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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Uma estrada de Natal a São Paulo


por Nina Madsen   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

A história de Seu João foi um desses presentes inesperados que algumas corridas de taxi nos oferecem. Estava em Natal, a caminho do aeroporto para voltar para Brasília. Dirigindo o taxi, um senhor de mais de 60 anos, animado e falante, louco para me contar sua história. Ela foi se desdobrando no decorrer do longo caminho rumo ao novo aeroporto da cidade, noutra cidade – São Gonçalo do Amarante.

Seu João foi dirigindo e me contando que por ali nascera e vivera a infância. Naqueles tempos, a distância era ainda maior, não em chão, senão em horas e dificuldades de percurso. A cidade de sua infância era um vilarejo feito na areia e por ela João caminhava todos os dias, descalço, fazendo o caminho de casa para a escola, da escola para casa. A caminhada, tão longa quanto nosso trajeto de carro até o aeroporto, era ato de resistência e insistência – aquela mesma teimosia da qual já falei por aqui.

Pois Seu João era teimoso nisso de ir à escola. E teimoso também na ideia de fazer crescer seu mundo. De modo que aos dezessete anos, decidiu subir em um ônibus e tentar a vida em São Paulo, terra prometida de então, numa época em que a seca e a falta d’água eram chagas nordestinas exclusivas.

Disse que preparou a marmita na lata de leite e se foi. Logo no início da travessia, Seu João foi reconhecido por um primo distante que não via há muitos anos. Contou da sua corajosa aventura e recebeu do parente o endereço de seu irmão, que morava em São Paulo, e uma foto, para que ele pudesse ser identificado como família.

E seguiu viagem, certo de que em não mais que sete horas estaria na grande cidade. E eis que aquelas sete horas começaram a se multiplicar em dias – três no total – e João, faminto, sem tostão que fosse para enganar o vazio do corpo. Quando chegou a São Paulo, foi em busca da casa do parente. Quem abriu a porta foi a mulher do primo, que nem de longe conhecia Seu João. Mas ao olhar a foto do marido mais novo, deixou entrar o garoto, dando-lhe logo de comer. Ele me contou com detalhes o banquete de pão com manteiga e carne com que apaziguou sua fome. E como em seguida saiu para passear pela cidade, deparando-se com um cartaz de Precisa-se de cobrador, em frente à parada de ônibus. Apresentou-se. O motorista pediu que fizesse umas somas – ele era bom de matemática – e o contratou.

E Seu João assim se instalou em São Paulo. Casou-se, teve filhos e foi fazendo por lá a vida. Quando pôde, voltou para sua terra de origem. Seus filhos, hoje adultos, nunca precisaram caminhar descalços em chão de areia para ir à escola.

Seu João não me contou das desventuras que viveu por lá pelo sudeste. Não me contou das discriminações, do preconceito, do ódio. Não precisou. Eu imaginei mesmo assim.

A história dele era a de sua satisfação e de seu orgulho com a vida vivida. Orgulho que logo virou meu também, orgulho por tabela, orgulho por emoção. De ver gente assim, que acredita na vida em qualquer circunstância. Gente que sabe caminhar seu caminho, que entende que entre Natal e São Paulo é uma terra só (sempre bom lembrar...), toda pronta para ser desbravada. Por mais que nos digam o contrário.

* * * * * *

Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hippie de BR

por Carlos Conte   ilustração Marcelo Martins Ferreira

Nas últimas férias, dei carona para um sujeito chamado Gnomo. Gnomo é seu nome de estrada. Três anos na estrada, pegando carona e caminhando pelas BRs com sua pequena mochila e seu mostruário hippie feito de pano e canos de PVC.

– Valeu pela carona, brother! – tirou do próprio pulso uma pulseira de linha de bordado adornada com uma pedra azul e me deu. – Presentinho do Gnomo pra lembrar do brother da estrada!

Agradeci, amarrei no pulso e acelerei rumo ao sul. Saímos de Salvador com o sol nascendo. Nosso destino: Vitória.

– Vou terminar um Filtro dos Sonhos antes de chegar em Vitória. Peguei umas penas de arara no zoológico de Recife. O guardinha não queria deixar. Mas eu voltei lá depois quando ele não tava olhando. Vou fazer um Filtro dos Sonhos pra você com essas penas de arara. Curte?

Mesmo sem saber o que era um Filtro dos Sonhos, aceitei. Era a maneira de me retribuir, já que estava completamente liso. Penas de arara colhidas do chão não afetaram minha consciência ecológica a ponto de recusar. “Se ele tivesse arrancado da arara, recusaria”, pensei. Mas Gnomo era um sujeito pacífico. Sua matéria-prima vem da coleta. Na primeira parada, enquanto eu abastecia o carro e tomava um café, ele se ocupou catando coisas no mato atrás do posto de gasolina. Voltou com uma sacola cheia de materiais:

– Olha só, brother, achei umas coisinhas legais: pedra, semente, corda, arame, cipó... Seu Filtro dos Sonhos vai ficar massa: vai ser de galho de chorão! As pessoas jogam muita coisa boa no lixo. O que eles jogam fora eu uso na minha arte – orgulhou-se.

Encontrar Gnomo me fez lembrar de uma andarilha que pedia carona na viagem de ida. Fiquei mal por não ter dado carona pra ela. A mais de 100km/h, não deu tempo. Pedir carona exige estratégia e ela estava no lugar errado! Gnomo me explicou detalhadamente: tem que escolher um trecho de velocidade reduzida, de preferência trevo ou ponto de lombadas, e é preciso que o acostamento seja largo e longo, na verdade um recuo é o ideal para o carro conseguir desviar-se da pista sem provocar acidente.

– Você foi um anjo no meu caminho, Carlão! Carona de 2 dias não é toda hora que aparece!

Fiz questão de dar carona para ele porque, de certo modo, me sentia em débito. Quando vi a menina, já tinha passado por ela e logo atrás de mim vinham carros e carretas a toda velocidade... Acostamento estreito. Não teve jeito. Segui viagem. Agora era a vez de Gnomo e eu precisava dar essa carona, como se minha viagem ganhasse muito mais sentido com um estradeiro de verdade ao meu lado. Faz tempo que sou fascinado pela vida na estrada: desde que li On the Road pela primeira vez, Dean e Sal cruzando os Estados Unidos com uma mochila nas costas, ou o relato zen de Os Vagabundos Iluminados; desde que ouvi falar dos sadhus, monges andarilhos indianos que vivem de doações, de sol e de água; ou o relato de Che Guevara pela América Latina explorada e miserável; desde então, a viagem me fascina e não me canso de ir atrás de outros relatos de viagem: a desobediência civil de Thoureau, as andanças de Rousseau pelos bosques suburbanos, as perambulações opiáceas de De Quincey pela Inglaterra. E Gnomo, de certa forma, era a realização desse modo de vida (pelo menos no que diz respeito à simplicidade e ao nomadismo). Gnomo, meu copiloto. Mais de mil quilômetros ao lado do Vagabundo Solitário Gnomo, que sempre que encontrava oportunidade exaltava as qualidades de sua arte. “Arte hippie”, ele dizia.

