Foi bastante compreensiva, para não dizer providencial, a postura combativa dos meios de comunicação alternativos durante o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. Muitas revistas e jornais de pequena circulação, blogues e iniciativas digitais, como o 48hdemocracia, simplesmente não titubearam em vestir a camisa de Dilma Rousseff. O objetivo era claro: defender a candidata do PT contra as investidas da campanha de José Serra e as manipulações da chamada grande imprensa – para muitos, favorável ao tucano.
Pudera. Menos de um mês depois da apuração, virou clichê dizer que o processo eleitoral de 2010 ficará marcado como um dos mais pobres em discussões e ideias desde a redemocratização. A disputa pela sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva talvez tenha sido o ponto álgido do marketing político e do oportunismo eleitoreiro. Nunca se viu marqueteiros tão poderosos a ponto de dobrar convicções ideológicas e apequená-las diante da sanha pelo poder e da caça indiscriminada de votos. Até quem nunca tinha ido à igreja ajoelhou-se e rezou para os padroeiros da opinião pública.
Na tevê, no rádio e sobretudo na internet, a campanha demo-tucana e seus apoiadores (voluntários ou não) preferiram apelar para os mais profundos preconceitos da sociedade brasileira como estratégia para angariar, através do medo, um apoio popular que nunca tiveram e reverter, pela pobreza do discurso moralista, o resultado das pesquisas, que vinham anunciando mais uma vitória do petismo.
A tática foi bastante parecida com a estratégia derrotada de 2002. Faltou apenas colocar uma estrela de novela confessando seu temor eleitoral diante das câmeras. Desta vez, porém, o PSDB resolveu ir mais fundo em seu conservadorismo e pedir socorro aos representantes de Jesus Cristo na Terra.
Todos nos lembraremos – e não devemos nos esquecer jamais – que José Serra convocou para a batalha das urnas o apoio dos setores mais retrógrados do país e pactuou com as alas extremistas tanto da igreja católica como das evangélicas. Apesar de autoelogiar seu desempenho como ministro da Saúde, o candidato aliou-se com gente que desconsidera a epidemia de aids que paira pelo mundo, a importância social do planejamento familiar e que, ainda hoje, se presta a fazer campanha contra o uso de preservativos.
José Serra praticou deliberadamente o obscurantismo em torno de temas tão polêmicos quanto importantes para o bem-estar da população, como é o caso do aborto e da união civil de homossexuais, aferrando-se ao medievalismo cristão para angariar votos entre os poucos fiéis que ainda fazem o que o padre diz. Também manipulou o papel histórico desempenhado pela resistência armada durante a ditadura militar. Sua guerrilha digital vestiu Dilma Rousseff de verde oliva e impôs-lhe um charutão a la Fidel Castro entre os dentes.
No auge da empulhação, o tucano simulou uma agressão física que nunca existiu. Tanto que sua calva seguiu lustrosa e radiante durante toda a passeata que realizou no Rio de Janeiro. A bolinha de papel pode ter doído no brio, mas não lhe feriu a cabeça.
Por fim, é digno de nota – e despreço – o renascimento da xenofobia no Brasil. Desta vez o bairrismo paulista e o ódio contra nordestinos transcendeu os ambientes privados e escapou pelo twitter. É certo que a onda de manifestações preconceituosas foi desencadeada pelas declarações de José Serra e seus asseclas, que endossaram a tese de que as eleições dividiram o país entre indivíduos pobres e incapacitados, que moram no Nordeste e votam em Dilma, versus cidadãos conscientes, que habitam as regiões mais prósperas e apertaram 45 para presidente.
Lá como cá
Muitas análises compararam a postura anti-argumentativa e preconceituosa da Coligação Brasil Pode Mais (PSDB, DEM, PPS) ao discurso revisionista do Tea Party, a grande sensação política do momento nos Estados Unidos. Nitidamente, a principal semelhança entre um e outro é a opção por fugir do debate sério e aprofundado, livre de lugares-comuns, sobre as questões mais prementes para o futuro do país.
O movimento Tea Party surgiu na esteira da vitória de Barack Hussein Obama, em 2008. A musa do movimento, Sarah Palin, foi então candidata a vice na chapa derrotada, encabeçada por John McCain. Ambos pertencem ao Partido Republicano, e foi exatamente entre seus membros que se acomodou o Tea Party. No seio conservador da América, não precisou de muito esforço para crescer. Afinal, um objetivo comum unificou os interesses da direita ianque: derrocar o primeiro negro a assumir a Casa Branca, que, não bastasse a cor da pele, ainda tem sobrenome árabe.
Na mesma semana em que o Brasil escolhia seu próximo chefe-de-estado, os estadunidenses eram chamados a definir a composição da Câmara e do Senado para os próximos quatro anos. E as eleições legislativas impuseram uma profunda derrota ao governo democrata. Mais que um mero fracasso político de Barack Obama, o evento significou o maior fiasco de um presidente em influenciar a composição do parlamento desde 1938. Os democratas perderam a maioria entre os deputados, que haviam conseguido durante a administração George W. Bush, e viram sua vantagem minguar a um empate técnico entre os senadores.
A estratégia dos republicanos, capitaneados pelo Tea Party, foi bastante clara. Acusaram o presidente de ser um marxista empedernido, de praticar secretamente o Islã, de querer aumentar o poder e a influência do estado na vida dos cidadãos e de internalizar valores tribais herdados de seus antepassados quenianos. Para a direita, Barack Obama não está imbuído dos princípios americanos.
O Tea Party abominou a reforma democrata no sistema de saúde e rechaçou o pacote econômico lançado pela Casa Branca para aliviar os efeitos da crise no país. Aliás, num enorme esforço de desinformação, a ala mais conservadora dos conservadores estadunidenses atribuiu ao presidente toda a responsabilidade pela recessão – senão pelas suas causas, pelo fracasso em paliar suas consequências.
Na terra do Tio Sam, portanto, o Tea Party já conseguiu colher expressivos resultados eleitorais e ninguém duvida que sua retórica tresloucada imporá novas derrotas políticas ao governo democrata. Com a guinada republicana e a ascensão dos radicais de direita, Barack Obama ficou engessado na presidência.
A reforma no sistema de saúde corre o risco de morrer de inanição pelo boicote anunciado à assignação de recursos. E a política externa obamista, que tem buscado mais diálogo do que Washington estava acostumado e que rendeu ao presidente um prematuro prêmio Nobel da Paz, pode voltar a adotar o bordão “nós ganhamos, eles perdem”.
O esperançoso bordão Yes We Can, que uniu forças progressistas em torno da figura de Obama e de suas promessas de mudança, fatalmente se transformará num lema inócuo quando encontrar a barreira montada pela oposição no Congresso.
Risco de retrocesso
O caso dos Estados Unidos demonstra que as táticas de manipulação e preconceito político sim podem influenciar no resultado das eleições e destruir, do dia para a noite, projetos nacionais que levaram décadas para serem postos em prática.
No Brasil ainda não existe um movimento conservador com tanto apelo popular, mas o PSDB se aproximou perigosamente da baixaria do Tea Party neste segundo turno. Basta lembrar que José Serra saiu por aí frequentando missas, beijando santos, lendo a Bíblia e distribuindo panfletos com os dizeres “Jesus é a verdade e a justiça”. Enquanto encarnava o papel de missionário, dava sermões sobre seu papel de redentor das liberdades civis no país, sobretudo da liberdade de imprensa, que estaria em risco no caso de mais uma vitória do PT.
Entre seus cabos eleitorais, estava o bispo de Guarulhos, dom Luiz Bergonzini. Por intermédio de um militante da causa monarquista, o religioso mandou imprimir folhetos com o logo da CNBB condenando o aborto e sugerindo o voto no tucano. O papa Bento 16, às vésperas do pleito e com ampla cobertura dos meios de comunicação, também deu um empurrãozinho na candidatura do PSDB. No flanco evangélico, o apóstolo Renê Terra Nova não poupou esforços para viajar o Brasil com seu jatinho semeando a palavra de deus travestida de propaganda serrista.
O segundo turno forjou um cenário eleitoral em que os avanços sociais e democráticos alcançados durante o governo Lula foram repentinamente laçados à berlinda das urnas. Dois caminhos estavam à disposição dos brasileiros. Com Dilma, poderíamos seguir uma rota semelhante à trilhada nos últimos 8 anos e, por ventura, aprofundar as mudanças. Com Serra, o retrocesso batia à porta, exposto pelas alianças costuradas pelo PSDB na tentativa de vencer a qualquer custo.
Foi então que a imprensa alternativa reagiu prontamente. Cada ataque da campanha de José Serra ou do noticiário tucanófilo era acompanhado de uma enxurrada de contrapontos, argumentos, fatos e imagens, veiculados pela internet, por jornais ou revistas de esquerda. Talvez o maior exemplo da capacidade de resposta dos meios alternativos tenha sido a determinação dos blogues em destruir a farsa montada pela Rede Globo ao redor da bolinha de papel.
Houve vítimas pelo caminho, claro. A psicoanalista Maria Rita Kehl, que até o segundo turno escreveu para o jornal O Estado de S. Paulo, foi demitida após defender o Bolsa-Família e criticar as correntes anti-nordestinas que pipocavam nas caixas de e-mail pelo Brasil afora. O semanário CartaCapital foi chamado a explicar perante a Justiça os contratos de publicidade que mantém com o governo federal. A Revista do Brasil foi censurada pelo TSE após estampar o rosto de Dilma Rousseff na capa de sua edição de outubro, publicada uma semana depois do primeiro turno.
A polarização era tanta que teve jornalista demitido até no Ceará. Seu pecado foi publicar um caderno especial sobre o intelectual franco-brasileiro Michael Löwy e dois livros de sua autoria: Revoluções e Aviso de Incêndio. Também houve repórteres hostilizados durante o exercício da profissão. Foi com um raivoso “pelego filho da puta” que Aloysio Nunes Ferreira, senador eleito por São Paulo, recebeu um trabalhador da imprensa alternativa por demais insolente ao ponto de querer entrevistá-lo.
Depois da militância
A mídia alternativa desempenhou um duplo papel durante as eleições: não só cumpriu com suas obrigações jornalísticas ao desfazer manipulações, combater preconceitos e oferecer diferentes pontos de vista sobre os fatos, como também atuou política e partidariamente com o objetivo de garantir a vitória de uma candidatura que, a seu juízo – e o segundo turno deixou poucas dúvidas disso –, representava a melhor opção para governar o país. Na maioria das vezes, foi feliz e matou estes dois coelhos com uma cajadada só.
Contudo, passado o susto de uma ressaca conservadora que não aconteceu, talvez seja o momento de jornalistas independentes e meios de comunicação alternativos reavaliarem seu posicionamento no teatro do bem e do mal da política brasileira. Afinal, qual é a linha que separa o chapa-branquismo da defesa do interesse público?
No segundo turno de polarizações eleitorais, criticar as vicissitudes do governo Lula ou as deficiências de Dilma Rousseff era dar munição à violenta campanha montada pela oposição. Por isso, às vésperas do pleito, a corrida presidencial ganhou ares de jogo de futebol. Se os brasileiros deixamos de ser cidadãos e fomos transformados em torcida organizada, o jornalismo seguiu o mesmo rumo: era PT ou PSDB, Gaviões da Fiel ou Mancha Verde, sem meio termo.
Qualquer desconfiança quanto à própria escolha significava ceder à “superioridade” do adversário. A política deu lugar à paixão. E, entre apaixonados, no esporte ou nas eleições, não há diálogo nem entendimento. Tampouco autocrítica: afinal, não se critica o próprio time na final de um campeonato. O atacante pode estar fora de forma e o técnico, ser um energúmeno. O que importa é ganhar.
Dilma ganhou e, felizmente, a peleja chegou ao fim. Como sempre, depois de um processo eleitoral, agora há um país a construir e que tem que dar certo para a maioria. Em tempos de paz, talvez não seja papel do jornalismo – nem do tradicional nem do alternativo – vestir a camisa deste ou daquele partido. Isso não quer dizer que temos de ressuscitar os mitos enterrados da imparcialidade. Tomar partido em épocas de polarização, como vimos, é saudável. Porém, submeter-se aos ditames de um grupo político a tempo completo pode ser danoso.
Em última análise, não há qualquer mal intrínseco em transformar-se no porta-voz de um projeto de poder. Nas democracias mais maduras, as forças partidárias estão bem representadas na imprensa. Na Espanha, o El País mantém relações com o PSOE. Nos Estados Unidos, os democratas estão mais presentes no New York Times. O Il Manifesto, da Itália, não esconde sua preferência comunista. Esta é uma opção legítima para externar à sociedade como uma agremiação política vê o mundo e interpreta a realidade. Da mesma maneira que, no Brasil, os grandes meios de comunicação se identificam com as pautas liberais e com as candidaturas mais conservadoras, como as do PSDB, é saudável que o PT e todos os demais partidos, à medida que ganhem força, também tenham aliados na trincheira midiática.
Entretanto, já passou da hora de jornalistas e meios de comunicação independentes (ou pelo menos os que desejem denominar-se como tais) assumirem papel protagônico no cenário informativo brasileiro. Entre blogueiros e profissionais que ganham a vida fora do eixo tradicional, há capacidade de sobra em braços e cabeças para elaborar uma cobertura livre das amarras mercadológicas e da estreiteza temática da opinião pública.
