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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 14 de junho de 2013
Agora é contra o Estado vândalo
por Moriti Neto ilustração Caco Bressane*
A repressão tão violenta da Polícia Militar, ontem, contra os manifestantes que protestam em São Paulo, está entre as ferramentas de uma luta ideológica. O movimento é ameaça política ao poder oficial, seja o governo estadual ou a prefeitura. A agressividade, obviamente, tem o objetivo de quebrar a mobilização.
Nosso modelo de Estado, em qualquer esfera de poder, existe para servir a burguesia, o poder econômico. Portanto, claro que sempre estará ao lado do capital que, no caso da situação hoje vivida na cidade de São Paulo, é representado pelas empresas que fornecem o péssimo serviço de transporte de ônibus, um dos setores mais nebulosos nas relações entre iniciativa privada e poder público.
Outro grande problema do aparelho estatal modelado do jeito que está é a única, de fato, flexibilidade permitida pelo formato: a possibilidade de forte inclinação à direita. Algo que torna viável a grupos de tendência fascista, como é o caso do liderado pelo governador paulista Geraldo Alckmin, acentuar o reacionarismo.
O uso do aparato de guerra visto nesta quinta é apenas um dos instrumentos usados contra quem desafia o poder conservador. A mídia corporativa, principalmente os patrões e articulistas que ecoam opiniões patronais, é outra parte do equipamento político-ideológico. E não porque reportem o discurso de uma classe. Eles pertencem a ela. Só que algo novo parece ter entrado em cena. A violência estatal generalizada e sem justificativa, já que a maioria dos manifestantes queria protesto pacífico, é puro revanchismo que, de maneira descontrolada, atingiu quem atua nos órgãos da grande mídia e até mesmo parcela da população que passava ao largo das reinvindicações.
O governo raivoso administrado por Geraldo Alckmin aproveitou-se, mais uma vez, (lembram-se do caso Pinherinho?) de uma instituição sem esperança de melhora. A Polícia Militar é organização que deseja briga, agressão, truculência, mesmo que o outro lado peça paz. Dessa forma, com a intenção de destruir o movimento politicamente por meio da força e do terror, estimula-se, na PM, o sentimento de vingança contra a mobilização que desafiou o poder oficial.
Só que quando se motiva um animal a ser violento, corre-se o risco de que ele se vire contra aquele que o treina. Foi o que atingiu os veículos de comunicação alinhados ao discurso tucano de lei e ordem, revoltando redações e mesmo parcelas mais comodistas da sociedade.
Agora, a luta tem tudo para crescer. Talvez, seja a oportunidade do povo de São Paulo entender que o protesto é maior do que um movimento contra aumento de passagem de ônibus. É disputa por ocupação de espaços conceituais e concretos, bem retratada na batalha pela avenida Paulista. Aos fascistas a serviço do poder econômico é fundamental não permitir a ocupação do "templo" do capital paulistano.
Isso é mesmo uma guerra. Cabe a quem deseja defender a democracia assumir papeis ativos.
Haddad imperdoável
Papel lamentável o do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, nessa história. Para quem se colocou como “o novo” na campanha eleitoral, foi arrogante ao não negociar com o movimento e não abrir espaços reais de diálogo. Além disso, demorou a condenar a ação da PM (que o prefeito poderia ter negociado para evitar), praticamente incorporando o argumento do governo do estado que busca criminalizar o movimento.
Aliás, muito representativo Haddad estar na Europa com Alckmin – defendendo candidatura a sei lá o quê, não importa no contexto – enquanto o clima esquentava aqui. Imperdoável.
*Moriti Neto, jornalista. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Pelos olhos de um cão (guia)
por Thiago Domenici ilustração Caco Bressane*
São oito da manhã de uma sexta-feira de abril. Àquela hora já passaram pela plataforma de embarque do metrô Palmeiras-Barra Funda, no sentido Corinthians-Itaquera, algumas milhares de pessoas. Na minha distração sonolenta, observando o vai e vem de uma escada rolante, o trem se aproximava. No mesmo momento, senti um solavanco leve nas costas.
Na esquiva instintiva, virei e topei um cego e seu cão-guia. Dei licença o mais rápido que pude, enquanto os dois, bem jovens, se falavam apressadamente sobre o destino. “Direita, para a plataforma de embarque”, pediu o rapaz, roupa social esportiva bem cortada. A cadela, uma beleza de labradora de pelo curto caramelo o olhava de soslaio como quem diz, “eu sei chefe, mas isso aqui tá uma bagunça”.
Com sua coleira adaptada para a situação, ela decifrou o caminho com seu jeitão apaixonante. O vagão lotou em segundos assim que a porta se abriu. Uma senhora pequena dessas com cara de avó, já sentada na cadeira azul clarinha – das que são reservadas por lei para idosos, grávidas, mulheres com crianças de colo e pessoas com deficiência – ficou confusa com aquele rapaz que, de surpresa, surgia com uma cachorra diante dela.
Após um vai não vai de segundos, ele solicitou com gentileza que ela sentasse na cadeira imediatamente ao lado, ao que foi atendido com um sorriso largo, benevolente, que diz tanta coisa sem dizer em verbo. Não tinha capricho nenhum naquele pedido, mas uma questão simples: quanto mais perto da saída, menos enrosco.
Acomodados, ele sacou do bolso um petisco que a cadela engoliu num piscar de olhos. Em seguida, ele fuçou um celular com teclado que puxou do bolso, colocou fones de ouvido brancos e se confortou ao som de alguma música que se iniciava. Na ligeireza habitué, o metrô corria pela estação Santa Cecília, a segunda da linha vermelha, a partir do nosso ponto de partida. Eu os observava de perto, num misto de admiração e encantamento.
Jogada no chão com seu focinho rente ao assoalho, ali no meio da passagem, com ar clássico de cachorro que deixa a gente babando e com vontade de fazer uma carícia, as pessoas desviavam de sua dócil cabeça, enquanto ela acompanhava com olhar de pouca importância.
Desci na estação República e os dois seguiram em frente. A cena ficou em mim. Coincidentemente, eu havia lido na Folha de S. Paulo no dia anterior um texto que dizia das dificuldades dos deficientes visuais em conseguir um anjo de quatro patas. Logo, conclui sem esforço, que a batalha foi árdua para aqueles dois estarem no metrô naquele dia.
***
De fato, somente 80 deficientes visuais têm cães-guia no país, num universo que, segundo o IBGE, passa dos 2 milhões. É uma dificuldade atender a demanda de quem deseja um companheiro de quatro patas. Primeiro, por ser muito custosa a formação e treinamento, em média entre 20 e 40 mil reais fora do país. E a maioria dos bichos vem justamente do exterior, principalmente dos EUA, pois aqui, diz a matéria da FSP, a formação esbarra “na falta de boas linhagens e treinamento correto”. Do que pesquisei, posso dizer que o trabalho de quem busca dar conformo ao deficiente visual por meio de um companheiro cão é louvável. As iniciativas, como em tantas outras questões que merecem atenção pública, vem dos particulares que se organizam.
