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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Uma presidenta a caminho do Campo da Pólvora

Dilma parece dirigir tranquilamente rumo a uma explosão. Alckmin e Eduardo Cunha têm algumas toneladas de dinamite para emprestar. Estamos vivendo uma situação pré-revolta?

por João Peres*

Poucas imagens definem tão bem um governo. Poucos governos são tão infelizes em seu autorretrato. Em 11 de junho de 2014, Dilma Rousseff foi a Salvador. Era um evento de grande força. Depois de anos e anos de enrolação entre prefeitura e governo da Bahia, o metrô da capital entrava em operação graças aos recursos enviados pela administração federal. Uma data perfeita: às vésperas do começo do Mundial, um retorno efetivo dos investimentos provocados pelo evento da Fifa. Uma agenda positiva a poucos meses de eleições que se avizinhavam difíceis em todos os níveis.

Os assessores de Dilma planejaram uma foto tradicional para o momento: coloca-se a presidenta dentro da cabine de operação de um trem, ela sorri, acena e vai embora, com missão cumprida. Nenhum assessor ou ministro, porém, parece ter notado uma piada de caráter tragicômico – ou, se notou, não contou. O fotógrafo Roberto Stuckert Filho, integrante do clã que há décadas registra os poderosos de Brasília, flagrou a presidenta a caminho do Campo da Pólvora. A culpa não é dele, obviamente. Mas ninguém por ali parece se ter dado conta de que o nome da estação a que se dirigiria aquela composição era esta infeliz coincidência do destino. “Em teste”, “Viva Salvador”, “Metrô”: qualquer nome escrito no letreiro serviria. Até “Bonde do ACM” estaria melhor. Havia meia dúzia de nomes de outras paradas que poderiam ter sido usados. Não, não foram: Dilma comandou um trem que rumava para um lugar, digamos, explosivo.

Pesquisar fotos da presidenta para uso em reportagens sempre foi difícil. No período Lula havia sempre dezenas e dezenas de opções. Com Dilma, não. Predominam as imagens carrancudas, reveladoras de um corpo endurecido, sem grande capacidade de expressão. Quando não se vai por esse caminho, a seleção oficial de imagens prioriza as que ela aparece no corpo a corpo, em fotos posadas ao lado de populares ou de uma claque que claramente não está à vontade com a cena.

Durante as eleições, a equipe de campanha tentou fazer de Dilma o seu oposto: não havia nos álbuns de imagens uma foto que não mostrasse um largo sorriso. Era uma candidata eternamente sorridente numa campanha em que havia poucos motivos para isso. Quem procurava por retratos simbólicos da gravidade do momento tinha de apelar a agências de notícias, ainda que, por vezes, estas pecassem por fazer o caminho exatamente contrário ao da versão oficial.

E eis que um belo dia, no programa eleitoral na televisão, surgiu a foto de Dilma na inauguração do metrô de Salvador. A repetição de um erro simbólico revela o que todos já sabemos, ou seja, que a assessoria de comunicação do entorno da presidenta é distraída, para dizer o mínimo. Olhada em perspectiva, aquela imagem intensifica seu caráter tragicômico. A presidenta exibe seu sorriso amarelo, alheia a seu entorno, na sua antinatural alegria. Junto com ela está a maquinista. Não está ali Aloizio Mercadante, o ministro-chefe da Casa Civil, afeito a aparições públicas forçadas por sua cada vez menos implícita pretensão de ser candidato ao Planalto em 2018. Não estão ali seus ministros das Cidades, do Planejamento, da Fazenda. A presidenta está sozinha enquanto toma o rumo da explosão.

Não parece que se passaram apenas oito meses desde que foi feita. A fotometáfora produzida ao acaso pela equipe presidencial não poderia ser mais adequada a nosso presente. Dilma dirige um trem que vai para o Campo da Pólvora sem que tenha sido informada por seus assessores. Está ali, dirigindo alegremente, sem notar que caminha à santíssima merda. Quem está do lado de fora abana as mãos, dá tchauzinhos, torce para que os explosivos estejam bem longe do ponto de partida para que se salvem.

O problema é a impressão de que estamos todos dentro daquela cabine. Ou quase todos, porque os mais espertos sempre se salvarão. Dilma, com o devido respeito, não cabe nesse último grupo. Como todos sabemos, faltam-lhe comunicação, habilidade política, rapidez administrativa, confiança nos outros e uma série de outros quesitos que fazem do presidente um estadista. Dela nem pedimos tanto. Não era possível esperar nada além de um aperfeiçoamento do período anterior.

Caro eleitor de Aécio Neves, terás mais ajuste fiscal do que querias. A pesquisa Datafolha divulgada no último fim de semana apenas quantifica o que já se sabia: quando o candidato vencedor implementa a agenda do candidato derrotado, causa um estrago imenso. Nela, a taxa dos que consideram o governo Dilma ótimo ou bom despenca de 42% para 23%, e os que o enxergam como ruim ou péssimo vão de 23% para 44%. Sim, uma exata inversão de curvas. A maior queda se observou entre os cidadãos com escolaridade e renda mais baixas, desmentindo pela enésima vez a tese de Fernando Henrique Cardoso de que os “grotões” são mal informados e acéfalos. A presidenta perdeu força também no Nordeste e no interior, regiões que lhe foram extremamente favoráveis na disputa eleitora.

A plataforma de corte de direitos trabalhistas, aumento de impostos e redução de investimentos fez, como era fácil prever, com que a população reforçasse a ideia de que entre o discurso e a prática nada existe. 46% dizem que Dilma falou mais mentiras do que verdades durante as eleições, 47% a consideram desonesta (contra 39% que pensam o contrário) e 54% dizem que é falsa, um crescimento de 41 pontos de 2012 para cá.

As explicações encontradas pelo entorno presidencial para a queda drástica na aprovação vão do ridículo ao bizarro. "Já convivemos com períodos de baixa aprovação nesses últimos 12 anos e mostramos que, com trabalho, somos capazes de recuperar", disse o ministro Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência, esse cargo que parece ter sido criado para transmitir explicações implausíveis.

Mais infeliz é o argumento de que faltou comunicação para deixar claro ao povo que os ajustes feitos agora são necessários para manter a trajetória de criação de postos de trabalho e aumento de renda. Claro, faz todo sentido: todos vamos entender que um pouco a mais de desemprego e um pouco a menos de dinheiro são bons, especialmente para garantir que o mercado financeiro aumente seus lucros mediante o aumento da taxa básica de juros e o desestímulo ao investimento produtivo.

Dilma não dá sinais de que tenha capacidade para reverter o divórcio que está ajudando a promover entre a população e o mundo da política institucional. É bem verdade que essa separação começou muito, muito antes que ela surgisse em cena, mas o cruzamento de uma série de fatores históricos e conjunturais pode fazer com que seja agraciada com o direito de jogar a pá de cal numa relação desgastada. A água de Geraldo Alckmin e a Câmara de Eduardo Cunha se somarão à herança mal resolvida das manifestações de 2013 e ao inesperado desgaste da imagem presidencial, catapultado em novembro e catalisado em janeiro.

Se a sondagem divulgada pela Folha de S. Paulo guarda espaço para uma surpresa, esta reside no fato de que Alckmin e Fernando Haddad também sofreram um enorme desgaste. Cada um por seus motivos, voltam todos a mergulhar na vala em que estiveram metidos em junho e julho de 2013. Vejamos os resultados: Dilma foi reeleita de forma sofrível graças à ajuda de uma militância que trabalhou aguerrida e calada, e aos esforços de alguns quadros políticos graúdos; Haddad perde a cada dia mais apoiadores e sofre resistências dentro de seu partido, não sabendo nem mesmo se concorre a um novo mandato em 2016; Alckmin ganhou mais um mandato de governador com os dois pés nas costas.

A conclusão que se tira disso é a óbvia: o tucano, ou as forças que ele representa, sairá deste buraco do mesmo jeito que entrou. Dilma, Haddad e o PT, não. A incapacidade de autocrítica continua como regra entre o comando petista, mesmo depois que as eleições do ano passado mostraram um partido em decadência após um período de crescimento vertiginoso garantido por um líder político único. Passado o turbilhão, as correntes que demandavam uma refundação foram escanteadas, vencidas por aquelas que consideram que o mais importante é ajeitar-se na máquina do poder e garantir um lucro individual em detrimento de uma história de lutas e avanços.

O PT, ou os quadros que mandam no PT, continuam a fingir que não são meros emergentes no meio dos quatrocentões. Hoje são chamados para as altas rodas porque bancam o baile e as bebidas. Amanhã, afastados do poder emanado do dinheiro, voltarão a frequentar o rala-coxa e o batidão, onde receberão olhares reprovadores de quem se sente traído.

“Falando francamente: muitos de nós estão mais preocupados em manter – e se manter – nessas estruturas de poder do que em fazer a militância partidária que estava na origem do PT.” Luiz Inácio Lula da Silva parece ser o único líder político que reúne os predicados necessários para algum resgate da crebilidade das instituições. Durante o discurso pelos 35 anos de seu partido, celebrados em Belo Horizonte no último sábado, ele começou mal. Apostou na retomada do Fla-Flu eleitoral, aquele que diz que a oposição não tem moral algum para criticar um partido que transformou o país. Valeu-se da ideia de que os derrotados nas urnas estão buscando abertamente a via da instabilidade, o que é verdade, mas não é suficiente: a via da instabilidade é mantida aberta por um governo que em três meses contraria todo o discurso que o elegeu, que permite o fisiologismo e a corrupção, que perde o poder da criatividade.

Lula voltou a deixar claro que entende, ao menos nas linhas gerais, o que está acontecendo: seu partido perdeu contato com a sociedade, eliminou as pontes que o garantiam o papel da inovação, frustrou admiradores novos e antigos. “Há muito mais preocupação em vencer eleições, em manter e reproduzir mandatos, do que em vitalizar o partido. As direções, tanto as regionais quanto a nacional, ficaram prisioneiras dessa lógica. Tornaram-se burocráticas, pouco representativas da nossa base social, ou então apresentam uma representação meramente artificial de setores sociais.”