A internet oferece milhões de possibilidades para a criação de novos paradigmas informativos em áudio, texto, vídeo e imagens, ou na fusão simultânea de todas as mídias, tudo a baixo custo. E há pautas suficientes para preencher um novo noticiário permanente que consiga abarcar, com qualidade técnica e estética, os temas de maior interesse à sociedade nacional e internacional – sobretudo os que não estão ou não encontram na imprensa de massa o espaço que merecem.
Não há razões, portanto, para que os jornalistas independentes se restrinjam ao papel subalterno de combater as infinitas distorções da grande mídia. Estar atento para o que acontece no main stream sempre foi e continuará sendo importante. Afinal, é através do Jornal Nacional, da Veja e dos jornalões que se constrói o senso comum no país. E, ao desconstruir a visão de mundo que diariamente penetra nos lares brasileiros, o jornalismo alternativo oferece novas maneiras de enxergar os fatos, as fotos e as declarações.
Continuar nesta trilha, porém, é ficar à reboque da pauta tradicional – ainda que seja um reboque às avessas. Assim, os veículos da imprensa alternativa correm o risco de se transformar em observatórios de mídia: darão um passo para fora do jornalismo e assumirão funções de críticos, o que já é feito há muito tempo por alguns acadêmicos e, claro, pelo Observatório da Imprensa.
O salto da reportagem
Chegamos ao limite da crítica. O jornalismo alternativo precisa mudar de patamar se quiser continuar existindo de maneira independente e cercar-se de legitimidade social. Porque o melhor combate à grande imprensa se dá oferecendo ao público um conteúdo melhor, que traz em cada manchete o ideal que se revela nas entrelinhas da crítica: opiniões menos superficiais, matérias mais completas, pautas que problematizem a realidade ao invés de simplesmente reproduzi-la ou contrapô-la pelo automatismo cotidiano.
O grande filão do jornalismo independente é a reportagem, que hoje em dia foi colocada em segundo plano pela imensa maioria dos meios de comunicação tradicionais. E por um motivo bastante simples: realizar investigações jornalísticas é muito caro e traz pouco resultado comercial. Aliás, uma boa reportagem muitas vezes atenta contra o mercado publicitário, pois tem a nobre vocação de chafurdar fundo nas mazelas sociais que via de regra põem em xeque o interesse de empresas, instituições ou governos — enfim, os anunciantes em potencial. A reportagem precisa de dinheiro tanto quanto tem o potencial de repeli-lo. Eis a grande sinuca de bico do jornalismo independente hoje.
Assumir uma postura governista durante a gestão do PT pode dar sobrevida econômica aos meios de comunicação alternativos. Não foi à toa que, durante o governo Lula, o Brasil assistiu à diversificação política da imprensa. Antes dominado por conglomerados empresariais, hoje o noticiário brasileiro é mais plural. Os últimos 8 anos ampliaram a liberdade de comunicação e expressão no país, o que é motivo de comemoração, mas ainda estamos longe do ideal.
Nenhum cidadão ficará satisfeito com a divisão da comunicação social entre veículos pró-PT, pró-PSDB ou pró-qualquer-coisa. O jornalismo independente é um serviço público e deve advogar em causa própria. E a causa da imprensa livre foi e sempre será o interesse da maioria da população — ou da fatia social que ela se diz representar. Direitos humanos, justiça social, preservação do meio-ambiente, bem-estar coletivo e liberdades civis são alguns dos valores que podem nortear o ofício de informar.
É a partir deles – e, eventualmente, de sua ampliação e radicalização – que o jornalismo pode escolher criticar ou elogiar governos e desgovernos pelo mundo afora. Elogiar, porém, me parece bastante complicado, já que sempre é possível para a administração pública fazer mais e melhor. Talvez seja a sina do jornalista independente estar permanentemente na oposição, não porque desprecie tudo o que existe ou não seja capaz de reconhecer avanços, mas porque não deve descansar enquanto houver qualquer rastro de injustiça e desigualdade no planeta. É longo o trabalho que tem pela frente: revelar o que está escondido, trazer à tona o que foi submerso pela indiferença cotidiana, discutir o que normalmente não se discute.
Felizmente, a internet está aí para servir-nos. O grande desafio, quem sabe, seja saber como podemos remunerar e possibilitar vida digna aos jornalistas capazes e dispostos a serem independentes. Afinal, por mais autônomo que consiga ser, ninguém escapa da ditadura das contas.
Tadeu Breda é jornalista, colunista do NR. Mantém o blog Latitude Sul.
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 23 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Palocci, Garcia, Amorim e a solidão política
Ontem à noite, aqui em Brasília, o ex-ministro Antonio Palocci errou seu posicionamento no palco em que Dilma Rousseff fez seu pronunciamento. Manda o espectro político que ele fique à direita da presidente, ao lado de Michel Temer e José Sarney. Tarso Genro também errou: deveria estar à esquerda ou logo atrás de Dilma, ao centro. Bem, é dado como certo que Palocci terá força no próximo governo. Deve ocupar algum cargo de coordenação. Casa Civil é a principal possibilidade. O que se viu em Brasília apenas confirmou a impressão: Palocci esteve com Dilma a tarde toda e chegou com a presidenta ao local do pronunciamento. No discurso da vitória, deu para perceber um dedo palocciano em pontos como compromisso fiscal e com a estabilidade econômica.
Um dos pontos positivos da vitória de Dilma é que a América Latina segue unida. A Argentina terá nosso apoio caso a oposição tente novamente colocar as mangas de fora, bem como qualquer outro país. A relação segue respeitosa com todos, independentemente do tamanho do PIB, do alinhamento ideológico e da origem étnica do chefe de Estado. O chanceler Celso Amorim afirmou ontem a este repórter que a reforma da ONU seguirá como pauta, qualquer que seja o governo brasileiro.
Muito se fala na permanência de Amorim e de Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência. Garcia, elo do governo com a América Latina, foi na semana passada ao velório de Néstor Kirchner e voltou comovido com a força do povo argentino. Por aqui, foram muitos os colunistas que se colocaram a afirmar que a presidente Cristina “não vai aguentar.” Igual ao que o PSDB difundiu sobre a agora presidente. Perguntei a Garcia sobre que tipo de pensamento conecta as ideias de que Cristina e Dilma não aguentam: “O pensamento machista. Isso significa mais uma concessão que eles (PSDB) fazem ao conservadorismo.”
Para Garcia e outros quadros da base aliada, a campanha de Serra ficou muito aquém do que se poderia esperar de um político com a experiência do ex-governador paulista. O assessor especial lamenta que o tucano tenha se aliado ao que “há de pior na sociedade brasileira.” O exemplo escolhido por ele é o vice na chapa de Serra, o deputado federal Índio da Costa (DEM-RJ), autor de frases nada felizes desta campanha. Palavras de Garcia sobre o vice: “Ou é sinal da mais absoluta solidão política de Serra ou é sinal de falta de critério.”
João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé (de Brasília)
Um dos pontos positivos da vitória de Dilma é que a América Latina segue unida. A Argentina terá nosso apoio caso a oposição tente novamente colocar as mangas de fora, bem como qualquer outro país. A relação segue respeitosa com todos, independentemente do tamanho do PIB, do alinhamento ideológico e da origem étnica do chefe de Estado. O chanceler Celso Amorim afirmou ontem a este repórter que a reforma da ONU seguirá como pauta, qualquer que seja o governo brasileiro.
Muito se fala na permanência de Amorim e de Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência. Garcia, elo do governo com a América Latina, foi na semana passada ao velório de Néstor Kirchner e voltou comovido com a força do povo argentino. Por aqui, foram muitos os colunistas que se colocaram a afirmar que a presidente Cristina “não vai aguentar.” Igual ao que o PSDB difundiu sobre a agora presidente. Perguntei a Garcia sobre que tipo de pensamento conecta as ideias de que Cristina e Dilma não aguentam: “O pensamento machista. Isso significa mais uma concessão que eles (PSDB) fazem ao conservadorismo.”
Para Garcia e outros quadros da base aliada, a campanha de Serra ficou muito aquém do que se poderia esperar de um político com a experiência do ex-governador paulista. O assessor especial lamenta que o tucano tenha se aliado ao que “há de pior na sociedade brasileira.” O exemplo escolhido por ele é o vice na chapa de Serra, o deputado federal Índio da Costa (DEM-RJ), autor de frases nada felizes desta campanha. Palavras de Garcia sobre o vice: “Ou é sinal da mais absoluta solidão política de Serra ou é sinal de falta de critério.”
João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé (de Brasília)
domingo, 31 de outubro de 2010
DataNR aponta vitória de Dilma no segundo turno
O DataNR recebeu em 30 dias 1084 votos. Os resultados mostram que a candidata Dilma Rousseff do PT ganharia no segundo turno. 593 internautas que votaram na candidata petista no primeiro turno responderam que continuam com ela no segundo. Dos que votaram em Marina Silva, PV, 49 indicaram voto em Dilma. E dos que votaram em Plínio de Arruda Sampaio, PSOL, 44 a indicaram como opção de voto. Dos outros partidos, seis votos a escolheram como para o segundo turno. Em relação ao adversário, José Serra, PSDB, 37 optaram por continuar com ele no segundo turno. Dos que votaram em Marina Silva, PV, 24 votariam em Serra e somente 5 dos que votam em Plínio, PSOL, votariam no candidato tucano. Dos outros partidos, quatro indicaram voto em Serra. Brancos e nulos somaram 35 votos e indecisos, oito. Obrigado a todos que participaram e contribuíram para essa pequena amostragem de intenções.
A votação
Continuo com Dilma: 593
Continuo com Serra: 37
Votei Marina e agora voto Dilma: 49
Votei Marina e agora voto Serra: 24
Votei Plínio e agora voto Dilma: 44
Votei Plínio e agora voto Serra: 5
Votei PSTU, PCO etc e voto Dilma: 6
Votei PSTU, PCO etc e voto Serra: 4
Vou anular: 31
Vou votar em branco: 4
Não decidi: 8
A votação
Continuo com Dilma: 593
Continuo com Serra: 37
Votei Marina e agora voto Dilma: 49
Votei Marina e agora voto Serra: 24
Votei Plínio e agora voto Dilma: 44
Votei Plínio e agora voto Serra: 5
Votei PSTU, PCO etc e voto Dilma: 6
Votei PSTU, PCO etc e voto Serra: 4
Vou anular: 31
Vou votar em branco: 4
Não decidi: 8
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Senador, não tenho obrigação de me curvar ao poder
O senador eleito Aloysio Nunes (PSDB-SP) afirmou nesta quinta-feira (28) ao jornal Folha de S. Paulo que minha versão sobre o xingamento proferido por ele na última segunda-feira (25) é “mentira de petista”. Após me chamar de “pelego filho da puta”, diz o senador que sou “insolente.”
Vamos por partes. Quanto ao que me toca, o senhor sabe que não é mentira. O que eu lucraria inventando essa história? Como já lhe disse antes, sou jornalista, apenas relato aquilo que vi. Invenções, deixo-as para aqueles que se interessam por elas. Sobre o “petista”, senador, há coisas que a gente precisa provar quando fala. Essa é uma delas. O senhor pode revirar todos os registros do PT que não vai encontrar qualquer ligação entre mim e o partido. Se encontrar, pode escolher o local em que devo lhe pedir desculpas publicamente.
Se não encontrar, faz aquilo que deveria ter feito desde o lamentável episódio: retrata-se, mostrando que, como homem público, sabe reconhecer erros. Um colega seu, o prefeito Gilberto Kassab, já o fez uma vez e, ao que parece, segue vivo. A questão, senador, é que o mundo não está dividido entre tucanos e petistas. Recorrer a simplificações demonizantes, como se tudo que lhe ocorre de ruim na vida fosse culpa do PT, não vai resolver o problema.
Quanto à terceira acusação, a de ser “insolente”, contento-me em analisar o uso histórico desta palavra. Insolente era a característica que se atribuía aos escravos “rebeldes” ou “fugidios”. Depois, como nosso país não apagou certas heranças, passou a ser maneira como as elites chamavam aquele funcionário que tinha a ousadia de ter pensamentos próprios. É aquela empregada que irrita os patrões porque tem a insolência de atender o celular durante o trabalho. É aquele funcionário que enerva o chefe porque tem a insolência de propor que seu salário de miséria seja aumentado.
Então, sob os olhos da elite, sou mesmo insolente. Afinal de contas, não me agacho frente a uma pessoa pelo simples fato de ela ter mais posses ou mais poder do que eu. Muito pelo contrário, olho nos olhos de quem quer seja. Minha espinha, senador, nasceu com essa terrível mania de não se curvar. Sei que há colegas de profissão que não têm problemas em serem subservientes, em terem coleguismos com o poder. O senhor me perdoe, senador, mas não é meu caso, e isso não me faz insolente nem petista.
- A resposta de Aloysio Nunes Ferreira
Diferentemente do que o senhor insinua, sou jornalista sem aspas, jornalista de verdade. Como lhe disse, sou formado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e em algumas das redações para as quais gente de seu partido certamente dispensa grande apreço. Agora, se o senhor ainda não tirou o pé da Casa Grande, lamento. O meu já deixou a Senzala há algum tempo.