Também é recente (de 2005) a Lei que “Dispõe sobre o direito do portador de deficiência visual de ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhado de cão-guia.” Ou seja, todo restaurante, shopping, teatro, supermercado, casa noturna e meio de transporte não pode negar acesso sob risco de multa.
Mas o que significa ter um cão-guia? A parte do fato de ajudar o cego a desviar de obstáculos, atravessar a rua com segurança, encontrar caminhos mais simples e dar, sobretudo, autonomia e liberdade, o bichano faz companhia – é amor que se constrói –, traz aprendizado e desperta sorrisos gratuitos.
Outra vantagem é em relação à bengala, pois o cão-guia ajuda a desviar de objetos que estão acima do chão. Um deficiente visual, numa declaração que pesquei na internet, explica que com a bengala ele tem domínio de um metro e meio à frente o que torna mais difícil perceber um orelhão ou um galho de árvore, por exemplo.
Paciência na fila de espera de uma ONG por tempo indeterminado, ou tentar comprar o cão em outro país é, por enquanto, o principal caminho. Essa espera, no entanto, no Instituto IRIS – De Responsabilidade e Inclusão Social, chega a 4 mil pessoas, todas na expectativa de voltar a enxergar pelos olhos de um cão.
***
E AOS INTERESSADOS: o site do Instituto IRIS, entidade sem fins lucrativos, fundada em 2002 em São Paulo, das poucas que trabalha na formação de cães-guia, traz mais detalhes sobre o assunto. A sua fundadora, a advogada Thays Martinez, também deficiente visual, contou sua experiência com o cão-guia Bóris no livro - e áudio livro - "Minha vida com Bóris". Bóris (que já faleceu) em 2004 foi o pioneiro ao abrir caminho na Justiça para deficientes visuais terem o direito de entrar no Metrô de São Paulo.
Além do IRIS, outro projeto, Cão Guia Brasil, treina cães para guiar pessoas com deficiência visual. E a escola de Cães Guia, Helen Keller, também está na rede. Para saber mais sobre deficiência visual vale se informar na Fundação Dorina Nowill para cegos.
*Thiago Domenici, jornalista, é editor e coordenador do Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto
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segunda-feira, 29 de abril de 2013
Último corujão
por Carlos Conte ilustração Caco Bressane*
Conhecem o último corujão da Lapa? Fica na rua Guaicurus, próximo ao Mercado, aonde eu ia com a minha avó fazer compras quando criança. De dia, o comércio popular fervilha, os estudantes indo e vindo, as padarias cheias, as lotéricas cuspindo filas de gente para as calçadas, os taxistas pitando e vendo TV no ponto. Mas é o sol baixar um pouco, as persianas vão se fechando, as portas metálicas ficam semicerradas, o povo nervoso quer espaço para voltar para casa, árvores escurecem o passeio e, daí pra frente, as almas descem às ruas pra dar suas bandas. Só permanecem abertas as pizzarias delivery e o bar do Silvinho, o último corujão do bairro da Lapa, certamente um dos últimos fecha-nunca da cidade.
A censura aos bares andou degolando muita gente nos últimos tempos. As multas são tão altas que a maioria vai à falência. Quando batem as dez da noite, todos os donos de bar de São Paulo tornam-se figuras preocupadas, ansiosas, com medo de servir. Põem a conta na mesa sem o cliente pedir, oferecem uma saideira, porque os vizinhos... ai, os vizinhos... lamentam-se. Só no Silvinho que não. Lá não existe Lei do Psiu e às dez a noite está apenas começando.
É por volta das sete e meia que as portas se levantam e só vão se fechar lá pelas seis da madrugada. Não se ouve falar de reclamação ou problema com a polícia. Pelo contrário. Os policiais acenam das viaturas fazendo ronda. E o Silvinho acena de volta. Seu sócio, o Lagarto, tem cara mesmo de lagarto, ou de crocodilo, com seu papo gordo e sua barriga inchada. Todos ali têm barriga inchada, como se estivessem de oito meses, a ponto de explodir.
Parece que o bar inteiro está assim: a ponto de explodir. A impressão é de que alguma coisa grave pode acontecer a qualquer momento. Respira-se sujeira nesse bar. O ar é impregnado de futum de fossa, de catinga de bueiro. Enquanto os barrigões se encostam, alguém bebe sozinho, triste. Dois bêbados, um deles usando um uniforme de funcionário da CET, o outro de jaqueta de couro, gastam todas as suas moedas ouvindo Zé Ramalho na jukebox. Na frente, alguns carros de luxo estacionados. Seus donos são sujeitos simpáticos, quase sempre calvos, morenos, cinquentões, que conversam entre si em roda, mas também interagem com o restante do pessoal. São os policiais civis, todos sabem. Os caras têm grana mas preferem beber no Silvinho. Não sei por que o bar do Silvinho virou o reduto dos policiais civis do bairro da Lapa. E dos bandidos também. A legião de jogadores ali tem salvo-conduto para entrar e sair quantas vezes quiser pela porta do salão dos fundos, onde ficam as maquininhas caça-níqueis, proibidas por lei. Também não se sentem constrangidos os que, em dupla, em trio ou em bando entram no banheiro para cheirar. Todo mundo sabe que é o motoboy da rua Fábia quem passa a farinha.
Um vendedor de frutas deixa o carrinho na calçada e pede Cynar com 51. Pedreiros e pintores tomam sua sopa em silêncio. Do balcão dá pra ver os caldeirões soltando vapor. O meu preferido é o caldo de piranha, que dizem ser afrodisíaco. Todos os vícios andam por lá. O bar do Silvinho é o refúgio da boêmia assustada da cidade. Bolos de dinheiro entram e saem pela porta a todo instante. Maços de notas de dez vão e vêm, maceradas pela agitação nervosa da noite.
Ali eu sempre encontro o Otávio, um amigo do meu falecido avô. Quando termina o expediente na cantina, onde trabalha há décadas como garçom, desce em direção ao Silvinho, mas fazendo o pinga-pinga de sempre nos botecos do itinerário. Chega com as mãos no bolso, de camisa branca de manga comprida, os cabelos amarelados penteados para trás com gel, a cara cheia de rugas. Cumprimenta um por um, conhecendo ou não, mostrando sua boca vazia de dentes, porém cheia de afeto. Tem dias em que o Otávio parece uma alma penada.
Enquanto isso, os jovens, não menos decadentes, ficam em pé na entrada, curvados, ou encostados nas paredes, de moletom, boné e calça jeans, bebendo litrão. A maioria dos bandidos (assaltantes, traficantes) está entre eles. Todos se conhecem. Há amigos de infância nessas rodas. Mesmo os estranhos são bem recebidos, porque podem ser conhecidos de alguém, não se sabe... Em lugares como o bar do Silvinho não se veem muitas confusões, porque pouca gente se arrisca a ver no que vai dar... De vez em quando o Silvinho ou o Lagarto é obrigado a tocar dali um beberrão inconveniente, e ainda assim o faz com naturalidade e delicadeza, que nem se percebe. Não tem brigas. Não tem gritos. Há um entendimento superficial, um acordo velado, nos cumprimentos, nas saudações, mas é impossível não sentir, no meio do vapor dos caldeirões e da fumaça dos cigarros, no último corujão da Lapa, vestígios de pólvora, sangue e crime.
* Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto
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quarta-feira, 17 de abril de 2013
Minicraque do Feliciano
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Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Em busca das cuecas ideais
Após um longo período de buscas e tentativas frustradas, aos trinta anos de idade, finalmente encontrei as cuecas ideais. E, antes que as leitoras se inquietem diante do assunto aparentemente fútil e desinteressante, adianto que essa não é, nem de longe, uma tarefa simples, nem sequer corriqueira.
Fosse pelo gosto feminino todos os homens usariam o mesmo tipo de cuecas: boxers pretas (cheguei a tal conclusão após uma exaustiva enquete em mesas de bar). Mas a verdade é que, do ponto de vista masculino (ao menos do meu) as boxers pretas estão longe de ser a embalagem ideal. Elas esquentam, apertam as pernas e embolam quando vestimos calças jeans. Portanto, fosse somente pelo conforto, continuaríamos eternamente apegados à boa e velha zorbinha de algodão, modelo “presente de vó”.
Como, contudo, nosso objetivo maior na passagem por este mundo é agradar as mulheres, buscamos alternativas. A que encontrei foi quase uma boxer preta. Mas por ser um pouco mais curta, não esquentava tanto nem embolava nas calças. Era de puro algodão, preta, elástico incorporado, com uma sutil lista cinza escura. Uma aparência sóbria, algo máscula, madura mas não senil e discretamente sexy (a depender do recheio, obviamente).
Comprei uma pra experimentar. E, após dois ou três turnos de test-drive, aprovei e fui aprovado pelo gosto feminino. Quinze dias depois voltei à loja e comprei logo mais três.
E por algum tempo vivi feliz e satisfeito com minhas roupas íntimas. Uma conquista e tanto, caras leitoras. Pensem na quantidade de pequenas tarefas e decisões cotidianas, como escolher cuecas. Pensem no tempo gasto com cada uma dessas semi-inutilidades. Pois então. Ao menos no quesito cuecas eu estava bem resolvido e não teria mais de me preocupar. Caminharia assim, com minhas boxers pretas um pouco mais curtas, quiçá até a derradeira velhice, quando, já despojado de qualquer vaidade, sucumbiria à samba-canção de seda.
Acontece que, após alguns meses, minhas cuecas ideais começaram a dar sinais de fadiga. Eu, obviamente, não tive dúvida. Voltei à mesma loja e fui certeiro até a parede coberta de modelos de todos os tipos, cores e tamanhos.
Mas, bastou correr a vista pelo mostruário para sentir uma pontada de angústia no peito. Não havia nenhum exemplar do meu modelo à mostra. Tudo bem, pensei comigo, devem ter se esgotado. Afinal, diante de tantos predicados, era de se esperar uma demanda acima da média. Certamente teriam peças em estoque, ou, na pior das hipóteses, mandariam buscar na fábrica.
Estava lá em pé, meio desolado, conduzindo este monólogo interno, quando um vendedor se aproximou oferecendo ajuda. – Estou procurando um modelo básico de algodão – expliquei, e verbalizei um retrato falado:
– preta um pouco mais curta do que a boxer, tem uma listrinha cinza no elástico.
O homem me encarou com ares de incompreensão. Olhou os modelos à mostra, perguntou se não era mesmo nenhum daqueles. – Não, claro que não, oras! Eu vou lá brincar com assunto tão importante, companheiro?
O homem finalmente viu que a coisa era séria e se condoeu diante da minha aflição. Foi até o computador, inseriu meu CPF e descobriu o modelo que eu havia comprado anteriormente, o modelo ideal, que havia resolvido de uma vez por todas minhas questões íntimo-estilísticas.
– Ah, essa nós paramos de fabricar – respondeu como se nada fosse.
Depois me ofereceu um modelo similar, feito de elastano, ou modal ou qualquer porcaria de tecido sintético. Imagine só, guardar partes tão importantes em um tecido que não sabemos realmente a composição e que, como quase tudo que não sabemos realmente a composição, deve ser altamente cancerígeno.
Olhei de novo para o sujeito agora cheio de raiva e indignação. Tudo bem que a profissão de vendedor de cuecas não deve ser das mais cobiçadas. Fosse vendedor de lingeries, certamente teria mais amor pela causa. Mas daí a nem sequer tomar conhecimento de que um dia, aquelas prateleiras ostentaram as cuecas ideias... Era demais pra mim.
E, novamente, me defendo das leitoras que por ventura vejam exagero ou ranhetice na minha indignação. A essas, explico que eu não me indignava apenas pelas cuecas. Me indignava porque ali estava o reflexo de todo o nosso desapreço pela memória. Do desrespeito histórico que tanto mal faz ao nosso povo e à nossa cultura. Mais um sinal do fenômeno que faz arranha-céus neoclássicos esmagarem nossas casinhas de vila, pagodes e sertanejos estupidificarem nossa música popular, fast-foods homogeneizarem nossa comida, chapinhas alisarem nossas mulatas...
Mas, que remédio. Não há como lutar contra as forças destruidoras do capital. Ou, nas palavras de Marx, tudo que é sólido desmancha no ar. Inclusive as cuecas.
Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Caco Bressane, especial para o texto
Fosse pelo gosto feminino todos os homens usariam o mesmo tipo de cuecas: boxers pretas (cheguei a tal conclusão após uma exaustiva enquete em mesas de bar). Mas a verdade é que, do ponto de vista masculino (ao menos do meu) as boxers pretas estão longe de ser a embalagem ideal. Elas esquentam, apertam as pernas e embolam quando vestimos calças jeans. Portanto, fosse somente pelo conforto, continuaríamos eternamente apegados à boa e velha zorbinha de algodão, modelo “presente de vó”.
Como, contudo, nosso objetivo maior na passagem por este mundo é agradar as mulheres, buscamos alternativas. A que encontrei foi quase uma boxer preta. Mas por ser um pouco mais curta, não esquentava tanto nem embolava nas calças. Era de puro algodão, preta, elástico incorporado, com uma sutil lista cinza escura. Uma aparência sóbria, algo máscula, madura mas não senil e discretamente sexy (a depender do recheio, obviamente).
Comprei uma pra experimentar. E, após dois ou três turnos de test-drive, aprovei e fui aprovado pelo gosto feminino. Quinze dias depois voltei à loja e comprei logo mais três.
E por algum tempo vivi feliz e satisfeito com minhas roupas íntimas. Uma conquista e tanto, caras leitoras. Pensem na quantidade de pequenas tarefas e decisões cotidianas, como escolher cuecas. Pensem no tempo gasto com cada uma dessas semi-inutilidades. Pois então. Ao menos no quesito cuecas eu estava bem resolvido e não teria mais de me preocupar. Caminharia assim, com minhas boxers pretas um pouco mais curtas, quiçá até a derradeira velhice, quando, já despojado de qualquer vaidade, sucumbiria à samba-canção de seda.