Mas o encantamento durou pouco. Romantismo. Idealização. Os livros também falam do “lado B” da vida andarilha. Os beats nunca esconderam isso. A vida na estrada é dura, como se pode imaginar, e Gnomo estava definitivamente na pior. Em vários sentidos. Pra começar, estava duro. Convidei-o para almoçar: ele fez um prato gigantesco – “vai saber quando vou almoçar de novo?”. Contou-me seus infortúnios: a ex-mulher voltou para o Chile e levou o cachorro; a única filha está em Pernambuco sendo sustentada pelos avós; as vendas andam mal... Em Salvador, vendeu pouco e bebeu muito. “É a fase...”, lamentou-se. Agora precisava encontrar uns amigos em Belo Horizonte: fixar-se por um tempo, trabalhar bastante, juntar mercadoria e só então seguir viagem de novo. Por ora, seu mostruário hippie tinha pouco a oferecer aos fregueses, algumas pulseiras e brincos... Era preciso fazer uma parada estratégica até a temporada de fim de ano, quando as praias se enchem de gringos e paulistas. Mas enquanto dezembro não vem, trabalhar, esperar... Gnomo não escondia sua aflição. Ele sabia que estava na pior.

Em Teixeira de Freitas, pequena cidade perto da divisa com o Espírito Santo, paramos para dormir. Gnomo já havia anunciado que deixaria suas coisas no carro e iria se ajeitar na rodoviária, o lugar mais iluminado e seguro da cidade. Para ele, numa boa. Já estava acostumado a fazer isso. Mas eu não conseguiria dormir tranquilo pensando em Gnomo na rodoviária. Afinal de contas, éramos parceiros de viagem e aquilo não estava certo. Paguei 20 reais pelo pernoite dele, assim como paguei a carne de sol do jantar e a cerveja. Gnomo se encostava em mim sem nenhum grilo, resignado. Se não fosse em mim, seria em outro. Se não fosse em ninguém, seria pedindo, como um sadhu indiano. Mendigando. Virei umas pingas e fui me deitar, pensando em Gnomo. Pensava também como seria fazer como ele: escapar de tudo e viver na estrada, dormindo ao relento, conhecendo lugares novos, vivendo da natureza e da bondade dos outros. Mas havia as dificuldades, os “perreios”... E cheguei à conclusão de que Gnomo vivia num “perreio” eterno, embora ele não se importasse muito com isso. Talvez ele se importasse um pouco. Não sei... talvez eu me importasse muito mais do que ele.

Dia seguinte, cruzamos a fronteira de estados, Gnomo foi dormindo quase todo o caminho embalado pelo som de Gil: “O sonho acabou/quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”.

O tempo na estrada vai rápido. 100km ficam cada vez mais curtos. “É logo ali...”, dizem os caminhoneiros, “É logo ali, só mais uns 100km...”. Para falar com caminhoneiro, é preciso se referir a grandes distâncias. Sempre que falava que tinha saído de São Paulo dias atrás, percebia que me olhavam com alguma consideração, porque sabem que essas BRs são sofridas pra cacete, ainda mais pra um carro de passeio. O lema dos carreteiros é “Veículo leve que saia da frente!”. Se não estiver alerta, eles passam por cima mesmo.

Entramos em Vitória quando anoitecia. Parei em frente à praia e anunciei a ele o fim da carona.

– Agora vou pra catedral, onde os brothers se juntam pra vender. Valeu pela carona, Carlão! Foi foda! Te agradeço de coração...

Antes de ir, me pediu umas moedas para o ônibus, pegou suas coisas e seguiu adiante, enquanto fiquei encostado no carro olhando para aquela imagem pequena, cheia de dreads que foi ficando cada vez mais escura e pequena até desaparecer no meio do tráfego. Dia seguinte, tentaria entrar clandestinamente no trem que vai pra Belo Horizonte. Mais um dia de viagem, nessa viagem tão incerta e fugidia que era o seu próprio modo de vida. Fiquei triste e admirado vendo Gnomo partir. Só mais tarde me dei conta de que sua sacola de “materiais” de coleta tinha ficado no banco traseiro. E o Filtro dos Sonhos prometido, feito de galho de chorão e penas de arara, vai ficar para a próxima.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Medo e culpa na prática de exercício


por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

É comum ouvirmos das pessoas que há uma relação de causalidade entre a prática de exercícios físicos e o conceito de saúde. É um posicionamento com raízes no consenso encabeçado, principalmente, pela comunidade médica e científica.

O certo e o errado, as relações de funcionalidade, os processos de intervenção em nosso próprio corpo, em nossas vidas, o que fazemos, o quanto fazemos, são mediados pelos manuais da ciência. Quando alguém quer fundamentar um argumento como “a verdade” diz que “os estudos científicos comprovam”.

Agora, se mudarmos essa perspectiva do sentido e do significado sobre o que entendemos como saúde a relação de causalidade é colocada em “xeque”. A maioria de nós assume que praticar exercícios é bom para a saúde e determinante para o pleno desenvolvimento em outros âmbitos de nossas vidas.

Pergunto: quais são as razões de tanta dificuldade em aderir a uma prática e uma rotina de exercícios? Ausência de tempo, muito trabalho, filhos, falta de locais adequados, inadequação em relação aos ambientes oferecidos, pouca oferta de modalidades interessantes, incompetência profissional na prestação de serviço, cansaço, desinteresse, enfim... a lista é grande.

Observo diariamente pessoas que tentam iniciar uma prática corporal e desistem nas primeiras semanas. Tenho consciência que as barreiras citadas acima podem se tornar intransponíveis. No entanto, pouco iluminada pelos holofotes da nossa razão é a injunção exercício físico e saúde, essa, sim, a maior de todas as barreiras.

Sugiro ao leitor um pequeno exercício para melhor compreensão. Pegue um pedaço de papel e, em poucas linhas, escreva o que significa para você a palavra saúde. Em linhas gerais, perceberá que são as condições negativas que fazem a saúde existir. Ou seja, a saúde só pode ter sentido quando relacionada à doença. Logo, o principal elemento utilizado, de forma deliberada, para motivá-lo a praticar exercícios é uma emoção chamada medo.

Caso optem ao sedentarismo, o convencimento à prática de exercícios virá da alimentação do medo de doenças e a contrapartida dessa engrenagem gera um outro sentimento que conhecemos como culpa. Eis uma dupla quase imbatível para te convencer a praticar exercícios. E se você não praticar e adoecer: "a culpa é sua!"

Quando o sujeito se propõe a uma prática corporal, o caminho mais curto é a ressignificação, ou seja, essa adesão se situa na possibilidade de criação de um novo sentido que surge a partir da qualidade do encontro consigo mesmo e com o outro.