João Peres é jornalista, colunista do NR e repórter da Rede Brasil Atual
Reportagem da Folha de S.Paulo de hoje:
Jornalista diz que foi xingado por tucano antes de debate
DE SÃO PAULO
O jornalista João Peres, da "Revista do Brasil", diz ter sido chamado de "pelego filho da puta" pelo senador eleito Aloysio Nunes (PSDB-SP).
A agressão, diz, ocorreu na última segunda-feira, antes de debate dos presidenciáveis na TV Record.
O tucano admite tê-lo chamado de pelego, mas nega o palavrão.
À Folha Peres disse que o tucano teria perguntado para qual veículo ele trabalhava e, depois, teria se negado a dar declarações. "Eu disse: "educado, hein, senador?". Ele respondeu me xingando".
Aloysio Nunes confirma parte da história. "É pelego mesmo. É revista pelega, paga com dinheiro público para fazer campanha. E ele foi insolente. Perguntou se eu não falava com trabalhadores".
Questionado sobre o palavrão, Aloysio disse: "É mentira de petista. Estão querendo me colocar contra a mídia".
A "Revista do Brasil" é ligada ao movimento sindical e foi alvo de representação apresentada pela coligação de José Serra (PSDB), que pediu à Justiça a retirada da revista de circulação, alegando de que estaria atuando em favor de Dilma Rousseff (PT).
Houve decisão favorável à coligação tucana, baseada no argumento de que sindicatos não podem contribuir com candidatos ou partidos.
Vamos por partes. Quanto ao que me toca, o senhor sabe que não é mentira. O que eu lucraria inventando essa história? Como já lhe disse antes, sou jornalista, apenas relato aquilo que vi. Invenções, deixo-as para aqueles que se interessam por elas. Sobre o “petista”, senador, há coisas que a gente precisa provar quando fala. Essa é uma delas. O senhor pode revirar todos os registros do PT que não vai encontrar qualquer ligação entre mim e o partido. Se encontrar, pode escolher o local em que devo lhe pedir desculpas publicamente.
Se não encontrar, faz aquilo que deveria ter feito desde o lamentável episódio: retrata-se, mostrando que, como homem público, sabe reconhecer erros. Um colega seu, o prefeito Gilberto Kassab, já o fez uma vez e, ao que parece, segue vivo. A questão, senador, é que o mundo não está dividido entre tucanos e petistas. Recorrer a simplificações demonizantes, como se tudo que lhe ocorre de ruim na vida fosse culpa do PT, não vai resolver o problema.
Quanto à terceira acusação, a de ser “insolente”, contento-me em analisar o uso histórico desta palavra. Insolente era a característica que se atribuía aos escravos “rebeldes” ou “fugidios”. Depois, como nosso país não apagou certas heranças, passou a ser maneira como as elites chamavam aquele funcionário que tinha a ousadia de ter pensamentos próprios. É aquela empregada que irrita os patrões porque tem a insolência de atender o celular durante o trabalho. É aquele funcionário que enerva o chefe porque tem a insolência de propor que seu salário de miséria seja aumentado.
Então, sob os olhos da elite, sou mesmo insolente. Afinal de contas, não me agacho frente a uma pessoa pelo simples fato de ela ter mais posses ou mais poder do que eu. Muito pelo contrário, olho nos olhos de quem quer seja. Minha espinha, senador, nasceu com essa terrível mania de não se curvar. Sei que há colegas de profissão que não têm problemas em serem subservientes, em terem coleguismos com o poder. O senhor me perdoe, senador, mas não é meu caso, e isso não me faz insolente nem petista.
- A resposta de Aloysio Nunes Ferreira
Diferentemente do que o senhor insinua, sou jornalista sem aspas, jornalista de verdade. Como lhe disse, sou formado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e em algumas das redações para as quais gente de seu partido certamente dispensa grande apreço. Agora, se o senhor ainda não tirou o pé da Casa Grande, lamento. O meu já deixou a Senzala há algum tempo.
João Peres é jornalista, colunista do NR e repórter da Rede Brasil Atual
Reportagem da Folha de S.Paulo de hoje:
Jornalista diz que foi xingado por tucano antes de debate
DE SÃO PAULO
O jornalista João Peres, da "Revista do Brasil", diz ter sido chamado de "pelego filho da puta" pelo senador eleito Aloysio Nunes (PSDB-SP).
A agressão, diz, ocorreu na última segunda-feira, antes de debate dos presidenciáveis na TV Record.
O tucano admite tê-lo chamado de pelego, mas nega o palavrão.
À Folha Peres disse que o tucano teria perguntado para qual veículo ele trabalhava e, depois, teria se negado a dar declarações. "Eu disse: "educado, hein, senador?". Ele respondeu me xingando".
Aloysio Nunes confirma parte da história. "É pelego mesmo. É revista pelega, paga com dinheiro público para fazer campanha. E ele foi insolente. Perguntou se eu não falava com trabalhadores".
Questionado sobre o palavrão, Aloysio disse: "É mentira de petista. Estão querendo me colocar contra a mídia".
A "Revista do Brasil" é ligada ao movimento sindical e foi alvo de representação apresentada pela coligação de José Serra (PSDB), que pediu à Justiça a retirada da revista de circulação, alegando de que estaria atuando em favor de Dilma Rousseff (PT).
Houve decisão favorável à coligação tucana, baseada no argumento de que sindicatos não podem contribuir com candidatos ou partidos.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Eu também sou filho da puta, senador!
Antes de tudo, minha total solidariedade ao jornalista e colega João Peres. E votos de que continue a desempenhar corajosamente a sua missão de informar.
A arrogância e o desespero dos incompetentes e dos traidores das causas populares têm mostrado a sua face mais obscena nessa campanha eleitoral por parte de um partido que, em tempos nem tão distantes assim, quis representar no Brasil o pensamento de esquerda seja dito “civilizado”. Caiu a máscara!
Com a perspectiva de que venha a público e, mais do que isso, temendo o julgamento popular e da própria justiça brasileira, a nata do PSDB e da oposição como um todo, entrou em queda livre e quer melar o jogo da democracia no país.
O discurso, por vezes inflamado, de vários desses atores, já desliza pela linguagem de esgoto, muito provavelmente a mesma linguagem com que se tratam uns aos outros na hora em que vêm seus interesses contrariados nas grandes jogadas de corrupção em que se envolveram no governo de São Paulo ou na comemoração dos seus patrióticos “negócios”
Com a palavra o ex-vice governador e atual senador eleito por São Paulo Aloysio Nunes Ferreira que, do alto da sua ignorância e falta de educação ataca um jornalista no cumprimento de sua missão.
Quem é filho da puta, senador? O jornalista ou os que recebem propina da Cia. Alston, essa empresa das licitações do metrô de SP, conforme inquérito que está em julgamento na Europa?
Quem é filho da puta, senador? O profissional de imprensa independente ou amigos que desviam dinheiro do Caixa 2 do PSDB e ameaçam com chantagem se não forem defendidos?
Quem é filho da puta, senador? Quem diz a verdade ou quem vicia processos de licitação em benefício próprio, botando a mão no dinheiro público?
Quem é filho da puta, senador? Quem defende a soberania nacional ou quem entrega a riqueza do país a empresas internacionais, vendendo-as a preço de banana? E que um dia já se disse “revolucionário”?
A lista de perguntas é bem mais extensa, mas não vou maçá-lo com questões que têm a ver com a consciência dos homens que, de fato, são sinceros e honestos na sua trajetória política. Seria esse o seu caso?
Orgulho-me, sinceramente, de não pertencer ao seu grupo social e político. Entre o meu Brasil e o seu, de homens verdadeiramente “íntegros”, prefiro ser um filho da puta, mas com a dignidade de quem não se vende por trezentos dinheiros. E não sou pelego filiado ao Partido dos Trabalhadores.
O fascismo enrustido não passará!
Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrivinhador
A arrogância e o desespero dos incompetentes e dos traidores das causas populares têm mostrado a sua face mais obscena nessa campanha eleitoral por parte de um partido que, em tempos nem tão distantes assim, quis representar no Brasil o pensamento de esquerda seja dito “civilizado”. Caiu a máscara!
Com a perspectiva de que venha a público e, mais do que isso, temendo o julgamento popular e da própria justiça brasileira, a nata do PSDB e da oposição como um todo, entrou em queda livre e quer melar o jogo da democracia no país.
O discurso, por vezes inflamado, de vários desses atores, já desliza pela linguagem de esgoto, muito provavelmente a mesma linguagem com que se tratam uns aos outros na hora em que vêm seus interesses contrariados nas grandes jogadas de corrupção em que se envolveram no governo de São Paulo ou na comemoração dos seus patrióticos “negócios”
Com a palavra o ex-vice governador e atual senador eleito por São Paulo Aloysio Nunes Ferreira que, do alto da sua ignorância e falta de educação ataca um jornalista no cumprimento de sua missão.
Quem é filho da puta, senador? O jornalista ou os que recebem propina da Cia. Alston, essa empresa das licitações do metrô de SP, conforme inquérito que está em julgamento na Europa?
Quem é filho da puta, senador? O profissional de imprensa independente ou amigos que desviam dinheiro do Caixa 2 do PSDB e ameaçam com chantagem se não forem defendidos?
Quem é filho da puta, senador? Quem diz a verdade ou quem vicia processos de licitação em benefício próprio, botando a mão no dinheiro público?
Quem é filho da puta, senador? Quem defende a soberania nacional ou quem entrega a riqueza do país a empresas internacionais, vendendo-as a preço de banana? E que um dia já se disse “revolucionário”?
A lista de perguntas é bem mais extensa, mas não vou maçá-lo com questões que têm a ver com a consciência dos homens que, de fato, são sinceros e honestos na sua trajetória política. Seria esse o seu caso?
Orgulho-me, sinceramente, de não pertencer ao seu grupo social e político. Entre o meu Brasil e o seu, de homens verdadeiramente “íntegros”, prefiro ser um filho da puta, mas com a dignidade de quem não se vende por trezentos dinheiros. E não sou pelego filiado ao Partido dos Trabalhadores.
O fascismo enrustido não passará!
Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrivinhador
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
A democracia que só fala com os amigos
Foi com espanto e tristeza que ouvi os xingamentos a mim dirigidos pelo senador eleito Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). Na noite de segunda-feira (25), o ex-chefe da Casa Civil do governo paulista classificou-me como “pelego e filho da puta.” A agressão verbal ocorreu antes do debate realizado pela Rede Record entre os candidatos à Presidência da República.
Ao senador, não havia, até aquele momento, dirigido nenhuma palavra. Tudo o que ele sabe de mim, naquele instante e agora, é que trabalho para a Rede Brasil Atual e para a Revista do Brasil. Parece ser suficiente para que se sinta no direito de proferir insultos: são veículos produzidos por uma empresa privada cuja receita vem da prestação de serviço (venda de anúncios e assinaturas) a pessoas físicas e jurídicas – incluindo sindicatos de trabalhadores.
Foi por conta desse aspecto que o PSDB obteve liminar, via Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vetando a continuidade da distribuição e a divulgação da edição 52 da revista na internet sob a argumentação de que dinheiro do trabalhador não pode financiar material eleitoral - este assunto já foi discutido aqui e a editora apresentou recurso ao TSE, não cabendo de minha parte qualquer argumentação.
O que a mim, como jornalista, é importante debater é a maneira como o senador se sente no direito de tratar a imprensa. É deplorável que, como repórter, tenha de me posicionar contra a agressão que sofri, deixando de exercer o fundamento básico da minha profissão, que é escrever sobre os outros, e não sobre minha vida. O único bem de um jornalista, ao menos daquele que não se presta a coleguismos com o poder, é a palavra: é ela que ouço, é com ela que conto histórias.
Quando o senador classifica a mim como “pelego filho da puta” porque trabalho em um veículo que jamais escondeu sua posição favorável à continuidade do atual projeto de governo, recorre a uma simplificação lamentável. Seguida a linha de pensamento do futuro parlamentar, todos os que trabalham em Veja, Folha, Estado e O Globo são, necessariamente, tucanos – e aí o leitor escolha o adjetivo que deve acompanhar a classificação.
A fala do senador é reveladora da propensão a não lidar com o contraditório. Talvez por maus costumes: quem circula pelos eventos políticos brasileiros sabe a cordialidade com que são tratados alguns líderes políticos, plenamente oposta à ferocidade dispensada a outros. Ao recorrer a esta simplificação, realiza-se um desmerecimento prévio de meu trabalho, numa triste tentativa de intimidação de minha atuação. Simplificação que teve continuidade no Twitter, em que o senador utilizou aspas para dizer que sou jornalista: "O 'jornalista' faz o que eu esperava dele: mente quando afirma que o xinguei de fdp. Chamei de pelego, o que é verdade e, a mim, muito pior."
O senador sabe as palavras que proferiu. Se quer admitir em público ou não, para mim é indiferente. O que não se pode colocar em dúvida é minha formação e minha integridade profissional. Sou jornalista – sem aspas – formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Minha passagem pelo Departamento de Jornalismo e Editoração, portanto, está lá registrada, caso alguém se interesse em averiguar.