Acontece que, após alguns meses, minhas cuecas ideais começaram a dar sinais de fadiga. Eu, obviamente, não tive dúvida. Voltei à mesma loja e fui certeiro até a parede coberta de modelos de todos os tipos, cores e tamanhos.
Mas, bastou correr a vista pelo mostruário para sentir uma pontada de angústia no peito. Não havia nenhum exemplar do meu modelo à mostra. Tudo bem, pensei comigo, devem ter se esgotado. Afinal, diante de tantos predicados, era de se esperar uma demanda acima da média. Certamente teriam peças em estoque, ou, na pior das hipóteses, mandariam buscar na fábrica.
Estava lá em pé, meio desolado, conduzindo este monólogo interno, quando um vendedor se aproximou oferecendo ajuda. – Estou procurando um modelo básico de algodão – expliquei, e verbalizei um retrato falado:
– preta um pouco mais curta do que a boxer, tem uma listrinha cinza no elástico.
O homem me encarou com ares de incompreensão. Olhou os modelos à mostra, perguntou se não era mesmo nenhum daqueles. – Não, claro que não, oras! Eu vou lá brincar com assunto tão importante, companheiro?
O homem finalmente viu que a coisa era séria e se condoeu diante da minha aflição. Foi até o computador, inseriu meu CPF e descobriu o modelo que eu havia comprado anteriormente, o modelo ideal, que havia resolvido de uma vez por todas minhas questões íntimo-estilísticas.
– Ah, essa nós paramos de fabricar – respondeu como se nada fosse.
Depois me ofereceu um modelo similar, feito de elastano, ou modal ou qualquer porcaria de tecido sintético. Imagine só, guardar partes tão importantes em um tecido que não sabemos realmente a composição e que, como quase tudo que não sabemos realmente a composição, deve ser altamente cancerígeno.
Olhei de novo para o sujeito agora cheio de raiva e indignação. Tudo bem que a profissão de vendedor de cuecas não deve ser das mais cobiçadas. Fosse vendedor de lingeries, certamente teria mais amor pela causa. Mas daí a nem sequer tomar conhecimento de que um dia, aquelas prateleiras ostentaram as cuecas ideias... Era demais pra mim.
E, novamente, me defendo das leitoras que por ventura vejam exagero ou ranhetice na minha indignação. A essas, explico que eu não me indignava apenas pelas cuecas. Me indignava porque ali estava o reflexo de todo o nosso desapreço pela memória. Do desrespeito histórico que tanto mal faz ao nosso povo e à nossa cultura. Mais um sinal do fenômeno que faz arranha-céus neoclássicos esmagarem nossas casinhas de vila, pagodes e sertanejos estupidificarem nossa música popular, fast-foods homogeneizarem nossa comida, chapinhas alisarem nossas mulatas...
Mas, que remédio. Não há como lutar contra as forças destruidoras do capital. Ou, nas palavras de Marx, tudo que é sólido desmancha no ar. Inclusive as cuecas.
Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Caco Bressane, especial para o texto
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Mania de presente
Algumas semanas atrás, sentado na plateia para assistir a um show de homenagem aos 30 anos do disco “Bloco na Rua”, de Sérgio Sampaio, ouvi um comentário rápido que muito me fez pensar. O DJ Zé Pedro, ali ao meu lado, disse: “Velho, as coisas estão acontecendo! A gente é que não dá conta de acompanhar tudo”. No palco estavam Juliano Gauche, Tatá Aeroplano e Gustavo Galo. Ao menos na minha interpretação, Zé Pedro se referia a uma efervescência cultural e criativa na cena musical do país, e ao tanto de bons discos e shows a que temos acesso diariamente. Que fique claro: isso não excluí, de modo algum, o tanto de coisas ruins que também proliferam por aí.
Chegando ao fim do ano, neste último texto de 2012 da coluna Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor para tratar do que essa efervescência musical, aproveitando para, junto a isso, combater qualquer mania de passado. Se vou, aqui, listar vários nomes que vem a cabeça, de gente que está produzindo música boa atualmente, este texto não se propõe a fazer nenhum tipo de ranking de “melhores discos do ano” – como é usual nesta época de Papai Noel. Primeiro, porque ninguém dá conta de acompanhar tudo o que surge na música brasileira, o que já torna falha qualquer lista que se proponha “total”. Mas mais do que isso, porque música não é competição, não é feita no ringue; não tem primeiro, segundo e terceiro lugares. Música agrega, soma e multiplica, mesmo que possam existir rivalidades (por vezes tolas) neste meio.
Este texto, de saída, corre riscos. Talvez soe muito otimista; talvez pareça uma “visão parcial” das coisas, já que conheço alguns dos músicos que cito. Bom, seja como for, garanto que não perdi o senso crítico! E, além disso, é importante ressaltar: o manual de redação do Nota de Rodapé (ainda não redigido no papel...) não nos define como um blog “neutro, plural e apartidário”. Sabe esse papo? Então, deixemos o (falso) discurso da neutralidade para a grande mídia...
Bom, voltando. As coisas estão acontecendo. As coisas estão sempre acontecendo, claro, e não estou querendo dizer que os tempos de hoje são melhores ou piores que os de ontem. E se isso parece óbvio, não é tanto assim. Me lembro de, na adolescência, ficar lamentando por não ter vivido nos anos 60, 70 e 80, para poder ter visto ao vivo todos aqueles músicos que eu ouvia aos 15 anos. Sim, eu ainda gostaria de tê-los visto, mas a verdade é que também me satisfaz, e muito, o que temos para ver e ouvir hoje. Como escreveu Gil em “Era Nova”: “Novo tempo sempre se inaugura (...) O tempo que você perdeu, perdeu, não volta”.
Entre shows e discos de trabalhos brasileiros recentes (de 2011 para cá), adentraram meus tímpanos neste ano, e agradaram muito, os sons de Karina Buhr, Céu, Pélico, Romulo Fróes, Passo Torto, Tatá Aeroplano, Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Otto, Criolo, Emicida, Racionais, Metá Metá, Batuntã, Afroelectro, Peri Pane, Meno Del Picchia, Zafenate, Curumim, Gaby Amarantos, Los Sebosos Postizos, Herbert Vianna, Márcia Castro, Vintena Brasileira, Loungetude 46 e vários outros. Gente trabalhando com novas linguagens, se reapropriando de sonoridades ou dando continuidade a pesquisas antigas, mas sempre com ideias originais, conectadas aos nossos tempos de conectividade.
Um parênteses aqui. Eu diria também que, de diferentes modos, é gente com muita coisa a dizer, ao contrário do que escreveu Pedro Alexandre Sanches em um texto recente na revista Caros Amigos. Falando sobre a cidade de São Paulo ele argumentou que os músicos do lado de lá do rio (na maioria rappers de origem humilde) tem muito a dizer, enquanto as pessoas do lado de cá do rio não. Pois bem, esse assunto renderia páginas, mas só digo, de passagem, que ter algo a dizer não é apenas fazer música de protesto, nem tem relação direta com classe social – isso seria uma visão muito rasa de arte.
