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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 22 de julho de 2014

Vou perder esse trem

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

Não sei se você já notou, mas é comum, ao menos no metrô de São Paulo, que algumas pessoas não entrem no trem quando ele chega.

Não precisa ser no horário de pico. Esses dias mesmo peguei o metrô às 10 da manhã, pouco movimentado. Partindo da Estação Vila Madalena, entrei apressada no trem, como sempre faço, atrasada ou não. Sentei defronte à plataforma e pude observar um senhorzinho, meia idade, camisa social branca com o terceiro botão estirado, sentado naquele banquinho verde-água de plástico.

Quem são? O que fazem? O que comem?, me pus a pensar, do lado de dentro, que já fechava as portas para dali adiante berrar o simpático “next station”, tradução feita para os além mar que vieram ver a Copa do Mundo aqui.

Não cheguei a nenhuma conclusão, mas formulei algumas hipóteses.

A primeira é a do livro bom. Já deve ter acontecido com você de perder um ponto ou uma estação por se distrair com uma boa narrativa. Os que podem matar um tempo, suponho, nem entram no trem. O que me soa um pouco estranho porque aquela luz fluorescente, as paredes de cimento frio, o subterrâneo… Não é exatamente o lugar mais agradável da cidade. Mas a oriental que lia avidamente o último do John Green não parecia se importar.

A segunda hipótese é a do sono. Sim, porque vejo várias dessas pessoas dormindo nas desconfortáveis cadeirinhas de plástico em letargia profunda. A maioria jovens, que me parecem estudantes matando aula do cursinho.

Minha terceira suposição é a do TOC. Pode parecer bobagem, mas o transtorno obsessivo compulsivo é mais frequente do que parece. Vai saber se o sujeito não entra num vagão que comece com a letra H. (Ok, confesso que só pensei nisso depois de ver um senhorzinho muito excêntrico no purgatório das cadeirinhas de plástico fazendo movimentos repetitivos com os dedos, como os de quem escuta uma mesma batida de música – com o detalhe de que ele não estava ouvindo música).

Não consigo pensar em quaisquer outros motivos para um não entrar no maldito trem. Até tentei esboçar um mapeamento etnográfico desse público, mas sem sucesso.

Sei que toda a minha angústia se resolveria ao primeiro ímpeto de coragem de me dirigir a quaisquer dessas pessoas para perguntar: “oi, sou enxerida e tenho ânsia de saber: o que você faz aqui, sentado, em lugar de entrar no trem?”. Mas tenho algum receio da resposta…

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Ligia Morresi, especial para o texto

quarta-feira, 19 de março de 2014

Férias à lá Chuck Norris


por Tomás Chiaverini     ilustração Ligia Morresi 

Os doze recém chegados estão exaustos, suados e famintos. Vieram de lugares tão diversos como Nova Iorque, São Paulo e Berlin e enfrentaram uma estafante jornada Comandos em Ação por terra, céu e água para chegar àquela longínqua paragem amazônica. Passa um pouco das quatro da tarde e a sensação térmica se assemelha à de uma sauna a vapor. Ainda assim eles juntam forças e ensaiam sorrisos de simpatia enquanto o rapaz de bermuda cáqui e camiseta verde se utiliza de um inglês tropical para apresentar as espartanas regras do estabelecimento.

O desjejum é às seis da manhã, o almoço ao meio dia e o jantar às sete da noite. Sorrisos persistem. O rapaz explica que, apesar de a pousada ser flutuante, não é possível deixar a área dos bangalôs a não ser de barco, e sempre com o pessoal local. E que, a despeito do calor, é expressamente proibido nadar no rio, infestado de jacarés e piranhas.

Nesse momento, um homenzarrão loiro, de pele muito branca, levanta a mão e, visivelmente decepcionado, pergunta se realmente aquela água toda ficará ali à disposição e ele não poderá sequer refrescar os pés. O rapaz de camiseta verde conta de uma funcionária que limpava peixes na varanda da cozinha, foi atacada por um jacaré e por pouco não perdeu a perna. Depois dá prosseguimento às instruções que, apesar do tom amável, não deixam de remeter ao discurso de um carcereiro recepcionando presidiários novatos.

A água do rio alimenta os chuveiros e as torneiras mas não é potável. Cada bangalô conta com o auxilio luxuoso de duas garrafas térmicas para matar a sede e escovar os dentes. A energia elétrica é solar e, apesar do calor apocalíptico, escassa. Há pequenos ventiladores elétricos ao lado das camas, mas eles só funcionam por três horas diárias. Nesse momento, os recém-chegados, que ainda não se conhecem entre si, trocam olhares de cumplicidade, desconfiando que aquilo pode ser um trote de boas vindas. Não é.

O rapaz de camiseta verde informa que haverá uma hora de descanso antes de saírem para a primeira trilha. Os sorrisos prosseguem mas agora, além da simpatia forçada, denotam um discreto desespero. A maioria permanecerá ali por quatro noites. Alguns ficarão confinados por sete longos dias.

Sem mais a fazer, eles pingam de suor e arrastam malas e corpos cansados até seus bangalôs. São quartos amplos de madeira, cobertos por telhas cor de tijolo feitas de garrafas pet recicladas. A estrutura, interligada por passarelas de madeira, oscila de leve sob o peso dos hóspedes. Em cada cômodo há duas camas de viúva com cortinado, duas mesinhas pequenas e uma cadeira. As janelas são forradas por telas contra mosquitos. Ao lado da cama há dois ventiladores de Kombi cujo diâmetro não ultrapassa os ridículos vinte centímetros.

