuma catástrofe política, econômica, institucional ou natural se interpuser, as próximas gerações terão da miséria e das privações apenas uma vaga lembrança.

Sua vaga de estacionamento sumiu? Seu assento fica bem no meio daquele animado grupo de cinquentonas que pisa num avião pela primeira vez, rumo a Lisboa, e com enorme dificuldade encontra seus lugares e acomoda dezenas de malas, bolsas e sacolas? Ficou chocado com a quantidade de formandos negros no curso de arquitetura do seu filho? Trate de se acostumar e encarar com bom humor, porque aquele cada um no seu quadrado “de antes” já era, e vem muito mais por aí. Este é o nosso tempo, que, da minha parte, é mais do que bem-vindo.

* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Caso Eloá: só alguns minutos

"Esse texto foi escrito à época do assassinato de Eloá (outubro de 2008) e circulou entre um grupo restrito. Achamos oportuno publicá-lo no momento em que o caso vai a julgamento."


Assentada a poeira inicial, não consigo parar de pensar neste assunto. Nos últimos dias, vimos passar diante de nossos olhos, pelas telas de nossas TVs, um tratado completo sobre as relações de poder entre mulheres e homens. Aquilo que os “iniciados” chamam de “relações de gênero”, e que tanta gente tem dificuldade para entender.

Lindemberg e Eloá eram jovens moradores de um conjunto habitacional de trabalhadores da Grande São Paulo. Até onde sei, com histórias e vidas parecidas. Nada que envolvesse grandes disparidades socioeconômicas.

Envolveram-se num relacionamento amoroso, quando ela era pouco mais que uma criança, e ele um rapaz de dezenove anos. Segundo informações que circulam, era um namoro tumultuado, com vários rompimentos e reconciliações, geralmente motivados pelo comportamento possessivo de Lindemberg.

Até o dia que Eloá decidiu não se reconciliar mais com ele. Uma decisão que ele não podia aceitar, um atrevimento, uma manifestação insuportável de egoísmo, como falou por telefone a um repórter. Como ela não cedia às suas tentativas de diálogo, ele resolveu obrigá-la, da forma que lhe pareceu mais adequada. Ou seja, ela o empurrou a tomar aquela atitude extrema!

Invadiu a casa dela numa tarde de segunda-feira, insinuando que os colegas que estavam ali tinham intenções a respeito de Eloá que só ele mesmo poderia ter. Estava armado, e a situação logo evoluiu para cárcere privado.

Não tinha nada para pedir em troca, pois o que ele queria, que era a atenção exclusiva dela, já havia conseguido. Que fazer, então? Prolongar indefinidamente o inferno, para que não restasse dúvida sobre quem controlava a situação, para reafirmar, hora após hora, que ela era propriedade dele, e faria o que ele quisesse.

Não me venham com essa lorota de que ele foi movido pela paixão. O que moveu Lindemberg foi o medo de ser rejeitado de forma definitiva e de perder a voz de mando numa relação que ele controlava tão bem. Como ficaria sua hombridade? Como lidar com o vazio deixado por tamanha humilhação?

Passaram-se os dias, as noites, mais dias e noites, até que ele mesmo não suportava mais a situação que havia criado. Mas, como sair? Impedindo que Eloá continuasse a viver, e, agora, sem ele, que é um rapaz inteligente e sabe que não teria mais nenhuma chance. Mirou seu revólver na cabeça e no sexo da ex-namorada. Bem dentro da lógica de que “se não for minha, não será de mais ninguém”.

Lindemberg inviabilizou sua vida e seu futuro, mas ele ainda pode dispor de uma e de outro. Eloá foi imolada para que o macho pelo menos preservasse sua macheza, pois viverá o resto de seus dias assombrado pelo que foi capaz de fazer. Isto pode soar como uma simplificação extrema, e talvez seja mesmo, mas como encontrar razões defensáveis para o que aconteceu?

Peço vários minutos de silêncio e reflexão sobre este caso tão emblemático e, ao mesmo tempo, tão corriqueiro, em maior ou menor grau, em tantas relações supostamente afetivas entre mulheres e homens.