Daqui por diante, como o senador espera que se proceda para entrevistar algum integrante do PSDB? Será que a democracia ideal contempla apenas a manifestação das vozes amigas (e queridas), sem espaço ao debate necessário para o amadurecimento da sociedade e, por consequência, da realização do bom jornalismo? O PSDB, que tem recorrido a simplificações para acusar adversários de quererem cercear a liberdade de pensamento, é quem mais nos fornece exemplos deste suposto cerceamento. Já não cabem nos dedos de uma mão: a restrição da circulação da Revista do Brasil, a censura ao jornal ABCD Maior, a tentativa de agressão do padre que se manifestou contra boatos, a ação no Paraná para impedir a publicação de pesquisas eleitorais, a "criminalização" de jornalistas que fazem perguntas efetivas a Serra e, agora, este xingamento.
Uma coisa é a opinião de um veículo. Outra, que não se confunde, é a opinião do jornalista. Esta, manifesto em blogues e nas redes sociais da internet, bem como outras centenas de profissionais da área, e deixo para trás quando estou na condição de repórter. Nas redações nas quais trabalhei, e há nesta lista algumas que o senador seguramente vê com bons olhos, sempre mantive minha posição de não deixar que interesses se misturem. Cumpro o compromisso de ouvir todos os lados. Como teria feito na última segunda-feira, se me tivesse sido conferida, pelo senador, tal oportunidade. Espero que, na próxima ocasião, Aloysio Nunes se mostre aberto ao diálogo. Sem ofensas, sem simplificações.
O que o senador disse no Twitter:
# O "jornalista" faz o q eu esperava dele: mente quando afirma q o xinguei de fdp. Chamei de pelego, o q é verdade e, para mim, muito pior. 35 minutes ago via TweetDeck
# O "jornalista" perguntou se eu não falava com trabalhador. Respondi: falo com trabalhador, com pelego, não falo (segue) 36 minutes ago via TweetDeck
# Revista sindical que faz campanha da Dilma, bancada por dinheiro público, quis me entrevistar na Record e eu recusei (segue) 40 minutes ago via TweetDeck
# Caros, vejo que o assunto sobre o jornalista da Rede Brasil Atual voltou ao twitter. Respondi ontem. Acho perninente repetir. Vamos lá:
João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé e repórter Rede Brasil Atual
Ao senador, não havia, até aquele momento, dirigido nenhuma palavra. Tudo o que ele sabe de mim, naquele instante e agora, é que trabalho para a Rede Brasil Atual e para a Revista do Brasil. Parece ser suficiente para que se sinta no direito de proferir insultos: são veículos produzidos por uma empresa privada cuja receita vem da prestação de serviço (venda de anúncios e assinaturas) a pessoas físicas e jurídicas – incluindo sindicatos de trabalhadores.
Foi por conta desse aspecto que o PSDB obteve liminar, via Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vetando a continuidade da distribuição e a divulgação da edição 52 da revista na internet sob a argumentação de que dinheiro do trabalhador não pode financiar material eleitoral - este assunto já foi discutido aqui e a editora apresentou recurso ao TSE, não cabendo de minha parte qualquer argumentação.
O que a mim, como jornalista, é importante debater é a maneira como o senador se sente no direito de tratar a imprensa. É deplorável que, como repórter, tenha de me posicionar contra a agressão que sofri, deixando de exercer o fundamento básico da minha profissão, que é escrever sobre os outros, e não sobre minha vida. O único bem de um jornalista, ao menos daquele que não se presta a coleguismos com o poder, é a palavra: é ela que ouço, é com ela que conto histórias.
Quando o senador classifica a mim como “pelego filho da puta” porque trabalho em um veículo que jamais escondeu sua posição favorável à continuidade do atual projeto de governo, recorre a uma simplificação lamentável. Seguida a linha de pensamento do futuro parlamentar, todos os que trabalham em Veja, Folha, Estado e O Globo são, necessariamente, tucanos – e aí o leitor escolha o adjetivo que deve acompanhar a classificação.
A fala do senador é reveladora da propensão a não lidar com o contraditório. Talvez por maus costumes: quem circula pelos eventos políticos brasileiros sabe a cordialidade com que são tratados alguns líderes políticos, plenamente oposta à ferocidade dispensada a outros. Ao recorrer a esta simplificação, realiza-se um desmerecimento prévio de meu trabalho, numa triste tentativa de intimidação de minha atuação. Simplificação que teve continuidade no Twitter, em que o senador utilizou aspas para dizer que sou jornalista: "O 'jornalista' faz o que eu esperava dele: mente quando afirma que o xinguei de fdp. Chamei de pelego, o que é verdade e, a mim, muito pior."
O senador sabe as palavras que proferiu. Se quer admitir em público ou não, para mim é indiferente. O que não se pode colocar em dúvida é minha formação e minha integridade profissional. Sou jornalista – sem aspas – formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Minha passagem pelo Departamento de Jornalismo e Editoração, portanto, está lá registrada, caso alguém se interesse em averiguar.
Daqui por diante, como o senador espera que se proceda para entrevistar algum integrante do PSDB? Será que a democracia ideal contempla apenas a manifestação das vozes amigas (e queridas), sem espaço ao debate necessário para o amadurecimento da sociedade e, por consequência, da realização do bom jornalismo? O PSDB, que tem recorrido a simplificações para acusar adversários de quererem cercear a liberdade de pensamento, é quem mais nos fornece exemplos deste suposto cerceamento. Já não cabem nos dedos de uma mão: a restrição da circulação da Revista do Brasil, a censura ao jornal ABCD Maior, a tentativa de agressão do padre que se manifestou contra boatos, a ação no Paraná para impedir a publicação de pesquisas eleitorais, a "criminalização" de jornalistas que fazem perguntas efetivas a Serra e, agora, este xingamento.
Uma coisa é a opinião de um veículo. Outra, que não se confunde, é a opinião do jornalista. Esta, manifesto em blogues e nas redes sociais da internet, bem como outras centenas de profissionais da área, e deixo para trás quando estou na condição de repórter. Nas redações nas quais trabalhei, e há nesta lista algumas que o senador seguramente vê com bons olhos, sempre mantive minha posição de não deixar que interesses se misturem. Cumpro o compromisso de ouvir todos os lados. Como teria feito na última segunda-feira, se me tivesse sido conferida, pelo senador, tal oportunidade. Espero que, na próxima ocasião, Aloysio Nunes se mostre aberto ao diálogo. Sem ofensas, sem simplificações.
O que o senador disse no Twitter:
# O "jornalista" faz o q eu esperava dele: mente quando afirma q o xinguei de fdp. Chamei de pelego, o q é verdade e, para mim, muito pior. 35 minutes ago via TweetDeck
# O "jornalista" perguntou se eu não falava com trabalhador. Respondi: falo com trabalhador, com pelego, não falo (segue) 36 minutes ago via TweetDeck
# Revista sindical que faz campanha da Dilma, bancada por dinheiro público, quis me entrevistar na Record e eu recusei (segue) 40 minutes ago via TweetDeck
# Caros, vejo que o assunto sobre o jornalista da Rede Brasil Atual voltou ao twitter. Respondi ontem. Acho perninente repetir. Vamos lá:
João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé e repórter Rede Brasil Atual
Repórter do NR e da RBA é ofendido por senador do PSDB
João Peres, nosso colaborador do NR e repórter da Rede Brasil Atual, profissional da mais alta competência teve ontem uma experiência desagradável e desrespeitosa. Ele estava na cobertura do debate entre os presidenciáveis da Record, na noite de ontem, e na entrada da emissora, como todo repórter faz e é da profissão, foi conversar com os políticos que chegavam para acompanhar o evento. O senador eleito por São Paulo, do PSDB, Aloysio Nunes, amigão do Serra, foi abordado pelo repórter que fazia a cobertura para a Rede Brasil Atual, que pertence ao mesmo grupo da Revista do Brasil, censurada recentemente pelo partido do senador em questão. Era perto da hora do debate, que começou às 23h, quando o senador eleito com mais de 11 milhões de votos indagou ao repórter:
- é ligada a quem essa revista?
- aos sindicatos
- que sindicatos? - falou a assessora do lado dele
- bancários, metalúrgicos, químicos...
- pelego, você é pelego - falou o senador
- não podemos conversar, senador?
- pelego. sua revista é financiada pelo PT...
- e a Veja, quem financia, senador?
- pelego
- que educação, senador
- pelego filha da puta. pelego filha da puta!
João me escreveu: "foi assim, gratuito. fiquei passado, triste mesmo. não que não devesse esperar isso, mas agora vai ser isso, vou ser rotulado logo de cara pelo veículo em que eu trabalho? ninguém associa a tucano-demo logo de cara um sujeito que trabalha na folha? uma noite horrível." Digo o seguinte: é preciso que os políticos respeitem o trabalho dos jornalistas. Esse clima de guerra entre PT e PSDB está doentio. João Peres é um trabalhador, um empregado de um veículo que, sim, tem ligações com os sindicatos. E daí? Isto é público e notório. Nada está escondido. Pergunto ao distinto senador: todos os metalúrgicos, químicos e afins são "filhos da puta", então? Eu sou "filho da puta" também, pois apesar de não ser petista, trabalhei na revista durante um ano. Eis mais um absurdo que se tornou estas eleições. Lastimável.
"A Editora Atitude, que publica os dois veículos (Rede Brasil Atual e Revista do Brasil), condena a postura do senador eleito e entende que liberdade de expressão não é agredir verbalmente quem está em seu direito constitucional de exercer a liberdade de imprensa, muito menos a função de um representante de um Estado no Senado Federal", diz o diretor da editora, Paulo Salvador.
Thiago Domenici, jornalista
- é ligada a quem essa revista?
- aos sindicatos
- que sindicatos? - falou a assessora do lado dele
- bancários, metalúrgicos, químicos...
- pelego, você é pelego - falou o senador
- não podemos conversar, senador?
- pelego. sua revista é financiada pelo PT...
- e a Veja, quem financia, senador?
- pelego
- que educação, senador
- pelego filha da puta. pelego filha da puta!
João me escreveu: "foi assim, gratuito. fiquei passado, triste mesmo. não que não devesse esperar isso, mas agora vai ser isso, vou ser rotulado logo de cara pelo veículo em que eu trabalho? ninguém associa a tucano-demo logo de cara um sujeito que trabalha na folha? uma noite horrível." Digo o seguinte: é preciso que os políticos respeitem o trabalho dos jornalistas. Esse clima de guerra entre PT e PSDB está doentio. João Peres é um trabalhador, um empregado de um veículo que, sim, tem ligações com os sindicatos. E daí? Isto é público e notório. Nada está escondido. Pergunto ao distinto senador: todos os metalúrgicos, químicos e afins são "filhos da puta", então? Eu sou "filho da puta" também, pois apesar de não ser petista, trabalhei na revista durante um ano. Eis mais um absurdo que se tornou estas eleições. Lastimável.
"A Editora Atitude, que publica os dois veículos (Rede Brasil Atual e Revista do Brasil), condena a postura do senador eleito e entende que liberdade de expressão não é agredir verbalmente quem está em seu direito constitucional de exercer a liberdade de imprensa, muito menos a função de um representante de um Estado no Senado Federal", diz o diretor da editora, Paulo Salvador.
Thiago Domenici, jornalista
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
O peso eleitoral da bolinha de papel, o retorno
Na edição de ontem, 21, o Jornal Nacional (e depois o Jornal da Globo) mostrou que José Serra do PSDB havia sido atingido por uma bolinha de papel e numa outra imagem, feita por um repórter da Folha de S.Paulo (do celular) por um objeto "mais pesado". O JN dedicou um bom tempo (mais de 7 minutos) para dizer que não errou na reportagem do dia anterior, questionada veementemente em blogs e redes sociais, a partir de uma reportagem do canal concorrente, o SBT, que mostrava o candidato atingido por uma bolinha de papel. Serra afirmou, não sobre a bolinha de papel, mas sobre o outro objeto (o voador não identificado), que ficou "tonto" só que não a ponto de "desmaiar". E que fez uma tomografia em seguida. Um exagero.
A questão de ser agredido é forçar a barra. A intenção é criar medo e pânico colando a ideia de que petistas e Dilma são agressivos. Lembrem-se, estamos há oito dias do pleito e a Globo, a Folha e o Estadão, nitidamente, estão em campanha por José Serra. Seria uma forma de abafar a história de Paulo Preto e desviar o foco? Concordo que errou, sim, quem jogou alguma coisa em Serra, isso é patético, mas pior é usar tal episódio para capitalizar eleitoralmente em seu favor como fez no horário eleitoral e nos eventos em que participou. Pior é ver a matéria do JN induzindo o telespectador, como bem esclarece o texto do Azenha "Em menos de 24 horas, objeto sólido que atingiu Serra encolheu de 2kg para 0,5 kg". Sem falar na sorte do repórter da Folha. Com um celular, na muvuca, captar o momento exato - com imagem pouco clara - em que o objeto voador não identificado (que o perito usado no JN diz ser uma rolo de fita) acerta o tucano.
E hoje, como se nada tivesse acontecido, a divulgação pela Folha e pela TV Globo da pesquisa realizada pelo instituto Datafolha sobre as intenções de voto à Presidência mostra a candidata Dilma Rousseff (PT) com 50% das intenções e o candidato José Serra (PSDB) com 40% - foram ouvidos 4.037 eleitores no dia 21 de outubro. Ou seja, Dilma vai a 56% dos válidos e abre 12 pontos sobre Serra. Com o episódio, eles já devem estar alucinados por outra pesquisa para ver se Dilma perde uns pontinhos - coisa que o Serra não levou na cabeça.