E nesse ponto lembro de algo que Tom Zé me disse em entrevista nesse ano, quando perguntado sobre suas parcerias com Mallu Magalhães, Pélico, Emicida e Rodrigo Amarante: “Digamos que, assim como eu vi o tropicalismo apontar setas para o futuro – não só na profissão de músico, mas em todas as áreas –, eu vejo nesses músicos novos que chegaram perto de mim uma grande capacidade de crítica, de visão. Acho que quando estivermos diante da terceira revolução industrial, com todos os problemas que devem vir, a gente vai precisar no Brasil que os artistas produzam massa mental para fazer frente à essa novidade. Aí, quando eu vejo esses artistas novos, eu penso: pode ter jeito, porque esses caras são de foder! Quer dizer, acho que a música dará sua contribuição.”
Pois bem, aproveitando a referência a Tom Zé, entramos aqui em um outro aspecto fundamental disso que chamo de “efervescência atual”: ela não se refere nem a um único estilo musical, nem a uma geração “etária” específica, mas ao momento em que nós vivemos em sentido mais amplo. Ter 20 ou 80 anos não inclui ou exclui ninguém. E os novos trabalhos de Tom Zé, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gal Costa, por exemplo, mostram que modernidade nada tem a ver com idade. São CDs que dão passos à frente e nos instigam a pensar o futuro da música popular brasileira.
Esses trabalhos mostram também como é grande o diálogo entre as gerações. Além de Tom Zé, com os participantes que citei, basta pensar que a banda de Caetano é formada por três jovens (dois deles do grupo Do Amor), que Gal gravou com Kassin e Moreno Veloso e que vários dos novos artistas tem trazido participações de músicos com longa estrada em seus discos e shows: Tulipa com Lulu Santos, Pitanga em Pé de Amora com Mônica Salmaso, Garotas Suecas com Elza Soares, Karina Buhr com Edgar Scandurra, Peri Pane com Alzira E., O Terno com Abujamra, Léo Cavalcanti com Arnaldo Antunes, Cinco à Seco com Lenine e Chico César etc., etc., etc.
Alguns podem argumentar que sempre foi assim, que as gerações sempre dialogaram. Certamente, mas parece que, de fato, há uma notável abertura neste momento por parte dos músicos consagrados para olhar para artistas novos e independentes. E no caso atual, não parece haver por trás disso nenhum grande interesse comercial, o que poderia explicar esses tipos de relação; pois não são gravadoras ou empresários incentivando as parcerias; a troca parece, mesmo, artística.
Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo. E, mesmo que seja melhor não ser “maníaco”, prefiro ter “mania” de presente do que de passado. É hoje que estamos vivendo. Acabo o texto, assim, citando algumas palavras do grande Belchior, consagradas na voz de Elis Regina: “Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando. Mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem”. E a música brasileira nos dá boas perspectivas de futuro: que venha 2013!
Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto
Chegando ao fim do ano, neste último texto de 2012 da coluna Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor para tratar do que essa efervescência musical, aproveitando para, junto a isso, combater qualquer mania de passado. Se vou, aqui, listar vários nomes que vem a cabeça, de gente que está produzindo música boa atualmente, este texto não se propõe a fazer nenhum tipo de ranking de “melhores discos do ano” – como é usual nesta época de Papai Noel. Primeiro, porque ninguém dá conta de acompanhar tudo o que surge na música brasileira, o que já torna falha qualquer lista que se proponha “total”. Mas mais do que isso, porque música não é competição, não é feita no ringue; não tem primeiro, segundo e terceiro lugares. Música agrega, soma e multiplica, mesmo que possam existir rivalidades (por vezes tolas) neste meio.
Este texto, de saída, corre riscos. Talvez soe muito otimista; talvez pareça uma “visão parcial” das coisas, já que conheço alguns dos músicos que cito. Bom, seja como for, garanto que não perdi o senso crítico! E, além disso, é importante ressaltar: o manual de redação do Nota de Rodapé (ainda não redigido no papel...) não nos define como um blog “neutro, plural e apartidário”. Sabe esse papo? Então, deixemos o (falso) discurso da neutralidade para a grande mídia...
Bom, voltando. As coisas estão acontecendo. As coisas estão sempre acontecendo, claro, e não estou querendo dizer que os tempos de hoje são melhores ou piores que os de ontem. E se isso parece óbvio, não é tanto assim. Me lembro de, na adolescência, ficar lamentando por não ter vivido nos anos 60, 70 e 80, para poder ter visto ao vivo todos aqueles músicos que eu ouvia aos 15 anos. Sim, eu ainda gostaria de tê-los visto, mas a verdade é que também me satisfaz, e muito, o que temos para ver e ouvir hoje. Como escreveu Gil em “Era Nova”: “Novo tempo sempre se inaugura (...) O tempo que você perdeu, perdeu, não volta”.
Entre shows e discos de trabalhos brasileiros recentes (de 2011 para cá), adentraram meus tímpanos neste ano, e agradaram muito, os sons de Karina Buhr, Céu, Pélico, Romulo Fróes, Passo Torto, Tatá Aeroplano, Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Otto, Criolo, Emicida, Racionais, Metá Metá, Batuntã, Afroelectro, Peri Pane, Meno Del Picchia, Zafenate, Curumim, Gaby Amarantos, Los Sebosos Postizos, Herbert Vianna, Márcia Castro, Vintena Brasileira, Loungetude 46 e vários outros. Gente trabalhando com novas linguagens, se reapropriando de sonoridades ou dando continuidade a pesquisas antigas, mas sempre com ideias originais, conectadas aos nossos tempos de conectividade.
Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo.
Um parênteses aqui. Eu diria também que, de diferentes modos, é gente com muita coisa a dizer, ao contrário do que escreveu Pedro Alexandre Sanches em um texto recente na revista Caros Amigos. Falando sobre a cidade de São Paulo ele argumentou que os músicos do lado de lá do rio (na maioria rappers de origem humilde) tem muito a dizer, enquanto as pessoas do lado de cá do rio não. Pois bem, esse assunto renderia páginas, mas só digo, de passagem, que ter algo a dizer não é apenas fazer música de protesto, nem tem relação direta com classe social – isso seria uma visão muito rasa de arte.
E nesse ponto lembro de algo que Tom Zé me disse em entrevista nesse ano, quando perguntado sobre suas parcerias com Mallu Magalhães, Pélico, Emicida e Rodrigo Amarante: “Digamos que, assim como eu vi o tropicalismo apontar setas para o futuro – não só na profissão de músico, mas em todas as áreas –, eu vejo nesses músicos novos que chegaram perto de mim uma grande capacidade de crítica, de visão. Acho que quando estivermos diante da terceira revolução industrial, com todos os problemas que devem vir, a gente vai precisar no Brasil que os artistas produzam massa mental para fazer frente à essa novidade. Aí, quando eu vejo esses artistas novos, eu penso: pode ter jeito, porque esses caras são de foder! Quer dizer, acho que a música dará sua contribuição.”
