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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O enigma de Kaspar Hauser


Um colóquio sobre as relações humanas, o corpo e o amor

por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, Alemanhã. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o padre da paróquia local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um homem com a capacidade de amar.

Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: “quero aprender o que é o amor.”

Soube-se mais tarde (quando ele aprendeu a falar) que uma pessoa, que Kaspar não conheceu, era seu mantenedor enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto dormia.

Acolhido na paróquia, logo o padre se ocupou de iniciar sua socialização. Com o tempo, aprendeu a falar. Mesmo a linguagem não lhe permitia capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Sua dificuldade de comunicação era imensa, já que não tinha referencial emocional e afetivo. Logo vieram as primeiras lições sobre o amor, vindas do padre que o tutelava:

 Kaspar, o amor é algo ainda maior do que a morte e a dor, maior do que tudo. Esse foi o exemplo do nosso mestre, Jesus. Bem-aventurado é aquele que ama seu amigo “em” Deus, assim como seu inimigo por amor a ele também. E não se esqueça, quem semear da carne, da carne colherá corrupção, quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna.

Kaspar Hauser se sentia confuso. Como representar figuras tão abstratas como Deus, espírito, eternidade, amor? Como desprezar seu próprio corpo se tudo o que podia conhecer até então eram resquícios mentais e afetivos de necessidades extremamente corporais como a fome, a dor, os impulsos sexuais e agressivos.

A incapacidade de comunicação e o nível de abstração exigido foram barreiras intransponíveis. Ao sucumbir da tarefa e na esperança de mais sucesso o padre enviou Kaspar, com uma nova carta de recomendação, para um cientista amigo chamado Rene, que recebeu o jovem com o seguinte discurso:

 Não se preocupe, nada escapa ao olhar da ciência, tudo que temos a fazer é encontrar uma metodologia adequada para investigarmos as causas desse fenômeno em questão. Antes me responda: após ter passado certo tempo na paróquia, como se sente? E o que pôde aprender?

Kaspar ficou em silêncio, mas não somente por sua dificuldade de falar e se expressar. Com esforço, ousou dizer:

 Sr Rene, o padre da paróquia foi muito gentil em me acolher e me explicou muitas coisas sobre quem criou o mundo e todas as criaturas, além disso, explicou coisas importantes sobre o amor e sobre quem sou, porém ainda não pude experimentar tal sentimento. Mas a experiência na paróquia não foi de todo mal, aprendi o que é o medo e hoje sou temente a Deus, além disso, sei que meu corpo pode ser um grande inimigo na busca do amor verdadeiro.

 Hora Kaspar, não leve isso tudo tão a sério, afinal, o que não pode ser demonstrado nada mais é do que um exercício de fé. Veja, talvez nosso corpo não seja esse grande vilão, tudo que temos a fazer é submetê-lo aos comandos da razão. Nosso corpo é uma máquina perfeita Kaspar, e pode estar aí a causa de todos os seus problemas, pois um sentimento como o amor também depende de uma produção orgânica e cerebral.

 Sr Rene, mas por quais razões Deus teria me criado com defeito?

 Talvez Deus não tenha nada a ver com isso Kaspar, você foi muito mal cuidado ao nascer. Lembre de quando comentei que para todo efeito há uma ou mais causas, então, talvez a formação de seu cérebro tenha sido prejudicada pelos maus cuidados.

Ao ouvir essas palavras Kaspar sentiu algo que, até então, não havia experimentado. Seu corpo se encheu de energia, seus caninos saltaram aos olhos do cientista, suas mãos se colocaram em posição agressiva e tudo que o Sr. Rene pode fazer foi nomear tal experiência para o conhecimento de Kaspar:

 Isso o que você está sentindo agora chamamos de raiva.

Logo em seguida, a imagem do padre da paróquia se apoderou da mente de Kaspar, seu corpo teve outra reação, dessa fez freando seus movimentos e produzindo nele uma espécie de apatia. Surgia nele a culpa, um novo sentimento a ser nomeado.

 Sr Rene, quer dizer que tenho um defeito no cérebro causado por outra pessoa e por isso não posso amar? O Sr. Seria capaz de concertar minha cabeça? O cientista sorriu ao observar tamanha ingenuidade e decidiu então enviá-lo para um amigo psicanalista. Quem sabe a ressignificação das experiências passadas não seria algo mais útil.

