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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 18 de março de 2015

Marcha avante

por Tomas Chiaverini*

Foi um domingo assustador, com aquele ódio todo, bairros de classe alta em polvorosa, luzes piscando, buzinas, panelaço, como se estivéssemos prestes a sucumbir num torvelinho de uma revolta insana e descontrolada. Foi assustador porque mesmo quem não viveu a ditadura lembrou de imagens e relatos da “marcha da família com deus pela liberdade”, estopim do golpe de 1964 e de suas posteriores atrocidades. Lá, como cá, o que se viu foi um movimento encampado, não exclusivamente, mas, sobretudo, por uma elite reacionária.

Lá havia o fantasma do comunismo, os ecos da revolução Cubana que deixava as classes privilegiadas se pelando de medo de ter a prataria saqueada pelos bolcheviques. Cá, há um medo difuso de um comunismo que não existe senão como a sombra de um pensamento distorcido para um lado e para o outro ao longo do último século. Acima disso, há certa revolta diante da possibilidade de as regalias dessa elite acabarem divididas com o povo.

Tudo isso catalisado por uma presidente inábil, tanto na ação quanto no discurso. Uma líder que deveria ser um símbolo mas não consegue se livrar da vocação para a gerência. Que se cerca por uma equipe fraca e incompetente, sempre pronta a disparar medidas assoberbadas e contraditórias.

Os escândalos de corrupção, em especial na Petrobras, também servem de combustível, mas seria muita ingenuidade apontá-los como o motivo maior de tanta revolta. Basta levar-se em consideração que o carro chefe do descontentamento foi a cidade de São Paulo, reduto eleitoral de políticos como Paulo Maluf, o homem do “rouba mas faz”.

Motivações à parte, a coisa foi mesmo assustadora. A resposta, contudo, mostrou como a democracia avançou, e como a parte radical do movimento é frágil e quebradiça. Principalmente porque a resposta que veio não foi do governo apenas. Pelo contrário.

O primeiro esboço de resposta da presidente Dilma Rousseff ocorreu no pronunciamento desta segunda, em que a ex-presa política apelou para sua própria história e sentenciou: nunca mais alguém será perseguido, torturado ou morto por expor suas opiniões. Essa é a resposta a altura de um líder de estado, com toda a grandeza e simbologia que o cargo requer. Uma pena que tenha sido praticamente a única.

Por outro lado, bom que as respostas tenham sido plurais. Não como um grito, mas como um diálogo minimamente maduro e equilibrado. Ainda na noite de domingo, por exemplo, a Folha de S.Paulo, o maior jornal do país, cravou no topo de sua home uma manchete que ia contra a informação da Polícia Militar. Estimava haver 210 mil pessoas na Paulista, muito menos do que o 1 milhão oficial.

Caso os golpistas que clamam pelo socorro das forças armadas estivessem no poder, isso provavelmente seria o suficiente para empastelar o jornal e pendurar editores no pau-de-arara. A Folha, claro, não fez mais do que sua obrigação e é apenas um exemplo de uma postura que ajudou a esfriar os ânimos. Diante de reivindicações despropositadas como um golpe militar ou impeachment da presidente, uma infinidade de veículos e profissionais de imprensa se manifestaram pelo equilíbrio e em favor da legalidade e da democracia.

Não foi apenas imprensa. Os militares ignoraram o clamor da meia dúzia de abilolados e se calaram com profissionalismo e aparente respeito às demais instituições. E o próprio presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cacique do PMBD, voz retrógrada na política brasileira e inexplicavelmente terceiro na ordem de sucessão presidencial, disse, reiteradas vezes, que não há motivo para impeachment. Um sinal claro, evidente, translúcido de que, ao contrário do que pregam os batedores de panela, nossa democracia está sim, avançando.

Esperemos, portanto, que o Ministério Público e a Polícia Federal siga escarafunchando nas gavetas do poder não apenas para encarcerar corruptos e corruptores mas também para mudar nosso status quo, que vai do jeitinho brasileiro às grandes negociatas. Que a população continue a se manifestar, pressionando governantes a tomarem atitudes mais sensatas. E que isso seja feito com liberdade, sem que ninguém tenha de ser perseguido, preso, torturado ou morto.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha no Nota de Rodapé. Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

terça-feira, 10 de março de 2015

Quem tem saudade da Oban?

por Tomas Chiaverini*

  – O que você acha? – o doutor Carlos, meu médico, perguntou uma semana atrás, enquanto eu sentava em frente à mesa ampla do consultório no bairro do Jardins.

Fiz cara de quem não entendeu e ele foi adiante.

– Não acha que a gente tem de pegar em armas? Você que trabalha na televisão, sabe das coisas de bastidores, não acha que a gente tem de soltar umas bombas em Brasília, arrancar esse povo de lá e começar tudo de novo?

Na hora confesso que fiquei um pouco sem ação. Desconfortável e sem jeito argumentei que não, que qualquer democracia é melhor do que qualquer ditadura, que os problemas devem ser resolvidos dentro das instituições estabelecidas.

O doutor Carlos rebateu dizendo que democracia é muito bom quando o povo é educado, mas que aqui não tem jeito, porque com os votos do Nordeste o PT vai ficar no poder pra sempre.

Ainda tentei argumentar mais um pouco, mas, como o doutor Carlos estava prestes a examinar partes um tanto delicadas, minha resposta foi curta e rasa. Agora que o exame já passou, tudo está bem e estou a uma distância segura do estimado discípulo de Hipócrates, vou tentar melhorar minha sustentação verbal.

Eu não só não acho que devemos pegar em armas como acho que, no nível atual da nossa democracia, pessoas educadas como o senhor, doutor Carlos, deviam ter vergonha de sequer aventar tal hipótese. Vou tentar simplificar, pra não ter perigo de o senhor não entender.

Na última vez que alguém resolveu pegar em armas pra resolver as coisas, o país viveu vinte dos mais negros anos de sua história. Médicos como o senhor, ou como meu avô, doutor Reinaldo Chiaverini, eram expulsos de universidade pelos simples fato de pensaram diferente do pessoal das armas. O pessoal das armas, claro, não gosta de pensar porque, por ser dono das armas, não precisa. Por isso mesmo odeia os que pensam, acha que são ameaças. Então, da última vez que estava no poder, o pessoal das armas saiu à caça dos que pensavam. Agora imagine um país em que só por pensar o senhor podia ser preso num lugar como, por exemplo, a Operação Bandeirantes, a Oban.

A Oban era um carcinoma típico da ditadura, um modelo logo replicado por todo o país. Era uma espécie de delegacia financiada com dinheiro de gente como o senhor, que achava o povo das armas legal, e comandada por um homem que gostava de judiar dos outros, o delegado Sergio Paranhos Fleury. Também tinha espaço para os sádicos do exército, mas o senhor, uma vez preso lá no meio, nunca saberia direito quem era o que.

Em lugares como a Oban, o povo das armas torturava. Hoje, a nossa Polícia ainda gosta de usar métodos parecidos e o pessoal do panelaço finge que não vê porque as vítimas, em geral, são pretas e pobres. Mas na época a coisa era mais profissional. Eles tinham aparelhos feitos especialmente para infligir dor. O mais famoso era o pau de arara, onde penduravam gente como se fossem pedaços de carne num açougue.

Mas tinha coisas mais elaboradas, como a “cadeira do dragão”, onde os presos eram sentados nus pra longas sessões de eletrochoques, ou a “coroa de cristo”, uma braçadeira de metal com parafusos que apertava lenta e implacavelmente o crânio dos interrogados, causando dores lancinantes. Ou ainda o “telefone”, um magneto ligado numa manivela pros torturadores irem aumentando pouco a pouco dose de energia dos choques, o que ajudava a desestabilizar os presos. Antecipar a dor provoca tanta agonia quanto a dor em si.

Eles gostavam especialmente de eletrocutar órgão genitais porque isso humilha, ajuda a implodir a autoestima. Eles realmente adoravam machucar essas partes mais queridas. Enfiavam arames pelas uretras dos presos e iam esquentando até ficar incandescente. Amputavam os bicos dos peitos com alicates para cortar metal.

As mulheres sofriam mais. Eram estupradas, não só por vários homens da lei, mas por cassetetes, porretes e barras de ferro. Eles gostavam muito também de torturar casais. Enquanto a mulher era estuprada, levava choques, safanões, pontapés, cusparadas e mijadas, o companheiro era obrigado a assistir. Depois invertiam as posições e o que tinha apanhado era obrigado a assistir, sabendo como ninguém a dor que seu ente querido estava experimentando.

Se o senhor acabasse preso, doutor Carlos, eles poderiam torturar o senhor por meses a fio. E nem o senhor nem ninguém poderia fazer algo pra mudar isso porque as instituições simplesmente não funcionavam. Eles se divertiam muito com tudo isso. Quando algum preso falava, tinham uma bandinha dos torturadores, que descia as escadas tocando marchinhas pra comemorar.

Como torturavam por muito tempo e com muita violência, eles tinha um médico que cuidava pros presos não morreram. Mesmo assim, alguns presos, que podiam muito bem ser inocentes porque nunca haviam sido julgados, acabavam morrendo. Nem por isso a diversão terminava.

Eles cortavam os corpos, quase sempre de jovens universitários, em vários pedaços pra enterrar em lugares diferentes. Mas guardavam as pontas dos dedos. Depois saíam com elas numa viatura descaracterizada, de preferência na hora do rush, e iam largando os pedacinhos de gente sobre o asfalto. Assim os outros carros passavam por cima e destruíam de vez as digitais.

Isso tudo, doutor Carlos, aconteceu na rua Tutóia, a menos de três quilômetros do consultório do senhor. Foi há pouco tempo, talvez na época que o senhor começasse a pensar na carreira de medicina.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha no Nota de Rodapé.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passadas de pano padrão FIFA


por Tomás Chiaverini*

As coisas nunca saem exatamente como o planejado. Fato. E às vezes a diferença entre sonho e realidade é brutal. Ou, como dizem os americanos, shit happens. Aparentemente foi esse o caso da abertura da copa do mundo. Uma grande cagada coletiva, com o perdão do termo.

