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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Telenovelo: pobres homens


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Deixa ver se eu entendi “Amor à Vida”. Aline é uma piranha, que se emprega como secretária do César, de olho na fortuna dele. Trabalhada no decote, na saia curtíssima e nas caras e bocas. O otário cai na conversa, se apaixona, casa e passa para ela uma procuração com plenos poderes sobre seu próprio e vasto patrimônio. Mas não sem antes se deixar cegar, através dos efeitos de um pó mágico, que Aline o faz ingerir sistematicamente.

César é um médico famoso, dono de um grande hospital, casado com Pilar, a quem traiu vezes incontáveis, inclusive com a nora de ambos, Edith. A uma certa altura, cai de amores pela secretária Aline, a cascavel interesseira, que inclusive domina a arte de cegar médicos experientes com pós misturados ao uísque, que o desinfeliz bebe como água, sem nem desconfiar.

Amarílis é uma médica mal amada e amargurada. Grande amiga do Niko, uma bicha boazinha, ansiosa por ter uma família para chamar de sua. Niko é casado com Eron, e com ele planeja contratar uma mulher para gestar-lhes um filho, concebido por inseminação artificial. Amarílis se prontifica para a tarefa. Niko a traz para morar com o casal durante a gestação, e a mocreia faz o maior jogo duplo. Seduz o pobre Eron e o rouba de Niko, se nega a entregar o bebê ao amigo e se supera todos os dias na arte da manipulação e da chantagem emocional contra os dois.

Alejandra é outra criatura do mal, oriunda das trevas incas do Peru, cheia de péssimas intenções gratuitas, que resolve explorar o sentimento do ingênuo amigo Ninho, um artista plástico podecrê. Ele cai na conversa dela e concorda em sequestrar a própria filha, para se aproximar da menina e ficar numa boa com a vilã.

Ninho é um cara do bem, mas não resiste a uma bruxa competente, que o convença a praticar as piores maldades, pois seu estilo de vida alternativo negou-lhe a oportunidade de ter boas influências e construir um caráter respeitável. Na juventude, envolveu-se com Paloma, uma criatura frágil e aguada a ponto de se apaixonar por um bonitão inútil como ele, que só faz maldades porque mulheres más o perseguem. Aline se aproveita do coitadinho e o obriga a fazer coisas terríveis, como matar a tia Mariah com uma tesoura de cozinha. Glauce é a víbora ginecologista, obcecada pelo Bruno “Bofe de Ouro”, cuja mulher dá à luz em condições de alto risco, o que oferece à doutora a oportunidade de assassiná-la sem deixar rastro, para depois poder arrastar a asa para o viuvão sofredor. Mais tarde, torna-se amiga e aliada de Félix, a bicha má da história.

Leila é uma moça pobre e ambiciosa, que tem uma tia rica e uma irmã autista, a quem ela odeia. Através da tia, conhece uma garota milionária e sozinha no mundo. Bola um plano maquiavélico para roubar-lhe a fortuna e convence Thales, seu guapo namorado escritor, a participar do plano e seduzir a ricaça, casar com ela e eliminá-la, para que depois ambos se joguem juntos na dinheirama. Ele aceita, o plano funciona e a moça rica morre, deixando seus milhões de herança para o garboso rapaz. Mas ele é sensível, coitado, começa a ver a morta pela casa, e fica lhe fazendo juras de amor eterno. Natasha, meio-irmã de Nicole, o enreda em outra armação pérfida.

Félix é a quintessência do vilão: ambicioso, mesquinho, ardiloso e estridente. Apronta todas com todas e todos. Rouba da própria irmã a filha recém-nascida e a abandona numa caçamba de lixo, trapaceia, mata, planeja sequestros, faz um casamento de aparência com a Edith (uma vilãzinha de quinta), surrupia as economias da Amarílis para investi-las em suas falcatruas, pinta e borda em várias modelagens e tons. A certa altura, a solidariedade e a generosidade de uma suposta estranha o comovem de tal forma, que ele se vê como um ser totalmente desprezível, se arrepende de todas as suas incontáveis maldades e se regenera. No caminho do bem, terá a companhia de Niko, o bonzinho, com quem está prestes a iniciar o romance da superação.