Se os números do Datafolha estiverem corretos, e os dados da realidade nos permitem dizer que são verossímeis, temos uma repetição de junho de 2013 em termos de desgaste do sistema político. Por enquanto, um junho sem ruas. Vivemos uma situação pré-revolta? Se tivermos uma revolta, como será? Certamente não será a sonhada pela esquerda, aquela que conduz a uma situação protorrevolucionária capaz de finalmente assentar bases para a construção de um novo Estado – por consequência, de um novo sistema político. A famosa “voz rouca das ruas”, capturada há quase dois anos por força da mídia tradicional, transforma-se na expressão mais bruta de nosso sistema educacional político inexistente. Na hora H, sem água, sem emprego, com inflação, a imensa maioria da população não terá como expressar o que deseja que mude, por qual caminho, com quais forças. Junte-se a isso uma vontade louca de golpe branco e está feita a besteira.

“Que saiam todos”, dirão, e a resposta do outro lado será uma reconfiguração que permita deixar tudo como antes, com a diferença de que o emergente terá sido expulso do clube dos quatrocentões. Lula poderia mudar essa realidade. Em inúmeras oportunidades falou sobre a necessidade de refundação do PT. Mas reverter essa situação depende de uma característica que nunca foi a sua principal: a ruptura. As informações de bastidores têm dado conta de que o ex-presidente foi excluído dos debates governamentais pela sucessora. Se for assim, abrem-se muitas alternativas. Lula pode trabalhar por dentro para miná-la, o que leva ao risco de que acabem todos tragados. Pode romper publicamente, tentando levar consigo o PT. Ou pode assistir de camarote. Seja com Dilma, seja com o PT, seja com os demais partidos, ele terá de mostrar ousadia para não entrar no trem que leva ao Campo da Pólvora.

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João Peres é jornalista e um dos editores do Nota de Rodapé 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Estranha Brasília


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Nesse Carnaval manso aqui de casa, o enredo é ficar à toa, ver filmes, levar um papo com quem aparecer, mandar boas energias para as pessoas queridas que estão se recuperando de abalos na saúde, corujar os bebês próximos, curtir os distantes nas fotos, essas coisas.

Rola uma folia animadora lá fora. Nos últimos anos, os blocos ganharam fôlego aqui em Brasília, que tem fama de ser fraca de samba, pura intriga da oposição. É certo que o traçado da cidade não favorece muito, mas querendo se encontra bom Carnaval para todos os gostos. Eu é que sou mais da preguiça.

Minhas quatro décadas de brasiliense há muito me ensinaram que não se vive aqui impunemente. Sobre nós se acumulam erros de interpretação, alguns já clássicos. Meses atrás, eu perambulava pela avenida Paulista e entrei numa ótica para me informar sobre determinada armação. Como forasteiros sempre trazem um carimbo na testa, o senhor que me atendeu fez a inevitável pergunta sobre de onde eu era. Foi só ouvir a palavra Brasília, disparou: é, lá se rouba muito, né? Respondi: sim, e aqui também. Desconcertado, ele voltou para as armações. O clássico comentário de que “Brasília é cheia de políticos corruptos” merece a boa resposta de que “todos foram eleitos pelo país inteiro, ou nos seus lugares de origem”.

A capital reflete o país, e nem podia ser diferente. Nos últimos tempos, com ruas abarrotadas de carros, contaminada pela insegurança urbana em suas formas mais agressivas e pela caretice mais tosca. Tempos muito estranhos, esses que estamos vivendo, com o perdão do clichê.

Como o lugar novo que era, para mim esta cidade significou, quando aqui desembarquei, na efervescência dos dezessete anos, uma lufada de ar fresco, cujos efeitos duraram muito tempo. Apesar do isolamento geográfico de então, da ditadura militar e da estratificação característica dos lugares previamente planejados, havia aqui um cosmopolitismo em terra vermelha, feito do impulso de se lançar no mundo, origens embaralhadas e gosto pelo novo. Não se preocupar com a vida alheia e conviver bem com ela era uma premissa básica da cidade, pois o velho, o tradicional, o familiar tinham ficado na província. Como desperdiçar tamanha oportunidade de auto-reinvenção? Eu e mais um monte de gente nos jogamos com muito gosto na tarefa.

Antes de escorregar na casca de banana da apologia vazia, que aqui se ouve com certa frequência, ou das críticas oriundas das comparações de contextos urbanos, sempre problemáticas quando se trata de Brasília, quero deixar claro o que me motiva neste momento, que é a formação de uma onda sinistra. Temos tido agressões homofóbicas violentas e gratuitas em sequência, racismo exacerbado e anunciado na base do grito, um crescente puritanismo religioso de conveniência, que tem reforçado um conservadorismo político primário baseado em confrontos, violência escabrosa de cidade grande, ufa! A rigor, nenhuma novidade, mas é a onda que me intriga. Não por acaso, ela coincide com a ressaca dos protestos de junho passado e com este ano maluco de Copa do Mundo e eleições nacionais.

Brasília, lembre-se de si mesma, de como éramos mais inteligentes, mais generosos e menos tolos, de como sabíamos lidar muito melhor com o novo e com o diferente. Pensando bem, acho que os brasileiros todos éramos, e não posso aceitar passivamente que estejamos andando para trás.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A recepção


por Celso Vicenzi*

 - Pode entrar, Marina, sinta-se como se a casa fosse sua... até uma rede mandei instalar!

- Eduardo, não me fale em rede, por favor. O tombo foi grande.

- Entre, não repare a bagunça. Não deu tempo de organizar uma festa, foi tudo tão de repente. Como a senhora disse que nenhum desses partidos a representava, já tínhamos perdido as esperanças.

- Pior pra mim, que perdi a rede. Tudo culpa dos cartórios.

- Mas, cá entre nós, a senhora não acha que também teve alguma culpa no cartório?

- Eu não, Eduardo. Sempre fui uma moça tímida, evangélica, casada na igreja. Apenas não tinha ainda conseguido arrumar um bom partido, mas aí, com jeitinho, você tocou no meu ponto fraco.

- E qual é?

- É derrotar a velha política deste país. Posso não ter conseguido fundar um partido – afinal, não é tarefa fácil; temos só 32! –, mas sinto-me preparada para governar o Brasil.

- Calma, Marina, vamos com calma. Sobre isso a gente conversa depois... deixe-me apresentar nossos companheiros. Este é Jorge Bornhausen, que trouxe também o filho (o neto ainda não tem idade hehehe!).

- Bornhau... Bornhausen? Que surpresa! Não sabia que você tinha se tornado socialista.

- É a política, Marina, sempre mudando. Mas sempre me interessei pelo Capital.

- O Capital, de Marx?

- Não, o meu capital. Como é enorme, eu costumo citá-lo em maiúscula, entende?

- Não muito, ainda... mas estou recém-chegando, não é, Eduardo?

- Exato, Marina, você verá que estamos levando a mensagem do socialismo a todas as pessoas. A começar pelos mais renitentes, que são justamente os capitalistas. Ah, este é Heráclito Fortes, que você conhece do Congresso.

- Heráclito? Você também aqui?

- Pois é, Marina, uma hora tô aqui, outra ali. É a minha trajetória, que começou na Arena, depois PMDB, depois PFL, depois o DEM e agora aqui no Partido Socialista Brasileiro, onde finalmente encontrei velhos companheiros.

- Mas e aquelas conversas reveladas pelo WikiLeaks, em que você sugeria ao governo norte-americano estimular a produção de armas no Brasil para conter supostas ameaças de Venezuela, Irã e Rússia?

- Justamente, precisamos conter o comunismo e estimular o socialismo ao estilo brasileiro, moreno, alto, bonito e elegante como Eduardo Campos. Você fez uma ótima opção, seja bem-vinda!

- Eduardo, e quem mais vai estar conosco nessa disputa eleitoral. Eu preciso saber. Tem colega que não posso ver nem pintado.

- Pintado, não, nunca. No máximo caiado. Estamos tentando trazer o Ronaldo Caiado, outro jovem com muito futuro no socialismo.

- Mas Eduardo, ele sempre votou contra o meio ambiente. Como é que fica o meu discurso?

- Ô Marina, é só fazer umas pequenas adaptações. Muda uma vírgula aqui, umas 30 páginas ali e pronto. Relaxa, Marina, o Caiado é aliado do PSB em Goiás e defende adesão integral do DEM ao projeto socialista.

- E você garante que esse projeto tem sustentabilidade? Sinto falta do apoio de uma rede...

Não se preocupe, a Rede Globo estará conosco! Somos o novo. E o que é novo é verde. Verde... meio ambiente..., viu, temos muito em comum. Se você me der licença, tenho uma reuniãozinha rápida com a bancada ruralista sobre o Código Florestal. Se quiser deitar na rede, fique à vontade!

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*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Marina é só mais uma reprodução do sistema

por Moriti Neto*

Em agosto de 2009, Marina Silva, recém-saída do PT, e um grupo de apoiadores, embarcavam no PV e já diziam: “Chegou a hora de acreditar que vale a pena, juntos, criarmos um grande movimento para que o Brasil vá além e coloque em prática tudo aquilo que a sociedade aprendeu nas últimas décadas, experimentando a convivência na diversidade, a invenção de novas maneiras de resolver problemas solidariamente... Agindo em rede, expandindo e agregando conhecimento sobre novas formas de fazer, produzir, gerar riquezas, sem privilégios e sem destruição do incomparável patrimônio natural brasileiro”. E isso não era de boca, mas parte do documento “Juntos pelo Brasil que queremos – diretrizes para o programa de governo”, que expressava a motivação ao ingressar no partido e que a colocava declaradamente na disputa à Presidência da República nas eleições de 2010.

