.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador manifestações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador manifestações. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Só por hoje

por Celso Vicenzi*

“Só por hoje” é um princípio seguido à risca por alcoólicos anônimos, com resultados comprovados. Mas pode ser um mantra, também, contra qualquer tipo de vício. A ideia, simples, é dar um passo de cada vez. A cada 24 horas, uma batalha vencida. Os movimentos conhecidos por AAA – Associação dos Alcoólicos Anônimos –, surgidos na década de 30, nos Estados Unidos, e que se espalharam pelo mundo, praticam o lema ainda nos dias atuais, com bons resultados.

Sem abdicar dos antigos, novos vícios têm sido incorporados à sociedade, como a compulsão pelo uso de aparelhos celulares. Há outros igualmente perniciosos: o vício por consumir informação de péssima qualidade, inclusive nas redes sociais, e o vício de entreter-se com programas de rádio e tevê que atrofiam a inteligência e a capacidade de análise. Incluem-se nesse rol comentaristas famosos de diferentes mídias.

Talvez, justamente por isso, as redes sociais estejam entulhadas de diálogos e debates de baixíssimo nível, em que os xingamentos e a desinformação sejam moeda corrente. E que, não raro, descambam para um superávit de ódio e um déficit de solidariedade. Graças às redes sociais, descobrimos que aquele cidadão (vale também para o sexo feminino) que parece tão fino e educado, cheio de gentilezas e que aparenta ser adepto de causas nobres, na verdade esconde um troglodita, machista, reacionário, egoísta, homofóbico, desinformado e mal-educado. Não necessariamente nessa ordem.

Por isso, para pôr um pouco de água na fervura e, quem sabe, serenar os ânimos, pensei em resgatar o lema que tem mantido longe do vício tantas pessoas que, no passado, estiveram às portas do inferno. Se não nos levar ao céu, pelo menos poderemos viver e dialogar mais civilizadamente.

Então...

Só por hoje não direi que a política e todos os políticos não prestam e procurarei estudar um pouco mais, sobretudo ciência política, história e sociologia, para tentar entender as engrenagens do poder e, quem sabe, a partir daí, contribuir decisivamente para a criação de políticas públicas que visem ao bem comum, ao bem-estar coletivo.

Só por hoje não xingarei, não usarei palavrões, nem tentarei ganhar no grito um debate que só tem sentido quando houver argumentos e informações fidedignas e sensatas sobre aquilo que se procura demonstrar. Ou seja, vale a pena fazer um esforço para diversificar as fontes e informar-se melhor sobre o que acontece no país e no mundo.

Só por hoje não direi que “é tudo culpa da Dilma”, seja lá o que aconteça no país. Afinal, vivemos numa República Federativa e as principais instâncias de poder são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, que, por sua vez, operam nas esferas federal, estadual e municipal. Farei um esforço para lembrar que a responsabilidade precisa ser dividida no mínimo com mais 27 governadores, 5.570 prefeitos, 81 senadores, 513 deputados federais, 1.059 deputados estaduais, cerca de 60 mil vereadores e 20 mil juízes espalhados por todo o país. Sem falar em milhares de importantes entidades representativas dos mais diversos setores da sociedade.

Só por hoje não direi que esquerda e direita são “tudo a mesma coisa”. Para esclarecer melhor tudo aquilo que não compreendo muito bem, melhor começar por ler o livro clássico de Norberto Bobbio sobre o tema. Há outros igualmente bons, é só procurar.

Só por hoje não direi que a política e todos os políticos não prestam e procurarei estudar um pouco mais, sobretudo ciência política, história e sociologia, para tentar entender as engrenagens do poder e, quem sabe, a partir daí, contribuir decisivamente para a criação de políticas públicas que visem o bem comum, o bem-estar coletivo.