Reportagem do JN de ontem, 21 de outubro
Vídeo "Farsa em 6 partes" de hoje, 22 de outubro
A questão de ser agredido é forçar a barra. A intenção é criar medo e pânico colando a ideia de que petistas e Dilma são agressivos. Lembrem-se, estamos há oito dias do pleito e a Globo, a Folha e o Estadão, nitidamente, estão em campanha por José Serra. Seria uma forma de abafar a história de Paulo Preto e desviar o foco? Concordo que errou, sim, quem jogou alguma coisa em Serra, isso é patético, mas pior é usar tal episódio para capitalizar eleitoralmente em seu favor como fez no horário eleitoral e nos eventos em que participou. Pior é ver a matéria do JN induzindo o telespectador, como bem esclarece o texto do Azenha "Em menos de 24 horas, objeto sólido que atingiu Serra encolheu de 2kg para 0,5 kg". Sem falar na sorte do repórter da Folha. Com um celular, na muvuca, captar o momento exato - com imagem pouco clara - em que o objeto voador não identificado (que o perito usado no JN diz ser uma rolo de fita) acerta o tucano.
E hoje, como se nada tivesse acontecido, a divulgação pela Folha e pela TV Globo da pesquisa realizada pelo instituto Datafolha sobre as intenções de voto à Presidência mostra a candidata Dilma Rousseff (PT) com 50% das intenções e o candidato José Serra (PSDB) com 40% - foram ouvidos 4.037 eleitores no dia 21 de outubro. Ou seja, Dilma vai a 56% dos válidos e abre 12 pontos sobre Serra. Com o episódio, eles já devem estar alucinados por outra pesquisa para ver se Dilma perde uns pontinhos - coisa que o Serra não levou na cabeça.
Reportagem do JN de ontem, 21 de outubro
Vídeo "Farsa em 6 partes" de hoje, 22 de outubro
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
O peso eleitoral da bolinha de papel no cucuruto de Serra
Reportagem do SBT se opõe a da Rede Globo. Segundo a assessoria de José Serra, um “pesado objeto” o atingiu em passeata na Zona Oeste do Rio. E teria sido atirado por militantes do PT. Mas, como mostra o vídeo abaixo, se não era uma pedra e nem um rolo de adevisos, o que era? Uma bolinha de papel com peso eleitoral. As imagens, a meu ver, me parecem bem fidedignas de que nada pesado foi jogado no tucano. O presidente Lula comparou Serra ao goleiro Rojas (em alusão ao goleiro chileno Roberto Rojas que fingiu ser atingido por um morteiro em uma partida contra o Brasil) e disse que agressão é 'mentira descarada'. "A mentira que foi produzida ontem pela equipe de publicidade do candidato José Serra é uma coisa vergonhosa. Ontem deveria ser conhecido como dia da farsa, dia da mentira", disse Lula, após inaugurar um estaleiro em Rio Grande (RS). Como não poderia ser diferente, a história virou febre no twitter, com as hastags #boladepapelfacts e o #serrarojas liderando os trendtopics (espécie de ranking dos assuntos mais comentados). Já não é a primeira e nem a segunda vez que o tucano faz manobras marketeiras de impacto para impressionar negativamente o eleitor.
Virou jogo
O episódio do tumulto na caminhada no Rio de Janeiro já virou um game virtual. No joguinho, o internauta tem que acertar uma bolinha de papel na figura recortada de Serra, que se esquiva das investidas. Ao fim de 30 segundos, um resultado de tomografia indica os acertos. O fundo do jogo é a bancada do Jornal Nacional. Clique aqui para jogar. Abaixo, veja o vídeo com a reportagem do JN e do SBT.
Virou jogo
O episódio do tumulto na caminhada no Rio de Janeiro já virou um game virtual. No joguinho, o internauta tem que acertar uma bolinha de papel na figura recortada de Serra, que se esquiva das investidas. Ao fim de 30 segundos, um resultado de tomografia indica os acertos. O fundo do jogo é a bancada do Jornal Nacional. Clique aqui para jogar. Abaixo, veja o vídeo com a reportagem do JN e do SBT.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
A agenda do candidato
Perdoem-me por começar citando um lugar comum: “ninguém é perfeito”. E, por ser assim, minha amiga Alzirinha é daquelas pessoas que, sempre que se aproximam as campanhas eleitorais, se anima com a possibilidade de arranjar um bom emprego por três meses. Normalmente apresenta-se para trabalhar em algum comitê eleitoral onde durante noventa dias ou até um pouco mais, se tiver sorte, trabalha como secretária. O mais engraçado é que ela vive dizendo que não gosta de política e de políticos, mas descobriu há anos que em campanhas eleitorais rola um bom dinheiro. E é disso que a Alzirinha gosta. Mas... Ninguém é perfeito.
Desta vez ela teve sorte e foi chamada para trabalhar no comitê do candidato Serra e divide o seu trabalho de secretária com mais duas colegas. A grana é tanta que ela resolveu trocar de carro. Sorte dela. Nessas ocasiões encontramo-nos pouco, pois ela trabalha quase que dezesseis horas por dia. Mas teve folga no último domingo e convidou-me para um almoço no seu apartamento: picadinho à mineira, com ovos e tutu de feijão, receita da sua avó, nascida em Carandaí.
Já no cafezinho, à espera de um ligeiro descanso no sofá, pois ninguém é de ferro, Alzirinha atendeu a um chamado do celular. Enquanto andava pela sala de um lado para o outro, muito concentrada no tal telefonema, arrisquei dar uma espiadela na agenda da Alzirinha, aberta sobre a mesa. E vejam só o que lá estava anotado:
8:30hs – Telefonar para SF e saber como está a questão do telemarketing contra D;
9:00hs – Ligar para TJ em Fortaleza e saber como está o encontro em Canindé. Se estiver OK, saber com a gráfica de K se podem enviar os panfletos para Fortaleza;
11:00hs – Falar com secretária de AK na G e combinar entrevista no JN;
11:30hs – confirmar vôo M para Santiago. Ida 25/10;
13:00hs – almoço com empresário indicado pelo pessoal que vai estar em Foz do Iguaçu com FHC;
15:30hs – marcar encontro com o I e pedir a ele para não falar com a imprensa antes de conversar comigo;
17:00hs – avisar o O. na FSP que gostaria de conversar com a MB;
18:00hs – digitar rascunho para editorial do Estadão e ver com o JA se confere com o combinado;
21:00hs – Marcar novo encontro com TFP.
Quando ia virar a página, Alzirinha desligou o seu celular e pegou a agenda que estava em cima da mesa, mas algumas daquelas iniciais atiçaram a minha curiosidade. O leitor pode tentar também decifrar o que está escrito. Vai ser um bom passatempo.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo colunista deste NR e também do Escrivinhador
Desta vez ela teve sorte e foi chamada para trabalhar no comitê do candidato Serra e divide o seu trabalho de secretária com mais duas colegas. A grana é tanta que ela resolveu trocar de carro. Sorte dela. Nessas ocasiões encontramo-nos pouco, pois ela trabalha quase que dezesseis horas por dia. Mas teve folga no último domingo e convidou-me para um almoço no seu apartamento: picadinho à mineira, com ovos e tutu de feijão, receita da sua avó, nascida em Carandaí.
Já no cafezinho, à espera de um ligeiro descanso no sofá, pois ninguém é de ferro, Alzirinha atendeu a um chamado do celular. Enquanto andava pela sala de um lado para o outro, muito concentrada no tal telefonema, arrisquei dar uma espiadela na agenda da Alzirinha, aberta sobre a mesa. E vejam só o que lá estava anotado:
8:30hs – Telefonar para SF e saber como está a questão do telemarketing contra D;
9:00hs – Ligar para TJ em Fortaleza e saber como está o encontro em Canindé. Se estiver OK, saber com a gráfica de K se podem enviar os panfletos para Fortaleza;
11:00hs – Falar com secretária de AK na G e combinar entrevista no JN;
11:30hs – confirmar vôo M para Santiago. Ida 25/10;
13:00hs – almoço com empresário indicado pelo pessoal que vai estar em Foz do Iguaçu com FHC;
15:30hs – marcar encontro com o I e pedir a ele para não falar com a imprensa antes de conversar comigo;
17:00hs – avisar o O. na FSP que gostaria de conversar com a MB;
18:00hs – digitar rascunho para editorial do Estadão e ver com o JA se confere com o combinado;
21:00hs – Marcar novo encontro com TFP.
Quando ia virar a página, Alzirinha desligou o seu celular e pegou a agenda que estava em cima da mesa, mas algumas daquelas iniciais atiçaram a minha curiosidade. O leitor pode tentar também decifrar o que está escrito. Vai ser um bom passatempo.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo colunista deste NR e também do Escrivinhador
Ombudsman da Folha diz que jornal precisa “explicar melhor” detalhes da quebra de sigilo fiscal
Marina Amaral, jornalista e amiga das mais competentes da profissão, escreveu a ombudsman da Folha de S. Paulo, Suzana Singer, a respeito do caso do dossiê Amaury. Marina indagou. “Sra. Ombudsman, a reportagem que "sustenta" a manchete da Folha de S. Paulo de hoje (20) desmente completamente a conclusão do jornal. Se quem quebrou o sigilo foi o jornalista Amaury Jr. a serviço do Estado de Minas, pago pelo jornal, como é que se diz que a PF ligou o inquérito à pré-campanha de Dilma? Se o jornalista tentou passar isso adiante depois, não importa, já que foi como empregado do Estado de Minas que ele tomou a iniciativa de "encomendar" a quebra de sigilo. Aguardo seu comentário no jornal de domingo, grata, Marina - Assinante da Folha há mais de dez anos.”
A resposta foi. “Cara Marina, também apontei, na crítica interna, a necessidade de o jornal explicar melhor essa relação entre Estado de Minas e quebra de sigilo fiscal.”
A manchete de capa da Folha desta quarta-feira é “PF liga quebra de sigilo à pré-campanha de Dilma”. A matéria procura encontrar na revelação da PF uma comprovação do vínculo do jornalista Amaury Ribeiro Jr. com a coordenação da pré-campanha de Dilma Rousseff. Em nota recente à imprensa, a PF disse:
"Brasília/DF - Sobre as investigações para apurar suposta quebra de sigilo de dados da Receita Federal, a Polícia Federal esclarece que:
1- O fato motivador da instauração de inquérito nesta instituição, quebra de sigilo fiscal, já está esclarecido e os responsáveis identificados. O inquérito policial encontra-se em sua fase final e, depois de concluídas as diligências, será encaminhado à 12ª Vara Federal do Distrito Federal;
2- Em 120 dias de investigação, foram realizadas diversas diligências e ouvidas 37 pessoas em mais de 50 depoimentos, que resultaram, até o momento, em 7 indiciamentos;
3- A investigação identificou que a quebra de sigilo ocorreu entre setembro e outubro de 2009 e envolveu servidores da Receita Federal, despachantes e clientes que encomendavam os dados, entre eles um jornalista;
4- As provas colhidas apontam que o jornalista utilizou os serviços de levantamento de informações de empresas e pessoas físicas desde o final de 2008 no interesse de investigações próprias;
5- Os dados violados foram utilizados para a confecção de relatórios, mas não foi comprovada sua utilização em campanha política;
6- A Polícia Federal refuta qualquer tentativa de utilização de seu trabalho para fins eleitoreiros com distorção de fatos ou atribuindo a esta instituição conclusões que não correspondam aos dados da investigação."
A resposta foi. “Cara Marina, também apontei, na crítica interna, a necessidade de o jornal explicar melhor essa relação entre Estado de Minas e quebra de sigilo fiscal.”
A manchete de capa da Folha desta quarta-feira é “PF liga quebra de sigilo à pré-campanha de Dilma”. A matéria procura encontrar na revelação da PF uma comprovação do vínculo do jornalista Amaury Ribeiro Jr. com a coordenação da pré-campanha de Dilma Rousseff. Em nota recente à imprensa, a PF disse:
"Brasília/DF - Sobre as investigações para apurar suposta quebra de sigilo de dados da Receita Federal, a Polícia Federal esclarece que:
1- O fato motivador da instauração de inquérito nesta instituição, quebra de sigilo fiscal, já está esclarecido e os responsáveis identificados. O inquérito policial encontra-se em sua fase final e, depois de concluídas as diligências, será encaminhado à 12ª Vara Federal do Distrito Federal;
2- Em 120 dias de investigação, foram realizadas diversas diligências e ouvidas 37 pessoas em mais de 50 depoimentos, que resultaram, até o momento, em 7 indiciamentos;
3- A investigação identificou que a quebra de sigilo ocorreu entre setembro e outubro de 2009 e envolveu servidores da Receita Federal, despachantes e clientes que encomendavam os dados, entre eles um jornalista;
4- As provas colhidas apontam que o jornalista utilizou os serviços de levantamento de informações de empresas e pessoas físicas desde o final de 2008 no interesse de investigações próprias;
5- Os dados violados foram utilizados para a confecção de relatórios, mas não foi comprovada sua utilização em campanha política;
6- A Polícia Federal refuta qualquer tentativa de utilização de seu trabalho para fins eleitoreiros com distorção de fatos ou atribuindo a esta instituição conclusões que não correspondam aos dados da investigação."
