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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 21 de outubro de 2014

O macho branco, heterossexual, rico e mandão se manifesta em pelo na corrida presidencial

por Cidinha da Silva*

As habilidades comunicacionais do candidato Aécio Neves constituem areia movediça que traga muitos desavisados. O discurso é escorregadio e generalista, alicerçado no apelo fácil à panaceia do governo de integração nacional, aquele que serviu a Juscelino, a Tancredo, a Sarney, a Collor e a Itamar. O que elimina os conflitos e se apresenta como salvador da pátria, pacificador e unificador.

"Ninguém é dono desse Brasil", ele apregoa, na tentativa de mobilizar o telespectador para suas fileiras. "Precisamos de gente séria, honrada... Eu vou fundar a nova escola brasileira!" Aécio procura frases de efeito e agrega assuntos desconexos - o que o Brasil precisa e o que ele, o salvador da pátria pretende fazer. É o discurso apelativo do macho-dono-da-verdade.

Aécio começa sempre como bom moço, professoral, paladino da justiça, dos bons costumes, da moral, da ética. Veste a mesma roupagem dos bem-nascidos como ele. À medida que o debate esquenta e aparecem as evidências da compra de votos para aprovar a reeleição de FHC, da privataria tucana, do desvio de dinheiro público nas obras do metrô e trens de São Paulo, do nepotismo no governo mineiro, cai a pele de cordeiro e emergem os olhos sagazes e o pelo lustroso de velha raposa.

A todas as acusações, às provas incontestes, devidamente arquivadas, Aécio chama de mentiras e responde simplesmente que, "se as pessoas estão soltas é porque não foram condenadas". Ele omite o quanto e como sua trupe operou para que as pessoas de seu partido, o PSDB, e outras sob sua proteção e mando não fossem investigadas.

"A senhora prevaricou!" Ele grita para a Presidenta Dilma Rousseff, lançando mão de palavra técnica que, no imaginário popular recebeu conotação sexual, sabe-se lá porque cargas d'água. Logo, aquele público pouco escolarizado que o assiste, chamado por FHC de ignorante, pode imaginar, a partir da acusação de Aécio, que a acusada está envolvida em temas sexuais duvidosos. A escolha da palavra não é mera tecnicalidade, ele sabe onde quer chegar e que ponto do eleitorado, principalmente do setor machista, quer atingir.

Aécio mente, des-ca-ra-da-men-te e, assim como acabei de fazer no texto escrito, com o objetivo de chamar a atenção dos leitores que me acompanham, separa as palavras em sílabas, enquanto fala, para chamar a atenção de seus ouvintes. É um recurso que funciona muitas vezes, embora ele o utilize em demasia, tornando-o enfadonho.

Seu discurso está alicerçado em bravatas. Ele assegura, por exemplo, que o PT votou contra a redemocratização do país. Na verdade, refere-se à debandada de Tancredo e seus seguidores para a eleição no Colégio Eleitoral, enquanto o PT se manteve firme, partidário das eleições diretas. Lembro-me do último comício pelas Diretas em MG, na praça Rio Branco (praça da rodoviária) em Belo Horizonte, quando, para frustração geral da audiência, lá, no último comício pelas Diretas, ouvimos Tancredo anunciar a inexorabilidade da eleição no Colégio Eleitoral. Depois, foi só acompanhar pelos jornais a campanha e articulação do PMDB pela eleição de Tancredo.

Aécio mente ao dizer que Lula e Dilma foram contra a construção de escolas técnicas no Brasil, é só observar os números: no governo Sarney foram construídas treze escolas técnicas; no governo Collor, três; no governo Itamar, vinte e sete; no governo FHC, onze; no governo Lula (em 8 anos), 355, isso mesmo, trezentas e cinquenta e cinco; por fim, no governo Dilma, 208, isso mesmo, duzentas e oito. Mas, o netinho do vovô acha que ao manipular a palavra pode fazer o mesmo com os dados e com a opinião pública. Ledo engano! Rude ilusão.

Dois assuntos o tiram do sério, além dos questionamentos a seus desmandos administrativos e política de compadrio, as drogas (lícitas e ilícitas) e a boataria de que é usuário, bem como os aeroportos construídos com dinheiro público em fazendas de familiares seus, localizadas em pequenas cidades do interior de Minas e suspeitos (os aeroportos) de fazerem parte de uma rota internacional de tráfico de drogas. O transtorno obsessivo arrebenta seus nervos, ferida, a velha raposa ataca. Curiosa é a forma do ataque-defesa: "a senhora (dirigindo-se à Presidenta Dilma) está desrespeitando Minas Gerais com as mentiras acharcadas nas redes anonimamente. A senhora tem permitido ao Brasil ver o mais baixo nível de campanha presidencial." Do que falávamos mesmo? Conversávamos sobre o uso de drogas lícitas e ilícitas, sobre a construção de aeroportos privados com dinheiro público levada a cabo por um indivíduo, por acaso, mineiro, candidato à Presidência da República! O que isso tem a ver com Minas Gerais? Por que devemos nos submeter ao hábito despótico de um adolescente mimado de substituir parte, ou seja, um mineiro no exercício da função pública, acusado de corrupção, nepotismo, má administração, desmandos e censura à imprensa, entre outras acusações, pelo todo, o estado de Minas Gerais?

Aecim não responde, ele está acima da necessidade de respostas e justificativas, seu todo-poder não comporta explicações. Ele continua a performance arrogante: "quando vou à sua cidade, Porto Alegre, quando vou à minha Belo Horizonte...", determina a cidade de Dilma no sul do país, buscando afastá-la do Curral Del Rey, a Belo Horizonte de nascimento de Dilma. É sabido que a Presidenta saiu de lá para viver na clandestinidade, perseguida pela ditadura civil-militar que Aécio chama significativamente de "revolução", como de resto, toda a direita. É Aécio, o mineiro-mor, o mais mineiro dos mineiros, o dono da sesmaria, que se arvora a outorgar (ou não) o atestado de pertencimento político ou afetivo a Minas Gerais. Mais adequado seria que Aécio dissesse "o meu Rio de Janeiro", cidade-base de onde governava Minas.

