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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 21 de outubro de 2014

O macho branco, heterossexual, rico e mandão se manifesta em pelo na corrida presidencial

por Cidinha da Silva*

As habilidades comunicacionais do candidato Aécio Neves constituem areia movediça que traga muitos desavisados. O discurso é escorregadio e generalista, alicerçado no apelo fácil à panaceia do governo de integração nacional, aquele que serviu a Juscelino, a Tancredo, a Sarney, a Collor e a Itamar. O que elimina os conflitos e se apresenta como salvador da pátria, pacificador e unificador.

"Ninguém é dono desse Brasil", ele apregoa, na tentativa de mobilizar o telespectador para suas fileiras. "Precisamos de gente séria, honrada... Eu vou fundar a nova escola brasileira!" Aécio procura frases de efeito e agrega assuntos desconexos - o que o Brasil precisa e o que ele, o salvador da pátria pretende fazer. É o discurso apelativo do macho-dono-da-verdade.

Aécio começa sempre como bom moço, professoral, paladino da justiça, dos bons costumes, da moral, da ética. Veste a mesma roupagem dos bem-nascidos como ele. À medida que o debate esquenta e aparecem as evidências da compra de votos para aprovar a reeleição de FHC, da privataria tucana, do desvio de dinheiro público nas obras do metrô e trens de São Paulo, do nepotismo no governo mineiro, cai a pele de cordeiro e emergem os olhos sagazes e o pelo lustroso de velha raposa.

A todas as acusações, às provas incontestes, devidamente arquivadas, Aécio chama de mentiras e responde simplesmente que, "se as pessoas estão soltas é porque não foram condenadas". Ele omite o quanto e como sua trupe operou para que as pessoas de seu partido, o PSDB, e outras sob sua proteção e mando não fossem investigadas.

"A senhora prevaricou!" Ele grita para a Presidenta Dilma Rousseff, lançando mão de palavra técnica que, no imaginário popular recebeu conotação sexual, sabe-se lá porque cargas d'água. Logo, aquele público pouco escolarizado que o assiste, chamado por FHC de ignorante, pode imaginar, a partir da acusação de Aécio, que a acusada está envolvida em temas sexuais duvidosos. A escolha da palavra não é mera tecnicalidade, ele sabe onde quer chegar e que ponto do eleitorado, principalmente do setor machista, quer atingir.

Aécio mente, des-ca-ra-da-men-te e, assim como acabei de fazer no texto escrito, com o objetivo de chamar a atenção dos leitores que me acompanham, separa as palavras em sílabas, enquanto fala, para chamar a atenção de seus ouvintes. É um recurso que funciona muitas vezes, embora ele o utilize em demasia, tornando-o enfadonho.

Seu discurso está alicerçado em bravatas. Ele assegura, por exemplo, que o PT votou contra a redemocratização do país. Na verdade, refere-se à debandada de Tancredo e seus seguidores para a eleição no Colégio Eleitoral, enquanto o PT se manteve firme, partidário das eleições diretas. Lembro-me do último comício pelas Diretas em MG, na praça Rio Branco (praça da rodoviária) em Belo Horizonte, quando, para frustração geral da audiência, lá, no último comício pelas Diretas, ouvimos Tancredo anunciar a inexorabilidade da eleição no Colégio Eleitoral. Depois, foi só acompanhar pelos jornais a campanha e articulação do PMDB pela eleição de Tancredo.

Aécio mente ao dizer que Lula e Dilma foram contra a construção de escolas técnicas no Brasil, é só observar os números: no governo Sarney foram construídas treze escolas técnicas; no governo Collor, três; no governo Itamar, vinte e sete; no governo FHC, onze; no governo Lula (em 8 anos), 355, isso mesmo, trezentas e cinquenta e cinco; por fim, no governo Dilma, 208, isso mesmo, duzentas e oito. Mas, o netinho do vovô acha que ao manipular a palavra pode fazer o mesmo com os dados e com a opinião pública. Ledo engano! Rude ilusão.

