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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Here, There and Everywhere – os dilemas de uma “esquerda pragmática”

por Nina Madsen, de Washington, DC

E finalmente chega a vez de Hillary. A pré-candidatura esperada, tentada, adiada e cozinhada por tantos anos, apresentou-se alguns dias atrás. Sem muito alarde, com um vídeo na rede seguido por uma agenda de viagens para encontros e diálogos com a sociedade americana.

Logo que cheguei por aqui, os noticiários exploravam, à exaustão, a história da conta de e-mail – em algum momento, no início da gestão Obama, Hillary tomou a estranha decisão de usar apenas uma conta de e-mail, a sua pessoal, para administrar mensagens oficiais e mundanas. Seria um ato de ingenuidade atroz, não tivesse vindo dela, de dentro da Casa Branca.

Mas o fato é que a história veio a público e virou um pequeno escândalo, com alto potencial desestabilizador. Para meus olhos, tinha pinta de sangria de pré-candidata. Mas não colou e ela seguiu, como se, agora, nada nem ninguém pudesse detê-la. E a pré-candidatura se anuncia quase que definitiva pelo Partido Democrata. Nenhuma outra se emparelha, não há real disputa no horizonte.

Fato praticamente consumado, começa assim o primeiro ato.

À esquerda de Hillary, as pedras vem com força. “O menos pior de dois males” [uma referência a ela e ao Republicano Rand Paul] e “cínica oportunista” foram duas que catei dia desses ouvindo o rádio. As comparações com Margaret Thatcher abundam e, francamente, só fazem denunciar a absurda escassez de referências femininas nos altos postos de liderança política mundo afora. Todas se parecem com Thatcher, uma incrível coincidência...

Acusam Hillary de estar à direita de Obama, e de representar uma ala do Partido Democrata mais aberta ao livre mercado (como se houvesse alguma força política realmente opositora a ele por essas bandas...) e até algumas bandeiras republicanas, como a revisão do “ObamaCare”, por exemplo. As defesas são mais tímidas e contidas que os ataques. Não negam esse posicionamento da candidata, mas o definem como o necessário pragmatismo que os tempos atuais exigem. Soa familiar?

Os mais esperançosos afirmam que surpresas podem aparecer pelo caminho. Um artigo da revista The New Yorker (veja aqui), por exemplo, menciona a possibilidade de um programa político desenvolvido a partir dos insumos de um amplo e denso relatório do Center for American Progress (CAP) sobre a situação geral das desigualdades do país. Trata-se de um documento que apresenta propostas como o aumento do salário mínimo e o fortalecimento de sindicatos como caminhos a serem adotados.

E há as que defendem sua candidatura pela oportunidade da conquista histórica de se ter uma mulher à frente da Casa Branca. Sabemos bem que, em se tratando do avanço de uma agenda política feminista e progressista, não basta com mais mulheres no poder se essas mulheres não se comprometem com essa agenda. Mas a promessa de Hillary é a de fazer da “igualdade de gênero” uma bandeira central de sua campanha. A ver.

Hillary não desperta paixões, não se destaca, como Obama, pela carismática e irresistível eloqüência discursiva. Sim, Obama é o cara e Hillary parece saber bem que não cabe a ela disputar esse lugar. O que não significa a ausência, entre os dois, de disputas de outras naturezas. Hillary não esconde discordâncias em relação a algumas das escolhas feitas por Obama, ainda que não tenha começado a explicitá-las publicamente.

E esse é um dado interessante. Ela é a continuidade, mas é também mudança (se para melhor, não sei...). Ela tem um projeto político coerente com o projeto mais amplo de seu partido, mas tem uma abordagem própria, com prioridades e escolhas particulares.

Difícil não comparar a dobradinha Obama-Hillary com a nossa, Lula-Dilma.

A trajetória dessas duas experiências tem um desenho político bastante parecido. Lula e Obama tiveram primeiros mandatos inicialmente comprometidos com mudanças à esquerda, com uma grande aproximação de cada governo de setores historicamente discriminados da sociedade. Seguidos por segundos mandatos marcados, na ala da esquerda, por muita desilusão da parte de alguns, e um crescente pragmatismo da parte de outros. Na ala à direita, um rancor crescente, que perdeu freios e limites. Se no Brasil, Lula despertou a fúria do elitismo rançoso, nos EUA, Obama desperta um esdrúxulo racismo xenófobo.

E eis que a esses homens, seguem-se duas mulheres “fortes”, pouco carismáticas e reconhecidamente pragmáticas. Com uma importante diferença. No Brasil, o caminho rumo à Presidência de Dilma Roussef parece ter sido bem menos traçado por ela ou por sua trajetória política, do que pelo partido e pelo próprio Lula. Hillary Clinton, ao contrário, tornou público e notório esse desejo antigo em sua disputa com o próprio Obama pela candidatura do Partido Democrata em 2008.

Enquanto Dilma se elegeu, lá em 2010, com o discurso da continuidade direta do projeto de Lula; Hillary não esconde que seu projeto tem diferenças com o de Obama.

O que será a campanha de Hillary, ainda estamos por descobrir. Os Republicanos parecem ter aprendido algumas coisas com as derrotas para Obama em 2008 e 2012. As pré-candidaturas anunciadas até aqui parecem representar desafios importantes aos planos da democrata, ainda que sua vitória já ande sendo cantada por alguns. Rand Paul, de um lado, e os meninos da Florida – Marco Rubio e Jeb Bush – de outro, são, sem dúvida, adversários relevantes.

E ficamos à espera dos próximos atos – como construirá e apresentará seu programa e sua campanha, a democrata? Até onde prevalecerá o pragmatismo de uma esquerda cada vez mais recuada em seus projetos de mudança, e em que medida será capaz de responder a uma agenda realmente capaz de promover justiça social em um país encurralado por suas desigualdades?

E se fica alguma lição do pragmatismo à brasileira, é que sem limites explicitamente demarcados, sem princípios e compromissos dos quais não abrir mão, ele inevitavelmente desemboca no isolamento e na perda de direção política. Uma combinação perigosa, como bem podemos atestar.

* * * * * *

Nina Madsen. Escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Desde janeiro de 2015, vive em Washington, DC – novo cenário de aventuras e leituras pelo avesso do mundo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Eleições 2014 na América Central: o que está em jogo

por Aleksander Aguilar*

Amanhã (2 de fevereiro) é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.

De forma geral veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.

Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos em tese com o social.

Na década de 90 as forças políticas ligadas a esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.

Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, aliás, também em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais a pouco estabelecidas.

Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE dos Zelaya rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influi nos rumos do governo. Na Nicaragua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E na Costa Rica a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.

O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão de estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.

Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de “cambio” proposto por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam. O atual candidato da FMLN, Salvador Sanchez Ceren, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.

Na Costa Rica as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional, e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio, e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.

O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites, e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A recepção


por Celso Vicenzi*

 - Pode entrar, Marina, sinta-se como se a casa fosse sua... até uma rede mandei instalar!

- Eduardo, não me fale em rede, por favor. O tombo foi grande.

- Entre, não repare a bagunça. Não deu tempo de organizar uma festa, foi tudo tão de repente. Como a senhora disse que nenhum desses partidos a representava, já tínhamos perdido as esperanças.

- Pior pra mim, que perdi a rede. Tudo culpa dos cartórios.

- Mas, cá entre nós, a senhora não acha que também teve alguma culpa no cartório?

- Eu não, Eduardo. Sempre fui uma moça tímida, evangélica, casada na igreja. Apenas não tinha ainda conseguido arrumar um bom partido, mas aí, com jeitinho, você tocou no meu ponto fraco.

- E qual é?

- É derrotar a velha política deste país. Posso não ter conseguido fundar um partido – afinal, não é tarefa fácil; temos só 32! –, mas sinto-me preparada para governar o Brasil.

- Calma, Marina, vamos com calma. Sobre isso a gente conversa depois... deixe-me apresentar nossos companheiros. Este é Jorge Bornhausen, que trouxe também o filho (o neto ainda não tem idade hehehe!).

- Bornhau... Bornhausen? Que surpresa! Não sabia que você tinha se tornado socialista.

- É a política, Marina, sempre mudando. Mas sempre me interessei pelo Capital.

- O Capital, de Marx?

- Não, o meu capital. Como é enorme, eu costumo citá-lo em maiúscula, entende?

- Não muito, ainda... mas estou recém-chegando, não é, Eduardo?

- Exato, Marina, você verá que estamos levando a mensagem do socialismo a todas as pessoas. A começar pelos mais renitentes, que são justamente os capitalistas. Ah, este é Heráclito Fortes, que você conhece do Congresso.

- Heráclito? Você também aqui?

- Pois é, Marina, uma hora tô aqui, outra ali. É a minha trajetória, que começou na Arena, depois PMDB, depois PFL, depois o DEM e agora aqui no Partido Socialista Brasileiro, onde finalmente encontrei velhos companheiros.

- Mas e aquelas conversas reveladas pelo WikiLeaks, em que você sugeria ao governo norte-americano estimular a produção de armas no Brasil para conter supostas ameaças de Venezuela, Irã e Rússia?

- Justamente, precisamos conter o comunismo e estimular o socialismo ao estilo brasileiro, moreno, alto, bonito e elegante como Eduardo Campos. Você fez uma ótima opção, seja bem-vinda!

- Eduardo, e quem mais vai estar conosco nessa disputa eleitoral. Eu preciso saber. Tem colega que não posso ver nem pintado.

- Pintado, não, nunca. No máximo caiado. Estamos tentando trazer o Ronaldo Caiado, outro jovem com muito futuro no socialismo.

- Mas Eduardo, ele sempre votou contra o meio ambiente. Como é que fica o meu discurso?

- Ô Marina, é só fazer umas pequenas adaptações. Muda uma vírgula aqui, umas 30 páginas ali e pronto. Relaxa, Marina, o Caiado é aliado do PSB em Goiás e defende adesão integral do DEM ao projeto socialista.

- E você garante que esse projeto tem sustentabilidade? Sinto falta do apoio de uma rede...

Não se preocupe, a Rede Globo estará conosco! Somos o novo. E o que é novo é verde. Verde... meio ambiente..., viu, temos muito em comum. Se você me der licença, tenho uma reuniãozinha rápida com a bancada ruralista sobre o Código Florestal. Se quiser deitar na rede, fique à vontade!