O projeto, no entanto, teve curta duração. Era 7 de julho de 2011 quando Marina anunciava a desfiliação do PV, onde obteve quase 20 milhões de votos na eleição presidencial. De saída, ela e os apoiadores que a acompanhavam na decisão ressaltavam que a direção do partido “disse não à democratização de suas estruturas institucionais, ao diálogo com a sociedade e a um projeto autônomo de construção partidária”. Na época, se tivesse sido eleita presidente, teria completado apenas pouco mais de um semestre de mandato a bordo da sigla verde.

Lembro que, naquele momento, vieram diversos questionamentos: se Marina tivesse vencido a eleição, sairia do PV? Se sim, governaria como? Abdicaria de filiações partidárias? Como costuraria a base no Congresso Nacional? A ex-senadora se considerava mesmo a figura messiânica, salvadora, que os críticos da personalidade dela apontavam? Se não saísse, ignoraria a descoberta da incompatibilidade declarada com os pevistas e seguiria o governo sem abrir o debate?

O fato é que Marina Silva, sem conseguir ocupar espaços no PV, pedia desfiliação e acusava o partido de não ser o local adequado para as bandeiras que portava. Ancorada na boa capacidade discursiva que possui, ela buscava sustentar a posição, mas não deixava claro como só descobriu, de uma hora para outra, que a mesma agremiação avaliada como ideal para praticar propostas baseadas na “coerência programática” – por ela tão decantada – era, então, imprópria.

E foi na "fundação” do Rede Sustentabilidade, no dia 16 de fevereiro de 2013, num encontro batizado de “Encontro Nacional da Rede Pró Partido”, em Brasília, que aparecia a alternativa de Marina às eleições de 2014. Era na “Rede Pró Partido, mas que não é partido”, que ela, a "diferente", buscava encaixar o discurso da realização da “nova política”.

Em declarações perigosamente despolitizantes e até antipartido, a potencial candidata tentava se autocolocar como “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. Ao mesmo tempo em que falava de diálogo horizontal com a sociedade, aparecia como a “salvação”. Posturas perigosas à democracia, o que, aliás, eu já observei em texto anterior.

Enfim, eis que Marina Silva, com a recusa da Justiça em legalizar o Rede, vai ao PSB de Eduardo Campos. É a mesma toada. Na campanha, o discurso que clama por um “sistema ideológico” e luta contra o pragmatismo, colocando a candidata como a mais alta defensora do interesse público e das “questões maiores”, a exemplo da rápida passagem pelo PV, quando era o “fator diferente” da corrida presidencial e possibilidade de acabar com o “mais do mesmo” (que realmente é mais do mesmo) do “Fla x Flu” entre PT e PSDB.

Só que, na prática, o que se constata é a ida a um partido de perfil governista-pragmático (o PSB é, ainda, base do Governo Federal e governa com petistas e tucanos em vários estados), entregue a caciques da direita conservadora Brasil afora e que, em momentos decisivos, vacilou no debate de itens fundamentais ao meio ambiente, caso do Código Florestal, tema central na vida política de Marina.

Rumo ao PSB, lá vai a ex-ministra do Meio Ambiente se enfileirar a Bornhausens, Caiado e companhia. Novidade? Não. Somente mais uma reprodução comum do nosso horrível sistema de democracia representativa, onde estão sempre dadas as oportunidades ao desequilíbrio na representatividade da sociedade e à hipocrisia, como a de Marina que, de diferente, não tem nada.

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Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR. (Imagem: www.minhamarina.org.br)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

#direitosindígenas

Amanhã termina a Mobilização Nacional Indígena convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) em defesa dos direitos dos povos indígenas e tradicionais. Entre as reivindicações, está a derrubada da PEC 215/2000, de autoria do ex-deputado Almir Sá, de Roraima,  que propõe transferir a competência da União na demarcação das terras indígenas para o Congresso Nacional.

A proposta também possibilita a revisão das terras já demarcadas. Outra mudança seria nos critérios e procedimentos para a demarcação destas áreas, que passariam a ser regulamentados por lei, e não por decreto com é atualmente.


Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Mistura



por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Os pedaços de frango bem limpos, livres da pele e da gordura aparente, são envoltos numa mistura de alho socado na hora, sal, pimenta do reino preta e vinagre. Sabe como é, gordura e pele estão condenadas ao fogo eterno, por amor às nossas coronárias. Cada grama descartado dá direito ao crédito de um milímetro adicional no copo de cerveja.

O franguinho anêmico e congelado do supermercado vai virar um arremedo de galinhada, ou “colegada”, como prefere uma amiga, convicta do seu lado galináceo. Refogado com temperos, receberá um generosa dose de arroz, a ser cozido em seu caldo. Em apresentações e combinações várias, trata-se de um prato muito popular nas muitas mesas latino-americanas que têm no grão branco asiático um vício.

Como muitas outras coisas básicas da vida, conheci a galinhada em Brasília, numa casa mineira, onde se juntava o grão-de-bico ao arroz, mas a versão mais difundida por aqui leva milho verde. Um toque de açafrão ao final do cozimento, e depois é só alegria.

Entretida no preparo, minha mente passeia pelas cozinhas de casa, das avós, tias e vizinhas. Em todas, a mistura era um tormento cotidiano. Para quem não tem intimidade com o paulistês, esclareço. Em mesa de paulista, tinha sempre os infalíveis arroz branco e feijão marrom, mais pelo menos três itens de mistura. Não podiam ser muito caros nem repetidos, o que impunha um exercício de criatividade interminável. Duas vezes por dia, porque nem pensar em servir sobras do almoço na janta. A quantidade e variedade eram ostentadas como sinais de fartura, sendo desnecessário estabelecer qualquer relação de harmonia ou complementariedade entre os pratos. Mistura minguada era coisa de mulher preguiçosa ou marido mão-de-vaca, senão fracassado. A frase “não sei o que vou fazer de mistura hoje” estava sempre presente nas conversas das comadres logo cedo, enquanto varriam a calçada.

A narrativa no tempo passado indica que estou desatualizada sobre o quanto a urbanização, a escassez de empregadas domésticas, a praga da “fast food” e os restaurantes por quilo alteraram a rotina dos lares interioranos. Ouço contar que o cardápio já mudou bastante, tendo o arroz e o feijão caído muito em importância, o que considero uma lástima. Será que o dilema da mistura se acabou junto com o aparecimento de um “quilo” em cada esquina? Nas minhas poucas incursões pelo interior, noto sua presença arrasadora por toda parte. Os “serve-serve”, na deliciosa pronúncia cabocla, vieram para ficar. E o que não falta neles é mistura.

A cabeça viaja mais um pouco e visita outra mistura: de gente. Exige talento, coração aberto, espírito desarmado. Vem da constatação de que somos todos feitos da mesma matéria, e de que as diferenças só nos enriquecem. Para alguns, acontece naturalmente; para outros, exige investimento e esforço. Cor da pele, etnia, fé, identidade e orientação sexual, convicção política, profissão, origem, educação podem ser ingredientes de uma grande receita de paz e harmonia, tudo junto e misturado. Gosto muito.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Como vota Sua Excelência?


por Celso Vicenzi*

Virou clichê dizer que “todos os políticos e partidos são iguais”. É essa também a impressão de uma grande parcela de cidadãos que aderiu às manifestações em todo o país. Para chegar a essa quase-certeza (ou certeza, para os mais convictos), houve a colaboração intensiva da mídia no dia a dia da cobertura política. É verdade que boa parte dos políticos tem contribuído para que essa percepção prevaleça. Mas esse sentimento quase unânime foi também habilmente construído pelos meios de comunicação. Pura e simplesmente por omissão, por sonegar informação ao leitor, ao radiouvinte, ao telespectador, ao internauta.

Não interessa aos donos da mídia dizer “quem é quem” no cenário político nacional, estadual e municipal. Por isso, com raríssimas exceções, a cobertura de votações importantes costuma trazer apenas o resultado, sem mencionar claramente como votaram os partidos, os vereadores, os deputados e os senadores. Pode-se alegar que, nos veículos impressos ou na TV, não há espaço e tempo para tanto detalhamento. Dependendo da importância do que está em votação, por que não? Em que manual está escrito que não pode? Depende de que tipo de jornalismo se queira fazer. Na mídia impressa, certamente há espaço – que não ocupa mais do que um parágrafo – para indicar pelo menos o voto dos partidos. Idem nas TVs e rádios. São informações que não deveriam ser omitidas, sob pena de a população nunca saber como votam os seus representantes nas questões mais essenciais. Quem tem feito esse papel, com as limitações evidentes de alcance, tem sido as redes sociais.

A diferença de posições ideológicas entre os partidos, apesar dos pesares, fica evidente, por exemplo, no caso recente da votação de uma Moção de Repúdio à espionagem norte-americana que acessou bilhões de emails, telefonemas e dados de empresas e cidadãos brasileiros, além do governo. A Moção foi apresentada pelo deputado federal José Guimarães (PT) e aprovada por 292 votos. No entanto, 86 deputados votaram contra e 12 se abstiveram de aprovar um documento que se posiciona em favor da soberania brasileira e pede uma solução internacional para a violação do direito à privacidade e do sigilo que envolve as relações entre empresas e países. Quem votou “sim” expressou também “concordância com as iniciativas destinadas a criar uma agência multilateral, no âmbito do sistema das Nações Unidas, para gerir e regulamentar a rede mundial de computadores, poderoso instrumento de uso compartilhado da humanidade”. E externou, ainda, “apreensão com a segurança do cidadão norte-americano Edward Snowden, que está refugiado, há dias, no aeroporto de Moscou”.