O medo e o sentimento de culpa puxam nossa percepção para o nível onde os imperativos ideológicos sobre atividade física e saúde são operados e reduzem toda a possibilidade de resignificação de sentido. Preso a essa rede de sentido, o sujeito sucumbi à demanda de esforço para sustentação de qualquer prática corporal, já que todo sentido que o mobiliza é externo a ele mesmo.

Concorda comigo o Professor de Educação Física Flávio Soares Alves ao afirmar que: “Quando se dobra a atenção sobre uma prática corporal e se força a incuti-la como exercício regular de cuidado, tal movimento pode ser estimulado pela força imperativa dos ideais vigentes na esfera pública, ou por um movimento original de cuidado que não abre mão de si mesmo frente à presença insondável do ideológico.” Para ele, “enquanto no primeiro caso a prática não passa pelos crivos da adesão, no segundo o sujeito realmente se apropria da prática que realiza e faz deste movimento um exercício de cuidado consigo e com o outro.”

A educação para uma ciência positivista predomina na cultura moderna e a Educação Física parece ser afetada por isso, situação na qual predomina uma visão extremamente tecnicista e biológica do corpo humano, esvaziando de suas práticas um sentido maior para o movimento que não seja a prevenção de doenças, a estética e o desempenho motor em níveis máximos, excluindo do trabalho com o corpo uma percepção maior do mesmo – o que sentimos ao movimentá-lo, as relações desse corpo com a cultura, com o outro e com a natureza.

No próximo texto vou mostrar ao leitor como uma modalidade como o Pilates, se bem conduzida, pode coincidir com essa nova proposta.

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*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O enigma de Kaspar Hauser


Um colóquio sobre as relações humanas, o corpo e o amor

por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, Alemanhã. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o padre da paróquia local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um homem com a capacidade de amar.

Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: “quero aprender o que é o amor.”

Soube-se mais tarde (quando ele aprendeu a falar) que uma pessoa, que Kaspar não conheceu, era seu mantenedor enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto dormia.

Acolhido na paróquia, logo o padre se ocupou de iniciar sua socialização. Com o tempo, aprendeu a falar. Mesmo a linguagem não lhe permitia capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Sua dificuldade de comunicação era imensa, já que não tinha referencial emocional e afetivo. Logo vieram as primeiras lições sobre o amor, vindas do padre que o tutelava:

 Kaspar, o amor é algo ainda maior do que a morte e a dor, maior do que tudo. Esse foi o exemplo do nosso mestre, Jesus. Bem-aventurado é aquele que ama seu amigo “em” Deus, assim como seu inimigo por amor a ele também. E não se esqueça, quem semear da carne, da carne colherá corrupção, quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna.

Kaspar Hauser se sentia confuso. Como representar figuras tão abstratas como Deus, espírito, eternidade, amor? Como desprezar seu próprio corpo se tudo o que podia conhecer até então eram resquícios mentais e afetivos de necessidades extremamente corporais como a fome, a dor, os impulsos sexuais e agressivos.

A incapacidade de comunicação e o nível de abstração exigido foram barreiras intransponíveis. Ao sucumbir da tarefa e na esperança de mais sucesso o padre enviou Kaspar, com uma nova carta de recomendação, para um cientista amigo chamado Rene, que recebeu o jovem com o seguinte discurso:

 Não se preocupe, nada escapa ao olhar da ciência, tudo que temos a fazer é encontrar uma metodologia adequada para investigarmos as causas desse fenômeno em questão. Antes me responda: após ter passado certo tempo na paróquia, como se sente? E o que pôde aprender?

Kaspar ficou em silêncio, mas não somente por sua dificuldade de falar e se expressar. Com esforço, ousou dizer:

 Sr Rene, o padre da paróquia foi muito gentil em me acolher e me explicou muitas coisas sobre quem criou o mundo e todas as criaturas, além disso, explicou coisas importantes sobre o amor e sobre quem sou, porém ainda não pude experimentar tal sentimento. Mas a experiência na paróquia não foi de todo mal, aprendi o que é o medo e hoje sou temente a Deus, além disso, sei que meu corpo pode ser um grande inimigo na busca do amor verdadeiro.

 Hora Kaspar, não leve isso tudo tão a sério, afinal, o que não pode ser demonstrado nada mais é do que um exercício de fé. Veja, talvez nosso corpo não seja esse grande vilão, tudo que temos a fazer é submetê-lo aos comandos da razão. Nosso corpo é uma máquina perfeita Kaspar, e pode estar aí a causa de todos os seus problemas, pois um sentimento como o amor também depende de uma produção orgânica e cerebral.

 Sr Rene, mas por quais razões Deus teria me criado com defeito?

 Talvez Deus não tenha nada a ver com isso Kaspar, você foi muito mal cuidado ao nascer. Lembre de quando comentei que para todo efeito há uma ou mais causas, então, talvez a formação de seu cérebro tenha sido prejudicada pelos maus cuidados.

Ao ouvir essas palavras Kaspar sentiu algo que, até então, não havia experimentado. Seu corpo se encheu de energia, seus caninos saltaram aos olhos do cientista, suas mãos se colocaram em posição agressiva e tudo que o Sr. Rene pode fazer foi nomear tal experiência para o conhecimento de Kaspar:

 Isso o que você está sentindo agora chamamos de raiva.

Logo em seguida, a imagem do padre da paróquia se apoderou da mente de Kaspar, seu corpo teve outra reação, dessa fez freando seus movimentos e produzindo nele uma espécie de apatia. Surgia nele a culpa, um novo sentimento a ser nomeado.

 Sr Rene, quer dizer que tenho um defeito no cérebro causado por outra pessoa e por isso não posso amar? O Sr. Seria capaz de concertar minha cabeça? O cientista sorriu ao observar tamanha ingenuidade e decidiu então enviá-lo para um amigo psicanalista. Quem sabe a ressignificação das experiências passadas não seria algo mais útil.

E lá foi Kaspar com mais uma carta de recomendação bater na porta do consultório do Sr. Sigmund. Na carta o cientista detalhava toda a sua trajetória incluindo suas últimas experiências. Ao lê-la com cuidado e atenção, Sigmund começou sua explanação:

 Veja Kaspar, todo discurso que assume um estatuto de verdade absoluta pouco pode dizer sobre o amor. A experiência do amor responde sempre a categorias como a contradição, a dúvida, o imponderável.

O Sr. Sigmund interrompeu seu discurso ao observar a expressão de angustia em Kaspar:

 O Sr. está querendo me dizer que quando amamos não possuímos garantia de nada, ficamos vulneráveis? Nesse caso, por quais razões escolhemos amar alguém?

 Jamais sabemos ao certo Kaspar, porém, dentro do que venho observando em minhas pesquisas, escolhemos alguém para atualizar e dar sentido às primeiras relações amorosas infantis. O amor não é um sentimento inato, é preciso aprender a amar a partir da experiência com aqueles que nos amam e, para tanto, é preciso a vitória parcial sobre dois inimigos, o medo e a culpa.