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*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Marina é só mais uma reprodução do sistema

por Moriti Neto*

Em agosto de 2009, Marina Silva, recém-saída do PT, e um grupo de apoiadores, embarcavam no PV e já diziam: “Chegou a hora de acreditar que vale a pena, juntos, criarmos um grande movimento para que o Brasil vá além e coloque em prática tudo aquilo que a sociedade aprendeu nas últimas décadas, experimentando a convivência na diversidade, a invenção de novas maneiras de resolver problemas solidariamente... Agindo em rede, expandindo e agregando conhecimento sobre novas formas de fazer, produzir, gerar riquezas, sem privilégios e sem destruição do incomparável patrimônio natural brasileiro”. E isso não era de boca, mas parte do documento “Juntos pelo Brasil que queremos – diretrizes para o programa de governo”, que expressava a motivação ao ingressar no partido e que a colocava declaradamente na disputa à Presidência da República nas eleições de 2010.

O projeto, no entanto, teve curta duração. Era 7 de julho de 2011 quando Marina anunciava a desfiliação do PV, onde obteve quase 20 milhões de votos na eleição presidencial. De saída, ela e os apoiadores que a acompanhavam na decisão ressaltavam que a direção do partido “disse não à democratização de suas estruturas institucionais, ao diálogo com a sociedade e a um projeto autônomo de construção partidária”. Na época, se tivesse sido eleita presidente, teria completado apenas pouco mais de um semestre de mandato a bordo da sigla verde.

Lembro que, naquele momento, vieram diversos questionamentos: se Marina tivesse vencido a eleição, sairia do PV? Se sim, governaria como? Abdicaria de filiações partidárias? Como costuraria a base no Congresso Nacional? A ex-senadora se considerava mesmo a figura messiânica, salvadora, que os críticos da personalidade dela apontavam? Se não saísse, ignoraria a descoberta da incompatibilidade declarada com os pevistas e seguiria o governo sem abrir o debate?

O fato é que Marina Silva, sem conseguir ocupar espaços no PV, pedia desfiliação e acusava o partido de não ser o local adequado para as bandeiras que portava. Ancorada na boa capacidade discursiva que possui, ela buscava sustentar a posição, mas não deixava claro como só descobriu, de uma hora para outra, que a mesma agremiação avaliada como ideal para praticar propostas baseadas na “coerência programática” – por ela tão decantada – era, então, imprópria.

E foi na "fundação” do Rede Sustentabilidade, no dia 16 de fevereiro de 2013, num encontro batizado de “Encontro Nacional da Rede Pró Partido”, em Brasília, que aparecia a alternativa de Marina às eleições de 2014. Era na “Rede Pró Partido, mas que não é partido”, que ela, a "diferente", buscava encaixar o discurso da realização da “nova política”.

Em declarações perigosamente despolitizantes e até antipartido, a potencial candidata tentava se autocolocar como “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. Ao mesmo tempo em que falava de diálogo horizontal com a sociedade, aparecia como a “salvação”. Posturas perigosas à democracia, o que, aliás, eu já observei em texto anterior.

Enfim, eis que Marina Silva, com a recusa da Justiça em legalizar o Rede, vai ao PSB de Eduardo Campos. É a mesma toada. Na campanha, o discurso que clama por um “sistema ideológico” e luta contra o pragmatismo, colocando a candidata como a mais alta defensora do interesse público e das “questões maiores”, a exemplo da rápida passagem pelo PV, quando era o “fator diferente” da corrida presidencial e possibilidade de acabar com o “mais do mesmo” (que realmente é mais do mesmo) do “Fla x Flu” entre PT e PSDB.

Só que, na prática, o que se constata é a ida a um partido de perfil governista-pragmático (o PSB é, ainda, base do Governo Federal e governa com petistas e tucanos em vários estados), entregue a caciques da direita conservadora Brasil afora e que, em momentos decisivos, vacilou no debate de itens fundamentais ao meio ambiente, caso do Código Florestal, tema central na vida política de Marina.

Rumo ao PSB, lá vai a ex-ministra do Meio Ambiente se enfileirar a Bornhausens, Caiado e companhia. Novidade? Não. Somente mais uma reprodução comum do nosso horrível sistema de democracia representativa, onde estão sempre dadas as oportunidades ao desequilíbrio na representatividade da sociedade e à hipocrisia, como a de Marina que, de diferente, não tem nada.

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Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR. (Imagem: www.minhamarina.org.br)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pesquisa eleitoral no Brasil é coisa séria?

Pergentino acompanha as pesquisas
eleitorais no Brasil  há 55 anos
Com o fim das eleições municipais, imprensa e eleitores tendem a um relaxamento do assunto, mas este Nota de Rodapé resolveu retomar o tema, dessa vez, tratando de uma nuance importante pouco conhecida do público, as pesquisas eleitorais. Afinal, elas são ou não são confiáveis? Existe manipulação? Como se faz pesquisa no Brasil?

Para analisar essas situações e o mercado dos institutos de pesquisas eleitorais, entrevistamos um dos maiores estudiosos e práticos do assunto, Pergentino Mendes de Almeida, professor convidado na pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, conselheiro da Associação das Empresas de Pesquisas de Mercado, Opinião e Mídia (Abep) e vice-presidente da Associação Brasileira dos Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia. Ele é precursor das discussões em grupo no Brasil e foi pioneiro no uso de análises multivariadas nas pesquisas comerciais.

Há 55 anos militando na área de comunicação e pesquisas, Pergentino segue atuante. Trabalha na LPM – Levantamentos e Pesquisa de Marketing, empresa que fundou em 1969, ao lado da esposa Dilma Mendes de Almeida. Na entrevista, Pergentino fala dos problemas da rapidez na realização de pesquisas para atender demandas, dos erros de interpretação de pesquisadores e jornalistas, da visão distorcida das margens de erro e aconselha menos importância às pesquisas e marqueteiros.

por Moriti Neto*

Nota de Rodapé – Sobre capacidade profissional, organização e métodos, em que estágio o senhor, na média, vê o mercado de pesquisas no Brasil? 
Pergentino Mendes de Almeida – Em média, as pesquisas de opinião no Brasil têm um nível comparável ao dos mercados mais desenvolvidos.

NR – Especificamente no segmento político-eleitoral, o nível é confiável? 
PMA – De modo geral, sim. As grandes tendências do eleitorado têm sido apontadas com sucesso no Brasil na maior parte dos casos. Os institutos que trabalham regularmente nessa área e, muitos outros que fazem trabalhos específicos, não publicados, têm muito a perder se descuidarem da imagem de confiabilidade.

NR – Quais problemas destacáveis ocorrem na metodologia, aplicação, matemática, enfim, no processo de feitura das pesquisas? 
PMA – Os maiores problemas que sinto ocorrerem nessa área são decorrência das circunstâncias em que as pesquisas eleitorais são feitas. A opinião pública frequentemente se revela volátil e inconstante. Como decorrência disso e da pressão dos candidatos e da própria mídia pela geração constante, repetida e urgente de novos resultados, o que se faz é um esforço enorme de boa vontade para adaptar a metodologia dita científica às condições práticas de trabalho, o que implica em riscos maiores de erros. O que favorece as pesquisas é a relativa robustez de resultados, em termos de tendências gerais. Mas, onde as atitudes do eleitorado são mais voláteis, essa robustez pode desmoronar.

NR – Como o senhor vê as margens de erro adotadas hoje? 
PMA –  Essas margens são mal interpretadas não só pelos jornalistas, como por muitos pesquisadores. Quando se diz que “esta pesquisa tem um erro de 3% para mais ou para menos” se está simplificando e distorcendo a versão original recomendada pela Esomar (Associação Internacional de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia) aos associados, nos anos 80 do século passado. A versão original era mais ou menos assim: “Uma amostra probabilística simples do tamanho desta amostra pode apresentar uma variação puramente casual de 3%, para mais e para menos, no máximo, a um nível de 95% de certeza (ou 90%, ou 97,5%, ou 99%, etc.)”. A intenção era apenas deixar claro para o público e para os jornalistas que o resultado de pesquisas por amostragem é sempre uma aproximação da realidade e não pode ser trabalhado como se fazia, como se fosse um número exato e preciso. Mas a explicação parece complicar ainda mais do que explicar, embora tenha servido ao propósito original. Uma pesquisa perfeita realizada por amostragem está sujeita a um erro puramente ao acaso e esse erro é tanto menos provável quanto maior ele for. Note que, para cada porcentagem de intenções de voto em cada candidato, haverá uma margem de erro diferente, dentro da mesma amostra. O erro casual de uma porcentagem de 45% é maior do que o de outra porcentagem de 35%, por exemplo. Isso, numa só pesquisa. Essa margem de erro é, na verdade, uma subestimativa da margem de erro real, no caso de amostras que não sejam estritamente probabilísticas simples.

"A função da pesquisa é documentar a dinâmica do processo por retratos sucessivos das mudanças até o desenlace nas urnas. É particularmente útil nessa documentação, não na capacidade de “acertar” o resultado final. Se se quiser antever o resultado futuro da campanha e não se estiver preparado para aceitar as limitações próprias do processo racional de pesquisa do real, recomendaria que se procure uma cartomante e não um instituto de pesquisas."

NR – De que forma pode ser explicada essa amostra? 
PMA – Numa amostra probabilística simples você tem a lista de todos os eleitores e faz um sorteio, absolutamente ao acaso, de modo que cada um de todos os eleitores tenha a mesma chance de ser sorteado para responder ao questionário.

NR – E nas amostras por cotas, como é o procedimento?
PMA – Amostras por cotas são aquelas em que você pré-determina quem o entrevistador deve procurar, por sexo, classe social, região de moradia, etc., e deixa por conta dele achar uma pessoa assim. Supõe-se que você determina as cotas de acordo com dados confiáveis do Censo, do TSE, do TRE ou de outra fonte confiável e representativa da população da qual você quer tirar uma amostra. Amostras por cotas podem ser bastante representativas, mas o problema é que não há um modo simples de calcular a probabilidade de errar. Elas podem requerer um fator multiplicativo quase impossível de calcular. No caso de prévias eleitorais, realmente impossível de calcular.

NR – O senhor considera que os erros ocorridos afetam a credibilidade dos institutos de pesquisa?
PMA – Creio que afetam. Mas isso não prejudica os institutos especializados, uma vez que o público, a mídia, os governos, as empresas, os sindicatos, as empreiteiras e os políticos continuam dependentes e ávidos pelos números que eles oferecem.