Só por hoje não direi que a política de cotas (políticas afirmativas) é uma injustiça e vai prejudicar a qualidade do ensino. Primeiro, comprometo-me a ler com mais atenção a história dos negros no Brasil e, na sequência, divulgarei as pesquisas que demonstram que a maioria daqueles que entraram por cotas nas universidades brasileiras tem um desempenho igual ou superior aos que acessaram o ensino superior por outros meios. Só por hoje não vou converter-me à ideia de que problemas de segurança pública devem ser resolvidos à bala. Consultarei a vasta bibliografia sobre o assunto que desmente, categoricamente, a ideia de que a ênfase na repressão e a criação e manutenção de um sistema de segurança baseado na discriminação possam pôr um fim à violência.

Só por hoje evitarei o uso de falas e comportamentos machistas, para que a relação entre duas ou mais pessoas seja sempre baseada na igualdade, na dignidade e no respeito às diferenças. Igualmente repudiarei os estereótipos machistas da publicidade e me posicionarei contra atitudes cotidianas que reforçam esses hábitos.

Só por hoje não reclamarei do engarrafamento no trânsito se estiver sentado em um automóvel. Afinal, concluirei, é a minha presença ali, juntamente com milhares de outros condutores de automóveis, a razão de um trânsito que não anda. Aproveitarei o tráfego parado para refletir sobre a importância de apoiar a construção de ciclovias e dar prioridade ao transporte público de qualidade.

Só por hoje não vou ridicularizar e hostilizar pessoas com preferências sexuais diferentes da minha. Tentarei compreender que o desejo sexual independe de gênero e que não há nada errado nisso, ao contrário da homofobia. Se persistirem os sintomas homofóbicos, procurarei ajuda. Talvez Freud explique.

Só por hoje buscarei novas formas de me manter informado, diferente das fontes habituais, para que não me torne refém de interesses particulares, não raro economicistas, que favorecem grupos minoritários, e que, no entanto, se apresentam como porta-vozes de interesses justos e igualitários.

Só por hoje não acreditarei que recentes investigações sobre ilícitos sejam parâmetro para afirmar que “nunca houve tanta corrupção no país”, sem questionar primeiro por que antes essas investigações eram tão raras e por que, ainda hoje, o mesmo dinheiro que foi distribuído aos principais partidos, por diferentes setores empresariais, é considerado ilegal para uns e absolutamente honesto e sem problema para outros?

Só por hoje entenderei que, num estado laico, como é o caso do Brasil, política e religião não se misturam e credos particulares não podem ser aceitos como objeto de leis e normas para o conjunto da sociedade.

Só por hoje, cada vez que começar uma reclamação contra os altos impostos cobrados pelo governo federal, tentarei lembrar-me de que alguns dos principais impostos que me afetam diretamente, como o ICMS, o IPVA e o ISS são impostos estaduais e que o IPTU é um imposto municipal. E decidirei reclamar, com a mesma intensidade, da sonegação de impostos, que desvia bilhões de reais que fazem falta às políticas públicas do país. De bônus, investigarei por que as camadas mais ricas pagam, proporcionalmente, tão poucos impostos no país, ao contrário do que acontece em nações sempre citadas como exemplo de sociedades desenvolvidas.

Só por hoje evitarei falar e publicar nas redes sociais a primeira ideia que me vem à cabeça, sem refletir, inicialmente, se não estou reproduzindo aquilo que me foi incutido por veículos de comunicação e instituições da sociedade com interesses muito particulares, tendo como resultado um pensamento que não é necessariamente meu, mas orientado para reproduzir conceitos que interessam a outros, sem que eu nunca tenha me dado conta, ainda, disso. Como antídoto, buscarei bons livros e boas fontes de informação e conhecimento, na tentativa de me “deseducar” um pouco e compreender que o mundo e as relações podem ser muito diferentes do que hoje são e que mudar isso não é uma impossibilidade.