Então, ficamos assim: César, Niko, Eron, Thales e Ninho são todos pobres vítimas das bruacas irremediáveis Aline, Amarílis, Alejandra, Leila e Glauce, enquanto Félix, ferino e perigoso, se regenera, conquista o afeto de todos e encontra o amor nos braços de Niko.

É isso mesmo, Arnaldo?

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Medida certa?



por Alexandre Luzzi   ilustração Ligia Morresi*

A “VALORIZAÇÃO” DO CORPO E O MAL-ESTAR NA ATUALIDADE

Na mitologia grega, Procusto, filho de Netuno, era um salteador sanguinário que obrigava os viajantes, depois de pilhá-los, a deitar sobre um sinistro leito de ferro nunca do tamanho do corpo dos infelizes: se eles fossem mais curtos que o leito, estirava-os com cordas e roldanas; se ultrapassassem as medidas, cortava-lhes a parte que sobrava. Todos, sem exceção, deveriam se ajustar à sua cama.

Procusto era alguém que ajustava o corpo das pessoas a certas medidas ideais, sempre a partir de um único padrão. Do ponto de vista simbólico, Procusto pode ser considerado um normalizador, o patrono de todo imperativo que impõe normas e um guia de conduta, reduzindo a experiência humana a relações de causa e efeito nunca livres de interesses (qualquer programa de televisão com o título desse texto é mera coincidência).

Ao tomar conhecimento da narrativa mítica, não pude deixar de associá-la com o papel do profissional de Educação Física (EF) dentro do dispositivo da saúde e sua relação com o corpo e a sociedade.

Segundo Flávio Soares Alves, da Faculdade de Educação Física e Esportes da USP, “o profissional de Educação Física passa a ser agente ativo de uma ideologia do ser saudável, passando por cima da diversidade dos corpos, em função da reprodução de uma lógica excludente, que dita padrões estéticos de beleza e saúde.”

Não podemos esquecer que o homem, por meio de seu corpo, assimila e se apropria dos valores e normas sociais, num processo de incorporação. É sobre o corpo, em sua qualidade sensível, que incidem as formas de controle e dominação que ressultam no processo de “anestesiamento” de seu campo intensivo (corpo afetivo e pulsional).

Esse fenômeno é muito fácil de ser observado na religião (controle da sexualidade), no capitalismo (transformação da força criativa em força produtiva) e agora de uma forma mais sutil, mas não menos agressiva, no dispositivo da saúde.

Com o corpo sendo submetido cada vez mais ao controle, à segmentação e a manipulação em função da norma e de um ideal a ser alcançado, a saúde sustenta-se sob um discurso que reduz o corpo à sua dimensão anatomofisiológica, ou seja, a saúde se opõe ao estado de doença. O educador físico, servindo-se deste discurso monta seu dispositivo de saúde para convencer seus clientes de que a saúde que ajuda a promover traz controle e segurança sobre a vida. Com isso, sugere garantir a juventude e a beleza daqueles que apostam na eficiência deste dispositivo forjado.

É por meio dessa produção simbólica de valores, associada ao poder da indústria midiática, que uma série de imagens-ícone são produzidas, deliberadamente, aprisionando a subjetividade pelo medo à exclusão e o desejo à hegemonia.

Afinal, se os famosos se submetem a todo tipo de sacrifício em nome da medida certa, respaldados por um discurso de “verdade científica”, para nós, meros mortais, restam poucas dúvidas de que esse é o caminho certo.

Alves destaca ainda que “os padrões impostos por certas imagens fazem com que nos voltemos contra nós mesmos, revoltados com nossa própria inadequação. Tal descompasso é desconfortante e nos força a uma retratação que, muitas vezes, corre na contramão de nossos próprios desejos”.

O corpo passa a ser vivido como um lugar permanentemente de risco, um lugar que pode a qualquer momento nos ameaçar. Diante desses problemas questiono sobre o papel do profissional de Educação Física e sua participação na condução desse sistema de representações na qual se articulam o corpo, a saúde e o movimento.

A superposição deliberada e maliciosa entre corpo e organismo, ou seja, a redução do corpo a aspectos meramente biológicos, carrega toda uma problemática que vem acompanhando a Educação Física desde o seu surgimento: sua despolitização. Uma disciplina orientada por um ideário neoliberal (o movimento ressignificado a partir de conceitos como produtividade e funcionalidade), com pouca consciência das relações de poder na produção de valores que norteiam sua prática, afastada da subjetividade de quem ensina e de quem pratica, produzindo dessa forma o mau encontro.