Dois assuntos o tiram do sério, além dos questionamentos a seus desmandos administrativos e política de compadrio, as drogas (lícitas e ilícitas) e a boataria de que é usuário, bem como os aeroportos construídos com dinheiro público em fazendas de familiares seus, localizadas em pequenas cidades do interior de Minas e suspeitos (os aeroportos) de fazerem parte de uma rota internacional de tráfico de drogas. O transtorno obsessivo arrebenta seus nervos, ferida, a velha raposa ataca. Curiosa é a forma do ataque-defesa: "a senhora (dirigindo-se à Presidenta Dilma) está desrespeitando Minas Gerais com as mentiras acharcadas nas redes anonimamente. A senhora tem permitido ao Brasil ver o mais baixo nível de campanha presidencial." Do que falávamos mesmo? Conversávamos sobre o uso de drogas lícitas e ilícitas, sobre a construção de aeroportos privados com dinheiro público levada a cabo por um indivíduo, por acaso, mineiro, candidato à Presidência da República! O que isso tem a ver com Minas Gerais? Por que devemos nos submeter ao hábito despótico de um adolescente mimado de substituir parte, ou seja, um mineiro no exercício da função pública, acusado de corrupção, nepotismo, má administração, desmandos e censura à imprensa, entre outras acusações, pelo todo, o estado de Minas Gerais?

Aecim não responde, ele está acima da necessidade de respostas e justificativas, seu todo-poder não comporta explicações. Ele continua a performance arrogante: "quando vou à sua cidade, Porto Alegre, quando vou à minha Belo Horizonte...", determina a cidade de Dilma no sul do país, buscando afastá-la do Curral Del Rey, a Belo Horizonte de nascimento de Dilma. É sabido que a Presidenta saiu de lá para viver na clandestinidade, perseguida pela ditadura civil-militar que Aécio chama significativamente de "revolução", como de resto, toda a direita. É Aécio, o mineiro-mor, o mais mineiro dos mineiros, o dono da sesmaria, que se arvora a outorgar (ou não) o atestado de pertencimento político ou afetivo a Minas Gerais. Mais adequado seria que Aécio dissesse "o meu Rio de Janeiro", cidade-base de onde governava Minas.

Ele não desiste, é teimoso, quer vencer a interlocutora e a audiência pelo cansaço, pela repetição de uma ideia à exaustão: "vamos deixar os mineiros em paz, candidata (referindo-se às admoestações que Dilma impinge a ele, um reles mineiro, que se acha "o mineiro"). Os mineiros sabem o que fazem. Vamos discutir o Brasil, Candidata"... Minas Gerais e seus políticos, como rebentos e netos da política de cabresto estariam acima do Brasil e de qualquer inquirição. Aecim inventou o planeta-Minas, ou não, talvez ele trate apenas de galvanizar o tal sentimento de mineiridade, conclamando os cidadãos (já que ele só enxerga as mulheres de maneira subalternizada) a posturas xenófobas contra Dilma, uma "de dentro" que ele, o todo-poderoso, alcunha como alguém "de fora". Incansável no objetivo de convencer os ouvintes de uma ideia (característica fundamental dos que dominam a oratória), Aecim lança mão da ironia mordaz e pode desconsertar um interlocutor que não goze do mesmo jogo de cintura: "quem ligar a televisão desavisadamente vai achar que a senhora quer disputar o governo de Minas ou a prefeitura de Belo Horizonte. Talvez a senhora queira, desempregada a partir de primeiro de janeiro, ser candidata ao governo de Minas, aí a senhora terá tempo para discutir Minas Gerais." Enquanto isso, deixe meu curral em paz.

Quando confrontado com função de censora da imprensa mineira atribuída à sua irmã, durante todo o governo, pressionando jornalistas, jornais e revistas, para que não criticassem o governador, tampouco expusessem os bastidores dos negócios de governo, Aécio utiliza outras frases de efeito para tentar jogar a audiência contra sua oponente: " a senhora está mentindo para o Brasil! Minha irmã Andréa, de quem tenho muito orgulho (vejam como ele é um maninho amoroso), assumiu o cargo de voluntariado, cargo que as esposas dos governantes geralmente ocupam." É uma frase carregada de sentidos. Tem-se a informação de domínio público que Aécio vivia agitada vida de solteiro, que, durante a posse, como governador, foi acompanhado pela filha, então adolescente. Por que? Porque exercia o sagrado direito concedido aos homens heterossexuais de viver sua sexualidade em plenitude com diferentes mulheres, mas, na hora das coisas sérias, convoque-se a filha, convoque-se a família, o lado A dos "homens de bem." Não esqueçamos do componente de comiseração que um homem solteiro provoca, pois, coitadinho, não tem uma mulher para cuidar dele. Sorte de Aécio que tem a irmã, uma super cuidadora. Mas, o mais capcioso da frase explicativa dirigida à Presidenta é deixar subentendido que: 1 - função de mulher é ser primeira dama; 2 - a irmã dele exerce uma função típica de mulher, ao contrário da Presidenta que exerce uma função destinada aos homens, destinada a Aécios.