Ao ouvir o dr. Sigmund, Kaspar sentiu desespero, pois algo lhe dizia que a possibilidade de se humanizar seria inalcançável. Tempos depois, Kaspar foi encontrado morto. Nada souberam sobre os motivos de sua morte (se assassinato ou suicídio). No cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição na lápide de Kaspar assinada por um desconhecido que diz: “Aqui jaz um desconhecido”. De fato, nada resume melhor o misterioso percurso da vida e morte deste homem.

O FILME

O texto foi inspirado no filme alemão de 1974, Jeder für sich und Gott gegen alle (O Enigma de Kaspar Hauser, na versão brasileira), do diretor Werner Herzog. O filme narra a história de Kaspar Hauser, uma criança abandonada envolta em mistério, encontrada na Alemanha Ocidental do século 19. O filme fez parte da competição para a Palma de Ouro no Festival de Cannes (1975), onde ganhou três prêmios. Abaixo, a versão completa e legendada em português.



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*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A responsabilidade de cada um



por Celso Vicenzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira* 

Circula nas redes sociais um trecho de uma entrevista de José Serra ao jornalista Boris Casoy, realizada há alguns anos, em que o político faz uma menção aos “Estados Unidos do Brasil” e é corrigido pelo jornalista, que informa o nome atual: “República Federativa do Brasil”. Lembrei-me do episódio porque 2014 será o ano de mais uma disputa presidencial e na internet não é difícil encontrar cidadãos-eleitores que ainda fazem confusão sobre as atribuições constitucionais da União, Estados e Municípios, e dos Três Poderes. Em época de campanha eleitoral, também não é difícil encontrar, por exemplo, vereadores e deputados que prometem soluções que não são da competência do parlamento que postulam. E alguns se elegem! Na internet, as críticas à má qualidade da educação, da saúde e da segurança pública no país – entre outros problemas – geralmente são debitadas única e exclusivamente ao governo federal. Justamente por vivermos numa República Federativa, não dá para atribuir todo tipo de problema que o país enfrenta ao presidente ou, como é o caso agora, à presidenta. Num regime presidencialista, a União detém grande poder, mas não atua isoladamente. A transversalidade que põe outros atores federativos em ação é fundamental.

Se a educação ainda está muito distante do que se deseja para o país, essa conta também deve ir, proporcionalmente, para estados e municípios. Se é para reclamar das universidades públicas e dos institutos técnicos federais, a queixa deve ser endereçada, sim, à presidenta Dilma. Mas, se for escola estadual ou municipal, é preciso lembrar que o Brasil tem 27 governadores e 5.565 prefeitos. Isso sem falar nos 1.059 deputados estaduais e nos 59.500 vereadores. São eles que também precisam fiscalizar os governos estaduais e municipais e propor projetos que resultem em melhorias para os cidadãos. Acrescente-se, ainda, a esta conta, os 513 deputados federais e os 81 senadores. Assim, fica mais fácil entender o tamanho do problema, que é dar qualidade à gestão pública e impedir que interesses privados se apropriem dos recursos comuns, enriquecendo poucos e deixando migalhas à maioria.

Há, portanto, que dividir o fardo. Até mesmo com os simples cidadãos e cidadãs, sem cargos, que podem exercer com zelo e competência uma profissão, pagar os impostos devidos e educar os filhos com valores éticos. A responsabilidade aumenta quando alguém ocupa cargo relevante, seja em entidade privada, pública ou associações patronais e de trabalhadores. O grau de responsabilidade difere, mas ninguém pode reivindicar apenas os bônus.

Virou um bordão dizer “eu pago imposto”, para exigir serviço público de qualidade. O que é justo. Na crítica aos impostos, a mídia raramente informa quem é o principal agente arrecadador. Há casos, por exemplo, em que o ICMS (um imposto estadual) é o que mais incide sobre determinado produto.

A corrupção e a ineficiência são, certamente, problemas crônicos da sociedade brasileira, mas não apenas de um determinado segmento. Não podemos esquecer que muitos dos que se declaram revoltados com o baixo retorno dos impostos na verdade sequer pagam o que devem. Cálculos do Sindicato dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz) indicaram que em 2013 o país deixou de arrecadar cerca de R$ 415 bilhões por conta da sonegação de impostos. É quase a metade do que o país arrecada por ano. E é quatro vezes maior do que o orçamento da educação nacional, que cresceu mais de 205% na última década.

O estudo revela, ainda, que a carga tributária poderia ser reduzida em 30%, mantendo o valor atual da arrecadação, caso não houvesse sonegação. E se fosse somada ao que hoje já se arrecada, quanto mais poderia ser feito na saúde, na educação e na segurança pública? É simplório demais atribuir a um governo ou a um dos Três Poderes a culpa por séculos de interesses particulares que fizeram do país um dos campeões mundiais da desigualdade e da exclusão social. É preciso uma divisão mais honesta das responsabilidades. No mundo globalizado de hoje, há também um enorme poder das grandes empresas e conglomerados multinacionais sobre a gestão pública.

O Brasil é o único país do mundo com uma rede de saúde gratuita e aberta a toda a população. E é a única alternativa para 130 milhões de brasileiros que não têm plano de saúde. Mesmo aqueles que têm planos particulares acabam por se beneficiar do sistema público, seja em cirurgias, atendimento de emergência, campanhas de vacinação ou ações da vigilância sanitária. Boa parte dos problemas existentes na saúde deve-se, principalmente, ao orçamento ainda insuficiente e à má gestão do sistema. Um problema que não compete apenas ao governo federal. O artigo 195 da Constituição diz que a seguridade social “será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”, além de contribuições sociais. União, Estados e Municípios precisam fazer cada um a sua parte para gerir bem os recursos, venham eles de onde vierem. E a sociedade precisa apoiar as ações que pretendem destinar mais recursos ao setor. Porque a conta precisa fechar e milagres são raros.

Fosse apenas isso, já seria muito. Mas o desafio é ainda maior quando se sabe que há segmentos que atuam de várias maneiras para impedir uma boa gestão pública. Por exemplo, quando pressionam para que recursos públicos sejam destinados a projetos da iniciativa privada que, em muitos casos, trazem pouco retorno à sociedade e favorecem os setores em melhor situação econômica. São esses setores, geralmente, aqueles que mais criticam os governos, quando estes destinam boa soma de recursos para políticas sociais de largo alcance e que amparam os mais pobres. O Bolsa-Família, elogiado pela ONU e ganhador de vários prêmios internacionais como exemplo de combate à miséria, tem sido atacado sem trégua nos meios de comunicação do país. Pequenos erros ou fraudes – insignificantes no contexto geral – são transformados em justificativa para pesadas críticas, disfarçadas de boas intenções. Há os que dizem, “é bom, mas não resolve”, ou “é um projeto eleitoreiro”. Outros, mais contundentes, afirmam que “é esmola” ou “estímulo à vadiagem”. Nenhum projeto social é solução para tudo. É a somatória de vários deles que poderá proporcionar perspectivas melhores e dar mais autonomia a milhões de brasileiros.