Certamente há razões para tantos parlamentares manifestarem-se contrários ou absterem-se de apoiar uma moção contrária à violação das leis internacionais, que o governo brasileiro – e outras nações – classificaram como muito grave. O que importa, no caso, não é discutir o mérito. Mas observar que os partidos identificados mais à esquerda votaram unânimes pela aprovação. Quando se identificam os votos, o eleitor tem a chance de saber quem de fato o representa.

Neste caso, dos partidos maiores, votaram unânimes pela Moção o PCdoB (11 votos), PDT (24 votos), PT (70 votos), PPS (9 votos), PRB (9 votos) e PV (8 votos). Foram acompanhados pelo voto uniforme de partidos menores como PEN (2 votos), PHS (1), PSL (1), Psol (2), PTdoB (2) e o voto do catarinense Jorge Boeira (sem partido). Votaram contra: DEM (16 dos 20 votos), PMDB (11 contra e uma abstenção, de um total de 64 votos), PMN (2 contra em 3 votos), PP (17 contra em 24 votos), PR (4 contra e uma abstenção, em 24 votos), PRP (um contra e um a favor), PSB (2 contra e uma abstenção, em 21 votos), PSC (8 contra em 10 votos), PSD (20 contra em 32 votos), PSDB (3 contra e 10 abstenções) e PTB (2 contra em 13 votos).

Se houvesse uma prestação de contas rotineira, certamente seria possível que uma parcela cada vez mais significativa da população compreendesse que, mesmo numa época em que as cores partidárias perderam muito da sua autenticidade programática, é possível, sim, perceber diferenças muito claras entre os partidos e os parlamentares. Os brasileiros e brasileiras têm o direito de saber como votam os parlamentares. E a mídia do país tem o dever de mostrar. Se não o faz, é porque tem interesse em desinformar. E impedir que o cidadão identifique, com mais clareza, quem de fato o representa.


*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!” Estreia hoje no NR sua coluna Letras e Caracteres.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desvio lusitano



por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Depois de vários dias de viagem, tudo o que eu queria era voltar pra casa, mas no meu caminho havia uma greve de controladores de voo. Nenhum avião circulava pelo espaço aéreo da Bélgica durante a greve, que inicialmente não tinha duração prevista, mas acabou sendo de apenas oito horas. Só que naquele momento ninguém sabia disso.

A empresa aérea decidiu, então, nos mandar de ônibus para o aeroporto francês mais próximo, e de lá para o nosso destino, Lisboa, de avião. Essa operação demorou muito mais do que o tempo do voo cancelado, e eu perdi minha conexão de Lisboa para Brasília. Raiva, frustração e o estresse de um dia que parecia não ter fim. Até que, noite bem entrada, cheguei a um hotel designado pela companhia. Só poderia seguir viagem na noite seguinte.

Ao acordar, de manhã, e olhar pela janela, perdi o fôlego. Estava num andar muito alto, de frente para o Tejo, com uma ampla vista da cidade. Era inevitável pensar no “inevitável” e na opção de relaxar e gozar. Fui nessa.

Peguei um táxi rumo à Praça do Comércio, que, na minha memória de mais de dez anos atrás, era enorme e muito linda. O sol e o céu estavam indecentes, e se completavam com uma temperatura perfeita de início de outono. Fiquei pensando na inquietação e na ousadia que fizeram com que, há mais de quinhentos anos, uns malucos lusitanos se lançassem dali pelo mar em busca do resto do mundo, e cheguei à conclusão de que não há feito humano que se compare aos descobrimentos daqueles tempos, para mal e para bem, incluindo a exploração do espaço sideral.

Perambulei pela Rua Augusta, pelas lojas lotadas de turistas, quase todos brasileiros ou russos, cheguei à Praça da Figueira, almocei sardinhas assadas divinas numa tasca mais que popular, observando e sentindo ao máximo o lugar e a adorável gente portuguesa.

Barriga cheia, subi a Rua da Madalena. Lá no alto, virei à esquerda e me enfiei pelo labirinto da Alfama. Quando mais eu andava, mais beleza encontrava. Não sei se por viver numa cidade caçula do mundo, muito plana e onde tudo tem menos de cinquenta anos, os ângulos e a perspectiva proporcionados pelas ladeiras e pelos belos edifícios centenários me enchiam os olhos de tal forma, que transbordava. Ali, tudo era puro prazer.

Passei por restaurantes supersofisticados, ateliês de arte, muitos edifícios protegidos pelo patrimônio histórico, e fui andando. De repente, uma placa indicando “Museu Teatro Romano”. Incrédula, visitei escavações que vão aos poucos revelando um teatro completo, datado do final do primeiro século da era cristã. Lá dentro, além do nó na garganta pelo que encontrei, fui assaltada pela mais deslumbrante vista do rio e da parte baixa da cidade.

Consegui voltar à rua e subir mais um pouco, até o Largo de São Martinho, onde tomei um café e um tempo para digerir o que tinha acabado de ver e sentir.

Caminhei mais um tanto pelos becos e ruelas do bairro, até que tive que tomar um táxi de volta ao hotel, e dali para o aeroporto. Decolei de Lisboa leve, feliz e emocionada com a visita inesperada e tão profundamente prazerosa. Bendita greve! Não sabia a quem agradecer. Provavelmente, a algum líder sindical belga briguento e mal humorado.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Brasília



por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna

 Nunca na nossa vida houve uma mudança como aquela. Um dia, saímos do interior de São Paulo, onde vivíamos na maior pobreza e no mais profundo provincianismo puritano, e no outro chegamos a Brasília, onde tudo era novo e borbulhante.

Sim, porque, ainda que o ano fosse 1974, e a nova capital apenas um espectro do que é hoje, para nós, autênticos bichos do mato, era Manhattan. Cheguei com dezessete anos e muita disposição pra desbravar o mundo novo.

Pra começar, viramos classe média da noite pro dia. Isso porque meu pai, que até então havia sido pastor evangélico numa comunidade pobre em todos os sentidos, acabava de ser contratado em Brasília como professor, com um salário antes inimaginável. Nossa família de seis almas instalou-se num modestíssimo apartamento de três quartos, num bloco de três andares, sem garagem nem elevador. Mas quem se importava com isto, se o simples fato de vivermos num apartamento era visto e sentido como se tivéssemos sido finalmente promovidos a verdadeiros seres urbanos?

Aqui todo mundo tinha carro e telefone, nenhum vizinho demonstrava qualquer interesse pelo que se passava no apartamento ao lado, e pessoas separadas, homens e mulheres, refaziam sua vida numa boa, com seus novos pares, com a maior naturalidade. Um espanto.

E eu adorava tudo. Aqui provei pão de queijo pela primeira vez na vida e conheci uma confeitaria de verdade, que me deslumbrou com suas bombas de chocolate e tortinhas de morango e maçã. Fui também apresentada a um restaurante chinês, onde entrei com muitas reservas, morrendo de medo do que ia encontrar; o frango xadrez teve gosto de outro mundo. Filé com fritas, conheci na cantina da Câmara dos Deputados.

Podíamos, finalmente, comprar roupas e comer pizza com coca-cola de vez em quando. Passear no Conjunto Nacional era um grande programa, mas o Beirute e o Gilberto Salomão eram antros de perdição onde se bebia cerveja e se dançava, e que só fui explorar muitos anos depois.

Aqui ninguém entrava na sua casa sem ser convidado, nem aparecia sem avisar, e as portas dos apartamentos estavam sempre fechadas. Percebi que existia uma coisa chamada privacidade, que me seduziu para sempre.

Aqui fugi da escola, antes de terminar o segundo grau, e nunca mais voltei. E mesmo assim pude sempre ter bons empregos e até fazer carreira num organismo internacional, por estar no lugar certo, na hora certa.

Aqui me dei conta de que a armadura da religião podia ser desvestida, e era perfeitamente possível viver sem ela. O alívio que senti foi diretamente proporcional ao calor do fogo eterno que me ameaçava até então.

Em suma, aqui comecei a virar gente.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Duas chaves


por Júnia Puglia Ilustração de Fernando Vianna

Para que serve um livro? Tola pergunta! Tantas são as respostas... Fico com apenas uma: para nos conectar a sensibilidade, juntar lembranças e exercitar a reflexão. Há poucos dias, ao ler as memórias de uma célebre escritora, deparei-me com uma rápida passagem sobre o hábito judaico de levar consigo a chave de casa, para onde for. Em instantes, fiz duas conexões que ficaram martelando aqui dentro.

A primeira, de quando eu tinha uns vinte anos, já trabalhava num bom emprego – coisas dos começos de Brasília – mas não podia ter a chave de casa, privilégio restrito aos pais e ao irmão mais velho. Inconformada com a restrição, comprei a briga e ganhei, conquistando a bendita chave e o direito de entrar e sair quando bem entendesse. Pode parecer banal, mas esses embates familiares sobre as coisas do cotidiano tomavam proporções quase épicas, principalmente quando protagonizados por uma pentelha topetuda que achava que podia tudo, e que muito pouco lhe era permitido.

A outra: alguns anos atrás, hospedei-me com uma família palestina árabe, em Amã. Apesar da rápida estadia, trago uma viva memória da paisagem árida, do calor e da cantoria prévia às cinco orações do dia, que me chegava de distintas direções por potentes alto-falantes. Chamou-me a atenção, como em nenhum outro lugar onde já estive, a demarcação do espaço público como território masculino. E também o tamanho dos apartamentos, verdadeiros solares empilhados, com salões, saletas, vários quartos, cada cômodo abrigando facilmente um desses ovos de codorna que andam vendendo por aqui, “com varanda gourmet e área de lazer completa para sua família”.

Ali, fiz meu primeiro contato direto com personagens da diáspora palestina. Guardo no coração o relato que me fez a velha senhora da família, em seu parco inglês, sobre a casa onde moravam em Jerusalém até 1948, quando foram sumariamente expulsos para dar lugar aos judeus, que chegavam aos milhares da Europa. O destino foi a vizinha Jordânia.

