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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Política de confinamento x direito à cidade


por Cidinha da Silva

Estava a pensar sobre as conexões entre a perseguição aos rolezinhos, vinda de tantos lados, e a postura de certos críticos à reabertura e revitalização do cine Belas Artes, na esquina da Consolação com Paulista.

Há décadas experimentamos o incremento da chamada política de gentrificação, que expurga as pessoas pobres do centro das cidades, das áreas nobres de interesse da especulação imobiliária para periferias, cada vez mais distantes. Por acaso nos esquecemos dos incêndios aparentemente involuntários que consomem favelas e seus moradores, estação seca após estação seca, e em seu lugar, logo depois são erguidos prédios suntuosos ou estacionamentos gigantescos para carros particulares?

Nessas periferias, a vida tem renascido, é de onde brotarão as soluções para o mundo, segundo o que dizia o professor Milton Santos. Mas, essa vida cultural que se reinventa e que, em alguma medida despreza o centro, produzindo em locais periféricos da cidade de São Paulo um movimento de contra-fluxo, ou seja, de gente do centro que vai curtir a periferia (de carro, lógico, prescindindo do transporte público da região), não responde aos anseios de todos os que vivem lá, notadamente dos meninos e meninas da geração digital-shopping.

Se fizermos uma breve panorâmica dos equipamentos culturais das periferias de São Paulo, veremos que a moçada dos rolezinhos não freqüenta com regularidade os CEUs, saraus, Centros Comunitários de Juventude, Fábricas de Cultura, bibliotecas públicas e/ou comunitárias, rede SESC, teatros e casas de cultura. Esses espaços não lhes dão respostas e, por sua vez, os bailes funk que os agrega, eram perseguidos pelos policiais reformados que geriam as sub-prefeituras e continuam a sê-lo pela polícia, hoje.

Contudo, aos empresários e suas diversas ações de coibição ao rolezinhos, às práticas policialescas de criminalização de jovens que querem apenas o direito de ir e vir, de circular livremente por parte da cidade (os shoppings), à justiça e sua indústria de liminares que proíbem esse tipo particular de encontro de jovens na área dos shoppings somam-se os intelectuais orgânicos das periferias. Estes, desejosos de que esses meninos e meninas frequentem os locais de resistência cultural da periferia.

Esses mesmos intelectuais criticam o apoio dado pela prefeitura para recuperar o cine Belas Artes, alegando que ele é patrimônio apenas da classe média e do povo cult que circula pela Paulista. Eu mesma nunca fui cult, não tenho origem na classe média e sempre gostei muito de arte, tudo assim, superposto, e frequentei assiduamente o Belas Artes e entristeci quando foi fechado.

O Belas Artes em São Paulo, como o Nazaré, o Pathé e o Palladium, em Belo Horizonte, marcaram a minha juventude, de alguém que morava a 40 kilômetros do centro de BH e saía de casa para ir ao cinema ou ficava na rua, porque não havia tempo para ir em casa e voltar fresca a tempo de pegar o início da sessão de cinema.

No Nazaré, assisti Boys in the rude que, como outros filmes do circuito não-comercial permaneciam uma mísera semana em cartaz. No Palladim assisti Blade Runner, clássico hi-tech dos anos 80 e no Pathé, por quatro ou 5 vezes, naquele tempo em que ao fim de uma sessão podia-se permanecer na sala para assistir a próxima, vi Sonhos, de Akira Kurosawa. No Belas Artes, além de ter acesso a filmes africanos pela primeira vez na vida, vi Faça a coisa certa, de Spike Lee, que só chegou em Belo Horizonte dois ou três meses depois e ficou em cartaz durante uma semaninha no cine Nazaré.

A política de confinamento nas periferias das grandes cidades tem muitas faces, algumas inusitadas, e o direito a usufruir da cidade vai do rolezinho nos shoppings (periféricos e centrais) aos filmes do Belas Artes, agora com intervenções da prefeitura para a criação de programas escolares, de barateamento de ingressos para facilitar a circulação de trabalhadores assalariados pela boa programação do cinema.

É certo que muita gente da Angélica e da Paulista dirá que o Belas Artes não é mais o mesmo, que agora é frequentado por uma gente diferenciada. Oxalá seja mesmo assim. Que o pessoal do outro lado da ponte possa exercitar o direito pleno de fruir pela cidade.

* * * * * * *

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sábado, 16 de março de 2013

Santana


por Kelvin Koubik "Kino"*

Terminando esta pintura, logo atrás de mim aparece uma senhora. Uma senhora muito vivida, com um tom bem baixo e doce de voz.