Em tom laudatório, professoral e pretensamente definitivo, Aecim se recompõe: "vamos tentar novamente falar de futuro em homenagem e respeito ao telespectador que nos ouve agora. Vamos elevar o nível do debate, candidata". Então, na primeira de três vezes que se seguirão, Aecim dirige-se aos motoristas de automóveis que provavelmente estão ouvindo o debate presidencial que ocorre às seis da tarde pelo rádio do carro. Para ele, inexiste a maioria dos trabalhadores brasileiros e da população que naquele momento está apertada no transporte público, nos trens, ônibus, metrôs. Essas pessoas, nos governos Lula e Dilma puderam comprar celulares de última geração, tablets, smartphones e usam esses aparelhos enquanto se deslocam para casa e para o trabalho. Mas, ele não as menciona porque elas não existem para o PSDB, são apenas votos, logo, não são lembradas, tampouco citadas de maneira natural, como os usuários de carros, helicópteros, jatinhos e aeroportos privados.

Outra vez, perguntado sobre a Lei Seca criada em 2012 para coibir a circulação de motoristas embriagados ou sob efeito de drogas, Aécio se desequilibra. Para quem não sabe, ele foi parado em blitz da Lei Seca no Rio de Janeiro e recusou-se a fazer o teste do bafômetro. A resposta dada tenta inverter o vetor da acusação: "candidata, tenha a coragem de fazer a pergunta direta, a senhora traz para esse debate, talvez pelo desespero, um tema que tem que ser colocado com absoluta clareza..." Só no planeta de Aécio, provavelmente, alguém que esteja "desesperado" tem racionalidade para propor temas que devem "ser discutidos com absoluta clareza." Esse tipo de prática é, ao contrário, de quem tem lucidez, de quem pensa e não tem os neurônios comprometidos por essa ou aquela substância química. Aecim continua: "eu tive um episódio em que parei numa Lei Seca porque minha carteira estava vencida e ali, naquele momento, inadvertidamente não fiz o exame, me desculpei, me arrependi disso. A senhora não se arrepende de nada que fez em seu governo, diz enfático, é importante que nós olhemos pra frente, vamos falar do Brasil, vamos falar de coisas sérias, não é possível que a senhora abaixe tanto a campanha. Quando a senhora ofende a mim e a minha família, ofende todos os brasileiros que querem mudança."

Aécio tenta conquistar a empatia do eleitor fazendo-se de frágil e flexível na esfera pessoal, vejam, ele erra, é humano, pede desculpas, ainda mais, arrepende-se dos erros cometidos. O arrependimento é artifício cristão pescado para evidenciar suposta pequeneza humana e mobilizar os corações fraternos e solidários. E Dilma, ao contrário, seria irascível, implacável, características masculinas detidas por ela, mulher fora do lugar que ocupa um lugar de homem, lugar de Aécio. Ela não se arrepende de nada feito em seu governo. Mas, desde quando a arena política é lugar religioso de arrependimento? O campo da ação política é espaço de compromissos e responsabilidades, de assumir acertos e erros. Falávamos da vida pessoal de Aécio, de suas infrações de trânsito, de sua negativa para fazer o teste do bafômetro e, em resposta, ele saca da cartola uma associação religiosa de não-arrependimento por supostos erros no jeito de governar da adversária. Depois da estratégia deliberada de confundir o eleitor, o candidato pede que falem de "coisas sérias." É provável que ele ache que flagrá-lo numa blitz da Lei Seca não é coisa séria, pois ele pode tudo como Thor Batista e outros meninos mimados país afora.

Por fim, Aecim recorta e descontextualiza a fala de sua interlocutora. Ela não acredita que haja alguém acima da corrupção e acredita que todas as pessoas possam cometer corrupção. As frases são suficientemente explicativas, em síntese, ninguém está acima da lei, todas as pessoas que exercem função pública são passíveis de cometer erros e, responsáveis por eles, devem ser investigadas, julgadas e punidas, caso seja comprovada culpa. Ele sabe disso, mas manipula as palavras e tenta ludibriar o público com uma tirada generosa (sic): "eu vou dar à senhora a oportunidade de desculpar-se com os brasileiros por aquelas afirmações." O rapaz do Rio, digo, de Minas, quer vender a imagem de magnânimo, daquele que oferece à sua opositora a chance de ser humilde, de desculpar-se. Mas, desculpar-se pelo que, mesmo? Aécio dá a entender que as pessoas que escrutinam sua vida particular, descobrem e publicam seus podres estão invadindo fronteiras de um castelo inexpugnável. Ele acha que está acima da corrupção, tem caráter inquebrantável e honradez que só um Aécio pode ter.