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Revista do Brasil censurada e o PSDB mancha a democracia
A Revista do Brasil, publicação mensal da editora Atitude, na qual trabalhei durante um ano como repórter, o que muito me orgulha, com a ótima condução do editor e amigo Paulo Donizetti de Souza, está passando por maus bocados, infelizmente.
A capa da última edição, número 52, está censurada. Isso mesmo, censurada! A RB sofreu uma investida do PSDB. Na madrugada da segunda-feira, 18, o ministro Joelson Dias, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pediu a suspensão de circulação da edição que leva Dilma na capa.
A ação da coligação "O Brasil pode mais", encabeçada pelos tucanos de José Serra, foi atendida apenas em parte. Agora, entre aspas, a informação completa de Paulo Salvador, que explica o ocorrido.
"Além da Revista do Brasil, suspende a circulação do Jornal da CUT, ano 3, nº 28. Mas três itens cruciais foram negados pelo ministro Dias. A demanda dos advogados tucanos queria silenciar o Blog do Artur Henrique, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e pedia a busca e apreensão do material mencionado.
O terceiro item negado é emblemático: o PSDB queria que a questão tramitasse em segredo de Justiça. Nenhuma informação sobre o processo poderia ser divulgada, caso o pedido fosse atendido. Isso denota intenções claras do tucanato de ocultar da opinião pública a própria tentativa de restringir, ou censurar, a circulação de informações e opiniões.
A divulgação foi feita pelo site do TSE e repercutiu em sites noticiosos ao longo do dia. A Editora Gráfica Atitude, responsável pela Revista do Brasil, só poderá se pronunciar quando for comunicada oficialmente pelo órgão sobre a decisão do juiz e seus eventuais desdobramentos.
Leia mais:
Lula sobre investida contra RdB: “Neste país, ser sério é uma afronta”
Serra pediu 'segredo de justiça' para censura à Revista do Brasil
Publicidade só para os outros? (Paulo Donizetti de Souza)
Publicidade na Revista do Brasil, resposta a Folha (Petrobras, Fatos e Dados)
Suspensa distribuição de impresso feito pela CUT em favor de Dilma (TSE)
Os trabalhadores e o direito a informação (dos Diretores da Revista do Brasil)
De antemão, agradece as centenas de mensagens de apoio e de solidariedade recebidas ao longo do dia, fruto da mobilização da blogosfera. Qualquer ato dessa natureza – indispor o Judiciário contra às liberdades de imprensa e de expressão – merece no mínimo a condenação de todos os cidadãos que prezam pela democracia e pelo direito à informação.
Diferentemente de panfletos apócrifos destinados a difundir terrorismo, desinformação e baixarias das mais diversas – sejam eles de papel, eletrônicos, digitais ou virtuais –, a Revista do Brasil tem endereço, CNPJ, núcleo editorial e profissionais responsáveis. A transparência do veículo, ao expor sua opinião de forma tão clara quanto rara na imprensa brasileira, e o jornalismo independente e plural que pratica – patrimônio dos trabalhadores aos quais se destina – não merecem ser alvo de qualquer forma de cerceamento.
Quatro anos depois
A edição 52 da Revista do Brasil trazia, à capa, uma foto da candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT), com a chamada "A vez de Dilma: O país está bem perto de seguir mudando para melhor". A publicação explicita em seu editorial a posição favorável à candidatura Dilma, e traz também reportagem analisando circunstâncias da disputa do segundo turno.
O pedido de restrição de circulação de seu conteúdo assemelha-se a uma investida datada de junho de 2006. À época, o mesmo PSDB encampou pedido de suspensão de distribuição da edição número 1 da revista. Havia ainda a demanda de que a edição deixasse de ser divulgada no site da CUT e do Sindicato dos Químicos.
Repetida a investida, fica latente o lado em que estão as forças aliadas a José Serra. O lado de quem quer liberdade apenas para o tipo de imprensa e de expressão que lhes convém."
A capa da última edição, número 52, está censurada. Isso mesmo, censurada! A RB sofreu uma investida do PSDB. Na madrugada da segunda-feira, 18, o ministro Joelson Dias, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pediu a suspensão de circulação da edição que leva Dilma na capa.
A ação da coligação "O Brasil pode mais", encabeçada pelos tucanos de José Serra, foi atendida apenas em parte. Agora, entre aspas, a informação completa de Paulo Salvador, que explica o ocorrido.
"Além da Revista do Brasil, suspende a circulação do Jornal da CUT, ano 3, nº 28. Mas três itens cruciais foram negados pelo ministro Dias. A demanda dos advogados tucanos queria silenciar o Blog do Artur Henrique, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e pedia a busca e apreensão do material mencionado.
O terceiro item negado é emblemático: o PSDB queria que a questão tramitasse em segredo de Justiça. Nenhuma informação sobre o processo poderia ser divulgada, caso o pedido fosse atendido. Isso denota intenções claras do tucanato de ocultar da opinião pública a própria tentativa de restringir, ou censurar, a circulação de informações e opiniões.
A divulgação foi feita pelo site do TSE e repercutiu em sites noticiosos ao longo do dia. A Editora Gráfica Atitude, responsável pela Revista do Brasil, só poderá se pronunciar quando for comunicada oficialmente pelo órgão sobre a decisão do juiz e seus eventuais desdobramentos.
Leia mais:
Lula sobre investida contra RdB: “Neste país, ser sério é uma afronta”
Serra pediu 'segredo de justiça' para censura à Revista do Brasil
Publicidade só para os outros? (Paulo Donizetti de Souza)
Publicidade na Revista do Brasil, resposta a Folha (Petrobras, Fatos e Dados)
Suspensa distribuição de impresso feito pela CUT em favor de Dilma (TSE)
Os trabalhadores e o direito a informação (dos Diretores da Revista do Brasil)
De antemão, agradece as centenas de mensagens de apoio e de solidariedade recebidas ao longo do dia, fruto da mobilização da blogosfera. Qualquer ato dessa natureza – indispor o Judiciário contra às liberdades de imprensa e de expressão – merece no mínimo a condenação de todos os cidadãos que prezam pela democracia e pelo direito à informação.
Diferentemente de panfletos apócrifos destinados a difundir terrorismo, desinformação e baixarias das mais diversas – sejam eles de papel, eletrônicos, digitais ou virtuais –, a Revista do Brasil tem endereço, CNPJ, núcleo editorial e profissionais responsáveis. A transparência do veículo, ao expor sua opinião de forma tão clara quanto rara na imprensa brasileira, e o jornalismo independente e plural que pratica – patrimônio dos trabalhadores aos quais se destina – não merecem ser alvo de qualquer forma de cerceamento.
Quatro anos depois
A edição 52 da Revista do Brasil trazia, à capa, uma foto da candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT), com a chamada "A vez de Dilma: O país está bem perto de seguir mudando para melhor". A publicação explicita em seu editorial a posição favorável à candidatura Dilma, e traz também reportagem analisando circunstâncias da disputa do segundo turno.
O pedido de restrição de circulação de seu conteúdo assemelha-se a uma investida datada de junho de 2006. À época, o mesmo PSDB encampou pedido de suspensão de distribuição da edição número 1 da revista. Havia ainda a demanda de que a edição deixasse de ser divulgada no site da CUT e do Sindicato dos Químicos.
Repetida a investida, fica latente o lado em que estão as forças aliadas a José Serra. O lado de quem quer liberdade apenas para o tipo de imprensa e de expressão que lhes convém."
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Marinanomuro
Carvall, Ilustrador e caricaturista, colaborador do NR, também habita na ONG PI. Mais uma garatuja das eleições. O Marinômetro pifou.
Serra, Caô Caô e as propostas na era tuiteira
Tucano, talvez por soberba, resume em 140 caracteres suas propostas, que, analisadas a fundo, mostram despreparo exatamente de quem se orgulha de um passado acadêmico tão belo
É interessante tentar analisar a fundo as propostas do candidato do PSDB à Presidência, José Serra. É bom analisar a fundo essas promessas exatamente porque elas não têm fundo. São rasas. São propostas que estão de acordo com este momento do mundo em que alguém consegue expressar todo um pensamento em 140 toques.
Não quero, com isso, dizer que Serra tem grande capacidade de síntese. Não tem. Assim como não tem propostas que devam ser levadas a sério. As propostas de Serra são tuiteiras, se resumem a uma, duas linhas: salário mínimo a R$ 600, 13º para beneficiários do Bolsa Família e reajuste de 10% para as aposentadorias.
Estive, nestas eleições, em alguns eventos com a presença do tucano. Não foram raras as ocasiões em que, perguntado sobre como levaria adiante determinada proposta, Serra falou coisas do gênero “Não sei, precisa estudar, analisar, mas dá pra fazer”. Assim, em 52 caracteres, Serra resume seu pensamento.
E, para quem está um cadinho mais atento, entrega seu despreparo. O ex-governador, que tanto se orgulha de seu passado acadêmico, parece não ter estudado o suficiente para ser presidente do país. É esperado que um candidato, ainda mais um que figura entre os favoritos, tenha clareza em suas propostas e possa explicá-las a fundo, inclusive apontando de que forma e com que dinheiro seriam executadas. Serra, não sei se por soberba, não sabe fazê-lo.
Quando recebe uma pergunta desfavorável, sai-se com simplificações demonizantes, como a que ocorreu na última semana, quando acusou o repórter do Valor Econômico – publicação das organizações Globo – de “fazer capa para a propaganda do PT”. Um grunhido de 34 caracteres, emburrecedor do debate, mas que se presta àquilo que deseja o PSDB em uma era em que propostas tuiteiras são aceitas como verdades inteiras.
Agrotóxico genérico
Poderia citar inúmeras aqui e mostrar como nenhuma passa de duas ou três frases. Fico apenas com a última, e sugiro ao leitor que preste atenção daqui por diante nesta característica serrista. No sábado (16), o tucano defendeu suas propostas para a agricultura. Falou que vai criar o “agrotóxico genérico”. Isso mesmo. Ou Serra é desinformado ou aposta na desinformação dos brasileiros. Se bem entendi este grunhido, a ideia é um agrotóxico sem patente. Oras, é evidente que se trata de algo absolutamente impossível para um neoliberal: Monsanto e suas parceiras fabricantes de venenos mandam em boa parte do Congresso, em especial nas bancadas de DEM, PSDB e PMDB. Parece que Serra, de tanto gostar dos remédios genéricos, resolveu adotar as propostas genéricas.
Caô Caô
Com tantas promessas, impossível deixar de lembrar do mítico personagem construído por Bezerra da Silva em “Candidato Caô Caô”. Com sua inigualável simplicidade, Bezerra descreve o candidato que sobe o morro sem gravata, diz que gosta da raça, toma cachaça e até dá um tapinha. Mostrando que é mesmo do povão, vai lá na macumba pedir ajuda e... o tiro sai pela culatra:
A entidade que estava incorporada
Disse esse político é safado
Cuidado na hora de votar
Também disse:
Meu irmão se liga
No que eu vou lhe dizer
Hoje ele pede seu voto
Amanhã manda a polícia lhe bater
A diferença é que Serra, em vez da macumba, vai à igreja, papa-hóstia e reza o Pai Nosso como nunca. Mas apareceu um padre lá no Ceará que resolveu incorporar a entidade de Bezerra e recusar o uso político da religião. Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB e grunhidor profissional, resumiu em menos de 140 caracteres tratar-se de um “padre petista” que “provoca problemas à igreja”. Só um pouquinho de tanta verdade. Só um grunhido contra a mentira. Como diriam os cariocas, contra o caô. Como diria Serra, contra o trololó.
Último Grunhido
Serra, no último debate do primeiro turno, afirmou em 350 toques que São Luiz do Paraitinga, cidade do interior paulista devastada pelas enchentes, está reconstruída. “De tudo que tinha de mais importante já foi entregue”, resumiu. Estive em São Luiz. Precisei de mais de 350 toques para explicar que a cidade está longe da reconstrução.
João Peres é jornalista e colunista do NR
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Lula ministro de Dilma na Casa Civil?
Editorial do jornal Brasil Atual, assinado pelo amigo e jornalista João de Barros, o Jotabê, terá 1 milhão de exemplares a sair antes do segundo turno. Ele provoca com uma ideia que deixo para vocês comentarem, a de que Dilma deveria anunciar Lula como seu ministro da Casa Civil.
Editorial – Jornal Brasil Atual
"O povo brasileiro tem muito a comemorar. Os últimos oito anos foram extraordinários para o país. Pagamos a dívida externa, o risco-país despencou, a inflação também, encontramos um monte de petróleo, o salário mínimo subiu bastante e equivale hoje a 300 dólares, tivemos mais empregos, construímos casas, demos luz para o povo, a educação e a saúde melhoraram, enfim, a lista é extensa é obra de muita gente, mas em particular de duas pessoas: Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef.
O país está resolvido? Não. Há muito a fazer. A corrupção continua sendo o nosso pior mal. Mas quem foi apanhado com a mão na cumbuca presta contas à Justiça. Outra coisa: a candidata Dilma Roussef deveria anunciar logo o presidente Lula como seu futuro ministro da Casa Civil. Ele teria o mesmo papel no governo dela que ela teve no governo dele. Essa via de mão dupla acabaria de vez com a boataria que se fez em torno da sucessão.