* * * * * * *

*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Dim! Dim!

por Fernando Carvall*

O logo da rede Globo é uma síntese perfeita do que deveria ser a função de uma tv aberta. O tempo mostrou, contudo, que os papéis de sujeito (o mundo) e espelho (a tv) se inverteram.

 Hoje o mundo é um espelho da tv!



*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011

quarta-feira, 5 de junho de 2013

TV de LSD


por Carlos Conte  ilustração Caco Bressane*

 Deu nos reclames do plim-plim:

– TV LCD da Sony, modelo Bravia, KDL, 40 polegadas, FULL HD, USB Play e Rádio FM! Apenas 1599 reais à vista. Não é muito barato?...

Virei para o Galo e perguntei se ele gostaria de ter uma TV igual à da propaganda.

– Cara, quer saber? Pra mim tanto faz. Parabólica, a cabo, o escambau. TV eu uso é pra dormir, Carlão. Não tem calmante melhor. Um calmante eletrônico.

O Peri é outro que não liga pra televisão. Na sala, prefere rodar um disco do Chopin, Lou Reed ou a trilha do filme Laranja Mecânica. Pra TV não está nem aí. Se bem que, não faz dois meses, assistimos juntos à cena da novela das oito em que a Claudia Raia aplica uma injeção letal no pescoço da amiga que tinha acabado de descobrir o esquema do tráfico de mulheres.

– E a câmera de segurança do elevador?! – levantou o Peri, indignado. – E a câmera do elevador, bicho?! Que prédio hoje em dia não tem câmera no elevador? Não é possível... Esse roteirista tá maluco, cara! Foi o bastante para desligarmos a TV.

Aqui em casa é assim: temos uma relação de amor e ódio com a nossa Semp Toshiba, presente do tio Paulo, pai do Cabelo. Aliás, foi o Cabelo que, na tentativa de consertá-la, afundou pra sempre o botão ON/OFF, e desde então, pra que a TV não fique o tempo inteira ligada, é preciso desplugar o fio da tomada; para ligá-la, pluga-se o fio novamente. E vamos nesta toada: reclamando do chiado, xingando, batendo, coitada!, só falta fazer que nem o personagem Jacarandá, do João Antônio, que possuído de ódio pela propaganda do banco enfiou um balaço de 38 bem no meio da tela.

Já trocamos de antena duas vezes para ver se melhorava. Bombril. Tapinha nas costas, pra não magoar. Que nada! Parece que não tem mais jeito.

Mas a verdade é que gostamos dela. Apesar de todos os seus defeitos; ora, quem não os tem? Amparada por uma pilha de Barsas, que são como tijolos, olho pra ela, orgulhoso, e digo: é a nossa TV! Apesar do seu chiado, é assim que gostamos dela. Também, não temos grandes desejos televisivos – mais de 250 canais, alguns só de filme, outros de desenho animado, notícias 24 horas e tudo o mais. Como nossa necessidade televisa é, digamos, modesta, vamos deixando como está. Em 2 anos, confesso que aprendi até a respeitá-la. Corajosamente sobrevive em meio à ânsia disseminada pela tela de plasma, entrada HDMI, imagem e som digitais e todo o aparato do cacete a quatro dos aparelhos televisores hoje em dia. Sabe que prefiro minha TV de LSD?

Até o Diegão, que tem TV a cabo em casa, de vez em quando dispensa o som digital e a mais alta definição pra assistir futebol aqui em casa. Segundo o Diegão, ver jogo aqui é mais emocionante. Quanto pior a imagem, mais difíceis as divididas, mais incertas as patadas da intermediária, mais confusos os escanteios. Mais sofrido, portanto mais Corinthians. 44 jogadores embaralhados em campo, dois juízes, um correndo atrás do outro. Nem a pau que dá pra enxergar o tempo de jogo, que fica na parte superior da tela. Vai na intuição.

Mas, por outro lado, não dá pra enxergar nitidamente os peitões da Cristiane Pelajo, nem o sorriso que o Peri adora da Letícia Spiller, nem as curvas da Camila Pitanga, unanimidade. Pra compensar somos poupados da cara de agente da CIA do Willian Waak. No lugar do rosto, máscaras sobrepostas, uma mistura psicodélica, ou uma forma monstruosa. Em vez dos números do último pregão da Bolsa, valores oníricos, ininteligíveis, ideogramas caleidoscópicos, signos fantásticos, lúgubres, indecifráveis.