Um fiasco. Felizmente, foi um fiasco parcial, não total. E é copa, é Brasil, é futebol, todo mundo já estava na terceira latinha de Itaipava, a seleção levou de virada então bola pra frente, literalmente, e vamos ver aonde vai dar essa maluquice toda.

Mas, antes de irmos adiante, seria muito interessante ver alguém assumido a bronca. Levantando a mão, admitindo o erro e simplesmente pedindo desculpas. Nenhum cristão foi capaz, por exemplo de dizer que a abertura não funcionou, sei lá, porque a cenógrafa teve um piriri em cima da hora. E pra completar o avião dos bailarinos e cantores atrasou e tiveram de improvisar com fita-crepe, tinta spray e três cantores que estavam por aqui só pra assistir o mundial. Por isso saiu aquele espetáculo mambembe, com cara de teatro de quinta série. Acontece, foi muita pressão, assumimos o erro, mas vamos tentar fazer melhor na próxima... Nada, não houve erro, foi tudo lindo, era pra ser aquela porcaria mesmo.

E nosso brilhante neurocientista Miguel Nicolelis, o santo milagreiro das sinapses rompidas? Em vez de dizer que tudo deu certo, não seria o caso de vir a público explicar que a coisa é infinitamente mais complexa do que até ele podia imaginar? Que foi um erro prometer que um paraplégico ia levantar da cadeira de rodas, andar vinte e cinco metros por conta própria e sapecar um pimba na gorduchinha biônico à lá Tony Stark? Infelizmente não conseguimos deixar tudo pronto, a coisa não funcionou, o pobre homem ficou ali pendurado num cabide humano... Nada de novo. Pra ele também não houve erro. Só da Fifa e da Globo, que não deram mais tempo pro fiasco.

E o pênalti? Fred, Felipão, vamos parar de lero-lero. Vamos sair a público, respirar fundo e admitir que foi isso mesmo. Desesperamos e apelamos pro jeitinho brasileiro. Enganar o juiz faz parte do jogo. Não é bonito, não é ético mas assim fomos forjados, e foi o jeito que encontramos pra nos mantermos ali, na luta, carregando duzentos milhões de brasileiros na ponta das chuteiras. Só nos resta, portanto, pedir as mais sinceras desculpas...

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O fetiche Moleskine


por Tomás Chiaverini*

O Moleskine é um caderninho simples, originalmente preto, com páginas creme, marcador de tecido e um elástico, geralmente também preto, que o mantém fechado. Por sua simplicidade clássica, é um objeto bonito de se olhar. O Moleskine é também muito mais do que isso. É um fetiche. Carrega em si algo além da matéria que o constitui. O fetiche do Moleskine está intimamente ligado ao fato de ele ter sido o caderno de anotações de estrelas da intelectualidade como Van Gogh e Hemingway. Um Moleskine pequeno custa cerca de sessenta reais. Um caderninho idêntico, mas sem a marca do fetiche, custa cerca de vinte. Durante anos, tomei nota numa imitação de Moleskine pela qual não paguei nada, ganhei de brinde de um fábrica de móveis.

O nome da fábrica vinha escrito na capa, mas eu risquei com uma caneta preta e ficou quase imperceptível. Quase. Apesar da forma similar, apesar de cumprir os propósitos de guardar minhas ideias, meu caderninho carecia de fetiche. Ao longo do tempo, lutei com todas as minhas forças racionais para ignorar essa deficiência e segui tomando notas no brinde da fábrica de móveis. Considero ter juntado algumas ideias valiosas lá dentro.

Até que outro dia, flanando pela livraria Cultura, topei com uma estante só de Moleskines, e imediatamente o sorriso do capital se abriu para mim. Ele sempre dá um jeito, isso é certo. Os homens poderiam muito bem ser separados entre aqueles que vivem mergulhados na miséria e aqueles que, cedo ou tarde, se verão seduzidos pelo sorriso perolado do capital.

Contas pagas, poucas dívidas, cartão de crédito em níveis aceitáveis, e aquele caderninho ali, exalando seu fetiche esculpido através dos séculos... E o que, afinal, são sessenta reais diluídos em anos, o que são sessenta reais diante da possibilidade de ter a criatividade anabolizada por páginas dotadas de tanto charme e história? Comprei o tal Moleskine. Vermelho, só pra ser diferente. Sentei num canto, tirei o plástico e dei uma folheada. Bom papel, boa encadernação, bom formato. Nada que valha sessenta reais, mas o que importa é que o fetiche está lá. E funciona. Enquanto folheava meu primeiro Moleskine, senti uma imediata urgência de anotar algo.

Desgraçadamente, não tive nenhuma ideia que valesse a honra de inaugurar a sequência de genialidades que certamente preencheriam meu futuro companheiro de glórias literárias.

Sem mais a fazer, dei uma última folheada e notei que por dentro da contracapa há um charmoso bolso de papel com laterais de tecido. Lá de dentro puxei um folhetinho dobrado em sanfona. O mesmo texto se repetia em várias línguas. Li o primeiro, em inglês. Contava a história do caderno, que tinha nascido numa lojinha em Paris há mais de duzentos anos, falava dos intelectuais que o utilizaram para criar coisas tão fantásticas, e de como aquele objeto estava fadado a encerrar as mais luminares ideias da espécie Homo sapiens.

Enfim, estavam lá, preto no branco, todos os componentes do fetiche Moleskine. Uma explicação que se pretendia poética e afetuosa mas que me causou o efeito contrário. De alguma forma, ao gabar-se das próprias conquistas, meu caderninho inanimado destruía sua própria aura, como um correspondente de guerra que vai tomar chopp com os amigos usando botas de combate e colete cáqui.

Ao evidenciar de forma tão despudorada que vendia fetiche, que vendia o sonho de um dia ser Hemingway ou de que ao escrever ali as pessoas misteriosamente se aproximavam daquelas figuras míticas, o Moleskine moderno deixa claro que você é apenas mais um mortal em meio a centenas de milhões de aspirantes a intelectuais. E que caderninho nenhum vai te transformar no gênio que você não é.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Férias à lá Chuck Norris


por Tomás Chiaverini     ilustração Ligia Morresi 

Os doze recém chegados estão exaustos, suados e famintos. Vieram de lugares tão diversos como Nova Iorque, São Paulo e Berlin e enfrentaram uma estafante jornada Comandos em Ação por terra, céu e água para chegar àquela longínqua paragem amazônica. Passa um pouco das quatro da tarde e a sensação térmica se assemelha à de uma sauna a vapor. Ainda assim eles juntam forças e ensaiam sorrisos de simpatia enquanto o rapaz de bermuda cáqui e camiseta verde se utiliza de um inglês tropical para apresentar as espartanas regras do estabelecimento.

O desjejum é às seis da manhã, o almoço ao meio dia e o jantar às sete da noite. Sorrisos persistem. O rapaz explica que, apesar de a pousada ser flutuante, não é possível deixar a área dos bangalôs a não ser de barco, e sempre com o pessoal local. E que, a despeito do calor, é expressamente proibido nadar no rio, infestado de jacarés e piranhas.

Nesse momento, um homenzarrão loiro, de pele muito branca, levanta a mão e, visivelmente decepcionado, pergunta se realmente aquela água toda ficará ali à disposição e ele não poderá sequer refrescar os pés. O rapaz de camiseta verde conta de uma funcionária que limpava peixes na varanda da cozinha, foi atacada por um jacaré e por pouco não perdeu a perna. Depois dá prosseguimento às instruções que, apesar do tom amável, não deixam de remeter ao discurso de um carcereiro recepcionando presidiários novatos.

A água do rio alimenta os chuveiros e as torneiras mas não é potável. Cada bangalô conta com o auxilio luxuoso de duas garrafas térmicas para matar a sede e escovar os dentes. A energia elétrica é solar e, apesar do calor apocalíptico, escassa. Há pequenos ventiladores elétricos ao lado das camas, mas eles só funcionam por três horas diárias. Nesse momento, os recém-chegados, que ainda não se conhecem entre si, trocam olhares de cumplicidade, desconfiando que aquilo pode ser um trote de boas vindas. Não é.

O rapaz de camiseta verde informa que haverá uma hora de descanso antes de saírem para a primeira trilha. Os sorrisos prosseguem mas agora, além da simpatia forçada, denotam um discreto desespero. A maioria permanecerá ali por quatro noites. Alguns ficarão confinados por sete longos dias.

Sem mais a fazer, eles pingam de suor e arrastam malas e corpos cansados até seus bangalôs. São quartos amplos de madeira, cobertos por telhas cor de tijolo feitas de garrafas pet recicladas. A estrutura, interligada por passarelas de madeira, oscila de leve sob o peso dos hóspedes. Em cada cômodo há duas camas de viúva com cortinado, duas mesinhas pequenas e uma cadeira. As janelas são forradas por telas contra mosquitos. Ao lado da cama há dois ventiladores de Kombi cujo diâmetro não ultrapassa os ridículos vinte centímetros.

Há frestas consideráveis entre as tábuas do assoalho e é possível ver a água amarronzada do rio lá embaixo. Também é possível ouvir peixes pulando ou, no caso do pirarucu, subindo à superfície para respirar. Famílias de morcegos se mexem e guincham entre o forro e as telhas. De tempos em tempos um urro profundo e assustador vem lá de longe na floresta. Bandos de macacos guariba disputando território.

Os hóspedes largam as malas e se olham ampliando aquele sorriso de desespero, tentando não pensar que, pelos cerca de R$ 600 por dia para o casal, poderiam pagar um confortável e asséptico resort em Cancun ou um cruzeiro pelo nordeste com direito a show do Rei Roberto e sem limites para caipirinhas de frutas vermelhas. Acalma-se pensando que a Pousada Uacari fica dentro da reserva Mamirauá, e que o dinheiro arrecadado, em vez de engordar o caixa da CVC, será dividido entre os habitantes locais que gerenciam o lugar.