Supondo que seria um exílio temporário, levaram consigo a chave da casa, que ela tirou de uma caixa e me mostrou, enquanto terminava a história. Porém, como outros milhares de palestinos desalojados, foram impedidos de voltar, vítimas de um milenar, trágico e interminável balaio-de-gatos racial-político-religioso, produto da arrogância, da estupidez e da intolerância que se perpetuam em várias situações similares mundo afora. Uma única vez puderam visitar sua antiga morada, agora habitada por israelenses, que, por sua vez, não tinham ideia do drama por trás daquela casa. Consternados com a insólita visita, moradores e visitantes terminaram chorando juntos por uma situação na qual eram simples peças de um quebra-cabeça perverso.

Ambas as chaves ganharam vida. Nas mãos da moça ávida por alçar seu próprio voo, o objeto tomou a forma de pequenas asas, que depois ganharam envergadura. Lá na Jordânia, naquela caixa de madeira entalhada, o tesouro preservado com tanto sentimento por uma família exilada trazia uma história proibida de morrer.


* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Conceitos contraditórios

Uma mobilização que impede, veta, desaconselha ou vê com maus olhos a participação de partidos políticos – e falo não só dos partidos reconhecidos pela lei, mas de todos os grupos organizados em torno de um projeto de sociedade – tem um fator antidemocrático brutal

Algo entre 20 e 40 mil pessoas, variando bastante dependendo do jornal que noticiou, foram às ruas protestar contra a corrupção na capital da República, durante o feriado maldido – por cair numa quarta-feira – no último 7 de setembro.

Marcha realizada em 7 de setembro em Brasília
De primeira digo “bravô”, melhor sair de casa e ir dar um rolê no sol escaldante do deserto em uma mobilização do que ficar xingando a televisão a cada escândalo “bravamente desvelado” pelo Jornal Nacional ou similar.

Os organizadores da “Marcha contra a corrupção” tentaram dar um cunho antipartidário ao evento, como aconteceu diversas vezes: por exemplo, no movimento “Cansei”. E movimentos “antipartidários” surgem sempre, em todo lugar.

A lógica é que sendo uma marcha “contra” algo, não se pode colocar propostas “partidárias”, senão as pessoas não vão participar. Mas segundo o blog Conexão Brasília Maranhão, do caro Rogério Tomaz Jr., “o convite para a Marcha defende uma 'reforma prisional' porque 'somente no Brasil existe tanto benefício para quem está preso'”.

Eis uma contradição aí. E era de se esperar. Não se pode ser um agente político sem política, certo? Que o diga o prefeito Gilberto Kassab, cujo partido, segundo o próprio, não é nem de direita, nem de esquerda nem de centro. Aí, o máximo que dá para ser é um agente da politicagem. Mas política é uma palavra importante e nobre demais para se limitar a significar “as jogatinas, barganhas e negociatas que ocorrem nas mais altas instâncias do poder de um país”.

Proponho então aqui uma definição de partido: um grupo de pessoas que atuam, de maneira coordenada, em prol de um projeto de sociedade. Ora, um partido não é qualquer grupinho com um “P” na frente do nome. São pessoas, de qualquer tamanho, que militam em torno de um projeto de mundo. Nesse sentido, qualquer bandinho de skinheads neonazistas é mais “partido” que o PSD de Kassab (ou que praticamente todos os partidos que estão aí, ou alguém vê diferença de projeto de sociedade entre os diversos partidos da Câmara, por exemplo?).

E as pessoas terem a liberdade de se juntarem em torno de um projeto de sociedade é princípio fundamental de qualquer democracia e, mais ainda, as pessoas se juntarem em torno de ideias é pilar de sustentação de qualquer mobilização democrática. Senão a coisa fica monolítica, vira o pensamento único. E sempre que alguém se propõe a representar o pensamento “apartidário”, que quer “o bem de todos, sem esse jogo de interesse dos partidos”, está impondo seu próprio pensamento de maneira monolítica. Onde não se pode ter pluralidade de pensamento impera, consequentemente, o pensamento único.

Uma mobilização que impede, veta, desaconselha ou vê com maus olhos a participação de partidos políticos – e falo não só dos partidos reconhecidos pela lei, mas de todos os grupos organizados em torno de um projeto de sociedade – tem um fator antidemocrático brutal.

Imagem desvalorizada

Ainda assim, considero que a culpa dessa visão política problemática é, em grande parte, dos próprios partidos. É fato que a maioria das pessoas tem na cabeça a ideia de que partido são os “P-qualquercoisa” que participam das eleições. E claro, nem tem como se pensar muito diferente disso, quando os próprios partidos reforçam essa ideia e fazem, em 99,9% das vezes, cagada atrás de cagada. O próprio PT, que queria participar da tal marcha de alguma forma, foi um dos principais protagonistas de um dos eventos que levou a Marcha da Corrupção a ser um sucesso de público: a absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF).

Dos votos contrários à cassação de Jaqueline, uma boa parte veio do PT. Pois a defesa de Jaqueline usou o mesmo argumento de um monte de réus do chamado Mensalão que foram absolvidos, a de que ela fez merda sim, mas antes de ser deputada, então ela não pode ser julgada agora, mesmo que os fatos só tenham vindo a público depois de sua posse.

A grande maioria dos deputados sabia que, se Jaqueline fosse cassada, estaria aberto o precedente para que todo mundo que tem alguma sujeira de antes das eleições e, ao ter conquistado uma cadeira de parlamentar tenha conseguido se livrar, estaria de novo com o pescoço na guilhotina. Ou seja, a esmagadora maioria dos votos a favor da ainda deputada federal veio de deputados que votaram levando em conta exclusivamente seus interesses pessoais.

Jaqueline com o pai Joaquim: ele pode voltar a cena política
Pois outros dois dos principais partidos do país, o maior da oposição, PSDB, e o grande aliado do governo, o PMDB – que parece não conseguir UM NOMEZINHO mais limpinho para completar sua cota de ministérios – também ajudam a reforçar essa imagem sobre os partidos. Pois PMDB e PSDB, entre outros, como o PTB, travam outra disputa: querem Joaquim Roriz, ex-governador quatro vezes do DF e pai de Jaqueline, em seu partido.

A ideia é Roriz voltar ao seu berço político, se lançando candidato à Prefeitura de Luziânia, cidade goiana onde Joaquim começou sua carreira na política. Cheio da grana, Roriz parece ser poderadicto, pois só isso explica um cara com quase 80 anos não querer largar o osso do poder de jeito nenhum. Mas os chacais em sua volta pensam no cálculo de quanto ganham, em dinheiro e em capital político, com mais uma prefeitura.
Roriz e o PMDB do DF hoje são inimigos mortais.

Mas com o PMDB de GO, tudo bem. Vê-se logo que o PMDB é um partido, de fato, com um projeto claro e coeso de sociedade. Os tucanos do DF não querem Roriz em seu partido, pois a disputa interna por espaço já é uma briga de foice de proporções gigantescas. Mas parece que seus dirigentes preferem transformar Roriz no Michael Douglas do filme “Tudo por uma Prefeitura”.

O anúncio da candidatura de Roriz seria essa semana, mas teve de ser adiado: ainda não se sabe qual estúdio vai patrocinar a mais nova sequência da saga do Poderoso Chefão. Ele tem até 3 de outubro para mudar seu domicílio eleitoral e se filiar ao novo partido. Alguns ainda apostam que Roriz desista da empreitada, incentivado por sua família, que se preocupa com a saúde do velho coronel que, segundo o Correio Braziliense, hoje em dia, é obrigado a fazer diálise três vezes por semana e teria que fazer grandes sacrifícios para estar à frente de uma campanha eleitoral.

Por essas e outras, de PT, PMDB, PSDB, que a população tem na sua cabeça, de maneira generalizada, o conceito de partido político lá embaixo, na lama.

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista e editor de política, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Marchemos por liberdade e não por mais controle

Será que manifestação popular é sempre democrática, não importa se reivindicando controle ou liberdade? Tudo bem, manifestação popular é sempre popular. Mas será o uso que se faz, dela, democrático?

O que está atrás da cortina é que me preocupa. Não se percebe ao primeiro perfume, mas demanda por controle sempre exala um fedor autoritário na última nota da fragrância.

Por isso, se me convidam para marchar por mais liberdade, contem comigo. Se for para marchar por mais regras, para apontar o dedo no nariz alheio, estou fora! Tendo sempre mais ao bom selvagem do Rousseau do que ao lobo do homem, de Locke!


Lembro até hoje de um episódio que me ocorreu em sala de aula na PUC-SP, lá pelos idos dos noventa, quando cursava a faculdade de jornalismo. O professor - de disciplina que não me recordo agora - convidara o representante de um obscuro instituto de imprensa para debater os perigos da Internet com seus alunos.

O homem clamava à regulamentação o tráfego de conteúdo na Internet, bradando então por maior fiscalização, legislação e punição dos criminosos - indignado que estava com a pedofilia que assolava a rede, ameaçando cidadãos de bem.

Queria filtrar todo o tráfego, ignorando por completo a revolução que a nova forma de comunicação, um tanto anárquica, viria a realizar (a Internet e não a pedofilia, que fique bem claro!)

O dito queria saber das regras e somente delas, a qualquer custo! “É crime e ponto!”, ralhou comigo, quando cheio de audácia – mas tímido estudante, ainda - reagi à ideia de controle argumentando que o mesmo seria também usado para vigiar cidadãos de bem.

De nada me adiantou invocar os Foucault, Arendt, Orwell e Huxley na ocasião, tentando elevar o nível do debate. Sem separar joio de trigo, me imputara simpático ao crime, sepultando de vez a discussão na classe.