Está errado, menino mimado! O feminismo nos ensinou que o pessoal é político. Que os homens "de bem”, como o professor uspiano que no início dos anos 80 espancava a mulher em casa e depois seguia lépido para a filosofança na maior universidade da América Latina, como Dado Dolabella, como políticos diversos, não podem agredir mulheres, torturá-las e matá-las, como fez Pimenta Neves, como se isso fosse normal e aceitável, porque são homens brancos e detentores de prestígio social, seja pelo dinheiro, pela intelectualidade ou pela exposição na mídia (produção da mídia), para além da brancura. O feminismo e a coragem das mulheres que denunciaram nos ensinaram isso.

Algum assessor precisa avisar a Aécio que, caso tivesse tido comportamento decente diante do mal estar de Dilma, pós debate no SBT, ao invés de ironizar sua fragilidade física temporária, teria conquistado votos e boa vontade de indecisos para sua candidatura. O problema é que essa performance ele não treinou, tampouco tem elementos para executá-la, buscados de algum reservatório perdido de valores humanos. Ele é apenas uma velha raposa, pronta a destroçar a presa se ela titubeia.

Mas, nós, mulheres, sabemos o lugar onde homens como Aécio querem nos colocar ao nos dar ordens, ao nos chamar de levianas, ao empinar o dedo mandão enquanto falam conosco. O machismo, o racismo e a homofobia apoiam Aécio, estão a seu lado: Olavo de Carvalho, Malafaia, Lobão, Feliciano, Alexandre Frota, Dado Dolabella, Bolsonaro, Pastor Everaldo, Fidélix, Carlinhos Cachoeira, Aloysio Nunes, abençoados por Marina e estranhamente referendados por Luís Mott. Às mulheres, à exceção de Sandra de Sá, ele não engana. Ou não, já que “vale tudo, só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher, o resto, tudo vale!” Contudo, em que pesem os mistérios humanos, as contradições, oportunismos, síndrome do escravizado e idiossincrasias, perdeu, playboy! Perdeu!

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lágrimas de homem abalam o machismo no futebol. E o racismo? Voa impávido em céu de brigadeiro

por Cidinha da Silva*

As lágrimas dos jogadores brasileiros pressionados pelo terror de serem eliminados da Copa das Copas ainda nas oitavas de final incomodaram muita gente. A fragilidade dos homens, quando exposta de formas convencionadas como algo característico das mulheres, neste caso, o choro copioso em situação de tensão e desespero, mexe com as estruturas enrijecidas de muita gente. Para o bem e para o mal.

Há os que se sentem incomodados porque, em síntese, acreditam que homens são machos e não devem chorar, dentre outros motivos, porque o choro denota fraqueza e os jogadores (de futebol) estão em campo como soldados para guerrear. Outros (bem poucos) defendem o choro como expressão válida de sentimentos, como válvula de escape legítima ao alcance dos canais lacrimais de todo ser humano, inclusive dos homens, humanos também. Afinal, ninguém quer passar à História com as marcas da derrota e do fracasso.

A mídia esportiva, os atletas e o espírito de novo-rico da maioria, amadurecerão muito se mergulharem profundamente na potencialidade curativa do choro. Lágrima é palavra abafada que escapa quando a maré dos olhos vaza e derrama pela face proteínas, sais minerais e gordura que lubrificam e limpam os olhos, retiram véus, diminuem a acidez e, na situação desses homens-atletas, resgata a humanidade do filme da vida vivida antes de chegar à riqueza e à fama, que pesa sobre os ombros.

O choro da Seleção Canarinho balança os pilares do machismo mais evidente, tal qual o canto do pássaro pode tocar os corações mais duros. Entretanto, a dor, a humilhação e a angústia deflagrados nas pessoas-alvo do racismo estão longe de comover os corações daqueles brasileiros que se consideram macacos, transbordantes de orgulho e “amor” nos versos cantados na arquibancada.

O capitão da Colômbia foi vaiado ostensivamente depois de ler discurso da FIFA instando todos os fãs de futebol a combaterem a discriminação racial nos campos e fora deles. Em meio aos emissores da vaia não há número significativo de negros e quando a elite branca predominante no estádio é adjetivada, a elite branca de fora (da mídia hegemônica, da indústria das celebridades e do entretenimento, das rodas intelectuais, dos blogues descolados) sente-se incomodada e vai a campo em defesa própria. Não, não somos racistas! Racismo é coisa dos Estados Unidos que os colonizados negros brasileiros querem importar. Quanto às crianças brancas que entram de mãos dadas aos jogadores em todos os jogos da Copa das Copas, é lógico que não temos culpa de serem todas brancas. Aliás, não vemos problema nisso, como não existe problema também de serem brancos os torcedores que enchem os estádios desde a Copa das Confederações.