Diante da telinha, em estado vegetativo, ao qual a droga nos induziu, alguém aciona a função MUDO e abraça o violão. O Peri faz questão que a famiglia jante toda junta. Depois, Gaisnburg na vitrola, Bony and Clyde, porque o aparelho de CD tá zoado faz tempo. Até que alguém, enfim, abre uma Brahma e despluga a TV da tomada, antes do Corujão.


* Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto

terça-feira, 4 de junho de 2013

Notícias



por Cidinha da Silva*

Depois daquela mulher, nunca mais assisti a Globonews do mesmo jeito. Ela virou uma espécie de fantasma que aparecia todas as vezes em que eu passava pelo canal.

A figura aterrissou numa roda de conversa por obra do lançamento do meu Kuami em Vila Isabel. Atrasada, mostrou-se encantada com a atmosfera leve. Até aí tudo bem, esse era mesmo o propósito. O caso é que ela iniciou uma catarse de reclamações sobre a Globonews, sobre as pessoas não conversarem, não interagirem e aquele momento ali, para ela, era um exemplo de como a vida deveria ser.

Ela dizia: “Estou cansada de saber as notícias do mundo e só desligar o televisor quando saio para o trabalho. Quando chego em casa, ligo a TV para ter a companhia da informação. Sei de tudo, a notícia se repete nos sucessivos jornais, às vezes até decoro os textos”. O problema é que ela repetia esse mantra torto como disco arranhado. Passou a tratar nosso espaço como algo terapêutico. Ameaçou pedir que as pessoas compartilhassem apertos de mão, abraços.

Alguns participantes estavam visivelmente incomodados, eu também, e precisei tangenciar a conversa para cenas do livro. Nada adiantou.

Comecei a ter medo dela. Parecia uma morta-viva e pior, era médica. Estava na cara que ela precisava de fogo, de vitalidade. Oferecíamos a chama literária, mas ela precisava de mais. Carecia de terapia profunda, daquelas complexas, com escuta, exercícios respiratórios, florais de Bach, do cerrado, do deserto, da Amazônia, de Minas, de Marte...

O que mais me espantava era a reafirmação de que ela cuidava da saúde das pessoas em um posto de saúde e era assim, corpo, mente e espírito tão adoecidos. Até hoje, quando passo pela Globonews lembro-me daquela mulher, e apavorada, observo as notícias se repetirem.

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. Ilustração retirada do blog do Breno Zannetti. 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!


por Cidinha da Silva*

Escrever textos opinativos sobre novelas ou aspectos delas, é um grande aprendizado. É vespeiro de abelhas bravas e vingativas. Você passa pelo inferno do desprezo, ora intelectualóide, ora esquerdizante e vai até outro inferno, do pessoal que compra a ideologia da novela e a assisti (ou diz que não assisti) sem laivo de criticidade. É um risco para a reputação da cronista, porque de uma ponta a outra há um corredor polonês inclemente, preparado para bater.

Mesmo a crítica mais participativa, aquela localizada no entremeio dos infernos, confunde papeis. São ditas coisas como “Muito bom o texto! Faça-o chegar à autora da novela!” Ora, faça-o você, se acha que vale o trabalho de movimentar-se nessa direção. A escritora escreve, põe o texto no mundo e ele anda com as próprias pernas. E quem quiser que o carregue, promova, critique, execre-o, com argumentos, por favor, principalmente no caso dos textos opinativos. Assim a autora se sentirá motivada a debater.

Ainda outra dimensão negativa, é que o texto sobre novelas publicado na Web é lido de maneira imediatista e grudada no tema abordado. É um texto sem asas, em que pese o fato de muitos leitores não aceitarem convites para ampliar o real. Parece que o peso da superfície livro é que continua a possibilitar vôos mais satisfatórios.

Pelo lado mais positivo, este tipo de crítica também encerra a percepção de que autora não consagrada joga nas onze. Ou seja, escreve, corrige, edita, escolhe ilustração, publica, divulga e deve fazer o texto chegar às mãos dos possíveis interessados.

