Terminando esta pintura, logo atrás de mim aparece uma senhora. Uma senhora muito vivida, com um tom bem baixo e doce de voz.
Chafiá, um nome difícil, segundo ela, de família árabe. Dona Chafiá, 86 anos, comentou que observou a pintura inteira pela sacada que levou 2 tardes para ser finalizada. Quando, então, finalmente tomou coragem para descer. Disse que eu tenho um dom, o dom da arte, arte que pode transformar o mundo, disse ainda que o mundo estava naquela parede. Chafiá gostaria que eu fosse o neto dela, comentou. Assim assenti afirmando que eu poderia ser.
Após o papo ela saiu e fiquei pensando que devia algo em troca de todos os comentários que senhora tão querida me ofereceu. Lembrei que tinha o rascunho do meu desenho, um pouco sujo e amassado, mas bacana. Peguei uma caneta e dediquei:
"Chafiá, obrigado pelo incentivo e pelas palavras bonitas que me arremessou.Com carinho, do teu neto - Kino 23".
*Kelvin Koubik, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
Acontece que ele era baiano. Da Bahia, da praia de Itapuã, de Maracangalha, da lagoa escura do Abaeté, da ladeira do Bonfim, dos balangandãs e do samba que quando se canta todo mundo bole. Dorival Caymmi, que, a despeito do grande talento com tintas e pincéis – era um exímio pintor –, entrou para história da cultura brasileira como um dos mais geniais compositores do século XX. Criador de uma obra única, sem antecedentes nem sucessores, cantou, tocou – com seu violão – e registou, para a eternidade, o cancioneiro da Bahia.
Suas músicas são atemporais. Verdadeiras pérolas, que parecem brotadas da terra, ou trazidas à terra pelo sopro dos ventos que conduzem as embarcações no mar. Expressões divinas, lapidadas pela paciência dolente de um ourives das melodias e palavras, porta-voz de um lugar, uma época, um viver, que só a Bahia tem.
Caymmi observava a vida pelas janelas, tinha a sensibilidade para criar, sem pressa, em forma de música, cenas cotidianas que o cativavam – e compunha letra e melodia, de uma vez, sem necessidade do acompanhamento do violão. Demorava anos, às vezes décadas, para terminar as composições. Quando deixou a Bahia, e se mudou para o Rio de Janeiro, levou um caderno cheio de músicas iniciadas, que foram concluídas sob o sopro de outros mares, das águas da Guanabara.
Tinha por convicção que a verdadeira música popular era aquela feita para os garis, os pedreiros, as lavadeiras e os pescadores cantarem. Seu sonho era criar canções que se incorporassem ao imaginário, ao folclore popular dos brasileiros. Considerando que a expressão “quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé” virou ditado popular, e que suas canções praieiras se incorporam ao cancioneiro do povo brasileiro, pode se dizer que Caymmi alcançou seu objetivo.
Além das canções praieiras, que distinguem o compositor de todos os outros criadores de melodias e versos da história da música popular brasileira, a obra caymmiana possui outras três vertentes: os temas baseados no folclore, os sambas “sacudidos, corridinhos, mexidinhos” (como ele os definia) – influenciados pelo samba de roda local –, e os sambas-canções, urbanos, cariocas.
Suas influências são os sons que vinham das ruas soteropolitanas, a nascente música popular – que tinha em Sinhô, nos anos 20, seu máximo expoente –, além de compositores como Debussy, Fauré, Mozart, Bach e Gershwin. Atento às expressões do folclore, nutriu-se também da literatura de Drummond, Neruda, Bandeira e daquele que viria a ser um de seus grandes amigos, Jorge Amado.
