.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador futebol. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador futebol. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A emoção quer ingressos para voltar aos estádios


Por Pedro Mox*

Lembro-me quando fui, ainda moleque, aos jogos do meu time pelas primeiras vezes. Filas intermináveis para chegar ao estádio. O melhor churrasquinho de gato da cidade vendido nos arredores. Toda a massa de torcedores lá reunidos pela mesma paixão. Havia apenas dois setores, sem contar os camarotes; a social, coberta, e o resto do estádio. Sem cadeiras, sem teto e com sanitários precários. Banco de reservas em concreto, idêntico à maioria dos pontos de ônibus da cidade. O lanche era espetinho de frango sem o espeto, amendoim e pipoca. Nas arquibancadas, circulavam vendedores de refri, cuba e cerveja.

Atentei a isso recentemente, enquanto fazia um trabalho no mesmo estádio – que, na verdade, não é mais o mesmo. Está muito mais bonito, modernizado. Quase todo coberto, várias entradas. As cadeiras (agora, todos os lugares são cadeiras) desenham o escudo do time. Internet sem fio, assentos confortáveis para comissão técnica e suplentes.

Enquanto esses dois estádios misturavam-se ante meus olhos e minhas lembranças, não pude não questionar o caminho que nosso futebol está tomando. Um rumo que parece não permitir modernidade e torcida  concomitantemente. Com a Copa vieram as arenas, modernas. Entretanto arrisco dizer que sem a mesma vibração dos tempos cujos gritos da geral do Maracanã ecoavam campo adentro. Podemos, quiçá devamos, nos acostumar à organização vinda dos estádios europeus.

No entanto, a transformação da torcida em platéia não me parece um quesito fundamental. O futebol vive dos torcedores, da turba que, faça chuva ou faça sol, deixa tudo de lado para apoiar o time.   

O estádio da minha infância lembra o que se vê até hoje na Argentina; muitas cantorias e trapos, como eles chamam bandeiras e faixas. A devoção dos hinchas, inclusive, merece ser notada. Toda a festa antes das partidas, músicas durante todo o jogo, incentivo, mesmo nas situações mais adversas. Isso não tem a ver com violência. Isso é estádio.  

O extremo oposto, igualmente, não é nada saudável. Torcedores não precisam de jaula, algo que felizmente conseguimos abandonar – é muito melhor sentar na arquibancada ao lado do banco de reservas do que fossos e gradis medievais. O arremesso de todo tipo de objetos dentro das quatro linhas foi coibido com punições aos clubes no Brasil, mas não raro, na Libertadores, policias precisam “blindar” jogador que bate um escanteio. Algo vergonhoso.

Aqui mesmo, em alguns estados, a entrada do batalhão de choque para “proteger” o árbitro ao final das partidas é, no mínimo, desproporcional.

O ponto central é: uma situação não implica ou impede a outra. Não precisamos de espectadores de futebol para acabar com vândalos disfarçados de torcedores. Tampouco necessitamos de brigas após qualquer partida para provarmos ser realmente apaixonados. Torcer implica ficar mal-humorado, se incomodar, não querer ver ninguém após a derrota num clássico. Chegar e sair do estádio xingando ou chacoteando o rival. O que  distancia-se anos luz de bater na cabeça de outro com uma barra de ferro pela camisa que usa.

No último Palmeiras x Corinthians, as confusões não foram causadas por uma briga entre torcedores rivais, mas entre torcedores palmeirenses e polícia, e entre os próprios corintianos. Torcida única, posto, não é a solução. Aliás, ela só serve para comprovar a apatia do estado nas questões relativas, mas não necessariamente ligadas, ao esporte bretão.

Tomemos como exemplo outra situação no mesmo final de semana: ao ver que num vagão do metrô estavam quatro são-paulino, 40 organizados do Corinthians resolvem invadir o trem para agredi-los. Findo o incidente, assinam um termo circunstanciado e vão para casa como se nada tivesse acontecido.

A conivência com a qual estado, polícia e organizadas lidam com esse tipo de fato explica o porquê deles ainda acontecerem. Medidas paliativas como sempre, discursos vazios e ação zero, como tendemos a tragicamente acostumarmo-nos. É um crime, além de esdrúxulo, deslocado do campo de jogo. Contudo, por ser relativo ao futebol, recebe tratamento leniente e inócuo.

Todos lembram da briga generalizada entre torcedores do Atlético-PR e Vasco, na última rodada do brasileiro de 2013. Dos 31 indiciados, 22 tiveram, esta semana, direito à suspensão do processo. Em contrapartida, não poderão ir a eventos esportivos nem cometer outros crimes durante dois anos. Parênteses, como se não poder cometer crimes fosse punição para qualquer coisa.

Da batalha campal no Couto Pereira em 2009, num Coritiba x Fluminense, apenas 14 pessoas foram identificadas. Metade cumpriu penas brandas e metade ainda aguarda julgamento. Ninguém está/foi preso.

Em Santa Catarina, torcedores organizados não podem frequentar estádios com artefatos das torcidas, mas podem ir a todos os jogos desde que usem outro fardamento. Reprime-se a entidade, como se fosse um ser próprio, e, por tabela, os que não têm nenhum problema com confusões. Porém às pessoas que executam atos passíveis de punição, medida alguma é tomada.  
 
O medo e os problemas com violência – sim existentes – fizeram com que grande parte da população se afastasse dos gramados. O combate acabou dando-se, todavia, com a simultânea extinção do torcedor torcedor, que chora e comemora os feitos de sua agremiação. Dentro de campo, ou melhor, dentro dos estádios, desenhou-se uma situação que parece não poder coexistir, mas ela pode.    

2015 poderá apresentar passos importantes para o futebol brasileiro. No ano seguinte à Copa do Mundo, nossos clubes tiveram algo próximo ao que pode se chamar de pré-temporada. O Bom Senso FC articula-se em favor do esporte. A medida provisória que permitiria o refinanciamento das dívidas dos clubes sem qualquer contrapartida foi felizmente vetada. Apesar da CBF, novos ares podem soprar sobre nossos gramados. 

Por fim, sim, eu gosto de belos estádios. Torço apenas para que a emoção de antigamente volte a frequentá-los.



* * * * * * 

 Pedro Mox
, jornalista e fotógrafo, especial para o NR. Imagem: Jornalismo FC

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Uma final épica em Minas Gerais

por Pedro Mox*

No ano da Copa no Brasil, a final da Copa do Brasil promete parar novamente o país, colocando frente a frente Cruzeiro e Atlético-MG. Os motivos não são poucos. O primeiro é o fato de se tratar de um clássico. É apenas a segunda vez que dois times de uma mesma cidade se enfrentam na decisão da competição – a primeira foi em 2006, quando o Flamengo se sagrou campeão sobre o Vasco ganhando as duas partidas (2-0 e 0-1).

A forma pela qual o encontro foi desenhado também é especial: até 35 minutos do segundo tempo das semifinais, Flamengo e Santos decidiriam a competição. Foi quanto Willian anotou o tento cruzeirense; quatro minutos depois Luan fez o derradeiro e milagroso gol atleticano, concretizando a final mineira. Olhos de todos os cantos apontaram para Minas Gerais, a terra do futebol na atualidade – o que não é mero acaso.

Em 2013 a Libertadores e o Brasileiro ficaram por lá. Este ano ambas equipes mantiveram a base, coisa ainda não tão natural em nosso país, e boa parte dos que entrarão em campo nesta final já levantaram algum troféu com seu clube. A manutenção dos treinadores também merece destaque: Marcelo Oliveira fez belo trabalho à frente do Coritiba, foi demitido do Vasco em apenas dez partidas e hoje caminha para seu terceiro ano de Cruzeiro. No Atlético, após a permanência de Cuca entre 2011 e 2013, Levir Culpi teve o apoio necessário após a turbulenta eliminação da Libertadores (que causou a queda de Paulo Autuori).

A pré-temporada igualmente merece atenção: como o campeonato mineiro é enxuto (quem chega à final entra em campo 15 vezes), o tempo de preparação das equipes é maior. Paulistas e cariocas, por exemplo, fazem 19 jogos – o que, além de prejudicar o calendário, proporciona uma série enfadonha de partidas, como a modorrenta primeira fase do estadual de São Paulo.

Cruzeiro e Atlético são acostumados a decidir o estadual, já o fizeram em 19 campeonatos. Vantagem para a Raposa, que faturou 12 destes canecos. Em 2014, entretanto, o placar não saiu do 0-0, fazendo com que o Cruzeiro fosse campeão por ter a melhor campanha. Ano passado o Galo levou a melhor, ganhando no Independência por 3-0 e perdendo no Mineirão por 2-1. Em competições nacionais, todavia, é a primeira vez que o duelo acontece em uma final. Aliás, é somente a terceira vez que a dupla mineira se encontra em fases decisivas de torneios nacionais. O último encontro foi em 1999, pelas quartas de final do Brasileirão; duas vitórias do Galo (4-2 e 2-3) no Mineirão sobre o Cruzeiro então treinado por Levir Culpi, atual comandante alvinegro. Antes, pelo Brasileiro de 1986, dois empates (0-0 e 1-1), também pelas quartas, levaram o Atlético à semifinal.

Nos cinco clássicos promovidos em 2014, foram três empates sem gols no estadual e duas vitórias atleticanas no Brasileiro, 2-1 no Independência e 2-3 no Mineirão. O fator casa foi explorado pelos presidentes, e os dois duelos terão torcida visitante. É legítimo realizarem-se uma partida em cada campo, mas o que eu gostaria de ver é um Mineirão lotado, com 30 mil para cada lado, tal qual o clássico que lá assisti há alguns anos. É triste, muito triste, ser isso for coisa do passado, sobretudo pela nossa incapacidade de lidar e combater a violência no futebol. Resta torcer para que haja o mínimo de confusões possível, e que Belo horizonte nos brinde com mais um espetáculo futebolístico à altura que equipes e torcedores merecem. Com um cafezinho com pão de queijo para acompanhar.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Nas mesmas mãos de sempre


por Pedro Mox*

Depois do papelão sofrido diante da Alemanha, a seleção brasileira voltou a reunir-se, contra seu adversário das quartas de final, a Colômbia, em Miami. Venceu o jogo por um a zero. Também ganhou do Equador, ontem, pelo mesmo placar. Em tese, vida nova; ou não, se levarmos em conta as expectativas criadas pela Copa e, sobretudo, pelo fim desastroso vivido pelo nosso onze. Muito falou-se em mudanças no futebol do país, reformulação na Confederação Brasileira de Futebol, adequação e profissionalização...

O visto na prática, contudo, não foi nada disso – o que era, convenhamos, previsível. Mudar nunca foi muito o forte da CBF. No máximo, mudar para permanecer o mesmo, como o ideário abordado em O Leopardo, clássico de Luchino Visconti.