A resposta aos textos novelísticos é também campo fértil para a manifestação dos donos da verdade. Gente que tem coisas prontas a dizer e que, pretensamente, pairam sobre a abordagem chinfrim da cronista, bem como sobre a percepção insignificante dos demais mortais. Um exemplo significativo, que não se refere à novela, propriamente, mas se adéqua de maneira perfeita ao perfil de dono da verdade exercido na Web, é a afirmação de que o espaço midiático e a repercussão conseguidas pela declaração de amor de Daniela Mercury à companheira, Malu Verçosa, é “um pouco exagerado demais.”

É de dar nó em pingo d’água! A coisa é “um pouco exagerada demais!” Diria que o sujeito inventou um pleonasmo torto precedido (contradito) por um quantificador de leveza linguística (a função inventada para o advérbio “pouco”, na frase). Tudo disfarce cínico da heteronormatividade para desqualificar a atitude da cantora, perfeitamente afinada com o respeito aos direitos humanos das pessoas LGBT no Brasil.

Existe uma versão ainda mais tosca dos donos da verdade, os fatalistas: "É a Rede Globo”! O que esperavam? O que assusta é vocês ainda esperarem alguma coisa das novelas.” Ou ainda, “É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!” As variações são muitas, tem o cara que diz: “Se eu não gosto, desligo a TV, não fico revoltadinho e abro mil assuntos no Face.”

Tem também outro tipo, metido a descolado: “Eu queria entender porque a autora ainda se da ao desfrute de assistir a um programa de uma emissora notoriamente racista. Se por questões de análise social ou se por entretenimento, no meu caso nem um nem outro”. A escritora avisa que não há uma resposta precisa para essa neurose. De um modo geral, cronista é gente à toa, mete-se onde não é chamada e vive procurando assunto. Essa é a verdade singela que não dá para ocultar desde os tempos de Machado e Lima Barreto.

É candidato a rei também, o arauto da esquerda: “O povo ainda não entendeu que uma mídia corporativa burguesa não pensa no povo e cultura como seres humanos, só pensam no lucro... o pior é que o povo ainda dá audiência.” É dureza receber essas mensagens, ainda mais para a autora que não é noveleira. Ela apenas lê a telenovela quando a assiste.

Tem os comentários impossíveis de decodificar, seja por pretenderem uma ironia (fracassada), seja por serem vagos ao afirmarem uma coisa, ao mesmo tempo em que contrariam o que disseram antes. É confuso mesmo. Você lê, relê e não consegue perceber se a concordância (ou discordância) é com a afirmação da autora ou com a crítica a ela.

Outros comentários mostram porque a novela emplaca, explicitam o tipo de pensamento representado por ela, expresso na voz do público. Note-se um vernizinho intelectual, estratégia da comentarista para tentar se diferenciar da massa ignara, quando emite juízo de valor sobre a crônica a respeito do núcleo de moradores de favela da telenovela Salve Jorge: “A novela não é grande coisa mesmo, mas é ficção e não documentário. E quem acha que novela vai fazer pensar? A maioria dos jovens de favela e periferias não querem nada mesmo: vejo aqui, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, rapazes soltando pipas, fazendo rachas com motos... moças que não trabalham, só querem namoro, e olha que não se vestem mal, não... não sei onde acham dinheiro pra comprar; é cabelo chapado, shortinhos curtos, funk em volume ensurdecedor, etc, etc...”

Felizmente, predominam os comentários inteligentes, lúcidos, mas a gente que lê o mundo, destaca sempre o que precisa ser reconstruído, por isso a ênfase naqueles que deixam escapar visões de mundo que interessam muito à ideologia da novela.

Bom exemplo de comentário positivo é o que segue. “Desligar a TV é uma boa mesmo, mas não resolve o que se discute aqui: invenções e reforços dos estigmas racistas! Por favor, a idéia é questionar e combater violências, não fechar os olhos, as portas, as janelas, a TV, os ouvidos... Detesto novela, não as assisto, mas estou com quem questiona o que elas veiculam.”


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Corporalidade Negra em Lado a Lado



por Cidinha da Silva*

Perdoem-me os fãs da Capoeira, mas quero falar sobre futebol na novela Lado a lado. Chico (César Mello) protagonizou cena histórica vivida no início real do século XX por Carlos Alberto, jogador negro que, migrando do singelo América para o aristocrático Fluminense, temeu a rejeição da torcida e, desejando evitá-la, passou pó-de-arroz no corpo, antes da partida.