E lá foi Kaspar com mais uma carta de recomendação bater na porta do consultório do Sr. Sigmund. Na carta o cientista detalhava toda a sua trajetória incluindo suas últimas experiências. Ao lê-la com cuidado e atenção, Sigmund começou sua explanação:

 Veja Kaspar, todo discurso que assume um estatuto de verdade absoluta pouco pode dizer sobre o amor. A experiência do amor responde sempre a categorias como a contradição, a dúvida, o imponderável.

O Sr. Sigmund interrompeu seu discurso ao observar a expressão de angustia em Kaspar:

 O Sr. está querendo me dizer que quando amamos não possuímos garantia de nada, ficamos vulneráveis? Nesse caso, por quais razões escolhemos amar alguém?

 Jamais sabemos ao certo Kaspar, porém, dentro do que venho observando em minhas pesquisas, escolhemos alguém para atualizar e dar sentido às primeiras relações amorosas infantis. O amor não é um sentimento inato, é preciso aprender a amar a partir da experiência com aqueles que nos amam e, para tanto, é preciso a vitória parcial sobre dois inimigos, o medo e a culpa.

Ao ouvir o dr. Sigmund, Kaspar sentiu desespero, pois algo lhe dizia que a possibilidade de se humanizar seria inalcançável. Tempos depois, Kaspar foi encontrado morto. Nada souberam sobre os motivos de sua morte (se assassinato ou suicídio). No cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição na lápide de Kaspar assinada por um desconhecido que diz: “Aqui jaz um desconhecido”. De fato, nada resume melhor o misterioso percurso da vida e morte deste homem.

O FILME

O texto foi inspirado no filme alemão de 1974, Jeder für sich und Gott gegen alle (O Enigma de Kaspar Hauser, na versão brasileira), do diretor Werner Herzog. O filme narra a história de Kaspar Hauser, uma criança abandonada envolta em mistério, encontrada na Alemanha Ocidental do século 19. O filme fez parte da competição para a Palma de Ouro no Festival de Cannes (1975), onde ganhou três prêmios. Abaixo, a versão completa e legendada em português.



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*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Macho do tipo "casca grossa"


por Alexandre Luzzi*

O que significa ser homem? Será que nascemos homem? Como alguém se transforma em um sujeito de gênero? A relevância dessas perguntas se torna óbvia, na medida que todo preconceito relacionado às questões de gênero se fundamenta na concepção de que as características biológicas são suficientes para definirmos se é “menino” ou “menina”. Ou seja, qualquer opção de identidade de gênero que não se identifique com as características biológicas do sexo é considerada, portanto, um desvio da norma.

A filósofa Simone de Beauvoir afirmou, por exemplo, que “ninguém nasce mulher: torna-se uma”. A estória de Sísifo pode nos ajudar a pensar a questão.
“Sísifo desce correndo as escadas de sua casa, passa pela sala onde encontra seu pai dormindo no sofá, vai até a rua e observa uma cena espantosa: uma mulher dando pedras de alimento para um cachorro cego, desses bem agressivos da raça Pitbull. O rosto da mulher era familiar, no entanto, não lembrava exatamente de onde a conhecia”.
De repente sua mãe entra no quarto, como quem entra na alma de alguém sem pedir licença. Sísifo acorda de seu sonho com uma estranha sensação: uma mistura de medo com dor na “boca do estômago”.

O rapaz de vinte e nove anos sempre teve a impressão de carregar as pessoas internamente, nos seus órgãos corporais, e esse sonho, recorrente, deixava isso cada vez mais claro. Talvez não há a possibilidade de pensarmos a questão da identidade sem situá-la no espaço “entre-dois” de uma intensa relação afetiva. Nosso “Eu” constrói-se ao mesmo tempo que se esparrama pelo mundo, assim como os outros “Eus”, significativos para cada um de nós, são interiorizados e se instalam em nosso corpo.

Sísifo era um professor de artes marciais e toda sua vida foi marcada pelos imperativos do movimento e da luta. Com anos de prática construiu um corpo forte e musculoso. A imagem adequada ao seu ideal de masculinidade.

No ambiente das artes marciais os pontos de sustentação da masculinidade são facilmente reconhecidos. Mais homem é aquele que sabe lidar com as dores físicas. É o mais corajoso e agressivo, aquele que não tem medo da luta. Mesmo em uma derrota, os lutadores que suportam os piores castigos sem desistir eram considerados grandes guerreiros. Já aqueles que não conseguiam passar por cima da própria dor e superar seus medos são considerados “frouxos” [expressão utilizada com frequência].