Paulo Vinicius Coelho, da ESPN, publicou em seu blog texto com o seguinte título: Em vinte anos, seleção teve mesmo número de técnicos da Alemanha em um século e da Espanha em 45 anos. A lógica de demitir treinadores, comum em nossos clubes, repete-se na seleção: desde a campanha do tetra, em 1994, tivemos dez mudanças de treinadores, sendo que quatro (contando o retorno de Dunga) tiveram duas passagens. Já a Alemanha, desde a copa dos EUA, teve cinco treinadores; nenhum repetido. Joachim Löw, campeão no Brasil, está desde 2006 no cargo; antes de assumir o Nationalelf foi assistente de Klinsmann durante dois anos. Tal trabalho de longo prazo inexiste no futebol de resultados aqui encontrado.

Na cartolagem a situação se inverte: de 1980 para cá, a CBF foi comandada por apenas quatro homens, com destaque ao reinado de Ricardo Teixeira: assumiu em 1989 e só saiu em 2012 – ou melhor, renunciou em meio a escândalos de corrupção. Passada a turbulência, leva uma vida sossegada em Miami. José Maria Marin herdou o cargo, e vai presidir a entidade até o final deste ano.

Para fazer um candidato (inscrever uma chapa) é necessário apoio de ao menos seis clubes e oito federações. No último pleito, realizado em abril deste ano, uma segunda chapa sequer existiu. A candidatura única de Marco Polo Del Nero – apoiado por Marin – elegeu-se com impressionantes 46 votos a favor e dois em branco. Na prática, será  uma troca de cadeiras.

Votam nas eleições para presidente da entidade máxima do futebol brasileiro presidentes das 27 federações estaduais e dos 20 times da primeira divisão. Portanto, não é estranho que a mesma falta de oxigenação encontre-se nas federações: Eduardo José Farah assumiu a Federação Paulista de Futebol em 1988, seguido por Del Nero desde 2003. (Del Nero é também atual vice da CBF). A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, desde sua fundação em 1978, teve três presidentes. A federação catarinense está sob a batuta de Delfim de Pádua Peixoto há mais de 25 anos, enquanto o ex-presidente da federação paranaense Onaireves Rolin de Moura ocupou o cargo por 22 anos.

A própria posição da confederação ao final do mundial deixou claro que sua preocupação é a seleção brasileira, não o futebol brasileiro. Assim, enquanto deveria zelar pelo esporte e pelos que o praticam/admiram, aparenta mais disposição para arrumar seu 17º patrocinador. Além disso, divulga o calendário do próximo ano com sequer um mês de pré-temporada. Vale lembrar que a entidade, até 2009, nem mesmo responsabilizava-se pela organização da Série B, que ficava a cargo da Futebol Brasil Associados.

A escolha do atual treinador foi, portanto, natural. Não pelo aspecto futebolístico, mas político: alguém com uma posição mais crítica a respeito do esporte dificilmente se encaixaria nos moldes conservadores da Confederação. O futebol brasileiro está nas mesmas mãos de quem sempre esteve, por isto seria demais esperar qualquer mudança radical antes do anúncio de Dunga. As preocupações destes homens, infelizmente, nem sempre dizem respeito ao melhor para o futebol.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A outra pátria em chuteiras


por Mariana Camaroti, de Buenos Aires

Engana-se piamente o cidadão que crê que o Brasil é a única nação em que o futebol é a comida de um povo e onde a Copa do Mundo é vivida de maneira transcendental, como os dias de momo. Piamente. O futebol está para a Argentina como a praia está para o carioca; mas existe ali algo mais. E eu diria que é o tango – este lamento típico dos hermanos – que faz com que eles saibam sofrer remoendo amores – neste caso, ídolos – do passado. E aceitar o sofrimento como parte do amor. Para mim, isso explica por que futebol e argentino nasceram um para o outro. O país que pariu Ernesto Che Guevara, San Martín e Evita Perón e que tem como maior ídolo – ou melhor, deus – Diego Armando Maradona não pode ser subestimado quando de chuteiras se fala.

Era o meu terceiro Mundial no país vizinho desde que para lá me mudei, casei, comprei casa, descobri livros e tive filhos; mas este ano, quando pendurei as bandeiras alvo e celeste e a verde e amarela na minha janela, foi diferente. Sem que eu me desse conta, havia crescido dentro de mim um sentimento de pertencimento que jamais sentira. E isso não tem só a ver com meu marido argentino, mas também com a minha história com o portenho, com o saber e poder viver – bem – ali mantendo as minhas raízes.

Já no primeiro jogo, aceitei com naturalidade torcer com quase a mesma intensidade do que torcia para a canarinha. E olhe que eu odeio Maradona e não sou fã de tango. Mas a admiração deles pelo Brasil e como almejam ser como os brasileiros me toca sempre.

Mas bem, a bola começou a rolar e, em dia de partidas da Argentina, eu vestia celeste e branco, afirmava a torto e a direito que torcia por eles, como um invasor que tenta ganhar confiança do colono. Mas não, eu havia me tornado uma verdadeira torcedora de Messi, Mascherano, Higuaín e Lavezzi. E, mais tarde, de Romero. Aprendi os nomes como no campeonato de 1994, sabia quase de cór. Nem ideia de esquema tático e muito menos quem estava no grupo da Argentina. Mas a paixão me movia. E eu sei por quê. A Copa era no Brasil, o meu país, e torcer pelas duas seleções era confirmar a minha paixão pelas minhas duas casas. Como se isso reduzisse a distância.

Era lindo ver as crianças vestindo acessórios para ir ao colégio do início ao final da Copa, bandeirinhas nos carros, bandeiras desbotadas nos balcões e uma infinidade de propagandas que reafirmavam o amor pela pátria e sua independência em momentos de alta inflação e possibilidade de novo calote da dívida. Quando vi David Luiz soluçar dizendo que o povo sofrido brasileiro merecia o título, meu compadecimento se estendeu aos argentinos. Também mereciam. Vê-los cantar aquele hino sem graça como um grito de guerra, sem letra, só com urros, me tocava.

Além de mexer com a fantasia que o argentino cultiva do que vem a ser o paraíso, ter o Brasil como sede do Mundial despertou pelo menos dois sentimentos: 1. É logo ali, vamos ocupar o território tupiniquim; 2. Inveja de não sermos nós os anfitriões. Para os hermanos, o Brasil é a nação em que tudo deu certo e que, quando não dá, se sabe levar com a alegria. Invejam essa – para eles – qualidade nobre do povo brasileiro.

A torcida argentina foi invadindo o país sede à medida que sua seleção avançava. E veio o terceiro e mais forte sentimento, aquele de humilhar o Brasil na sua própria casa. A rivalidade, que se restringe apenas ao futebol, claro está, incomodava cada vez que os argentinos cantarolavam sem vergonha perguntando ao Brasil o que se sente; e cada vez que os brasileiros torciam pelo rival da seleção alvo e celeste, até mesmo quando este foi o Irã. E tudo foi potencializado pela imprensa e pelas redes sociais.

As duas seleções progrediram. Perdemos de 7x1 e ficamos em quarto com um país se sentindo humilhado; eles chegaram a segundo e, ainda que feridos, tiveram sua paixão pelo futebol enaltecida, renovada. E eu nunca entendi de onde vem essa rivalidade. Será a minha compaixão, sentimento de pertencimento ou será o meu marido. Mas desconfio que é o meu espírito de atleta que ainda me faz admirar quem joga com raça e paixão.

* * * * * * *

Mariana Camaroti, jornalista, mudou-se pra Buenos Aires depois de se apaixonar por um argentino; mãe de dois argentinos, torcedores do Boca Juniors como o pai, e amante das livrarias portenhas. Texto escrito especialmente para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Maratona étnica

por Carlos Conte*

Ainda estou tentando entender o que aconteceu na semifinal contra a Alemanha. De vez em quando tenho um pesadelo. Sonho com gols adversários. São como fantasmas. Como o garotinho do filme “Sexto sentido”, eu digo “Vejo gols da Alemanha...”. “Com que frequência, Carlos?”. “Todos os dias!”. Para driblar o trauma, tento esquecer. Vim para a Chapada Diamantina, na Bahia, de onde escrevo esta crônica. Para mim, a Copa do Mundo acabou depois dos 7 X1. Para alguns, ela nem deveria ter começado.

Apesar da goleada humilhante, vou falar da Copa pela última vez.

Primeira fase. Meu espírito ainda dividido: #nãovaitercopa X #vaitercopa. Tinha que ter escrito dois textos durante a semana, mas não deu: fiquei vidrado na TV vendo e revendo lances dos primeiros jogos.

Bateu o desespero! Cheio de trabalho, mais apertado que saco de cantor sertanejo, mas nem um pouco a fim de trabalhar. Ainda mais quando o Gongom me ligou perguntando se eu queria assistir ao jogo da Itália no Bexiga e, na sequência, ver o Japão na Liberdade. Lógico! Copa do mundo: maratona étnica em São Paulo! Bem melhor que Fun Fest da FIFA no Anhangabaú.

Quando desci do carro na 13 de maio, um menino veio perguntar se eu era italiano: como ia ver a Itália no Bexiga, pus minha velha boina do Pezzutti, uma camisa da Azzurra e um lenço vermelho no pescoço (será que italiano usa lenço vermelho?...); sei lá, resolvi me fantasiar. Até então só tinha acompanhado a Copa pela TV. E a TV mostrava uma Copa carnavalesca. Torcedores/foliões indo ao estádio fantasiados: mexicanos de sombrero, ingleses de cavaleiros templários, alemães à la Oktoberfest... Um desfile de estereótipos ao qual eu aderi ingenuamente, achando que no Bexiga eu encontraria meus pares. 13 de maio vazia... Portas fechadas, janelas fechadas. Um ou outro boteco aberto, mas tudo vazio. Respondi pro menino cantando a Tarantela e saí andando, me sentindo o Peppino di Capri.

Claro que não havia nenhum italiano no Bexiga! O Bexiga, hoje, vive da fama, nada mais. É o que dá grana pras cantinas da Dom Orione. Anos atrás, durante uma rifa na festa italiana de N. Sra. Achiropita, o mestre de cerimônias começou a fazer aquelas piadas sem graça para ocupar o tempo: “Quem aqui é italiano?”. Ninguém levantou a mão. “Quem é filho de italiano?”. Um ou outro levantou a mão. “Neto?...”. Vários. “Bisnetos?...”. Muitos levantaram a mão, inclusive eu. “Tataranetos?...”. Grande maioria. “E agora levanta a mão quem é descendente de japonês... Vocês vieram na festa errada!”. Gargalhada geral. Achei a piada besta, mas dei risada.