Júnia Puglia, cronista, após o carnaval escreverá a coluna De um tudo toda sexta-feira.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O crack na porta de casa

Era sábado de carnaval. Esperava alguns amigos para uma visita na minha casa, na Lapa de Baixo, zona oeste de São Paulo.

O bairro, cenário de Malagueta, Perus e Bacanaço do escritor João Antônio continua com jeitão de subúrbio mesmo depois de tantas transformações.

A gente percebe que o bairro muda ao longo da vida, principalmente quem acompanha seu dia a dia durante décadas. E ali já vi de tudo um pouco. A novidade foi encontrar com a drogra da vez, o crack, na porta da minha casa.

Um jovem, cara de garoto, talvez tenha seus 16 anos e um homem mais velho, aparentando seus quarenta e poucos fumavam a pedra. Não era cola como supôs a amiga que estacionava o carro, afinal, estava lá o cachimbo que tem destruído a vida de muita gente.

Será que vocês podem fumar em outro lugar?, pedi aos dois que nada disseram. Estavam noiados, principalmente o mais velho. Sem reação buscaram a mesma calçada alguns metros adiante.

Recebi os amigos, a maioria jornalistas como eu, um tanto acostumados em reportar as precárias condições de vida no país. Ao voltar, olhei pela janela, curioso, e os dois já estavam largados no chão, moles, numa cena lamentável que imaginei se repetir em vários cenários diferentes do país.

O crack é feito de cocaína da pior qualidade e seu uso está disseminado por todas as regiões do Brasil, segundo levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), do ano passado.

O estudo realizado pela entidade em 3.950 cidades brasileiras, apontava que 98% delas (3.871) teve registrada a presença da droga - “O problema alcançou uma dimensão nacional. Não está mais nas grandes cidades, mas nas áreas rurais”, disse Paulo Ziulkoski, presidente da CNM.

Algumas informações:
1 - Em fevereiro último a presidenta Dilma - que ainda no início de sua campanha eleitoral afirmou que uma das prioridades de seu governo seria conter o avanço do crack - prometeu uma “luta sem quartel” para combater a droga ao lançar 49 Centros Regionais de Referência em Crack e Outras Drogas em universidades federais. A ver os resultados daqui em diante.

2 - Segundo a Agência Brasil noticiou recentemente o país está desenvolvendo o maior estudo sobre consumo de crack do mundo. De acordo com a secretária Nacional de Políticas sobre Drogas, Paulina Duarte, o objetivo é ter dados estatísticos reais do consumo de crack no país, das grandes cidades à zona rural. A pesquisa está sendo feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a universidade americana de Princeton e os primeiros resultados serão divulgados em abril.

3 - A mesma pesquisa da CNM, citada acima, estima que nos próximos seis anos, 300 mil pessoas devem morrer no País por conta do uso da droga.

4- Numa matéria do Estadão, de 14 de dezembro de 2010, uma análise de Ana Raquel Santiago de Lima, psiquiatra especialista em saúde mental, ela argumentava que “o crack é hoje a droga disponível para atender a uma sociedade imediatista, sem valores, que tem pressa e quer uma substância que vá direto ao ponto”. Acrescento: é barata e atinge as camadas mais baixas da população além de seu alto poder de viciar.

5 - A revista Fórum de fevereiro traz em sua capa o tema Crack. Vale dar uma espiada nas matérias que estão com boas informações, entre elas, que o número de dependentes pode chegar a 1,2 milhão. E a revista Retrato do Brasil tem uma reportagem de Tomás Chiaverini sobre o trabalho dos Redutores de Danos na Cracolândia de São Paulo.