Não é preciso dizer que ninguém mais ousou se manifestar em contrário após discurso tão apelativo crivado dos ad-hominem que a pobre retórica dos moralistas sempre nos impõe. Aliás, semelhante em tanto aos arroubos de Afanásios, Al Borguetti e demais histéricos defensores da família, da moral e dos bons costumes. Só assim para calar qualquer questionamento sobre o mérito e qualidade de qualquer exigência por mais regras.

O que escapa a este argumento é que ninguém, em sã consciência, é a favor de crimes quaisquer a princípio - dos “contra a pessoa”, sobretudo! (Excluindo-se aqui, propositadamente, os “contra o patrimônio” - que, na maioria, já nascem das desigualdades sócio-econômicas – mas, mesmo para estes há punição suficientemente preconizada nos códigos penal e processual - para além dos direitos e deveres previstos na Constituição.

O que se debate é a necessidade ou não de mais e maiores controles - e as aberrações que podem daí surgir. Vale lembrar que à época, falava-se muito sobre um tal mecanismo echelon que registraria ideias e hábitos de todos os navegantes, com o objetivo militar de filtrar e identificar possíveis subversões, atividades terroristas ou hacktivismo; baseando-se em palavras-chave.

Aliás, não muito diferente do que se tornou a principal ferramenta de marketing do google: os cookies, que armazenam pesquisas pra te oferecer as deliciosas propagandas personalizadas, relacionadas às suas buscas.

Enfim, o tempo passou e a repulsa ao projeto da “Lei Azeredo” - também batizado de “AI-5 digital” pelos contrários à tipificação da lei como tal -, demonstra que a discussão não podia mesmo chafurdar em lama tão rasa. Com o aparente objetivo de prevenir pedofilia, fraudes bancárias, phishing scans e outros crimes cibernéticos, propõe-se o cerceamento de liberdade e do “anonimato” de todos os internautas.

Imagine um regime que propõe a quebra dos sigilos bancário, eleitoral e telefônico de todos os cidadãos do país compulsoriamente - tenham cometido crimes ou não, pelo simples prevencionismo, como no filme Minority Report!

Semelhante, em muito, à perfilação lombrosiana de potenciais psicopatas – técnica forense que identificava previamente possíveis riscos para a sociedade baseando-se em características morfológicas do crânio dos “voluntários”. Pois bem, era o que eu tentava argumentar àquele tempo com o diretor do tal instituto.

Contra a corrupção,
contra o comunismo, cansei!

O atual levante contra a corrupção, que a pendente aprovação da lei Ficha Limpa vem provocando, evoca páginas não menos curiosas de nossa história - todas travestidas de vestais da moralidade, mas, desta vez, consequentistas -: a UDN, a Marcha da Família com Deus pela liberdade e, mais recentemente, o movimento mauricinho batizado de “Cansei”.

Todos têm em comum, certa indignação contra o imponderável, contra o vento, diga-se. Lutando ora contra a “corrupção” ora contra o “perigo comunista”, mais tarde contra o “caos aéreo” e contra “as balas perdidas”.

O último traz à tona a inutilidade aparente dessas bandeiras. Querer mais controle, aqui, se torna equivalente a apelar a marginais que andem na linha. Ora! Se existe linha, quem anda à margem está fora e sujeito às barras da lei! Pra quê outra norma seria necessária? A punição já é descrita, tipificada, normatizada e regulamentada, resta aplicar a letra. Qual o sentido em se vindicar mais leis aqui?

Acho que o sentido mora em acreditar que só uma intervenção salva! Seja paternal, divina ou de Estado.

Em todo caso, não discuto tais sedes de vingança ou prevencionismos. Condenação prévia e demais leviandades que linchamento e shariahs moralistas desconsideram, não me interessa debater. Pra quem cruzou a linha, resta a lei.

Quero saber é onde se pode levantar esta linha e não onde desenhar novas. Estamos cometendo injustiça por conta dos excessos do riscado? Aí sim, o debate importa. Saber se a risca legal ou moral está passando por cima de gente não tão perigosa, por exemplo – condenando maconheiros ou gays, respectivamente. Para o bom convívio social, alguém tem que pensar na demanda por mais liberdade.

O resto fede a oportunismo, golpismo ou mero aparelhamento da despolitização juvenil. Claro que fiscalização de dinheiro público é importante. Mas já temos instituições saudáveis o suficiente para combater a podridão!

Corrupção é exceção da regra de um tabuleiro democrático, mas ainda assim condição sine qua non do capitalismo; onde a corrida pelo ouro é feroz e os fins justificam quaisquer meios para se obtê-lo. Deixemos de lado a mania de cagar mais regras, porque elas já existem! Indignação pelo que já está controlado não leva a lugar algum!

Marchemos pois, por mais liberdade onde se fizer necessário e deixemos a demanda por controle para quem compete, para não correr o risco de esvaziar nossa luta combatendo o vento!

André Bertolucci, jornalista, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Brasília também abraça as "vadias" em marcha

Imagens e texto de Manaíra Lacerda e Rodrigo Mendes de Almeida
(De Brasília, para o Nota de Rodapé)

Foi o que se pode chamar de uma grata surpresa. Contamos facilmente algo mais que 800 pessoas para a versão brasiliense da Marcha das Vadias. Ao chegarmos ao local, nem sabíamos se seria fácil achar a manifestação, já que, nas nossas cabeças, ela estaria diminuta. Mas que nada. De longe começamos a ouvir os apitos, carregados pelo vento, já que na topografia plana do Planalto Central, o som alcança bem longe.

Uma marcha de deixar feliz quem foi participar. Tocando na ferida, como tem sido a recente onda de mobilização de “vadias”. O grande questionamento é contra o machismo que responsabiliza a vítima por um crime cometido contra ela – no caso, bota na mulher que é estuprada a culpa pelo crime.

Saiba mais:

A discussão é avançada, e a grande penetração que teve mostra que pelo menos uma parte da sociedade está avançando nesse debate. E vai impor o tema como pauta. Uma das boas surpresas foi ver homens abraçando o manifesto que aconteceu da forma mais pacífica possível, ou seja, sem nenhuma violência. Tanta tranquilidade que pôde até ser chamada do que muitos conhecem como "programa de família". Crianças e até cachorros estavam no meio da multidão, divertidos com o sábado diferente.

Uma tropa da polícia militar acompanhou todo o percurso, que começou perto da rodoviária de Brasília e foi até a Torre de TV debaixo de um sol escaldante. Para quem não conhece a capital brasileira, a distância é algo em torno de 3 km. Lembrando: sob o sol e a seca desta terra vermelha.

Mesmo com as intempéries, a manifestação fez surgir muitos sorrisos de gente satisfeita por estar fazendo algo que, talvez, possa mudar os rumos de uma sociedade machista.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Valets: mais um motivo para usar menos o carro

O JN de ontem deu uma matéria que não é novidade nas cidades brasileiras. Câmeras escondidas - que eu, particularmente, tenho grandes ressalvas no jornalismo -, flagaram irregularidades e crimes de manobristas em SP e MG. "As imagens mostram os profissionais encarregados de estacionar os carros furtando moedas e até bombons. Alguns dizem que vão levar os veículos para locais seguros, mas os deixam em fila dupla ou em frente a garagens."

Eis mais um motivo para usar menos o carro. Se existem valets é porque existe demanda, certo? É uma discussão que, para mim, serve para voltar a falar do transporte público. Algo que vai além do habitual "classe média sofre". O que fazem os flanelinhas, no entanto, é outra questão. Convido-os a leitura da reportagem publicada na Retrato do Brasil, de abril, no texto de Tomás Chiaverini, que aborda a questão dos flanelinhas, que trabalham à margem da lei, atuando nas grandes cidades sob o olhar desconfiado dos motoristas e sem o respaldo do poder público. Para baixar em PDF ou ler abaixo, na íntegra.

Trabalho

SE ESSA RUA FOSSE MINHA

À margem da lei, os flanelinhas atuam nas grandes cidades sob o olhar desconfiado dos motoristas e sem o respaldo do poder público


É noite no bairro boêmio da Vila Madalena, em São Paulo. Um “x” de fita reflexiva laranja sobre a camiseta pólo veste Alemão, 21 anos, que se posta ao lado de uma vaga vazia e espera. Quando percebe algum motorista à procura de vaga, assobia e depois gesticula, ajudando na baliza. Assim que o motorista sai, informa que zelará pelo automóvel até às 2h. Mais tarde, quando o “cliente” volta, corre até perto do carro e espera pelos trocados que lhe garantem o sustento.

À primeira vista, o trabalho de Alemão parece bastante simples. Tão simples que, muitas vezes, nem sequer é visto como uma profissão. Foi esse argumento, por exemplo, que fez com que a prefeitura de Porto Alegre (RS) interrompesse, no início de 2010, um projeto de regulamentação da função de guardadores de carro, iniciado em 2009.

A baixa adesão dos flanelinhas – apenas 70 se cadastraram – foi um dos motivos para a interrupção do projeto. Mas o fator determinante, de acordo com o governo municipal, foi o fato de que os guardadores não colaboram para o aumento da segurança e não há demanda real pelo trabalho que oferecem. Para a Prefeitura de Porto Alegre, portanto, não faz sentido legalizar e fiscalizar um serviço que não deveria existir.
Essa aparente simplicidade esconde, contudo, um sistema complexo e intrincado de um fenômeno presente na maioria das metrópoles do país. Grande parte dos flanelinhas atua sempre na mesma área. Ao longo do tempo, eles descobrem os hábitos dos moradores e do comércio local, tornam-se conhecidos e ganham confiança. Apoiam e recebem apoio dos demais trabalhadores. Inserem-se no ecossistema urbano e frequentemente acabam dominando regiões inteiras da cidade.