Além do mais, o povo aplaudiria demais essa decisão. Seria uma bela forma de manter em campo um time que está ganhando – e de goleada – há oito anos, não é mesmo? Ou você quer que o Brasil entregue o jogo?
Então, nosso próximo passo é esse: dia 31 de outubro, é Dilma, 13, presidente!"
Editorial – Jornal Brasil Atual
"O povo brasileiro tem muito a comemorar. Os últimos oito anos foram extraordinários para o país. Pagamos a dívida externa, o risco-país despencou, a inflação também, encontramos um monte de petróleo, o salário mínimo subiu bastante e equivale hoje a 300 dólares, tivemos mais empregos, construímos casas, demos luz para o povo, a educação e a saúde melhoraram, enfim, a lista é extensa é obra de muita gente, mas em particular de duas pessoas: Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef.
O país está resolvido? Não. Há muito a fazer. A corrupção continua sendo o nosso pior mal. Mas quem foi apanhado com a mão na cumbuca presta contas à Justiça. Outra coisa: a candidata Dilma Roussef deveria anunciar logo o presidente Lula como seu futuro ministro da Casa Civil. Ele teria o mesmo papel no governo dela que ela teve no governo dele. Essa via de mão dupla acabaria de vez com a boataria que se fez em torno da sucessão.
Além do mais, o povo aplaudiria demais essa decisão. Seria uma bela forma de manter em campo um time que está ganhando – e de goleada – há oito anos, não é mesmo? Ou você quer que o Brasil entregue o jogo?
Então, nosso próximo passo é esse: dia 31 de outubro, é Dilma, 13, presidente!"
“Subo no palanque com o capeta se for preciso”
Dilma acena com a possibilidade de uma carta na qual se compromete em não apoiar o casamento gay. Serra, esperto, diz que é a favor do casamento civil entre homossexuais. Dizem duas coisas diferentes, mas na olhada rápida de notícias, pareciam falar sobre a mesma coisa. A primeira falava sobre o casamento religioso, enquanto o segundo se referia aos direitos civis – coisa que já existe. Há questão de 3 dias atrás, o rumo do país dependia da descriminalização ou não do aborto.
A que pontos chegamos. Essa pequenez de propostas reflete não só o que sobrou para escolhermos, como o que pensam estes pequenos a respeito da sociedade brasileira. Essa agenda settting ética e moral religiosa (ambas as questões, o aborto e a união homossexual são dessa ordem) ora é proposta pelos candidatos, ora é enlatada e distribuída em massa. Tudo isso porque dizem que Dilma não ganhou de prima por conta dos religiosos.
E Deus volta com tudo neste 2º turno que, ironicamente, deixou a única evangélica declarada de fora. Aliás, justo ela, que se mostrou a menos fervorosa e mais disposta à construção de um estado laico.
Dispostos a tudo agora em nome de Deus, ambos possam de santo para levar a eleição. Na realpolitik, ideologia é coisa de moleque comunista. Não importa o que se acredita, importa o que faz pensarem de você. É isso que elege. Subirão no palanque até com o capeta se for preciso. Perdo-ai-vos senhor, não sabem o que dizem.
Diogo Ruic, jornalista e editor assistente do NR, gosta de Deus, mas não usa de sua fé em vão.
A que pontos chegamos. Essa pequenez de propostas reflete não só o que sobrou para escolhermos, como o que pensam estes pequenos a respeito da sociedade brasileira. Essa agenda settting ética e moral religiosa (ambas as questões, o aborto e a união homossexual são dessa ordem) ora é proposta pelos candidatos, ora é enlatada e distribuída em massa. Tudo isso porque dizem que Dilma não ganhou de prima por conta dos religiosos.
E Deus volta com tudo neste 2º turno que, ironicamente, deixou a única evangélica declarada de fora. Aliás, justo ela, que se mostrou a menos fervorosa e mais disposta à construção de um estado laico.
Dispostos a tudo agora em nome de Deus, ambos possam de santo para levar a eleição. Na realpolitik, ideologia é coisa de moleque comunista. Não importa o que se acredita, importa o que faz pensarem de você. É isso que elege. Subirão no palanque até com o capeta se for preciso. Perdo-ai-vos senhor, não sabem o que dizem.
Diogo Ruic, jornalista e editor assistente do NR, gosta de Deus, mas não usa de sua fé em vão.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Voltam as chiliquentas das eleições
As chiliquentas têm se tornado figuras frequentes nas eleições brasileiras. Não preciso enumerá-las. Gostaria apenas de falar da última aparição dessa espécie de “formador de opinião”.
Fui deprimentemente apresentado ao vídeo (abaixo) da participação do comediante Marcelo Madureira, de Casseta&Planeta, no Manhattan Conection, do canal GNT. Durante alguns segundos, o também integrante do Instituto Millenium destila desaforos ao presidente. Chama Lula de “vagabundo” e “picareta”.
Madureira, de uns anos pra cá sabemos, integra o Clube dos 4%. São aqueles 4% que acham o governo Lula ruim ou péssimo – único ponto aparente de consenso entre as pesquisas Ibope, Datafolha, Vox Populi e Sensus. Mas nenhum deles consegue apresentar um motivo. Unzinho.
“O pior destes oito anos de governo Lula foi transformar a política definitivamente numa coisa de chacota” é tudo o que consegue falar o comediante. Madureira, demorou oito anos para você conseguir elaborar uma frase de efeito, uma “crítica” ao governo Lula?
O Clube dos 4% não consegue entender que um metalúrgico tenha governado melhor o país do que eles fizeram ao longo de 502 anos (talvez 504). O comediante está entre os 4% que acreditam que Lula quer cercear a liberdade de imprensa. Madureira, você acredita honestamente que um presidente que aguentou ser chamado de mula (que trocadalho, hein?) durante oito anos quer censurar alguma coisa?
As piadas do Casseta&Planeta, que se confundem com os “argumentos” desta gente, foram sempre as mesmas. Lula teve as seguintes opções: burro e vagabundo (preconceito de classe), incapaz de falar o português das elites (novamente, preconceito de classe), piada com a perda do dedo mindinho (preconceito físico, outrora chamado de fascismo), bêbado (como definir uma dessas?). Passaram-se oito anos, Madureira, e vocês não conseguiram renovar o estoque de piadas. Será que é o presidente que tem preguiça?
João Peres é jornalista e colunista do NR
Fui deprimentemente apresentado ao vídeo (abaixo) da participação do comediante Marcelo Madureira, de Casseta&Planeta, no Manhattan Conection, do canal GNT. Durante alguns segundos, o também integrante do Instituto Millenium destila desaforos ao presidente. Chama Lula de “vagabundo” e “picareta”.
Madureira, de uns anos pra cá sabemos, integra o Clube dos 4%. São aqueles 4% que acham o governo Lula ruim ou péssimo – único ponto aparente de consenso entre as pesquisas Ibope, Datafolha, Vox Populi e Sensus. Mas nenhum deles consegue apresentar um motivo. Unzinho.
“O pior destes oito anos de governo Lula foi transformar a política definitivamente numa coisa de chacota” é tudo o que consegue falar o comediante. Madureira, demorou oito anos para você conseguir elaborar uma frase de efeito, uma “crítica” ao governo Lula?
O Clube dos 4% não consegue entender que um metalúrgico tenha governado melhor o país do que eles fizeram ao longo de 502 anos (talvez 504). O comediante está entre os 4% que acreditam que Lula quer cercear a liberdade de imprensa. Madureira, você acredita honestamente que um presidente que aguentou ser chamado de mula (que trocadalho, hein?) durante oito anos quer censurar alguma coisa?
As piadas do Casseta&Planeta, que se confundem com os “argumentos” desta gente, foram sempre as mesmas. Lula teve as seguintes opções: burro e vagabundo (preconceito de classe), incapaz de falar o português das elites (novamente, preconceito de classe), piada com a perda do dedo mindinho (preconceito físico, outrora chamado de fascismo), bêbado (como definir uma dessas?). Passaram-se oito anos, Madureira, e vocês não conseguiram renovar o estoque de piadas. Será que é o presidente que tem preguiça?
João Peres é jornalista e colunista do NR
domingo, 10 de outubro de 2010
Ou abortamos o aborto, ou abortamos o Brasil
Como havia feito no primeiro turno, afirmo meu voto em Dilma Rousseff nesta enquete do Nota de Rodapé. Como havia feito no primeiro turno, reafirmo que apenas a terrível campanha de desinformação pode vencer a petista.
Se as eleições forem (fossem?) sérias e houvesse real debate de propostas, não haveria como este governo ser derrotado para um representante das ideias da década passada. Mas, como pontuei em coluna para este blogue antes do começo das eleições, se o governo Lula perder, terá perdido para sua falta de ousadia. Uma gestão com tamanha aprovação tinha a obrigação de promover mudanças estruturais. Uma das mais prementes é o câmbio radical no setor de comunicação.
Daqui por diante, em nome da elevação do nível do debate, deixo os leitores com as palavras da professora e filósofa Marilena Chaui, que seguramente tem argumentos mais bem trabalhados que os meus. Na sexta-feira (8), Marilena esteve em um ato pró-Dilma, no qual manifestou a necessidade de combater a agenda da mídia comercial e as velhas oligarquias do agronegócio, e de reforçar a democracia.
“Temos que impedir que três famílias pautem a agenda desse processo eleitoral. Quando digo que essas três famílias, que confundem seus lucros no mercado com a liberdade de expressão, porque é isso que acontece, a mídia está querendo agendar a temática desse processo eleitoral. E o que entra é a controvertida questão do aborto”, afirmou a professora, que considera que Serra é um candidato sem programa: “A ausência desse programa faz com que se procure inventar um assunto que possa ocupar a opinião pública, sobretudo por intermédio de uma intervenção de tipo religioso.”
Serra, oportunista, é agora religioso e ambientalista. Sobre o primeiro, não há necessidade de tecer comentários. Sobre o segundo, basta lembrar as obras do Rodoanel e da ampliação da Marginal do Rio Tietê. Mananciais e árvores? Não, Serra é da turma do cimento. Ou alguém que cogitou ter como vice Kátia Abreu, pilar-mor da bancada ruralista no Congresso, pode ser ambientalista?
Oras, o Brasil está saindo lentamente da longa noite dos quinhentos anos. Os trabalhadores, pela primeira vez, não têm de se agachar aos patrões – bem pelo contrário. O país, pela primeira vez, não tem de se agachar aos interesses de outras nações. Então, ou se aborta essa discussão oportunista sobre o aborto, ou acabaremos por abortar a conquista de nossa soberania. Por consequência, será abortado o fim da longa noite dos quinhentos anos. Voltaremos ao tempo em que mandavam os outros?
Único PS: está no pé da matéria sobre a pesquisa Datafolha, mas está: apenas 10% ainda cogitam mudar o voto. Como a diferença entre Dilma e Serra é de oito pontos, e o ponto que passa de um vai pra outro, as eleições, em tese, estão praticamente definidas. Mas, como o Datafolha conversa com gente de opinião volátil, tudo pode mudar. Principalmente na pesquisa de 30 de outubro.
João Peres é jornalista e colunista do NR
Se as eleições forem (fossem?) sérias e houvesse real debate de propostas, não haveria como este governo ser derrotado para um representante das ideias da década passada. Mas, como pontuei em coluna para este blogue antes do começo das eleições, se o governo Lula perder, terá perdido para sua falta de ousadia. Uma gestão com tamanha aprovação tinha a obrigação de promover mudanças estruturais. Uma das mais prementes é o câmbio radical no setor de comunicação.
Daqui por diante, em nome da elevação do nível do debate, deixo os leitores com as palavras da professora e filósofa Marilena Chaui, que seguramente tem argumentos mais bem trabalhados que os meus. Na sexta-feira (8), Marilena esteve em um ato pró-Dilma, no qual manifestou a necessidade de combater a agenda da mídia comercial e as velhas oligarquias do agronegócio, e de reforçar a democracia.
“Temos que impedir que três famílias pautem a agenda desse processo eleitoral. Quando digo que essas três famílias, que confundem seus lucros no mercado com a liberdade de expressão, porque é isso que acontece, a mídia está querendo agendar a temática desse processo eleitoral. E o que entra é a controvertida questão do aborto”, afirmou a professora, que considera que Serra é um candidato sem programa: “A ausência desse programa faz com que se procure inventar um assunto que possa ocupar a opinião pública, sobretudo por intermédio de uma intervenção de tipo religioso.”
Serra, oportunista, é agora religioso e ambientalista. Sobre o primeiro, não há necessidade de tecer comentários. Sobre o segundo, basta lembrar as obras do Rodoanel e da ampliação da Marginal do Rio Tietê. Mananciais e árvores? Não, Serra é da turma do cimento. Ou alguém que cogitou ter como vice Kátia Abreu, pilar-mor da bancada ruralista no Congresso, pode ser ambientalista?
Oras, o Brasil está saindo lentamente da longa noite dos quinhentos anos. Os trabalhadores, pela primeira vez, não têm de se agachar aos patrões – bem pelo contrário. O país, pela primeira vez, não tem de se agachar aos interesses de outras nações. Então, ou se aborta essa discussão oportunista sobre o aborto, ou acabaremos por abortar a conquista de nossa soberania. Por consequência, será abortado o fim da longa noite dos quinhentos anos. Voltaremos ao tempo em que mandavam os outros?