Ele não desiste, é teimoso, quer vencer a interlocutora e a audiência pelo cansaço, pela repetição de uma ideia à exaustão: "vamos deixar os mineiros em paz, candidata (referindo-se às admoestações que Dilma impinge a ele, um reles mineiro, que se acha "o mineiro"). Os mineiros sabem o que fazem. Vamos discutir o Brasil, Candidata"... Minas Gerais e seus políticos, como rebentos e netos da política de cabresto estariam acima do Brasil e de qualquer inquirição. Aecim inventou o planeta-Minas, ou não, talvez ele trate apenas de galvanizar o tal sentimento de mineiridade, conclamando os cidadãos (já que ele só enxerga as mulheres de maneira subalternizada) a posturas xenófobas contra Dilma, uma "de dentro" que ele, o todo-poderoso, alcunha como alguém "de fora". Incansável no objetivo de convencer os ouvintes de uma ideia (característica fundamental dos que dominam a oratória), Aecim lança mão da ironia mordaz e pode desconsertar um interlocutor que não goze do mesmo jogo de cintura: "quem ligar a televisão desavisadamente vai achar que a senhora quer disputar o governo de Minas ou a prefeitura de Belo Horizonte. Talvez a senhora queira, desempregada a partir de primeiro de janeiro, ser candidata ao governo de Minas, aí a senhora terá tempo para discutir Minas Gerais." Enquanto isso, deixe meu curral em paz.

Quando confrontado com função de censora da imprensa mineira atribuída à sua irmã, durante todo o governo, pressionando jornalistas, jornais e revistas, para que não criticassem o governador, tampouco expusessem os bastidores dos negócios de governo, Aécio utiliza outras frases de efeito para tentar jogar a audiência contra sua oponente: " a senhora está mentindo para o Brasil! Minha irmã Andréa, de quem tenho muito orgulho (vejam como ele é um maninho amoroso), assumiu o cargo de voluntariado, cargo que as esposas dos governantes geralmente ocupam." É uma frase carregada de sentidos. Tem-se a informação de domínio público que Aécio vivia agitada vida de solteiro, que, durante a posse, como governador, foi acompanhado pela filha, então adolescente. Por que? Porque exercia o sagrado direito concedido aos homens heterossexuais de viver sua sexualidade em plenitude com diferentes mulheres, mas, na hora das coisas sérias, convoque-se a filha, convoque-se a família, o lado A dos "homens de bem." Não esqueçamos do componente de comiseração que um homem solteiro provoca, pois, coitadinho, não tem uma mulher para cuidar dele. Sorte de Aécio que tem a irmã, uma super cuidadora. Mas, o mais capcioso da frase explicativa dirigida à Presidenta é deixar subentendido que: 1 - função de mulher é ser primeira dama; 2 - a irmã dele exerce uma função típica de mulher, ao contrário da Presidenta que exerce uma função destinada aos homens, destinada a Aécios.

Em tom laudatório, professoral e pretensamente definitivo, Aecim se recompõe: "vamos tentar novamente falar de futuro em homenagem e respeito ao telespectador que nos ouve agora. Vamos elevar o nível do debate, candidata". Então, na primeira de três vezes que se seguirão, Aecim dirige-se aos motoristas de automóveis que provavelmente estão ouvindo o debate presidencial que ocorre às seis da tarde pelo rádio do carro. Para ele, inexiste a maioria dos trabalhadores brasileiros e da população que naquele momento está apertada no transporte público, nos trens, ônibus, metrôs. Essas pessoas, nos governos Lula e Dilma puderam comprar celulares de última geração, tablets, smartphones e usam esses aparelhos enquanto se deslocam para casa e para o trabalho. Mas, ele não as menciona porque elas não existem para o PSDB, são apenas votos, logo, não são lembradas, tampouco citadas de maneira natural, como os usuários de carros, helicópteros, jatinhos e aeroportos privados.

Outra vez, perguntado sobre a Lei Seca criada em 2012 para coibir a circulação de motoristas embriagados ou sob efeito de drogas, Aécio se desequilibra. Para quem não sabe, ele foi parado em blitz da Lei Seca no Rio de Janeiro e recusou-se a fazer o teste do bafômetro. A resposta dada tenta inverter o vetor da acusação: "candidata, tenha a coragem de fazer a pergunta direta, a senhora traz para esse debate, talvez pelo desespero, um tema que tem que ser colocado com absoluta clareza..." Só no planeta de Aécio, provavelmente, alguém que esteja "desesperado" tem racionalidade para propor temas que devem "ser discutidos com absoluta clareza." Esse tipo de prática é, ao contrário, de quem tem lucidez, de quem pensa e não tem os neurônios comprometidos por essa ou aquela substância química. Aecim continua: "eu tive um episódio em que parei numa Lei Seca porque minha carteira estava vencida e ali, naquele momento, inadvertidamente não fiz o exame, me desculpei, me arrependi disso. A senhora não se arrepende de nada que fez em seu governo, diz enfático, é importante que nós olhemos pra frente, vamos falar do Brasil, vamos falar de coisas sérias, não é possível que a senhora abaixe tanto a campanha. Quando a senhora ofende a mim e a minha família, ofende todos os brasileiros que querem mudança."

Aécio tenta conquistar a empatia do eleitor fazendo-se de frágil e flexível na esfera pessoal, vejam, ele erra, é humano, pede desculpas, ainda mais, arrepende-se dos erros cometidos. O arrependimento é artifício cristão pescado para evidenciar suposta pequeneza humana e mobilizar os corações fraternos e solidários. E Dilma, ao contrário, seria irascível, implacável, características masculinas detidas por ela, mulher fora do lugar que ocupa um lugar de homem, lugar de Aécio. Ela não se arrepende de nada feito em seu governo. Mas, desde quando a arena política é lugar religioso de arrependimento? O campo da ação política é espaço de compromissos e responsabilidades, de assumir acertos e erros. Falávamos da vida pessoal de Aécio, de suas infrações de trânsito, de sua negativa para fazer o teste do bafômetro e, em resposta, ele saca da cartola uma associação religiosa de não-arrependimento por supostos erros no jeito de governar da adversária. Depois da estratégia deliberada de confundir o eleitor, o candidato pede que falem de "coisas sérias." É provável que ele ache que flagrá-lo numa blitz da Lei Seca não é coisa séria, pois ele pode tudo como Thor Batista e outros meninos mimados país afora.