Chafiá, um nome difícil, segundo ela, de família árabe. Dona Chafiá, 86 anos, comentou que observou a pintura inteira pela sacada que levou 2 tardes para ser finalizada. Quando, então, finalmente tomou coragem para descer. Disse que eu tenho um dom, o dom da arte, arte que pode transformar o mundo, disse ainda que o mundo estava naquela parede. Chafiá gostaria que eu fosse o neto dela, comentou. Assim assenti afirmando que eu poderia ser.

Após o papo ela saiu e fiquei pensando que devia algo em troca de todos os comentários que senhora tão querida me ofereceu. Lembrei que tinha o rascunho do meu desenho, um pouco sujo e amassado, mas bacana. Peguei uma caneta e dediquei:

"Chafiá, obrigado pelo incentivo e pelas palavras bonitas que me arremessou. Com carinho, do teu neto - Kino 23".

*Kelvin Koubik, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O melhor pagamento do mundo: 140 abraços diários

Fiz uma visita ao amigo e escritor Ferréz, no Capão Redondo, em 2010. Trabalhamos juntos por alguns anos na revista Caros Amigos. Recentemente, nos reencontramos no lançamento de seu novo livro, o romance Deus foi almoçar.

Além de escritor, Ferréz é um empreendedor da periferia. Na ocasião da visita em 2010 tive a chance de conhecer por um dia o projeto da ONG Interferência, no Jardim Comercial, hoje tão fundamental para o local que chega a ser uma falha não divulgá-lo aos navegantes do NR.
 
O vídeo institucional no fim do texto mostra um pouco dos sonhos que já foram realizados ali: um espaço de leitura (e não só, também tem capoeira e atividades lúdicas) para crianças de um pedaço de SP em que o poder público virou as costas.

Conheço Ferréz e acredito na sua capacidade para fazer coisas relevantes. Não há intenções políticas ou qualquer interesse a não ser, como ele diz, "devolver ao bairro um pouco do que ele me deu e também não deu."
"Tem sido a coisa mais importante que já fiz, contando com verdadeiros amigos, que se importam de verdade com trabalho social, pois muitos gritam, falam em shows e palestras, mas na hora da ação... hum aí vira só discurso mesmo."
Interferência, acreditem, é mais uma dessas raridades de pessoas raras. Esse projeto precisa crescer, avançar e interferir positivamente naquela comunidade de jovens e adultos. O pedido de contribuições não sai escancarando a conta para depositar dinheiro. Ao contrário, pede doações não monetárias que possam ajudar, por exemplo, a criar um espaço de marcenaria.

O vídeo feito por Ricardo Sêco, "com muito carinho", como escreveu Ferréz,  é o convite para que se conheça o trabalho. O "pagamento", vejam só, são 140 abraços de pequeninas e pequeninos ávidos por cultura e conhecimento.

Thiago Domenici, jornalista

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

“Você suja minha cidade, eu sujo sua cara”

Gosta da lei que proíbe a publicidade desregulada na cidade? Não gosta que os políticos tenham recebido aval para fazer sua publicidade nas ruas durante o período pré-eleitoral? Tem visto cavaletes caídos nas ruas, folhetos entupindo bueiros e faixas, muitas faixas, sujando as calçadas? O site http://sujosuacara.tumblr.com/ tem o lema “Você suja minha cidade, eu sujo sua cara”. Vale uma visita para ver as fotos. Vou passar a andar com um pincel atomico na mochila...

Diogo Ruic é jornalista e editor assistente do NR

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Seu deputado vota como você?

Página principal do site Voto Aberto
Você é a favor ou contra a prorrogação da CPMF até 2012? E o seu candidato a deputado, tem a mesma opinião que a sua? Ele votou contra ou a favor? Para ajudar você a checar sua real representatividade no Congresso vale uma passada no site Voto Aberto. Por lá, os caras disponibilizam o resultado de um cálculo baseado na sua opinião sobre alguns temas e a opinião de deputados e partidos. O resultado mostra seu nível de afinidade com eles.
É preciso relevar alguns apontamentos do resultado (o cálculo é matemático e não leva em conta que algumas decisões são subjetivas, em certos casos tomadas com base no atual status do partido/candidato – como o fato de ser situação ou oposição).
Mesmo assim, é uma ferramenta simples e muito interessante, que desperta o interesse sobre o tema até dos eleitores menos chegados. Enfim, atende ao que se propõe.

Diogo Ruic é jornalista e editor assistente do NR
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