Para se enquadrar nesse padrão, Sísifo suportava todo tipo de carga nos seus treinamentos. Sua força física externava sua própria fraqueza na inabilidade de lidar com suas emoções. A apatia e a falta de movimento em seu mundo emocional eram simbolizadas no excesso de movimento corporal. Assim, Sísifo não conseguia parar de lutar. Na luta sempre teve um desafio maior do que os seus oponentes: aprender a lidar e canalizar a raiva, outra emoção que afetava de forma indelével seu corpo.

Em sua personalidade e mesmo na aparência física, poucas coisas lembravam seu pai, um sujeito muitas vezes considerado por Sísifo como um ilustre desconhecido. As influências dos homens por parte da família de sua mãe eram mais visíveis, em especial uma: seu padrinho Paulo Honório.

Paulo Honório tinha como matriz de sua subjetividade masculina todo o peso do século XIX mesmo vivendo no século atual. O domínio sobre a mulher e o poder absoluto do proprietário sobre suas “posses” materiais e humanas sustentavam sua masculinidade.

E Sísifo cresceu ouvindo a mitologia dos feitos de seu padrinho como as brigas nos campos de futebol, as conquistas e romances com inúmeras mulheres, seu empreendedorismo e sua força de fazer valer o seu desejo. Para um garoto que aprendeu a se reconhecer no espelho do olhar da mãe como o eleito, um ser completamente especial, a identificação com os feitos de seu padrinho eram muito mais atrativas do que a personalidade mais calma e serena do pai.

Assim Sísifo foi construindo-se como sujeito (subjectum, assujeitado), na identificação com mestres de luta onde a expressão da força e da destreza físicas eram símbolos de uma masculinidade ideal. Assim como na identificação com Paulo Honório: um homem que transformava a arte da convivência em um ato violento, pelo seu desejo implacável de moldar o outro.

Mas entre o ideal e o real há sempre um abismo onde a descida é dolorosa e assustadora. Para evitá-la, Sísifo recorria à utilização de drogas, estimulantes e anabolizantes, transformando seu corpo em uma "casca grossa", afastando-se cada vez mais de seu mundo emocional e recusando-se a encarar a luta de lidar com tudo que está aquém do ideal, no caso, o peso da angústia de existir.

Sem consciência do fardo que carrega, como um cachorro cego que cheira carniça e sente-se diante de um banquete, há poucas chances do herói absurdo reconstruir sua subjetividade e se tornar protagonista de sua própria história.

Ao anoitecer, depois de mais um dia com uma carga excessiva e extenuante de treino Sísifo adormece. No meio da noite acorda assustado com uma sensação de medo tomando seu corpo e se instalando novamente no estômago. Quando a consciência vai assumindo seu lugar, Sísifo se lembra do seguinte sonho: 
“Dentro de um tribunal, um juiz com dimensões enormes e com um aspecto de um Deus mitológico, condena-o para um trabalho forçado. Sísifo fora condenado por um crime que ele não tinha consciência se havia cometido ou não. Sua sentença: carregar uma rocha enorme e pesada até o cume de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso, um trabalho inútil e sem fim.”

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Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Medida certa?



por Alexandre Luzzi   ilustração Ligia Morresi*

A “VALORIZAÇÃO” DO CORPO E O MAL-ESTAR NA ATUALIDADE

Na mitologia grega, Procusto, filho de Netuno, era um salteador sanguinário que obrigava os viajantes, depois de pilhá-los, a deitar sobre um sinistro leito de ferro nunca do tamanho do corpo dos infelizes: se eles fossem mais curtos que o leito, estirava-os com cordas e roldanas; se ultrapassassem as medidas, cortava-lhes a parte que sobrava. Todos, sem exceção, deveriam se ajustar à sua cama.

Procusto era alguém que ajustava o corpo das pessoas a certas medidas ideais, sempre a partir de um único padrão. Do ponto de vista simbólico, Procusto pode ser considerado um normalizador, o patrono de todo imperativo que impõe normas e um guia de conduta, reduzindo a experiência humana a relações de causa e efeito nunca livres de interesses (qualquer programa de televisão com o título desse texto é mera coincidência).

Ao tomar conhecimento da narrativa mítica, não pude deixar de associá-la com o papel do profissional de Educação Física (EF) dentro do dispositivo da saúde e sua relação com o corpo e a sociedade.

Segundo Flávio Soares Alves, da Faculdade de Educação Física e Esportes da USP, “o profissional de Educação Física passa a ser agente ativo de uma ideologia do ser saudável, passando por cima da diversidade dos corpos, em função da reprodução de uma lógica excludente, que dita padrões estéticos de beleza e saúde.”