Por fim, Aecim recorta e descontextualiza a fala de sua interlocutora. Ela não acredita que haja alguém acima da corrupção e acredita que todas as pessoas possam cometer corrupção. As frases são suficientemente explicativas, em síntese, ninguém está acima da lei, todas as pessoas que exercem função pública são passíveis de cometer erros e, responsáveis por eles, devem ser investigadas, julgadas e punidas, caso seja comprovada culpa. Ele sabe disso, mas manipula as palavras e tenta ludibriar o público com uma tirada generosa (sic): "eu vou dar à senhora a oportunidade de desculpar-se com os brasileiros por aquelas afirmações." O rapaz do Rio, digo, de Minas, quer vender a imagem de magnânimo, daquele que oferece à sua opositora a chance de ser humilde, de desculpar-se. Mas, desculpar-se pelo que, mesmo? Aécio dá a entender que as pessoas que escrutinam sua vida particular, descobrem e publicam seus podres estão invadindo fronteiras de um castelo inexpugnável. Ele acha que está acima da corrupção, tem caráter inquebrantável e honradez que só um Aécio pode ter.

Está errado, menino mimado! O feminismo nos ensinou que o pessoal é político. Que os homens "de bem”, como o professor uspiano que no início dos anos 80 espancava a mulher em casa e depois seguia lépido para a filosofança na maior universidade da América Latina, como Dado Dolabella, como políticos diversos, não podem agredir mulheres, torturá-las e matá-las, como fez Pimenta Neves, como se isso fosse normal e aceitável, porque são homens brancos e detentores de prestígio social, seja pelo dinheiro, pela intelectualidade ou pela exposição na mídia (produção da mídia), para além da brancura. O feminismo e a coragem das mulheres que denunciaram nos ensinaram isso.

Algum assessor precisa avisar a Aécio que, caso tivesse tido comportamento decente diante do mal estar de Dilma, pós debate no SBT, ao invés de ironizar sua fragilidade física temporária, teria conquistado votos e boa vontade de indecisos para sua candidatura. O problema é que essa performance ele não treinou, tampouco tem elementos para executá-la, buscados de algum reservatório perdido de valores humanos. Ele é apenas uma velha raposa, pronta a destroçar a presa se ela titubeia.

Mas, nós, mulheres, sabemos o lugar onde homens como Aécio querem nos colocar ao nos dar ordens, ao nos chamar de levianas, ao empinar o dedo mandão enquanto falam conosco. O machismo, o racismo e a homofobia apoiam Aécio, estão a seu lado: Olavo de Carvalho, Malafaia, Lobão, Feliciano, Alexandre Frota, Dado Dolabella, Bolsonaro, Pastor Everaldo, Fidélix, Carlinhos Cachoeira, Aloysio Nunes, abençoados por Marina e estranhamente referendados por Luís Mott. Às mulheres, à exceção de Sandra de Sá, ele não engana. Ou não, já que “vale tudo, só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher, o resto, tudo vale!” Contudo, em que pesem os mistérios humanos, as contradições, oportunismos, síndrome do escravizado e idiossincrasias, perdeu, playboy! Perdeu!

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Quando a palavra seca

por Cidinha da Silva

Tudo perde o sentido quando uma mulher negra, moradora de favela, baleada no pescoço, pende de um porta-malas e tem o corpo arrastado pelas ruas do centro do Rio. Transeuntes e motoristas buzinam, gritam, acenam, se desesperam, choram, lamentam, porém, os policiais que dirigem o carro não ouvem, não vêem, não param. Não param. Não param.

As palavras humanidade, respeito, dignidade, cidadania, vida, direitos, sonhos, justiça, perdem o sentido. A gente perde as forças, a palavra, e míngua, como o texto seca diante de mais um caso de horror racista que não comoverá o mundo e ainda terá a dimensão racial esvaziada.

Perde-se o sono e não se sabe a fórmula do conforto para reencontrá-lo. Tudo perde o sentido. A vida perde a poesia. A condição humana é rebaixada a cada ação policial.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Ferréz: "o meu olhar é de guerra"

UMA CONVERSA SEM FRESCURA E EXPLOSIVA! 



Pouco antes de o país explodir com as jornadas de junho do ano passado, o Nota de Rodapé, em parceria com a Bonita Produções, colocou em prática projeto concebido meses antes: um programa de entrevistas para a internet - e, quem sabe, para a televisão - no qual a ideia central é que não exista assunto proibido com o entrevistado.

Chamamos a empreitada de NR conversa. A ideia aqui é levantar temas de relevância nacional, tabus ou não, que contribuam para o debate social e político mais amplo, que fuja, eis o grande desafio, da mesmice dos programas do gênero que estão disponíveis ao público.

Caricatura de Carvall Estúdio Saci 
Para a primeira conversa, convidamos o romancista, cronista e contista Reginaldo Ferreira da Silva, conhecido pela alcunha de Ferréz. O autor de Capão Pecado, Manual Prático do Ódio e Deus foi Almoçar é também o criador da 1daSul, que, além de ser uma marca de roupas e acessórios criada para os moradores da periferia, promove eventos e ações culturais na região do Capão Redondo, bairro onde mora, com forte influência do movimento hip-hop.