Thiago Domenici, jornalista

terça-feira, 1 de junho de 2010

Proteção das Terras Guarani garante a preservação da Mata Atlântica

Na semana em que as atenções se voltam para a Mata Atlântica, devido ao Dia Nacional desse bioma - comemorado em 27 de maio, é impossível esquecer dos Guarani, um povo indígena que luta pela preservação da mata, da qual depende diretamente para manter seu modo de vida. “O povo Guarani sempre foi o mais interessado em preservar a Mata Atlântica e continua sendo o que mais preserva porque não estamos preservando somente a mata, estamos preservando a nossa cultura. Onde ainda tem um restinho dessa mata é porque ali vive o povo Guarani”, define Antônio Carvalho, o Werá Kwaray, da aldeia Boa Esperança, no município de Aracruz (ES).
Os Guarani constituem a maior população indígena em área da Mata Atlântica. Cerca de 90% das 120 terras Guarani situadas nas regiões Sul e Sudeste estão localizadas em meio a esse bioma. Isso não é por acaso, o bioma é o local privilegiado para sua cosmologia e para a constituição do tekoa, conceito que diz respeito à realização do seu modo de ser. “Para nós, povo Guarani, é a natureza que foi preservada, nós entendemos que ela é um espaço muito importante para o povo Guarani. E também para o povo Guarani ela é bastante sagrada, ela precisa ser preservada. Ela não é importante só para o povo Guarani, por isso ela deve ser preservada também pela sociedade branca, o próprio governo precisa fazer com que essas áreas não sejam destruídas", relata Maurício da Silva Gonçalves, da aldeia Estiva, em Diamante (RS).

Primeiras causas
As principais causas do processo da destruição da Mata Atlântica - a expansão da fronteira agropecuária, os grandes empreendimentos de infraestrutura, o crescimento das cidades e a exploração não sustentável das florestas - são também as principais ameaças aos direitos territoriais dos Guarani. Não é coincidência que o Estado de Santa Catarina - segundo colocado entre os estados campeões em desmatamento no período de 2005 a 2008 segundo o "Atlas da Mata Atlântica" da Fundação SOS Mata Atlântica - é também uma das regiões onde as disputas envolvendo as terras Guarani são mais acirradas.
A destruição da mata e o confinamento em áreas diminutas também ameaça a seguridade alimentar dos Guarani que dependem dos recursos da floresta para garantir a sua subsistência. Além disso, os índios estão entre as populações mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas decorrentes do desmatamento da floresta e o aumento das emissões de gases do efeito estufa.
Os Guarani estão conscientes e preocupados com tal situação, como coloca Santiago Karaí Ryapua, líder Guarani da Aldeia Lomba do Pinheiro, localizada em Porto Alegre (RS). “Os mais velhos sentem muita falta, sempre no Rio Grande do Sul temos uma reunião de Guarani e sempre os pajés começam a falar como era antes e até hoje, é muito difícil não existe mais mato, espaço livre para nós poder fazer, sentir como Guarani, sentir como Mbya. Não tem mais condições hoje em dia. Por isso há muita dificuldade. Os mais velhos sempre fala, a mata é sagrada, que o nosso Nhanderu deixou para nós, para nós cuidar. Mas o branco não respeita e não conhece o valor que tem essa mata, o rio, ele não conhece, para nos Mbya é uma tristeza que a gente passa no dia-a-dia", lamenta.