Na caminhada, o guia explica que aquele será o único dia em que o grupo sairá junto, porque na maioria das trilhas não são permitidas mais do que quatro pessoas. O ocaso urge e o passeio é rápido. Uma hora sob uma mata aberta, onde é possível ver a marca do rio no ano anterior, mais de cinco metros acima do chão. Na época da cheia, toda a região da reserva alaga, e os passeios são feitos apenas de barco.

Um pouco adiante o grupo avista um bando de macacos de cheiro e, ainda sem dimensionar o tamanho do problema, se depara com alguns exemplares da mais perversa criatura já saída das pranchetas do Criador: mosquitos. O guia, um caboclo baixinho que tem jeito de criança apesar do rosto enrugado, sorri enquanto o grupo se estapeia. O macaco de cheiro, explica, tem esse nome porque urina nas mãos e passa no pêlo pra espantar os mosquitos. Até o fim da estadia os doze integrantes do grupo, sem exceção, aventariam a hipótese de fazer o mesmo.

Na manhã seguinte, após o café, dividem-se em atividades diversas que basicamente se resumem em ver a floresta, com devoção especial a seus habitantes. Aranhas, besouros, escorpiões, grilos, peixes, répteis, preguiças e os reis do pedaço: nossos coleguinhas primatas. Macacos prego, macacos de cheiro e, claro, o Uacari branco de cara vermelha que só existe ali e que motivou a criação da reserva. Em passeios à pé, de barco a motor ou em canoinhas a remo, vêm bando de biguás decolando do meio do rio para pousar numa árvore ao pôr-do-sol. Vêm araras, tucanos, ciganas e falcões.

Depois da segunda ou terceira noite estão razoavelmente acostumados ao enxame de mosquitos que, qual a oitava praga do Egito, torna o ar denso e agressivo. Eles picam sem dó, por cima das roupas encharcadas de repelentes, mas, a essa altura todos já sabem, por experiência própria, que não se pode morrer devido a picadas de pernilongos (os guias garantem que a região é livre de Malária). Também já sabem que os morcegos, que voam à centenas, como se estivessem no quintal de Bruce Wayne, não apenas são inofensivos como alimentam-se de mosquitos.

Misteriosamente passam a ver algo de bucólico nos enormes jacarés boiando diante da sacada dos quartos, com aquela calma de rocha pré-histórica, e sabem que aquele silvo fantasmagórico que sobe pelo assoalho nas madrugadas nada mais é do que um suspiro dos companheiros répteis. O calor continua, mas já é algo natural, e os ventiladorezinhos de Kombi se constituem num artigo de raro luxo e deleite.

No último dia, visitam o lago Mamirauá, num passeio catártico que reúne todos os animais acrescidos da presença mítica dos botos cor de rosa, que corcoveiam na água de um lado para o outro, exibidos feito atletas de nado sincronizado. Voltam para a pousada já à noite, vendo as estrelas refletidas na água escura do rio.

Quando colocam as malas no barco no dia seguinte estão queimados de sol, cobertos de picadas, arranhados de espinhos e ligeiramente mais magros devido às caminhadas diárias e à dieta minimalista de arroz, feijão e peixe. Um hóspede sueco leva o troféu de um dedo enfaixado, depois de ser abocanhado por uma piranha durante uma pescaria. O paulista alto e branco ainda considera a hipótese de dar uma nadada com os jacarés, mas se contém. Nenhum deles trocaria a experiência por uma temporada em Cancun ou por um cruzeiro com o Rei Roberto.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Ligia Morresi, especial para o texto

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Grande desafio das massagens: Parte 1



por Tomás Chiaverini  ilustração Victor Zalma*

 Ciberespaço - Gtalk:

Eu: mano, to te devendo um texto, né?
tava com um pronto. mas fui reler e desisti
como anda nosso deadline?

Thiago [editor do NR]: desistiu pq?

Eu: achei ruim

Thiago: tô precisado de texto pra semana que vem

Eu: até que dia?

Thiago: segunda tá bom, mas se puder, me passe a ideia - se já tiver - pra eu tentar a ilustra

Eu: tá fueda
sem ideia

Thiago: haha
então blz, me viro aqui

Eu: vou tentar escrever entre hoje e amanhã

Thiago: ótimo
é o penúltimo cara. faz dois de uma vez e vc já tira férias do NR. daí só ano que vem.

Eu: haha
eu quero ideia pra um!

Thiago: cara, escreve sobre massagem
todo mundo devia ter direito a massagem,
é um negócio incrível

Eu: não curto não
Hum, ok, acho que temos um bom começo, haha

Thiago: faz um contra a massagem e faço um a favor
vira um tendências e debates no NR

Eu: eu fecho

Thiago: então pronto
tô precisando de um tema tb, vou nesse

Eu: vou começar com a nossa conversa

Thiago: beleza, tô curioso pra saber pq não gosta de massagem
diria que você é cheio de não me toques. haha

Pois é isso mesmo. Sou cheio de não me toques. Quer dizer, depende de quem está tocando. Massagem da mulher amada numa langorosa tarde de domingo? Ótimo, delícia, de preferência se uma coisa levar a outra e, enfim, deixa pra lá. O fato é que meu não me toques é com gente estranha, desconhecidos de jalecos brancos ou aventais esverdeados.

Mas minhas ressalvas começam antes, já nas instalações. Que coisa mais de mal gosto a decoração dessas clínicas de massagem, cruzamento de motel com consultório dentário. Enya nos autofalantes, quadros de inspiração budista e gosto duvidoso, fontezinha artificial, colchões de tecido impermeável e panfletinhos sobre vida saudável. TVs de LED sintonizadas no programa da Fátima Bernardes, e aquelas cadeiras todas emendadas, com velhinhas gordas ávidas por falar das netinhas.

Você fica lá, olhando para o nada, tentando evitar contato visual com aquelas pessoas, porque se isso acontecer imediatamente as imaginará sem roupas sendo apalpadas sobre uma maca, até que finalmente chega a sua vez.

Lá vem uma pessoa que você nunca viu e que, via de regra, é um homenzarrão com braços de matrona ou uma matrona com braços de homenzarrão. Aqui vale um aparte, nobre leitor: se sua massagista for uma mulher linda, com decotes provocantes, estamos falando de tipos distintos de estabelecimento. Vamos, portanto, tratar das casas de massagem, digamos, “de família”. Você entra num cubículo, geralmente separado dos demais por uma dessas paredes falsas que servem mais para tirar do que para conferir privacidade (você se acha protegido, mas na verdade estão escutando tudo do lado de fora). Então o homenzarrão (vou ficar com essa variante), manda que você tire a camisa. Isso na melhor das hipóteses. Porque se for do tipo purista vai te deixar só de cuecas, se tanto.

Você obedece. Tira a camisa e fica lá, em pé, esperando se ele vai te pegar pela mão, ou pedir gentilmente que se deite. Detalhe que ele não tirou a camisa. O que por um lado é bom (não são amantes afinal), por outro é estranho (pelas convenções sociais ocidentais, quando um tira a roupa, todos tiram a roupa. Vide piscinas, praias de nudismo, saunas gays). Então você tirou a camisa e está de pé, ao lado do homenzarrão desconhecido, num minúsculo cubículo rescendendo a aromas orientais. Doas auto-falantes jorra uma suave melodia new-age ou, talvez, sons sinuosos de cítaras indianas. O homenzarrão sorri um sorriso profissional e simpático e pede que você se deite de bruços. Se fosse em outra situação era o caso de partir pra cima do infeliz em defesa da própria honra. Mas, nesse caso, você obedece.

Deita sobre aquele lençol-papel-higiênico-de-gigante, que, no entanto, não dá conta de cobrir a maca inteira, e seus braços e ombros repousam sobre o plástico impermeável onde sabe-se lá quantos braços e ombros repousaram nas últimas horas.

A maca é, via de regra, pequena demais para um homem de estatura média. De um lado seus pés ficarão flutuando ali, prontos para levarem um esbarrão das coxas do homenzarrão. De outro, sua cara permanecerá enterrada numa argola acolchoada que mais parece a tampa de um vaso sanitário mirim.

Então lá vem o homenzarrão. E você sabe que ele se aproxima porque, com a cara metida no vaso sanitário mirim, consegue enxergar as unhas do seu enorme dedão despontando de uma ensebada sandália de couro. E voilá. Assim, sem mais nem menos, sem nem pagar um jantar antes, o sujeito está esfregando suas costas nuas e indefesas.

Ah, sim, não poderíamos deixar de mencionar que as mãos gigantescas do homenzarrão estão convenientemente besuntadas em algum óleo vagabundo e fedido, que vai te deixar com cheiro de loja de sabonetes pelos próximos três dias.

Iniciada a massagem, temos dois cenários básicos a seguir, ambos bastante desagradáveis. No primeiro, o sujeito vai se ocupar em tentar colocar seus músculos, nervos e ossos no lugar, com movimentos precisos, firmes e automáticos. Isso lhe causará um bocado de dor, muito provavelmente trará mais problemas do que benefícios, e você sairá de lá direto para um ortopedista, ou para uma farmácia, onde lhe venderão uma bela cartela de Dorflex por um valor equivalente a um décimo do preço da massagem.

No segundo ele lhe acariciará suavemente, espalhando gentilmente aquele óleo todo, talvez cantarolando algum mantra budista. Você pode até gostar, relaxar legal, pode até aproveitar na hora, até pensar na possibilidade de uma tarde langorosa ao lado do homenzarrão com braços de matrona. Nem isso, contudo, tornará menos desagradável a experiência. Porque, passados os quarenta minutos da sessão, o homenzarrão virará as costas, lavará as mãos e lhe dirá adeus, friamente ordenando que acerte o valor na saída.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Três vivas para a conversinha sobre o tempo


por Tomás Chiaverini     ilustração Victor Zalma*

 Ele mal dá seta e já para na sua frente. Você para em seguida e leva um buzinaço que não lhe cabe. Mas que filho da puta! E ainda vai entrar na garagem do seu prédio. Agora fica aí, enrolando pra abrir o portão eletrônico. É só apertar o botão do controle, filho, não tem mistério não. Custa comprar uma bateria nova? Pronto, finalmente, um ano depois... Agora mais meia hora pra conseguir engatar a primeira. Mas foi. Aleluia, irmão!