Durante o NR conversa, no Bar Tubaína, em São Paulo, numa tarde fria e chuvosa, Ferréz opinou com propriedade sobre temas como a polícia militar, aborto, maconha, maioridade penal, literatura, partidos políticos, corrupção e educação, sempre com a verve contundente de quem respira o dia a dia da periferia paulistana. Logo de início, ele provoca: “Costumo dizer que o meu olhar é de guerra. Hoje em dia, nos vivemos numa sociedade que ninguém quer se apegar a nada”. “Quem tem ponto de vista machuca, quem não tem, não causa nada. Tem coisas que você têm que tocar mesmo no assunto, porque o país virou um groselha, mano”. Uma entrevista sem frescura e explosiva. Esperamos que você goste e compartilhe. Mais do que isso: que sirva de reflexão. Aproveite!

Os jornalistas entrevistadores do programa são: Thiago Domenici, coordenador e editor do Nota de Rodapé, também da revista Retrato do Brasil; Moriti Neto, colaborador do NR e um dos editores da Rede Brasil Atual, e Marina Amaral, sócia-diretora da Pública, a primeira agência de jornalismo investigativo do país.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Qual a sua Geni?


por Fernanda Pompeu*

Faz trinta e seis anos, Chico Buarque compôs uma canção cuja letra conta de uma mulher que já foi namorada "de tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto. A rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos velhinhos sem saúde, das viúvas sem porvir." A cidade toda, ao vê-la, canta em coro um refrão: "Joga pedra na Geni! Ela é feita para apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!"

Um dia aterrissa um zepelim gigante na cidade. Seu comandante ameaça explodir tudo "com dois mil canhões". Mas ao ver Geni, ele se encanta e faz a proposta: se aquela formosa dama o servir, a população estará salva. Acontece que ela se recusa a dormir com o mandabala. Diz: "Prefiro amar com os bichos." O prefeito, o bispo, o banqueiro, o zé-ninguém imploram para Geni dar para o forasteiro e resolvido. A chamam de "Bendita Geni!"

Geni domina o asco e cede. "O homem se lambuzou a noite inteira até ficar saciado, e nem bem amanhecia partiu numa nuvem fria com seu zepelim prateado." A cidade foi salva pela mulher que todos desprezavam. Ela vê a aurora surgir e, por um momento, se sente uma heroína. Melhor, uma redentora! Até ouvir o coro dos cidadãos: "Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita para apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!"

Às vezes penso nas milhares de Genis que habitam ao nosso lado. Geni não é necessariamente uma mulher. Não é necessariamente uma prostituta. Ela pode ser o garoto gordinho que sofre bullying na escola. A adolescente lésbica enfrentando uma malta de machos. A menina negra coagida a alisar seus cabelos. A travesti morta a facadas numa esquina qualquer. O homem tão pobre que nem dinheiro sobra para andar de ônibus.

Ao olhar para as Genis, reflito também nos atiradores de pedras. Sujeito individual ou coletivo que sonha em fazer do mundo sua imagem e semelhança. Aquele que é contra o casamento homossexual, porque é hétero. Aquela que é contra as cotas raciais, porque nasceu branca. Aqueles que condenam os ateus, porque são de Jesus. Aquelas que falam mal das outras, porque são do bem. Qual a razão de um comportamento diferente ou minoritário ameaçar a maioria? Quem tem direito de impingir um jeito de viver sobre um outro jeito? Eu sei! Somos ótimos juízes da vida alheia e péssimos quando se trata da nossa. Mas, talvez, a canção do Chico Buarque seja uma oportunidade para nos revisarmos e, com algum esforço, eliminarmos ideias ortodoxas, fundamentalismos sufocantes. Viva e deixe o outro viver sem julgamentos e pedras pode ser a luz do farol a nos guiar entre rochedos.

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Incomode-se


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Há um incômodo novo me atazanando o juízo. Se estou lendo, dirigindo, cozinhando ou acordada no meio da noite, ela me aparece e demora para ir embora. Desde que tomei conhecimento do assunto, tem sido assim. Por qualquer coisa, Belén me vem à cabeça. A menina chilena de onze anos, que está grávida do padrasto, por quem foi seguidamente abusada, com a conivência de sua mãe. O aborto é radicalmente proibido lá, em qualquer circunstância. Portanto, apesar de algumas tentativas de argumentar que a gestação põe em risco a vida de Belén (ela tem onze anos!), e que caíram no vazio legal e na indiferença do Estado, ela terá o bebê. Ponto final. Belén que se dane.

São tantos elementos de hipocrisia, crueldade e cinismo, que fico imaginando a sensação de impotência e a frustração das várias pessoas sensatas e solidárias que, em diferentes níveis, tentaram interferir em favor da menina. A tragédia de Belén é completa, profunda e irreparável.

Não quero alimentar este incômodo, nem me ocupar de domá-lo até que se dissolva. Ele só me terá alguma serventia se puder contaminar você. E a hora é agora. Aqui no Brasil, os novos e velhos arautos da hipocrisia estão tentando se aproveitar de uma conjuntura aparentemente favorável para fazer aprovar uma nova legislação, que jogará o aborto na ilegalidade total, além de promover vários outros absurdos sobre o estupro e os direitos das mulheres. Incríveis absurdos, pelo que representam de obscurantismo e ignorância – sem falar do cinismo, onipresente quando se trata dos temas relacionados à sexualidade.

Conheço bem os argumentos de quem defende a manutenção de qualquer gestação em qualquer circunstância, quase todos de natureza religiosa. Não me cabe questionar crenças ou convicções, mas não posso deixar de observar que tais argumentos deliberadamente prescindem de dois elementos a meu ver essenciais para a defesa daquilo que entendemos como civilização humana: o respeito ao direito de decisão sobre temas de foro íntimo e a compaixão.

Incomode-se junto comigo e contamine. Precisamos mas é de andar para a frente, não para trás. O retrocesso não vai salvar nada nem ninguém. Quem diz que vai sabe que está mentindo.

Enquanto eu pensava e escrevia esse texto, nasceram, na mesma semana, os dois bebês que eu já havia mencionado aqui. Desejados, esperados e recebidos como celebrações da vida. A chegada deles só reforça ainda mais tudo o que eu disse acima.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Bebedouros de frescor

Deve ser inevitável que toda aventura, empreitada, trilha, empresa, época, anoiteça. Afinal, irremediavelmente e por todos os dias do mundo, o sol se põe. Sem falar que haverá a hora da nossa morte, amém!