grandes amigos: Jorge Amado e Caymmi
Desse balaio de influências e vivências, o que o marcou, de forma indelével, foi o mar. De fato, em sua obra, são muito celebradas as canções praieiras, clássicos absolutos de nossa música. Composições como ”O mar”, “É doce morrer no mar”, “Quem vem pra beira do mar”, “A jangada voltou só” e “Saudade de Itapoã” são sempre lembradas quando falamos de Caymmi. Seus sambas, no entanto, merecem uma análise à parte. Influenciados pelo samba de roda, vertente baiana do gênero que se espalhou pelo Brasil e ganhou cores particulares em cada pedaço de nosso país, Caymmi criou um samba só dele. Sacudido. Corridinho. Mexidinho. “Quando se canta, todo mundo bole”
Dorival Caymmi brinca com as palavras, encaixando-as nas melodias de forma buliçosa, dando um andamento “corridinho” aos sambas que fez. “Quando você se requebrar, caia por cima de mim, caia por cima de mim, caia por cima de mim”. Diferente do uso constante da síncope, que caracteriza o samba carioca, o samba baiano, que o compositor se nutriu, é o samba de mote e glosa, com estribilhos fortes, que pedem resposta do côro. “Lá tem vatapá. Então vá! Lá tem caruru. Então vá! Lá tem munguzá. Então vá! Se quiser sambar. Então vá!”
Quando chegou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1938, Caymmi já havia desenvolvido muitos de seus sambas. Chegou para fazer história, ingressando, com destaque, na Era de Ouro da música brasileira, iniciada em 1929 e que perduraria até 1945. Trouxe, de Salvador, um violão embrulhado, escondido – não queria se passar por malandro (naquela época, era crime de vadiagem tocar violão pelas calçadas da então Capital Federal).
Mas, em seu quarto de pensão, primeiro lar em terras cariocas, longe de tudo e de todos, seguia criando melodias. Fazia seus acordes dissonantes, que gostava de criar, com os sons que, segundo ele, lembravam os toques de berimbau das ruas da Bahia de São Salvador. Não demoraria muito, entretanto, para entrar no meio artístico.
E a entrada não poderia ter sido melhor: com o sucesso estrondoso de “O que é que a baiana tem?”, que ganhou o Brasil (e depois, os Estados Unidos) na voz de Carmen Miranda. Um detalhe importante: a partir daí, Carmen não abandonaria mais os balangandãs, o torço de seda, os brincos de ouro, o pano da Costa, a saia engomada e as sandálias enfeitadas.
Cantando suas próprias canções, originais na estética e no conteúdo, e dispensando orquestras e conjuntos regionais, valendo-se apenas de seu violão, o compositor baiano seguia criando, sem pressa e com a paciência que sempre o acompanhou, novas peças. Muitos sambas “sacudidos” vieram, quase sempre lembrando – na letra – o requebrar, o balançar, o remelexo, o bolir das baianas, que seguiam presentes em seu imaginário.
Do requebrado da nega, da baiana, da moreninha da sandália do pompom grená, surgiram clássicos. Este requebrar, presente nas letras, também são sentidos nas melodias “corridinhas”.
“É no mexido, é no descanso, é no balanço É no jeitinho requebrado que essa nega tem Que todo mundo fica enfeitiçado E atrás do dengo dessa nega todo mundo vem” (O dengo que a nega tem)
“Quando você se requebrar caia por cima de mim” (O que é que a baiana tem)
“Acontece que eu sou baiano, acontece que ela não é Mas, tem um requebrado pro lado Minha Nossa Senhora Meu Senhor São José Tem um requebrado pro lado Minha Nossa Senhora E ninguém sabe o que é” (Acontece que eu sou baiano)
“Requebre que eu dou um doce Requebre que eu quero ver Requebre, meu bem, que eu trouxe Um chinelo pra você, ai Pra você requebrar Moreninha da sandália do pompom grená” (Requebre que eu dou um doce)
Mexer as cadeiras, bolir, sambar. Quem escuta os sambas de Caymmi, não consegue ficar parado.