Para isso, é preciso que o dinheiro público seja investido primordialmente em políticas que diminuam a injusta desigualdade social. E que os mais ricos paguem mais impostos, proporcionais a seus ganhos. Por que o automóvel da classe média paga imposto e lanchas, iates, jatos e helicópteros da classe rica são isentos? Órgãos públicos são, às vezes, reféns de forças políticas e econômicas que preferem sucateá-los, de olho nos ganhos privados. Quanto pior o ensino público, mais brasileiros vão tentar pagar uma escola particular. Quanto pior estiverem os hospitais e postos de saúde da rede pública, mais facilmente se venderão os planos privados de saúde. O que nem sempre significa mais qualidade. Os bancos, as operadoras de telefonia celular e os planos privados de saúde são campeões de reclamações nos Procons. A penitenciária de Pedrinhas, no Maranhão, palco recente de horrores, é administrada pela iniciativa privada.

Até mesmo a segurança pública, quando ineficaz e negligenciada pelos governos, põe a roda da fortuna a girar para os empresários do ramo, que enchem os bolsos vendendo produtos para aumentar a segurança dos cidadãos e de suas famílias. Os vigilantes privados já são mais numerosos do que o efetivo de policiais militares e somam 35% a mais do que o total de homens das Forças Armadas. O fenômeno do crescimento da criminalidade urbana não é apenas brasileiro e tem se acentuado desde o final dos anos 70. Segundo estudo da ONU, o setor de segurança privada já emprega cerca de 20 milhões de pessoas. O número é quase o dobro da quantidade de policiais em atividade no planeta. Quem ganha muito dinheiro com a violência urbana talvez tenha menos estímulo em lutar pela paz social.

Há muito mais interesses econômicos e políticos em jogo do que supõe a vã ingenuidade dos que acreditam que o caos e a ineficiência devem-se apenas à incompetência de quem exerce o poder. Em muitos casos, a inoperância é habilmente construída para favorecer e enriquecer minorias. Por exemplo, quando os setores público e privado se unem para roubar o dinheiro que deveria ser investido para melhorar a nação. Licitações viciadas para o “amigo do amigo”, parentes, correligionários – entre outros – drenam para poucos um dinheiro que deveria servir a muitos. Outra forma de dilapidar o patrimônio público são as concessões à iniciativa privada daquele tipo “bem camarada” e sem nenhuma fiscalização sobre o cumprimento do contrato. Nem todos agem assim, mas os exemplos são muito frequentes, de norte a sul do país.

Enfim, seria ótimo se os problemas mais graves do país pudessem ser resolvidos apenas por um presidente, um governador, um prefeito, um partido político, um parlamentar, um membro do Judiciário, uma federação empresarial ou uma central de trabalhadores. O problema é geral, com as exceções de praxe daqueles que, apesar de tudo, continuam impregnados de espírito público e trabalham para dar mais oportunidades a toda a população. Porque a cultura do “toma-lá-dá-cá” e das negociatas em todas as esferas de poder é visível em todo o país. E boa parte daqueles que mais têm pressiona para ganhar novas benesses. Para os mais pobres e desorganizados, sobram migalhas e sofrimento, muito preconceito e discriminação. Para sair desse impasse, cabe ao cidadão e à cidadã, ao eleitor e à eleitora, compreender que numa República Federativa as responsabilidades precisam ser divididas. E cobrar do vereador, do deputado, do senador, do prefeito, do governador e de quem estiver na presidência aquilo que é da sua responsabilidade – exclusiva ou compartilhada. Sem esquecer das entidades de classe, ONGs, partidos políticos, movimentos sociais, todos, enfim, que compõem a sociedade precisam assumir para si, de acordo com as suas possibilidades e potencialidades, a construção de uma sociedade mais justa e solidária. É importante não dar apoio a políticas excludentes ou se omitir diante da opressão.

Eleger bodes expiatórios é, invariavelmente, contornar os problemas e nunca encará-los na sua enorme complexidade. É esperar que nos deem o que precisa ser conquistado. É atribuir constantemente ao outro a tarefa que a todos cabe. É ser egoísta, cruel e perverso diante do sofrimento alheio. É não dividir os recursos, com preferência aos mais necessitados. É não assumir a tarefa de ser parte da solução.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Querida Bety


por Carlos Conte      ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Querida Bety, conheci você há alguns anos, dentro de um sebo no bairro de Pinheiros. Seu nome está na folha de rosto do livro que eu comprei, “6 propostas para o próximo milênio”, do Italo Calvino: “Bety, espero que me perdoe. Feliz 92. Te amo demais! Alfredo. 31/12/91”, diz a dedicatória. Livro especial, sem dúvida. O Alfredo, além do bom gosto, tinha ótimas intenções ao lhe ofertar esses valores literários que o Calvino transmitiu para as gerações do novo milênio. O que o Alfredo te fez, Bety? Alguma mancada grave? Para o livro ter ido parar na estante do sebo, acredito que sim. Com certeza quis apagá-lo da lembrança. Você não o perdoou.

Confirma minha hipótese o fato do livro estar praticamente novo. Mais de 20 anos depois, Bety, e nenhuma folha amassada, nenhuma orelhinha sequer... Você não leu esse livro, tenho certeza. Tivesse lido, teria deixado algum sinal. E olha que eu sou atento! Consigo divisar um vestígio em livro como poucos. Aliás, confesso, tenho mania por livros usados. Dizem que cada qual tem a sua. Ou até mais de uma. No meu caso, livros usados. E por isso não ligo para rasuras, como a maioria. Para mim, é interessante saber como um desconhecido leu as mesmas palavras que eu estou lendo. Comentários marginais, exclamações, interrogações – ah, como pode esse cara não entender esse parágrafo!... Me divirto.

Só me deixam angustiados os trechos grifados, alguns marcados com asteriscos, que eu leio, releio, e não entendo. Como pode alguém ter encontrado tanto sentido nessa parte tão difícil?... Nessas horas, Bety, tendo a me considerar um mau leitor. Desatento. Limitado. Meio burrinho, se é que você me entende.

Tudo bem. Quem sabe um dia, pegando de novo o bicho, eu entendo. Vou passar pelas mesmas linhas, pelas mesmas frases, e me deparar com as interrogações aflitas que eu mesmo rabisquei anos atrás. Dois Carlos, enfim, se encontrando, separados por um intervalo de cinco, dez anos. E aí, Bety, nesse encontro inusitado, vou olhar com indulgência para as minhas garatujas preocupadas de outros tempos, minhas antigas marcas da adolescência.