Há frestas consideráveis entre as tábuas do assoalho e é possível ver a água amarronzada do rio lá embaixo. Também é possível ouvir peixes pulando ou, no caso do pirarucu, subindo à superfície para respirar. Famílias de morcegos se mexem e guincham entre o forro e as telhas. De tempos em tempos um urro profundo e assustador vem lá de longe na floresta. Bandos de macacos guariba disputando território.

Os hóspedes largam as malas e se olham ampliando aquele sorriso de desespero, tentando não pensar que, pelos cerca de R$ 600 por dia para o casal, poderiam pagar um confortável e asséptico resort em Cancun ou um cruzeiro pelo nordeste com direito a show do Rei Roberto e sem limites para caipirinhas de frutas vermelhas. Acalma-se pensando que a Pousada Uacari fica dentro da reserva Mamirauá, e que o dinheiro arrecadado, em vez de engordar o caixa da CVC, será dividido entre os habitantes locais que gerenciam o lugar.

Na caminhada, o guia explica que aquele será o único dia em que o grupo sairá junto, porque na maioria das trilhas não são permitidas mais do que quatro pessoas. O ocaso urge e o passeio é rápido. Uma hora sob uma mata aberta, onde é possível ver a marca do rio no ano anterior, mais de cinco metros acima do chão. Na época da cheia, toda a região da reserva alaga, e os passeios são feitos apenas de barco.

Um pouco adiante o grupo avista um bando de macacos de cheiro e, ainda sem dimensionar o tamanho do problema, se depara com alguns exemplares da mais perversa criatura já saída das pranchetas do Criador: mosquitos. O guia, um caboclo baixinho que tem jeito de criança apesar do rosto enrugado, sorri enquanto o grupo se estapeia. O macaco de cheiro, explica, tem esse nome porque urina nas mãos e passa no pêlo pra espantar os mosquitos. Até o fim da estadia os doze integrantes do grupo, sem exceção, aventariam a hipótese de fazer o mesmo.

Na manhã seguinte, após o café, dividem-se em atividades diversas que basicamente se resumem em ver a floresta, com devoção especial a seus habitantes. Aranhas, besouros, escorpiões, grilos, peixes, répteis, preguiças e os reis do pedaço: nossos coleguinhas primatas. Macacos prego, macacos de cheiro e, claro, o Uacari branco de cara vermelha que só existe ali e que motivou a criação da reserva. Em passeios à pé, de barco a motor ou em canoinhas a remo, vêm bando de biguás decolando do meio do rio para pousar numa árvore ao pôr-do-sol. Vêm araras, tucanos, ciganas e falcões.

Depois da segunda ou terceira noite estão razoavelmente acostumados ao enxame de mosquitos que, qual a oitava praga do Egito, torna o ar denso e agressivo. Eles picam sem dó, por cima das roupas encharcadas de repelentes, mas, a essa altura todos já sabem, por experiência própria, que não se pode morrer devido a picadas de pernilongos (os guias garantem que a região é livre de Malária). Também já sabem que os morcegos, que voam à centenas, como se estivessem no quintal de Bruce Wayne, não apenas são inofensivos como alimentam-se de mosquitos.

Misteriosamente passam a ver algo de bucólico nos enormes jacarés boiando diante da sacada dos quartos, com aquela calma de rocha pré-histórica, e sabem que aquele silvo fantasmagórico que sobe pelo assoalho nas madrugadas nada mais é do que um suspiro dos companheiros répteis. O calor continua, mas já é algo natural, e os ventiladorezinhos de Kombi se constituem num artigo de raro luxo e deleite.

No último dia, visitam o lago Mamirauá, num passeio catártico que reúne todos os animais acrescidos da presença mítica dos botos cor de rosa, que corcoveiam na água de um lado para o outro, exibidos feito atletas de nado sincronizado. Voltam para a pousada já à noite, vendo as estrelas refletidas na água escura do rio.

Quando colocam as malas no barco no dia seguinte estão queimados de sol, cobertos de picadas, arranhados de espinhos e ligeiramente mais magros devido às caminhadas diárias e à dieta minimalista de arroz, feijão e peixe. Um hóspede sueco leva o troféu de um dedo enfaixado, depois de ser abocanhado por uma piranha durante uma pescaria. O paulista alto e branco ainda considera a hipótese de dar uma nadada com os jacarés, mas se contém. Nenhum deles trocaria a experiência por uma temporada em Cancun ou por um cruzeiro com o Rei Roberto.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Ligia Morresi, especial para o texto

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Roque sabe


por Carlos Conte    ilustração Ligia Morresi*

Vão pensar que estou ficando maluco. Por educação, ninguém vai ter coragem de me falar isso, mas vão pensar, tenho certeza: “Que coisa, o Carlos enlouqueceu! O que se pode fazer?...” Mas é verdade, pensem o que quiserem. Meu cachorro, o Roque, um vira-lata preto que acaba de completar 3 anos de vida no último 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, consegue ler meus pensamentos.