Na rua Santo Antônio, fomos ao Bar do Amigo Giannotti, a melhor fogazza de São Paulo! Portas fechadas. O Giannotti é genial mas imprevisível. O bar funciona de acordo com o estado de espírito do dono. Às vezes abre de segunda. Às vezes antes das 20h. Às vezes simplesmente nem abre. E não tem conversa. Uma amiga que morava no Bexiga, a Ciça, quis fazer uma festa de aniversário no Giannotti e ligou para fazer as reservas: o Amigo, pouco amigo, respondeu que não gosta de festas – muita gente, muito barulho... “Que medo de ganhar dinheiro, Giannotti!”, a Ciça bateu o telefone.

Em busca de alguma coisa italiana, entramos numa cantina, fugindo do glamour caríssimo da 13 de maio, e vimos Itália X Inglaterra tomando vinho nacional a 50 reais e comendo azeitonas pretas e uma gororoba sem gosto que atendia pelo nome de antepasto de berinjela, bem diferente do antepasto que o finado Giovanni servia num casarão na Brigadeiro Luis Antônio onde hoje funciona mais um estacionamento. Pra fazer jus à fama do bairro, decorações em verde, vermelho e branco, quadros de praias da Sicilia e um cardápio bilíngue. Tinha uma família animada perto da gente que torcia gritando “Que cazzo! Porca miséria! Avanti, Itália!”, pelo menos alguma coisa para alegrar o ambiente, que estava bem desanimado. A Itália ganhou, mas saímos frustrados.

Segunda parada: Liberdade. Talvez estivéssemos mal informados, porque custou a achar algum movimento. O jogo começaria às 22h, Japão X Costa do Marfim, duelo pouco atrativo, mas o futebol era apenas um pretexto para encontrar japoneses animados e salvar a nossa peregrinação étnica pela cidade. Nada de novo no Largo da Pólvora. A velha Liberdade com suas lâmpadas japonesas, fachadas japonesas, ideogramas, gatinhos com a pata levantada e budas de louça, mas nenhum japonês na rua pra contar a história. Na rua da Galvão Bueno, o karaokê estava lotado, fila para entrar, segurança na porta exigindo comandas, e ninguém com cara de quem ia assistir ao jogo. Fomos ao restaurante Samurai na rua da Glória, mas se fôssemos ver o jogo lá, só de cerveja teríamos que deixar as calças. Fiquei tomando uma latinha na porta e conversando com o manobrista. Ele me contou com orgulho que é amigo do brasileiro que venceu o maior concurso televisivo de karaokê do Japão. Isso deu notícia no Brasil: um brasileiro, mulato, fazendo sucesso na terra do sol nascente. Perguntou se eu queria ver uma foto deles juntos, querendo provar que estava falando a verdade. “Tudo bem”, eu disse. Mas demorou tanto pra encontrar a tal foto no celular que acabei desistindo. “Fica pra uma próxima!...”.

Pra não perder o começo do jogo, paramos num boteco qualquer, desses botecos pasteurizados que vêm dominando a cena em São Paulo, substituindo os velhos balcões de madeira. No fundo do bar, a TV mostrava as duas seleções perfiladas, enquanto tocava o hino nacional do Japão. Havia dois homens conversando no balcão, além do dono do bar, distraído com um bolo de notas fiscais. Na mesa ao lado, dois japoneses! Tínhamos ido à Liberdade por causa deles. Mas aqueles dois não queriam nada com a Copa. Clubbers, provavelmente sanseis, de costas para a TV, faziam o esquenta para a baladinha da noite, tomando vodca com energético. Conversavam em português. Riam como japoneses.

* * * * * * *

Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

domingo, 13 de julho de 2014

Ainda bem que tivemos “los ticos”!


por Aleksander Aguilar*

Ah, Costa Rica! O que teria sido de nós, brasileiros, nesta Copa sem ti. Pensar na tua história neste Mundial, especialmente depois do trauma do Brasil na semifinal “Mineiraço”, é um alento e uma inusitada forma de olhar a toda nuestra América. Exemplo, sim, que futebol mistura-se com política, que só aumentou o imprevisto, mas merecido, reconhecimento da tua seleção por parte desta “impávida” nação sul-americana – e por extensão do teu país, e por ampliação de toda a região da América Central.

Para mim, filho de salvadorenho, a Costa Rica era, sim, a América Central no Mundial! Admito que cada vez que eu ouvia a massa gritar em coro, meu orgulho centro-americano silenciosamente se manifestava: "¡oé-oé-oé-oé, ticos, ticoooos!". Eram os anfitriões, nas ruas durante as partidas costarriquenhas, entoando o nome, com tanta empolgação e carinho quanto com sotaque brasileiro, que para eles é o apelido da seleção costarriquenha – a equipe de um país da América Central! Mas não, não, compatriotas. Ticos é um gentilício coloquial para todo o povo da Costa Rica, algo que ocorre com vários países centro-americanos. Os hondurenhos são os Catrachos, os salvadorenhos são os Guanacos, os guatemaltecos são os Chapines, e cada um desses apelidos possui uma explicação sociohistórica.

Quem no Brasil, além de um grupo muito específico como aqueles que estudamos esta região quase invisível do mapa-mundi, saberia disso ou se importaria? No Brasil, nação onde a paixão por futebol não é apenas um simples cliché, a seleção desse país centro-americano tornou-se um xodó nesta Copa, pelo incontestável brilhantismo do seu desempenho, deixando o campeonato de forma invicta após enfrentar, e vencer a maioria, grandes potências do esporte mais popular do planeta. Ao derrotar Uruguai e Itália, empatar com Inglaterra, eliminar a Grécia e levar a Holanda para a decisão nos pênaltis numa quarta-de-final, a imprensa mundial aborrecidamente insistiu que ninguém imaginava que a seleção deste pequeno e “exótico” país iria tão longe num campeonato de grandes potências esportivas. E para a maioria da mídia aqui no Brasil, o importante era justamente esse feito. E só. Ao ponto de para muitos a Costa Rica ser uma seleção “caribenha” (afinal, América Central e Caribe é tudo igual, tudo perto por ali no mapa...)

Ocorre que o significado da participação da Costa Rica neste Mundial nunca fez tão evidente a oposição ao adágio popular de que política e futebol não se discutem. Na América Latina discutem-se, inclusive e de preferência, conjuntamente. Importa mesmo é constatar que importantes meios de comunicação no Brasil destacam de repente a história e os índices de desenvolvimento deste país da América Central. Surpresa mesmo, e satisfação, é ver os brasileiros pela primeira vez curiosos com fatos como a Costa Rica não ter exército (mais de 60 anos de sua extinção) mas ter um ganhador do Prêmio Nobel. O Brasil, via futebol, desenvolveu quase sem querer um sentimento de latino-americanidade, expresso neste caso precisamente pela invisibilizada região centro-americana, e demonstra ter mais interesse em saber quem são esses países do istmo.

Muito futebol, muita política

E por isso o atual futebol da Costa Rica fez-se uma dupla metáfora nessa fronteira futebol/política: enfeixa por um lado o paralelo das relações geopolíticas centro-periferia no mundo com o das disputas dos grandes atores globais do futebol no contexto – quadrado – dos meganegócios desse esporte na globalização hipercapitalista; e por outro o paralelo dos imbricados debates entre nacionalismos e identidade nacional com a questão da integração regional centro-americana e a projeção internacional dessa região.

A Costa Rica é um país da América Central. E enquanto através desse momentum no esporte demarcou para si mesmo uma janela de visibilidade e presença nas cartografias geopolíticas desse mundo cada vez mais multipolar – em que a articulação entre países do chamado Sul Global torna-se uma via para um sistema internacional mais igualitário – trouxe a reboque para uma pequena, mas importante, vitrine toda a região deste istmo socialmente convulsionado. Aos poucos, os centro-americanos passaram a ver o país Tico, que deixava mais e mais potências esportivas boquiabertas, como um representante de todos, permitindo o mundo ver que nem só de terremotos e guerras civis vive uma região. Devagar, porque, claro, internamente na América Central há rivalidades, ranços, já que historicamente as relações no istmo viram-se em altos e baixos, com divisões por conflitos políticos e limítrofes.

Entende-se. Em nome de uma suposta identidade regional, um gaúcho colorado torceria para o Grêmio durante uma Libertadores, e vice-versa? Um pernambucano torcedor do Sport apoiaria o Náutico num campeonato brasileiro, e vice –versa? De sociologia do futebol deixa-se para os especialistas, mas não se pode negar a força desse esporte em todo o continente como fator de unidade. No caso da Costa Rica, o país verdadeiramente possui diferenças enquanto Estado democrático de direito bem marcadas de vizinhos como os do chamado grupo CA-4. El Salvador, Nicarágua, Guatemala e Honduras, o que coloca o próprio debate sobre centro-americanidade e integração regional do istmo como questão.

A América Central hoje

Designada por uma espécie de destino geográfico, uma das especificidades da América Central no contexto latino-americano é justamente a de uma região de trânsito entre os dois oceanos, posição que marcou sua história sociopolítica no passado e lhe influencia no presente, dando-lhe peso geopolítico e características identitárias que a colocam em condições particulares para converter-se em um âmbito que merece análise especifico. Mesmo na América Latina, contudo, esse istmo é frequentemente abordado de forma marginal ou omissa, tangencial ou superficialmente, deixando-se de tratar, precisamente, seus singulares problemas e especificidade sociopolítica no continente. É a situação que levou o crítico literário guatelmateco Arturo Arias a caracterizá-la como “una región marginal dentro de la marginalidad”.

A chamada América Central, a que o poeta Pablo Neruda denominou “la dulce cintura de América” tem pouco mais de 500 mil km² (o Brasil sozinho tem mais de oito milhões de km²) abrigam sete Estados – (Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá) com uma população de quase 50 milhões de habitantes. Atualmente, cerca de 47% dos centro-americanos vivem em condição de pobreza e 18.6% em pobreza extrema. Mais de quatro milhões de centro-americanos e descendentes moram fora do istmo, especialmente nos Estados Unidos. Ditos emigrantes enviam anualmente cerca de US$ 13 bilhões aos seus familiares nos países de origem, o que no caso de El Salvador, por exemplo, chega representar 17% do total do PIB do país.

Ao longo da história centro-americana, e depois da declaração de independência em 1821, o tema da integração regional – primeiro em suas manifestações unionistas e mais tarde nos esquemas comerciais, econômicos, políticos e institucionais – tem sido uma constante. No entanto, nas últimas décadas, especialmente depois do estabelecimento do Sistema de la Integración Centroamericana (SICA), em 1991, o interesse pelo processo integracionista aumentou e tem chamado a atenção de um número crescente de setores sociopolíticos e econômicos no istmo. Hoje a violência e as migrações, conforme entende o acadêmico da Guatemala radicado na Costa Rica, Rafael Cueva Molina, são grandes e poderosos traços que caracterizam a região e que tem como uma de suas causas primordiais as guerras civis dos anos 1980, embora certamente não a única. As guerras civis centro-americanas conformam uma fase arrebatadora da história sociopolítica do istmo cujas consequências constituíram-se como o principal marco contemporâneo para os sentidos de centro-americanidade.