O problema é que a mistura química do pó-de-arroz com o suor, à medida em que o jogador se movimentava no campo,  transformou-o em uma papa. Resultado trágico de uma válvula de escape do racismo que não funcionou. Talvez seja possível à leitora imaginar o desespero de Carlos Alberto ao buscar uma alternativa de proteção tão ridícula e fadada ao fracasso.

O jogador da telenovela imitou o jogador da vida real com o mesmo objetivo do primeiro, ou seja, encontrar um caminho para ser aceito no mundo branco. Chico é chamado para jogar no time dos brancos (todos os times eram de brancos, naquela época), porque é bom de bola. O perigo é defini-lo como bom de bola porque é negro.

Nenhum negro é bom de bola porque nasceu negro, não está no sangue. Determinismo sanguíneo é quando o negro tem muitas hemácias saudáveis, isso pode oxigenar bastante o cérebro e potencializá-lo como corredor. Esse seria o verdadeiro sangue bom. Mas o talento de Chico não vem daí. É nato na proporção apenas em que todo e qualquer talento pode ser considerado nato, não o é para os negros de maneira restrita.

Chico joga bem porque tem ginga, tem o corpo flexível, corre muito e não se cansa. Tem habilidade para correr e dominar a bola ao mesmo tempo. A ginga, Chico adquiriu na vida, não só na capoeira. O corpo precisa aprender muito de flexibilidade ao carregar numerosas sacas pesadas no porto, de maneira tal que a coluna vertebral se mantenha inteira para carregar outras tantas sacas no dia seguinte e no próximo, no próximo... E depois de carregar peso o dia inteiro, é preciso ter pernas fortes para subir o morro e disposição para ajudar um vizinho a refazer o telhado do barraco levado pelo vento. E depois de comer o feijão com farinha oferecido a toda gente, tomar um banho frio e amar a amada até o primeiro galo cantar lembrando que o porto o espera novamente.

Essa corrida insana pela sobrevivência inscreve no corpo negro um requebro, uma destreza, uma polissemia que entorta os janotas e o povo, erradamente, chama de característica negra. Certo seria entender que é a vida do negro que acaba por obrigá-lo a adquirir essa maleabilidade. E como não somos de ferro, subvertemos  a ordem da opressão, da exploração, em favor nosso. Enganamos tão bem, que passam a achar que somos bons de bola porque somos negros.

* escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Não se pode ignorar

Não importa se você odeia a Globo, não suporta BBB. Nesse final de semana aconteceu uma coisa horrível e que acontece com frequência. Mas dessa vez foi transmitido ao vivo pela maior emissora de TV do Brasil. E é também por isso que não podemos deixar de falar do caso.

Talvez você não esteja entendendo. Explico. Na madrugada de sábado para domingo, houve a primeira festa do BBB 2012 e, como sempre, muita bebida. Durante a festa, um dos participantes tentou mais de uma vez beijar uma das bonitonas da casa.

Ela não quis, rejeitou o cara. Ficou bêbada e foi deitar – pelos relatos que li, já era de manhã e ela foi deitar sozinha. O tal cara que já tinha tomado um fora da mulher foi e deitou com ela. E abusou dela.

Ela dormia, visivelmente inconsciente, sem se mexer, e o cara fazia movimentos sexuais – não dá pra saber se era punheta, penetração, se estava bolinando, mas era visível que se aproveitava do corpo inerte da mulher.

O público que acompanhava ao vivo pelo Pay-per-view começou a comentar nas redes sociais e mostrar grande indignação. O vídeo vazou na internet. São aproximadamente sete minutos que me deixaram muito chocada.

Não dá para ter dúvidas de que o cara realmente se aproveitou dela. Na verdade, o nome disso é estupro (que não acontece só em beco escuro com um maluco desconhecido te agarrando a força, tá?). E o crime foi transmitido ao vivo. A produção do programa não fez nada. Para mais detalhes da história, recomendo muito esse texto (e outros textos desse mesmo blog que vem em seguida).

Depois da mobilização nas redes sociais e a hashtag #DanielExpulso chegar em primeiro lugar dos Trending Topics do Twitter, o diretor do BBB, Boninho, chamou a mulher que foi violentada ao confessionário para falar sobre o episódio.

