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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Maratona étnica

por Carlos Conte*

Ainda estou tentando entender o que aconteceu na semifinal contra a Alemanha. De vez em quando tenho um pesadelo. Sonho com gols adversários. São como fantasmas. Como o garotinho do filme “Sexto sentido”, eu digo “Vejo gols da Alemanha...”. “Com que frequência, Carlos?”. “Todos os dias!”. Para driblar o trauma, tento esquecer. Vim para a Chapada Diamantina, na Bahia, de onde escrevo esta crônica. Para mim, a Copa do Mundo acabou depois dos 7 X1. Para alguns, ela nem deveria ter começado.

Apesar da goleada humilhante, vou falar da Copa pela última vez.

Primeira fase. Meu espírito ainda dividido: #nãovaitercopa X #vaitercopa. Tinha que ter escrito dois textos durante a semana, mas não deu: fiquei vidrado na TV vendo e revendo lances dos primeiros jogos.

Bateu o desespero! Cheio de trabalho, mais apertado que saco de cantor sertanejo, mas nem um pouco a fim de trabalhar. Ainda mais quando o Gongom me ligou perguntando se eu queria assistir ao jogo da Itália no Bexiga e, na sequência, ver o Japão na Liberdade. Lógico! Copa do mundo: maratona étnica em São Paulo! Bem melhor que Fun Fest da FIFA no Anhangabaú.

Quando desci do carro na 13 de maio, um menino veio perguntar se eu era italiano: como ia ver a Itália no Bexiga, pus minha velha boina do Pezzutti, uma camisa da Azzurra e um lenço vermelho no pescoço (será que italiano usa lenço vermelho?...); sei lá, resolvi me fantasiar. Até então só tinha acompanhado a Copa pela TV. E a TV mostrava uma Copa carnavalesca. Torcedores/foliões indo ao estádio fantasiados: mexicanos de sombrero, ingleses de cavaleiros templários, alemães à la Oktoberfest... Um desfile de estereótipos ao qual eu aderi ingenuamente, achando que no Bexiga eu encontraria meus pares. 13 de maio vazia... Portas fechadas, janelas fechadas. Um ou outro boteco aberto, mas tudo vazio. Respondi pro menino cantando a Tarantela e saí andando, me sentindo o Peppino di Capri.

Claro que não havia nenhum italiano no Bexiga! O Bexiga, hoje, vive da fama, nada mais. É o que dá grana pras cantinas da Dom Orione. Anos atrás, durante uma rifa na festa italiana de N. Sra. Achiropita, o mestre de cerimônias começou a fazer aquelas piadas sem graça para ocupar o tempo: “Quem aqui é italiano?”. Ninguém levantou a mão. “Quem é filho de italiano?”. Um ou outro levantou a mão. “Neto?...”. Vários. “Bisnetos?...”. Muitos levantaram a mão, inclusive eu. “Tataranetos?...”. Grande maioria. “E agora levanta a mão quem é descendente de japonês... Vocês vieram na festa errada!”. Gargalhada geral. Achei a piada besta, mas dei risada.

Na rua Santo Antônio, fomos ao Bar do Amigo Giannotti, a melhor fogazza de São Paulo! Portas fechadas. O Giannotti é genial mas imprevisível. O bar funciona de acordo com o estado de espírito do dono. Às vezes abre de segunda. Às vezes antes das 20h. Às vezes simplesmente nem abre. E não tem conversa. Uma amiga que morava no Bexiga, a Ciça, quis fazer uma festa de aniversário no Giannotti e ligou para fazer as reservas: o Amigo, pouco amigo, respondeu que não gosta de festas – muita gente, muito barulho... “Que medo de ganhar dinheiro, Giannotti!”, a Ciça bateu o telefone.

Em busca de alguma coisa italiana, entramos numa cantina, fugindo do glamour caríssimo da 13 de maio, e vimos Itália X Inglaterra tomando vinho nacional a 50 reais e comendo azeitonas pretas e uma gororoba sem gosto que atendia pelo nome de antepasto de berinjela, bem diferente do antepasto que o finado Giovanni servia num casarão na Brigadeiro Luis Antônio onde hoje funciona mais um estacionamento. Pra fazer jus à fama do bairro, decorações em verde, vermelho e branco, quadros de praias da Sicilia e um cardápio bilíngue. Tinha uma família animada perto da gente que torcia gritando “Que cazzo! Porca miséria! Avanti, Itália!”, pelo menos alguma coisa para alegrar o ambiente, que estava bem desanimado. A Itália ganhou, mas saímos frustrados.

Segunda parada: Liberdade. Talvez estivéssemos mal informados, porque custou a achar algum movimento. O jogo começaria às 22h, Japão X Costa do Marfim, duelo pouco atrativo, mas o futebol era apenas um pretexto para encontrar japoneses animados e salvar a nossa peregrinação étnica pela cidade. Nada de novo no Largo da Pólvora. A velha Liberdade com suas lâmpadas japonesas, fachadas japonesas, ideogramas, gatinhos com a pata levantada e budas de louça, mas nenhum japonês na rua pra contar a história. Na rua da Galvão Bueno, o karaokê estava lotado, fila para entrar, segurança na porta exigindo comandas, e ninguém com cara de quem ia assistir ao jogo. Fomos ao restaurante Samurai na rua da Glória, mas se fôssemos ver o jogo lá, só de cerveja teríamos que deixar as calças. Fiquei tomando uma latinha na porta e conversando com o manobrista. Ele me contou com orgulho que é amigo do brasileiro que venceu o maior concurso televisivo de karaokê do Japão. Isso deu notícia no Brasil: um brasileiro, mulato, fazendo sucesso na terra do sol nascente. Perguntou se eu queria ver uma foto deles juntos, querendo provar que estava falando a verdade. “Tudo bem”, eu disse. Mas demorou tanto pra encontrar a tal foto no celular que acabei desistindo. “Fica pra uma próxima!...”.