Essas diversidades de sentidos expressam-se nessa diferença da Costa Rica do seu entorno. Os ticos queixam-se das deficiências dos seus serviços sociais básicos, como saúde e educação, das má-condições das suas estradas, persistência da desigualdade e da pobreza e, mais recentemente, igualmente a outros países centro-americanos, da crescente força do narcotráfico internacional no seu território. Ainda assim, a Costa Rica é um país chamado de renda média, como o Brasil, e tem alguns melhores índices econômicos e sociais do istmo e de todo o continente, com uma expectativa de vida alta de 79,4 anos (a do Brasil é de 74,6) e uma média de homicídios baixa de 8,9 por 100.000 habitantes (a de Honduras é dez vezes maior). O país atrai pela sua estabilidade política, tendo recebido diversos exilados políticos das ditaduras anos 70 e 80, tanto da América do Sul como dos vizinhos da América Central que efervesciam em guerras. Foi classificado em 2011 como o de maior liberdade de imprensa da América Latina, ocupando a posição 19 em nível mundial, de acordo com o ranking da Organização Repórteres Sem Fronteiras, e impressiona até hoje aqueles que ainda desconhecem que aboliu o seu exército em 1948, em nome de uma proposta, fruto de anos de trabalho, de aumentar a participação cidadã e evitar golpes militares de estado.

Contudo, a Costa Rica ainda não conseguiu articular respostas para alterar a tendência dos últimos anos de lentos e incertos progressos em desenvolvimento humano. Como lembra, entretanto, a acadêmica e analista política salvadorenha, Carmen Elena Villacorta, chama a atenção sobre o atual contexto político centro-americano que os partidos das chamadas esquerdas em vários países da região, como El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, algumas antes guerrilhas e agora no poder pela via eleitoral, movam-se cada vez mais ao centro ao verem-se confrontadas por sociedades civis cada vez mais plurais e diversas, mais politizadas e exigentes, e menos leais em termos ideológicos, conscientes do poder político do voto.

No momento, por cima das limitações, sua seleção de futebol, “os filhos prediletos da nação”, como foram chamados no país, mantem ainda mais por cima a autoestima dos ticos, e de toda a América Central. Porém, acima ainda do futebol, a Costa Rica, e todo o istmo, veem-se hoje num lugar em que, como assevera o jornalista e acadêmico costarriquenho Andrés Mora Ramirez, nunca, desde a sua independência da Espanha, a região teve que enfrentar uma necessidade tão marcada de seguir por entre diferentes padrões de crescimento e de desenvolvimento para buscar sua inserção internacional.

* * * * * * *

Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sábado, 12 de julho de 2014

O imponderável na Copa das Copas


por Pedro Mox*

O brasileiro sentiu o golpe. Contudo, mesmo que aos poucos, felizmente a ferida vai se fechando, as lágrimas secam, explicações (mesmo que nem um pouco convincentes) aparecem, e a Copa do mundo encaminha-se para seu clímax. A despeito da campanha brasileira, é importante ressalvar grande evento aqui realizado: tivemos belíssimos jogos, boa organização, seleções bem acolhidas. A média de gols até agora, 2,7, já é a melhor desde 1994, pode ultrapassar os 2,8 de 1982. Tem a segunda maior média de público da história, atrás apenas dos Estados Unidos. E terá a decisão no estádio quiçá mais famoso do mundo, o Maracanã. Não acho exagero dizer que, até este ano, realizamos a copa das copas.

****

Não há explicações para o inexplicável. Pode-se, na verdade devemos, procurar a razão pela qual o onze canarinho não decolou em 2014. Achei a escalação equivocada, precisávamos de maior ocupação no meio de campo. As características são deveras distintas, mas o substituto mais adequado para Neymar era Willian ou Paulinho, dificultando a vida de Kroos e Cia. Talvez, ou provavelmente, não ganharia, mas evitaria o maior vexame da história da seleção brasileira de futebol. Entretanto, o desastre da última terça teve grande participação de um elemento sempre presente – e que contribui muito para a graça do futebol –, o imponderável. Da mesma forma que o Brasil entrou mal escalado e não se encontrou em campo, quatro gols em seis minutos não é e nunca será uma coisa normal. Aconteceu, e provavelmente nunca mais ocorrerá na história das copas.

Nossa atual geração não é ruim, pelo contrário – esse time é, na minha opinião, inclusive, superior ao de 2010. Foi mal preparado, e em nenhuma partida realmente convenceu, mas boa parte destes jogadores pode estar na Rússia em 2018 – tem talento, é a seleção mais comprometida que vi nos últimos anos, estarão mais experientes e quererão como ninguém reparar o fiasco aqui sofrido. Este ficará para sempre na história, o título porventura vindouro também. Considero um equívoco queimar esses jogadores, apesar do elástico escore.

Outro ponto muito comentado, por razões óbvias, e a comparação com 1950. Comparação, na minha opinião, inoportuna. No ano do maracanazo o Brasil tinha equipe bem engrenada, que vinha de duas goleadas – naquele não houve partida final, mas sim um quadrangular – 7-1 sobre a Suécia e 6-1 sobre a Espanha. Entrou no Maracanã (construído para esta copa) com, diz-se, mais de 200.000 pessoas, precisando apenas de um empate. Praticamente com as duas mãos na taça, poucos lembravam que havia um adversário a ser enfrentado. Cenário completamente distinto do atual, quando: tínhamos um time que não convencia desde o primeiro prélio; enfrentamos uma seleção tida por todos como a melhor da competição. Nada que justifique o apagão apresentado, mas um contexto bem diferente de outrora.

****

Não será aqui que o seleto grupo de campeões ganhará um novo membro. Domingo Alemanha e Argentina partirão para o tira-teima de decisões, são protagonistas inclusive da primeira vez que dois países reprisaram uma final. Em 1986, no México, os hermanos abriram dois gols de diferença e cederam o empate. Entretanto, ao contrário de 1954 e 1974, os alemães não viraram; com passe de Maradona, Burruchaga marcou o tento que deu o bicampeonato à albiceleste. Quatro anos depois, ambos vinham de semifinais vencidas nas penalidades. A revanche germânica deu-se em Roma: com um gol de pênalti convertido por Brehme aos 40 do segundo tempo, os comandados de Beckenbauer eram os melhores do planeta pela terceira vez.

São seis partidas em Copas do Mundo, com três vitórias e 11 gols marcados pelos alemães, uma vitória e cinco gols para os argentinos, além de dois empates. O último embate foi na África do Sul, pelas quartas de final. As equipes mantiveram boa base em relação àquele torneio: oito atletas pela Alemanha e seis pela Argentina (considerando Di Maria) se reencontrarão. Joachim Löw já comandava o time alemão, enquanto na argentina Maradona vivia sua primeira experiência como treinador. O resultado, um sonoro 4-0, com dois gols de Klose e um de Müeller. Se o ataque alemão continua fulminante, o time comandado por Alejandro Sabella melhorou e muito sua defesa, além do poderoso trio de frente com Messi. Jogo mais que digno de uma final.

Na disputa pelo terceiro lugar, hoje em Brasília, outro confronto das quartas de 2010. Se lá fomos eliminados com a fatídica trombada de Julio César e Felipe Melo, agora é a chance de uma despedida ao menos digna. Do outro lado, os craques Robben, Van Persie e Sneijder despedem-se de copas do mundo. Quatro partidas em mundiais, perdemos duas, empatamos uma e ganhamos outra. Destaco esta vitória, um suado 3-2 em 1994, com gol da vitória numa falta cobrada por Branco e um desvio de corpo milimétrico do baixinho Romário. Que nossos atletas tirem daí inspiração para os últimos 90 minutos neste mundial, levantem a cabeça e vislumbremos um futuro mais promissor.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O futebol e seus mistérios

por Celso Vicenzi*

Sim, há muitas explicações. Nenhuma delas suficiente, tampouco convincente. Darão boa ou má literatura, inesgotável assunto para mesas de bar e mesas-redondas de futebol na TV. Páginas e páginas serão escritas, milhões de comentários nas redes sociais. Os mais exaltados xingarão o técnico, os jogadores, o país onde vivem. Haverá oportunistas, como sempre. E também mal-educados. Não faltarão os que sempre irão se curvar diante da “superioridade europeia”, resquícios de um passado de nação colonizada que, gradativamente, parece perder sua força. Mas é possível identificar também muitos brasileiros sensatos, que amam seu país, capazes de separar vida e jogo, política e esporte, virtudes e defeitos de uma nação.

Nelson Rodrigues, o escritor que melhor traduziu o que pode acontecer dentro de um campo de futebol, criou o personagem Sobrenatural de Almeida, um fantasma que seria responsável por gols improváveis, normalmente contra o seu adorado Fluminense. É dele também a crítica aos “idiotas da objetividade”, aqueles que tentam explicar pela razão o que pertence ao imponderável.

Os gregos sabiam que há no mundo lugar para a tragédia. Haveria algo que estaria acima da vontade dos seres humanos, porque dependeria dos humores dos deuses. Nelson Rodrigues, não por acaso um dramaturgo, expressou muito bem: “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. A bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe.”

Há os que se agarram às explicações esportivas. Se o treinador fosse outro, se o esquema tático fosse diferente, se houvesse mais treinos, se a escalação fosse mais prudente, se outros jogadores estivessem entre os convocados, se o Neymar e o Thiago Silva pudessem jogar, se houvesse menos oba-oba, se, se, se...

Há outros que preferem adentrar searas mais “científicas”, uma espécie de “sociologia do futebol”. Perdemos porque não somos um país decente, porque há corrupção, porque somos desorganizados, porque preferimos a improvisação e a malandragem ao estudo, à disciplina, à qualificação, porque falta educação, falta saúde, falta um país...

Tudo simples. Mas não explicam como, sendo tudo isso que nós somos – e queremos ser melhores! –, somos os maiores vencedores, com cinco títulos mundiais em 20 disputados ao longo de 84 anos.

Não explicam por que a toda poderosa Alemanha, que ganhou de fáceis 7 a 1 do pentacampeão Brasil, havia empatado com Gana e penado para ganhar da Argélia na prorrogação.

Sim, nosso time atual parece não ser dos melhores, ou não teve a sorte que bafeja os campeões. Mas o que dizer, então, de potências como Itália, Espanha, Portugal e Inglaterra, que saíram logo na primeira fase? A Bélgica iria ser a sensação dessa Copa. Não foi. Houve candidatos que surpreenderam, mas ficaram todos pelo caminho. Já fomos campeões do mundo com um time apenas razoável, em 1994. Já perdemos Copas com timaços, em 1950 e 1982.