Por outro lado, a crescente presença de jogadores negros nas seleções da França, Bélgica e Holanda, fortalece a velha máxima de que “o negro é bom de bola” e por isso está quase superando os brancos em seleções tradicionais europeias. Do lado de cá, atentamos para os nomes e sobrenomes desses jogadores, nascidos nas colônias em África e Caribe ou filhos de migrantes africanos e caribenhos e, por contingência, devido a essa contingência gerados nos países brancos. Pobres, majoritariamente, que, como os outros negros diaspóricos e africanos têm no futebol, ao qual dedicam a vida desde crianças, rara possibilidade de ascensão social. Assim se manifesta e se perpetua a versão mais palatável do racismo.

A versão mais dura, tão cotidiana quanto a primeira, manifestou-se após a agressão de Juan Camilo Zúñiga, lateral-direito da Colômbia, ao brasileiro Neymar, levando-o a fraturar uma vértebra. Atitude totalmente condenável e passível de grave punição por prática antidesportiva, num jogo em que o Brasil também bateu muito e o árbitro foi conivente com as agressões que correram a solto pelos dois lados. Em sua defesa, Zúñiga argumentou que o lance infeliz não passou de uma jogada normal e sem intencionalidade de machucar. Sim, “normal” no escopo da violência reinante no jogo, mas não na prática do futebol.

A crítica, a ira e a revolta dos torcedores tupiniquins foram deslocadas da violência praticada por Zúñiga para sua condição de homem negro. Insultos racistas e ameaças de morte foram dirigidos a ele e à mãe nas redes sociais. Xingamentos de ordem sexual foram impingidos à mãe e à filha de dois ou três anos, ameaçada também de estupro. Um show de horror racista, feminicida e pedófilo.

De todo o episódio salvam-se as atitudes exemplares de David Luíz. Alguém disse que ele é bom atleta e bom samaritano. É verdade. Ele está na contramão do evangelho do marketing pessoal. Pratica valores como a humildade, a integridade, o respeito, a compaixão, do modo ensinado pela tradição africana, a pedagogia do exemplo. Em um contexto de negação de aproximações com África, David Luíz reafirma a origem da cabeleira crespa de um homem socialmente branco. Em entrevista à TV colombiana, junto com James Rodriguez, adversário derrotado e amparado por ele, o menino dos cachinhos crespos de ouro, em bom portunhol, explicou que a garotada tem como modelo o cabelo dos jogadores famosos, mas isso não deve bastar aos musos que, por sua vez, devem também procurar se mostrar como homens grandiosos para inspirar os garotos pelos bons exemplos e firmeza de caráter.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Eu, machista?

por Celso Vicenzi*

Pesquisa recente do Inter-Parliament Union, sobre as mulheres no Parlamento, mostrou que o Brasil aparece apenas na posição 125, entre 150 países. Na Câmara Federal, dos 513 parlamentares, apenas 44 são mulheres. No entanto, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral de dezembro passado, 52% do eleitorado é feminino. Há mais candidaturas masculinas, mas, ainda assim, não faltam mulheres para serem votadas. O que explica, então, tamanho descompasso?

Nas prefeituras, o problema se repete. As mulheres são prefeitas em apenas 12% dos 5.570 municípios do Brasil. No Sul do país a situação é ainda pior. O Rio Grande do Sul e Santa Catarina – quem diria! – são os estados com o menor percentual de prefeitas eleitas. Apenas 37 cidades gaúchas elegeram prefeitas, ou seja, 7,44% do total. Santa Catarina vem em segundo, com 7,79%.

Isso prova que o machismo ainda está muito enraizado na sociedade brasileira. Com dupla ou tripla jornada de trabalho, além de outros fatores, a atividade política é muito difícil para uma mulher casada, por exemplo. E mesmo quando ela consegue vencer essas barreiras, não recebe o voto de confiança da maioria das mulheres. E dos homens!

Claro, você e eu não somos machistas! Ou, pelo menos, achamos que não, embora a probabilidade não esteja ao nosso lado.

Na melhor das hipóteses, se não somos machistas, somos péssimos em matemática. Pesquisa da Expertise informa que 75% dos brasileiros percebem a nossa sociedade como machista. No entanto, quando solicitados a fazer uma autoavaliação, apenas um terço dos homens entrevistados admite ser machista ou “um pouco machista”. Conclusão: a conta não fecha, o problema é sempre o outro.