Não entendo de psicologia canina, mas o pouco que sei de psicologia humana me faz duvidar do fenômeno da telepatia, assunto estudado pelos defensores da parapsicologia e seus métodos tão pouco científicos. Já tinha ouvido falar de cães com supostas habilidades paranormais: “Ah, o meu cachorro sabe quando estou triste”, ou “sabe que vou mandar ele pra casa da avó”, ou “sabe que está na hora de comer”... sabe isso, sabe aquilo, coisas que o animal, evidentemente, não teria como saber, pois estão na cabeça do dono, mas o que não falta é gente que acredita em transferência de pensamento, seja entre pessoas, seja entre bichos ou até mesmo entre pessoas e bichos.

Sempre duvidei. Papo aranha! Ora, cachorros são condicionados, como são condicionadas as orcas do Sea World, o Rin-Tin-Tin, ou o Flipper, aquele golfinho dos filmes antigos. Não sabem coisa nenhuma, mas foram amestrados, por algum espertinho que tem o olho na grana e poderia trabalhar num circo ensinando elefantes a dançar no picadeiro. É a velha história de estímulo-resposta inventada pelo Skinner. O elefante dança ao ritmo da música porque foi treinado por um longo tempo a associar a música com a experiência dolorosa de pisar numa chapa quente.

Por exemplo, tive uma cadela, a Tifany, que previa quando íamos sair de viagem. Imagino que ela relacionasse o fato de tirarmos as malas do guarda-roupa com a longa ausência que se seguiria, talvez pelo cheiro de mofo das malas sem uso durante meses, talvez pela simples imagem das malas. Fosse pelo cheiro, fosse pela imagem das malas, era começar a arrumar as bagagens que ela se enfiava debaixo do sofá, começava a salivar e a tremer, coitada, em completo desespero, porque tinha aprendido que as malditas malas eram o prenúncio de dias de solidão.

Com o Roque também é assim. Mas o Roque é mais inteligente que a Tifany. Ele sabe das coisas, diferentemente de cães comuns. (Todo dono de cachorro acha que o seu é mais esperto que os outros: “Ah, igual ao Brutus eu nunca vi! Até parece uma pessoa”). Pois o Roque, garanto, é como se fosse uma pessoa. Mais que isso. Pessoas não leem pensamentos, o Roque sim. Já disse: ele sabe das coisas.

No começo, não me espantei: a chave era o sinal. Quando ele ouvia o tilintar do molho de chaves, latia, porque sabia que ao som metálico das chaves se seguiria o nosso cooper diário. Até aí tudo bem. A Tifany também associava o barulho da coleirinha com o passeio. Sei de muitos cães que fazem isso. Mas o Roque foi além. Com o tempo, ele começou a se antecipar à etapa das chaves. Bastava tirar o shorts da gaveta que ele, lá embaixo, no quintal (meu quarto fica na parte de cima do sobrado), começava a latir. Incrível, pensei. Certamente está associando o cheiro do shorts com a corrida, que ele tanto adora. E cachorros, todos sabem, têm um faro extremamente apurado, a ponto de serem usados por caçadores atrás de veados ou por policiais federais atrás de drogas. Penso que o Roque bem que poderia ser útil pra essa gente, devido a essa enorme capacidade olfativa, mas está fora dos meus planos, e também dos planos do Roque, caçar veados ou prender alguém. Ele sabe, por exemplo, quando vai chover, sabe quando vou sair de casa (porque sente o cheiro da mochila), sabe todas essas coisas – ou, melhor dizendo, não é que ele saiba, mas está acostumado, condicionado, a associar o cheiro ao fenômeno que a ele está diretamente relacionado. Até aí nada de novo, porque os outros cães também sabem dessas coisas.

O susto veio num dia em que, escrevendo no laptop, pensei (não falei, nem fiz nenhum sinal – apenas pensei): “Bom, mais um parágrafo e vou correr!”. Mal termino de combinar isso comigo mesmo, ouço o Roque latindo lá embaixo. Olho pela janela e vejo que ele está sentado, língua de fora, bem debaixo da minha janela, naquela velha posição ansiosa, me esperando descer. Vejam: saio para correr todos os dias, portanto é de se esperar que ele, esperto que é, já tenha registrado isso na sua memoriazinha de cão; mas nem sempre corro nos mesmos horários. Tem dias que vou logo cedo, assim que acordo. Tem dias que vou à noite, pra fugir do calor. Não me perguntem como, mas ele sabe.

A partir de então é assim: não espera que o shorts saia da gaveta, nem que o molho de chaves faça o seu característico tilintar, sinal tão óbvio para qualquer cachorro normal. Posso estar no banheiro, lendo jornal enquanto me alivio, tomando banho, olhando os últimos posts no facebook: é pensar, mesmo que vagamente, que está na hora de correr, que o Roque começa a latir lá embaixo. Nos dias em que estou com preguiça, isso até me serve de estímulo. “Bom, ainda preciso enviar uns e-mails, preparar umas aulas, terminar esta crônica... Acho que hoje, só hoje, vou cabular a corrida...”. Mas aí, como um amigo pentelho convidando pra tomar cerveja numa segunda à noite, ou o louco do Cadão nos tempos de criança na Vila Ipojuca tocando a campainha insistindo pra jogar futebol, o Roque, percebendo minha hesitação, antecipa-se, e decide por ele mesmo, ou por nós dois, que hoje, sim, vai ter corrida. Nesses dias, talvez seja melhor não pensar.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração especial para o texto de Ligia Morresi, designer e ilustradora

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Grande desafio das massagens: Parte 2



por Thiago Domenici    ilustração Ligia Morresi*

Tomas Chiaverini não gosta de ganhar massagem. Dá pra entender? Ele diz que não gosta e ponto. E o fato de ele não gostar acometeu esse texto e o dele, depois de um papo virtual despretensioso.