Talvez, seja justamente isso que faz do futebol um esporte fascinante, uma paixão. Porque não cabe nos manuais. Nem esportivos, muito menos “sociológicos”. Ou a organizada Alemanha teria mais títulos do que o Brasil. E campeões mundiais como França e Espanha não passariam pelo vexame de cair fora já na primeira fase, logo depois de conquistarem a primeira Copa, como aconteceu em 2002 e 2014, respectivamente. Há pequenas e grandes tragédias esportivas, para todos os gostos. O mundo, apesar dos esforços de cientistas, filósofos e teólogos, é cheio de mistérios. O futebol, às vezes, é só mais um deles.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

As últimas batalhas da Copa

por Pedro Mox*

Passadas algumas semanas do início da Copa do Mundo, o mundo já sabe quais são as quatro melhores seleções da atualidade. Restam agora duas partidas para Brasil, Argentina, Alemanha e Holanda tentarem mostrar/provar quem manda. Toda a pompa de Copa das Copas justificou-se com inúmeros bons jogos, lances exuberantes, estádios cheios e nem de perto o caos anunciado por alguns às vésperas do evento.

A despeito das boas surpresas e revelações de 2014, às semifinais chegam quatro gigantes do futebol: dentre eles apenas a Holanda não sabe o que é erguer um mundial –fato que pode ser abrandado se levarmos em conta a revolução nos gramados por eles praticada em 1974. A laranja mecânica é atual vice-campeã (sofreu 1-0 da Espanha na prorrogação em 2010) e ocupa 15a posição no ranking da Fifa. Dos onze que iniciaram a partida contra a Costa Rica, o quarteto Kuyt, Sneijder, Robben e Van Persie estiveram na África do Sul. De 1990 para cá os holandeses só não jogaram o mundial de 2002; nessas edições só chegaram à semifinais (além do vice-campeonato de quatro anos atrás) em 1998, quando perderam a decisão do 3o lugar para Croácia por 3-1. Autora de 12 gols, quase metade marcados contra a Espanha (1-5), foi vazada em quatro oportunidades. Só não marcou no 0-0 diante da Costa Rica. Será o quinto embate entre as equipes em mundiais: duas vitórias européias, uma sul-americana e um empate. No jogo mais importante, porém, melhor para os latinos: vitória por 3-1 na decisão de 78.

Seu adversário na semi teve vida mais fácil nas quartas de final. Enquanto Robben e Cia jogaram 120 minutos, mais a tensão das penalidades, a Argentina eliminou a Bélgica com um gol de Higuaín no tempo regulamentar. Mais da metade dos titulares na última partida estavam no mundial de 2010, quando os hermanos foram eliminados nas quartas pela Alemanha com sonoros 4-0. Terão grande desfalque com a lesão de Angel Di Maria, além da provável ausência de Kun Agüero. Entretanto, Messi chegou ao Brasil disposto a mudar a imagem deixada nas outras Copas – e todos sabem do que o atacante criado nas canteras Barcelona é capaz. Atual 7a colocada no ranking da Fifa, somam oito tentos na competição, sofreram três e passaram pelos dois mata-matas com vitórias simples. Na última vez que alcançaram a semifinal, em 1990, ficaram com o vice campeonato – a Alemanha venceu por 1-0. Na última vez que ergueram o caneco, em 1986, Messi tinha um ano de idade, e não deve lembrar dos feitos heróicos de Don Diego. O primeiro veio quando jogaram em casa, 1978, no qual o Brasil foi embora invicto após o fatídico 6-0 dos argentinos contra o Peru.

Algozes dos argentinos na Itália, a Alemanha tem uma boa mescla de juventude e experiência. Dos onze titulares contra a França, apenas dois não estiveram na última Copa do mundo, Hummels e Höwedes. Chegou ao país atrás apenas da Espanha no ranking de seleções. Também protagonizou uma goleada histórica na primeira fase, 4-0 ante Portugal. Marcou 10 gols e sofreu três em solo brasileiro. Klose, com 15 gols, pode ultrapassar Ronaldo e se isolar como maior artilheiro em mundiais. Em 17 participações, carimbaram vaga na semi final 12 vezes – é a equipe que mais jogou esta fase. Nos títulos conquistados, bateu a poderosa Hungria em 54 e a incrível Holanda em 74, além de 90. Nas últimas três edições, perdeu a final para o Brasil na Coréia/Japão em 2002, e foi 3a em 2006 e 2010 – jogando em casa há oito anos, derrotou Portugal por 3-1, com grande festa da torcida.

Sede do mundial, 4o colocado no ranking da Fifa, o Brasil chega à semi com uma campanha irregular. Titubeou em alguns momentos, passou por uma disputa de pênaltis e fez um jogo satisfatório contra a Colômbia. Com uma seleção que majoritariamente brilha em grandes times, campeões por vários clubes europeus, em Copas a experiência é pequena – apenas seis dos 23 convocados sabem o que é disputar uma. Única seleção presente em todas os mundiais realizados, mais vezes campeã, tem a bênção e o fardo de conquistar o hexa em casa. Dos quatro semifinalistas, é o que levantou a taça Fifa a menos tempo: bateu a Alemanha por 2-0 na Copa do Oriente. Sob a batuta do mesmo Felipão, à época com bigodes menos esbranquiçados; que apostou num esquema com três zagueiros, em Ronaldo e Rivaldo vindo de lesão, e bancou a ausência de Romário. Este, inclusive, foi o único encontro entre as duas nações acostumadas a jogarem o mundial. Nossa campanha tem 10 gols marcados e quatro sofridos; uma sofrida disputa de penalidades contra o Chile e um 2-1 contra a Colômbia nas quartas. Para enfrentar a Alemanha, nem estrela do time, nem o capitão: Neymar está fora após sofrer dura falta de Zuñiga e Tiago Silva recebeu o segundo amarelo. Entretanto, o esquete canarinho tem bons suplentes, e um treinador que costuma tirar o melhor de seus homens em situações adversas. Se ainda não convenceu, é uma equipe que tem toda condição de chegar ao Maracanã dia 13.

Com todo respeito às demais seleções, que os deuses do futebol conspirem em nosso favor e, depois de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, que 2014 possa ser o ano em que costuraremos mais uma estrela no peito.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Não é todo dia que se vê um jogo de Copa do Mundo

por Pedro Mox*

O horário da partida era uma da tarde, mas às nove eu estava pronto. Não é todo dia que se vê – e porque não, sente – um jogo de Copa do Mundo. O estádio Governador Magalhães Pinto, popular Mineirão, receberia o último confronto do grupo D; o temido grupo formado por Itália, Uruguai, Inglaterra e Costa Rica. Àquela altura, entretanto, o “grupo da morte” mostrava-se letal apenas aos campeões mundiais: os caribenhos jogavam por um empate, que lhes asseguraria a primeira colocação. Itália e Uruguai digladiariam pela segunda vaga, aos ingleses restava tentar não realizar a pior campanha do país na história em mundiais.

O trajeto até o estádio mostrava-se descomplicado até a metade do caminho, quando filas intrínsecas a eventos de tal magnitude acabam aparecendo. Nas proximidades do estádio, diversas placas apontavam o caminho de estacionamentos e entradas para pedestres. Estaciono sem problemas e faltando pouco para o meio-dia avisto o imponente estádio de capacidade para 62 mil torcedores. Seu entorno tem chão acimentado, na cor do estádio, que por fora não me parece muito diferente do “velho” Minera. Uma gigantesca faixa com grafismos do evento exibe a frase “Bem vindos a/welcome to Belo Horizonte”. Todas as placas, bem como informações vindas pelos alto-falantes do estádio são em inglês e português.

Ao contrário do que imaginei, em nenhum momento foi-me solicitado o ingresso nos arrabaldes do Mineirão. Bem verdade que era um “amistoso”, mas o clima de alegria e descontração era geral – como imagino ser também nos outros. Fantasiados, caras pintadas, perucas, todos os tipos mais excêntricos que aparecem na TV estavam lá. Dezenas de camisas de clubes e seleções também conviviam harmonicamente: Brasil, México, Argentina; Cruzeiro e Galo; times de outros estados... Um mar de cores que, tal qual o vento em um deserto, formava e destruía belos mosaicos a cada instante.

A primeira entrada é um raio-x, para bolsas e pessoas – idêntico aos de aeroportos. A fila é organizada e não leva mais de 10 minutos. Não é permitido entrar com nenhum alimento, o que me fez pensar o desperdício de milhares de barrinhas de cereal ou biscoitos tipo social club. Acharia ótimo se, em vez de um lixeiro, houvesse um cesto de doação que pudesse aproveitá-los. Já mais próximo, mas ainda fora do estádio, está a entrada de fato, na qual uma voluntária passa meu ingresso num leitor óptico e deseja “boa partida” – sem catracas ou barreiras. Não sei se tal logística permanecerá nos jogos do brasileirão.

Dentro há mesinhas e lixeiras, com separação do que é reciclável. No momento que fui, os banheiros estavam limpos, mas metade das pias não tinha água. Os bares oferecem sanduíche natural, hambúrguer, salgadinhos. Fiquei feliz ao ver que o famoso tropeiro do Mineirão continua lá, ao preço de 15 reais, vendido numa quentinha de isopor. E continua saboroso. Para beber, Budweiser, cerveja oficial da copa, R$ 13; e Brahma, patrocinadora nacional do evento, R$ 10, ambas 473ml (equivalente a um pint estadunidense). Coca cola, num copo que traz também o jogo do dia. Aí está uma grande cretinice da FIFA, na minha opinião: o bar só aceita cartões Visa, patrocinadora do evento. Se o torcedor tem 10 em dinheiro e cartão Master, é obrigado a ir ao caixa eletrônico do estádio para sacar em espécie.

Compro minha cerveja – ou melhor, compro um copo e ganho a cerveja – e sigo para meu lugar: anel superior, cadeira em frente ao círculo central. O melhor lugar para se assistir a partida. Se por fora não mudou muito, internamente é um novo estádio, não lembra em nada o antigo Mineirão. O locutor pede aos presentes que se levantem para os hinos nacionais, e ambas torcidas os cantam alto. No anel inferior, à minha esquerda, a maioria inglesa; à direita costarriquenhos. A torcida brasileira torcia em massa para os latinos, e porventura eu fosse um dos poucos brasileiros torcendo pela terra da rainha – inclusive com a bela camisa vermelha de 66. Os telões alternam a exibição do jogo, com placar e tempo, com torcedores que vez ou outra produzem vaias ou aplausos.