Meus olhos, que completaram cinquenta e sete anos de janela, observaram alguns padrões de entusiasmo, consolidação e, não querendo aguar a festa, de declínio. Também notaram que a institucionalização ergue muros onde antes havia terrenos baldios.

Faz mais de trinta anos participei de um grupo feminista deveras especial. Se chamava SOS Mulher e tinha como missão combater a violência doméstica sofrida pelas mulheres. Éramos um bando de gente jovem, destemida, esfomeada de vida.

A formalidade do SOS era próxima de zero. Não era ONG, não era governo, não era uma política pública. Era tão somente um grupo de pessoas com o sonho de eliminar olhos roxos, dentes quebrados, almas partidas das vítimas de maridos e namorados violentos.

Depois vieram as delegacias especializadas de mulheres, as secretarias, os conselhos. Num certo sentido, o Estado encampou a luta contra a violência de gênero. Vide a lei Maria da Penha. É claro que tudo isso é muito bom e absolutamente necessário.

Mas - defeito colateral - a institucionalização dos assuntos das mulheres fechou as portas para grupos feministas mais libertários e inovadores. Hoje, todo e qualquer projeto de ação passa necessariamente por sistemas de controle e escaninhos burocráticos.

Outra experiência similar vivi no Senac São Paulo. Na década de 1990, participei das primeiras turmas de cursos de vídeo. Eles eram chamados de "cursos livres", e nós docentes tínhamos carta branca para propor metodologias.

Lembro que um curso não era igual ao outro. Inventávamos sem parar. Usávamos e abusávamos da intuição. Ensinávamos de "ouvido". Pois no fundo erámos também aprendizes. Funcionou! Havia entusiasmo! Um parâmetro difícil de constar em relatórios.

Poucos anos depois, baixou o braço forte. Os cursos foram formatados e formalizados. Perderam a liberdade. Entrou a política de "diplomar". E óbvio chegou o MEC com suas regras e seu controle. De novo, nada disso é ruim. Mas aqueles corredores e salas explodindo em ideias desapareceram.

Será que é sempre assim? Boas iniciativas levam à institucionalização? Esta leva a um engessamento? Ou será que tudo isso é bobagem de meus olhos pré-sessentões? Alguém aí me empresta um colírio?

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

sábado, 28 de janeiro de 2012

O estupro da razão

Volto ao país depois de merecidas férias. Visto à distância, o Brasil é um país como outro qualquer. É como estar em São Paulo, por exemplo, e ler as notícias sobre países europeus, asiáticos ou sobre nossos vizinhos sul-americanos.

As notícias do dia a dia são muitas vezes superficiais, sensacionalistas, procurando encobrir a natureza dos motivos pelos quais elas acontecem ou se desenvolvem.

A diferença, é claro, se dará por conta do conhecimento que temos da nossa própria realidade, os interesses e os fatores objetivos e subjetivos que se entrelaçam na informação produzida por jornais, televisões, revistas, sites e blogues.

A Rede Globo de Televisão, beneficiária e por isso mesmo defensora do golpe de Estado no Brasil em 1964 (ou seria o contrário?) chamou uma vez mais para si os olhares da nação, muitos deles cada vez mais descontentes com o que ali assistem.

Detentora de uma estratégia e de um marketing de comunicação imposto pelo poder econômico que construiu e que a sustenta, a emissora vem atravessando os anos colocando-se acima das leis e da Constituição, uma vez que o seu DNA foi formado no período autoritário mais recente da história política brasileira.

Ao se arrogar em fazer o que quer, a Rede Globo finge não ver que a ditadura já terminou e apresenta-se com aquela prepotência dos que fingem que nada de mais se passa à sua volta. Coloca-se acima da própria Constituição do país. Consultar os artigos. 221 e 223 da Constituição.

Talvez o braço mais forte do pequeno grupo que comanda impunemente a informação no Brasil, a “Venus platinada”, como alguns a chamaram ou ainda a chamam, não tem pelo país qualquer tipo de consideração, a não ser aquela – é claro – em benefício próprio, quando se proclama líder de audiência em vetustos programas, entre eles alguns já mofados e embolorados como “Fantástico”, “Jornal Nacional”, “Faustão”, “Programa da Xuxa” e a maioria de suas telenovelas, cujo conteúdo, aliás, é de dar enjôo em antiácido.

Baseados na antiga falácia de que a televisão produz aquilo que o povo gosta de ver, as emissoras de um modo geral e a Rede Globo em particular, mistura alhos com bugalhos propositadamente, pois sabe que um povo desinformado, confuso, indisciplinado, ignorante de seus direitos constitucionais, iludido por partidos políticos de pouca ou nenhuma expressão ideológica, é um povo paralisado e medroso.

A estratégia de desinformação coloca o cidadão diante da dúvida, da negação da própria política, do desânimo, da apatia, do medo.

Ainda assim, é possível identificar alguns bolsões de resistência a esse plano de manipulação de consciências e de votos, que transforma o país num amálgama de incertezas.

As manifestações de vários setores da sociedade quanto ao possível estupro de uma cidadã brasileira num programa de qualidade cultural zero são sinais de conscientização do entrave que representa para a democracia a existência de uma mídia partidarizada e defensora dos privilégios do poder econômico.

Imprensa livre, sim, mas não usurpadora do poder político, também ele livre, dos cidadãos e contribuintes.

Condenável sob todos os aspectos, até porque toda a armação foi para aumentar a audiência de um programa lamentável, o maior estupro não é o que a TV Globo mostrou, mas é o estupro que se faz da razão, da nossa inteligência e da própria democracia.

Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Não se pode ignorar

Não importa se você odeia a Globo, não suporta BBB. Nesse final de semana aconteceu uma coisa horrível e que acontece com frequência. Mas dessa vez foi transmitido ao vivo pela maior emissora de TV do Brasil. E é também por isso que não podemos deixar de falar do caso.