Pois bem, aproveitando a referência a Tom Zé, entramos aqui em um outro aspecto fundamental disso que chamo de “efervescência atual”: ela não se refere nem a um único estilo musical, nem a uma geração “etária” específica, mas ao momento em que nós vivemos em sentido mais amplo. Ter 20 ou 80 anos não inclui ou exclui ninguém. E os novos trabalhos de Tom Zé, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gal Costa, por exemplo, mostram que modernidade nada tem a ver com idade. São CDs que dão passos à frente e nos instigam a pensar o futuro da música popular brasileira.
Esses trabalhos mostram também como é grande o diálogo entre as gerações. Além de Tom Zé, com os participantes que citei, basta pensar que a banda de Caetano é formada por três jovens (dois deles do grupo Do Amor), que Gal gravou com Kassin e Moreno Veloso e que vários dos novos artistas tem trazido participações de músicos com longa estrada em seus discos e shows: Tulipa com Lulu Santos, Pitanga em Pé de Amora com Mônica Salmaso, Garotas Suecas com Elza Soares, Karina Buhr com Edgar Scandurra, Peri Pane com Alzira E., O Terno com Abujamra, Léo Cavalcanti com Arnaldo Antunes, Cinco à Seco com Lenine e Chico César etc., etc., etc.
Alguns podem argumentar que sempre foi assim, que as gerações sempre dialogaram. Certamente, mas parece que, de fato, há uma notável abertura neste momento por parte dos músicos consagrados para olhar para artistas novos e independentes. E no caso atual, não parece haver por trás disso nenhum grande interesse comercial, o que poderia explicar esses tipos de relação; pois não são gravadoras ou empresários incentivando as parcerias; a troca parece, mesmo, artística.
Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo. E, mesmo que seja melhor não ser “maníaco”, prefiro ter “mania” de presente do que de passado. É hoje que estamos vivendo. Acabo o texto, assim, citando algumas palavras do grande Belchior, consagradas na voz de Elis Regina: “Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando. Mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem”. E a música brasileira nos dá boas perspectivas de futuro: que venha 2013!
Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto
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sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Capoeira, o corpo pensa
O mês de novembro é bastante significativo para pensarmos os rumos das relações de poder dentro da nossa sociedade por dois motivos: o primeiro, por conta do dia da Consciência Negra. O segundo, por se comemorar hoje o nascimento de Manoel dos Reis Machado, o famoso mestre Bimba, grande propulsor da capoeira no Brasil, manifestação cultural que pode ser considerada a expressão da ironia do negro no país.
Há mais de quinze anos, me dedico a esse ritual de jogar capoeira e reconheço que um dos grandes falseamentos do homem moderno é o desprezo pelo corpo e a hipervalorização do pensamento e da consciência.
O que isso significa? Basta olharmos para os templos da atualidade – as academias – para nos depararmos com legiões de corpos hiperestimulados, num verdadeiro culto à forma física.
A questão a ser discutida aqui, caro leitor, é justamente essa “forma”. Na verdade, não valorizamos o corpo em si, mas sim uma ideia de forma corporal. Um padrão idealizado e imposto por uma cultura que despreza o risco, a vulnerabilidade, o que envelhece e tudo aquilo que nos remete a nossa humanidade.
Como educador físico, eu faria um esforço para convencê-los de que o esporte ocidental – onde incluo as atividades em academias – se caracteriza por um conjunto de técnicas que levarão o praticante a desenvolver capacidades físicas e um corpo quase invencível, forte, flexível, belo, com uma boa postura e um ótimo tônus muscular.
O problema nessa concepção, na visão de Muniz Sodré, por exemplo, é que ela “mantém a separação entre corpo e espírito, ambos em uma mútua relação agressiva.” Sodré diz ainda que a institucionalização do esporte “termina imbuído do mesmo espírito competitivo vigente nas relações de produção dominantes”.
Como capoeirista afirmo: antes de ser um esporte, a capoeira sempre foi jogo, ou seja, linguagem não conceitual de gestos, imagens e cantos, onde o corpo ganha centralidade. Mas que corpo é esse? Qual é a diferença?
O corpo na capoeira é um corpo que se assume emocional, pulsional e falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai, se leva rasteira, quem nunca caiu não é capoeira”.
Um bom capoeira assume o risco como condição primeira de um bom jogo e joga com, nunca contra. Uma das características fundamentais do jogo é o diálogo, expressão corporal simbólica da dor, da alegria, da agressividade, da sensualidade, do ataque, da defesa, do encontro.
Na capoeira não há tempo para a dualidade corpo/mente, nela o movimento se torna pensamento em ação e o pensamento é já uma ação em movimento. Mestre Camisa, do alto de sua sabedoria, brinca: “na capoeira não pode pensar para dar o golpe e nem dar o golpe sem pensar”.
A capoeira pode ser vivenciada como uma forma autêntica de exercício em busca da liberdade, onde os elementos de criatividade artística, o improviso, a surpresa e a malícia são ingredientes fundamentais. É um jogo de desequilíbrio e de desconstrução dos rígidos padrões corporais ocidentais, padrões esses que engessam o corpo em formas vendidas por uma sociedade mercadológica.
Enfim, jogar capoeira pode ser considerado uma ação eminentemente política. Axé!
Alexandre Luzzi, Professor de Educação Física, capoeirista, coordena o espaço Tai Ken, especial para o Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, especial para o texto.
Há mais de quinze anos, me dedico a esse ritual de jogar capoeira e reconheço que um dos grandes falseamentos do homem moderno é o desprezo pelo corpo e a hipervalorização do pensamento e da consciência.
O que isso significa? Basta olharmos para os templos da atualidade – as academias – para nos depararmos com legiões de corpos hiperestimulados, num verdadeiro culto à forma física.
A questão a ser discutida aqui, caro leitor, é justamente essa “forma”. Na verdade, não valorizamos o corpo em si, mas sim uma ideia de forma corporal. Um padrão idealizado e imposto por uma cultura que despreza o risco, a vulnerabilidade, o que envelhece e tudo aquilo que nos remete a nossa humanidade.
Como educador físico, eu faria um esforço para convencê-los de que o esporte ocidental – onde incluo as atividades em academias – se caracteriza por um conjunto de técnicas que levarão o praticante a desenvolver capacidades físicas e um corpo quase invencível, forte, flexível, belo, com uma boa postura e um ótimo tônus muscular.
O corpo na capoeira é um corpo que se assumi emocional, pulsional e falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai se leva rasteira, quem nunca caiu não é capoeira”.
O problema nessa concepção, na visão de Muniz Sodré, por exemplo, é que ela “mantém a separação entre corpo e espírito, ambos em uma mútua relação agressiva.” Sodré diz ainda que a institucionalização do esporte “termina imbuído do mesmo espírito competitivo vigente nas relações de produção dominantes”.