Cacete! Não é que a vaga dele é mais fácil que a sua? Que filho da puta, com esse carrão enorme, todo automático, com sensor que apita em tudo que é canto. Tá na cara que é um desses novos ricos da Dilma. Deve pagar um por fora pro síndico. Agora você fica aí, fazendo manobra e o sujeitinho já parou, já se escapuliu do carrão, saiu todo apressado e vai tomar o elevador sem nem te esperar. Ok, esperou. Mas te fez correr. Fica embaçando no carro e agora dá de apressadinho aí, segurando a porta. Tem pressa de que? Piriri?

E esse terno? Lã fria risca de giz, camisa sob medida... Capaz que ganhe o dobro que você. Por isso corre tanto. Tem de subir logo pra abrir o Ipad e ver se não tem nenhum email do patrãozinho. Bem feito.

Rá, seu andar é mais alto. Mas o apartamento dele deve ser de dois quartos, cheio de televisores de led, home theaters e sofás reclináveis de veludo. Fica do outro lado do prédio, então a vista deve ser melhor também. Mas o que importa? Se tem de correr tanto pra responder o email nem deve conseguir parar em casa, muito menos olhar a vista.

Você pensa, tentando não olhar pro sujeitinho enquanto são içados juntos rumo ao céu, no caixote de metal espremido em meio a toneladas de concreto. E lá vem aquele silêncio constrangedor maldito. Ou:

- Esquentou, né?

- Pois é...

- Previsão disse que ia mudar o tempo, mas firmou.

- Parece que vai virar no fim de semana.

- Putz, é sempre assim. Sempre no fim de semana né? Quando o pessoal vai viajar, chove.

- Pois é.

- Boa noite.

- Boa.

E não é que o cara parece ser gente fina?

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Unhas da imortalidade


por Tomás Chiaverini          ilustração Victor Zalma*

 Durante anos guardei minhas unhas. Não lembro exatamente como tive a ideia. Mas um dia, depois de aparar pés e mãos não joguei tudo fora como faria um humano mentalmente são. Em vez disso, guardei as pequeninas meias-luas de queratina numa caixinha de tic-tac sabor laranja. No começo não havia um motivo específico. Talvez tenha sido preguiça de ir até o lixo, talvez a caixinha estivesse ali, ao alcance, sobre o criado-mudo.

De qualquer forma, isso logo se tornou um hábito. E, com o tempo, passou a me proporcionar um discreto prazer. Pensava naquela música do Chico. No futuro distante, um escafandrista revira uma casa submersa e encontra resquícios de um amor do passado. Pensava que um dia um arqueólogo viria revirar meu criado-mudo, talvez fossilizado após uma hecatombe nuclear ou coisa que o valha, e encontraria ali minha coleção de unhas, acumuladas durante uma vida.

Com isso os cientistas do futuro concluiriam que todos os homens da nossa época guardavam suas unhas. E a partir daí criariam teorias sobre nossa cultura e religião. Uma civilização altamente materialista que não se desfazia de nada, nem mesmo de partes dispensáveis como unhas cortadas. Toda vez que sacava a tesourinha do canivete, era tomado por uma mitomania jocosa, imaginava a confusão histórica que poderia causar, e me ria por dentro.

Cheguei a levar as caixinhas de plástico laranja em viagens pra não desperdiçar nenhuma lasquinha. Era um trabalho meticuloso manter a coleção. Porque, apesar de cortar as unhas das mãos semanalmente e dos pés a cada dez dias, mais ou menos, o volume total era surpreendentemente reduzido.

Mas me divertia. Juntava as unhas com cuidado, olhava as caixinhas contra a luz e imaginava os cientistas do futuro intrigados. O que pensariam quando encontrassem uma unha inteira, que perdi depois de fechar a porta do meu velho Uninho no dedo médio? Talvez um ritual de passagem, como o daqueles índios que enfiam a mão em luvas forradas de formiga.

Foi assim durante anos, até que um dia, arrumando a segunda gaveta do criado-mudo, fui conferir as primeiras unidades fechadas da coleção. Pareciam vazias demais. Olhei contra a luz e lá estava. No fundo das caixinhas, uma pequena quantidade de pó esbranquiçado. Olhei as outras e nelas também havia um acúmulo de grãozinhos minúsculos, e todas estavam mais vazias do que antes. Não restava dúvida. Minhas unhas estavam virando pó, misteriosamente desintegrando-se sozinhas. Eu pensando no futuro, fazendo planos para daqui a duas, três, quatro décadas, e minhas unhas ali, virando pó.

Meus sonhos brincalhões de imortalidade, alterar a história com a ponta dos dedos, literalmente se desfaziam a olhos vistos. E ironicamente me lembravam de nossa dolorosa condição mortal. Do pó ao pó, sussurravam minhas unhazinhas cortadas. Depois disso nunca mais guardei unha nenhuma. Dos dedos direto pro lixo do banheiro e daí pra algum aterro sanitário. E de preferência sem pensar muito no assunto.

* * * * *

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O pão, a pomba e as sandálias prateadas



por Tomás Chiaverini ilustração Victor Zalma*

Segunda-feira. Acordo com uma sensação estranha e intensa de que nada faz sentido. Levantar da cama, sobretudo, não faz sentido. São nove horas, um horário ridiculamente preguiçoso para qualquer cidadão de bem. Mesmo assim programo o celular para tocar trinta minutos mais tarde. Não chego a dormir de novo. Fico lá, debaixo das cobertas, imaginando a manhã fria e tentando entender o que, afinal, não faz sentido com tanta força.

Foi um bom fim de semana. Priscila veio ficar comigo, bebemos vinho sem moderação, saímos para jantar, assistimos a filmes velhos na TV. No domingo fizemos torta de maçã, com uma receita indicada pela Clau. Estava um dia muito frio, mas mesmo assim fomos a pé comprar os ingredientes. Quando saímos havia uma pomba parada bem ao lado da entrada do prédio, numa esquina do bairro das Perdizes. Estava muito quieta e não voou quando nos aproximamos. Provável que estivesse doente ou machucada.

Na volta do supermercado, dobramos a esquina conversando animados e um homem fez um gesto com a mão, pedindo que parássemos ou que nos aproximássemos devagar. Estava agachado ao lado da pomba, com uma caixa de papelão nas mãos. – Parece que ela está doente – disse.

Nós concordamos em silêncio e entramos. Fizemos a torta e um caldo verde. Quando ficou tudo pronto, saímos para comprar pãezinhos frescos. A pomba não estava mais lá, nem o homem. Apenas a caixa de papelão vazia. E um par de sandálias. Sandálias prateadas, de salto alto, colocadas juntinhas sobre a calçada, perto da parede externa do prédio. Não faz sentido nenhum. A pomba, o homem a sandália. Também essa crônica não faz sentido nenhum.

E agora, lá se vão mais de sete horas desde que acordei. Tomei café, revisei algumas páginas do próximo romance que não fica pronto nunca, fiz exercícios, tomei banho, almocei os restos do caldo verde com duas fatias grossas de pão integral. Cheguei tarde na redação e o dia está mal parado. Passei o olho pelos jornais, facebook, conversei com amigos pelo comunicador instantâneo, depois me ocupei em escrever este texto. O fato é que a coisa não melhorou. Muito pelo contrário.

Cada vez mais, nada faz sentido.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na OrelhaIlustração de Victor Zalma

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Não existe amor em 3D


por Tomás Chiaverini*

Domingo passado fui assistir ao Homem de Aço. Cento e quarenta minutos de explosões, prédios desabando, destroços e rajadas de energia saltando sobre a plateia mastigadora de pipoca ensebada. Saí do cinema zonzo, cabeça doendo, com a nítida impressão de que, se continuar por esse rumo, o tão amado 3D vai acabar de vez com o cinema.

Meu primeiro contato com o Super-Homem foi numa telinha de 14 polegadas. Sessão da Tarde: Superman II – A Aventura Continua. Deve ter sido no final da década de 1980, eu estava então com meus sete ou oito anos.

Lembro que a coisa ia bem até que o Super-Homem, completamente apaixonado por Louis Lane resolve abrir mão dos poderes. Para amar uma mortal é obrigado a tornar-se mortal também. Entra num esquife de gelo que mantém na Fortaleza da Solidão (seu esconderijo no Polo Norte) e sai de lá um homem comum. Que ideia...

Na volta para Metrópolis, provavelmente em algum lugar próximo ao Alasca, o casal, agora obrigado a viajar de carro, para numa lanchonete de beira de estrada. Um valentão se mete a besta com Louis, Clark vai protegê-la e acaba vergonhosamente espancado. Apanha feio, sangra, é humilhado em público e diante da mulher que ama.

Aquilo foi demais pra mim. Saí correndo da sala aos prantos e me tranquei no banheiro, inconformado com a sova que os roteiristas tiveram coragem de aplicar no pobre do Super-Homem. Só concordei em ver o resto do filme depois que meu pai, gritando do outro lado da porta, garantiu que Kal-El voltaria a voar, ver através das coisas e derreter revólveres com sua visão de calor.

Outro dia vi esse filme de novo. Não é dos melhores. Mas a surra na parada de caminhoneiros é realmente muito forte. Christopher Reeve era um homenzarrão enorme e delicado, com uns olhos azuis que exalavam bondade e autoconfiança. Quando seu Super Homem levanta do chão, amparado por Louis, vendo o próprio sangue pela primeira vez, é como uma criança descobrindo toda a dor e perversidade do mundo.

No fim do filme, claro que Clark volta à mesma biboca, dá uns sopapos no valentão e aquilo nos enche de felicidade, e lá está a catarse que tantos espectadores fascinou ao longo dos séculos. E é isso que os roteiristas do 3D (e do cinema de ação em geral) estão perdendo. É impossível ter duas horas e meia de catarse.

General Zod derrubando um prédio com a cabeça do Super Homem é impactante. Dois prédios, ok. No terceiro prédio a gente já não aguenta mais, já ficou claro que aquilo vai longe e que não está surtindo efeito, e daí pra frente o barulho das explosões em Surround 5.1 só serve pra machucar os ouvidos.