NR – Os institutos acertam mais do que erram? 
PMA – De modo geral, as pesquisas acertam mais do que erram. Isso permitiu a várias pessoas computarem todos os resultados eleitorais no Brasil, para verificar o grau de “acerto” das pesquisas, e concluírem que eles predominam e que os “erros” estão dentro da margem de 95% certeza. O problema que vejo aqui não é dos institutos ou das pesquisas. É a filosofia da coisa, por assim dizer. É o modo como as pessoas em geral e a mídia em particular encaram os resultados de pesquisas. A prévia eleitoral dará sempre um quadro aproximado da realidade instantânea, do momento. A campanha eleitoral é um processo dinâmico. A função da pesquisa é documentar a dinâmica do processo por retratos sucessivos das mudanças até o desenlace nas urnas. É particularmente útil nessa documentação, não na capacidade de “acertar” o resultado final. Se se quiser antever o resultado futuro da campanha e não se estiver preparado para aceitar as limitações próprias do processo racional de pesquisa do real, recomendaria que se procure uma cartomante e não um instituto de pesquisas.

NR – O senhor é a favor de fiscalização rigorosa nos institutos de pesquisa? Existe algo nesse sentido? 
PMA – Depende do que você chama de “rigorosa”. Já existem regulações suficientes na lei, algumas até contraproducentes. Por exemplo, a burocracia exigida para realizar-se uma pesquisa eleitoral, que será eventualmente publicada depois de feita, é exemplar, é como se um protocolo do TSE pudesse garantir a confiabilidade do trabalho. A publicação (e interpretação equivocadas) das tais margens de erro é do texto da lei. A exigência de registro de estatístico habilitado, isso é, “estatístico de carteirinha”, em nada contribui para a qualidade das pesquisas, serve mais para defender interesses corporativos e para o bolso dos portadores das ditas carteirinhas. Pelo lado positivo, a lei faculta aos partidos, candidatos e eleitores o direito de exigir explicações e detalhes da metodologia e da realização da pesquisa, podendo mesmo conferir fisicamente os registros originais dos dados. O problema é que isso leva tempo e a campanha não espera. As coisas não funcionam exatamente como idealizadas na lei. Quando você fala em “fiscalização rigorosa”, fico com medo da interferência de agentes “isentos”, de fora do instituto de pesquisa, nos processos internos de controle e realização de um trabalho que deve ser ao mesmo tempo eficiente e confiável. Quanto mais se complicar a coisa, pior fica. E existem também órgãos representativos dos pesquisadores, que subscrevem um Código de Ética e cujos membros sujeitam-se à fiscalização do órgão. Pode-se recorrer à Associação Brasileira das Empresas de Pesquisas de Mercado, Opinião e Mídia (Abep) e Associação Brasileira dos Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM).

NR – Em Atibaia e Bragança, no interior de São Paulo, os vitoriosos nas urnas estiveram, durante toda a campanha, coisa de 15%, 20% longe dos primeiros colocados nas pesquisas. Por que algumas distorções chegam a números tão alarmantes, tão distantes do resultado final? 
PMA– Como não acompanhei as campanhas de Atibaia e Bragança e não tenho familiaridade com o contexto político dessas cidades, só posso responder em tese. Os números que você mencionou realmente são díspares. Pode-se pensar na existência ou não existência de má fé. Vamos supor que não houve uma distorção deliberada de mentir, pois aí nada teria a acrescentar. No caso de ausência de má fé, uma primeira hipótese é a de um erro amostral. É possível um erro de amostragem, aleatório, tecnicamente compreensível e aceitável, dessa magnitude? A resposta é sim, embora pouco provável, se for uma amostragem probabilística, com sorteio aleatório de entrevistados. O problema nesses casos é que o método de amostragem em prévias eleitorais é o de cotas, mais ou menos sem controle dos indivíduos escolhidos para responder dentro de cada cota de trabalho dada ao entrevistador. É o problema da urgência e dos custos dos resultados, pois só assim os pesquisadores podem atender às demandas dos partidos e da mídia. Nesse caso, é impossível medir o erro amostral e estimar intervalos de confiança.

"Se me coubesse dar conselho de como remediar a situação ou proteger-se, diria: preste mais atenção àquilo que o candidato representa e ao que ele se propõe, mais do que aos resultados de pesquisas. Aconselharia aos candidatos tomarem posições mais claras e firmes em torno de propostas substanciais e a dar menos importância às pesquisas e marqueteiros. Diria também aos jornalistas que invistam mais na compreensão e na crítica do fundo político em jogo do que nas apostas na cosmética e nos números da roleta." 

NR – Mas, o senhor tem exemplos históricos de situações que tenham apresentado divergências tão gritantes com o resultado real? 
PMA – Não me recordo assim de imediato, mas existem precedentes. Aliás, diferenças entre prévias e eleições são mais frequentes do que se pensa. Até quando o instituto “acerta” o vencedor, já que neste caso ninguém reclama mesmo que os resultados das urnas sejam muito diversos dos da pesquisa.

NR – O que pode gerar a situação de um mesmo instituto, no caso, o Ibope, em Bragança Paulista, fazer duas pesquisas, praticamente com os mesmos dias de campo, e uma apontar 14% de diferença entre primeiro e segundo colocados e a outra só 4%? 
PMA – Nos casos de Atibaia e Bragança Paulista o problema parece maior, pelo que me foi narrado, devido ao fato de as pesquisas terem sido feitas pouco antes do dia da eleição. Eu me pergunto se haveria alguma tendência de mudança já em curso anteriormente, durante a campanha, qual o grau de volatilidade nessas cidades, número dos indecisos, e como essas situações evoluíram até o dia da eleição. Ademais, quais os procedimentos específicos de amostragem? Qual o grau de controle em campo? Sabemos que, nas condições apressadas da realização de prévias, a verificação posterior das respostas trazidas pelos entrevistadores é falha, quando não impossível, como no caso de entrevistas feitas com transeuntes na rua. O Ibope, ao que me consta, faz entrevistas em domicílio, o que facilita o controle. Entre as centenas ou milhares de prévias feitas no Brasil, muitas divergem do resultado das urnas. Algumas divergem bastante. Mas a maior parte acerta, pelo menos no atacado. Cada caso é um caso. Ou seja, deve ser possível alguma explicação, antes de se admitir, de um lado, ou a hipótese de manipulação dos dados, por má fé, ou, por outro lado, a de variação amostral aleatória, com uma probabilidade quase etérea, embora real.

NR – O candidato vitorioso a prefeito em Bragança, pelo PT, disse que pesquisas são ótimas, que usou as internas do partido como medição e elas foram muito úteis, mas se sentiu prejudicado com publicações de alguns estudos. Entre a realização e a divulgação das pesquisas pode haver distorção? 
PMA – Normalmente, os problemas entre realização e divulgação de pesquisas são muitos e intensos. Afora uma possível distorção deliberada do meio, ocorrem distorções de boa fé. Aprendi, na eleição da Luíza Erundina para a Prefeitura de São Paulo (em 1988) que os dados obtidos em campo frequentemente falam mais verdades do que a interpretação, quer pela mídia, quer pelo próprio instituto. Um primeiro problema é quando um resultado é inesperado ou mesmo surpreendente. A prudência quase que força o pesquisador a “corrigi-lo”. Aí ele pode se enroscar. Outro problema é a interpretação do resultado, que é função do jornalista. Ele pode ver implicações e consequências equivocadas, que vão orientar a notícia que o leitor receberá.

NR – O senhor tem sugestões para aperfeiçoar o processo e diminuir os erros? 
PMA – Não tenho uma fórmula mágica que salve a pátria de todos os perigos. Mas o chamado “problema das pesquisas”, que volta a ser levantado em cada eleição, não é um problema das pesquisas. É, principalmente, um problema da mídia e também dos políticos, dos partidos, dos financiadores, de quem “usa” a pesquisa. Os políticos e a mídia dão uma importância exagerada aos resultados das pesquisas. Os políticos, para se promoverem junto aos financiadores de campanha ou para desdenhar as pesquisas. A mídia, para gerar notícias e “repercutir”. Como dizem os jornalistas, isso vende. Os chamados marqueteiros ganham um bom dinheiro dando orientação aos políticos, com base em pesquisas. E os candidatos estão cada vez mais parecidos com embalagens de sabonetes e as propostas são comerciais de TV. Se a mídia americana continuar sendo, como sempre foi, um modelo precursor de muito do que se faz no Brasil, vamos ver cada vez mais uma disputa cosmética entre candidatos, com pretensas, porém vistosas “pesquisas” no ar, para saber instantaneamente “quem ganhou o debate”. Se for assim, a pesquisa vai cair cada vez mais de qualidade, acompanhando os partidos e os candidatos. E os índices crescentes de abstenção vão crescer ainda mais. Se me coubesse dar conselho de como remediar a situação ou proteger-se, diria: preste mais atenção àquilo que o candidato representa e ao que ele se propõe, mais do que aos resultados de pesquisas. Aconselharia aos candidatos tomarem posições mais claras e firmes em torno de propostas substanciais e a dar menos importância às pesquisas e marqueteiros. Diria também aos jornalistas que invistam mais na compreensão e na crítica do fundo político em jogo do que nas apostas na cosmética e nos números da roleta.


*Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar  

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Os erros (ignorados) das pesquisas eleitorais

Distantes cerca de 60 km de São Paulo, as interioranas Atibaia e Bragança Paulista foram exemplos de disparidades nos índices mostrados pelas pesquisas eleitorais e os resultados das urnas na últimas eleições municipais. Contudo, diferentemente das grandes cidades, as luzes da mídia corporativa não destacaram as situações que chegaram a apontar percentuais de até 20% de diferença entre estudos publicados e o voto de fato.

Na disputa atibaiense, impressos e sites locais sempre colocaram na frente dois candidatos que não foram os vencedores nas urnas, Professor Wanderley (DEM) e Luiz Fernando Pugliesi (PV). O primeiro chegou a aparecer como líder absoluto nos estudos, com até 42% das intenções. No voto real, ficou com aproximadamente 29%. O segundo, dois dias antes da eleição, foi destacado na manchete do jornal O Atibaiense, em pesquisa de instituto identificado por FLS, como provável vencedor.

No entanto, quem acabou eleito foi Saulo Pedroso de Souza (PSD) jamais citado nos jornais com chances reais de vitória. Ao contrário, ele chegou a ser mostrado, 48 horas antes do pleito, na casa dos 16%, metade do número do líder da pesquisa publicada. Ao fim da apuração, o eleitorado deu a Saulo 31%, quase o dobro das intenções de voto que a medição lhe atribuía.