Não podemos esquecer que o homem, por meio de seu corpo, assimila e se apropria dos valores e normas sociais, num processo de incorporação. É sobre o corpo, em sua qualidade sensível, que incidem as formas de controle e dominação que ressultam no processo de “anestesiamento” de seu campo intensivo (corpo afetivo e pulsional).

Esse fenômeno é muito fácil de ser observado na religião (controle da sexualidade), no capitalismo (transformação da força criativa em força produtiva) e agora de uma forma mais sutil, mas não menos agressiva, no dispositivo da saúde.

Com o corpo sendo submetido cada vez mais ao controle, à segmentação e a manipulação em função da norma e de um ideal a ser alcançado, a saúde sustenta-se sob um discurso que reduz o corpo à sua dimensão anatomofisiológica, ou seja, a saúde se opõe ao estado de doença. O educador físico, servindo-se deste discurso monta seu dispositivo de saúde para convencer seus clientes de que a saúde que ajuda a promover traz controle e segurança sobre a vida. Com isso, sugere garantir a juventude e a beleza daqueles que apostam na eficiência deste dispositivo forjado.

É por meio dessa produção simbólica de valores, associada ao poder da indústria midiática, que uma série de imagens-ícone são produzidas, deliberadamente, aprisionando a subjetividade pelo medo à exclusão e o desejo à hegemonia.

Afinal, se os famosos se submetem a todo tipo de sacrifício em nome da medida certa, respaldados por um discurso de “verdade científica”, para nós, meros mortais, restam poucas dúvidas de que esse é o caminho certo.

Alves destaca ainda que “os padrões impostos por certas imagens fazem com que nos voltemos contra nós mesmos, revoltados com nossa própria inadequação. Tal descompasso é desconfortante e nos força a uma retratação que, muitas vezes, corre na contramão de nossos próprios desejos”.

O corpo passa a ser vivido como um lugar permanentemente de risco, um lugar que pode a qualquer momento nos ameaçar. Diante desses problemas questiono sobre o papel do profissional de Educação Física e sua participação na condução desse sistema de representações na qual se articulam o corpo, a saúde e o movimento.

A superposição deliberada e maliciosa entre corpo e organismo, ou seja, a redução do corpo a aspectos meramente biológicos, carrega toda uma problemática que vem acompanhando a Educação Física desde o seu surgimento: sua despolitização. Uma disciplina orientada por um ideário neoliberal (o movimento ressignificado a partir de conceitos como produtividade e funcionalidade), com pouca consciência das relações de poder na produção de valores que norteiam sua prática, afastada da subjetividade de quem ensina e de quem pratica, produzindo dessa forma o mau encontro.

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*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Afinal, que corpo queremos?



por Alexandre Luzzi*

Dizem que o corpo humano é a máquina mais perfeita que existe, e que se todas as suas engrenagens funcionarem em equilíbrio e harmonia, a saúde está garantida. Além disso, nossa cultura nos fez crer que essa máquina perfeita é comandada pela mente. Seria mais ou menos como se nosso corpo fosse um navio a vapor, e o comandante do navio a mente. Se conduzido de forma correta, o comandante do navio fará a viagem até seu destino final de forma segura e sem surpresas.

Na metáfora, viagem segura é sinônimo de saúde e o destino da viagem quem organiza é a cultura. Toda concepção de saúde sempre se apoiou na relação entre corpo e mente. A tradição ocidental é que produziu as dicotomias que afetam de forma concreta o sentido que atribuímos ao conceito de saúde, por exemplo: corpo/mente, natureza/cultura, materialidade/essência, saúde/doença.

Todo sistema procura produzir sujeitos que sustente essa engrenagem. Ainda mais numa sociedade de mercado em que manter ativas essas dicotomias só reforça o controle da mente sobre o corpo e sinaliza, por consequência, uma proposta de saúde consumista.

O sujeito de hoje tenta de tudo para manter-se saudável e em forma. Por isso, consome todo tipo de produtos: seguros, produtos alimentícios de baixa caloria, remédios, atividades da moda, produtos de beleza e estética. Se pensarmos, a vida saudável é como uma grife, um estilo. Porém, na mesma proporção em que tentamos controlar o corpo e o risco, parece existir um mal-estar nos sintomas contemporâneos representados pelos distúrbios da percepção da imagem corporal. Exemplos não faltam: ansiedades de exposição, anorexia, vigorexia, bulimia, toxicomanias, etc.