Um exagero que talvez seja reflexo do nosso tempo. Precisamos de mais, cada vez mais. Mais dinheiro, mais carros, mais comida, mais bebida, mais mulheres, consumir e consumir, e mais efeitos especiais, mais explosões, mais vida, viver e viver para esquecer a morte.

A publicidade está o tempo todo lá, nos dizendo que tem de ser tudo agora, e muito, e rápido, porque a vida passa. E no Facebook, aquelas pessoas todas, todas lindas se fotografando com os beicinhos mais incríveis, e vivendo tanto, viajando, comendo e namorando, enquanto a você só resta um cineminha besta. Então se for cinema, tem de ser uma experiência, e se vai ter explosão tem de ser a explosão mais incrível da história.

E no meio de tudo isso as coisas delicadas – o olhar tão humano de Clark Kent depois da primeira surra – acabam se perdendo. Pode ser. Ou pode ser apenas que eu esteja velho demais para assistir a filmes de super-herói.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Bichanos se rebelam: Scarlett não é gata


por Tomás Chiaverini  ilustração Marcelo Martins Ferreira*

 O ser humano é um bicho estranho. E não estou falando de um ser humano específico, daquele taxista incrivelmente gordo, da cunhada estrábica, do comentarista de futebol com seu bigode gigante amarelado de nicotina. Estou falando do ser humano arquetípico. Estou falando de Scarlett Johansson.

Pensem na Scarlett, caros leitores desocupados. Pensem na Scarlett nua, vaporosa, saindo do banho ou levantando da sua cama king size numa ensolarada manhã hollywoodiana. Lindo? Pois bem, pensem mais um pouco.

Primeiro há essa pele estranhamente lisa. Scarlett não tem escamas, como os peixes; não tem penas, como os pássaros; e, a despeito de ser um mamífero, quase não tem pelos (isso descontando raspagens e depilações).

E os parcos pelos que Scarlett tem são estranhamente simétricos. Tufos cobrindo parcialmente os órgãos sexuais, embaixo dos braços e, o mais bizarro, um enorme penacho brotando da cabeça, e da cabeça apenas. Um tipo curioso de pelo que não para nunca de crescer e que, apesar de sua aparente inutilidade evolutiva e evidente comicidade estética, ganha especial atenção de Scarlett. Ela devota horas de seu dia a limpar, hidratar, alisar e pentear essa pelagem, facilmente humilhada por qualquer gato doméstico.

Aliás, há quem chame Scarlett de gata, mas, convenhamos... Scarlett sequer tem cauda. Pensem, caros leitores desocupados. Que outro mamífero é miseravelmente desprovido de calda? Pois Scarlett é. Que tristeza. Imaginem a cerimônia do Oscar com belas caldas felpudas e enfeitadas, brotando dos vestidos Versace. E como seriam mais fáceis os primeiros encontros. Scarlett está abanando o rabo, as chances são boas. O rabo da Scarlett está parado, melhor mudar o papo que está dando sono. Espetado para cima, algo está irritando a moça...

Mas Scarlett não tem rabo. Anda por aí com esse racho no meio da bunda. E, por falar em andar, que postura mais esquisita. Em pé, com a barriga e as vísceras à mostra, expostas a qualquer eventual ataque inimigo. E os seios? Duas inexplicavelmente exageradas porções de gordura, atarraxadas bem no alto do tronco, num evidente erro de projeto, que prejudicam sobremaneira o equilíbrio de Scarlett.

Há também os braços e as pernas. Ah, as longas pernas da Scarlett. Mas tão longas? Alguém já viu um bicho com membros tão compridos? E não é que Scarlett vá sair correndo e saltando por aí, nada disso. Tem esses membros longuíssimos e pra que? Cruzar e descruzar as pernas completamente livres de pelos, penas e escamas?

E nas extremidades há os pesinhos e as mãozinhas da Scarlett. Eca. Dedos desproporcionalmente longos e cravejados de rugas. Unhas à mostra, sem qualquer cobertura e, mais uma vez, com pouquíssima utilidade, uma vez que, livre de pêlos, Scarlett raramente se vê acometida de pulgas ou piolhos. Isso sem falar nas veias e nos ossinhos à mostra embaixo da pele fina, qual o intestino de uma lagartixa.

Por fim, há o rosto. E o Woody que me desculpe, mas Scarlett tem o rosto achatado. Ao contrário de praticamente todos os mamíferos, não tem focinho e sim essa boca embutida, rasgada no meio da cara. O nariz teve de ser colocado lá no meio, de qualquer jeito, embaixo dos olhos estupidamente juntos, e ainda por cima arrematados por um tufinho ridículo de pelos.

Ao lado dessa aberração evolutiva, um caso à parte. As orelhas. Sério. Que coisa mais asquerosa! Dois apêndices de pele pelada, enrugada, presos do lado de fora da cabeça, e, pra piorar desprovidos de músculos que os movimentem em busca do som inimigo.

Pois é. Um desastre completo. E agora imaginem, caros leitores, como os bichanos, com toda a sua elegância, seu pelo naturalmente liso e sedoso, sua longa calda sinuosa, sua postura elegante, suas genitálias ocultas, seus membros proporcionais, suas patinhas cobertas e acolchoadas, suas unhas retráteis, seu focinho saliente, e suas ágeis orelhas triangulares deve se ofender quando alguém olha para uma foto da Scarlett e irresponsavelmente sentencia: “que gata”.

*Com a ilustre colaboração do biólogo contrariado Dario Chiaverini.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de estreia de Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

Os óvnis do meu pai


por Tomás Chiaverini*

Meu pai viu um objeto voador não identificado. Não só viu como fotografou. A coisa toda aconteceu na véspera do ano novo, em Ubatuba, onde ele mora há alguns anos. Era noite, ele estava no jardim e fotografava estrelas, testando uma nova teleobjetiva. Como todos os fotógrafos da era digital, clicava, depois olhava no visor LCD, ampliando as imagens para conferir os detalhes. Foi assim que viu o OVNI.

Aumentou uma das estrelas e viu que, na verdade, não era apenas uma, mas várias, agrupadas num emaranhando de luzes em forma de cesta. Tirou uma sequência de fotos. Mostrou a uma amiga para ter certeza de que não estava tresvariando. Não estava. Havia realmente uma cestinha de luzes estacionada, no céu de Ubatuba.

Meu pai está com quase setenta anos. Numa altura da vida em que o materialismo da juventude já foi bastante contaminado pelo esoterismo difuso – autodefesa frente à proximidade da morte e à assustadora possibilidade do fim, ordinário, implacável e definitivo. Mas está longe de ser um deslumbrado. Cientista de formação, é um dos homens mais cultos que conheço e ocupa boa parte do tempo pensando sobre a estranha natureza do mundo sensível. O OVNI era um belo material para esse passatempo.

As fotos tinham excelente definição e ele as ampliou ao máximo. Enviou por email para um primo meteorologista do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). As imagens circularam por entre alguns dos maiores especialistas em fenômenos atmosféricos do país. Nenhum deles disse se tratar de um disco voador, como meu pai evidentemente ansiava (imaginem, caros leitores desocupados, registrar a prova de vida extraterrestre inteligente?). Mas nenhum deles soube explicar o fenômeno.

Não havia qualquer experimento científico na região naquela data, nenhum evento celeste especial. Tampouco havia registros de imagens semelhantes àquelas. A cesta de luzes, portanto, permanecia como um objeto voador não identificado. Meu pai foi adiante na investigação. Entrou em contato com comunidades de ufólogos e enviou as fotos para eles também. A resposta foi semelhante, ainda que com mais empolgação. Algo como: “parabéns, o senhor presenciou um fenômeno inexplicável”.

Durante meses meu pai mostrou essas imagens e repetiu a história, acrescida de justificativas e reflexões. As luzes pairavam no céu entre São Paulo e Rio de Janeiro. Duas das maiores metrópoles do planeta. E estavam ali na véspera do ano novo, momento exato em que hordas de humanos migram para o litoral num bizarro ritual de celebração cósmica. Não há duvida de que a data e o local seriam ideais para estudar os hábitos da nossa espécie.

O tempo passou. Meu pai continuou a espalhar e história. Até um fim de tarde em que resolveu fotografar um navio de cruzeiro, em frente à sua casa. O balde de água fria veio quando ele ampliou a imagem para conferir o foco. Todas as luzes do navio tinham o mesmo formato de cestinha do famigerado OVNI. Meu pai, que se sustentou a vida inteira como professor de fotografia, finalmente percebeu do que se tratava o seu querido disco voador. A nova lente tinha um defeito. O anel de foco ia um pouco além da posição “infinito” causando uma pequena distorção que borrava as luzes.

A vida alienígena não passava de uma ilusão de ótica. Ainda assim, enganou um punhado de ufólogos e alguns dos maiores cientistas do país. Moral da história: o pior cego, na verdade, é aquele que quer ver.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Casa da Vó


por Tomás Chiaverini  ilustração Ligia Morresi*

Uma festa dionisíaca. Música alta sem ligar pros vizinhos, intervenções artísticas nas paredes, stripers, pirofagia, fogos de artifício. A festa da demolição. Era o mínimo que poderíamos fazer pelo predinho de dois andares, encravado no âmago da boemia paulistana: Arthur de Azevedo, quase esquina com a Fradique Coutinho. A Casa da Vó.

A primeira vez, pus os pés sobre os tapetes persas puídos que forravam o chão de tacos da Casa da Vó foi há algo como quinze anos. Estava no colegial e usava um vergonhoso porém bem cuidado rabo-de-cavalo. Devia ser pouco mais de dez da noite e lembro bem do meu grande amigo Arpad entrando pé-ante-pé na minha frente, do som alto e da luz azulada da televisão vindo do quarto da Dona Alzira.

– Vó?... – Ele gritou da sala, com a voz cheia de receio. – Trouxe um amigo pra dormir aqui, tudo bem?

– Contanto que não durma comigo!... – Foi a resposta bradada num português arquetipicamente alentejano.