Já ganhei trevos de quatro folhas, recortes de jornal, fotos pessoais. Objetos esquecidos no meio de livros. Livros que foram parar em sebos, não se sabe por quais circunstâncias da vida: desinteresse pela leitura, falta de grana (caso de quem vende parte de sua biblioteca para levantar algum), falta de espaço, mudança de endereço, falecimento.

No seu caso, Bety, deduzo que tenha se livrado do livro por falta de amor. Mas também pode ter sido por excesso. Sim, excesso de amor é uma hipótese plausível. Isso já aconteceu comigo mais de uma vez. Para me livrar completamente de uma pessoa que eu amo demais, mas que preciso esquecer de qualquer maneira, já que esquecê-la é a única maneira de tornar a existência suportável, preciso jogar fora todos os seus vestígios materiais: chinelos, presilhas de cabelo, cartas, calcinhas, presentes... Livros, dentre os presentes, têm importância especial. Afora as pessoas que escolhem livros como quem escolhe meias numa gôndola de supermercado, presentear com um livro geralmente requer sensibilidade, sofisticação. Não é um presente qualquer. Acertar na escolha de um livro significa que se está em sintonia com a pessoa presenteada. Quase telepatia. E há livros que, de tão especiais, acabam se tornando marcos de um relacionamento: positiva ou negativamente. Exemplifico. Num momento de fogo, de grande libertação, inclusive sexual, quando viajávamos e nos descobríamos, comprei para uma ex-namorada On the Road, do Jack Kerouac (que ela não leu). No final do namoro, simbolizando a lápide fria da inércia típica do final de um relacionamento, ela me deu de presente de aniversário um dicionário (extremamente útil, um Houaiss tamanho grande, completo, atualizado com a nova grafia), mas um dicionário.

Sabe, Bety, no seu lugar não teria me livrado do livro, como você fez. Apagar o Alfredo da memória talvez fosse mesmo inadiável, mas não em troca de um ótimo livro, como esse do Calvino. Poderia, em vez disso, ter rabiscado a dedicatória, ou arrancado a folha de rosto. Por causa do Alfredo? Não deve valer grande coisa... Ao menos deveria ter ficado com a literatura. Mas aí eu nem te conheceria. De qualquer maneira, espero que tenha passado um feliz 92, querida Bety.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Brincadeira


por Carlos Conte   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Aproveitando a tranquilidade da tarde de sábado, levei a cadeira de praia para o quintal da frente e abri um livro. Notei, entre uma página e outra, que um grupo de meninos curtia o dia de sol brincando no terraço da casa da frente. Não jogavam futebol nem empinavam pipa. Talvez já tivessem esgotado o rol de brincadeiras possíveis e, sem ter mais o que fazer, começaram a me importunar.

Do outro lado da rua, gritaram:

– Tio, ô tio!...

Ainda não me acostumei com essa história de ser chamado de “tio” por moleques de 10 anos de idade. Não faz muito tempo, eu que chamava os mais velhos de “tio”, e até hoje, carinhosamente, trato de “tia” a Ivani do bar da Rua Aurélia, e ela me chama carinhosamente de “teacher”.

Mas não era com carinho que os moleques me chamavam de “tio”. Empoleirados no terraço do vizinho, uns três ou quatro metros acima do nível da calçada, eles acabavam de eleger o alvo de suas brincadeiras.

– Tio, ô tio!...

Ora, tenho apenas 28! Tio é a mãe! O que esses moleques estavam pensando?... – Olha pra cá, tio! Olha pra cá!...

Claro que eu não olhava. Não lhes daria esse prazer. Além do mais, não estava a fim de papo. Só queria ler e ficar em paz. Por isso optei pela estratégia tão usada para acalmar ânimos infantis: não dar corda.

Mas a indiferença não funcionou. O coro, que começou baixo, foi ganhando força. Eram quatro, cinco, seis – não sei ao certo quantos meninos, porque evitava olhar diretamente para eles, demonstrando que eu nem me importava. Meia dúzia de moleques que decidiram tirar o sossego do meu sábado.

Quanto mais os ignorava, mais insistentes ficavam. Ah, crianças! Pobres crianças... Uma hora dessas, os pais deviam estar largados no sofá, em frente à TV, comemorando silenciosamente a tranquilidade temporária que o filho e os amiguinhos lhes davam. Mas à custa de quem?

– Ô tio! Olha pra gente! Ô do bigode!

Decidi que não olharia, em hipótese alguma. Pronto! Caísse a árvore da rua, caísse o mundo, não faria a vontade deles. Discretamente, por cima do livro, arrisquei uma olhadela: estavam todos voltados para mim, alguns debruçados perigosamente no parapeito. E confesso que, por alguns instantes, não que tenha desejado o pior, mas cheguei a imaginar como seria se o pior acontecesse. Daquela altura, do terraço até o chão... Um grito agudo, um crânio rachado, sangue escorrendo pela calçada em direção ao meio-fio, tragédia na Vila Romana... Mas afastei rapidamente esses pensamentos malignos da minha cabeça. Ora, os pais que se preocupassem com a segurança dos filhos!

– Ô do bigode! Não vai olhar? Fala alguma coisa, pô!

Não, não queria falar. Só queria ler... E pra isso precisava de silêncio. Com crianças por perto, eu sabia, seria difícil. Aliás, um dos motivos de eu ter me esquivado até hoje da ideia de ter um filho é justamente este: a encheção de saco. Sei que algum dia vai dar vontade. Sei que filhos, apesar de todas as dúvidas, é melhor tê-los. E sei que algum dia voltarei a pensar nesse assunto. Por enquanto, não. Só quero ler meus livros e beber com os amigos. Nada de filhos. Já me basta a semana na escola lidando com os filhos dos outros. Sábado não!

– Ô tio! Ô do bigode!...

Bom, nem preciso dizer que a essa altura minha concentração tinha ido pras cucuias e, quando me preparava para jogar a toalha, levantar acampamento e me instalar no quintal dos fundos, veio a primeira ofensa:

– Fala alguma coisa, veado! Ô veado!...

Em seguida, completaram:

– É veado e maconheiro!

– Veado, maconheiro e careca!

E o coro de impropérios, cada vez mais alto e teimoso, encontrou seus melhores adjetivos: careca, veado e maconheiro. Ofensas infantis, eu pensei. Mas ofensas infantis somente pelo fato de serem proferidas por crianças, pois na verdade não têm nada de infantis. Fosse mulher, talvez emendassem “puta”. Fosse negro, “crioulo”, “tição”. Fosse pobre, “mendigo”, “fracassado”, “fodido”. Ficava, então, sendo velho, pela calvície, além de veado e maconheiro, por terem encontrado algum motivo na minha aparência, ou quem sabe na má fama da minha casa, para me chamar de veado e maconheiro. Registrei todas as injúrias na folha de rosto do livro que estava lendo e, ao me ver escrevendo, um dos moleques gritou:

– Já sei: ele tá escrevendo um livro. Vai postar no facebook, no site dos idiotas... Era a gota d’água: “Site dos idiotas?!”. Esses moleques mereciam uma surra, isso sim. Tinha ficado na moita até agora, sem reagir, feito adulto. Mas já fui moleque um dia. Um moleque nervoso, de estopim curto, como diz minha tia. Os palavrões me subiram, fervendo. Os piores nomes que conheço!