Só por hoje, não repetirei ideias-clichês do tipo “no Brasil não tem racismo”, “só é pobre quem não trabalha”, “direitos humanos só servem para proteger marginais”, “na ditadura era tudo melhor, não tinha corrupção”, “negros também têm preconceito contra os brancos”, “o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história do país”, “político é tudo ladrão”, “tudo que é público não funciona”, “o mercado regula”, “o mundo está cada vez pior”, “no Brasil nada dá certo”, “bandido bom é bandido morto” etc. etc. Se quero compreender os fenômenos sociais, prometo, vou estudar e ler – ler muito –, para não dizer bobagens inconsistentes.

Só por hoje.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Marcha avante

por Tomas Chiaverini*

Foi um domingo assustador, com aquele ódio todo, bairros de classe alta em polvorosa, luzes piscando, buzinas, panelaço, como se estivéssemos prestes a sucumbir num torvelinho de uma revolta insana e descontrolada. Foi assustador porque mesmo quem não viveu a ditadura lembrou de imagens e relatos da “marcha da família com deus pela liberdade”, estopim do golpe de 1964 e de suas posteriores atrocidades. Lá, como cá, o que se viu foi um movimento encampado, não exclusivamente, mas, sobretudo, por uma elite reacionária.

Lá havia o fantasma do comunismo, os ecos da revolução Cubana que deixava as classes privilegiadas se pelando de medo de ter a prataria saqueada pelos bolcheviques. Cá, há um medo difuso de um comunismo que não existe senão como a sombra de um pensamento distorcido para um lado e para o outro ao longo do último século. Acima disso, há certa revolta diante da possibilidade de as regalias dessa elite acabarem divididas com o povo.

Tudo isso catalisado por uma presidente inábil, tanto na ação quanto no discurso. Uma líder que deveria ser um símbolo mas não consegue se livrar da vocação para a gerência. Que se cerca por uma equipe fraca e incompetente, sempre pronta a disparar medidas assoberbadas e contraditórias.

Os escândalos de corrupção, em especial na Petrobras, também servem de combustível, mas seria muita ingenuidade apontá-los como o motivo maior de tanta revolta. Basta levar-se em consideração que o carro chefe do descontentamento foi a cidade de São Paulo, reduto eleitoral de políticos como Paulo Maluf, o homem do “rouba mas faz”.

Motivações à parte, a coisa foi mesmo assustadora. A resposta, contudo, mostrou como a democracia avançou, e como a parte radical do movimento é frágil e quebradiça. Principalmente porque a resposta que veio não foi do governo apenas. Pelo contrário.

O primeiro esboço de resposta da presidente Dilma Rousseff ocorreu no pronunciamento desta segunda, em que a ex-presa política apelou para sua própria história e sentenciou: nunca mais alguém será perseguido, torturado ou morto por expor suas opiniões. Essa é a resposta a altura de um líder de estado, com toda a grandeza e simbologia que o cargo requer. Uma pena que tenha sido praticamente a única.

Por outro lado, bom que as respostas tenham sido plurais. Não como um grito, mas como um diálogo minimamente maduro e equilibrado. Ainda na noite de domingo, por exemplo, a Folha de S.Paulo, o maior jornal do país, cravou no topo de sua home uma manchete que ia contra a informação da Polícia Militar. Estimava haver 210 mil pessoas na Paulista, muito menos do que o 1 milhão oficial.

Caso os golpistas que clamam pelo socorro das forças armadas estivessem no poder, isso provavelmente seria o suficiente para empastelar o jornal e pendurar editores no pau-de-arara. A Folha, claro, não fez mais do que sua obrigação e é apenas um exemplo de uma postura que ajudou a esfriar os ânimos. Diante de reivindicações despropositadas como um golpe militar ou impeachment da presidente, uma infinidade de veículos e profissionais de imprensa se manifestaram pelo equilíbrio e em favor da legalidade e da democracia.