Em Bragança, as discrepâncias entre pesquisas e votação foram também gritantes. Até o nacionalmente conhecido Ibope errou grosseiramente. Poucos dias antes da eleição, colocou, nas páginas do Bragança Jornal Diário, Renato Frangini (DEM) 14 pontos percentuais (37% a 23%) a frente do prefeito eleito, Fernão Dias (PT). Difícil justificar tal diferença, já que outro estudo, encomendado por um empresário local e feito pelo mesmo instituto praticamente nos mesmos dias, mostrava só 4% de distância entre o democrata e o petista. Além disso, diversas medições internas indicaram, por duas semanas seguidas, muito equilíbrio.
Aos interiores, ainda que relativamente próximos das capitais, os holofotes midiáticos não chegam com a mesma força. Na realidade, na maioria dos casos, eles nem são apontados, já que a audiência e o consequente ganho financeiro são considerados irrelevantes pelas empresas de comunicação.
Perto do limite da ida dos eleitores às urnas, outro jornal de Bragança, A Gazeta Bragantina, circulou pesquisa do Instituto IPEMPI. A tal medição alargava ainda mais a distância entre o candidato do DEM e o do PT, conferindo 39,5% ao primeiro e 18,4% ao segundo. Encerrada a apuração, na noite de domingo, 8 de outubro, ambos tiveram pouco mais de 38% e o petista venceu por apertadíssimos 21 votos (0,3% de vantagem, 38,08% contra 38,05%).

Não são raros os exemplos em que pesquisas deixam de refletir a vontade popular do momento. Contudo, nos grandes municípios, como Curitiba e São Paulo, onde os institutos também erraram feio, especialmente nos primeiros turnos, existe forte repercussão crítica por parte de alguns setores da sociedade, o que obriga mídia e institutos a aprofundarem explicações sobre as falhas.

Aos interiores, ainda que relativamente próximos das capitais, os holofotes midiáticos não chegam com a mesma força. Na realidade, na maioria dos casos, eles nem são apontados, já que a audiência e o consequente ganho financeiro são considerados irrelevantes pelas empresas de comunicação. Dessa forma, mesmo que ocorrências – como as de Atibaia e Bragança Paulista – sejam emblemáticas dos equívocos de enormes proporções que institutos de pesquisa e os divulgadores das medições possam cometer, o interesse público é pouco ou nada discutido e se esquece, até a eleição seguinte, o tamanho do estrago que podem causar à democracia.

Por que os institutos erram tão gravemente em condições como essas? A questão principal não é discutir estudos isolados, mas tomá-los por base para debater métodos. Trabalhos de pesquisa são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade, contudo não se pode permitir que distorçam e influenciem negativamente a realidade social.

Até para que o debate não fique restrito aos períodos de campanha, o Nota de Rodapé se coloca nessa polêmica roda de discussões. Depois desta pensata, traremos, quarta-feira, 14, entrevista que analisa o complexo universo de institutos e mídia, com a opinião de um dos mais respeitados do ramo da pesquisa no Brasil, Pergentino Mendes de Almeida.

Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Segundo DataNR, Haddad vence no segundo turno

No DataNR,  na enquete que terminou ontem, tivemos 100 votos no total sobre a escolha do candidato a prefeitura de são Paulo.

No resultado final, Fernando Haddad do PT venceu com 60% dos votos e José Serra, do PSDB ficou com 30%. Nulos, brancos e indecisos somaram 10%.

No primeiro turno, Haddad também havia vencido a enquete no DataNR.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Profissão mesário

Com o nome “Verbo Sonoro”, esta coluna se propõe a falar, de modo geral, sobre música e outros assuntos culturais. Em época de eleições, no entanto, abrimos uma exceção: a trilha sonora de hoje é o agudo apito da urna eletrônica; aquele que foi repetido seguidamente nos tímpanos dos mesários das 8h às 17h no último domingo.

Para o eleitor, talvez exista até algum tipo de prazer ao ouvir o “barulhinho” após olhar para a foto do candidato e apertar “confirma”. Mas para quem passa o dia sentado ao lado da máquina – meu caso –, a coisa é um pouco diferente...

Mas sem problemas; este texto não pretende ser uma reclamação mimada por um dia a mais ou a menos de trabalho. Pretende apenas ser um breve relato do dia mais especial (profissionalmente falando) na vida destes cidadãos (os mesários) escolhidos, entre tantos, para uma função tão importante para a democracia.

PELA SEXTA VEZ 
Domingo, dia 7, primeiro turno das Eleições Municipais. Ainda cedo, na porta da sala de aula, um simpático eleitor me vê e diz: “Eu te conheço de algum lugar!”. E eu: “Sim senhor, daqui mesmo, das últimas cinco eleições...”.

Sim, já estive sentado naquela sala do colégio Objetivo, na rua Teodoro Sampaio, em 2004, 2005 (plebiscito), 2006, 2008, 2010 e, agora, em 2012. Nestas últimas duas, inclusive, como presidente de mesa. Como disse um amigo meu, fui reeleito para o cargo (provavelmente o único de presidência que terei na vida).

Cabe aqui um pequeno parênteses. Está definido em lei que a obrigatoriedade, para os convocados, é de trabalhar em apenas quatro eleições. Quando fui protestar da última convocação no cartório, tive a seguinte resposta da secretária: “Só temos registrado aqui que você trabalhou nas últimas três eleições. Nosso sistema foi trocado em 2005, talvez seja por isso”. E por fim: “Eu acredito em você, mas não há nada que eu possa fazer”.

O DIA DA FESTA
Bom, voltemos. Domingo, dia 7, às 6h da manhã, de pé, após uma noitada no Espaço das Américas para ver o show de 30 anos dos Titãs. Ao meu lado, aliás, ali na pista do show, estava o candidato Fernando Haddad, do PT, certamente tentando relaxar um pouco na véspera da votação. Ele cantava alto, como que perguntando sobre seu próprio futuro: “É cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais?”.

Sim, sim, domingo... Desço do carro na Teodoro e caminho por cima dos milhares de santinhos jogados pelas ruas. Entre os nomes espalhados pelo chão (é importante dizer), pude ver os de: Fátima Barreira, Souza Santos, Dr. Augusto, Ricardo Teixeira, Eduardo Sanazar, Chico Valente e Helena Cabeleireira. Nenhum deles foi eleito. Talvez o método de campanha de poluir as ruas com santinhos já não seja mais tão eficiente.

A partir daí, 7h da manhã na seção número 141, o mesmo processo de sempre: cumprimentar os fiscais; imprimir a zerésima – que comprova que a urna não está corrompida –; assinar os papeis; definir o horário de almoço etc. Sob a minha presidência, organizar o horário de almoço é uma das prioridades, pelo bem-estar geral dos mesários.

VOSSA EXCELÊNCIA, O ELEITOR
Ali naquela sala, aparece todo tipo de gente. Ser mesário --usando uma expressão bem clichê, mas verdadeira –, é uma experiência quase “antropológica”. Às 8h forma-se a primeira grande fila. Misturam-se os mais idosos com alguns jovens virados da balada, claramente “pilhados” pelo uso de aditivos. Praticam o melhor voto: o voto inconsciente.

Lá pelas 10h da manhã, como em todos os anos, chega o casal mais simpático daquela seção. Ela, nascida em 1917, com seus 95 anos; ele, de 1924, com 88 --fazem questão de votar, mesmo sem precisar. Quase 70 anos depois de ter que escolher entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes, em 1945, escolhem agora entre Serra, Haddad, Russomanno ou, sabe-se lá, Soninha e Giannazi.

Na seção 141, o tempo passa devagar. Faz falta uma televisãozinha para assistir o clássico Barça e Real Madrid. Entram e saem jovens e velhos, pais com crianças --algumas felizes, outras transtornadas por terem que entrar em uma sala de aula em pleno domingo--, senhores engravatados e, ainda nos dias de hoje, alguns poucos analfabetos.

APURAÇÃO
É curioso ver o jeito como os eleitores olham para os mesários. Um misto de pena (por não estarmos curtindo um churrasco de domingo) e respeito. Em geral, são simpáticos. “Parabéns para vocês”, disse um homem de uns 50 anos. E outro: “Tá legal aí garotada?”.

No fim do dia, às 17h, encerra-se a sessão. Nós, mesários, sempre ocupados em “servir” os eleitores, não podemos nos esquecer de votar antes disso. Mesário também vota! – no meu caso, na mesma sala em que trabalho.

Ao fim temos que imprimir cinco vias do Boletim de Urna, com o número de votos que cada candidato teve naquela seção. Resultado: 179 para Serra, 59 para Haddad, 38 para Chalita e menos de 20 para Russomanno. Em concordância absoluta com o mapa de votos da cidade divulgado mais tarde, onde as áreas ricas da cidade são território tucano.

No dia 7, portanto, nenhum incidente grave na sessão 141, no Colégio Objetivo da Teodoro Sampaio. Nenhum eleitor quebrando a urna, como aconteceu em outros lugares; nenhum candidato posando para fotos. Apenas os eleitores comuns – até hoje obrigados a votar – e nós, mesários – obrigados a trabalhar pela democracia.

Dia 28 tem mais. Mais apitinho agudo no ouvido.

Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Os Moinhos de Vento de Levy

Levy Fidelix foi o primeiro candidato a chegar ao debate da TV Cultura – realizado em setembro - com quase duas horas de antecedência. Adentrou os portões exibindo um caprichado sorriso sob o bigode preto retinto, aparentemente recém retocado de Grecim 2000. Ao contrário de seus adversários (excetuando-se, por motivos óbvios, Soninha), vestia um terno mal ajustado e uma gravata listrada, daquelas largas, de antigamente. Quando o embate começou, destilou os disparates de sempre, ainda que o famoso aerotrem tenha perdido espaço para um banco municipal. Na surreal hipótese de Levy tornar-se prefeito, o tal banco, de alguma maneira mágica, salvaria a cidade da iminente bancarrota.

Foram duas horas e meia de discursos enfadonhos e semi-afagos entre os oito candidatos, e faltavam menos de quinze minutos para meia-noite quando o mediador, Mario Sergio Conti, finalmente decretou o término do lenga-lenga. Apesar do adiantado da hora, a imprensa, que heroicamente lotava a plateia, subiu ao palco em busca de declarações. Aquela coisa de sempre: microfones, gravadores, câmeras e filmadoras disputando espaço para registrar uma declaração insossa qualquer.