Talvez você não esteja entendendo. Explico. Na madrugada de sábado para domingo, houve a primeira festa do BBB 2012 e, como sempre, muita bebida. Durante a festa, um dos participantes tentou mais de uma vez beijar uma das bonitonas da casa.

Ela não quis, rejeitou o cara. Ficou bêbada e foi deitar – pelos relatos que li, já era de manhã e ela foi deitar sozinha. O tal cara que já tinha tomado um fora da mulher foi e deitou com ela. E abusou dela.

Ela dormia, visivelmente inconsciente, sem se mexer, e o cara fazia movimentos sexuais – não dá pra saber se era punheta, penetração, se estava bolinando, mas era visível que se aproveitava do corpo inerte da mulher.

O público que acompanhava ao vivo pelo Pay-per-view começou a comentar nas redes sociais e mostrar grande indignação. O vídeo vazou na internet. São aproximadamente sete minutos que me deixaram muito chocada.

Não dá para ter dúvidas de que o cara realmente se aproveitou dela. Na verdade, o nome disso é estupro (que não acontece só em beco escuro com um maluco desconhecido te agarrando a força, tá?). E o crime foi transmitido ao vivo. A produção do programa não fez nada. Para mais detalhes da história, recomendo muito esse texto (e outros textos desse mesmo blog que vem em seguida).

Depois da mobilização nas redes sociais e a hashtag #DanielExpulso chegar em primeiro lugar dos Trending Topics do Twitter, o diretor do BBB, Boninho, chamou a mulher que foi violentada ao confessionário para falar sobre o episódio.

A conversa foi privada, o público não tem como saber exatamente o que foi dito. Boninho disse que ela afirmou ter sido consensual. O que ele não disse é que ela não lembra o que aconteceu. Isso ela fala em outros momentos, em diferentes conversas. Inclusive pro próprio agressor, que mentiu pra ela dizendo que foram dois beijinhos e que “passou a mão”. Não foi só isso.

Alguns textos sobre o assunto que recomendo:

E a situação piorou. Fiz questão de assistir BBB no domingo para ver se e como abordariam essa história absurda. Mostraram ele xavecando ela na festa. Mostraram ela de saco cheio dar um selinho nele na festa. Mostraram-na dando um fora bem dado nele na festa. E daqueles sete minutos de vídeo, mostraram apenas alguns pouquíssimos segundos que parece que ela se mexe um pouco.

Fizeram parecer que era um “amasso”. Mostraram como se fosse uma “troca de carícias”. Mas não é uma troca se só uma pessoa faz e a outra nem sabe, né? Ou seja, não é consensual. E a cereja do bolo: Pedro Bial pergunta ao vivo para a mulher se foi só uma ficada ou se tem algo mais e ainda solta um “o amor é lindo”. (realmente difícil saber o que o Bial entende por amor). Ela, visivelmente muito sem graça, responde “foi só um lance”. Um lance. Afinal, ela não sabe o que aconteceu.

O problema é maior

E por que falo tanto do BBB? Porque esse programa que tem mil defeitos e que pessoas inteligentes “de verdade” não “podem” assistir é um reflexo do que acontece fora daquela casa e longe das câmeras. Talvez você nem saiba, mas a chance de alguma conhecida sua ter passado por uma situação semelhante é grande.

Essa história me deixou mal. Muito mal mesmo. Já vi essa história acontecer mais de uma vez. E não foi pela televisão. Cheguei a tentar escrever sobre isso em outras situações, mas não consegui. Muita gente diz que é “exagero”.

Como pode ser exagero alguém se aproveitar do seu corpo enquanto você não tem condições de reagir? E se fosse com você? E se fosse sua mãe/filha/filho? Já imaginou?

Tenho uma amiga que passou por isso. E não foi com um desconhecido na rua. Foi com um conhecido, até então considerado um amigo. E foi na casa de uma amiga, um ambiente que acreditamos ser seguro. Foi situação que você imagina que não ofereça grandes riscos. Pois é.

Ela demorou alguns dias pra lembrar e entender o que aconteceu. Mas entendeu, ela foi estuprada. E os (as) amigos (as) o que acharam? O que sempre acham, ela estava bêbada e se arrependeu do que fez. Ela foi vítima, não culpada. Exatamente como essa mulher do BBB. Exatamente como outras inúmeras mulheres.

A Globo está sendo omissa e extremamente irresponsável ao não dar o devido valor ao que aconteceu. No mínimo, deveria levar o caso mais a sério permitir que a participante assistisse ao vídeo, acompanhada de advogado(a) e/ou terapeuta e/ou algum familiar, para ver como agir posteriormente.

Ao tentar vender o caso como uma “história de amor” para o público do programa, está estimulando, mais uma vez, o machismo e afirmando que vítima pode ter culpa de alguma coisa.

Uma vítima NUNCA será a culpada por ter sofrido violência. Ser omissa numa situação dessas é tomar partido, o partido que acha que violência conta a mulher é um problema “secundário”.

Você pode querer ignorar o BBB e a Globo, mas não ignore a violência que está logo embaixo do seu nariz.

Natalia Mendes, jornalista, do TodasNos, especial para o NR

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma vergonha que nos une

Mona Lisa sem seu encatador sorriso e com o olho roxo no
cartaz de um concurso europeu sobre violência contra a
mulher. O autor é Luis Silva, de Portugal.
Há pouco mais de dois meses moro em Salamanca, uma cidade universitária espanhola de cerca de 150 mil habitantes onde a violência é coisa rara. “Mais tranquila que o pátio de um convento de freiras”, definiu um amigo colombiano.

Para quem vem de Bogotá (como ele) ou de São Paulo (como eu), viver aqui é um agradável exercício diário de desconstruir algumas paranoias. Entre elas, a do perigo das madrugadas. Em qualquer dia da semana é comum garotas caminharem sozinhas, saídas das discotecas rumo a suas casas.

A possibilidade de acontecer algum tipo de violência com elas é quase a mesma de que caia um meteoro em suas cabeças.