Dona Alzira era assim. Baixota e gorducha, dona de um mau-humor tão direto e evidente que ganhava contornos cômicos. Lúcida e ativa, sabia da fama de birrenta e usava isso a seu favor, às vezes (talvez na maior parte delas) apenas por diversão. Tinha uma vitalidade incomum para os oitenta anos e estava sempre viajando, o que, ao longo de uma década e meia, nos deu oportunidade de realizar um sem número de festas dionisíacas no seu apartamento recheado de fotos antigas e flores de plástico.

Não lembro quantas vezes dormi embriagado nos lençóis de Dona Alzira enquanto ela viajava pelo Brasil em excursões da terceira idade. Mas lembro bem de algumas em que sucumbi às carícias femininas, pecaminosamente alheio ao Cristo de madeira, obrigado a assistir a tudo com as mãos pregadas na parede da cabeceira.

Dona Alzira sofria com nossa boemia, com a boemia do bairro e, em especial, com a boemia do neto. Um desabafo dela ao próprio tornou-se anedota recorrente no fabulário da Casa da Vó. Estava inconformada com a morte de duas plantas postas em dois grandes vasos na calçada, ao lado da porta da frente.

– Toda noite esses bêbados sem-vergonha mijam nas minhas plantas – revoltava-se sem saber que a fonte da ureia mortífera era, vejam só, a bexiga de seu próprio neto.

Há cerca de dois anos, Dona Alzira ficou doente. Na verdade foram vários problemas na sequência, um agravando o outro. Ela perdeu a vitalidade numa velocidade espantosa e em pouco tempo já não podia morar sozinha. Há pouco mais de um ano, mudou-se para a casa da filha, e alugou o apartamento para o neto, que convidou outra amiga, a Marilia, para dividir a casa e as despesas.

A vocação ainda mais festiva da nova configuração já se evidenciou na mudança. Pleno sábado de carnaval, uma van, três amigos, daí passamos na casa do Paulo que incrivelmente estava de bobeira na calçada, pensando no que fazer da tarde modorrenta, e foi imediatamente sequestrado junto com a Nat, e logo era tudo uma confusão de coisas velhas sendo jogadas fora e perucas da Dona Alzira distribuídas para acompanharmos o bloco de rua que logo passou na nossa porta, como aconteceria se a vida fosse um filme de Felini.

Em pouco tempo, o que era um ponto de apoio à boemia, logo se tornou o centro da nossa interação social, zona franca dos prazeres mundanos. Por um regulamento nunca escrito ou sequer falado, alguns membros subjetivamente eleitos daquele grupo tinham liberdade de marcar comemorações, aniversários ou churrascos na Casa da Vó.

Alheia às alegrias que sua ex-casa nos proporcionava, Dona Alzira ficou novamente doente. Foi internada algumas vezes, por períodos progressivamente mais longos... Até que, já viram... Há alguns meses Dona Alzira não está mais entre nós. E algum tempo após a sua morte, a família finalmente capitulou às investidas de uma construtora. Não havia escolha. Ou vendiam o predinho por uma polpuda quantia de reais, ou teriam de conviver com uma obra que se estenderia durante anos e faria da Casa da Vó uma verruga encravada em mais um arranha-céu neoclássico. Isso se as velhas fundações resistissem aos bate-estacas.

Daí, portanto, a ideia da festa da demolição. Uma última homenagem ao prédio moribundo. Um misto de comemoração, catarse e funeral, uma histérica e dolorosa ode a Shiva e à inclemência do tempo. Chegamos a planejar as intervenções artísticas e até escolhemos a data. Não aconteceu na primeira e adiamos, sem muita certeza. Também não aconteceu na segunda.

E, novamente, já viram... A festa da demolição nunca se concretizou. Meu grande amigo Arpad arrancou as peças dos banheiros, as janelas e as portas para instalar na sua nova casa, num sítio no extremo da Zona Sul. O máximo que pude fazer foi quebrar um pedaço de parede com um ponta-pé. E hoje nosso querido sobrado não passa da uma pilha de escombros.

Aos leitores, peço perdão pelo anticlímax final. Mas assim parece ser a vida, uma vertiginoso desfile de caprichos e picuinhas do tempo. Poderia, talvez, terminar com o doloroso clichê de que éramos felizes e não sabíamos. Mas não seria verdade. Éramos felizes e sabíamos muito bem disso.


*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

segunda-feira, 25 de março de 2013

A essência, o essencial e os óleos essenciais


por Tomas Chiaverini*

É preciso escrever sobre assuntos relevantes. Textos profundos, que reflitam sobre a natureza e o sentido da vida, sobre a política humana e sobre o amor genuíno. Foi mais ou menos isso que meu amigo e editor deste espaço falou quando entreguei o último post. Falou cheio de cuidado e educação e com algum pesar. Tinha, talvez, chegado ao limite.

Também pudera, um ensaio sobre cuecas? Quem quer saber que porra de cuecas você usa ou deixa de usar, rapaz? E isso depois de uma série de escritos sobre desodorantes, o desapreço aos barbeiros, o incômodo do relógio de ponto e outras trivialidades desimportantes. Assim não dá. Paciência tem limite. Afinal, se o convidamos para colaborar com este espaço, não foi por seus belos olhos ou para saber dos contratempos de sua vidinha classe média. Você é um escritor, cacete, três livros publicados. Queremos substância. Queremos o sumo da vida vertido em Arial 10.

Certo, certo estou exagerando um pouco. Meu amigo e editor não foi assim tão assertivo. É um cara muito polido e discreto. Apenas sugeriu que eu talvez devesse investir em textos mais sérios e profundos de vez em quando. Claro, concordei, faz todo sentido. E sentei e pensei e comecei até. Mais de uma página sobre o carnaval e a natureza inerentemente efêmera da felicidade.

Mas o mecânico ligou bem no meio de um raciocínio. Aquele barulho na roda dianteira era mesmo o que eu pensava. Rolamento. Tive tanto carro velho que fiquei bom em diagnosticar problemas. Me fale onde dói (ou, no caso, onde faz barulho) que te digo que peça trocar. Cento e sessenta reais. Nada desesperador.

Voltei ao texto. Mas, de repente alguma coisa começou a me incomodar ali. Sabe quando não convence? E quando não convence não flui. E um texto, um bom texto, ainda mais um texto curto, tem de sair de uma vez. Tem que ser uma espécie de orgasmo mental. E, como no caso dos orgasmos, não adianta forçar. Só vem se for natural. Pra piorar, eu tinha prometido entregar no começo de fevereiro. Ou seja, um mês atrás. Mas não dá. Melhor fazer uma pausa pra lavar o resto da louça de ontem.

Mas que caralho, fui de novo ao supermercado e de novo esqueci de comprar detergente. E cândida. E os desodorantes? Cada vez que olho pra coleção de potes, tubos e aerosóis na janela do banheiro, sinto um desconforto no coração. Não consigo encontrar um que não deixe manchas brancas nas camisas.

A Pat, minha nova amiga pseudo-hippie até fez um pra mim. Com vodca e óleos essenciais. Uma graça de menina. Cheguei a testar. Mas estou acostumado a usar desodorantes sem perfume e os óleos essenciais (desculpe, Pat) têm um pouco de cheiro de lojinha indiana. Enfim, preciso jogar fora os desodorantes que não vou usar. Preciso também dar um tapa na casa. Esses tufos de pó que vão de um lado pro outro... Talvez seja o caso de finalmente contratar uma diarista.

Mas e o texto? O carnaval? A busca impossível pela felicidade plena? Talvez tenha perdido a mão. Bloqueio de escritor. Essas coisas acontecem. Ou, pior, talvez simplesmente não tenha um intelecto suficientemente arguto. Afinal, a mediocridade é a regra do mundo, por que seria eu uma exceção? Coisa assustadora. Mas pode ser pior. Pode ser que a vida seja isso. Um infinito amontoado de pequenas tarefas, coisas quebradas, compras, faxinas a prestação, alegriazinhas de sexta à noite e buscas inúteis pelos desodorantes ideais. Pode ser que falar de desodorantes seja o mesmo que falar da essência da experiência humana.

Eu, sinceramente, espero que não.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Em busca das cuecas ideais

Após um longo período de buscas e tentativas frustradas, aos trinta anos de idade, finalmente encontrei as cuecas ideais. E, antes que as leitoras se inquietem diante do assunto aparentemente fútil e desinteressante, adianto que essa não é, nem de longe, uma tarefa simples, nem sequer corriqueira.

Fosse pelo gosto feminino todos os homens usariam o mesmo tipo de cuecas: boxers pretas (cheguei a tal conclusão após uma exaustiva enquete em mesas de bar). Mas a verdade é que, do ponto de vista masculino (ao menos do meu) as boxers pretas estão longe de ser a embalagem ideal. Elas esquentam, apertam as pernas e embolam quando vestimos calças jeans. Portanto, fosse somente pelo conforto, continuaríamos eternamente apegados à boa e velha zorbinha de algodão, modelo “presente de vó”.

Como, contudo, nosso objetivo maior na passagem por este mundo é agradar as mulheres, buscamos alternativas. A que encontrei foi quase uma boxer preta. Mas por ser um pouco mais curta, não esquentava tanto nem embolava nas calças. Era de puro algodão, preta, elástico incorporado, com uma sutil lista cinza escura. Uma aparência sóbria, algo máscula, madura mas não senil e discretamente sexy (a depender do recheio, obviamente).

Comprei uma pra experimentar. E, após dois ou três turnos de test-drive, aprovei e fui aprovado pelo gosto feminino. Quinze dias depois voltei à loja e comprei logo mais três.

E por algum tempo vivi feliz e satisfeito com minhas roupas íntimas. Uma conquista e tanto, caras leitoras. Pensem na quantidade de pequenas tarefas e decisões cotidianas, como escolher cuecas. Pensem no tempo gasto com cada uma dessas semi-inutilidades. Pois então. Ao menos no quesito cuecas eu estava bem resolvido e não teria mais de me preocupar. Caminharia assim, com minhas boxers pretas um pouco mais curtas, quiçá até a derradeira velhice, quando, já despojado de qualquer vaidade, sucumbiria à samba-canção de seda.