Os mais assediados foram Haddad, Serra e Russomanno, líderes nas pesquisas. Mas todos, até os menos expressivos, como Gianazzi e Paulinho da Força, mereceram alguma atenção dos repórteres. Menos o pobre Levy. Nem sequer um microfonezinho se dispôs a dar voz às suas utopias tão ingênuas e divertidas.

Faz sentido, jornalisticamente. Levy não tem expressão e nunca, nas doze vezes em que se candidatou, foi eleito a coisa alguma. E, ao que parece, ainda não será dessa vez – ele vem oscilando de zero a um por cento nas pesquisas eleitorais.

Mas, diante da indiferença da mídia, o valente Levy não se abalou. Apoiou um cotovelo sobre o púlpito, o outro braço na cintura e sorriu, protegido pelo bigodão retinto. E ali ficou, altivo, pronto a esclarecer qualquer eventual dúvida sobre o aerotrem ou declamar, de cabeça, o número exato de avenidas, ruas, becos e alamedas da cidade de São Paulo. Pouca gente chegou a reparar na calva cintilante ou no peito estufado do candidato. Eu o fiz, por alguns instantes. E confesso que me senti tocado.

Enquanto o observava no palco, em meio à zoeira de flashes, declarações e repórteres afobados, tive a impressão de estar em contato com um outro tempo, quando as coisas eram mais simples. Um época em que não havia tantas pesquisas de opinião, marqueteiros, analistas, maquiadores, em que bigodes eram parte relevante do acervo estético masculino.

Mas os encantos do Levy iam além da nostalgia. Afinal, como há muito nos ensinaram Dom Quixote e Sancho Pança, há poucas coisas tão cativantes quanto um perdedor crônico com ilusões de grandeza. Vida longa, portanto, aos nanicos de personalidade, que temperam, com algum humor e lirismo, nossas enfadonhas eleições. Quanto ao meu voto? Bem, caro Levy, infelizmente ainda não foi dessa vez. Mas, continue tentando, quem sabe daqui a dois anos.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A faxina urgente e necessária

O ano de 2012 oferece ao eleitor brasileiro, ao eleitor paulista e ao paulistano em particular, a excelente oportunidade de iniciar uma providencial e necessária faxina no governo da cidade de São Paulo.

E em 2014 no Palácio dos Bandeirantes, desalojando a gestão incompetente que lá está há quase vinte anos.

Confrontada com a sua indigência programática e com as sucessivas derrotas eleitorais nos últimos dez anos no plano federal, a atual oposição brasileira, aquela que majoritariamente se abriga sob as siglas do PSDB, DEM, PPS e agora do noviço PSD, cuja hipócrita defesa da alternância do poder não leva em consideração quando se trata de seus próprios interesses, tem que ser derrotada no Estado de São Paulo, sob o risco de o estado continuar a servir de estorvo ao espírito progressista assumido pelo país nos últimos anos. Tanto na capital em 2012, como no governo estadual em 2014.

E por quê? Pela simples razão de que essa oposição representa um perigo para o modelo desenvolvimentista brasileiro, para a soberania do país e para a própria democracia.

Começaria aí o verdadeiro sentido da faxina, quer do ponto de vista da alternância do poder, como tanto defendem em nível federal, quer do ponto de vista ético, com o desmonte de uma engrenagem viciada, com a limpeza das inúmeras falcatruas domésticas no estado, quando dezenas de CPIs são engavetadas na assembléia estadual e ignoradas pela mídia e que fariam destampar de vez o caldeirão do cinismo e da hipocrisia daqueles que já não têm alternativas a oferecer ao novo Brasil, a não ser as da sua própria incompetência.

Como afirmou o jornalista Mino Carta em recente simpósio em Salvador, “São Paulo é o estado mais reacionário da federação”. Sempre foi, aliás. Não há aqui o que contestar. Desde as famosas marchas em 1964 para não irmos mais atrás à História pátria, São Paulo continua sendo o depositário maior do espírito da Casa Grande em detrimento da Senzala.

Provas da afirmação do jornalista, a qual endosso, vão se acumulando no dia a dia da política brasileira, ganhando patamares perigosos para o próprio exercício da democracia, repito, mesmo que ainda incipiente e tutelada, após os anos de ditadura.

Quartel da direita

É em São Paulo que se localiza o quartel general da direita brasileira, aquela que representa de fato o atraso, a submissão a interesses estrangeiros, aquela que não perde a sua formação aculturada, o seu preconceito contra pobres, negros e nordestinos, por exemplo.

Aquela que morde o próprio cotovelo de inveja ao não querer reconhecer que um metalúrgico sem diploma universitário, sem plumas e paetês, tirou o país da condição de devedor passando-o a emprestador internacional. Oposição no mais puro estilo quinta coluna.

É em São Paulo também que se localiza o centro mais reacionário da mídia corporativa que diariamente apostou suas fichas contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante oito anos e agora continua a apostar contra o governo da presidenta Dilma Roussef na esperança de que possa encontrar motivos políticos para enfraquecê-la e preparar o terreno onde, numa eventual regresso ao governo federal, façam o Brasil voltar ao mercado de negócios e interesse escusos em que transformaram o país enquanto governaram, bem como o Estado de São Paulo que governam há anos e agora a capital do estado.

Tal qual na mitologia grega, o eleitor paulista entre outros tem que fazer um dos trabalhos de Hércules e ir cortando as cabeças da Hidra, tantos anos ignorada, e que insiste em renascer sob novos disfarces. Uma dessas cabeças, talvez a mais perigosa, reúne jornais, revistas e emissoras de televisão.

Seu centro criativo e ideológico está em São Paulo, onde editoriais e jornalistas de aluguel destilam seus preconceitos ideológicos e sociais com o apoio do setor rentista, de grandes agências de publicidade, bancos, latifúndios muitos deles grilados, sucursais de empresas multinacionais, cujos interesses defendem sem qualquer escrúpulo e com a aceitação a conivência de grandes setores de uma classe média fascista.

A promiscuidade desses atores do espectro econômico com seus representantes nas câmeras de vereadores, assembléias estaduais e principalmente em Brasília, por meio de lobbies com polpudas verbas nos bolsos vai, a cada ano que passa, transformando São Paulo numa peça cada vez mais encardida e rançosa no mapa político do país nesse início de século XXI, com o arcabouço administrativo da cidade e do estado engessado pela concepção econômica neoliberal e pela mesmice de quadros políticos que têm um olho político em nosso passado ditatorial e outro, econômico, na possibilidade de amealhar grandes fortunas no uso de tecnologias do futuro e não só, num jogo que beneficia os governantes de plantão e os seus apaniguados mais próximos.

Nesse audacioso jogo de assalto ao patrimônio público, onde o exercício da política quase que anula a procura pelo bem estar da coletividade, não é difícil enxergar, cada vez com maior nitidez os fios trançados entre os já nem tanto obscuros interesses econômicos e políticos da imprensa das quatro famílias (Marinhos, Civitas, Mesquitas e Frias), onde não se descarta sempre a possibilidade de um hipotético, mas não de todo imprevisível golpe de estado, não aquele tradicional com soldados na rua, fechamento do Congresso, toques de recolher etc., mas um golpe que, sob certo aspecto, é mais perverso: o da desinformação, quando não da repetição pura e simples de uma suposição, de uma acusação irresponsável ou mesmo de uma mentira.

Privataria tucana

Nesse aspecto, o impressionante e minucioso relato contido no livro A Privataria Tucana do jornalista Amaury Ribeiro Jr. não deixa dúvidas quanto à necessidade do eleitor paulista e paulistano darem início àquela que seria a verdadeira e necessária faxina para que o país iniciasse nova jornada de recuperação ética.

Arrumar a casa em São Paulo e dar o exemplo para o resto do país, pois o denuncismo seletivo e irresponsável que emana de certas redações paulistas recebeu agora um duro golpe, pois aqui não se trata de denúncia sem provas.

São tantas as denúncias de práticas criminosas nos anos 90 que fica difícil escolher qual a mais impressionante. Contudo, é curioso ver que os principais beneficiários, econômicos e políticos, são paulistas, o que não vem a ser exatamente uma coincidência, mas um jogo perverso pela manutenção do poder político, e o pior deles: o poder de assaltar o patrimônio público.

No meu entender, o eleitor paulista e paulistano têm o dever de fazer uma mudança ética e política das mais rigorosas no Palácio dos Bandeirantes e na Prefeitura da Capital, devolvendo o Estado de São Paulo ao leito do novo país que começa a se erguer na América Latina e no mundo. Não se trata de comparar corrupções onde as houver, mas de combatê-las com o rigor da lei quando provadas.

E provas não faltam no livro citado, provavelmente, a mãe de todas as corrupções entre nós nos últimos anos pós-ditadura. Nada mal que se pense numa CPI da Privataria, pois além dela convocar – com toda certeza – a juízo público os principais personagens da dilapidação de grande fatia da riqueza nacional para que expliquem o que fizeram, é muito provável que surjam sólidos motivos jurídicos para se pensar em uma ação de recuperação para o Estado de uma empresa como a Vale, por exemplo.

Isso sem falar na necessidade de se estabelecer maior rigor na defesa de nossa soberania e na urgente reforma da Lei de Imprensa. Com a palavra o Brasil progressista e genuinamente democrático.

Izaías Almada, dramaturgo, escritor, colunista do NR. A coluna faz uma pausa e volta em 2012.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Venceu o povo brasileiro mais sofrido e humilde

Bem que o Brasil do atraso tentou, o Brasil da calúnia, da infâmia, da subserviência, o Brasil que perdeu a noção da História e da realidade em que vive e da realidade que o cerca. Não adiantou o cidadão e candidato José Serra e a oposição que representa construírem uma estratégia eleitoral torpe, baseada no ódio, na intolerância e no preconceito, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou que parte de sua acertada estratégia política está cumprida ao eleger sua candidata e sucessora.
Vitória da perspicácia, da sensibilidade no trato das coisas políticas, da coragem pessoal em confrontar, à sua maneira, a oligarquia que deixou o governo em 2002. E o fez com paciência e tentativas de diálogo e – sobretudo – com o conhecimento do seu povo. É preciso reconhecer: haja sociologia para explicar 83% de aprovação popular a um governo no Brasil. Já disse alguém que a política é a arte do possível. Para muitos, infelizmente, ainda é difícil entender isso. À direita e à esquerda.
No 31 de outubro de 2010, venceu o Brasil que quer continuar mudando, que busca alternativas para se tornar um país mais soberano e menos injusto. Venceu o povo brasileiro mais sofrido e humilde. Venceu novamente a esperança. Ou, para os menos otimistas, a possibilidade de se continuar tendo esperança. E ouso dizer também que, mais do que o Brasil, venceu a nova América Latina de Chávez, Morales, Correa, Lugo, Cristina e Néstor, Castro, Funes, Mujica e Ortega.