Como capoeirista afirmo: antes de ser um esporte, a capoeira sempre foi jogo, ou seja, linguagem não conceitual de gestos, imagens e cantos, onde o corpo ganha centralidade. Mas que corpo é esse? Qual é a diferença?
O corpo na capoeira é um corpo que se assume emocional, pulsional e falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai, se leva rasteira, quem nunca caiu não é capoeira”.
Um bom capoeira assume o risco como condição primeira de um bom jogo e joga com, nunca contra. Uma das características fundamentais do jogo é o diálogo, expressão corporal simbólica da dor, da alegria, da agressividade, da sensualidade, do ataque, da defesa, do encontro.
Na capoeira não há tempo para a dualidade corpo/mente, nela o movimento se torna pensamento em ação e o pensamento é já uma ação em movimento. Mestre Camisa, do alto de sua sabedoria, brinca: “na capoeira não pode pensar para dar o golpe e nem dar o golpe sem pensar”.
A capoeira pode ser vivenciada como uma forma autêntica de exercício em busca da liberdade, onde os elementos de criatividade artística, o improviso, a surpresa e a malícia são ingredientes fundamentais. É um jogo de desequilíbrio e de desconstrução dos rígidos padrões corporais ocidentais, padrões esses que engessam o corpo em formas vendidas por uma sociedade mercadológica.
Enfim, jogar capoeira pode ser considerado uma ação eminentemente política. Axé!
Alexandre Luzzi, Professor de Educação Física, capoeirista, coordena o espaço Tai Ken, especial para o Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, especial para o texto.
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quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Profissão mesário
Com o nome “Verbo Sonoro”, esta coluna se propõe a falar, de modo geral, sobre música e outros assuntos culturais. Em época de eleições, no entanto, abrimos uma exceção: a trilha sonora de hoje é o agudo apito da urna eletrônica; aquele que foi repetido seguidamente nos tímpanos dos mesários das 8h às 17h no último domingo.
Para o eleitor, talvez exista até algum tipo de prazer ao ouvir o “barulhinho” após olhar para a foto do candidato e apertar “confirma”. Mas para quem passa o dia sentado ao lado da máquina – meu caso –, a coisa é um pouco diferente...
Mas sem problemas; este texto não pretende ser uma reclamação mimada por um dia a mais ou a menos de trabalho. Pretende apenas ser um breve relato do dia mais especial (profissionalmente falando) na vida destes cidadãos (os mesários) escolhidos, entre tantos, para uma função tão importante para a democracia.
PELA SEXTA VEZ
Domingo, dia 7, primeiro turno das Eleições Municipais. Ainda cedo, na porta da sala de aula, um simpático eleitor me vê e diz: “Eu te conheço de algum lugar!”. E eu: “Sim senhor, daqui mesmo, das últimas cinco eleições...”.
Sim, já estive sentado naquela sala do colégio Objetivo, na rua Teodoro Sampaio, em 2004, 2005 (plebiscito), 2006, 2008, 2010 e, agora, em 2012. Nestas últimas duas, inclusive, como presidente de mesa. Como disse um amigo meu, fui reeleito para o cargo (provavelmente o único de presidência que terei na vida).
Cabe aqui um pequeno parênteses. Está definido em lei que a obrigatoriedade, para os convocados, é de trabalhar em apenas quatro eleições. Quando fui protestar da última convocação no cartório, tive a seguinte resposta da secretária: “Só temos registrado aqui que você trabalhou nas últimas três eleições. Nosso sistema foi trocado em 2005, talvez seja por isso”. E por fim: “Eu acredito em você, mas não há nada que eu possa fazer”.
O DIA DA FESTA
Bom, voltemos. Domingo, dia 7, às 6h da manhã, de pé, após uma noitada no Espaço das Américas para ver o show de 30 anos dos Titãs. Ao meu lado, aliás, ali na pista do show, estava o candidato Fernando Haddad, do PT, certamente tentando relaxar um pouco na véspera da votação. Ele cantava alto, como que perguntando sobre seu próprio futuro: “É cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais?”.
Sim, sim, domingo... Desço do carro na Teodoro e caminho por cima dos milhares de santinhos jogados pelas ruas. Entre os nomes espalhados pelo chão (é importante dizer), pude ver os de: Fátima Barreira, Souza Santos, Dr. Augusto, Ricardo Teixeira, Eduardo Sanazar, Chico Valente e Helena Cabeleireira. Nenhum deles foi eleito. Talvez o método de campanha de poluir as ruas com santinhos já não seja mais tão eficiente.
A partir daí, 7h da manhã na seção número 141, o mesmo processo de sempre: cumprimentar os fiscais; imprimir a zerésima – que comprova que a urna não está corrompida –; assinar os papeis; definir o horário de almoço etc. Sob a minha presidência, organizar o horário de almoço é uma das prioridades, pelo bem-estar geral dos mesários.
VOSSA EXCELÊNCIA, O ELEITOR
Ali naquela sala, aparece todo tipo de gente. Ser mesário --usando uma expressão bem clichê, mas verdadeira –, é uma experiência quase “antropológica”. Às 8h forma-se a primeira grande fila. Misturam-se os mais idosos com alguns jovens virados da balada, claramente “pilhados” pelo uso de aditivos. Praticam o melhor voto: o voto inconsciente.
Lá pelas 10h da manhã, como em todos os anos, chega o casal mais simpático daquela seção. Ela, nascida em 1917, com seus 95 anos; ele, de 1924, com 88 --fazem questão de votar, mesmo sem precisar. Quase 70 anos depois de ter que escolher entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes, em 1945, escolhem agora entre Serra, Haddad, Russomanno ou, sabe-se lá, Soninha e Giannazi.
Na seção 141, o tempo passa devagar. Faz falta uma televisãozinha para assistir o clássico Barça e Real Madrid. Entram e saem jovens e velhos, pais com crianças --algumas felizes, outras transtornadas por terem que entrar em uma sala de aula em pleno domingo--, senhores engravatados e, ainda nos dias de hoje, alguns poucos analfabetos.
APURAÇÃO
É curioso ver o jeito como os eleitores olham para os mesários. Um misto de pena (por não estarmos curtindo um churrasco de domingo) e respeito. Em geral, são simpáticos. “Parabéns para vocês”, disse um homem de uns 50 anos. E outro: “Tá legal aí garotada?”.
No fim do dia, às 17h, encerra-se a sessão. Nós, mesários, sempre ocupados em “servir” os eleitores, não podemos nos esquecer de votar antes disso. Mesário também vota! – no meu caso, na mesma sala em que trabalho.
Ao fim temos que imprimir cinco vias do Boletim de Urna, com o número de votos que cada candidato teve naquela seção. Resultado: 179 para Serra, 59 para Haddad, 38 para Chalita e menos de 20 para Russomanno. Em concordância absoluta com o mapa de votos da cidade divulgado mais tarde, onde as áreas ricas da cidade são território tucano.
No dia 7, portanto, nenhum incidente grave na sessão 141, no Colégio Objetivo da Teodoro Sampaio. Nenhum eleitor quebrando a urna, como aconteceu em outros lugares; nenhum candidato posando para fotos. Apenas os eleitores comuns – até hoje obrigados a votar – e nós, mesários – obrigados a trabalhar pela democracia.