Sem muitas pretensões por parte das equipes, futebolisticamente o jogo é fraco. Mas as torcidas dão show, com grito de “chicos” e “go england”. Fico lá sentado, literalmente apenas assistindo. Mas, esse modo “padrão fifa” é muito chato para mim. No intervalo, rumo ao setor britânico; já no acesso me sinto num território gringo, só ingleses falando alto e tomando Brahma como se fosse Carling. Na arquibancada, em meio a muitas bandeiras da Inglaterra, arrumo um lugar na reta da bandeira de escanteio, na verdade quase no corredor. Ali não tem assento marcado e todos vêem o jogo de pé. Muitos tem os três leões da FA (a CBF inglesa) tatuados; apesar de o jogo não valer nada eles cantam e incentivam o time como se a vitória valesse algo mais que uma despedida honrosa.

As entradas de Gerrard e Rooney dão novo ânimo, Sturridge e Sterling até executam boas jogadas. Braços erguidos, os “pais do futebol” cantam “shall we sing a song for you”, a melodia de “Hey Jude” dizendo “En-gland”. Não há como não acompanhar. Já nos acréscimos o fair play dá lugar às provocações naturais do futebol: torcida grita “olé”, “eliminados”, e vejo alguns copos voando da parte superior em nossa direção. Os ingleses mostram o dedo do meio e continuam cantando; foi o único momento no qual ponderei que algum incidente poderia acontecer – eu não vi, mas li que a tropa de choque cercou os eliminados mais exaltados para evitar qualquer confusão, que de fato não houve.

Apesar de um segundo tempo de muita garra, o placar permaneceu zerado. O que não mudou em nada o reconhecimento daqueles que cruzaram o oceano para acompanhar sua seleção. Após a partida jogadores e técnico se aproximam para agradecer, alguns jogaram camisas, e ali ficaram alguns minutos, admirando a enorme festa feita na arquibancada.

Na saída a fila é muito maior que na chegada, algo que não chega a surpreender dado o público de quase 58 mil pessoas. Todos vão-se com calma, tiram fotos. Uns agora iriam para casa, outros continuam na copa. Se o futebol não encantou, Inglaterra x Costa Rica proporcionou uma inesquecível partida.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Unidade latino-americana sem negros não serve


por Cidinha da Silva*

Por que você me chutou? Pergunta Evra, lateral do Manchester United. Porque você é negro! Responde Luís Suarez, jogador do time adversário, o Liverpool, em partida do campeonato inglês, logo depois da Copa de 2010. A conversa prossegue ríspida e Evra ameaça agredir Suárez, caso ele continue chamando-o de negro. Suárez conclui irônico: eu não falo com negros!

A atitude racista do jogador uruguaio está detalhadamente registrada em 115 páginas de processo da Federação Inglesa de Futebol, nas quais ele alegou que chamou Evra de negro de maneira amigável e conciliatória. Como não se tratava de contexto latino-americano onde o racismo é tolerado e relativizado, onde a palavra racismo é eliminada do discurso, ao tempo em que se fortalecem e reinventam as práticas racistas, não colou. Suárez foi banido do futebol por oito jogos, multado em 40 mil euros, proibido de pronunciar a palavra negro no futuro.

Perdoem-me Mujica, Beatriz Ramirez, Elizabeth Soares, Romero Rodrigues, Mizangas, Mundo Afro, mas não há ufanismo latino-americano que desvie meu olhar de um jogador racista, mesmo que a imprensa queira imputar-lhe contornos épicos como artilheiro da brava Seleção Uruguaia. Aliás, como sabemos todos, a decantada unidade latino-americana pouco ou nada inclui os negros, seja nas obras dos grandes pensadores de América Latina, seja na atuação de ativistas políticos sensíveis ao genocídio indígena nas Américas, mas blindados quanto ao genocídio negro, de ontem e de hoje.

Luís Suarez é um racista desprezível, não posso vê-lo de outra forma. Por isso, entre e a Itália racista e o Uruguai de Suárez, sou Barwuah, o filho de migrantes ganenses que se fez Balotelli na terra de Mussolini.

* * * * * * * 

 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passadas de pano padrão FIFA


por Tomás Chiaverini*

As coisas nunca saem exatamente como o planejado. Fato. E às vezes a diferença entre sonho e realidade é brutal. Ou, como dizem os americanos, shit happens. Aparentemente foi esse o caso da abertura da copa do mundo. Uma grande cagada coletiva, com o perdão do termo.

Um fiasco. Felizmente, foi um fiasco parcial, não total. E é copa, é Brasil, é futebol, todo mundo já estava na terceira latinha de Itaipava, a seleção levou de virada então bola pra frente, literalmente, e vamos ver aonde vai dar essa maluquice toda.

Mas, antes de irmos adiante, seria muito interessante ver alguém assumido a bronca. Levantando a mão, admitindo o erro e simplesmente pedindo desculpas. Nenhum cristão foi capaz, por exemplo de dizer que a abertura não funcionou, sei lá, porque a cenógrafa teve um piriri em cima da hora. E pra completar o avião dos bailarinos e cantores atrasou e tiveram de improvisar com fita-crepe, tinta spray e três cantores que estavam por aqui só pra assistir o mundial. Por isso saiu aquele espetáculo mambembe, com cara de teatro de quinta série. Acontece, foi muita pressão, assumimos o erro, mas vamos tentar fazer melhor na próxima... Nada, não houve erro, foi tudo lindo, era pra ser aquela porcaria mesmo.

E nosso brilhante neurocientista Miguel Nicolelis, o santo milagreiro das sinapses rompidas? Em vez de dizer que tudo deu certo, não seria o caso de vir a público explicar que a coisa é infinitamente mais complexa do que até ele podia imaginar? Que foi um erro prometer que um paraplégico ia levantar da cadeira de rodas, andar vinte e cinco metros por conta própria e sapecar um pimba na gorduchinha biônico à lá Tony Stark? Infelizmente não conseguimos deixar tudo pronto, a coisa não funcionou, o pobre homem ficou ali pendurado num cabide humano... Nada de novo. Pra ele também não houve erro. Só da Fifa e da Globo, que não deram mais tempo pro fiasco.

E o pênalti? Fred, Felipão, vamos parar de lero-lero. Vamos sair a público, respirar fundo e admitir que foi isso mesmo. Desesperamos e apelamos pro jeitinho brasileiro. Enganar o juiz faz parte do jogo. Não é bonito, não é ético mas assim fomos forjados, e foi o jeito que encontramos pra nos mantermos ali, na luta, carregando duzentos milhões de brasileiros na ponta das chuteiras. Só nos resta, portanto, pedir as mais sinceras desculpas...

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

domingo, 25 de maio de 2014

Real e Atlético de Madrid na Liga dos Campeões

por Pedro Mox*

Sete quilômetros separam, em Madri, o estádio Santiago Bernabéu do Vicente Calderón. O primeiro é casa do Real Madrid Club de Fútbol: time recheado de estrelas, mais vezes campeão continental, elenco mais caro do mundo. O segundo, casa do Club Atlético de Madrid: atual campeão nacional, rival citadino do Real, “primo pobre” da capital espanhola. Quis o destino que a primeira final da Liga dos Campeões da Uefa entre clubes da mesma cidade colocasse frente a frente os rivais madrilenhos.

595 quilômetros separarou a terra dos finalistas do palco do jogo, Lisboa. O Estádio da Luz, casa do Benfica, foi o escolhido para receber a final da temporada 2013/2014. Ao Atlético seria a glória, a confirmação de uma temporada perfeita. Treinado desde 2011 pelo argentino Diego Simeone, seria o ápice após levantar, nos últimos anos, La Liga, Copa do Rei e Liga Europa. Ao Real, a salvação após péssima campanha no nacional. Coube ao experiente Carlo Ancelotti arrumar os vestiários e tentar dar rumo ao galáctico plantel madridista.

Com a bola rolando, a estratégia do argentino parecia funcionar – a despeito da substituição de Diego Costa com menos de dez minutos. Consistente marcação no meio de campo, aliada a ataques rápidos pelos lados, encontravam um adversário perdido, apesar da qualidade de seus delanteros. O gol do uruguaio Godín, aos 36 minutos do primeiro tempo, era o que os atleticanos precisavam para manter a tática e erguer a taça “orelhuda”. O segundo tempo não trouxe muitas mudanças, até a entrada de Marcelo e Isco.

Mantivesse sua linha de quatro homens marcando no meio campo, e eventualmente estocando o gol de Iker Casillas, porventura o resultado seria outro. Mas o Atlético, com o passar do tempo, parecia sentir cada vez mas a troféu em suas mãos; e tal ansiedade em campo significou chamar o Real para sua área. E na desorganização ofensiva dos merengues versus nervosismo defensivo colchonero, a primeira levou a melhor.

Cinco minutos separavam os atletis da consagração. Entretanto, é difícil segurar Di Maria, Cristiano Ronaldo e cia. E foi num chute do argentino que Bale aproveitou o rebote, empatando o derby nos acréscimos da etapa final. O resultado improvável, tão próximo aos comandados de Simeone, começava a ruir. O gol, àquela altura, no placar representava apenas o empate; porém, na alma, era uma derrota.

Na prorrogação apenas uma equipe jogou. O peso da desgastante temporada era nítido nas pernas do reduzido grupo rojiblanco. A luta, a entrega, a dedicação que propiciou épicas vitórias sucumbiu ante o vigor e a qualidade do Real – o gol de Marcelo é prova disso. A torcida que passou todo o tempo quieta agora vibrava; a que cantou durante 90 minutos calou.

Nem de longe o futebol é um esporte justo, e fosse minha torcida o caneco teria ido para o Vicente Calderón. Quiseram os deuses do futebol que, em vez de um inédito vencedor, essa temporada da Liga se transformasse em la décima, o décimo título do Real Madrid. Entretanto, há de ser reconhecido, e muito, o vice campeão. O placar de 4x1 não representa em nada a história da partida, na qual o 11 espartano do atlético lutou como pode contra os persas madridistas.

O reconhecimento da torcida colchonera, que ao final da partida aplaudiu seus heróis, demonstra o quanto a equipe conquistou. A taça não veio, mas para mim, nada separa esse Atlético de um time que fez história.

***

Em tempo: Note-se a bela organização pré-jogo da Uefa. Tanto a cerimônia no gramado quanto as opções fora do estádio aos torcedores. Tornam o entretenimento maior que os 90 (nesse caso, 120) minutos de bola rolando; o ideal é chegar com duas horas de antecedência para sentir o clima, passear pelos estandes, comprar um souvenir. Da ideia do quanto a Conmebol poderia aprender.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

terça-feira, 29 de abril de 2014

Santo deus das bananas olhai por eles!


por Cidinha da Silva*

Olhai pelos tolos seguidores dos idiotas, senhor deus das bananas. Porque eles são ingênuos, não sabem o que fazem. Mas, aos imbecis, portadores de mau caráter, aproveitadores de todos os matizes, racistas quatrocentões e também os de primeira geração, aplicai a dureza da lei.