Resultado dessa cultura patriarcal que há milênios domina o mundo, o machismo é incorporado também por muitas mulheres, que reproduzem os valores mais conservadores. Isso torna o problema da representação política ainda mais complexo. Votar em uma mulher não é garantia de que ela defenderá, por exemplo, avanços na luta feminista. Mas é fato que, quanto mais equilibrado estiver o Parlamento em relação à representação política, de gênero, de classe, de etnia, dos mais diferentes segmentos da sociedade, mais aumentam as chances de que as demandas específicas de cada grupo social possam ser legitimadas e acolhidas em novas leis, novos costumes, fazendo avançar a democracia.

Admitir a existência de um problema é o primeiro passo para a resolução. Não é fácil, pois todos nós construímos uma boa imagem – necessária – de si. Mas quando todos esses dados apontam numa mesma direção, fica difícil negar.

Eu, machista?

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Macho do tipo "casca grossa"


por Alexandre Luzzi*

O que significa ser homem? Será que nascemos homem? Como alguém se transforma em um sujeito de gênero? A relevância dessas perguntas se torna óbvia, na medida que todo preconceito relacionado às questões de gênero se fundamenta na concepção de que as características biológicas são suficientes para definirmos se é “menino” ou “menina”. Ou seja, qualquer opção de identidade de gênero que não se identifique com as características biológicas do sexo é considerada, portanto, um desvio da norma.

A filósofa Simone de Beauvoir afirmou, por exemplo, que “ninguém nasce mulher: torna-se uma”. A estória de Sísifo pode nos ajudar a pensar a questão.
“Sísifo desce correndo as escadas de sua casa, passa pela sala onde encontra seu pai dormindo no sofá, vai até a rua e observa uma cena espantosa: uma mulher dando pedras de alimento para um cachorro cego, desses bem agressivos da raça Pitbull. O rosto da mulher era familiar, no entanto, não lembrava exatamente de onde a conhecia”.
De repente sua mãe entra no quarto, como quem entra na alma de alguém sem pedir licença. Sísifo acorda de seu sonho com uma estranha sensação: uma mistura de medo com dor na “boca do estômago”.

O rapaz de vinte e nove anos sempre teve a impressão de carregar as pessoas internamente, nos seus órgãos corporais, e esse sonho, recorrente, deixava isso cada vez mais claro. Talvez não há a possibilidade de pensarmos a questão da identidade sem situá-la no espaço “entre-dois” de uma intensa relação afetiva. Nosso “Eu” constrói-se ao mesmo tempo que se esparrama pelo mundo, assim como os outros “Eus”, significativos para cada um de nós, são interiorizados e se instalam em nosso corpo.

Sísifo era um professor de artes marciais e toda sua vida foi marcada pelos imperativos do movimento e da luta. Com anos de prática construiu um corpo forte e musculoso. A imagem adequada ao seu ideal de masculinidade.

No ambiente das artes marciais os pontos de sustentação da masculinidade são facilmente reconhecidos. Mais homem é aquele que sabe lidar com as dores físicas. É o mais corajoso e agressivo, aquele que não tem medo da luta. Mesmo em uma derrota, os lutadores que suportam os piores castigos sem desistir eram considerados grandes guerreiros. Já aqueles que não conseguiam passar por cima da própria dor e superar seus medos são considerados “frouxos” [expressão utilizada com frequência].

Para se enquadrar nesse padrão, Sísifo suportava todo tipo de carga nos seus treinamentos. Sua força física externava sua própria fraqueza na inabilidade de lidar com suas emoções. A apatia e a falta de movimento em seu mundo emocional eram simbolizadas no excesso de movimento corporal. Assim, Sísifo não conseguia parar de lutar. Na luta sempre teve um desafio maior do que os seus oponentes: aprender a lidar e canalizar a raiva, outra emoção que afetava de forma indelével seu corpo.

Em sua personalidade e mesmo na aparência física, poucas coisas lembravam seu pai, um sujeito muitas vezes considerado por Sísifo como um ilustre desconhecido. As influências dos homens por parte da família de sua mãe eram mais visíveis, em especial uma: seu padrinho Paulo Honório.

Paulo Honório tinha como matriz de sua subjetividade masculina todo o peso do século XIX mesmo vivendo no século atual. O domínio sobre a mulher e o poder absoluto do proprietário sobre suas “posses” materiais e humanas sustentavam sua masculinidade.