O desejo sincero venceu
Os miasmas da intolerância e de um fascismo travestido de faniquitos democráticos não muito bem explicados em manifestos e editoriais jornalísticos, em telejornais e revistas de final de semana, em violência e profanação religiosa, em tentativa de manipulação da opinião do eleitor, nos últimos três meses, ou se quisermos, nos últimos oito anos, não foram suficientes para desviar milhões de eleitores brasileiros da rota de um desejo sincero de ver o Brasil mais justo, mais independente e de olhos postos no futuro e não no passado.
Retomando a História interrompida com a morte de Getúlio Vargas e traumatizada pelo golpe civil/militar de 1964, que derrubou um governo eleito democraticamente, a vitória de Dilma Roussef faz uma ponte com nosso passado ainda recente e relança as bases de um protagonismo popular para o futuro, fazendo o país voltar ao leito democrático de onde foi retirado pela força de tanques e baionetas apoiados pelo Departamento de Estado norte americano, esse mesmo Estado que continua a insistir com sua política de desestabilizar governos eleitos democraticamente, como a Venezuela de Chávez, a Bolívia de Evo Morales, a Honduras de Manuel Zelaya ou o Equador de Rafael Correa. E que, com certeza, não dará tréguas ao governo de Dilma Roussef. É bom que não nos esqueçamos disto no calor e na alegria da vitória.
No vácuo da repressão policial/militar da ditadura, com a sua falta de garantias democráticas plenas, instalou-se também no Brasil, em anos mais recentes, a ditadura do poder econômico, impondo-se entre nós o pensamento e a prática hegemônica neoliberal, assumida por uma social democracia encantada com a possibilidade de chegar ao poder político, como de fato chegou, com a chamada redemocratização do país na metade dos anos oitenta. E com o sonho de lá permanecer por pelo menos 20 anos, no dizer de alguns de seus caciques, começando com a imoral compra de votos para a reeleição do seu até então maior ideólogo, Fernando Henrique Cardoso, o presidente das privatarias e traidor do povo brasileiro. Essa prática política encantou àqueles que olharam o país e a História com o binóculo posto ao contrário.
Nesses últimos cinquenta anos de História, tanto uma, a ditadura, quanto o outro, o poder econômico imposto pelo Consenso de Washington, tiveram a seu lado aquele que pode ser considerado o mais forte aliado do mundo contemporâneo: a força do quarto poder, a mídia. Jornais, rádios, televisões, revistas, em grande parte subsidiados ideologicamente por pensadores e acadêmicos de dentro e de fora do país, fizeram de seus editoriais e matérias jornalísticas a apologia diária do paraíso para o capital transnacional, com seus deslumbrados e submissos defensores internos, ao mesmo tempo em que combatiam e dilapidavam as garantias e a defesa dos direitos dos trabalhadores por meio do arrocho salarial, da terceirização de serviços, do aumento do desemprego, do desestímulo às reivindicações de inúmeras categorias profissionais, da privatização de empresas nacionais estratégicas, agindo contra os interesses nacionais, da criminalização dos movimentos sociais, mantendo intacto – de certa maneira – o arcabouço repressivo ditatorial com um inquestionável conservadorismo na sua prática política.

Mecanismo anacrônico
Tudo isso sustentado por uma democracia e uma Constituição, aquela que melhor se pôde arranjar em 1988, a tal Constituição Cidadã, um imenso tratado com quase quinhentos artigos, tamanho o número de interesses a serem contemplados e acomodados, e que ainda assim, na prática, vem sendo solapada e substituída no dia a dia por um mecanismo anacrônico denominado Medida Provisória, que sempre poderá agradar ou desagradar a gregos e troianos, conforme os interesses de momento e o grupo que estiver no poder político.
Em verdade, passamos a viver a partir da segunda metade dos anos 80 um arremedo de democracia. Dá para o gasto, é claro, pois sempre podemos encher a boca e dizer que vivemos num país democrático, e sob vários aspectos isso é verdade, muito embora os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, com as honrosas exceções de sempre, se deixaram ou ainda se deixam escorregar tentadoramente por caminhos tortuosos, para dizer o menos, quando fica bastante evidente a verdadeira luta de classes no país.
A recente campanha eleitoral deixou à mostra como muitos brasileiros entendem a democracia: um regime de privilégios que é preciso manter a ferro e fogo, sempre e quando para isso se use tais “privilégios” para arrasar o adversário, assassinar sua reputação, atribuindo-lhe as piores qualidades morais e profissionais. São os democratas de fins de semana, dos almoços dominicais com a família. Hipocrisia que a campanha do candidato José Serra mostrou à perfeição.
Nesse quadro político e institucional, os homens que queriam governar “por 20 anos” descuidaram-se e o sentimento de mudanças que permeava partidos de esquerda e movimentos sociais desde o período ditatorial, soube se movimentar, mesmo com suas divergências, contradições e até defecções, criando condições para que o país buscasse alternativas para o sufoco neoliberal.

Bajuladores da “Casa Grande”
Incrédulos com a vitória do metalúrgico semi-analfabeto em 2002, os serviçais e bajuladores da “Casa Grande”, fiéis leitores da cartilha econômica do neoliberalismo, apostaram suas fichas no fracasso e na incompetência do operário, sem jamais esconder o seu preconceito de classe e seu espírito impatriótico. À medida que o tempo avançou e o fracasso esperado do governo Lula não vinha, os órgãos de comunicação social foram mais uma vez acionados com bastante virulência no ano de 2005, pois nova derrota eleitoral seria o início do desastre.
De nada adiantou a campanha moralista naquela altura, curiosamente liderada por alguns dos políticos mais imorais e corruptos do país, alguns deles felizmente defenestrados nas recentes eleições, ou as CPIs policialescas instaladas nas duas casas do Congresso Nacional, na qual a pregação intolerante contra o Partido dos Trabalhadores e a esquerda de um modo geral chegou a ser defendida com o chamamento à eliminação “dessa gente” da política brasileira. Bravatas, arrogância e intolerância substituíam os discursos políticos daquilo que se poderia esperar de uma oposição minimamente civilizada, se é que se pode chamar de civilizados um grande número de dilapidadores do patrimônio nacional em beneficio próprio.

Sai o operário e entra uma mulher
Acuado, o governo soube esperar a hora do contra ataque. E o fez no seu segundo mandato, aprofundando as suas políticas sociais e de infraestrutura econômica. Lula se reelegeu em 2006 e chega a 2010, no final do seu governo, com um índice de popularidade “nunca visto antes na história desse país”. E mais: sai o operário e entra uma mulher. Impensável no Brasil de dez anos atrás.
O desafio que tem pela frente a presidente Dilma Roussef é enorme, a começar pela guerra diária que lhe imporá a vetusta oligarquia brasileira e sua velha mídia incompetente, desonesta e oportunista.



Mas, guerra é guerra e o povo, atento e organizado, sempre que chamado, irá se manifestar através de sindicatos, dos movimentos sociais, das entidades estudantis e dos partidos políticos comprometidos com a soberania do país e das suas conquistas sociais, fazendo avançar essas conquistas. E também por meio de uma nova mídia que se forma pela internet ou – o que espera o país – ver alguns jornais, revistas e televisões tendo que se ajustar a um novo marco regulatório para a comunicação social, tornando-a verdadeiramente democrática.
De hoje em diante toda atenção é pouca, porque o conservadorismo, agora efetivamente de mãos dadas com o emergente fascismo tupiniquim não irá descansar. E essa é uma união mais do que perigosa. Alguém já disse que para onde pender o Brasil, deverá pender a América Latina. Não deixemos que a vitória nos faça esquecer que o inimigo é forte e continuará sua insidiosa luta no dia a dia das calúnias, das mentiras, dos factóides, tentando minar a confiança do povo no seu novo governo. Felicidades, presidente Dilma Roussef! Seja bem-vinda.

Izaías Almada é escritor, dramaturgo, autor – entre outros – do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Boitempo) e “Venezuela povo e Forças Armadas” (Caros Amigos).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Palocci, Garcia, Amorim e a solidão política

Ontem à noite, aqui em Brasília, o ex-ministro Antonio Palocci errou seu posicionamento no palco em que Dilma Rousseff fez seu pronunciamento. Manda o espectro político que ele fique à direita da presidente, ao lado de Michel Temer e José Sarney. Tarso Genro também errou: deveria estar à esquerda ou logo atrás de Dilma, ao centro. Bem, é dado como certo que Palocci terá força no próximo governo. Deve ocupar algum cargo de coordenação. Casa Civil é a principal possibilidade. O que se viu em Brasília apenas confirmou a impressão: Palocci esteve com Dilma a tarde toda e chegou com a presidenta ao local do pronunciamento. No discurso da vitória, deu para perceber um dedo palocciano em pontos como compromisso fiscal e com a estabilidade econômica.
Um dos pontos positivos da vitória de Dilma é que a América Latina segue unida. A Argentina terá nosso apoio caso a oposição tente novamente colocar as mangas de fora, bem como qualquer outro país. A relação segue respeitosa com todos, independentemente do tamanho do PIB, do alinhamento ideológico e da origem étnica do chefe de Estado. O chanceler Celso Amorim afirmou ontem a este repórter que a reforma da ONU seguirá como pauta, qualquer que seja o governo brasileiro.
Muito se fala na permanência de Amorim e de Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência. Garcia, elo do governo com a América Latina, foi na semana passada ao velório de Néstor Kirchner e voltou comovido com a força do povo argentino. Por aqui, foram muitos os colunistas que se colocaram a afirmar que a presidente Cristina “não vai aguentar.” Igual ao que o PSDB difundiu sobre a agora presidente. Perguntei a Garcia sobre que tipo de pensamento conecta as ideias de que Cristina e Dilma não aguentam: “O pensamento machista. Isso significa mais uma concessão que eles (PSDB) fazem ao conservadorismo.”
Para Garcia e outros quadros da base aliada, a campanha de Serra ficou muito aquém do que se poderia esperar de um político com a experiência do ex-governador paulista. O assessor especial lamenta que o tucano tenha se aliado ao que “há de pior na sociedade brasileira.” O exemplo escolhido por ele é o vice na chapa de Serra, o deputado federal Índio da Costa (DEM-RJ), autor de frases nada felizes desta campanha. Palavras de Garcia sobre o vice: “Ou é sinal da mais absoluta solidão política de Serra ou é sinal de falta de critério.”