Horizonte comum
Sérgio Macena, da aldeia Ribeirão Silveira (SP), conta que aguarda ansioso pela efetivação de uma Unidade de Conservação (UC) próxima à aldeia. “Sendo (a área) uma Unidade de Conservação é mais fácil para gente porque sabemos que não haverá mais desmatamento, é preciso que os órgãos responsáveis atuem e nos ajudem na conservação da mata, tão importante para a nossa sobrevivência”.
A aldeia onde Sérgio mora está localizada entre os municípios de Bertioga, São Sebastião e Salesópolis. A unidade de conservação que se pretende criar tem mais de 8 mil hectares e fica no trecho mais preservado de Mata Atlântica no litoral paulista. A área de planície, que faz conexão com o Parque Estadual da Serra do Mar, abriga rica diversidade de ambientes: dunas, praias, rios, florestas, mangues e uma variada vegetação de restinga, nos quais vivem animais raros e ameaçados de extinção, de acordo com a Organização Não-Governamental (Ong) WWF-Brasil.
O “Diagnóstico Socioambiental para Criação de Unidades de Conservação Polígono Bertioga”, encomendado pela WWF-Brasil para embasar a etapa de consultas públicas, reconhece a importância da presença dos Guarani: “As Terras Indígenas (TI) do Povo Guarani, aldeia do Ribeirão Silveira, cumpre importante papel na manutenção da cultura local e do uso diferenciado do território”. O mesmo documento aponta que “embora esta população tenha suas terras demarcadas e vivam da agricultura de subsistência são enormes as dificuldades por eles encontradas, pois, entre outros pontos críticos, as áreas oficiais que foram demarcadas como Território Indígena não têm grande valor para a prática da agricultura tradicional. Em vista disso, eles hoje ocupam uma área particular, e lutam há vários anos na justiça pela remarcação e ampliação dos limites de seu território”.
Para Sérgio a área onde vivem continuará preservada, se os direitos ambientais e territoriais forem respeitados. “Nossa área vai continuar preservada porque, hoje no Brasil a gente vê, onde existe comunidade indígena, tem preservação da mata centenária e original. Nós temos uma educação de desde que Deus criou a gente, sempre respeitamos a natureza, porque a natureza é tudo. Mas tem muito hotel e condomínio de luxo perto da gente e temos que ficar de olho para nada mais ser construído”, alerta.
A proteção do meio ambiente e a dos direitos territoriais indígenas, além de terem sido consagrados na Constituição Federal, possuem um horizonte comum. Na opinião de Lúcia Andrade, coordenadora da Comissão Pró-Índio de São Paulo, a demarcação das terras indígenas deveria ser percebida como uma estratégia de proteção da Mata Atlântica complementar à criação e consolidação das unidades de conservação e ao fortalecimento do arcabouço legal que protege a vegetação nativa.
Nessa perspectiva, lembramos as diversas situações, em que os Guarani, ao defenderem seus direitos, contribuíram para impedir danos ao bioma. É possível encontrar uma série de exemplos de casos em que a presença dos Guarani em determinada área impediu o desenvolvimento de projetos que acarretariam sérios impactos ambientais. Esse foi o caso dos índios da Aldeia Rio Branco, de Itanhaém (SP) que conseguiram na década de 1990 o adiamento por tempo indeterminado das barragens nos rios Capivari e Monos. Os Guarani também participam da campanha que busca impedir a construção da Hidroelétrica de Tijuco Alto no Rio Ribeira de Iguapé, na região do Vale do Ribeira (SP). Exemplo mais recente (2008) foram os esforços para impedir a do complexo portuário Porto Brasil, da empresa LLX, no município de Peruíbe, litoral sul de São Paulo, que afetaria a TI Piaçaguera.

Terras ameaçadas
A maior dificuldade dos Guarani se encontra justamente no fato de não terem suas terras reconhecidas e homologadas, como garante a Constituição Federal. Esse é o caso das terras de Santigo Karaí Ryapua, que vive com 27 famílias em uma área de 10 hectares não regularizada em Porto Alegre (RS), e de muitos outros Guarani.
O estudo “Terras Guarani no Sul e Sudeste”, elaborado pela Comissão Pró-Índio de São Paulo, revela que 80% dos territórios Guarani localizados no Sul e no Sudeste ainda não foram regularizados ou se encontram regularizados com pendências. Apenas 32 TIs encontram-se homologadas.
Os dados não deixam dúvidas: do total de 74 Terras Indígenas (TIs) homologadas pelo governo federal do início de 2003 até outubro de 2009, apenas três contemplam o povo Guarani. O número inexpressivo de terras contrasta com o número de pessoas que compõem essa que é uma das maiores populações indígenas do país: 55 mil 302 índios de acordo com a Funasa.
A incapacidade do governo em garantir as demarcações e as disputas envolvendo as terras Guarani e geram uma situação de insegurança que ameaça a sustentabilidade física e cultural desse povo e o coloca em situação de extrema vulnerabilidade.

Bianca Pyl, para a Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP)
biancapyl@hotmail.com

(Twitter: @proindio)
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