Uma outra proposta de saúde

O que nos introduz no mundo é a linguagem: palavras, gestos, olhares, toques e imagens dão o sentido às nossas experiências. A linguagem, em linhas gerais, é um sistema de sinais, signos e símbolos que foram organizados de acordo com a cultura. Ela, portanto, determina a experiência da nossa realidade e o nível de generalização e abstração do pensamento.

Deixando a filosofia de lado, pense comigo: quando falamos em experiências assumimos um corpo que não é mais o corpo natural e biológico, mas um corpo “biocultural”, em que foi atravessado pela linguagem e pelos signos culturais. “Ao contrário da concepção do corpo como propriedade privada de cada um, afirmo que nosso corpo nos pertence muito menos do que costumamos imaginar. Ele pertence ao universo simbólico que habitamos, pertence ao Outro; o corpo é formatado pela linguagem e depende do lugar social que lhe é atribuído para se constituir. Se os corpos não existem fora da linguagem, as práticas da linguagem determinam a aparência, a expressividade e até mesmo a saúde dos corpos”, disse a psicanalista Maria Rita Kehl.

Quando admitimos a saúde do ponto de vista do corpo-máquina, temos a tendência de não considerar a expressão emocional e subjetiva dos encontros que realizamos, ou seja, mantemos os valores e medicalizamos a doença, almejando uma ideia de corpo e de saúde que não contempla o risco, o mal-estar e a experiência trágica do viver.

Uma outra proposta de saúde parte do pressuposto que corpo e mente são expressões distintas de um mesmo ser. A sabedoria do corpo, ao contrário da mente que pode ser expressa com palavras e conceitos, só pode ser expressa por metáforas cuja linguagem são as emoções.

As emoções e os sentimentos são revelações do estado de vida de nosso organismo, para realizarmos a escuta desses saberes é preciso coragem para nos lançarmos no encontro com o outro sem a necessidade do enquadramento nos padrões culturais.

Quanto maior o raio de ação do radar de nossa consciência de como nosso corpo/mente afetam e são afetados pela complexidade das relações na qual estamos inseridos, maior será a probabilidade de adotarmos uma postura ativa e criativa frente às diversidades. Talvez esse seja um caminho para um ser saudável.

*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzicoordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Solilóquio sobre a monotonia



por Alexandre Luzzi*

A oportunidade da escrita tem transformado a forma como vivencio o mundo. Tenho prestado mais atenção nas coisas que me cercam, incluindo meu mundo interior. Aliás, sempre tive dúvidas quanto a essa separação entre exterior e interior, afinal, emoções e sentimentos também são feitos de carne, ossos e mundo.

As motivações para o texto de hoje são duas: a primeira diz respeito a um sonho que tive  certa noite. Eu era observador em uma partida de futebol vibrante e disputada, em que dois times se digladiavam sem definição. Enquanto isso, os torcedores cantavam de forma penetrante das arquibancadas: “jogamos o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

Identifiquei a música, das minhas preferidas, que é do álbum In the flesh (na carne) de Roger Waters. O que teria motivado tal material onírico? Qual o significado dessa canção dentro desse sonho? Alguém conhece algum psicanalista por aí?

Confesso que fiquei inquieto com o assunto e fiz uma investigação partindo dos pensamentos conscientes que mais me importunaram nos últimos dias. Fiz a seguinte associação: sentado em meu sofá, dias atrás, em uma manhã de domingo meio nublada, enquanto via um desses programas esportivos espetaculares pensei:

– Como anda monótona e ordinária essa minha vida perto das aventuras que vivem esses esportistas e jornalistas que arriscam tudo por uma sensação “extra-ordinária”.

Maratonas exaustivas em lugares exóticos, escaladas em montanhas com alto grau de risco, ondas gigantes surfadas no fio da navalha, mega-rampas de skate que desafiam a gravidade, lutas agressivas que fazem qualquer filme de gladiadores virar desenho animado.

Mais perguntas tomaram de assalto meus pensamentos. Que tipo de experiência estão buscando essas pessoas? Que corpo é esse que hoje suporta todo tipo de provação esportiva? Onde estão ancorados nossos ideais de felicidade e bem-estar? Em que medida a cultura modula tudo isso? Além de todas essas perguntas, o que mais me intrigava era entender a relação desses pensamentos com o sonho. Será que nossa mente inconsciente é capaz de apresentar respostas simbólicas para anseios e angustias reais?

O fato era que realmente me senti insatisfeito com minha própria vida diante de tanta exuberância sensorial espetacular mostrada naquele programa. No mesmo instante outro pensamento colocou-me um contraponto:

– Rechear a vida com êxtase sensorial significa ser mais feliz?