Único PS: está no pé da matéria sobre a pesquisa Datafolha, mas está: apenas 10% ainda cogitam mudar o voto. Como a diferença entre Dilma e Serra é de oito pontos, e o ponto que passa de um vai pra outro, as eleições, em tese, estão praticamente definidas. Mas, como o Datafolha conversa com gente de opinião volátil, tudo pode mudar. Principalmente na pesquisa de 30 de outubro.
João Peres é jornalista e colunista do NR
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Objetividade em guerra (midiática) é pólvora
Depois do soco no estômago dado pelo filme Cidade de Deus, que mostrou a realidade da favela de uma maneira jamais vista no cinema brasileiro, pensei que nunca mais seria surpreendida com o retrato desta realidade. Mas Tropa de Elite veio aí e, mais uma vez, tirou o meu ar. Não pela violência instaurada na cidade do Rio de Janeiro, tão evidente no cotidiano carioca, mas pelo nível de barbárie que a película evidenciou.
Acontece que quem crê de verdade no Brasil, sempre pode se surpreender um pouco mais. Essa foi a sensação que permeou certa tarde de trabalho do meu cotidiano no jornalismo. Buscava executar a função a qual me proponho há quase um ano, educar pela notícia. O segundo turno da eleição presidencial de 2010 estava confirmado e eu precisava falar sobre ele.
Avaliei que, para o meu público, estudantes colegiais, à beira do vestibular, essa seria uma boa oportunidade para fazer um resgate de sentido de democracia no berço de nossa civilização, a Grécia Antiga, antes mesmo da Era Cristã. A democracia como meio de se alcançar a liberdade e, consequentemente, a felicidade, indissociáveis no universo grego. Algo bastante distante da esquizofrenia eleitoral que vivenciamos a cada dois anos.
Relacionei o debate eleitoral com as discussões públicas que aconteciam nas Ágoras gregas, espaços da pólis destinados ao verdadeiro exercício da política, onde os cidadãos se encontravam não para cobrar de seus representantes seus desejos pessoais, mas para construir, em grupo, respostas aos problemas da coletividade. Sinceramente acreditei que dessa forma estaria contribuindo para o entendimento do verdadeiro sentido de democracia.
Mas fui traída por outra prática do universo grego: o sofismo, capaz de negar até o que se vê. Na ânsia de aproveitar o gancho da eleição – jargão usado no jornalismo - para levar a política para a sala de aula, colocando o momento como algo positivo, do ponto de vista do debate de ideias (espero que algum dia também de ideologias), não me dei conta que estava, na verdade, criando argumentos para quem eu não tinha interesse algum em beneficiar: a ala azul do partidarismo.
Como bem avisou Capitão Nascimento, o narrador onisciente do filme Tropa de Elite, enquanto membros de uma ONG que atuava dentro da favela eram capturados e mortos de forma estúpida pelos traficantes da comunidade beneficiada pelos ativistas (ela com um tiro na testa, ele em chamas aprisionado em uma pilha de pneus), “só ativista burguês com consciência social para não entender que guerra, é guerra”.
A cena do filme, que revi no dia seguinte à publicação da minha matéria, me transportou direto para o universo midiático, ao qual estou completamente enraizada. Percebi que eu havia contribuído, ainda que de modo inocente (e no jornalismo a inocência não tem perdão), para engrossar o coro do “agora sim vamos poder realmente conhecer os candidatos”. Coro este que no dia seguinte à nova rodada eleitoral trouxe à baila, de maneira bastante desonesta, o passado guerrilheiro da candidata vermelha.
Embora a imparcialidade seja utopia a qual eu tenha lançado mão ainda na faculdade de jornalismo, assim como muitos colegas, fiz um compromisso comigo e com meus leitores há anos da busca honesta pela objetividade.
A minha surpresa foi ser confrontada pela minha própria consciência de que, guerra, ainda que midiática, é guerra. Nela, não há certo e errado. O que há são apenas lados da trincheira. O ensinamento tardio me fez perceber que, se a imparcialidade é utopia da razão, a objetividade tampouco tem posto isento na guerra da informação. Ta aí o caso da psicanalista Maria Rita Kehl para evidenciar tudo isso e um pouco mais. Porque quem crê no Brasil, pode sempre se surpreender um pouco mais.
Carolina Lopes é jornalista, editora do site www.jornalismoeducativo.com.br, especial para o NR
Acontece que quem crê de verdade no Brasil, sempre pode se surpreender um pouco mais. Essa foi a sensação que permeou certa tarde de trabalho do meu cotidiano no jornalismo. Buscava executar a função a qual me proponho há quase um ano, educar pela notícia. O segundo turno da eleição presidencial de 2010 estava confirmado e eu precisava falar sobre ele.
Avaliei que, para o meu público, estudantes colegiais, à beira do vestibular, essa seria uma boa oportunidade para fazer um resgate de sentido de democracia no berço de nossa civilização, a Grécia Antiga, antes mesmo da Era Cristã. A democracia como meio de se alcançar a liberdade e, consequentemente, a felicidade, indissociáveis no universo grego. Algo bastante distante da esquizofrenia eleitoral que vivenciamos a cada dois anos.
Relacionei o debate eleitoral com as discussões públicas que aconteciam nas Ágoras gregas, espaços da pólis destinados ao verdadeiro exercício da política, onde os cidadãos se encontravam não para cobrar de seus representantes seus desejos pessoais, mas para construir, em grupo, respostas aos problemas da coletividade. Sinceramente acreditei que dessa forma estaria contribuindo para o entendimento do verdadeiro sentido de democracia.
Mas fui traída por outra prática do universo grego: o sofismo, capaz de negar até o que se vê. Na ânsia de aproveitar o gancho da eleição – jargão usado no jornalismo - para levar a política para a sala de aula, colocando o momento como algo positivo, do ponto de vista do debate de ideias (espero que algum dia também de ideologias), não me dei conta que estava, na verdade, criando argumentos para quem eu não tinha interesse algum em beneficiar: a ala azul do partidarismo.
Como bem avisou Capitão Nascimento, o narrador onisciente do filme Tropa de Elite, enquanto membros de uma ONG que atuava dentro da favela eram capturados e mortos de forma estúpida pelos traficantes da comunidade beneficiada pelos ativistas (ela com um tiro na testa, ele em chamas aprisionado em uma pilha de pneus), “só ativista burguês com consciência social para não entender que guerra, é guerra”.
A cena do filme, que revi no dia seguinte à publicação da minha matéria, me transportou direto para o universo midiático, ao qual estou completamente enraizada. Percebi que eu havia contribuído, ainda que de modo inocente (e no jornalismo a inocência não tem perdão), para engrossar o coro do “agora sim vamos poder realmente conhecer os candidatos”. Coro este que no dia seguinte à nova rodada eleitoral trouxe à baila, de maneira bastante desonesta, o passado guerrilheiro da candidata vermelha.
Embora a imparcialidade seja utopia a qual eu tenha lançado mão ainda na faculdade de jornalismo, assim como muitos colegas, fiz um compromisso comigo e com meus leitores há anos da busca honesta pela objetividade.
A minha surpresa foi ser confrontada pela minha própria consciência de que, guerra, ainda que midiática, é guerra. Nela, não há certo e errado. O que há são apenas lados da trincheira. O ensinamento tardio me fez perceber que, se a imparcialidade é utopia da razão, a objetividade tampouco tem posto isento na guerra da informação. Ta aí o caso da psicanalista Maria Rita Kehl para evidenciar tudo isso e um pouco mais. Porque quem crê no Brasil, pode sempre se surpreender um pouco mais.
Carolina Lopes é jornalista, editora do site www.jornalismoeducativo.com.br, especial para o NR
A questão Tiririca, não sejamos injustos com o palhaço
Se o caro leitor consultar os dicionários Houassis e Aurélio e procurar pelo verbete Tiririca, lá encontrará mais significados do que os conhecidos e tradicionais, aqueles que identificam o termo genericamente como sendo erva daninha, embora elas sejam várias. E, uma vez adjetivado, o termo tem também o significado de raivoso, de “fulo da vida”. Surpreendi-me com outros significados, como o de determinado tipo de onda que se faz num rio do Estado do Pará, ou da designação dada a um determinado tipo de canivete. Ou ainda, vejam só, o de punguista, batedor de carteira.
Fora dos dicionários, contudo, o verbete se metamorfoseou um dia em nome artístico do cidadão brasileiro Francisco Everaldo Oliveira Silva, nascido em Itapipoca, Ceará, e que se transformou também para milhões de espectadores em humorista e palhaço simplório, além de cantor irreverente. O apelido, depois transformado em nome artístico, foi colocado pela própria mãe, por considerá-lo um menino nervoso.
Leia também:
- Tem um palhaço puxando o circo, por Diogo Ruic
- Ô abestado, por Thiago Domenici
De razoável a grande sucesso entre crianças e as camadas mais populares da sociedade brasileira, sua carreira foi projetada e alimentada pela mídia, em particular por canais de televisão e seus produtores e diretores, cujos programas são muitas vezes patrocinados por alguns de nossos grandes anunciantes. Ao povo, pão e circo, principalmente o circo, quando o pão escasseia. O sucesso mediático encobre interesses comerciais e absolve as várias celebridades de algumas mazelas e pecadilhos. A história da indústria do entretenimento está cheia de exemplos iguais aos de Tiririca.
Pois bem, o cidadão Francisco Everaldo, sabendo da sua popularidade, pensou que poderia se candidatar a deputado federal e, dentro dos seus critérios e avaliações políticas, carrear sua popularidade para a conquista de votos, pensamento razoável para quem já vira florescer outros exemplos do gênero à sua volta. Se for ou não analfabeto, como se pretende provar agora, talvez tenha levado em conta na sua avaliação pessoal o fato de que analfabeto pode votar. Portanto, se pode votar, pode ser votado também. Ou não? Ou para analfabetos só existem deveres e não direitos?
Ah! Mas para ser deputado ou senador é preciso saber ler, escrever... É preciso interpretar leis e até redigi-las, quem sabe? É preciso ter compostura, ética, boa apresentação pessoal. Será mesmo? Já não passaram pelo Congresso Nacional outras ervas daninhas? Outros homens raivosos? E até punguistas de dedos leves contra o patrimônio nacional? Quantos Tiriricas já foram eleitos no Brasil?
O caso de Francisco Everaldo Oliveira Silva, é mais um daqueles casos que trazem à tona o preconceito que guardamos escondidinho lá no fundo da nossa consciência, mesmo quando a razão nos exige a possibilidade de buscar um país com mais dignidade em sua vida política. Não sejamos tão injustos com o palhaço Tiririca. Ele não seria o primeiro a frequentar o Congresso Nacional.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo, colunista do Nota de Rodapé e do site ESCREVINHADOR.
Fora dos dicionários, contudo, o verbete se metamorfoseou um dia em nome artístico do cidadão brasileiro Francisco Everaldo Oliveira Silva, nascido em Itapipoca, Ceará, e que se transformou também para milhões de espectadores em humorista e palhaço simplório, além de cantor irreverente. O apelido, depois transformado em nome artístico, foi colocado pela própria mãe, por considerá-lo um menino nervoso.
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- Tem um palhaço puxando o circo, por Diogo Ruic
- Ô abestado, por Thiago Domenici
De razoável a grande sucesso entre crianças e as camadas mais populares da sociedade brasileira, sua carreira foi projetada e alimentada pela mídia, em particular por canais de televisão e seus produtores e diretores, cujos programas são muitas vezes patrocinados por alguns de nossos grandes anunciantes. Ao povo, pão e circo, principalmente o circo, quando o pão escasseia. O sucesso mediático encobre interesses comerciais e absolve as várias celebridades de algumas mazelas e pecadilhos. A história da indústria do entretenimento está cheia de exemplos iguais aos de Tiririca.
Pois bem, o cidadão Francisco Everaldo, sabendo da sua popularidade, pensou que poderia se candidatar a deputado federal e, dentro dos seus critérios e avaliações políticas, carrear sua popularidade para a conquista de votos, pensamento razoável para quem já vira florescer outros exemplos do gênero à sua volta. Se for ou não analfabeto, como se pretende provar agora, talvez tenha levado em conta na sua avaliação pessoal o fato de que analfabeto pode votar. Portanto, se pode votar, pode ser votado também. Ou não? Ou para analfabetos só existem deveres e não direitos?
Ah! Mas para ser deputado ou senador é preciso saber ler, escrever... É preciso interpretar leis e até redigi-las, quem sabe? É preciso ter compostura, ética, boa apresentação pessoal. Será mesmo? Já não passaram pelo Congresso Nacional outras ervas daninhas? Outros homens raivosos? E até punguistas de dedos leves contra o patrimônio nacional? Quantos Tiriricas já foram eleitos no Brasil?
O caso de Francisco Everaldo Oliveira Silva, é mais um daqueles casos que trazem à tona o preconceito que guardamos escondidinho lá no fundo da nossa consciência, mesmo quando a razão nos exige a possibilidade de buscar um país com mais dignidade em sua vida política. Não sejamos tão injustos com o palhaço Tiririca. Ele não seria o primeiro a frequentar o Congresso Nacional.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo, colunista do Nota de Rodapé e do site ESCREVINHADOR.
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