E Sísifo cresceu ouvindo a mitologia dos feitos de seu padrinho como as brigas nos campos de futebol, as conquistas e romances com inúmeras mulheres, seu empreendedorismo e sua força de fazer valer o seu desejo. Para um garoto que aprendeu a se reconhecer no espelho do olhar da mãe como o eleito, um ser completamente especial, a identificação com os feitos de seu padrinho eram muito mais atrativas do que a personalidade mais calma e serena do pai.

Assim Sísifo foi construindo-se como sujeito (subjectum, assujeitado), na identificação com mestres de luta onde a expressão da força e da destreza físicas eram símbolos de uma masculinidade ideal. Assim como na identificação com Paulo Honório: um homem que transformava a arte da convivência em um ato violento, pelo seu desejo implacável de moldar o outro.

Mas entre o ideal e o real há sempre um abismo onde a descida é dolorosa e assustadora. Para evitá-la, Sísifo recorria à utilização de drogas, estimulantes e anabolizantes, transformando seu corpo em uma "casca grossa", afastando-se cada vez mais de seu mundo emocional e recusando-se a encarar a luta de lidar com tudo que está aquém do ideal, no caso, o peso da angústia de existir.

Sem consciência do fardo que carrega, como um cachorro cego que cheira carniça e sente-se diante de um banquete, há poucas chances do herói absurdo reconstruir sua subjetividade e se tornar protagonista de sua própria história.

Ao anoitecer, depois de mais um dia com uma carga excessiva e extenuante de treino Sísifo adormece. No meio da noite acorda assustado com uma sensação de medo tomando seu corpo e se instalando novamente no estômago. Quando a consciência vai assumindo seu lugar, Sísifo se lembra do seguinte sonho: 
“Dentro de um tribunal, um juiz com dimensões enormes e com um aspecto de um Deus mitológico, condena-o para um trabalho forçado. Sísifo fora condenado por um crime que ele não tinha consciência se havia cometido ou não. Sua sentença: carregar uma rocha enorme e pesada até o cume de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso, um trabalho inútil e sem fim.”

* * * * * * * *

Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Tony Porter: um chamado (necessário) para os homens

“Nos ensinavam que homens precisam ser valentes, fortes, precisam ser corajosos, dominantes. Sem dor, sem emoções (...) e definitivamente sem medo. Que os homens estão no comando, e isso significa que as mulheres não.”
Tony Porter é cofundador da organização “A Call to Men - Commited to Ending Violence Against Women” (em português, algo como “Um chamado para os homens - compromisso com o fim da violência contra as mulheres”).

Ele deu uma palestra no Ted (no vídeo abaixo) muito interessante - e corajosa. Tony conta histórias fortes sobre sua infância e sobre a educação que deu aos filhos (um menino e uma menina) relatando a diferença com que tratava os dois.
 “Quando eles tinham cinco ou seis anos, (o menino é um ano mais velho que a menina), Jay vinha até mim chorando. Não importava o porquê ela chorava, ela podia sentar no meu colo, assoar o nariz na minha manga (...). Mas Kendall, por outro lado (...), ele vinha chorando, e no momento que eu o ouvia chorar o cronômetro ligava. Dava ao garoto cerca de 30 segundos, o que significava que quando ele chegava eu já estava dizendo ‘por que está chorando?’”
Tony ajuda a entender porque a educação que costuma ser dada aos homens - tantos ensinamentos machistas - pode causar (e provavelmente vai) o desrespeito e a violência contra a mulher.

Diz Tony, em outro trecho da palestra.
“Quando se diz que mulher tem menos valor, são propriedades dos homens, são objetos, particularmente objetos sexuais. Mais tarde descobri que essa era a socialização coletiva dos homens, mais conhecida como a ‘caixa do macho’. A caixa de macho tem todos os ingredientes do que significa ser um homem. Antes quero dizer, sem dúvida alguma, que há coisas maravilhosas, muito boas mesmo, em ser homem. Mas ao mesmo tempo existem algumas coisas que estão erradas.”
É muito importante que falas como a de Tony Porter sejam ouvidas e tenham repercussão. Nos faz pensar, nos faz compreender muita coisa e nos ensina. O vídeo tem 11 minutos, mas parece que tem 3. Não é chato, não é maçante e pode fazer muita diferença.

É por esse tipo de coisa que acho importante que a gente não queira ser “normal” como escreveu a jornalista Eliane Brum num artigo recente.