Sem respostas fui atrás de alguma literatura que desse uma luz sobre o assunto. Encontrei algumas coisas muito interessantes que gostaria de dividir (a segunda razão do texto de hoje).

Diz o psicanalista Jurandir Freire Costa, por exemplo, que a atualidade é marcada pelo peso dado ao desempenho sensorial do corpo na construção dos ideais de felicidade. Nossa cultura associa, cada vez mais, êxtase sensorial com felicidade, é a cultura da “adrenalina”, diz ele.

Valorizamos atualmente objetos e imagens que excitam os sentidos despertando o corpo para uma nova prontidão prazerosa. O problema é que essa estrutura é similar ao arranjo bioquímico do vício, ou seja, depois de um certo limiar a pessoa não consegue parar de aumentar a dose.

Segundo o mesmo autor, êxtase é um ponto de intensidade que, uma vez atingido, decai rapidamente, e ao se tornar familiar, perde o atrativo. E além de cessar com o fim da excitação, raramente o indivíduo reproduz o gozo na forma original. Desse ponto de vista a felicidade erguida sobre o êxtase sensorial é precária, vacilante e passiva.

E temos o extremo oposto dessa engrenagem: dor, sofrimento, angústia e perdas, que são sensações a serem exterminadas pelo primeiro pastor, médico, curandeiro ou, até mesmo, educador físico que aparecer. Quanto mais falamos em minimizar o sofrimento e otimizar o prazer, mais nos privamos de prazer e mais nos atormentamos com os sofrimentos que não podemos evitar.

A busca da felicidade é um horizonte perseguido pela maioria das pessoas, no entanto, poucos se dão conta da dependência desse conceito com pressupostos culturais.

Dependendo do sentido e dos ideais que nos mobilizam nessa busca, corremos o risco de como na torcida do meu sonho, “jogar o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

O que quero dizer é que damos muito valor a realidade e pouco valor a imaginação – sorte dos poetas e escritores que se refugiam da monotonia da existência criando um mundo novo a cada escrita. Talvez, mais importante do que ser feliz é ser criativo. A compulsão pela felicidade sensorial é a ação criativa em seu mais baixo grau de expressão. Já o seu mais alto grau, é coisa que só Fernando Pessoa sabe expressar:
“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto.”
*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Memórias impregnadas


por Alexandre Luzzi*

Pode não parecer, mas nutrição e economia são dois assuntos muito comuns entre os profissionais da saúde e o público em geral. É que o ato de comer passou a ser tratado como um índice econômico, com taxa adequada para tudo, seja com medida certa ou percentual a ser alcançado. Não é à toa que, recentemente, um dos programas de maior audiência da televisão aos domingos exibiu um jogador famoso aumentando sua conta bancária na mesma proporção em que perdia calorias.

Sendo o corpo, obviamente, um dos seus alvos, essa produção de imagens ideais e a oferta excessiva de produtos vinculados ao prazer e a felicidade são mecanismos que se contrapõem dando as nuances perversas de nossa sociedade mercadológica que insiste em transformar tudo em espetáculo e produto de consumo.

Nesse sentido a alimentação se torna um processo pragmático e mecanizado, em que seguimos as orientações dos especialistas e pronto. Admito: minhas experiências pessoais sempre contradizem os especialistas! Explico: cresci ao redor de uma cozinha ouvindo barulhos de panelas, pratos e o som do chiado da panela de pressão. Recordo-me do cheiro dos alimentos e da movimentação de minha mãe, sempre apressada, como se todo tempo do mundo nunca fosse o suficiente para as atividades da manhã.

Em casa, para cada dia da semana havia um cheiro específico. Às segundas tinham cheiro de legumes refogado, às terças cheiravam a arroz refogadinho. E cheiro de feijão no fogo e molho de macarrão eram às quintas e domingos. Quando o pra lá e pra cá de minha mãe ficava mais apressado e aflito era sinal de que eu tinha de ir para a escola.

Penso que toda boa cozinheira é uma grande mestra do tempo. Aprendi isso ao fazer alguns pratos em que a receita determina que se deixe um tempo para se processar isso ou aquilo. Nunca deu certo. Aprendi que o tempo de se processar um alimento é o tempo da intuição e não o da receita. Meu prato favorito é uma boa macarronada. A massa italiana me remete a um tempo mais devagar, mais contemplativo, ao tempo do domingo, um dia paradoxal, que começa lento e acelera ao final da tarde.