Mas não deu tempo. Já estava com as quatro pedras na mão, quando anunciaram a retirada: – V’ambora, gente. Ele é surdo, deixa ele em paz...

Um a um, foram se afastando do parapeito e saíram do terraço, atrás de outra coisa para brincar.

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*Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Meu amigo moçambicano


por Carlos Conte     ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Outro dia, enquanto lia o “Conto de Escola”, de Machado de Assis, e discorria sobre o dilema ético da história, um aluno me perguntou se alguma vez já colei ou recebi cola. Dizer o que para crianças de 12 anos? Ainda mais quando se é professor de uma disciplina chamada Orientação de Estudos, cujo objetivo deveria ser ensinar técnicas, ferramentas de estudo, não a cola. Sorri ao me lembrar do provérbio aprendido na adolescência: “Quem não cola não sai da escola”. Nada de “contaminar” os meninos!, pensei. Mas ao mesmo tempo, lembrei-me do Filipe, meu amigo moçambicano da época da faculdade, e resolvi contar-lhes sobre a minha última cola.

Filipe estava terminando o intercâmbio na Faculdade de Economia da USP. Nós nos conhecemos no curso de Estatística do IME, obrigatório para economistas e aspirantes a cientistas sociais, como eu. Sempre o via na fila da monitoria, antes do início das aulas do período noturno, e logo nos identificamos: ambos odiávamos as aulas de Estatística. Eu, na verdade, porque não entendia patavina, e minha primeira reação diante daquilo que não entendo é detestar. Já o Filipe se saía melhor com os números, mas pelo fato de estar cursando simultaneamente cinco disciplinas – as cinco disciplinas do seu último semestre de intercâmbio –, não tinha muito tempo para se dedicar a cada uma delas.

Graças ao Filipe, tirei cinco na primeira prova. Nossas sessões de estudo na cantina, à base de Coca-Cola e esfirra de calabresa, tinham funcionado. Filipe tirou sete. Mas poucos colegas tinham conseguido ficar acima da média, confirmando a má fama dos professores do IME de serem os maiores carrascos do campus. Todos estávamos no mesmo barco – cientistas sociais, economistas. Todos deveríamos passar pela dura provação que era convencer os professores de Estatística de que tínhamos aprendido minimante sua disciplina.

Filipe, então, deu uma sumida. Começou até a faltar nas aulas, o que não era comum. Não o via mais nos plantões para tirar dúvidas, nem na cantina para estudar. Um dia ele apareceu no samba da Biologia: estava uma pilha de nervos. Nas vésperas da segunda prova, ele acumulava muitas faltas e ainda nem tinha começado a estudar. Compreensível, porque cursava, além dessa, mais quatro disciplinas na Economia e por isso não lhe sobrava tempo. Mas o pior de tudo, confessou-me virando a cerveja, era que não poderia nem pensar em ir mal nesse segundo exame; seu pai o trucidaria! Isso porque não poderia fazer a terceira prova (uma última oportunidade para os que não atingiram a média), que seria aplicada em meados de dezembro, época em que Filipe já deveria estar em Maputo, onde seria padrinho do casamento da irmã. Seu pai já havia inclusive comprado a passagem.

Impossível, mesmo para o bom matemático que era o Filipe, pegar a matéria em poucos dias. Eu vinha me matando há semanas para aquela segunda prova. Pedi-lhe calma. Pensaríamos numa saída. Comprei meia dúzia de fichas de cerveja. Filipe já estava caindo na cachaça. Seria uma tragédia familiar caso tivesse que ficar em São Paulo para fazer a terceira prova! Para sempre seria lembrado como o padrinho relapso, o irmão desnaturado. A solução emergiu do estudante malandro que um dia já fui, mas que ainda vive meio escondido no meu âmago. Cola! Ora, Filipe, uma medida emergencial para uma situação desesperadora. Ninguém vai ficar sabendo, meu chapa. Um dia escreverei uma crônica sobre isso, mas prometo que mudo seu nome.

No dia da prova, fingindo estar resfriado, deixei um rolo de papel higiênico em cima da mesa. À minha direita, duas carteiras ao lado (porque o professor exigia que uma carteira ficasse vazia entre nós), estava Filipe, aparentemente concentrado. Meia hora depois, o sinal: deixei a caneta cair no chão. Filipe desatou a tossir e espirrar (que atuação!), a ponto de ficar vermelho. Educadamente, levantei-me e lhe passei o papel para assoar o nariz. As respostas estavam numa folha amassada dentro do rolo. Com essa cola, punha em risco minha nota, meus créditos, minha vida acadêmica.

Valeu a pena ver a felicidade de Filipe uma semana depois, quando chegou o resultado. Sete e meio! Desce meia dúzia de Brahma! Prometeu-me nunca mais se esquecer do meu ato de generosidade e que, se um dia for a Maputo, me receberia na sua casa e me levaria aos melhores lugares da cidade. Eu, seu amigo brasileiro. Filipe, meu amigo moçambicano. Disse aos meus alunos, para encerrar, que a cola é uma prática condenável, reprovável (e todo esse papo aranha que a gente ouve desde pequeno...), mas que em alguns casos, só em alguns casos!, ela se justifica.


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*Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

terça-feira, 30 de julho de 2013

O espelho de Tereza

 por Alexandre Luzzi  ilustração Marcelo Martins Ferreira* 

A grande insatisfação que muitas pessoas possuem em relação ao próprio corpo ao se olharem no espelho é fruto de uma imagem que perambula no território do nosso inconsciente?

Milan Kundera e seu clássico “A insustentável leveza do Ser” nos ajuda a pensar sobre isso. Na obra a personagem Tereza tem o hábito de ficar se olhando horas no espelho, numa atitude com nuances de proibição. Dentro da convivência familiar de Tereza toda forma de privacidade é reprimida e satirizada. “Como um campo de concentração”, sugere ela sobre a convivência com a mãe e o padrasto. Mas a atitude tem uma peculiaridade: não era a vaidade que a atraía para o espelho, mas o espanto de se descobrir nele.

A contrariava encontrar em seu rosto traços da mãe, nem tanto pela similaridade física e mais pelo fato de sua vida ser um prolongamento da vida da progenitora. Tereza se incomodava com regiões do corpo, como os seios, os quais desaprovava o tamanho e as aréolas grandes e escuras demais.