Não foi apenas imprensa. Os militares ignoraram o clamor da meia dúzia de abilolados e se calaram com profissionalismo e aparente respeito às demais instituições. E o próprio presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cacique do PMBD, voz retrógrada na política brasileira e inexplicavelmente terceiro na ordem de sucessão presidencial, disse, reiteradas vezes, que não há motivo para impeachment. Um sinal claro, evidente, translúcido de que, ao contrário do que pregam os batedores de panela, nossa democracia está sim, avançando.

Esperemos, portanto, que o Ministério Público e a Polícia Federal siga escarafunchando nas gavetas do poder não apenas para encarcerar corruptos e corruptores mas também para mudar nosso status quo, que vai do jeitinho brasileiro às grandes negociatas. Que a população continue a se manifestar, pressionando governantes a tomarem atitudes mais sensatas. E que isso seja feito com liberdade, sem que ninguém tenha de ser perseguido, preso, torturado ou morto.

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha no Nota de Rodapé. Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

segunda-feira, 16 de março de 2015

A lição de seu Valter


Protesto gigantesco na Paulista pede fim da corrupção e impeachment de Dilma, que continua apostando numa conciliação nacional difícil de vislumbrar


por João Peres e Tadeu Breda, Nota de Rodapé

Seu Valter não quer ser Fla nem Flu. E hoje, domingo, é dia de Fla-Flu – ou melhor, de Fla, porque o Flu teve a chance na sexta-feira. Seu Valter não quer abrir mão de princípios apenas para agradar a um dos lados e ganhar mais dinheiro. “A concorrência tá brava”, queixa-se, num fim de tarde em que os negócios andaram muito mal. Os demais vendedores cobram o dobro, mas entregam o produto mais desejado e seguem a máxima de que o cliente sempre tem razão: “Fora, Dilma”.

Seu Valter é um comerciante mais moderado, menos capitalismo selvagem. “Optei por um produto mais neutro.” Optou e se deu mal. Pelo menos, financeiramente: volta para casa carregado das faixinhas “Brasil, pátria amada” que oferecia a R$ 2,50 cada – as outras, antipetistas, não custavam menos de R$ 5. Não volta pra casa feliz, mas em sintonia com a consciência. “Teria de mudar todos os políticos. Não tem prova contra a Dilma.” Não deixa de ser curioso que uma mensagem tão verde-amarela encalhe num dia marcado por camisas canarinho, caras pintadas, bandeiras e hino nacionais a rodo.

Claramente, não era momento para ficar em cima do muro ou tecer algumas ponderações políticas. É um dia para mensagens explícitas, com grito bem claro e alvo definido. É também dia para algumas poucas certezas, muitas dúvidas, dezenas de questões. Uma perplexidade tão grande que desespera. O que está acontecendo? A data – 15 de março de 2015 – ainda será debatida e disputada durante um bom tempo, até que se desdobre e ganhe significados para os torcedores do Fla e do Flu. E também para o resto que não veste nenhuma camisa. Nem a verde-amarela que se imagina ser de todos os brasileiros.

Uma coisa é certa entre a multidão que compareceu à avenida Paulista: a saída imediata de Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, melhor ainda se acompanhada pela extinção do PT e tudo que possa recordá-lo na face da Terra. Também parece ser clarividente que a maioria dos presentes é favorável ao impeachment como método para defenestrar a presidenta, apesar de parcela significativa ser entusiasta da “intervenção militar”, ora desavergonhadamente reconhecida como golpe, ora defendida como direito constitucional. O resto, uma enxurrada de cartazes, gritos e chiliques, é mote para debate.

Ainda não eram 15 horas e a avenida Paulista já estava cheia. É possível que certa “ansiedade revolucionária” tenha forçado paulistanos a sacrificarem o sacrossanto almoço de domingo por uma missão para eles ainda mais nobre que a família reunida em torno à mesa: “salvar o país”. Também é possível que a cobertura ao vivo de protestos que ocorriam logo pela manhã, em outras capitais, tenha empurrado para as ruas, antes do horário combinado, parte expressiva da população da maior cidade do país. Copacabana repleta de manifestantes às 11h deve ter ajudado. Imagens de cidadãos felizes envoltos nas cores nacionais, com crianças e policiais sorridentes, idem.