Dizem que o tempo existe e é algo em si mesmo. No entanto, todas essas experiências me revelam que o tempo é algo dentro da gente e que anda depressa ou não e de acordo com a qualidade das experiências do nosso dia a dia.

É cultural: em uma família italiana domingo é dia de reunião à mesa. Avós, tios, primos, pais, irmãos. Fala-se alto e se conversa sobre tudo: de futebol e política a trabalho e família. Tudo muito bem temperado pelo cheiro do tradicional molho de macarrão. O tempo do processamento do molho e o tempo do corpo é o casamento perfeito. É incrível. Existe uma sincronia entre a prontidão do molho e o pico da nossa fome.

“Uma boa macarronada espera-se sentado à mesa”, dizia minha bisavó, Maria Miranda Carillo (1890 – 1975). A conheci pelas fotos e, principalmente, por meio de um mosaico de representações transmitido pelas pessoas que conviveram com ela e com quem tive o privilégio de conhecer e conversar. Entre elas, duas muito especiais, minha avó Yolanda Carillo (1930 -2013) e meu tio-avô João Carillo.

Nessas reuniões é que incorporei alimentos para o corpo e para a alma. O alimento para a alma veio dos valores, do diálogo, dos gestos, dos olhares, das trocas afetivas e de todas as histórias que ouvi ao crescer. Tudo isso vem marcado em um ritmo emocional em meu corpo. Trago todas essas memórias impregnadas em mim. É esse ritmo emocional que hoje forma meu caráter e minha personalidade, além disso, é esse ritmo que me faz habitar um passado que insiste em se fazer presente e também a projetar um futuro que jamais excluirá tudo o que vivi e aprendi com as pessoas que amo.

Com esse pequeno relato me dou conta de que a comida nos vincula ao outro e nos dá uma história; toda alimentação é um grande processo afetivo antes de tudo. Mudar um cardápio não pode ser tratado como um processo mecânico desvinculado da maneira emocional de ser o que se é. Não significa que não devemos mudar hábitos, mas todo o processo de mudança deve considerar a subjetividade de quem se propõe ao desafio.

Essa crônica dedico a todos os considerados “mais velhos” com quem convivi: meus tios, avós e pais, principalmente. Eles me deram a oportunidade de ouvi-los e tê-los como exemplo. Acima de tudo, me ofereceram os elementos pelos quais me identifiquei e moldei minha identidade e isso, sem dúvida, é o mais genuíno ato de amor. Ah, que saudade daqueles domingos!


*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Capoeira, o corpo pensa

O mês de novembro é bastante significativo para pensarmos os rumos das relações de poder dentro da nossa sociedade por dois motivos: o primeiro, por conta do dia da Consciência Negra. O segundo, por se comemorar hoje o nascimento de Manoel dos Reis Machado, o famoso mestre Bimba, grande propulsor da capoeira no Brasil, manifestação cultural que pode ser considerada a expressão da ironia do negro no país.

Há mais de quinze anos, me dedico a esse ritual de jogar capoeira e reconheço que um dos grandes falseamentos do homem moderno é o desprezo pelo corpo e a hipervalorização do pensamento e da consciência.

O que isso significa? Basta olharmos para os templos da atualidade – as academias – para nos depararmos com legiões de corpos hiperestimulados, num verdadeiro culto à forma física.

A questão a ser discutida aqui, caro leitor, é justamente essa “forma”. Na verdade, não valorizamos o corpo em si, mas sim uma ideia de forma corporal. Um padrão idealizado e imposto por uma cultura que despreza o risco, a vulnerabilidade, o que envelhece e tudo aquilo que nos remete a nossa humanidade.

Como educador físico, eu faria um esforço para convencê-los de que o esporte ocidental – onde incluo as atividades em academias – se caracteriza por um conjunto de técnicas que levarão o praticante a desenvolver capacidades físicas e um corpo quase invencível, forte, flexível, belo, com uma boa postura e um ótimo tônus muscular.

O corpo na capoeira é um corpo que se assumi emocional, pulsional e falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai se leva rasteira, quem nunca caiu não é capoeira”.

O problema nessa concepção, na visão de Muniz Sodré, por exemplo, é que ela “mantém a separação entre corpo e espírito, ambos em uma mútua relação agressiva.” Sodré diz ainda que a institucionalização do esporte “termina imbuído do mesmo espírito competitivo vigente nas relações de produção dominantes”.

Como capoeirista afirmo: antes de ser um esporte, a capoeira sempre foi jogo, ou seja, linguagem não conceitual de gestos, imagens e cantos, onde o corpo ganha centralidade. Mas que corpo é esse? Qual é a diferença?