Dia 28 tem mais. Mais apitinho agudo no ouvido.
Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto
Para o eleitor, talvez exista até algum tipo de prazer ao ouvir o “barulhinho” após olhar para a foto do candidato e apertar “confirma”. Mas para quem passa o dia sentado ao lado da máquina – meu caso –, a coisa é um pouco diferente...
Mas sem problemas; este texto não pretende ser uma reclamação mimada por um dia a mais ou a menos de trabalho. Pretende apenas ser um breve relato do dia mais especial (profissionalmente falando) na vida destes cidadãos (os mesários) escolhidos, entre tantos, para uma função tão importante para a democracia.
PELA SEXTA VEZ
Domingo, dia 7, primeiro turno das Eleições Municipais. Ainda cedo, na porta da sala de aula, um simpático eleitor me vê e diz: “Eu te conheço de algum lugar!”. E eu: “Sim senhor, daqui mesmo, das últimas cinco eleições...”.
Sim, já estive sentado naquela sala do colégio Objetivo, na rua Teodoro Sampaio, em 2004, 2005 (plebiscito), 2006, 2008, 2010 e, agora, em 2012. Nestas últimas duas, inclusive, como presidente de mesa. Como disse um amigo meu, fui reeleito para o cargo (provavelmente o único de presidência que terei na vida).
Cabe aqui um pequeno parênteses. Está definido em lei que a obrigatoriedade, para os convocados, é de trabalhar em apenas quatro eleições. Quando fui protestar da última convocação no cartório, tive a seguinte resposta da secretária: “Só temos registrado aqui que você trabalhou nas últimas três eleições. Nosso sistema foi trocado em 2005, talvez seja por isso”. E por fim: “Eu acredito em você, mas não há nada que eu possa fazer”.
O DIA DA FESTA
Bom, voltemos. Domingo, dia 7, às 6h da manhã, de pé, após uma noitada no Espaço das Américas para ver o show de 30 anos dos Titãs. Ao meu lado, aliás, ali na pista do show, estava o candidato Fernando Haddad, do PT, certamente tentando relaxar um pouco na véspera da votação. Ele cantava alto, como que perguntando sobre seu próprio futuro: “É cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais?”.
Sim, sim, domingo... Desço do carro na Teodoro e caminho por cima dos milhares de santinhos jogados pelas ruas. Entre os nomes espalhados pelo chão (é importante dizer), pude ver os de: Fátima Barreira, Souza Santos, Dr. Augusto, Ricardo Teixeira, Eduardo Sanazar, Chico Valente e Helena Cabeleireira. Nenhum deles foi eleito. Talvez o método de campanha de poluir as ruas com santinhos já não seja mais tão eficiente.
A partir daí, 7h da manhã na seção número 141, o mesmo processo de sempre: cumprimentar os fiscais; imprimir a zerésima – que comprova que a urna não está corrompida –; assinar os papeis; definir o horário de almoço etc. Sob a minha presidência, organizar o horário de almoço é uma das prioridades, pelo bem-estar geral dos mesários.
VOSSA EXCELÊNCIA, O ELEITOR
Ali naquela sala, aparece todo tipo de gente. Ser mesário --usando uma expressão bem clichê, mas verdadeira –, é uma experiência quase “antropológica”. Às 8h forma-se a primeira grande fila. Misturam-se os mais idosos com alguns jovens virados da balada, claramente “pilhados” pelo uso de aditivos. Praticam o melhor voto: o voto inconsciente.
Lá pelas 10h da manhã, como em todos os anos, chega o casal mais simpático daquela seção. Ela, nascida em 1917, com seus 95 anos; ele, de 1924, com 88 --fazem questão de votar, mesmo sem precisar. Quase 70 anos depois de ter que escolher entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes, em 1945, escolhem agora entre Serra, Haddad, Russomanno ou, sabe-se lá, Soninha e Giannazi.
Na seção 141, o tempo passa devagar. Faz falta uma televisãozinha para assistir o clássico Barça e Real Madrid. Entram e saem jovens e velhos, pais com crianças --algumas felizes, outras transtornadas por terem que entrar em uma sala de aula em pleno domingo--, senhores engravatados e, ainda nos dias de hoje, alguns poucos analfabetos.
APURAÇÃO
É curioso ver o jeito como os eleitores olham para os mesários. Um misto de pena (por não estarmos curtindo um churrasco de domingo) e respeito. Em geral, são simpáticos. “Parabéns para vocês”, disse um homem de uns 50 anos. E outro: “Tá legal aí garotada?”.
No fim do dia, às 17h, encerra-se a sessão. Nós, mesários, sempre ocupados em “servir” os eleitores, não podemos nos esquecer de votar antes disso. Mesário também vota! – no meu caso, na mesma sala em que trabalho.
Ao fim temos que imprimir cinco vias do Boletim de Urna, com o número de votos que cada candidato teve naquela seção. Resultado: 179 para Serra, 59 para Haddad, 38 para Chalita e menos de 20 para Russomanno. Em concordância absoluta com o mapa de votos da cidade divulgado mais tarde, onde as áreas ricas da cidade são território tucano.
No dia 7, portanto, nenhum incidente grave na sessão 141, no Colégio Objetivo da Teodoro Sampaio. Nenhum eleitor quebrando a urna, como aconteceu em outros lugares; nenhum candidato posando para fotos. Apenas os eleitores comuns – até hoje obrigados a votar – e nós, mesários – obrigados a trabalhar pela democracia.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Chama o síndico
Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Vladimir Herzog: morte matada não é morte morrida
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Minicraques da política #4
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quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Minicraques da política #3 (Russomanno-Serra-Haddad)
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Assim caminha a especulação
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quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Minicraques da Política #2 (Edição de Colecionador)
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quarta-feira, 22 de agosto de 2012
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Minicraques da Política # 1
sábado, 9 de junho de 2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Dedo na ferida
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
domingo, 4 de dezembro de 2011
Socrátes Brasileiro
Sócrates Brasileiro
(Zé miguel Wisnick)
sócrates brasileiro sampaio de souza vieira de oliveira
deu um pique filosófico ao nosso futebol
o sol caiu sobre a grama e se partiu
em cacos de cristais
as cores vestiram os nomes
e fez-se a luta entre os homens
até os apitos finais
a história não esquece que a bola se negou
mas chorou nosso gol
e vai se lembrar para sempre da beleza
que nada derrotou
mas quem será que diz quem venceu
no país em que o ouro se ganhou e perdeu?
(derreteu)
o futebol é a quadratura do circo
é o biscoito fino que fabrico
é o pão e o rito o gozo o grito o gol
salve aquele que desempenhou
e entre a anemia a esperança
a loteria e o leite das crianças
se jogou
com destino e elegância dançarino pensador
sócio da filosofia da cerveja e do suor
ao tocar de calcanhar o nosso fraco a nossa dor
viu um lance no vazio
herói civilizador
(o doutor)
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