Nunca se viu a avenida Paulista tão cheia. Talvez nas paradas gays. Talvez no reveillón. Talvez em junho de 2013. Mas não dá para negar que havia um oceano de gente. Entrar na discussão sobre se eram 210 mil, como garante o DataFolha, recém alçado a oráculo da verdade pelos simpatizantes do governo, ou 1 milhão, como estima a Polícia Militar, é uma picuinha sem tamanho. Para efeitos comparativos com a marcha petista da sexta-feira, 13 de março, não é necessário recorrer às contagens do instituto ou da corporação. Se a ideia de alguém era medir forças, os que pediram “Fora, Dilma” foram incomparavelmente mais numerosos do que os que cobraram a permanência dela. Não estavam apenas na Paulista, mas também nas ruas adjacentes. Quem saísse alguns minutinhos da muvuca veria muitos verde-amarelos pela alameda Santos. E sabe-se lá onde mais.

A dinâmica da manifestação teve semelhanças com os dias finais das jornadas de junho, há dois anos, quando os movimentos de esquerda se viram rodeados de pessoas que jamais haviam sido vistas protestando. Gente andando pra lá e pra cá, alguns blocos coesos, gritarias localizadas, pluralidade de cartazes, desfile de reivindicações. Uma profusão de individualidades que, se se colocasse a dialogar entre si, não chegariam a um consenso sobre tantas “urgências” políticas, com exceção da mais urgente de todas: fim da corrupção e destituição de Dilma, que para eles parecem ser ingênuos sinônimos.

“Não se pode acabar com a corrupção sem acabar com o PT. O PT é a corrupção”, definiu um jovem rapaz que discursava no trio elétrico do Movimento Brasil Livre. “Vocês acham que a Dilma sabia? Sabia, né? E se ela sabe, é mais um crime que vai configurar o impeachment.”

Havia bastante sintonia entre quem falava do alto dos caminhões e as pessoas que estavam no asfalto, especialmente nas primeiras horas, em que a energia estava a mil e pequenas divergências podiam ser ignoradas em favor de um ideal unificador: “Fora PT” foi um dos gritos mais ecoados ao longo de todo o dia. A execução do hino nacional a torto e a direito, com todas as estrofes, até o fim, funcionou como outro elemento agregador aos manifestantes. “Esta é a música que nos unifica”, disse um dos oradores da tarde.

Muitas das ideias defendidas no domingo pareciam impensáveis três ou quatro anos atrás. A visão de que o PT é uma força a serviço do comunismo global, prestes a transformar o Brasil em uma extensão do eixo Cuba-Venezuela, já não é palavra de ordem de meia dúzia: arrasta milhares. “We won't be another Venezuela”, dizia um entre centenas de cartazes alusivos ao suposto perigo representado pela conexão entre Lula, Fidel Castro e Hugo Chávez. O Foro de São Paulo, articulação de partidos de esquerda latino-americanos, voltou a ser lembrado como tentáculo da ameaça soviética nestas bandas do mundo.

A ojeriza ao vermelho do PT, por outro lado, não representa exatamente uma novidade. “É uma cor tão bonita, pena que foi sequestrada pelos petralhas”, lamentava um rapaz do alto do carro de som. O sentimento ruim pelos tons escarlates e a interpretação sobre o que ela representa parecem seguir intactos desde a Guerra Fria para parte dos manifestantes do domingo. Novo é o fato de que multidões gritem ao mesmo tempo: “A nossa bandeira jamais será vermelha”. Eram muitos e, por muitas vezes, a demonstrar qual é a cor mais quente do momento político nacional.