Faz tempo quero falar desse assunto. Faz tempo: digamos que há 5 mil anos existem registros de desenhos do uso de técnicas de massagem na China, Japão, Egito, Pérsia – atual Irã. Massagem, veja você, é a manipulação do corpo do outro por meio do toque o que nos traz muitas vantagens terapêuticas.

Minha experiência mostra que os pés são templos de sentidos. É um universo. As costas, talvez uma preferência nacional, são minha segunda opção. Apesar que o seguinte: minhas panturrilhas tem se destacado nos últimos anos como minhas preferidas zonas de dor e prazer. Ficar sentado muito tempo dá nisso. E dá noutras coisas também, mas deixa pra lá.

Massagem exige muita técnica e estudo. E a técnica somada a mais ou menos força gera prazer, libera endorfina – a substância do bem-estar. E o prazer, ao gosto do freguês, ora vem com ou sem dor. Muita atenção: não é só maçarocar o sujeito de qualquer maneira que tudo se resolve. Não, não, não.

Tem de tudo na massoterapia: da anti-celulite a ayurvédica; da anti-stress a holística; da massagem com velas a quick massage; da aromaterapêutica a biodinâmica; do shiatsu a tibetana; da sueca à redutora; da pedras quentes a tailandesa etc

Digo de brincadeira mas é muito sério: todo ser humano devia ter direito a massagem. E essa coisa toda tem base científica. Não é piração. Os gregos da antiguidade e chineses de séculos passados já praticavam massagem em seus atletas depois de exercícios.

E uma turma de cientistas no Canadá demonstrou que os gregos e chineses entendem do negócio. O estudo mostra que a massagem facilita a recuperação após danos musculares. Dez minutos de massagem reduziram os sinais de inflamação nas células. E, algo que vai merecer mais estudo, o "resultado foi parecido ao produzido por analgésicos”.

Bom, é preciso também ver o lado do massagista – “doador” –, profissão das mais nobres e difíceis. Há que se ter uma empatia entre massagista e massageado. Ele pode, oras, até negar a massagem. Seria justo caso o sujeito não se apresente em condições adequadas ou com ideias erradas na cabeça.

Pense bem: não é tão culturalmente natural deitar numa maca com parte do corpo despida diante de um desconhecido. E o massagista, por azar, pode pegar cheiros e texturas pouco ortodoxas durante sua jornada profissional. Massagista amiga minha é da tese que todo mundo devia tomar banho antes da sessão. Eu topo. Mas o Tomas não. Cada um na sua. Não tô aqui para provocar ninguém.

Como tudo que é bom – ou quase tudo – não é barato, penso que a popularização da massagem ia ter impacto econômico-social positivo na sociedade. Mas a felicidade, nesses casos, tem preço – e no caso em questão varia bem e não tem muito a ver com a inflação.

Para dar rumo final a essa prosa, não se pode negar que a questão prazer-dor tem uma vertente sexual – veja bem, sexual não é sexo. O ato de dar e receber massagem tem uma ligação de corpos, de sentidos e sensações. Portanto, a ver com doar e sensibilizar.

A melhor massagem da minha vida será sempre a próxima. Ao fim, aquele sono que me dá e um relaxamento gigantesco é o que todo corpo precisa para vencer o dia seguinte. Entendeu, Tomás?

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR. Ilustração especial para o texto de Ligia Morresi, designer e ilustradora

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Medida certa?



por Alexandre Luzzi   ilustração Ligia Morresi*

A “VALORIZAÇÃO” DO CORPO E O MAL-ESTAR NA ATUALIDADE

Na mitologia grega, Procusto, filho de Netuno, era um salteador sanguinário que obrigava os viajantes, depois de pilhá-los, a deitar sobre um sinistro leito de ferro nunca do tamanho do corpo dos infelizes: se eles fossem mais curtos que o leito, estirava-os com cordas e roldanas; se ultrapassassem as medidas, cortava-lhes a parte que sobrava. Todos, sem exceção, deveriam se ajustar à sua cama.

Procusto era alguém que ajustava o corpo das pessoas a certas medidas ideais, sempre a partir de um único padrão. Do ponto de vista simbólico, Procusto pode ser considerado um normalizador, o patrono de todo imperativo que impõe normas e um guia de conduta, reduzindo a experiência humana a relações de causa e efeito nunca livres de interesses (qualquer programa de televisão com o título desse texto é mera coincidência).

Ao tomar conhecimento da narrativa mítica, não pude deixar de associá-la com o papel do profissional de Educação Física (EF) dentro do dispositivo da saúde e sua relação com o corpo e a sociedade.

Segundo Flávio Soares Alves, da Faculdade de Educação Física e Esportes da USP, “o profissional de Educação Física passa a ser agente ativo de uma ideologia do ser saudável, passando por cima da diversidade dos corpos, em função da reprodução de uma lógica excludente, que dita padrões estéticos de beleza e saúde.”

Não podemos esquecer que o homem, por meio de seu corpo, assimila e se apropria dos valores e normas sociais, num processo de incorporação. É sobre o corpo, em sua qualidade sensível, que incidem as formas de controle e dominação que ressultam no processo de “anestesiamento” de seu campo intensivo (corpo afetivo e pulsional).

Esse fenômeno é muito fácil de ser observado na religião (controle da sexualidade), no capitalismo (transformação da força criativa em força produtiva) e agora de uma forma mais sutil, mas não menos agressiva, no dispositivo da saúde.