Acontece que, após alguns meses, minhas cuecas ideais começaram a dar sinais de fadiga. Eu, obviamente, não tive dúvida. Voltei à mesma loja e fui certeiro até a parede coberta de modelos de todos os tipos, cores e tamanhos.

Mas, bastou correr a vista pelo mostruário para sentir uma pontada de angústia no peito. Não havia nenhum exemplar do meu modelo à mostra. Tudo bem, pensei comigo, devem ter se esgotado. Afinal, diante de tantos predicados, era de se esperar uma demanda acima da média. Certamente teriam peças em estoque, ou, na pior das hipóteses, mandariam buscar na fábrica.

Estava lá em pé, meio desolado, conduzindo este monólogo interno, quando um vendedor se aproximou oferecendo ajuda. – Estou procurando um modelo básico de algodão – expliquei, e verbalizei um retrato falado:

– preta um pouco mais curta do que a boxer, tem uma listrinha cinza no elástico.

O homem me encarou com ares de incompreensão. Olhou os modelos à mostra, perguntou se não era mesmo nenhum daqueles. – Não, claro que não, oras! Eu vou lá brincar com assunto tão importante, companheiro?

O homem finalmente viu que a coisa era séria e se condoeu diante da minha aflição. Foi até o computador, inseriu meu CPF e descobriu o modelo que eu havia comprado anteriormente, o modelo ideal, que havia resolvido de uma vez por todas minhas questões íntimo-estilísticas.

– Ah, essa nós paramos de fabricar – respondeu como se nada fosse.

Depois me ofereceu um modelo similar, feito de elastano, ou modal ou qualquer porcaria de tecido sintético. Imagine só, guardar partes tão importantes em um tecido que não sabemos realmente a composição e que, como quase tudo que não sabemos realmente a composição, deve ser altamente cancerígeno.

Olhei de novo para o sujeito agora cheio de raiva e indignação. Tudo bem que a profissão de vendedor de cuecas não deve ser das mais cobiçadas. Fosse vendedor de lingeries, certamente teria mais amor pela causa. Mas daí a nem sequer tomar conhecimento de que um dia, aquelas prateleiras ostentaram as cuecas ideias... Era demais pra mim.

E, novamente, me defendo das leitoras que por ventura vejam exagero ou ranhetice na minha indignação. A essas, explico que eu não me indignava apenas pelas cuecas. Me indignava porque ali estava o reflexo de todo o nosso desapreço pela memória. Do desrespeito histórico que tanto mal faz ao nosso povo e à nossa cultura. Mais um sinal do fenômeno que faz arranha-céus neoclássicos esmagarem nossas casinhas de vila, pagodes e sertanejos estupidificarem nossa música popular, fast-foods homogeneizarem nossa comida, chapinhas alisarem nossas mulatas...

Mas, que remédio. Não há como lutar contra as forças destruidoras do capital. Ou, nas palavras de Marx, tudo que é sólido desmancha no ar. Inclusive as cuecas.


Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Caco Bressane, especial para o texto

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A singularidade dos desodorantes

Tenho problemas com desodorantes (como inclusive já disse aqui). Eles estragam a roupa, ou não funcionam, ou têm cheiro de banheiro de rodoviária, ou tudo isso junto. Aquela gente das propagandas até tenta me convencer. Jatos refrescantes de prazer, mulheres que caem do céu arrancando as próprias roupas, carros velozes, esportes radicais... Mas nunca conseguiram.

Pra piorar, a última marca que me arrisquei a usar tinha outro problema. Produzia uma névoa tóxica no banheiro que, quando inalada, me irritava a garganta. Então criei uma técnica. Prendia a respiração, passava o desodorante, saía do banheiro e rapidamente fechava a porta atrás de mim. Assim continuei a usar esse desodorante por algum tempo. Não apenas porque fosse menos pior, mas, talvez, porque essa última implicância me agradasse.

Pois é. Me agradava. E me agradava porque fazia eu me sentir único. Todo mundo gosta de se sentir único. Uma programação biológica, provavelmente. Nossas mães dando à luz um por vez, e nos mimando como se o mundo girasse em torno do nosso umbigo.

No fundo, a verdade é que somos sete bilhões de atores principais nos trombando no palco, enquanto a plateia segue vazia.

Depois a vida vai aos poucos acabando com essa ilusão. Ou melhor, vai tentando acabar. Porque no fundo, em algum lugar do inconsciente e por mais comum que seja seu emprego, seu carro, sua mulher, todo mundo se acha um pouquinho único. Não há como ser diferente. Estamos vendo o mundo através dos nossos olhos, a vida nos é narrada por nossa própria consciência.

E assim temos a ilusão de que o mundo está lá pra gente, como um cenário onde protagonizaremos nossas aventuras. Uma espécie de engano primordial, eterna fonte de guerras, desavenças, divórcios e afins. No fundo, a verdade é que somos sete bilhões de atores principais nos trombando no palco, enquanto a plateia segue vazia.

É uma dura realidade essa. Ser só mais uma abelha no enxame. Por isso minha birra com o desodorante me dava prazer e, mais do que isso, me orgulhava. Tanto que há algum tempo, numa roda de amigos, me peguei genialmente discorrendo sobre os defeitos de cada marca de desodorante, sobre minha pele sensível, e sobre como minha visão do mundo cosmético se diferenciava da dos demais mortais.

No fim, comecei a contar de como minha garganta se irritava com a nuvem tóxica de sais de alumínio e aromatizantes e estava prestes a falar da minha técnica quando o Luli tomou a palavra. Assim, como se nada fosse e de um só golpe destruiu minhas ilusões de singularidade:

“Sim, essa marca é horrível. Eu sempre prendo a respiração antes de passar, saio do banheiro e fecho rápido a porta.”


Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Seja feliz, demita-se

Eu nunca cheguei a conhecê-lo mas sempre o achei triste. A impressão vinha das vezes em que nos cruzamos pelos corredores da emissora. Era muito gordo e baixo e usava um rabo de cavalo que não dava conta de esconder o início da calvície. Caminhava com dificuldade, sempre fumando um Marlborão vermelho, exalando tédio e cansaço.

Só o vi sorrir uma vez. Na verdade foi no mesmo dia em que ouvi sua voz pela primeira vez. Estava estranhamente radiante. As mãos tremiam de empolgação, segurando um cigarro que não fazia questão de acender. O motivo? Acabara de ser demitido.

– Vou pra Bahia, deitar embaixo de um coqueiro e fumar um quilo de maconha – dizia rindo feito criança.

Eu olhava aquele pobre ser humano, que durante dez anos trabalhou sem vontade, acumulando banha e alcatrão, e secretamente o invejava. Na vida, há poucos prazeres comparáveis a abandonar um emprego.

Tive essa grata experiência algumas vezes e frequentemente sonho em repeti-la. A mais memorável aconteceu há uns quatro anos, na Folha de S.Paulo. Estava terminando um período de cinquenta dias cobrindo férias no caderno Cotidiano. Trabalhava muito, ganhava pouco, não tinha benefícios e sempre acabava com as tarefas mais ingratas.

Certa vez, durante o julgamento de Suzane Von Richthofen, o jornal havia conseguido uma pista de onde estava o irmão mais novo da loira homicida. Me mandaram com um carro de reportagem para a frente da casa, num bairro residencial, perto do aeroporto de Congonhas. A ordem era esperar para ver se o guri entrava ou saía, e tentar arrancar alguma declaração. Fiquei das sete da noite às três da manhã parado na rua escura, ao lado do motorista que ferrou num sono pesado.

Em outro julgamento, dos cúmplices do Champinha, passei vinte e cinco horas na rua, diante do fórum de Embu Guaçu. Havia outros repórteres do jornal que iam alternado turnos e não escrevi uma linha sequer.

Por tudo isso, estava feliz da vida que minha temporada de suplício chegava ao fim, quando o editor do caderno me chamou de lado. Hoje ele é Secretário de Redação do jornal e já à época ocupava um cargo importante.

Talvez por isso não tenha se dado ao trabalho de sentar pra conversar. Falou enquanto andava, apressado. O jornal estava com um novo projeto, explicou, e eu seria o encarregado. Não perguntou nada, apenas me comunicou, como se eu fosse uma mesa, ou uma impressora, que pudesse simplesmente ser mudada de lugar. Foi falando e caminhando por corredores desconhecidos da redação até chegarmos a uma sala de espera, onde nos sentamos e ele terminou de explicar.

A Folha passaria a publicar diariamente um texto de obituário. Queriam que eu escrevesse. Para isso, eu teria de gastar meus dias telefonando para famílias enlutadas, à cata de informações sobre seus defuntos.
O prazer de deixar um emprego, creio eu, é o mesmo de arrumar a mala para viajar a um país desconhecido, de levantar a saia daquela garota pela primeira vez, de cair na estrada sem rumo. É um prazer que está nas possibilidades.
Acontece que eu não só estava feliz por deixar a redação como tinha um projeto de um livro-reportagem aprovado pelo maior grupo editorial do país. Quando expliquei isso tudo, a cara dele congelou e caiu no chão. E nesse exato momento a secretária nos mandou entrar. Sem ação, ele obedeceu. Entramos os dois, na sala que pertencia a Suzana Singer, à época a todo-poderosa Secretária de Redação do jornal. Nós entramos, sentamos, e ele me apresentou, com o sorriso mais amarelo do mundo.

– Oi Suzana, esse é o Tomás. Como eu te falei, ele ia tocar o novo projeto, mas acabou de dizer que está deixando jornal.

Ah, quanto prazer!... Mas não só por ver o rosto do chefe se partindo. Pedir demissão é muito mais do que isso. Também não creio que tenha a ver com as maravilhas do ócio, que fatalmente se transforma em tédio. Meu ex-colega do rabo-de-cavalo já deve estar de saco cheio da maconha, da brisa do mar, dos coqueiros e daquele maldito pôr-do-sol deslumbrante, todo santo dia no mesmo horário.

O prazer de deixar um emprego, creio eu, é o mesmo de arrumar a mala para viajar a um país desconhecido, de levantar a saia daquela garota pela primeira vez, de cair na estrada sem rumo. É um prazer que está nas possibilidades. Na esperança de que amanhã ou na semana que vem poderemos estar num lugar melhor, realizando coisas mais interessantes, vivendo a intensidade dos comerciais de cartão de crédito.