Pra não perder o começo do jogo, paramos num boteco qualquer, desses botecos pasteurizados que vêm dominando a cena em São Paulo, substituindo os velhos balcões de madeira. No fundo do bar, a TV mostrava as duas seleções perfiladas, enquanto tocava o hino nacional do Japão. Havia dois homens conversando no balcão, além do dono do bar, distraído com um bolo de notas fiscais. Na mesa ao lado, dois japoneses! Tínhamos ido à Liberdade por causa deles. Mas aqueles dois não queriam nada com a Copa. Clubbers, provavelmente sanseis, de costas para a TV, faziam o esquenta para a baladinha da noite, tomando vodca com energético. Conversavam em português. Riam como japoneses.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Duas chaves


por Júnia Puglia Ilustração de Fernando Vianna

Para que serve um livro? Tola pergunta! Tantas são as respostas... Fico com apenas uma: para nos conectar a sensibilidade, juntar lembranças e exercitar a reflexão. Há poucos dias, ao ler as memórias de uma célebre escritora, deparei-me com uma rápida passagem sobre o hábito judaico de levar consigo a chave de casa, para onde for. Em instantes, fiz duas conexões que ficaram martelando aqui dentro.

A primeira, de quando eu tinha uns vinte anos, já trabalhava num bom emprego – coisas dos começos de Brasília – mas não podia ter a chave de casa, privilégio restrito aos pais e ao irmão mais velho. Inconformada com a restrição, comprei a briga e ganhei, conquistando a bendita chave e o direito de entrar e sair quando bem entendesse. Pode parecer banal, mas esses embates familiares sobre as coisas do cotidiano tomavam proporções quase épicas, principalmente quando protagonizados por uma pentelha topetuda que achava que podia tudo, e que muito pouco lhe era permitido.

A outra: alguns anos atrás, hospedei-me com uma família palestina árabe, em Amã. Apesar da rápida estadia, trago uma viva memória da paisagem árida, do calor e da cantoria prévia às cinco orações do dia, que me chegava de distintas direções por potentes alto-falantes. Chamou-me a atenção, como em nenhum outro lugar onde já estive, a demarcação do espaço público como território masculino. E também o tamanho dos apartamentos, verdadeiros solares empilhados, com salões, saletas, vários quartos, cada cômodo abrigando facilmente um desses ovos de codorna que andam vendendo por aqui, “com varanda gourmet e área de lazer completa para sua família”.

Ali, fiz meu primeiro contato direto com personagens da diáspora palestina. Guardo no coração o relato que me fez a velha senhora da família, em seu parco inglês, sobre a casa onde moravam em Jerusalém até 1948, quando foram sumariamente expulsos para dar lugar aos judeus, que chegavam aos milhares da Europa. O destino foi a vizinha Jordânia.

Supondo que seria um exílio temporário, levaram consigo a chave da casa, que ela tirou de uma caixa e me mostrou, enquanto terminava a história. Porém, como outros milhares de palestinos desalojados, foram impedidos de voltar, vítimas de um milenar, trágico e interminável balaio-de-gatos racial-político-religioso, produto da arrogância, da estupidez e da intolerância que se perpetuam em várias situações similares mundo afora. Uma única vez puderam visitar sua antiga morada, agora habitada por israelenses, que, por sua vez, não tinham ideia do drama por trás daquela casa. Consternados com a insólita visita, moradores e visitantes terminaram chorando juntos por uma situação na qual eram simples peças de um quebra-cabeça perverso.

Ambas as chaves ganharam vida. Nas mãos da moça ávida por alçar seu próprio voo, o objeto tomou a forma de pequenas asas, que depois ganharam envergadura. Lá na Jordânia, naquela caixa de madeira entalhada, o tesouro preservado com tanto sentimento por uma família exilada trazia uma história proibida de morrer.


* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Horizonte


por Ricardo Sangiovanni*

Se acaso sentires teu cérebro assim meio fritado; se acaso notares que, infeliz e fortuitamente, desperdiçaste em tolices outras a cota toda de tutano da semana; pois não te afligirás, amigo escriba, amigo trabalhador, amigo-irmão das galés.

Não te desesperarás: apenas e simplesmente tomarás pela mão tua companheira ou companheiro, e escaparás da casa, fugirás da cidade, embarcarás no encalço da praia mais amena que conheceres (ou de praia desconhecida, a decisão será tua).

Olvidarás o barulho dos carros e bares, te esquivarás de pesares, de pensares, de passares. Abandonarás ao mar azul teu olhar anuviado, beberás uma cerveja, saciarás a sanidade.

E então enxergarás, quiçá por primeira vez, que a linha do horizonte, de ponta a ponta, não é, jamais terá sido, uma reta. Cuidado, pois não poderás mais voltar atrás, dileto amigo: terás descoberto que a linha do horizonte tem ligeira – tem quase imperceptível – curvatura.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
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