Com o corpo sendo submetido cada vez mais ao controle, à segmentação e a manipulação em função da norma e de um ideal a ser alcançado, a saúde sustenta-se sob um discurso que reduz o corpo à sua dimensão anatomofisiológica, ou seja, a saúde se opõe ao estado de doença. O educador físico, servindo-se deste discurso monta seu dispositivo de saúde para convencer seus clientes de que a saúde que ajuda a promover traz controle e segurança sobre a vida. Com isso, sugere garantir a juventude e a beleza daqueles que apostam na eficiência deste dispositivo forjado.

É por meio dessa produção simbólica de valores, associada ao poder da indústria midiática, que uma série de imagens-ícone são produzidas, deliberadamente, aprisionando a subjetividade pelo medo à exclusão e o desejo à hegemonia.

Afinal, se os famosos se submetem a todo tipo de sacrifício em nome da medida certa, respaldados por um discurso de “verdade científica”, para nós, meros mortais, restam poucas dúvidas de que esse é o caminho certo.

Alves destaca ainda que “os padrões impostos por certas imagens fazem com que nos voltemos contra nós mesmos, revoltados com nossa própria inadequação. Tal descompasso é desconfortante e nos força a uma retratação que, muitas vezes, corre na contramão de nossos próprios desejos”.

O corpo passa a ser vivido como um lugar permanentemente de risco, um lugar que pode a qualquer momento nos ameaçar. Diante desses problemas questiono sobre o papel do profissional de Educação Física e sua participação na condução desse sistema de representações na qual se articulam o corpo, a saúde e o movimento.

A superposição deliberada e maliciosa entre corpo e organismo, ou seja, a redução do corpo a aspectos meramente biológicos, carrega toda uma problemática que vem acompanhando a Educação Física desde o seu surgimento: sua despolitização. Uma disciplina orientada por um ideário neoliberal (o movimento ressignificado a partir de conceitos como produtividade e funcionalidade), com pouca consciência das relações de poder na produção de valores que norteiam sua prática, afastada da subjetividade de quem ensina e de quem pratica, produzindo dessa forma o mau encontro.

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*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Curvas


por Carlos Conte ilustração Ligia Morresi*

A tropa marchava sob o sol forte de janeiro. Eventualmente se revezavam chapéus, cangas, toalhas, camisetas, o que servisse para cobrir do sol as partes mais expostas do corpo. Debaixo de seus pés, do areal infinito, subia um bafo picante que pouco a pouco ia pegando na pele, junto com a areia que vinha de toda parte trazida pelo vento. Aliás, nas praias uruguaias o vento nunca dá descanso.

Nada que atrapalhasse a caminhada. Há alguns dias tinham encarnado o espírito “buena onda” dos uruguaios. Nem mesmo as dunas, enormes obstáculos que se sucediam como numa paisagem desértica, os desanimava. Era caminhar. Uma ânsia deambulatória que se misturava com uma vontade louca de falar. O único grilo foi do Pelo, que não sabe nadar, e preferiu atravessar o “arroyo” de barquinho junto com as bagagens. De resto, nenhuma chateação. Pacha empunhava seu inseparável cajado de outras viagens enrolado numa canga feminina, talvez da Juca, o que para os olhos chapados dos demais era a perfeita imagem de um visionário, um messias encarregado de anunciar ao povo alguma coisa muito boa, talvez a paz mundial ou algo do gênero. Tudo bem, estavam loucos de LSD e sua viagem era outra.

Tinham uma missão, na verdade. Chegar ao vilarejo de Cabo Polônio, ver os lobos e leões marinhos – que são bem diferentes, explicava Khan, os lobos são menores, os leões maiores e mais gordos, mas ambos extremamente agressivos, Khan lhes dizia. Sim, queriam chegar ao Polônio antes do sol se pôr, primeiro para não correr o risco de perder o último caminhão que os traria de volta a Valizas, onde estavam hospedados, depois porque queriam ver os tais lobos e leões marinhos – que são fedidos pra cacete, alertava Khan.

Chico, o mais falante da turma, contava a história de Juancho, um velho sábio uruguaio, rouco como todos os uruguaios (pois entraram na noia de que todos os uruguaios são roucos, uma maluquice, sem dúvida), e Juancho, com sua voz sempre tranquila e sempre rouca, tipicamente uruguaia, portanto, costuma dizer aos viajantes que passam por sua cabana que na vida só existem dois caminhos: “el camino del mar y el camino del bosque”. Assim, alerta Juancho, pelo caminho do mar deve-se tomar cuidado com os lobos, e pelo caminho do bosque, com “los cascaveles”.

A missão era chegar ao Polônio a tempo de ver os lobos e os leões marinhos, mas pelo caminhar da tropa via-se que seria difícil estar no Polônio antes do entardecer. Era aparecer um inseto exótico, ou pegadas animais misteriosas, uma borboleta colorida, rochas revestidas com uma trepadeira que parecia maconha, era alguém ter uma ideia, subir numa pedra e começar a solar sobre qualquer bobagem que a turma parava a caminhada para ouvir a explanação. Uma formação curiosa de nuvem. Paravam. Analisavam, como se aquela nuvem fosse a nuvem mais bonita e bem feita entre todas as nuvens. Numa baixada, passaram por um pedaço de areia que, para alguns, seria movediça, mas na realidade não era areia movediça nenhuma, apenas uma paranoia de quem está muito louco e quer experimentar enfiar o pé naquela areia fofa e úmida – e era de fato gostoso brincar de afundar o pé na areia – que, de todo modo, não chegava a ser movediça, como afirmavam, quem sabe uma prima distante da verdadeira e temível areia movediça que só se vê na televisão.