Alemão, por exemplo, é praticamente dono da quadra onde trabalha, na rua Mourato Coelho, entre a Inácio Pereira da Rocha e a Aspicuelta, em São Paulo. Seu domínio sobre aquela área específica foi construído ao longo de onze anos. Hoje, ele sabe de cor a rotina de cada morador e conhece bem todos os outros guardadores de carro da região, o que lhe permite atuar com calma e segurança. Numa sexta-feira de fevereiro, a Retrato do Brasil acompanhou o flanelinha durante as cerca de 8 horas que sua noite de trabalho durou.

A jornada começou pouco depois das seis da tarde. Antes disso, ele havia levado cerca de 50 minutos para viajar de ônibus do Taboão da Serra (região metropolitana de São Paulo) a Pinheiros. Veio acompanhado da mãe, Simone, 34 anos, e de dois irmãos – H., de nove anos, e T., um bebê de um ano e meio. Simone faz questão de acompanhar o trabalho do filho mais velho.

“Se eu não vier junto, ele passa a noite bebendo na banca de batida e não trabalha”, diz sorrindo, enquanto chacoalha a criança enrolada numa manta. Atualmente ela não aborda os motoristas, receosa de que a acusem de usar o bebê para sensibilizar os clientes. Apesar do incômodo de trazer o caçula consigo, diz que essa é a única saída. “Melhor na rua, comigo, do que em casa, com uma babá que não conheço, que pode judiar dele”, afirma.

Foi Simone, junto com o ex-marido, que começou a guardar carros por ali, depois de uma temporada como ajudante de cozinha, seguida de alguns meses vendendo cachorro-quente. Alemão aderiu logo à função, aos nove anos de idade. Hoje é o mais antigo e respeitado do grupo, tanto que a reportagem só conseguiu entrevistar os demais flanelinhas após sua autorização.

Assim que chega ao ponto de sempre, Alemão vai até a pizzaria da esquina e pega a faixa refletora e um banquinho de madeira, guardados para ele pelo garçom. Na base da camaradagem, o banheiro do estabelecimento também pode ser usado, mas só quando o dono não está presente. Devidamente equipado, Alemão se posta ao lado do meio-fio, enquanto sua mãe se acomoda no banquinho diante de um estúdio de tatuagens fechado e amamenta o bebê.

Há quatro vagas na guia rebaixada diante do Gelly’s Tattoo. Alemão “aluga” três e a quarta fica reservada para o dono do estabelecimento. Diferentemente da rua, onde os motoristas pagam o que querem, ali o preço é fixo: dez reais. De acordo com a Polícia Militar, estipular valor por vagas em local público ou cobrar antecipadamente é crime de extorsão. Mas, como aquelas estão em propriedade particular, não há problema. 

O acordo para usar a garagem, segundo Alemão, foi amigável. Em troca, ele garante que nenhum carro estacione bloqueando a saída, e inibi pichadores e boêmios alcoolizados que queiram aliviar a bexiga no canteiro do estabelecimento.
Já o dono do estúdio, Geleia, conta uma história ligeiramente diferente. “Temos uma relação simbiótica sem muita saída”, explica. Segundo ele, Alemão e a família realmente ajudam a manter a ordem na rua, mas a convivência foi difícil no começo. Havia muita gritaria, as vagas eram usadas sem sua autorização, e traficantes de droga se misturavam aos guardadores. “Tive que dar uma de maluco, sair gritando no meio da madrugada, daí as coisas se ajeitaram. Hoje está tudo bem, mas controlo a situação com mão de ferro”, afirma.

Lobo em pele de flanelinha
Tráfico de drogas, pequenos furtos e contravenções são atividades frequentes nas ruas das grandes cidades brasileiras. A fim de permanecer por longos períodos nos mesmos locais sem chamar atenção, é comum que traficantes e ladrões pés de chinelo busquem algum disfarce, geralmente como moradores de rua e, vez ou outra, como guardadores de carro.

Segundo o secretário-adjunto da Sedest (Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Distrito Federal), Daniel Seidel, foi isso que motivou o GDF (Governo do Distrito Federal) a cadastrar os guardadores e lavadores de carro de Brasília.

Segundo ele, havia um grande número de traficantes e ladrões que se disfarçavam de flanelinhas para cometer delitos na cidade. Agora, quem quiser exercer a função no DF precisa, antes de tudo, provar que não possui antecedentes criminais. Depois disso, tem que passar por um curso de capacitação onde recebe noções básicas de cidadania, leis de trânsito e capacitação para realizar o serviço de lavagem a seco. Desde 2009, o programa cadastrou 1.396 guardadores e lavadores, mas, ainda de acordo com Seidel, há muito a ser feito no setor.

Para o secretário, é preciso estipular áreas de atuação, tabelar valores a serem cobrados e impedir que guardadores não credenciados continuem a atuar. Além disso, o GDF pretende capacitar flanelinhas para trabalharem como guias turísticos, principalmente durante a Copa do Mundo de 2014. Por fim, para Seidel, é necessário elaborar um estudo socioeconômico para acompanhar os resultados das iniciativas. Segundo o secretário, as providências para que essas medidas sejam postas em prática já estão em andamento, mas as mudanças efetivas só devem sair do papel em 2012.

Jornada flexível
Em geral, Alemão trabalha de quarta a domingo. Ganha uma média de 40 reais por dia, mas há noites em que chega a faturar até cem. Por mês, recebe cerca de mil reais – dinheiro que nunca conseguiu receber em outros bicos e empregos.

Um pouco depois das 21h, o movimento aumenta nos bares, restaurantes e casas noturnas da Vila Madalena. O trânsito flui lento na quadra de Alemão. Com a cabeça erguida, atento o tempo inteiro, ele corre para ajudar um carro a estacionar, abre a porta para uma moça descer, depois já se adianta para sinalizar outra baliza. “Se a gente não mostrar que está aqui, o pessoal não deixa o nosso na volta”, explica. Diz que em geral recebe dois reais, que tem gente que não dá nada, e outros que dão muito. “Um dia parou um cara com um Porsche Cayenne, me deixou 30 reais e ficou menos de duas horas na vaga”.

Uma mulher estaciona um Citroën C3 na garagem da guia rebaixada e, quando Alemão informa o preço de dez reais, pergunta se pode pagar com cheque. Ele sorri, coça os cabelos oxigenados espetados de gel e diz que só trabalha com dinheiro. Ela ajeita a saia, fala que vai dar um jeito e caminha com o salto alto até o restaurante japonês, na outra quadra. “Sushi”, exclama Alemão. “Esse pessoal adora sushi. Come sushi até não poder mais.”

Por volta das 22h30, o trânsito para. Parece não haver mais vagas, mas Alemão continua encaixando carro atrás de carro, boa parte diante de garagens. Diz que sabe diferenciar os locais onde ainda vão entrar ou sair veículos daqueles que pode usar livremente. Também garante que a CET (Companhia de Engenharia de Tráfico) não multa quem estaciona em guia rebaixada, a não ser que o dono do imóvel ligue para a prefeitura para reclamar. Já a CET afirma que a orientação é para que os fiscais multem todos os carros parados em guia rebaixada, sem distinção. 

Às vezes, quando Alemão se distrai, o irmão do meio, H., ajuda no serviço. Mas o garoto passa a maior parte do tempo brincando com um joguinho eletrônico ao lado da mãe. H. continua na escola e não quer seguir a profissão do irmão, que não completou nem o ensino fundamental. Espera ganhar a vida como jogador de futebol.

Enquanto sinaliza assobiando para os motoristas que o ignoram, Alemão diz que, se pudesse, também escolheria outro trabalho. O que faz em si não o incomoda. Mas a função de flanelinha, para ele, é humilhante. “Acham que a gente é tudo noia, maloqueiro, ladrão”, explica.

De olho na lei
A revista sãopaulo, do jornal Folha de S.Paulo, publicou recentemente uma reportagem sobre flanelinhas onde havia um levantamento da Polícia Militar com 134 “pontos críticos” de atuação dos guardadores em São Paulo. A região central é apontada como a mais problemática, com 55 pontos críticos, seguida pela oeste, com 41. Estádios, universidades, shows, bares e restaurantes estão entre os locais onde essa atuação é mais intensa. Na semana seguinte, o jornal fez uma pesquisa pela internet entre seus leitores. Foram mais de 21 mil respostas à pergunta: “Você é a favor dos flanelinhas?”. Ao menos na pesquisa, os números não deixam dúvida quanto ao baixo prestígio destes profissionais: 81% responderam que não, e apenas 2% que sim. Do restante, 2% disseram que depende: “só se eles não exigirem pagamento antecipado”; e outros 14% disseram que também depende, “se eles forem cadastrados pelo sindicato da categoria”. 

Aos 51 anos, Marinaldo Oliveira da Silva conhece de perto as agruras da profissão. Filho e neto de flanelinhas, ele começou a cuidar de carros aos 16. Hoje é presidente do Sindiglaasp (Sindicato dos Guardadores e Lavadores Autônomos de Veículos Automotores do Estado de São Paulo). A entidade tem sede no centro da cidade e mantém um site na internet, mas possui pouca capacidade de atuação. Não há como sindicalizar trabalhadores de uma profissão que não é reconhecida pelo poder público.

Em 1977, o então presidente Ernesto Geisel publicou um decreto regulamentando a função de “guardador e lavador de veículos automotores” em todo o país. Segundo o texto, supostamente ainda em vigor, podem ser registrados flanelinhas que não tenham antecedentes criminais e que estejam em dia com as obrigações eleitorais e com o serviço militar. Na prática, contudo, essa lei nunca saiu do papel, e a função continua marginalizada.

Hoje, as esperanças de Marinaldo recaem sobre uma ação do Ministério Público de São Paulo, que, motivado por queixas de cidadãos quanto ao abuso de flanelinhas, abriu um inquérito para investigar o assunto. O objetivo é avaliar a atuação da prefeitura paulista e da Polícia Militar, e cobrar uma solução para o problema. “Do jeito que está não pode continuar”, afirma o promotor Raul de Godoy Filho. “Ou regulamenta a profissão, ou acaba com a atuação ilegal”. Diante da iniciativa do MP, a Prefeitura afirma que montou um grupo de trabalho para investigar a questão, mas que não irá se pronunciar até ter dados concretos.