Mas na semana passada, nem bem o relógio marcava nove da noite, a calma da cidade foi interrompida por um homem de 66 anos, que “armado” de um machado, atacou sua companheira (dois anos mais velha que ele) a poucos metros da praça central.

Dizem as testemunhas que a senhora só não foi morta no ato porque um herói anônimo (que acabou ferido) conseguiu dominar o agressor que não tinha passagem pela polícia. Ela está na UTI.

A Espanha, em geral, é um país que não padece da violência que nós, os latino-americanos, sofremos diariamente. A maior causa de morte no país é o câncer e não traumas causados por balas ou acidentes de carro. Ver alguém armado, ler sobre ataques a bancos ou assaltos a casas não é algo corriqueiro nem mesmo nas cidades grandes – ainda que esse tipo de violência venha crescendo nos últimos tempos.

Recordo uma pequena discussão que aconteceu na Colômbia durante uma oficina de jornalismo que participei. Uma colombiana, um pouco brava com os comentários duros do professor, um espanhol, o acusou (e citou a Espanha toda) de ser grosso, mal-educado.

há algo que (infelizmente) une espanhóis e latino-americanos: as agressões contra as mulheres.

A resposta dele, meio em tom de brincadeira e algo de sarcasmo, foi de que ela tinha razão, que os espanhóis se desentendiam por tudo, falavam alto, mas não eram como esse gente “amável” que se mata nas ruas depois do segundo copo de bebida. Fazia referência à banalização da solução pela bala que impera em muitos países do nosso continente.

No entanto, há algo que (infelizmente) une espanhóis e latino-americanos: as agressões contra as mulheres.

Na sexta-feira foi celebrado o dia contra a violência de gênero. O jornal El País compilou todas os homicídios que noticiou neste 2011 relacionados ao assunto. São 54 relatos que têm muito pouco em comum além da covardia praticada por homens contra suas companheiras (ou ex).

O perfil das vítimas e dos assassinos é variado, democraticamente dividido entre classe social, idade – a mais jovem das mortas tinha 18 anos e a mais velha passava dos 70 – e nacionalidade.

Espanholas, brasileiras, chinesas, suecas, italianas, colombianas, bolivianas, peruanas que sucumbiram após serem atacadas a golpes de facas, canivetes ou qualquer objeto capaz de ferir (o uso de armas de fogo é raro).

Em muitos dos casos não “bastava” aos agressores matar, queriam desfigurar suas vítimas, botar fogo em seus corpos, destruí-las.

Diferentemente da maioria dos países da América Latina a Espanha tem um sistema jurídico e uma polícia que funcionam bastante bem. Tem leis que protegem a mulher (como a Maria da Penha, no Brasil), canais efetivos de denúncias e muitas campanhas contra a violência de gênero.

Ainda assim, as agressões e ameaças persistem.

Chama a atenção nos relatos do El País que a grande maioria dos agressores foram presos minutos depois do ato praticado. Muitos deles inclusive ligaram para a polícia avisando que haviam cometido um crime e/ou esperaram pacientemente a chegada das autoridades.

A fama de “macho latino-americano”, a violência epidêmica e a certeza da impunidade poderiam explicar, em parte, porque essa prática primata de se agredir a uma mulher ainda persiste em muitos países da América Latina.

Mas como justificar que em lugares onde nenhum desses fatores acima citados se aplicam ainda existam tantos casos de homens que, por não aceitar que o amor acaba, agridem e matam?

Ricardo Viel, jornalista, colunista do Nota de Rodapé e do Purgatório

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Nem com uma flor

Hoje, 25 de novembro
#FimDaViolênciaContraMulher
Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal eram as líderes do movimento de libertação política na República Dominicana chamado Las Mariposas.

Elas foram assassinadas numa emboscada, em 1960, durante a ditadura de Rafael Leonidas Trujillo, assassinado no ano seguinte, pondo fim ao período repressor.

Por conta do brutal assassinato das Mirabal a ONU, em 1999, declarou o dia 25 de novembro como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.

Cinco anos da Lei
Maria da Penha

“Acordei de repente com um forte estampido dentro do quarto. Abri os olhos, não vi ninguém. Tentei me mexer, mas não consegui. Imediatamente fechei os olhos e só um pensamento me ocorreu: ‘Meu Deus, o Marco me matou com um tiro’”, relembrou no vídeo abaixo a bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à Lei nº 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006, há cinco anos em vigor.



Por aqui, a progressista Lei responsabiliza família, Estado e sociedade pela garantia dos direitos da mulher, prevendo ainda a elaboração de políticas públicas para resguardá-los. Com ela, o Código Penal foi alterado e permite que agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada.
“Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º lugar no ranking mundial de homicídios de mulheres.”  
Outras medidas para proteger a mulher, como por exemplo, a saída do agressor de casa, a proteção dos filhos e o encaminhamento das vítimas e seus filhos para uma casa abrigo foram incorporadas.

A questão, no entanto, continua grave apesar de cada vez mais mulheres denunciarem seus agressores. A lei foi um passo fundamental, mas ainda não funciona em todos os casos – a maior parte das mulheres assassinadas por companheiros ou ex-companheiros já havia registrado queixa contra o agressor.

E inúmeros casos de violência e feminicídios acontecem todos os dias. Segundo o Mapa da Violência 2010, do Instituto Sangari, “Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º lugar no ranking mundial de homicídios de mulheres.”

O machismo quando chega ao ponto da covarde agressão em suas variadas formas é uma excrescência dessa cultura perpetuada no seio do conservadorismo e que deve ser combatida diariamente, principalmente na educação das novas gerações.

Quando nos deparamos com dados que dizem que a maioria das vítimas – 40 % delas têm entre 18 e 30 anos – é morta por parentes, maridos, namorados, ex-companheiros ou homens que foram rejeitados por elas, revela-se a magnitude do desafio a se enfrentar.