Assim, erravam por aquele espaço imenso, tomado por dunas intercaladas por terrenos baixos, de charco: a aridez das dunas, a umidade das baixadas. Devido a essas distrações, acabavam não seguindo uma linha reta, que, como se sabe, é o caminho mais curto entre dois pontos, mas faziam curvas, de acordo com a necessidade da loucura. Faziam curvas, curvas que são. Traçavam parábolas absurdas naquele areal, cujo rastro logo seria desfeito pelo vento incessante do Uruguai. E assim o grupo se distraía, demorava, atrasava... Mas seu objetivo, na verdade, seu verdadeiro objetivo nisso tudo não era chegar ao Polônio antes de escurecer; sua missão, se é que se pode lhe dar esse nome, era atender ao chamado das curvas, curvas que são. E para aumentar o grau de curvice da viagem juntou-se a eles, de última hora, uma colombiana chamada Paola, que viajava sozinha pelo Uruguai. Em poucas horas, já era adorada por todos: Salchi, Lili, Ju, o europeu da turma Robert, Cisne, Line e o argentino Julio. Ao todo, treze. Doze sem Paola. Treze com Paola, que estava acampada junto com a turma do Pacha no camping do pirata Hernán, e mantinha um diário do qual não se desgrudava. Num momento de distração, Chico teve acesso ao diário e leu um trecho em que ela descrevia a sensação de ter visto discos voadores na noite anterior. Foi o bastante para que Khan e Line, no final da viagem, chegassem à conclusão de que, entre todos os curvas dessa temporada de férias no Uruguai, Paola era a maior de todas, uma espécie de Tamburello, uma curva da estrada de Santos, o “oconcur” da curvice sulamericana, estando à frente até mesmo do pirata Hernán, o dono do camping, que, durante um “asado” noturno, enquanto cortava uma peça de carne, meteu a faca na palma da própria mão, fazendo-lhe um talho até que profundo, de onde imediatamente começou a escorrer sangue, que foi se juntando ao sangue da carne bovina crua; e foi nesta noite que comungaram o sangue de Hernán, também chamado de Profeta, que não deu a mínima nem para o corte nem para o sangue, que serviu de tempero pra carne.

O Hernán é um velho hippie típico dessa parte do litoral uruguaio. Os curvas estavam no lugar certo. Como na lenda de Juancho, enveredaram pelo “camino del bosque”, onde felizmente não se depararam com nenhum “cascabel”, mas, aproveitando a sombra, pararam mais uma vez: largaram suas mochilas, estenderam suas cangas no solo duro e espinhoso, repleto de folhas secas, ramos, pinhas e cascas de madeira. Quanto tempo passaram dentro desse bosque! Conversavam compulsivamente. Estavam loucos por falar, como diria Jack Kerouac, inclusive sobre a possibilidade de, quem sabe um dia, sair da cidade grande e ir morar num desses vilarejos rústicos, pouco povoados, extremamente tranquilos, do litoral uruguaio. Chico liderou um grupo expedicionário pelo interior do bosque. Paola, a colombiana dos óvnis, abriu seu inseparável diário e começou a escrever; estaria vendo alguma coisa extraordinária no meio daquele pinheiral? Elfos. Fantasmas. Quem sabe o lendário Juancho ao lado de um “cascabel”? Mas a surpresa veio do europeu da turma, o Richard, que explicou aos demais que “curva”, em polonês, significa “puta”. Ou soa parecido com “puta”. A palavra “curva”, desde então, passou a fazer mais sentido para todos.

Claro que não chegaram a tempo de ver os lobos e os leões marinhos. Assim que entraram no vilarejo do Polônio, no entardecer, ficaram sabendo que os dois últimos caminhões estavam de saída.



Hora de fugir para as montanhas, como costuma sugerir o Binho Miranda quando a barra pesa. Melhor, disse Pacha há um mês no facebook, voltemos às planícies uruguaias, banhadas pelo Atlântico, rever os “arroyos” translúcidos que cortam o país em direção ao oceano, os bosques litorâneos cheios de coelhinhos e esquilos, quem sabe trombar o Mujica de bobeira por lá, viver modestamente, mas felizes, com certeza, arrumar uma chica, comprar um pedacinho de terra e daí encher este mundo de “niños uruguayos”, que em vez de dizer “tchau” diriam “que pase lindo!” todo dia antes de ir pra escola. Será que por aqui a água está batendo no umbigo, meu chapa? A barra pesando, toca pro Uruguai! Viver com o pirata Hernán, entre o oceano e o bosque, num chalezinho hipponga, e quem sabe um dia topar com o mitológico Juancho, que certamente irá falar sobre os dois caminhos da vida e o perigo de se encontrar pela frente um lobo ou um “cascabel”.

* Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

quinta-feira, 11 de julho de 2013

“Sinceramente,


por Ana Mendes  Ilustração Ligia Morresi*

não sei o que fazem com o dinheiro. A gente dá comida, leite, frango e casa. Vive lá com a mulher e o filho naquele lugar lindo.

Ganham o dinheiro limpinho. Não pode trabalhar de noite, não pode emprestar o filho pra um serviço e outro, não pode.