João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé (de Brasília)

domingo, 31 de outubro de 2010

DataNR aponta vitória de Dilma no segundo turno

O DataNR recebeu em 30 dias 1084 votos. Os resultados mostram que a candidata Dilma Rousseff do PT ganharia no segundo turno. 593 internautas que votaram na candidata petista no primeiro turno responderam que continuam com ela no segundo. Dos que votaram em Marina Silva, PV, 49 indicaram voto em Dilma. E dos que votaram em Plínio de Arruda Sampaio, PSOL, 44 a indicaram como opção de voto. Dos outros partidos, seis votos a escolheram como para o segundo turno. Em relação ao adversário, José Serra, PSDB, 37 optaram por continuar com ele no segundo turno. Dos que votaram em Marina Silva, PV, 24 votariam em Serra e somente 5 dos que votam em Plínio, PSOL, votariam no candidato tucano. Dos outros partidos, quatro indicaram voto em Serra. Brancos e nulos somaram 35 votos e indecisos, oito. Obrigado a todos que participaram e contribuíram para essa pequena amostragem de intenções.

A votação
Continuo com Dilma: 593
Continuo com Serra: 37
Votei Marina e agora voto Dilma: 49
Votei Marina e agora voto Serra: 24
Votei Plínio e agora voto Dilma: 44
Votei Plínio e agora voto Serra: 5
Votei PSTU, PCO etc e voto Dilma: 6
Votei PSTU, PCO etc e voto Serra: 4
Vou anular: 31
Vou votar em branco: 4
Não decidi: 8

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Abrindo a carta de Marina

Acabou o suspense: Marina Silva escolheu a neutralidade. Uns apostavam que, neste segundo turno, as lideranças paulistas e cariocas do PV a empurrariam na direção de José Serra. Outros acreditavam que seus antigos laços políticos com o PT a fariam apoiar Dilma Rousseff. No fim, porém, a candidata não ficou nem lá nem cá: preferiu subir no muro e, assim, não manchar a áurea que construiu ao redor de si durante a campanha.
A decisão foi tomada durante a convenção nacional que o PV realizou em São Paulo, no dia 17 de outubro, dentro do prazo de duas semanas que o partido havia estabelecido para tomar uma posição. O eleitor se lembrará que, após conhecer seu surpreendente desempenho nas urnas, Marina declarou-se temporariamente neutra e pediu um tempo para consolidar as ideias. Sua independência, agora, é o resultado deste período de reflexão.
Praticamente todos os convencionais do PV a seguiram: apenas quatro das 92 lideranças presentes manifestaram o desejo de apoiar o nome de Serra ou Rousseff. Os demais preferiram pensar a longo prazo e preservar o potencial eleitoral do símbolo criado pela candidata verde: foram 20 milhões de votos, pouco para levar Marina Silva ao segundo turno, mas suficientes para elegê-la como representante de uma espécie de “terceira via” no Brasil e alçá-la nacionalmente como defensora de uma “nova forma de fazer política”.
São conceitos ainda vagos e fartamente explorados pelo marketing do PV, mas que aos poucos vão se esclarecendo. Agora, por exemplo, temos mais elementos para analisá-los. Junto com o anúncio de que manteria sua neutralidade em relação ao duelo presidencial, Marina Silva lançou uma Carta Aberta aos candidatos que continuam na disputa.
O documento, quase um manifesto, deixa transparecer pelo menos cinco pontos que definem (e possivelmente continuarão definindo) o discurso “marinopevista” de cara à sucessão presidencial de 2014.

1. A utopia verde
Antes de mais nada, Marina Silva se enxerga – e é enxergada pelo PV – como “mantenedora de utopias”. Não na acepção ingênua e imatura da palavra, que confunde utopia com sonhos impossíveis ou delírios juvenis, mas no sentido mais profundo e filosófico do termo, que interpreta o pensamento utópico como catapulta das mudanças que podem ser aplicadas à realidade futura. Os utópicos veem o mundo não apenas como ele é, mas principalmente como ele deveria ser.
Utopia, portanto, é analisar o tempo presente, identificar mazelas, projetar transformações e lutar para que, um dia, possam se concretizar. O objetivo óbvio de todo utopista é modificar o estado atual das coisas. Portanto, ser utópico é caminhar na contramão do fatalismo, do “não tem mais jeito”. A utopia reconhece que o homem é dono de sua história e que, ao contrário do que dizia Francis Fukuyama, ainda não chegamos nem vamos chegar nunca ao fim dela. A organização das sociedades é dinâmica e tudo que nelas acontece é resultado direto da ação humana.
O comportamento utópico, contudo, não remete necessariamente às crenças marxistas. Na década de 1930, o sociólogo alemão Karl Mannheim identificou quatro tipos de utopia vigentes no mundo pré-nazista de então: comunista, conservadora, liberal e anarquista. As diferenças entre cada um dos modelos utópicos dependem da ideologia que professam. E é a natureza da ideologia que localiza o ser humano em posições distintas na linha da história e define a maneira como irá interpretar a realidade (ou seja, de analisar o mundo como ele é) e traçar caminhos para construir o futuro (isto é, projetar como o mundo deve ser). Se há uma característica comum a todas utopias, porém, é a de que o presente necessita ser transformado e que esta transformação resultará numa vida melhor.
Com 19,3% dos votos válidos debaixo do braço, Marina Silva está tentando ocupar no imaginário dos brasileiros o espaço da utopia, da mudança e do outro mundo possível que era terreno ideológico exclusivo do PT. Pelo menos até 2002, quando o partido foi confrontado com o ápice do sucesso eleitoral. A vitória de Lula, o operário que virou presidente, inaugurou o período mais importante da história petista (em termos de projeção política e influência nos rumos do Brasil) mas também encerrou seu reinado como porta-voz da revolução social de esquerda no país.
Aliás, há quem diga que o PT perdeu o primado sobre os anseios da classe trabalhadora antes mesmo do êxito nas urnas, quando publicou a Carta aos Brasileiros para acalmar o mercado e as elites às vésperas do pleito. Até então, e a despeito do discurso conciliador, ainda se temiam as barbas de Lula nas altas rodas da grã-finagem.
Foi o início da desconstrução da imagem combativa do partido, que teve prosseguimento com as denúncias de corrupção, mensalão e afins, a profissionalização de quadros e hierarquização da cadeia de mando interna, a adoção de uma agenda menos pautada pelos movimentos sociais e sua adaptação às “regras do jogo” eleitoral – inclusive às mais sujas. O próximo passo foi a expulsão (e, depois, a saída voluntária) de militantes que, fiéis às antigas propostas do petismo, não assimilaram bem as mudanças. Plínio de Arruda Sampaio, Heloísa Helena, Luciana Genro, Babá, Ivan Valente… A lista dos que negaram a nova fase do PT é extensa. E uma das últimas a deixar o barco, ainda que por motivações e em momentos distintos, foi precisamente Marina Silva.

2. O joio no trigo
A Carta Aberta escrita pela presidenciável joga PT e PSDB na vala comum dos partidos brasileiros. Ao conceder a si mesma o título de “mantenedora de utopias”, Marina Silva automaticamente quer dizer que o PT passou a ser apenas mais um grupo político trabalhando para conquistar o poder – e apenas o poder. Nas entrelinhas, defende a tese de que já não se pode esperar, nem do PT nem do PSDB, as grandes e profundas transformações na estrutura política, econômica ou social que o Brasil precisa. Isso, Marina diz que precisa. Porque uma boa utopia, para ser convincente, deve projetar seu mundo ideal.
Não é a toa que ataca com tanta veemência o que chama de “signo da dualidade”, que, segundo a candidata, tem se expressado historicamente no país pela “redução da disputa política ao confronto de duas forças determinadas a tornar hegemônico e excludente o poder de Estado.”
A situação narrada por Marina é típica dos partidos esvaziados de utopia. Ou porque sua construção ideológica não cumpriu as promessas que fez, transformando-se numa grande mentira – caso típico do neoliberalismo tucano após os pífios indicadores do governo FHC e, mais recentemente, da derrocada dos mercados. Ou porque o partido deu um giro contundente em suas posições políticas a tal ponto de não ser mais reconhecido como portador da mudança. Ou ainda porque tanto a realidade presente como as necessidades futuras estão em rápida e constante transformação, deixando as lideranças partidárias a reboque dos acontecimentos sociais. Na falta de projetos inovadores para o país, as disputas políticas passam a ser apenas disputas de poder.
Em sua Carta Aberta, Marina Silva lembra que a situação não é nova e que as rixas partidárias existem desde a época de Dom Pedro II. Começou contrapondo republicanos e monarquistas. Depois, já no século 20, jogou UDN contra PSD. No regime militar a briga era MDB vs. Arena. Agora, diz o marinismo, a história estaria se repetindo com PT e PSDB.
Não sem certa dose de ironia, observa, já que ambos os partidos nasceram das entranhas do MDB justamente para denunciar a ineficácia do “bipartidarismo” em representar a diversidade social brasileira.
Resgatando os conceitos do “eterno retorno” e aplicando-os ao jogo partidário nacional, Marina Silva se apega à ideia de que PT e PSDB são hoje os fiadores do “conservadorismo renitente” que desde sempre tem colonizado a política tupiniquim e sacrificado qualquer utopia em nome do pragmatismo sem limites.
“O mergulho desses partidos na antiga lógica empobrece o horizonte da inadiável mudança que o país reclama”, alfineta. Em outras palavras, Marina está gritando bem alto que a política que se faz atualmente no Brasil está ultrapassada, vazia de conteúdo e pobre de projetos. Ou seja, nossas eleições estão envenenadas pela sede de poder. E, contra esse veneno, eis que surge Marina Silva: o antídoto capaz de fazer com que a utopia volte a correr nas veias da democracia partidária.