"Ela mexe com as cadeiras pra cá Ela mexe com as cadeiras pra lá
Ele mexe com o juízo Do homem que vai trabalhar" (A vizinha do lado)
“Samba da minha terra deixa a gente mole Quando se canta todo mundo bole Quando se canta todo mundo bole” (O samba da minha terra)
“Não vou porque não posso resistir à tentação Se ela sambar, eu vou sofrer Esse diabo sambando é mais mulher E se eu deixar ela faz o que bem quer” (Lá vem a baiana)
Há, ainda, outras páginas de ouro do livro do samba brasileiro escritos pelas mãos do genial compositor baiano, como “O vestido de bolero”, “Maracangalha”, “Vatapá”, “365 igrejas”, “Eu não tenho onde morar” e “Você já foi a Bahia?”
Caymmi é mar, areia, vento e embarcações. É Itapuã, Maracangalha, Bonfim e Abaeté. É Bahia. Caymmi é folclore brasileiro. É Copacabana. É violão. É Rio de janeiro. É Brasil. Caymmi também é samba. Sacudido, corridinho e mexidinho. Samba da nossa terra.
Escute os sambas de Caymmi:
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
Rojão, como também era chamado o gênero Baião inventado por Luiz Gonzaga, foi um dos feitos que consagrou o músico Pernambucano como um dos principais expoentes da música popular brasileira. Recebendo suas devidas homenagens em todos os cantos do Brasil, Gonzagão completaria 100 anos de vida em 2012.
Trazendo sempre em suas composições a alegria e os valores de sua terra seca, tornou-se um dos responsáveis por levar um novo olhar para a música nordestina. Em 1947, apresentou para o país sua composição, ao lado de Humberto Teixeira, "Asa Branca", conhecida como um Hino do povo sofrido do nordeste. Hoje a música está difundida no mundo inteiro, inclusive com interpretações em japonês!
Esse Cabra para lá de arretado, extrapolou as fronteiras de seu território e abriu os caminhos para a música popular nordestina. Embora Seu Lua, como também era conhecido, não esteja por aqui de corpo presente, suas canções e composições seguem vivíssimas, promovendo tradicionalismo e cultura brasileira pelo mundão afora.
Assim o Véio Macho do Baião eterniza. Luiz Gonzaga do Nascimento, para sempre em nossa música.
Kelvin Koubik, artista visual e músico de Porto Alegre, colunista do NR. Veja + do autor
O mês de novembro é bastante significativo para pensarmos os rumos das relações de poder dentro da nossa sociedade por dois motivos: o primeiro, por conta do dia da Consciência Negra. O segundo, por se comemorar hoje o nascimento de Manoel dos Reis Machado, o famoso mestre Bimba, grande propulsor da capoeira no Brasil, manifestação cultural que pode ser considerada a expressão da ironia do negro no país.
Há mais de quinze anos, me dedico a esse ritual de jogar capoeira e reconheço que um dos grandes falseamentos do homem moderno é o desprezo pelo corpo e a hipervalorização do pensamento e da consciência.
O que isso significa? Basta olharmos para os templos da atualidade – as academias – para nos depararmos com legiões de corpos hiperestimulados, num verdadeiro culto à forma física.
A questão a ser discutida aqui, caro leitor, é justamente essa “forma”. Na verdade, não valorizamos o corpo em si, mas sim uma ideia de forma corporal. Um padrão idealizado e imposto por uma cultura que despreza o risco, a vulnerabilidade, o que envelhece e tudo aquilo que nos remete a nossa humanidade.
Como educador físico, eu faria um esforço para convencê-los de que o esporte ocidental – onde incluo as atividades em academias – se caracteriza por um conjunto de técnicas que levarão o praticante a desenvolver capacidades físicas e um corpo quase invencível, forte, flexível, belo, com uma boa postura e um ótimo tônus muscular.
O corpo na capoeira é um corpo que se assumi emocional, pulsional e
falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai se leva rasteira,
quem nunca caiu não é capoeira”.