A gente não tem como controlar o horário de trabalho deles, é impossível. E esse negócio de fundo de garantia? Complicou muito, muitíssimo. Os recibos todos assinados, tá tudo certinho, o advogado falou. Mas empregado tem sempre razão. Eu mandei a fulana embora dia 6, tudo em dia, mas ela queria mais!

Férias, fundo, aviso-prévio. E o país nessa crise que está. Eu fico apavorada quando vejo as pessoas comprando 1 tomate, 1 cebola! Tá tudo caro, aí tu quer uma faxineira e não dá. Mas também, essa gente não quer trabalhar. Estão cobrando 100 reais por uma faxina. Ganham bem. Se matam trabalhando, nada! Trabalho não mata.

Olha aqui ó, as faxineiras exploram as pessoas, elas são inteligentes. Só querem trabalhar na casa de gente solteira, onde tudo é organizado. Tá certo, né? Espertas. Eu também quero ser faxineira assim: escolhendo trabalho. Ainda mais hoje em dia que os produtos de limpeza fazem tudo por ti. Os vidros são a coisa mais fácil. O assoalho, então? Uma enceradeira e plim. Tá fácil. Mas o mundo tá mudando, não vê? Todo mundo lutando por seus direitos, é bonito isso. É bom pro país, pra colocar ordem na casa. Cada macaco no seu galho. Eu também quero meus direitos, não sou uma empresa, sou uma pessoa, trato as empregadas como se fossem da família.

Elas brincam com as crianças, comem junto com a gente. Mas e agora? Com esse monte de regra aí ficou até constrangedor, sabe? Agora tenho que dizer pra fulana, ó, fica aí no pátio uma hora sentada esperando o almoço passar. Senão depois tu vai me processar. Fica aí. É horrível."

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Casa da Vó


por Tomás Chiaverini  ilustração Ligia Morresi*

Uma festa dionisíaca. Música alta sem ligar pros vizinhos, intervenções artísticas nas paredes, stripers, pirofagia, fogos de artifício. A festa da demolição. Era o mínimo que poderíamos fazer pelo predinho de dois andares, encravado no âmago da boemia paulistana: Arthur de Azevedo, quase esquina com a Fradique Coutinho. A Casa da Vó.

A primeira vez, pus os pés sobre os tapetes persas puídos que forravam o chão de tacos da Casa da Vó foi há algo como quinze anos. Estava no colegial e usava um vergonhoso porém bem cuidado rabo-de-cavalo. Devia ser pouco mais de dez da noite e lembro bem do meu grande amigo Arpad entrando pé-ante-pé na minha frente, do som alto e da luz azulada da televisão vindo do quarto da Dona Alzira.

– Vó?... – Ele gritou da sala, com a voz cheia de receio. – Trouxe um amigo pra dormir aqui, tudo bem?

– Contanto que não durma comigo!... – Foi a resposta bradada num português arquetipicamente alentejano.

Dona Alzira era assim. Baixota e gorducha, dona de um mau-humor tão direto e evidente que ganhava contornos cômicos. Lúcida e ativa, sabia da fama de birrenta e usava isso a seu favor, às vezes (talvez na maior parte delas) apenas por diversão. Tinha uma vitalidade incomum para os oitenta anos e estava sempre viajando, o que, ao longo de uma década e meia, nos deu oportunidade de realizar um sem número de festas dionisíacas no seu apartamento recheado de fotos antigas e flores de plástico.

Não lembro quantas vezes dormi embriagado nos lençóis de Dona Alzira enquanto ela viajava pelo Brasil em excursões da terceira idade. Mas lembro bem de algumas em que sucumbi às carícias femininas, pecaminosamente alheio ao Cristo de madeira, obrigado a assistir a tudo com as mãos pregadas na parede da cabeceira.

Dona Alzira sofria com nossa boemia, com a boemia do bairro e, em especial, com a boemia do neto. Um desabafo dela ao próprio tornou-se anedota recorrente no fabulário da Casa da Vó. Estava inconformada com a morte de duas plantas postas em dois grandes vasos na calçada, ao lado da porta da frente.

– Toda noite esses bêbados sem-vergonha mijam nas minhas plantas – revoltava-se sem saber que a fonte da ureia mortífera era, vejam só, a bexiga de seu próprio neto.

Há cerca de dois anos, Dona Alzira ficou doente. Na verdade foram vários problemas na sequência, um agravando o outro. Ela perdeu a vitalidade numa velocidade espantosa e em pouco tempo já não podia morar sozinha. Há pouco mais de um ano, mudou-se para a casa da filha, e alugou o apartamento para o neto, que convidou outra amiga, a Marilia, para dividir a casa e as despesas.

A vocação ainda mais festiva da nova configuração já se evidenciou na mudança. Pleno sábado de carnaval, uma van, três amigos, daí passamos na casa do Paulo que incrivelmente estava de bobeira na calçada, pensando no que fazer da tarde modorrenta, e foi imediatamente sequestrado junto com a Nat, e logo era tudo uma confusão de coisas velhas sendo jogadas fora e perucas da Dona Alzira distribuídas para acompanharmos o bloco de rua que logo passou na nossa porta, como aconteceria se a vida fosse um filme de Felini.

Em pouco tempo, o que era um ponto de apoio à boemia, logo se tornou o centro da nossa interação social, zona franca dos prazeres mundanos. Por um regulamento nunca escrito ou sequer falado, alguns membros subjetivamente eleitos daquele grupo tinham liberdade de marcar comemorações, aniversários ou churrascos na Casa da Vó.