O corpo na capoeira é um corpo que se assume emocional, pulsional e falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai, se leva rasteira, quem nunca caiu não é capoeira”.

Um bom capoeira assume o risco como condição primeira de um bom jogo e joga com, nunca contra. Uma das características fundamentais do jogo é o diálogo, expressão corporal simbólica da dor, da alegria, da agressividade, da sensualidade, do ataque, da defesa, do encontro.

Na capoeira não há tempo para a dualidade corpo/mente, nela o movimento se torna pensamento em ação e o pensamento é já uma ação em movimento. Mestre Camisa, do alto de sua sabedoria, brinca: “na capoeira não pode pensar para dar o golpe e nem dar o golpe sem pensar”.

A capoeira pode ser vivenciada como uma forma autêntica de exercício em busca da liberdade, onde os elementos de criatividade artística, o improviso, a surpresa e a malícia são ingredientes fundamentais. É um jogo de desequilíbrio e de desconstrução dos rígidos padrões corporais ocidentais, padrões esses que engessam o corpo em formas vendidas por uma sociedade mercadológica.

Enfim, jogar capoeira pode ser considerado uma ação eminentemente política. Axé!


Alexandre Luzzi, Professor de Educação Física, capoeirista, coordena o espaço Tai Ken, especial para o Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, especial para o texto. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

“Nós intersomos”

É preciso pensar além do dualismo saúde e doença
Como professor de Educação Física tenho o compromisso ético de colocar em debate todos os assuntos que norteiam minha prática, pois acredito que aceitar um determinado conceito ou ideia de saúde nos leva a escolher certos tipos de intervenção sobre o nosso corpo e nossa vida.

Dito isso, espero que você leitor do Nota de Rodapé possa me ajudar a refletir, participando dos assuntos que vou passar a propor aqui, principalmente os relacionados a saúde, corpo, mente e cultura.

No primeiro semestre deste ano, por exemplo, a partir de uma palestra da Monja Coen, representante de uma tradição milenar, o Budismo japonês, discutimos os rumos que as nossas atitudes e o conceito de saúde estão tomando na atualidade. É que o senso comum tende a pensar a saúde a partir de algumas premissas:
1 – Saúde é um conceito que se contrapõe ao estado de doença, ou seja, ter saúde é não estar doente; 
2 – O corpo físico é uma máquina que necessita funcionar de forma perfeita, ou dentro de certos padrões de “normalidade” (assunto que abordarei em outro texto); 
3 – Usualmente pensamos a saúde a partir de uma perspectiva individualista, é sempre o sujeito o responsável e nunca uma questão coletiva.
De uma forma bastante clara e simples, as palavras da Monja durante a palestra colocaram pontos de interrogação nessas ideias. Te pergunto, caro leitor, será que realmente precisamos pensar a saúde em oposição à doença?

A resposta não é automática. Segundo os princípios do Budismo, esclareceu a Monja, além da transitoriedade de tudo o que existe, temos a existência do sofrimento como condição inerente à vida. Ou seja, a vida de todos nós inclui a experiência da doença.

Vivenciar uma enfermidade não significa não ter saúde, essa é uma perspectiva menor e perigosa. Assumir essa ideia, veja só, significa abrir caminho para a medicalização excessiva, o abuso nas práticas esportivas e até mesmo o excesso em investigações e exames.

Nosso corpo é habitado pela impressão de tudo que nos “toca” e estar aberto a outras formas de pensar, como proponho, significa assumir um conceito de saúde capaz de contemplar a qualidade dos encontros que realizamos, seja com a natureza, objetos, ideias, pensamentos, imagens, fantasias, emoções, sentimentos e outros seres.

Qual o impacto desses encontros na sua subjetividade? Que tal pensarmos a saúde no território da intersubjetividade? Segundo a própria Monja disse, “nós intersomos”.

Portanto, treinar corpo e mente significa também perceber as nossas expressões emocionais e a forma como estamos nos comunicando com o outro. Saúde não é só uma questão de forma corporal, de padrões de normalidade, de índices disso ou daquilo, saúde não é algo que se tem, saúde é algo que se conquista a partir da nossa capacidade de compor forças com o outro, rumo a um mundo melhor para todos.

A medida ética dos cuidados com o corpo e a saúde não está na quantidade de exercícios que destinamos para esse fim, mas no sentido e no significado que essa prática assume.

Alexandre Luzzi, Professor de Educação Física, coordena o espaço Tai Ken, especial para o Nota de Rodapé
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