O problema nessa concepção, na visão de Muniz Sodré, por exemplo, é que ela “mantém a separação entre corpo e espírito, ambos em uma mútua relação agressiva.” Sodré diz ainda que a institucionalização do esporte “termina imbuído do mesmo espírito competitivo vigente nas relações de produção dominantes”.
Como capoeirista afirmo: antes de ser um esporte, a capoeira sempre foi jogo, ou seja, linguagem não conceitual de gestos, imagens e cantos, onde o corpo ganha centralidade. Mas que corpo é esse? Qual é a diferença?
O corpo na capoeira é um corpo que se assume emocional, pulsional e falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai, se leva rasteira, quem nunca caiu não é capoeira”.
Um bom capoeira assume o risco como condição primeira de um bom jogo e joga com, nunca contra. Uma das características fundamentais do jogo é o diálogo, expressão corporal simbólica da dor, da alegria, da agressividade, da sensualidade, do ataque, da defesa, do encontro.
Na capoeira não há tempo para a dualidade corpo/mente, nela o movimento se torna pensamento em ação e o pensamento é já uma ação em movimento. Mestre Camisa, do alto de sua sabedoria, brinca: “na capoeira não pode pensar para dar o golpe e nem dar o golpe sem pensar”.
A capoeira pode ser vivenciada como uma forma autêntica de exercício em busca da liberdade, onde os elementos de criatividade artística, o improviso, a surpresa e a malícia são ingredientes fundamentais. É um jogo de desequilíbrio e de desconstrução dos rígidos padrões corporais ocidentais, padrões esses que engessam o corpo em formas vendidas por uma sociedade mercadológica.
Enfim, jogar capoeira pode ser considerado uma ação eminentemente política.
Axé!
Alexandre Luzzi, Professor de Educação Física, capoeirista, coordena o espaço Tai Ken, especial para o Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, especial para o texto.
Hoje, 22 de novembro, se comemora o dia do músico. Ilustração de Caco Bressane, colaborador do NR, apesar não ter sido feita especialmente para a data, cai bem ao motivo da homenagem.
Pouca gente sabe dessa história, mas a célebre canção Feitiço da Vila (“São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba”) faz parte de uma disputa musical travada entre Wilson Batista e Noel Rosa na década de 1930.
A peleja, iniciada pelo sambista da malandragem, levou esses dois grandes músicos a compor 9 canções que atravessaram gerações. Só mesmo a música nacional, com toda a sua malemolência e criatividade seria capaz de transformar uma peleja intelectual em pérolas do cancioneiro nacional.
A proposta do quadrinho “Duelo dos Bambas”, de Ricardo Morelatto (arte) e Carolina Lopes (roteiro) foi retratar uma das disputas musicais mais famosas da história da música popular brasileira.
A reportagem abaixo é primeira publicada da parceria do blog Desenho da Notícia com o NR.
"É curioso que o jornalismo faça tão pouco uso das histórias em quadrinhos. Filhos do casamento da imagem e do texto, estes dois gêneros têm um potencial enorme para construir juntos uma linguagem própria, possivelmente mais dinâmica e comunicativa. Com esta proposta nasce o Desenho da Notícia, um blog criado para explorar o casamento destas duas linguagens e oferecer ao leitor reportagens sobre os mais diversos temas do cotidiano por meio da narrativa sequencial", escreveram os autores Carolina Lopes e o desenhista Ricardo Morelatto.
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Dois irmãos pescadores de Cajaíba, próximo a Paraty, Rio de Janeiro. "Coloquei uma música do João do Vale chamada O Jangadeiro para acompanhar a imagem. Mas aí liguei a TV e vi o que ocorreu, a tragédia em Teresópolis, e o que irá ocorrer a partir de agora, aberta a temporada de temporais e tragédias de verão", explicou Caco Bressane, 25 anos, arquiteto e ilustrador paulistano, mestrando em Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, cidade em que mora atualmente e colaborador do Nota de Rodapé. O primeiro desenho de 2011.