Alheia às alegrias que sua ex-casa nos proporcionava, Dona Alzira ficou novamente doente. Foi internada algumas vezes, por períodos progressivamente mais longos... Até que, já viram... Há alguns meses Dona Alzira não está mais entre nós. E algum tempo após a sua morte, a família finalmente capitulou às investidas de uma construtora. Não havia escolha. Ou vendiam o predinho por uma polpuda quantia de reais, ou teriam de conviver com uma obra que se estenderia durante anos e faria da Casa da Vó uma verruga encravada em mais um arranha-céu neoclássico. Isso se as velhas fundações resistissem aos bate-estacas.

Daí, portanto, a ideia da festa da demolição. Uma última homenagem ao prédio moribundo. Um misto de comemoração, catarse e funeral, uma histérica e dolorosa ode a Shiva e à inclemência do tempo. Chegamos a planejar as intervenções artísticas e até escolhemos a data. Não aconteceu na primeira e adiamos, sem muita certeza. Também não aconteceu na segunda.

E, novamente, já viram... A festa da demolição nunca se concretizou. Meu grande amigo Arpad arrancou as peças dos banheiros, as janelas e as portas para instalar na sua nova casa, num sítio no extremo da Zona Sul. O máximo que pude fazer foi quebrar um pedaço de parede com um ponta-pé. E hoje nosso querido sobrado não passa da uma pilha de escombros.

Aos leitores, peço perdão pelo anticlímax final. Mas assim parece ser a vida, uma vertiginoso desfile de caprichos e picuinhas do tempo. Poderia, talvez, terminar com o doloroso clichê de que éramos felizes e não sabíamos. Mas não seria verdade. Éramos felizes e sabíamos muito bem disso.


*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Pequenos do mundo, boicotem



por Thiago Domenici   ilustração Ligia Morresi*

Hoje eu quero falar de utopias. Quero falar da força dos pequenos. Uma força que nós, os pequenos, não temos a dimensão. Nós, os pequenos, a maioria nesse mundão. Nós, os pequenos, explorados pelos grandes.

Conclamo a um ato de rebeldia extrema. Evoco, aqui, agora, o princípio de Gulliver, cunhado pelo filósofo francês Michel Onfray, que sugere que somando forças os pequenos podem multiplicar-se e fazer grande estrago.

O camarada filósofo disse mais: “A razão é sempre minoritária, pois a inteligência é mais rara do que a obediência”. E mais: “As pessoas preferem uma ficção que lhes dê segurança em vez de verdades que inquietam ou certezas que angustiam”. Touché!

Já que o sistema está aí para nos azucrinar, azucrinemos com ele de vez em quando. Boicotem o que desejarem! Esse blog, se julgarem inoportuno esse texto. Que seja só por hoje, mas boicotem!

Escolham um alvo bem sacana no mundo do capital nosso de cada dia. Aquele que te põe numa encruzilhada. Esses, bem espertos, que te pegam e amarram psicologicamente e economicamente. Adicione uma dose cavalar de saco cheio, rejeições, indignações e vá em frente. Tente!

Imagine que por menor que seja o efeito colateral, no prazer – repito, no prazer! – de saber que você, o pequeno, não se dobrou ao grande: “Era pra fazer e não fiz!” Tudo o que é vendido nas propagandas dos meios de comunicação é passível de boicote. Inclusive, os próprios meios de comunicação.

Você pode se indagar: mas se todo mundo deixar de consumir algo comum, seja um produto, ideia, atividade etc. o estrago será grande? Será um estrago, acredite, a proporção vai depender da massa que se uniu ao boicote. O fato é que sem audiência, um seriado de televisão, por exemplo, por melhor que seja, acaba. A lógica é a mesma para quase tudo: grana, bufunfa, capital, ri-que-za!

Sem a audiência dos pequenos as coisas não tem sentido de existir. O seu boicote pode vir em forma de denúncia ou propaganda negativa. A sua opinião, sobretudo no mundo virtual onde tudo fica mais exposto, pode, sim, mudar as coisas.

Exemplo: o recente site BoicotaSP, que diz não ser o "Procon e nem o Reclame Aqui", ideia de um publicitário, sugere ao internauta que liste os lugares que exploram demais em São Paulo. O espaço pretende ser um "guia de boicote aos estabelecimentos, eventos e qualquer coisa que saia do razoável." Com pouco mais de uma semana na rede a audiência é altíssima e já conta com mais de 20 mil fãs no Facebook.

Inspiremo-nos em Rosa Parks, a brava negra que não cedeu seu lugar no ônibus para um homem branco em 1955 na localidade de Montgomery, EUA. Dar lugar aos brancos era lei (segregacionista, é claro). Presa por seu ato, Rosa angariou uma avalanche de apoio que detonou o boicote maciço aos ônibus levando, posteriormente, a Suprema Corte a abolir a lei. Rosa Parks, meio por acaso, ajudou na luta anti-segregacionista dos EUA.

Vamos, nobres leitores, vamos mudar o mundo sem tomar o poder (por enquanto!). Só por hoje, por uma utopia desse escriba, vamos cutucar o comando central e dizer: “tamo de olho e querendo te derrubar”.


*Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR. Ilustração especial para o texto de Ligia Morresi, designer e ilustradora, que estreia hoje no blog
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