Racismo é crime. Sem açúcar e sem afeto, ao contrário do que pensam os adoradores da banana. É preciso investigar e punir para coibir manifestações futuras. Assim fez o Villarreal, time responsável pela torcida que atirou a campo uma banana, devorada pelo jogador Daniel Alves. O clube identificou o torcedor responsável pela atitude racista durante partida entre a equipe e o Barcelona, pelo Campeonato Espanhol, punindo-o com a suspensão do carnê de sócio e o banimento do estádio El Madrigal pelo resto da vida.

O clube não agiu sozinho, partilhou o sucesso da ação com os responsáveis pela segurança no estádio, bem como a torcida, todos imbuídos em identificar o autor da discriminação racial, para impedir, inclusive, uma possível punição desportiva à agremiação. Ou seja, ao investigar, encontrar o racista e puní-lo, o Villarreal apresenta à sociedade espanhola e ao mundo, o compromisso inequívoco de respeito aos direitos humanos, ao direito de trabalhar em condições dignas.

À presença de espírito de Daniel Alves ao comer a banana, ao transgredir e ter uma atitude inusitada diante da clássica discriminação racial que associa pessoas negras a macacos, com o objetivo de desumanizá-las, seguiu-se uma campanha marqueteira de quinta categoria nas redes sociais, evocando o macaco que as teorias evolucionistas guardaram dentro dos seres humanos.

O senhor está perplexo, senhor deus das bananas? Nós estamos, pois, ao cabo, se somos todos macacos, não existem mais racistas.

Merece algumas linhas adicionais, senhor deus das bananas, a atitude de Daniel Alves, sertanejo brioso que não teme a ingestão de veneno. Porque o senhor sabe, aquela banana era tóxica, continha uma quantidade secular de energia radioativa. E Daniel, no ímpeto de reagir (talvez de marquetear) comeu-a inteira. Mesmo um primata não faria isso. Os animais sabem reconhecer as plantas venenosas e o perigo de morte. Só nós, humanos, subvertemos a lógica da natureza e achamos que comendo a banana produziremos anticorpos que destruirão os racistas.

Ensina o manual de faxina étnica, senhor deus das bananas, que, sua eficácia está diretamente relacionada à desumanização do grupo que se quer exterminar e/ou explorar. Os nazistas comparavam os judeus a ratos e baratas. À colonização europeia, por sua vez, a associação de africanos a macacos é intrínseca.

A opressão racial é tão vil e eficiente no Brasil que consegue fazer com que um jovem destacado de sua comunidade de origem, o jogador Neymar, visivelmente, notadamente, escancaradamente afrodescendente (sem a opção do escapismo moreno), nomine-se como macaco, mas não se reconheça preto.

E, se é verdade que "todos somos macacos" (nós - os negros, os "brancos" como Neymar, e os brancos como Luciano Huck), Dani Alves e o companheiro midiático estão absolvidos do estigma do racismo que lhes é tão oneroso (a nós também) porque não é algo humano, porque não é mesmo suportável.

Mas, a diferença entre uns humanos e outros, senhor deus das bananas, é que os primeiros não têm alternativa de sobrevivência, senão, enfrentar o racismo, por isso se afirmam negros, ao tempo em que mandam os macacos-humanos plantar bananeira no asfalto quente para divertir os brancos. Quanto aos racistas, o grupo de primitivos humanóides negros manda-os para a cadeia.

O segundo grupo de humanos negros, aquele composto por pessoas descoladas que se auto-elogiam como macacas, mas não suportam o aniquilamento provocado pelo racismo, a despeito dos cartões de entrada vip para o jogo da vida (fama, dinheiro, prestígio social), optam por enfatizar, como o fez Dani Alves, que brasileiros têm samba no pé e alegria de viver. Por conseguinte, conclui-se, driblam o racismo com irreverência e criatividade.

Seguindo esse raciocínio, são capazes de entortar os adversários (e os pares) ao propor uma campanha contra o racismo tão racista quanto o ato deflagrador. Assim, eles demonstram orgulho por serem macacos, mas negam que sejam pretos. Santa lobotomia, senhor deus das bananas! Triste fim da humanidade!

* * * * * * * 

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

domingo, 27 de abril de 2014

Futebol brasileiro e ética

por Cidinha da Silva*

O futebol, que me distrai tanto, anda afastado de meu campo de interesses e possibilidades. Tempos de muito trabalho interno, externo e literário. Restam-me as orelhadas na crônica esportiva, os pitacos dos amigos, principalmente os feridos pela derrota dos times do coração.

É assim na Bahia, onde Mandingo engole, silencioso e recluso, a vitória do combalido Bahia (por ele apelidado de Jahia) sobre o todo-poderoso Vitória. Nome que perdeu o sentido no campeonato estadual, se é que vocês me entendem.

Também em Minas, onde o triste Galo, pela milésima vez perdeu o título para o Cruzeiro. Dizem que com pênalti não dado, portanto, roubado, mas perdeu, é o resultado final. Situação similar ao time campeão carioca, marcado por glórias mil, mas também por um goleiro assassino, homicida da ex-parceira sexual. Agora o time conta com outro goleiro “polêmico” que diante da nota oficial da associação de juízes do estado, dando conta de que seu companheiro de time estava impedido no gol do título, afirma, lampeiro e impune, que, “roubado é mais gostoso”.

Haja escola, professor comprometido, educação em casa, paciência, força ética e moral para combater o contra-exemplo oferecido por um ídolo popular de que roubar, enganar, ludibriar, obter vantagem ilícita é mais saboroso que ser honesto, leal e ético. Saudade da irritação de Seedorf com o cai-cai dos jogadores brasileiros e a tentativa de ludibriar os juízes, bem como de sua certeza de que o respeito às regras do jogo é mais importante do que o gol.

Em casa soube que o Santa Cruz perdeu para o Sport e vi pela TV que o salário mensal de Leandro Damião, do Santos, é maior do que a folha de pagamentos inteira do Ituano, campeão paulista vindo do interior. Esse é o irônico mundo do futebol brasileiro!

Damião, jogador discriminado e em muitos momentos ridicularizado por ser originário da várzea gaúcha, por não ter passado por anos de escolinha de futebol em grandes clubes, quando criança e adolescente, e por não ter a experiência das categorias de base, tornou-se sucesso improvável pelo empenho no trabalho, boas atuações no Internacional e, principalmente na Seleção Brasileira. Seu passe foi valorizado, transformou-se em jogador de elite e hoje, seu salário é maior do que a folha de pagamentos integral do time campeão do certame paulista que, além de derrotar o Santos, venceu os outros três grandes durante a competição, Palmeiras, Corinthians e São Paulo, nessa ordem. Não por mero detalhe, Damião segue sendo um homem simples, pouco afetado pelo glamour de boleiro bem sucedido.

É bom saber que além da validade do que o juiz não vê, enaltecida por Felipe, do Flamengo, o mundo dá voltas e também produz exemplos extremamente positivos, como o de superação, protagonizado por Damião, honrando, assim, a inspiração máxima que estes dois jogadores de futebol representam para a meninada brasileira de mesma origem racial e social.

* * * * * * * 

 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mais uma chance…


por Pedro Mox*

Lembro-me de, inúmeras vezes nos últimos anos, em conversas com familiares ou mesas de bar, argumentar que frequentar estádios no nosso país era algo seguro. Aquele passado dos anos noventa, no qual brigas em clássicos eram quase obrigatórias, havia ficado para trás, e era possível ir e voltar de um jogo sem grandes perigos.

Pois bem, hoje seria obrigado a rever minha posição. A invasão de alguns torcedores ao Centro de Treinamento do Corinthians fez-me repensar em que plano está a segurança do futebol brasileiro. Em pleno ano da Copa do Mundo na nossa casa, o Brasil parece ter regredido várias casinhas no quesito segurança em praças de jogo. Cenas as quais ninguém quer ver – espancamentos, correrias, torcedores “comuns” desesperados – tornaram-se novamente corriqueiras, envergonhando a pátria de chuteiras.

Claro, seria muita ingenuidade pensar que houve um hiato nos casos de violência ligados à torcidas, ou que durante esse tempo ir ao campo era 100% seguro. Entretanto tais conflitos aconteciam, geralmente combinados, no caminho para os estádios, estações de metrô. O interior das arenas reservava-se aos cantos e alegorias.

Todavia, em 2013 esta não foi a tônica. O maior exemplo, não poderia deixar de ser, aconteceu em Santa Catarina, na última rodada do Brasileirão. A partida entre Atlético-PR e Vasco da Gama ficou marcada pela batalha campal entre membros da torcida Os Fanáticos contra Ira e Força Jovem. Partida paralisada por incontáveis minutos, jogadores atônitos em campo, helicóptero para resgatar feridos. Barbárie em estado bruto.

Foi o caso mais emblemático, conquanto houve outros. Na mesma rodada integrantes de duas facções cruzeirenses (Máfia Azul e Pavilhão Independente) brigaram em plena festa de comemoração ao tricampeonato celeste. O estádio Mané Garrincha, em Brasília, viveu tumultos tanto na parte interna, no Vasco x Corinthians, como na entrada, no duelo entre São Paulo e Flamengo. Rodrigo Mattos, do UOL, apurou em seu blog que a edição 2013 do nacional registrou torcidas de 17 times envolvidas em algum tipo de confusão.

Tais fatos nos remetem a outra pergunta: porque atos desse naipe continuam acontecendo? Leniência do Estado, incompetência de autoridades, apatia dos que comandam o futebol, “culpa” das organizadas? Uma mistura disso tudo, porventura. Contudo o principal motivo não é, e pelo jeito mais uma vez, não será atacado: punição a quem comete crimes.

No Brasil todo e qualquer caso ligado a futebol é simplesmente desconexo do mundo real – está inalcançável e inimputável. Experimente discutir com um colega de trabalho e “cair na porrada”. Ou, invadir qualquer estabelecimento privado. Duvido que nada aconteça. Porém, acontecendo em um ambiente futebolístico, há permissão para tudo, como se o motivo justificasse a ação. Dos envolvidos no incidente da Arena Joinville, não há mais nenhum detido – e ficará por isso mesmo, como todos os outros casos aqui citados ou não.

Em reunião no dezembro último, diversas autoridades discutiram o que poderia ser feito em 2014 para que acontecimentos desse tipo não voltassem a ocorrer. Dentre elas Aldo Rebello, ministro do esporte, José Eduardo Cardozo, ministro da justiça, Flávio Sveiter, presidente do STJD e Weber Magalhães, vice-presidente da CBF.