Infelizmente, como todos os prazeres intensos, este também passa rápido. E no fim não nos deixa mais do que uma lembrança feliz misturada à vontade de experimentá-lo de novo o quanto antes.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Os Moinhos de Vento de Levy

Levy Fidelix foi o primeiro candidato a chegar ao debate da TV Cultura – realizado em setembro - com quase duas horas de antecedência. Adentrou os portões exibindo um caprichado sorriso sob o bigode preto retinto, aparentemente recém retocado de Grecim 2000. Ao contrário de seus adversários (excetuando-se, por motivos óbvios, Soninha), vestia um terno mal ajustado e uma gravata listrada, daquelas largas, de antigamente. Quando o embate começou, destilou os disparates de sempre, ainda que o famoso aerotrem tenha perdido espaço para um banco municipal. Na surreal hipótese de Levy tornar-se prefeito, o tal banco, de alguma maneira mágica, salvaria a cidade da iminente bancarrota.

Foram duas horas e meia de discursos enfadonhos e semi-afagos entre os oito candidatos, e faltavam menos de quinze minutos para meia-noite quando o mediador, Mario Sergio Conti, finalmente decretou o término do lenga-lenga. Apesar do adiantado da hora, a imprensa, que heroicamente lotava a plateia, subiu ao palco em busca de declarações. Aquela coisa de sempre: microfones, gravadores, câmeras e filmadoras disputando espaço para registrar uma declaração insossa qualquer.

Os mais assediados foram Haddad, Serra e Russomanno, líderes nas pesquisas. Mas todos, até os menos expressivos, como Gianazzi e Paulinho da Força, mereceram alguma atenção dos repórteres. Menos o pobre Levy. Nem sequer um microfonezinho se dispôs a dar voz às suas utopias tão ingênuas e divertidas.

Faz sentido, jornalisticamente. Levy não tem expressão e nunca, nas doze vezes em que se candidatou, foi eleito a coisa alguma. E, ao que parece, ainda não será dessa vez – ele vem oscilando de zero a um por cento nas pesquisas eleitorais.

Mas, diante da indiferença da mídia, o valente Levy não se abalou. Apoiou um cotovelo sobre o púlpito, o outro braço na cintura e sorriu, protegido pelo bigodão retinto. E ali ficou, altivo, pronto a esclarecer qualquer eventual dúvida sobre o aerotrem ou declamar, de cabeça, o número exato de avenidas, ruas, becos e alamedas da cidade de São Paulo. Pouca gente chegou a reparar na calva cintilante ou no peito estufado do candidato. Eu o fiz, por alguns instantes. E confesso que me senti tocado.

Enquanto o observava no palco, em meio à zoeira de flashes, declarações e repórteres afobados, tive a impressão de estar em contato com um outro tempo, quando as coisas eram mais simples. Um época em que não havia tantas pesquisas de opinião, marqueteiros, analistas, maquiadores, em que bigodes eram parte relevante do acervo estético masculino.

Mas os encantos do Levy iam além da nostalgia. Afinal, como há muito nos ensinaram Dom Quixote e Sancho Pança, há poucas coisas tão cativantes quanto um perdedor crônico com ilusões de grandeza. Vida longa, portanto, aos nanicos de personalidade, que temperam, com algum humor e lirismo, nossas enfadonhas eleições. Quanto ao meu voto? Bem, caro Levy, infelizmente ainda não foi dessa vez. Mas, continue tentando, quem sabe daqui a dois anos.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Emancipação capilar

Barbeiros não sabem cortar cabelos. Pode parecer uma afirmação absurda, mas é fato. Barbeiros cortam cabelos como se fossem gramados. E cabelos não são gramados. São parte da nossa identidade, como orelhas, nariz ou sobrancelhas. Mas os barbeiros não levam isso em conta. Apenas cortam, sempre igual. Antes de começarem, quando nos sentamos nas cadeiras das barbearias (tão parecidas com as dos consultórios dentários), eles sempre perguntam como queremos o corte: mais curto, mais comprido, pentear pro lado, pentear pra trás. Mas, no fim, cortam sempre igual.

Um homem que sai do barbeiro é reconhecido à distância. E por alguns dias tem de lidar com sua personalidade homogeneizada, qual um recruta do exército ou um menino de calças curtas, obrigado a acatar os gostos capilares da mãe.

Eu sempre odiei barbeiros por causa dessa mania de deixar todo mundo com a mesma cara de bom moço. Fossem os barbeiros arquitetos e todas as cidades se assemelhariam a condomínios de Alphaville. Um mundo limpinho, arrumadinho, porém desprovido de charme e de identidade própria.

Mas cheguei a tentar algumas vezes. Em geral em barbearias razoavelmente baratas, mas nem sempre. Certa vez, num lapso de insanidade e obviamente estimulado por uma mulher, fui a um desses salões caríssimos, onde todos vestiam quimonos. Me fizeram massagem, me lavaram a cabeça com xampus aromáticos de ervas desconhecidas, me deram revistas importadas pra eu apontar o penteado ideal, cortaram os cabelos com navalha e, no fim, o resultado foi a mesma bananice de sempre.

Por tudo isso, ao longo dos anos, me acostumei a entregar o cuidado das madeixas às mãos mais confiáveis do mundo: as da minha mãe. Geralmente escolho um domingo de sol, almoçamos juntos, ela coloca uma cadeira no jardim dos fundos, me cobre os ombros com uma toalha de mesa suja, e passamos meia hora na função barbearia, que quase sempre nos faz dar boas risadas.

Quase sempre, vejam bem. Porque há dias em que ela não está muito inspirada e me deixa longas antenas de comunicação intergaláctica atrás das orelhas. Em outros, tem arroubos de criatividade (“hoje vou começar pelo meio”) que nem sempre provocam resultados satisfatórios. Mas as risadas ficam mais raras mesmo quando Dona Helô não está com paciência pra coisa e quase me descasca o couro cabeludo com os dentes do pente. Nessas ocasiões, me vejo assombrado por uma imagem da infância: meu primo sangrando depois de ter um pedaço da orelha arrancado por uma tesourada de minha mãe. De qualquer forma, o resultado do corte caseiro invariavelmente supera o dos profissionais.

Mas, ultimamente, com compromissos de trabalho, o próximo livro que estou terminando pela terceira vez (e ainda devo terminar mais umas quatro) e esse trânsito da cidade que não anda, fica cada vez mais difícil me descambar até a casa da minha mãe. Então, semana passada, numa noite de insônia, olhei bem a minha própria cara no espelho, o canivete suíço que uso pra cortar unhas apoiado na janela, e lembrei do meu amigo Paulo.

Meu amigo Paulo compactua com meu desapreço por barbeiros. Tanto assim que, como me confidenciou certa vez, costuma cortar o próprio cabelo. A afirmação poderia ser de fato surpreendente, não houvesse sido produzida pelas cordas vocais do meu amigo Paulo.

Dou um exemplo, a título de explicação. Há algum tempo, fui visitar meu amigo Paulo numa noite de sábado. Sua namorada, a Nat, abriu a porta, me cumprimentou e voltou a lavar louças. Do segundo andar, vinha um agradável som de piano. “O Paulo está lá em cima, no piano, sobe lá”, disse a Nat, numa frase recheada com um agradável conforto doméstico.

Eu subi e topei com o meu amigo Paulo tocando, sem partitura, uma música que ele mesmo havia composto. “Eu nem sabia que você tocava, nem sabia que você compunha”, exclamei algo espantado. Ele disse que sim, vinha aprendendo piano sozinho e compunha nas horas vagas. Tinha algo como seiscentas (seiscentas!) músicas escritas.

Diante de surpresas como essa, convenhamos, não há como tomá-lo por referência. Ou, em outras palavras, se o meu amigo Paulo é capaz de cortar o próprio cabelo, não quer dizer que eu também o seja. E ainda por cima o cabelo dele é fino e liso, não duro e cheio como o meu, onde qualquer falha fica mais evidente.

Mas a insônia traz dessas insanidades. E eu comecei, com a tesourinha do canivete suíço (ah, se o MacGyver me visse...). Comecei pelo lado, acima da orelha. “É um trabalho pra se fazer com calma, dura algo como uma semana”, explicara meu amigo Paulo, agora promovido a guru capilar. Eu obedeci. Fui aos poucos. Tesouradas discretas e irregulares, pequenos tufos de cabelo lentamente deixando o conforto da cabeça para formar um ninho castanho no cesto de lixo do banheiro.

Naquela noite mesmo, terminei as laterais. Na manhã seguinte, talvez ainda encorajado pela falta de sono, retoquei o trabalho anterior e ataquei a parte de cima e da frente. Estava já mais seguro, confiante nas tesouradas. Cheguei a arriscar até umas aparadas atrás, mas aí não foi tão fácil.

Meu amigo Paulo diz que chegou a usar dois espelhos, operação que se mostrou complexa até para seu intelecto privilegiado. “Você nunca sabe pra onde está movendo a mão. É completamente aleatório. Você quer mexer pra trás, mas a tesoura vai, sei lá, pra direita.” Diante disso o que fez meu amigo Paulo? Cortou de olhos fechados.

Eu, como um marinheiro de primeira viagem, preferi pedir ajuda à Helena. Ela, a princípio, não quis arcar com a responsabilidade, mas eu ameacei cortar de olhos fechados e ela topou me agraciar com algumas tesouradas. Depois, no fim de semana, ainda dei uma passada na casa da mama pra uma aparadela final.

E o resultado? Bem, caros leitores, pode ser orgulho de criador diante da criatura, mas creio estar portando o melhor corte de cabelo dos meus trinta e um anos de vida. Curto, mas não muito, levemente repicado, discretamente caótico, revolto e másculo, sem qualquer indício de bananice. Ainda estou tentando me livrar dos fios que se espalharam por cada fresta do chão do banheiro, mas não importa. É um preço pequeno a se pagar por tamanha liberdade.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.
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