A Polícia Militar não soube designar alguém para falar sobre o assunto e respondeu por nota. Sem mencionar o inquérito, afirmou que, na atuação dos guardadores, “além da extorsão, dependendo da conduta podem ser caracterizados os crimes de dano, furto, roubo, constrangimento ilegal ou ameaça”. Ainda segundo a PM, “a ação dos flanelinhas representa um sério problema à sociedade”. A corporação informou também que faz operações específicas para prevenir tais crimes, mas que é raro as pessoas darem queixa contra guardadores, o que dificulta o trabalho da polícia.

Já segundo Marinaldo, a polícia muitas vezes atrapalha o trabalho dos cerca de 15 mil flanelinhas que, de acordo com ele, atuam na cidade. Para o presidente do Sindiglaasp, os maiores problemas com a polícia ocorrem no entorno de estádios, onde os guardadores frequentemente acabam detidos para averiguação. “Quando o cliente volta, acha que o flanelinha pegou o dinheiro adiantado e se mandou, mas na verdade ele pode estar preso”, afirma.

Para quem se arrisca a estacionar diante do estádio em dia de jogo, as ações da PM certamente não parecem descabidas. Talvez não haja local da cidade onde a atuação dos guardadores de carro seja tão acintosa, às vezes até violenta. Eles são muitos, chegam a centenas, de acordo com a polícia, e disputam os motoristas numa batalha ferrenha.

Nas ruas ao redor do estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, mesmo quem não pretende estacionar tem que estar sempre atento, a fim de não abalroar os vários guardadores que se jogam diante do carro, gritando e agitando os braços – intervenções que contribuem para agravar os congestionamentos antes dos jogos. “Se não for assim, não tem jeito de ganhar freguês”, afirma um flanelinha que, como todos os outros abordados na região, preferiu não se identificar.

Tranquilo, mas nem tanto
“Guardar carro em estádio é coisa de louco, eu, hein!”, exclama Alemão, que uma vez se arriscou a trabalhar durante um jogo junto com um amigo, mas foi expulso aos sopapos por flanelinhas locais. Na sua vizinhança, tudo parece mais calmo. Se bem que ali, vez ou outra, também espocam algumas desavenças.

Pouco depois das 23h, Alemão é chamado às pressas até a quadra de cima. Quando chega por lá, dois dos seus colegas se atracam no meio da rua, um acusando o outro de ficar com mais dinheiro. Alemão separa a briga e depois de alguns instantes de conversa tensa o entrevero se desfaz, com o prejuízo de uma camiseta rasgada, apenas. Para acalmar os nervos e manter o ânimo da noite, o guardador descola uma batida de limão com uma garota, também do Taboão, que vende bebidas numa mesa improvisada sobre o porta-malas de um Gol branco, caindo aos pedaços de velho.

Quando volta para a frente do estúdio de tatuagem, o trânsito está parado e todas as trinta vagas de que dispõe estão ocupadas. Combate o tédio ouvindo axé no alto-falante estridente do celular.
Por volta das 23h30, o manobrista de um estacionamento particular, o chamado valet, estaciona um Astra preto na vaga do dono do estúdio de tatuagem e entrega as chaves a Alemão. É um acordo entre eles: o flanelinha reserva um lugar para o manobrista que, em troca, sempre deixa um carro bem bacana destrancado. Assim, Simone pode colocar o bebê para dormir no banco de couro e descansar um pouco os braços. H. também aproveita a mordomia, e se aboleta com seu joguinho eletrônico no assento do passageiro. 

Pouco depois da meia-noite, H. ganha dois pedaços de pizza muçarela do garçom da pizzaria. Enquanto o garoto devora o jantar tardio, no trânsito, cinco garotas gritam e pulam dentro de um carro ao som de Lady Gaga. Dois rapazes num Golf vermelho de rodas customizadas emparelham ao lado delas. Com o tráfego parado, conversam por alguns instantes. Quando o semáforo abre, ambos os automóveis estacionam na guia rebaixada de Alemão, que assiste à distância.

Todos desembarcam, menos uma das meninas, que permanece no banco traseiro. As outras conversam com os dois rapazes até que um deles mergulha no carro das garotas e abraça a moça que havia permanecido lá dentro. Enquanto os dois se beijam, as amigas explicam que aquela é a noite de despedida de solteira da garota do banco de trás. Após algum tempo, uma das moças coloca a cabeça para dentro e diz: “Agora chega, Rê, vamos embora”. O rapaz sai do carro cambaleante. “Se contar, ninguém acredita”, comenta com Alemão antes de entrar novamente no Golf e seguir para a noitada.

Já é madrugada e o trânsito flui, as vagas seguem ocupadas e não há muito a fazer a não ser esperar. De tempos em tempos, quando algum motorista volta, Alemão corre para receber os trocados e gesticula ajudando na manobra. Mas, na maior parte do tempo, não há nada a fazer. O tédio é parte da profissão. Vez ou outra há, claro, momentos de emoção, que Alemão relembra empolgado.

Diz ter percebido uma vez que duas pessoas haviam arrombado um carro do qual estava tomando conta. Não havia tempo de chamar a polícia e, com os joelhos tremendo de medo, o guardador, à época com 15 anos, se aproximou devagar, enquanto os sujeitos reviravam o porta-luvas. “Estava morrendo de medo, mas dei uma ideia nos caras, disse que estava cuidado do carro e que se eles roubassem a coisa ia ficar ruim pra mim”. Os sujeitos ainda continuaram vasculhando o veículo por um tempo, mas depois saíram sem levar nada, nem o tocador de CD. “Ó, a gente só vai deixar isso aí porque você não chamou a polícia”, teriam dito, antes de irem embora.

Mas, ainda segundo Alemão, nem sempre é possível impedir furtos e pequenos acidentes. Já houve casos de carros cuidados por ele que acabaram com retrovisor quebrado ou aparelhos de som furtados. “Daí é esperar o cliente e ouvir a dura, fazer o que, né?”.

Profissão de risco
Assim como Alemão, Adriano trabalha sempre na mesma quadra, mas no bairro das Perdizes, em frente à PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica). Hoje com 43 anos, passou mais de três décadas na função, o que lhe tornou conhecido e permite até que receba mensalmente para reservar vagas da rua para os moradores do entorno. O “aluguel” custa cerca de cem reais, e Adriano garante que seus serviços valem a pena. Cadastrado como vigia pela Polícia Civil, diz que cansou de impedir assaltos na região e conta que chegou a ser baleado para defender o carro de um cliente. “Levei três tiros no peito e ainda tenho uma bala dentro do pulmão”, diz. 

Maria Stela Graciani, pedagoga da PUC, diz que os flanelinhas contribuem para a diminuição dos roubos de veículos no entorno da faculdade. Ela trabalhou durante 30 anos num projeto de convívio, atividades lúdicas e alfabetização com os guardadores da região.

Quando o programa teve início, a maioria dos flanelinhas era composta por crianças de 7 a 12 anos. Hoje, muitos deles conseguiram outros empregos, principalmente como taxistas ou manobristas. Dos cerca de 40 guardadores que passaram pelo programa, apenas três permanecem na mesma função. Adriano é um deles. Tem outro emprego, como porteiro, durante a noite. Mas só com o salário não dá conta de sustentar a esposa e os quatro filhos.

Para Graciani, que possui mestrado em Ciências Sociais, a regulamentação da profissão de guardador seria bem-vinda, pois, ainda que conhecidos da vizinhança e atuando na mesma região, eles sofrem preconceito. “Todo começo de ano há algum problema com calouros que não querem pagar ou acham que seus carros vão ser vandalizados”, explica. Mas, com o tempo, eles acabam se acostumando. “Atualmente a rua não é mais pública, pelo menos não no entorno de locais como universidades, teatros e estádios – regiões que foram mapeadas, não só por flanelinhas, mas por pedintes, ambulantes e toda a sorte de trabalhadores informais”, argumenta.

A regulamentação, ainda segundo a professora, também poderia ajudar a levar benefícios sociais para os guardadores, como fundo de garantia, férias, décimo terceiro e assim por diante.
Além disso, afirma que uma proibição legal dificilmente resolverá o problema enquanto não houver condições plenas de emprego no país. “Flanelinhas vão existir independentemente de leis e instituições. São pessoas que precisam sobreviver, subsistir”, diz.

Fim de noite
Pouco antes das 2h, um carro estaciona na vaga diante do estúdio de tatuagem. Um casal desce, Alemão se aproxima, informa o preço e pede o pagamento adiantado. Garante que permanecerá por ali até às 4h, mesmo sabendo que seu horário está prestes a vencer.

Pouco depois, mais seis guardadores se aproximam. Um deles estende um copo descartável a Alemão. Ele dá uns dois goles e abre um sorriso: “Tem que esquentar pra balada, né?”. Enquanto os amigos conversam combinando onde será o fim da noite, Simone junta seus pertences espalhados no banco traseiro do Vectra e enrola o bebê no cobertor. Depois se despede do filho mais velho e pede que tenha cuidado, antes de descer a rua acompanhada de H.

Caminhará até o Largo da Batata, em Pinheiros, onde tomará o último ônibus para o Taboão da Serra. Como mora em uma região muito violenta, o marido estará à sua espera no ponto, às margens da rodovia Régis Bittencourt. Com ela, Simone leva 60 dos 80 reais que o filho faturou naquela noite. É uma maneira de garantir que o rapaz não gaste tudo na diversão.

Assim que Simone se despede, os sete flanelinhas se livram dos coletes e faixas reflexivas e rumam para o Pancadão, uma boate de funk próxima. Quase todas as vagas de Alemão ainda estão ocupadas.
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