Pensava sobre como ficaria se o nariz crescesse um milímetro por dia. Nessas contemplações angustiantes imaginava: “E se cada parte de meu corpo começasse a crescer ou a diminuir a ponto de me fazer perder toda semelhança comigo mesma? Eu existiria ainda, mesmo assim? Qual a relação entre 'eu', Tereza, e meu corpo?”

Existem motivos para tamanha insatisfação e recusa? Será que temos uma percepção direta e real de nosso próprio corpo? Ou será que entre a imagem projetada e o que sentimos existiria um filtro de fantasias e sentimentos infantis?

Talvez a imagem  refletida no espelho toda vez que nos colocamos diante dele não seja a mesma inscrita na superfície virtual do nosso inconsciente. O psicanalista Juan David Nasio sugere essa hipótese.
“sempre que sentimos o nosso corpo, o vemos ou julgamos, estejamos certos, forjamos dele uma imagem deformada, inteiramente afetiva e resolutamente falsa. Para resumir, nunca percebemos nosso corpo tal como é, mas tal como o imaginamos; o percebemos como fantasia, isto é, mergulhado nas brumas de nossos sentimentos, reavivado na memória, submetido ao julgamento do Outro interiorizado..."
O conflito de Tereza parece confirmar o dizer de Nasio. Do fundo de sua alma surgia a representação inconsciente de um corpo marcado por uma relação familiar em que tonalidade afetiva era o ódio e a culpa. Tal situação se traduz pela cena protagonizada por sua mãe ao ver a filha trancar a porta do banheiro ao reparar que seu marido sempre entrava quando ela estava nua no banho. “Por que você se trancou? Quem você pensa que é? Ele não vai arrancar pedaços de sua beleza!”, esbraveja a mãe.

Um certo ódio da mãe pela filha era mais forte que o ciúme que o marido lhe inspirava. Em contrapartida, a culpa de Tereza era infinita se martirizando até pelas infidelidades do padrasto.

Kundera e seu romance nos coloca diante da experiência enigmática do efeitos da imagem que se reflete do espelho. Seja em maior ou menor grau, jamais encontrei na minha vida profissional alguém totalmente satisfeito com o próprio corpo. A transformação estética do corpo, dentro dos padrões valorizados pela cultura e o olhar do outro parece não resolver um sentimento de maior valorização de si mesmo. Para o estímulo à reflexão, deixo o leitor com uma pergunta final, de autoria do grupo musical Capela – "Será que o espelho irá me mostrar alguém que não eu?"


*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzicoordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a CorpoMarcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Bichanos se rebelam: Scarlett não é gata


por Tomás Chiaverini  ilustração Marcelo Martins Ferreira*

 O ser humano é um bicho estranho. E não estou falando de um ser humano específico, daquele taxista incrivelmente gordo, da cunhada estrábica, do comentarista de futebol com seu bigode gigante amarelado de nicotina. Estou falando do ser humano arquetípico. Estou falando de Scarlett Johansson.

Pensem na Scarlett, caros leitores desocupados. Pensem na Scarlett nua, vaporosa, saindo do banho ou levantando da sua cama king size numa ensolarada manhã hollywoodiana. Lindo? Pois bem, pensem mais um pouco.

Primeiro há essa pele estranhamente lisa. Scarlett não tem escamas, como os peixes; não tem penas, como os pássaros; e, a despeito de ser um mamífero, quase não tem pelos (isso descontando raspagens e depilações).

E os parcos pelos que Scarlett tem são estranhamente simétricos. Tufos cobrindo parcialmente os órgãos sexuais, embaixo dos braços e, o mais bizarro, um enorme penacho brotando da cabeça, e da cabeça apenas. Um tipo curioso de pelo que não para nunca de crescer e que, apesar de sua aparente inutilidade evolutiva e evidente comicidade estética, ganha especial atenção de Scarlett. Ela devota horas de seu dia a limpar, hidratar, alisar e pentear essa pelagem, facilmente humilhada por qualquer gato doméstico.

Aliás, há quem chame Scarlett de gata, mas, convenhamos... Scarlett sequer tem cauda. Pensem, caros leitores desocupados. Que outro mamífero é miseravelmente desprovido de calda? Pois Scarlett é. Que tristeza. Imaginem a cerimônia do Oscar com belas caldas felpudas e enfeitadas, brotando dos vestidos Versace. E como seriam mais fáceis os primeiros encontros. Scarlett está abanando o rabo, as chances são boas. O rabo da Scarlett está parado, melhor mudar o papo que está dando sono. Espetado para cima, algo está irritando a moça...

Mas Scarlett não tem rabo. Anda por aí com esse racho no meio da bunda. E, por falar em andar, que postura mais esquisita. Em pé, com a barriga e as vísceras à mostra, expostas a qualquer eventual ataque inimigo. E os seios? Duas inexplicavelmente exageradas porções de gordura, atarraxadas bem no alto do tronco, num evidente erro de projeto, que prejudicam sobremaneira o equilíbrio de Scarlett.

Há também os braços e as pernas. Ah, as longas pernas da Scarlett. Mas tão longas? Alguém já viu um bicho com membros tão compridos? E não é que Scarlett vá sair correndo e saltando por aí, nada disso. Tem esses membros longuíssimos e pra que? Cruzar e descruzar as pernas completamente livres de pelos, penas e escamas?

E nas extremidades há os pesinhos e as mãozinhas da Scarlett. Eca. Dedos desproporcionalmente longos e cravejados de rugas. Unhas à mostra, sem qualquer cobertura e, mais uma vez, com pouquíssima utilidade, uma vez que, livre de pêlos, Scarlett raramente se vê acometida de pulgas ou piolhos. Isso sem falar nas veias e nos ossinhos à mostra embaixo da pele fina, qual o intestino de uma lagartixa.

Por fim, há o rosto. E o Woody que me desculpe, mas Scarlett tem o rosto achatado. Ao contrário de praticamente todos os mamíferos, não tem focinho e sim essa boca embutida, rasgada no meio da cara. O nariz teve de ser colocado lá no meio, de qualquer jeito, embaixo dos olhos estupidamente juntos, e ainda por cima arrematados por um tufinho ridículo de pelos.

Ao lado dessa aberração evolutiva, um caso à parte. As orelhas. Sério. Que coisa mais asquerosa! Dois apêndices de pele pelada, enrugada, presos do lado de fora da cabeça, e, pra piorar desprovidos de músculos que os movimentem em busca do som inimigo.

Pois é. Um desastre completo. E agora imaginem, caros leitores, como os bichanos, com toda a sua elegância, seu pelo naturalmente liso e sedoso, sua longa calda sinuosa, sua postura elegante, suas genitálias ocultas, seus membros proporcionais, suas patinhas cobertas e acolchoadas, suas unhas retráteis, seu focinho saliente, e suas ágeis orelhas triangulares deve se ofender quando alguém olha para uma foto da Scarlett e irresponsavelmente sentencia: “que gata”.

*Com a ilustre colaboração do biólogo contrariado Dario Chiaverini.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de estreia de Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico. 
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