Alguns dados, segundo a ONU:
◯ cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência;
◯ a forma mais comum de violência experimentada pelas mulheres em todo o mundo é a violência física praticada por um parceiro íntimo;
◯ uma em cada cinco mulheres se tornará uma vítima de estupro ou tentativa de estupro no decorrer da vida;
◯ 80% das pessoas que são traficadas anualmente em situações de prostituição, escravidão ou servidão, são mulheres.

Para saber mais, recomendamos:
◯ Em caso de violência ligue para 180 para receber orientação.
◯ Campanha da ONU: Una-se pelo fim da violência contra as mulheres
◯ Boletim do CFEMEA: Mulheres pelo fim da violência contra mulheres negras
◯ Geledés – Instituto da Mulher Negra
◯ Portal Quebre o Ciclo.
◯ Entenda o que é feminicídio.

O texto é uma parceria de Natalia Mendes do TodasNós e Thiago Domenici do Nota de Rodapé e faz parte da Blogagem Coletiva proposta pelas Blogueiras Feministas.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Tony Porter: um chamado (necessário) para os homens

“Nos ensinavam que homens precisam ser valentes, fortes, precisam ser corajosos, dominantes. Sem dor, sem emoções (...) e definitivamente sem medo. Que os homens estão no comando, e isso significa que as mulheres não.”
Tony Porter é cofundador da organização “A Call to Men - Commited to Ending Violence Against Women” (em português, algo como “Um chamado para os homens - compromisso com o fim da violência contra as mulheres”).

Ele deu uma palestra no Ted (no vídeo abaixo) muito interessante - e corajosa. Tony conta histórias fortes sobre sua infância e sobre a educação que deu aos filhos (um menino e uma menina) relatando a diferença com que tratava os dois.
 “Quando eles tinham cinco ou seis anos, (o menino é um ano mais velho que a menina), Jay vinha até mim chorando. Não importava o porquê ela chorava, ela podia sentar no meu colo, assoar o nariz na minha manga (...). Mas Kendall, por outro lado (...), ele vinha chorando, e no momento que eu o ouvia chorar o cronômetro ligava. Dava ao garoto cerca de 30 segundos, o que significava que quando ele chegava eu já estava dizendo ‘por que está chorando?’”
Tony ajuda a entender porque a educação que costuma ser dada aos homens - tantos ensinamentos machistas - pode causar (e provavelmente vai) o desrespeito e a violência contra a mulher.

Diz Tony, em outro trecho da palestra.
“Quando se diz que mulher tem menos valor, são propriedades dos homens, são objetos, particularmente objetos sexuais. Mais tarde descobri que essa era a socialização coletiva dos homens, mais conhecida como a ‘caixa do macho’. A caixa de macho tem todos os ingredientes do que significa ser um homem. Antes quero dizer, sem dúvida alguma, que há coisas maravilhosas, muito boas mesmo, em ser homem. Mas ao mesmo tempo existem algumas coisas que estão erradas.”
É muito importante que falas como a de Tony Porter sejam ouvidas e tenham repercussão. Nos faz pensar, nos faz compreender muita coisa e nos ensina. O vídeo tem 11 minutos, mas parece que tem 3. Não é chato, não é maçante e pode fazer muita diferença.

É por esse tipo de coisa que acho importante que a gente não queira ser “normal” como escreveu a jornalista Eliane Brum num artigo recente.




Natalia Mendes é jornalista, colunista do NR

domingo, 5 de junho de 2011

SlutWalk SP: um grito diversificado contra o machismo

Aconteceu ontem, 4 de junho, a primeira Marcha das Vadias em São Paulo (versão brasileira da SlutWalk), com cerca de 300 participantes - pode parecer pouca gente, mas foi bonita e forte.
Cartazes com frases como: “Respeito é sexy, machismo brocha” e “Sou mulher, não sex toy” eram carregados entre a cantoria e a batucada. Muita gente fotografando, filmando, registrando. Por onde passava a marcha, era possível notar olhares curiosos de pedestres, comerciantes e moradores da região.

Jovens, velh@s, homens, mulheres. Homem vestido de mulher, mulher com adesivo “periguete”, mulheres com roupas “provocantes”, mulheres com roupas mais “discretas” e protegidas do frio, ou até mesmo quase sem roupa andavam junt@s.

Mulher diz não é "pedaço de carne"
Eram manifestantes com perfis diferentes e que, mesmo se tratando de um assunto tão sério, se mantiveram sorridentes e animad@s. Defendiam em alto e bom som o direito de se vestirem como quiserem e convidando quem observava a “ir pra rua contra o machismo”.

A Marcha, que tinha como principal objetivo questionar a ideia de que vítimas de violência sexual tem culpa por serem violentadas, começou na av. Paulista e desceu a rua Augusta até a porta do clube de comédia dos CQCs Rafinha Bastos e Danilo Gentili.

“Machismo mata,
estupro não é piada”


Rumo ao Comedians, na rua Augusta.
O destino foi escolhido por causa de uma “piada” contada por Rafinha Bastos, durante uma de suas apresentações de stand up, na qual afirma que estupro de mulher feia “é uma oportunidade” e que o estuprador “não merece cadeia, merece um abraço”. Segundo o amigo e sócio, Danilo Gentili, a piada é contada há anos, mas só ficou mais conhecida depois de uma matéria com o perfil do apresentador.

“A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria”, “Preste atenção, o corpo é meu, a minha roupa não é problema seu”, cantavam @s manifestantes, que, ao chegarem na porta do Comedians, emendaram “Me processa, Tas”, em referência à ameaça de processo que o apresentador Marcelo Tas fez a blogueira feminista Lola.
Ponto final: cartazes em protesto

Um dos policiais que fazia a escolta ficou curioso como os comentários e cartazes que criticavam Rafinha Bastos e perguntou “qual deles é o Rafinha”. Depois quis saber qual tinha sido a piada. Quando contei, fez uma cara de indignação e afirmou com firmeza “Vocês têm razão”.

Já começaram a ser organizadas mais Marchas em outras cidades, como Brasília e Belo Horizonte.



Natalia Mendes é jornalista
(Imagens/Vídeo de Thiago Domenici/Natalia Mendes)
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