Natalia Mendes é jornalista, colunista do NR

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Brasília também abraça as "vadias" em marcha

Imagens e texto de Manaíra Lacerda e Rodrigo Mendes de Almeida
(De Brasília, para o Nota de Rodapé)

Foi o que se pode chamar de uma grata surpresa. Contamos facilmente algo mais que 800 pessoas para a versão brasiliense da Marcha das Vadias. Ao chegarmos ao local, nem sabíamos se seria fácil achar a manifestação, já que, nas nossas cabeças, ela estaria diminuta. Mas que nada. De longe começamos a ouvir os apitos, carregados pelo vento, já que na topografia plana do Planalto Central, o som alcança bem longe.

Uma marcha de deixar feliz quem foi participar. Tocando na ferida, como tem sido a recente onda de mobilização de “vadias”. O grande questionamento é contra o machismo que responsabiliza a vítima por um crime cometido contra ela – no caso, bota na mulher que é estuprada a culpa pelo crime.

Saiba mais:

A discussão é avançada, e a grande penetração que teve mostra que pelo menos uma parte da sociedade está avançando nesse debate. E vai impor o tema como pauta. Uma das boas surpresas foi ver homens abraçando o manifesto que aconteceu da forma mais pacífica possível, ou seja, sem nenhuma violência. Tanta tranquilidade que pôde até ser chamada do que muitos conhecem como "programa de família". Crianças e até cachorros estavam no meio da multidão, divertidos com o sábado diferente.

Uma tropa da polícia militar acompanhou todo o percurso, que começou perto da rodoviária de Brasília e foi até a Torre de TV debaixo de um sol escaldante. Para quem não conhece a capital brasileira, a distância é algo em torno de 3 km. Lembrando: sob o sol e a seca desta terra vermelha.

Mesmo com as intempéries, a manifestação fez surgir muitos sorrisos de gente satisfeita por estar fazendo algo que, talvez, possa mudar os rumos de uma sociedade machista.

domingo, 5 de junho de 2011

SlutWalk SP: um grito diversificado contra o machismo

Aconteceu ontem, 4 de junho, a primeira Marcha das Vadias em São Paulo (versão brasileira da SlutWalk), com cerca de 300 participantes - pode parecer pouca gente, mas foi bonita e forte.
Cartazes com frases como: “Respeito é sexy, machismo brocha” e “Sou mulher, não sex toy” eram carregados entre a cantoria e a batucada. Muita gente fotografando, filmando, registrando. Por onde passava a marcha, era possível notar olhares curiosos de pedestres, comerciantes e moradores da região.

Jovens, velh@s, homens, mulheres. Homem vestido de mulher, mulher com adesivo “periguete”, mulheres com roupas “provocantes”, mulheres com roupas mais “discretas” e protegidas do frio, ou até mesmo quase sem roupa andavam junt@s.

Mulher diz não é "pedaço de carne"
Eram manifestantes com perfis diferentes e que, mesmo se tratando de um assunto tão sério, se mantiveram sorridentes e animad@s. Defendiam em alto e bom som o direito de se vestirem como quiserem e convidando quem observava a “ir pra rua contra o machismo”.

A Marcha, que tinha como principal objetivo questionar a ideia de que vítimas de violência sexual tem culpa por serem violentadas, começou na av. Paulista e desceu a rua Augusta até a porta do clube de comédia dos CQCs Rafinha Bastos e Danilo Gentili.

“Machismo mata,
estupro não é piada”


Rumo ao Comedians, na rua Augusta.
O destino foi escolhido por causa de uma “piada” contada por Rafinha Bastos, durante uma de suas apresentações de stand up, na qual afirma que estupro de mulher feia “é uma oportunidade” e que o estuprador “não merece cadeia, merece um abraço”. Segundo o amigo e sócio, Danilo Gentili, a piada é contada há anos, mas só ficou mais conhecida depois de uma matéria com o perfil do apresentador.

“A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria”, “Preste atenção, o corpo é meu, a minha roupa não é problema seu”, cantavam @s manifestantes, que, ao chegarem na porta do Comedians, emendaram “Me processa, Tas”, em referência à ameaça de processo que o apresentador Marcelo Tas fez a blogueira feminista Lola.
Ponto final: cartazes em protesto

Um dos policiais que fazia a escolta ficou curioso como os comentários e cartazes que criticavam Rafinha Bastos e perguntou “qual deles é o Rafinha”. Depois quis saber qual tinha sido a piada. Quando contei, fez uma cara de indignação e afirmou com firmeza “Vocês têm razão”.

Já começaram a ser organizadas mais Marchas em outras cidades, como Brasília e Belo Horizonte.



Natalia Mendes é jornalista
(Imagens/Vídeo de Thiago Domenici/Natalia Mendes)
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