A conversa foi privada, o público não tem como saber exatamente o que foi dito. Boninho disse que ela afirmou ter sido consensual. O que ele não disse é que ela não lembra o que aconteceu. Isso ela fala em outros momentos, em diferentes conversas. Inclusive pro próprio agressor, que mentiu pra ela dizendo que foram dois beijinhos e que “passou a mão”. Não foi só isso.

Alguns textos sobre o assunto que recomendo:

E a situação piorou. Fiz questão de assistir BBB no domingo para ver se e como abordariam essa história absurda. Mostraram ele xavecando ela na festa. Mostraram ela de saco cheio dar um selinho nele na festa. Mostraram-na dando um fora bem dado nele na festa. E daqueles sete minutos de vídeo, mostraram apenas alguns pouquíssimos segundos que parece que ela se mexe um pouco.

Fizeram parecer que era um “amasso”. Mostraram como se fosse uma “troca de carícias”. Mas não é uma troca se só uma pessoa faz e a outra nem sabe, né? Ou seja, não é consensual. E a cereja do bolo: Pedro Bial pergunta ao vivo para a mulher se foi só uma ficada ou se tem algo mais e ainda solta um “o amor é lindo”. (realmente difícil saber o que o Bial entende por amor). Ela, visivelmente muito sem graça, responde “foi só um lance”. Um lance. Afinal, ela não sabe o que aconteceu.

O problema é maior

E por que falo tanto do BBB? Porque esse programa que tem mil defeitos e que pessoas inteligentes “de verdade” não “podem” assistir é um reflexo do que acontece fora daquela casa e longe das câmeras. Talvez você nem saiba, mas a chance de alguma conhecida sua ter passado por uma situação semelhante é grande.

Essa história me deixou mal. Muito mal mesmo. Já vi essa história acontecer mais de uma vez. E não foi pela televisão. Cheguei a tentar escrever sobre isso em outras situações, mas não consegui. Muita gente diz que é “exagero”.

Como pode ser exagero alguém se aproveitar do seu corpo enquanto você não tem condições de reagir? E se fosse com você? E se fosse sua mãe/filha/filho? Já imaginou?

Tenho uma amiga que passou por isso. E não foi com um desconhecido na rua. Foi com um conhecido, até então considerado um amigo. E foi na casa de uma amiga, um ambiente que acreditamos ser seguro. Foi situação que você imagina que não ofereça grandes riscos. Pois é.

Ela demorou alguns dias pra lembrar e entender o que aconteceu. Mas entendeu, ela foi estuprada. E os (as) amigos (as) o que acharam? O que sempre acham, ela estava bêbada e se arrependeu do que fez. Ela foi vítima, não culpada. Exatamente como essa mulher do BBB. Exatamente como outras inúmeras mulheres.

A Globo está sendo omissa e extremamente irresponsável ao não dar o devido valor ao que aconteceu. No mínimo, deveria levar o caso mais a sério permitir que a participante assistisse ao vídeo, acompanhada de advogado(a) e/ou terapeuta e/ou algum familiar, para ver como agir posteriormente.

Ao tentar vender o caso como uma “história de amor” para o público do programa, está estimulando, mais uma vez, o machismo e afirmando que vítima pode ter culpa de alguma coisa.

Uma vítima NUNCA será a culpada por ter sofrido violência. Ser omissa numa situação dessas é tomar partido, o partido que acha que violência conta a mulher é um problema “secundário”.

Você pode querer ignorar o BBB e a Globo, mas não ignore a violência que está logo embaixo do seu nariz.

Natalia Mendes, jornalista, do TodasNos, especial para o NR

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

"Missão cumprida"

É o melhor programa jornalístico da Rede Globo na minha opinião. Muito por conta da condução e competência do Caco Barcellos. Daí que ontem assisti - estupefato - o Profissão Repórter que mostra a rotina do Bope, a tropa de elite do Rio de Janeiro, venerada por muitos no filme Tropa de Elite. Ao término da reportagem, que acompanhou as rondas no Complexo do Alemão, a relação com a comunidade e as mortes nas operações, escrevi no twitter: "O Profissão Repórter sobre o Bope deu uma dimensão assustadora do que são". Sinceramente, vale a pena ver. Abaixo, em duas partes.

PARTE 1


PARTE 2
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