3. Voto revolucionário

Marina Silva expressa o bem-vindo desejo de que a política nacional seja mais do que a escolha compulsória entre tucanos azuis e estrelas vermelhas. Ainda que a polarização entre PT e PSDB não seja de todo verdadeira em nosso presidencialismo de coalizão. O nó górdio do fisiologismo parece descansar muito mais na imensa influência institucional do PMDB. Trata-se do maior partido do Brasil, uma sigla gigante, difusa e incoerente, repleta de caciques e interesses regionais, mas cujo apoio garante no Congresso a governabilidade de quem quer que venha a ocupar o Palácio da Alvorada. E a cor da camisa nunca foi problema: o PMDB quer estar sempre no poder e tem força suficiente para barganhá-lo com o vencedor das eleições.
A Carta Aberta deixa claro que Marina Silva anseia por um país onde a democracia seja mais do que ceder aos totens do tradicionalismo. Mas não só. A candidata quer uma política multicolorida, diversa e que admita o verde como alternativa eleitoral. Só nos resta saber se o verde que se reclama é o do ambientalismo, que propõe novos paradigmas de desenvolvimento para o mundo e para o país, ou o que veste 43 e pede nosso voto na tevê de dois em dois anos.
Essa dúvida sobre as intenções do PV é a mesma que paira sobre o perfil dos eleitores de Marina Silva. Quem são eles? Será a comunidade evangélica, identificada pela fé da candidata? Será gente que, fazendo eco à Carta Aberta, está cansada da mesmice eleitoral dos últimos 16 anos? Serão pessoas que votavam no PT e se desiludiram com a guinada pragmática do partido? Ou cidadãos que mal acompanham o noticiário, não se interessam por política e gostaram da estética clean da campanha pevista? Fiéis adoradores dos produtos Natura, talvez? Quem sabe gente antenada com as principais consequências da crise ambiental, que acompanhou com amargura os fracassos de Copenhague e realmente acredita num mundo onde é possível viver bem e dignamente sem consumir tanto? Quem são os eleitores de Marina: intelectuais, trabalhadores, empresários, ateus, cristãos, ricos, pobres?
Talvez haja de tudo um pouco. A candidata do PV, porém, não acredita que seus votos tenham emanado de uma “soma indistinta de pendores setoriais”. Marina responde a uma das perguntas. Na Carta Aberta, escreve que seus eleitores são pessoas que repelem o fatalismo partidário que os empurra a votar ou PT ou PSDB para os altos cargos. Mas prefere pensar que, mais que o descontentamento com esta dualidade, os brasileiros que apertaram 43 para presidente estão unidos no desejo por “outros valores e outros conteúdos para o desenvolvimento nacional”.

4. O novo modelo

Infelizmente, é difícil acreditar que 20 milhões de pessoas estejam repensando padrões de vida e bem-estar num momento em que o país festeja o aquecimento da economia, o crescimento do PIB, a geração de empregos e a redução da pobreza. Pela simples razão de que o “bom momento” que se vive no Brasil é consequência direta de um nível de consumo maior (e cada vez maior) dos brasileiros, inclusive de gente que antes não consumia quase nada e que, depois do Bolsa Família e dos programas de microcrédito, pôde consumir o necessário para viver com o mínimo de dignidade. No sistema capitalista, as compras geram demanda, as demandas geram empregos, que geram mais compras e assim por diante.
Para o bem ou para o mal, ainda estamos presos neste esquema. E, agora que as coisas vão ou parecem ir melhor do que antes, aparentamos certa dose de satisfação em poder assistir o futebol e a novela numa televisão grande, viajar de avião nas férias, fazer churrasco aos finais-de-semana ou ir de carro para o trabalho. Talvez sem atentar, ou sem dar tanta importância, para os limites do planeta em aguentar nosso conceito de satisfação pessoal. Marina, porém, acredita que os 19,3% da população que votaram nela está ligada nesta problemática.
O caso do Brasil e demais países emergentes é extremamente complicado. A maioria de nós jamais teve acesso aos confortos da vida moderna. Mas agora está tendo: desde o pequeno prazer de poder escolher entre milhares de produtos em exposição nos supermercados até concretizar o sonho da casa própria.
Não dá para dizer aos que passaram toda a vida excluídos das delícias do consumo que, agora que lhes é permitido usufruir do bem-estar que nunca tiveram, deverão permanecer a uma distância segura da fartura. Do tipo: Nunca comeu filé mignon? Pois continue comendo ovo, mesmo que seu ordenado dê para um bom bife. Afinal, amigo, o planeta já não aguenta mais. Seria a maior das hipocrisias pedir que os recém-saídos das classes E, F, G e H, que não têm culpa nenhuma pela crise ambiental, se contentem com uma vida de austeridade porque os mais ricos fizeram o favor de usufruir da Terra para além da conta.
O carro-chefe da campanha de Marina Silva, portanto, é dos assuntos mais complexos que a humanidade já está enfrentando. Mas há dúvidas de que o PV possa conduzir a pauta verde com a devida legitimidade e competência. Primeiro porque a maioria de seus quadros estão historicamente alinhados com os setores mais conservadores da sociedade. Fernando Gabeira e Fábio Feldmann, que certamente ocupariam ministérios num eventual governo de Marina Silva, apoiam PSDB e DEM no Rio de Janeiro e São Paulo. E, apesar da neutralidade do partido neste segundo turno, estão trabalhando para a campanha de José Serra. Depois, porque o programa econômico apresentado por Marina Silva para estas eleições não questiona o ponto nevrálgico do modelo de desenvolvimento: o capitalismo.
Vivemos num planeta com recursos limitados, mas professamos uma economia que se pauta pelo crescimento infinito da produção, do consumo e da acumulação. Temos uma minoria que através dos séculos usufruiu à vontade das riquezas e só agora chegou à conclusão de que, se todos quiserem viver como as elites, o mundo não aguentaria.
Entretanto, José Eli da Veiga, um dos gurus econômicos da campanha do PV, diz que as nações subdesenvolvidas não podem sequer cogitar a possibilidade de não crescer. “A lei é consumo ou morte”, diz. “Os únicos que já podem colocar em questão o crescimento econômico são os países escandinavos. Lá existe uma situação em que a melhoria da qualidade de vida não necessariamente exige mais produção e consumismo.” Para Eli da Veiga, o Brasil e seus parceiros emergentes não se encontram em nenhum destes dois extremos: nem podem se dar ao luxo de deixar de crescer, nem devem crescer a qualquer custo. “A questão para nós é a qualidade do crescimento.”

5. Ecocapitalismo

O capitalismo está na encruzilhada de um mundo verde – mas não do mundo verde do PV. Enquanto o sistema econômico não for radicalmente modificado (e assim também seus padrões de bem-estar, conforto e riqueza) não haverá prosperidade suficiente para todos. O mundo acabaria antes. E não é uma questão de capitalismo ou socialismo ou o retorno da Guerra Fria. Trata-se de pós-capitalismo. Contudo, como bem apontava o presidenciável do PSOL Plínio de Arruda Sampaio durante os debates eleitorais, Marina Silva diagnostica com perfeição o grande problema do nosso tempo, mas não o encara de frente. Daí a pecha de ecocapitalista.
Sua Carta Aberta diz que “o mega-fenômeno com o qual temos que lidar é o do encontro da humanidade com os limites de seus modelos de vida e com o grande desafio de mudar. De recriar sua presença no planeta não só por meio de novas tecnologias e medidas operacionais de sobrevivência, mas por um salto civilizatório, de valores. Não se trata apenas de ter políticas ambientais corretas ou incentivar os cidadãos a reverem seus hábitos de consumo. É necessária nova mentalidade, novo conceito de desenvolvimento, parâmetros de qualidade de vida com critérios mais complexos do que apenas o acesso crescente a bens materiais.”
É simplesmente maravilhoso ouvir uma candidata à presidência com este discurso, mas é difícil acreditar que uma mudança de tal magnitude virá de um partido tão comprometido com as elites tradicionais, como o PV, ou da associação da figura ambientalista de Marina Silva com o empresário Guilherme Leal, um dos mais ricos do país. Graças a ele, o jatinho da campanha do PV era o mais luxuoso entre os presidenciáveis.
Que salto civilizatório pode-se esperar de tais alianças? Se a Carta Aberta diz que “o novo milênio exige mais justiça dentro de cada sociedade”, devemos esperar que os milionários nos deem a solução para a crise que se agrava? Estariam os mais ricos dispostos a abrir mão de seu alto padrão de vida e nível de consumo para começar a construir na realidade a utopia marinista?
A mudança civilizatória rumo ao ecologismo dificilmente virá da minoria mais abastada. A elite tem muito a perder com uma transformação tão radical. Talvez as classes de baixo poder aquisitivo, que jamais se lambuzaram na festa do consumo desenfreado, é que possam, agora que as portas dos shoppings se abrem para seus salários, escolher um novo caminho. Mas isso dificilmente ocorrerá dentro de um sistema que só prospera na gastança e que neste momento está possibilitando aos brasileiros contar com mais dinheiro no bolso. Marina Silva acredita que os 20 milhões de votos que recebeu refletem o “sentimento de superação de um modelo”. Pode até ser que seja o modelo neoliberal (em prol do desenvolvimentismo de estado, quiçá) mas definitivamente não é o capitalismo.
Muitas comunidades indígenas na cordilheira dos Andes e na Amazônia têm um discurso bastante semelhante ao de Marina Silva. A imensa diferença é que elas não se aliam a milionários para lutar por seus valores ambientais, que são profundos e definem o âmago de suas sociedades. Os povos tradicionais andinos, atropelados pela máquina colonialista, há tempos exigem uma mudança civilizacional. E, com todos os problemas e contradições, a praticam diariamente. Seja por meio da organização comunal da propriedade e na tomada coletiva de decisões, seja pela agricultura familiar e preservação da natureza, os indígenas latinoamericanos dedicam suas vidas para superar a concepção ocidental de mundo.
É assim que começa uma utopia verde. Falar em mudança de paradigmas e caminhar ao lado de baluartes do capitalismo e do pragmatismo nacional está longe de ser uma postura utópica. É muito mais uma atitude meramente ideológica, no pior sentido do termo, que manipula o discurso e os dados da realidade como plano de ação para enganar a opinião pública e alcançar o poder. Nesta trilha, Marina caminha para a mesmice que tão oportunamente critica em seus adversários.

Tadeu Breda, jornalista, é colunista do Nota de Rodapé e vive em Latitude Sul.
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