Infelizmente, nenhuma novidade nas conclusões do grupo. Medidas usualmente sugeridas já mostraram-se ineficientes; não adianta acabar com organizadas – que tem sim belo papel nas festas da arquibancada e tem importante papel nos jogos – criar juizados especiais, realizar partidas com portões fechados, entupir estádios com câmeras...

A simples aplicação da lei, a mesma que qualquer cidadão está submetido em seu cotidiano é o maior passo que o estado brasileiro pode dar. Aos envolvidos em brigas, as mesmas penas que sofreria qualquer um pelo mesmo ato efetuado em outras circunstâncias. Talvez assim consigamos avançar alguns passos e, quiçá, chegarmos a estádios sem divisão entre campo e arquibancada.

Que não precisemos de uma tragédia de Heysel para que realmente algo seja feito.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A desumanidade em close, sintoma de uma sociedade doente


por Celso Vicenzi*

As cenas exibidas no jogo Atlético Paranaense e Vasco da Gama, em Joinville (SC), na última rodada do Brasileirão – para além de todos os erros das autoridades públicas e privadas, e que poderiam ter evitado ou minimizado o problema –, são a confirmação da falência do Estado e das instituições democráticas para lidar com um fenômeno que se repete com enorme frequência diante da passividade de quem deveria buscar soluções e acionar mecanismos para evitar atos de selvageria, dentro e fora dos estádios. Outros países tomaram providências e acabaram com os torcedores-vândalos em curto espaço de tempo. Basta citar os hooligans, no Reino Unido, por exemplo. Aqui, clubes e torcidas organizadas são uma via de mão dupla, num toma-lá-dá-cá de interesses escusos.

No Brasil, para uma parcela das torcidas, o jogo de futebol deixou de ser a principal motivação para ir aos estádios. A adrenalina de confrontos com torcedores adversários parece produzir mais sensação de prazer do que um grito de gol. Parece haver uma glorificação da brutalidade, como, por exemplo, na ascensão como fenômeno de massa, com direito a cobertura permanente da televisão, das lutas sangrentas do UFC e MMA. Não é isso, isoladamente, que produz violência nas ruas ou nos estádios, mas algo está errado numa sociedade que elege esses confrontos à condição de espetáculo até mesmo na principal rede de TV do país. Não demorou, é claro, para que seus principais lutadores se transformassem em ídolos para crianças, adolescentes e adultos.

Talvez não seja apenas uma coincidência que o principal narrador esportivo do “país do futebol” leve também todo o seu entusiasmo às lutas marciais. Não, não há relação direta entre uma coisa e outra, eu sei. Mas não dá para fugir à contradição de, numa determinada hora e lugar, animar o “vale-tudo” e, em outra, fazer a apologia da paz e do fair play.

Profissionais da mídia, donos de emissoras, patrocinadores e governos que promovem lutas encarniçadas à condição de show, não podem lavar as mãos como se não houvesse, por ínfima que seja, uma incoerência. O que se exibe nos meios de comunicação, não raro, é modelo para milhões de pessoas, modela consciências. Emissoras de tevês – e rádio – são concessões públicas cuja principal finalidade (artigo 221, parágrafo primeiro da Constituição) é dar “preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”. Pergunta: Quem cumpre? Quem fiscaliza?

Há muitos interesses em jogo e muito dinheiro para bancar essas lutas, que remetem aos tempos das arenas de gladiadores romanos. O espetáculo da brutalidade, nos ringues ou nos estádios de futebol, é sintoma de algo muito mais profundo que acontece com a sociedade brasileira.

Se não bastasse a violência das guerras entre torcidas, que choca pela sua crueldade e estupidez, é cada vez mais difícil explicar e compreender por que seres humanos agem com tanta desumanidade, covardia e irracionalidade quando, mesmo diante de um corpo já inerte, pessoas continuem motivadas a dar socos, chutar e até a golpear com pedaços de pau ou barras de metal, numa atitude que, evidentemente, poderá resultar em morte. Ausência total de sentimentos, nenhum remorso, a desumanidade em close nas câmeras. O amor a um time elevado à máxima potência do ódio ao adversário, seja ele quem for. Uma exibição de horror e perigosa bestialidade a nos relembrar, a todo momento, até onde a insensatez humana pode nos levar. E de quanto terror, tortura e ódio já fomos capazes de produzir ao longo da nossa história.

O ovo da serpente está sendo gestado. O que acontece com o futebol é só o sintoma de algo mais profundo: o diagnóstico de uma sociedade que está doente. Na qual cada vez mais pessoas desdenham do espírito público e só querem viver seu egoísmo consumista. Uma sociedade que esqueceu os valores fundamentais à convivência; que não abre mão da enorme desigualdade. Um povo massacrado pela falta de educação, cultura e oportunidades. Uma mídia manipuladora, demagógica, que se especializou em "anestesiar" as consciências e impedir o verdadeiro exercício da cidadania. Uma sociedade que continua racista, preconceituosa e discriminatória – a última a abolir a escravidão no planeta. Com uma das mais violentas polícias do mundo, para manter a segregação entre ricos e pobres. Um sistema político quase impraticável se os eleitos não aderirem aos coronéis que mantêm o poder desde as capitanias hereditárias. Um parlamento em que a maior parte dos que ali estão legislam em causa própria ou em favor de grupos muitos restritos, com vistas ao enriquecimento fácil e rápido. Um poder judiciário que pune, seletivamente, de modo casuístico, e que se mantém de olhos vendados diante das injustiças sociais. Enfim, a lista de nossas mazelas é ampla, geral e irrestrita, e explica boa parte do caos que se vê no interior de muitas famílias, nas ruas, nos bairros, na guerra que se trava em cada cidade e que toma conta do país, numa explosão de violência que parece não ter fim e que não será solucionada com mais violência policial. Somente em 2012, morreram assassinadas 50.108 pessoas. Faça as contas: durante os 90 minutos de uma partida de futebol são quase nove assassinatos, no país que também registrou mais de 50 mil estupros no último ano e 50 mil mortes anuais no trânsito.

Se é necessário, circunstancialmente, reprimir e punir, é muito mais eficaz educar, dar oportunidades, propor leis e mecanismos que diminuam o abismo social entre ricos e pobres; ensinar a respeitar toda diversidade, étnica, cultural, religiosa, política, de gênero e opção sexual; criar uma polícia para proteger o cidadão, mais que o patrimônio; produzir informação, cultura e entretenimento de qualidade, com uma democrática divisão das concessões de rádio e televisão, consolidar, enfim, uma sociedade mais justa e solidária. Sem isso, a barbárie vai se espalhar e produzir cada vez mais vítimas. Dentro e fora de estádios.

* * * * * * 

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O caso Diego Costa


por Moriti Neto*

Outubro, além de ser o mês das crianças, pode ganhar outra marca: a de um período em que futebol e autoritarismo evidenciam relações. Casos claros disso há diversos, como o do jogador Diego Costa e a polêmica da preferência por defender a Seleção Espanhola e dizer não à Brasileira.

A absurda insinuação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de pretender cassar a nacionalidade brasileira do atleta que se naturalizou espanhol foi mais do que estapafúrdia. Essa manobra expõe as opções político-ideológicas de quem dirige o patrimônio histórico-cultural mundial que é o futebol nacional. E não passa só pelos que gerem o negócio, mas também por quem está à beira do gramado.

Desde o movimento de convocar Diego – numa ação maldosa que apenas pretendia enredá-lo no constrangimento público – até a ameaça de ir ao Ministério da Justiça para pedir a cessação da cidadania do rapaz, os traços nefastos e reacionários se escancaram a partir do presidente da CBF, José Maria Marin, ao técnico da seleção, Luiz Felipe Scolari.

É sabido, mas convém lembrar. Marin tem fortes laços com o autoritarismo. Apoiador de primeira hora da ditadura militar, ele teve mandato de vice-governador biônico do Estado de São Paulo (o governador era Paulo Maluf, de 1979 a 1982). O apoio era tão escancarado que, como deputado estadual pelo extinto Arena, partido da “base” do regime autoritário, o atual dirigente da CBF declarava que não apreciava a política editorial da TV Cultura, já que a emissora não destacava as obras inauguradas pelo governo dos generais e, com “teor esquerdista”, noticiava a pobreza da população, o que espalharia “intranquilidade”.

Os argumentos constam em discurso dele, feito na Assembleia Legislativa de São Paulo, 16 dias antes de Vladmir Herzog, então diretor de jornalismo da tevê pública, ser assassinado nas dependências do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do 2º Exército, no dia 24 de outubro de 1975. Exatamente um ano depois da fala que lançou a ferocidade da ditadura de encontro ao jornalista, José Maria Marin, no dia 7 de outubro de 1976, declarava, de novo na Alesp, toda a admiração ao delegado Sérgio Paranhos Fleury.

A postura de deferência ao torturador e assassino que chefiou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DOPS), bem como a incitação à tomada de “providências” contra Herzog, dizem muito a respeito do que é o futebol profissional no País: um ambiente carcomido e que pouco ou nada avançou na construção política pós-ditadura. Nele, vivem e revivem (caso de Marin, que estava esquecido até assumir a CBF) figuras que caminham de mãos dadas com a truculência e o pensamento ditatorial. O aparato afeito ao abrigo de ideias ultraconservadoras inclui o núcleo esportivo-técnico. O discurso xenófobo, pseudonacionalista e raso também sai da boca de Luiz Felipe Scolari, o Felipão. O treinador não só é dado a bravatas ufanistas como é adepto confesso de ditadores sanguinários.

Voltemos novamente no tempo. Para outro outubro. Dessa vez, de 1998. O técnico dava entrevista à rádio Jovem Pan, de São Paulo, e opinava sobre a ditadura chilena (1973-1990), encabeçada por Augusto Pinochet, um dos mais cruéis tiranos da história mundial. Entre outras pérolas, Felipão afirmou que “Pinochet fez muita coisa boa”. E emendou: “Ele pode ter feito uma ou outra retaliaçãozinha aqui e ali. Há determinados momentos que ou o pessoal se ajeita ou a anarquia toma conta.”

Assim segue o Brasil. Uma democracia imperfeita – bastante imperfeita – que deixou, faz quase 30 anos, de viver, na prática, o regime de exceção, mas onde a sombra da ditadura militar (1964-1985) não cessa de lançar na escuridão debates que poderiam ser legítimos, mas que acabam recheados de argumentos obscurantistas que comprometem a essência das discussões.

Resta esperar outro outubro. Quem sabe, na próxima repetição do mês, tenhamos notícias sobre futebol, gestão e política com traços de mais justeza. Alguém já pensou em cassar a cidadania de Marin pelos crimes que cometeu e comete contra a sociedade brasileira?

* * * * * * * *

Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR.
Web Analytics