VPR é, para a história brasileira, sigla que designa a Vanguarda Popular Revolucionária, grupo de resistência à ditadura que teve Dilma Rousseff como integrante. Para quem esteve na Paulista, porém, VPR é Vem pra Rua, um dos movimentos que coordenaram o ato com seu trio-elétrico-ostentação estacionado na transversal sobre quase toda a largura da avenida. A enorme carreta exibia uma faixa igualmente grande: “O Brasil não é do PT. É dos brasileiros. Fora Cuba. Fora Venezuela.” Enquanto isso, um rapaz vestido de Tio Sam, com cartola e bandeira dos Estados Unidos, desfilava debaixo de inofensivos gracejos.

Outros caminhões agitaram a tarde de protesto verde-amarela. Cada movimento tinha seu próprio aparelho de som e os manifestantes circulavam entre os veículos, paravam, ouviam e interagiam quando lhes agradava. Frequentemente se cantava o hino nacional. Com menos assiduidade, mas com fervor parecido, rezou-se o pai-nosso. Também houve músicas do Legião Urbana (“Que país é esse”), O Rappa (“Vem pra rua”), Raul Seixas (“Aluga-se”) e Gabriel Pensador (“Até quando”). Um jingle gravado especialmente para o momento, “Impeachment”, de uma dupla chamada Os Reaças, embalou a rebeldia dominical ao lado de uma versão antipetista de “Caminhando”, de Geraldo Vandré: “Dilma, vai embora, que o Brasil não quer você. Aproveita e leva o Lula e os vagabundos do PT.”

Entre preces e canções, apareciam palavras de ordem. Clássicos da esquerda latino-americana, como “O povo unido jamais será vencido”, foram ressignificados. Os manifestantes riram e saltaram ao bradar “Quem não pula é comunista”. Xingamentos machistas contra Dilma não deram o tom, ainda que tenham sido ouvidos aqui e acolá. “Eu vim de graça”, em referência à ajuda de custo paga pela Central Única dos Trabalhadores a parte dos manifestantes no protesto governista de sexta-feira, teve força. Alguns complementavam o grito com “E ainda paguei metrô”, em referência aos ônibus fretados pelos sindicalistas. “Lula, cachaceiro, devolve meu dinheiro” foi bastante entoado, inclusive por animados jovens que secavam no bico uma garrafa de catuaba, respingando as camisetas brancas com a inscrição “A culpa não é minha, votei no Aécio”.

A turma saudosa da ditadura se identificou rapidamente com os caminhões parados em frente ao parque Trianon. Eram dois e ostentavam faixas como “Intervenção militar já. O Brasil exige ordem e progresso” ou “Impeachment é coisa de otário, patriota mesmo exige intervenção militar”. Como nos anos 1960, bradaram contra os comunas. Um rapaz lembrou que na Coreia do Norte existe canibalismo. Outro xingou um tal “Che Pega na Vara”, em referência ao revolucionário argentino, a quem criticou por ser homofóbico.

Entediados com a falação, os partidários do golpe logo concordaram em deixar a companhia dos frouxos que pediam reforma política na Paulista e que, por vezes, vaiavam a estética milica, para caminhar até o quartel mais próximo, onde pediriam à caserna que resolvesse a questão. “Viva o Brasil. Militares, nós amamos vocês. Militares, nós precisamos de vocês. A nação está em perigo. Os militares são nossos anjos da guarda.”

Uma senhora, provavelmente com mais de 60 anos, brindava sorrisos angelicais para câmeras que a filmavam exibindo uma cartolina com os dizeres “SOS Militares”. Depois, dizia: “Quero que a Dilma vá para o inferno”. A frase, provavelmente, não coube no cartaz e precisou ser trazida verbalmente ao protesto. Minutos depois, ela subiria ao caminhão para confessar as saudades da ditadura. “O Brasil virou uma bagunça. Todo mundo só canta e dança funk. Brasília tem uma corja de vermelhinhos. Estou cansada disso. As crianças estão perdendo a referência de tudo, de pátria, de família, de Deus.”

Cuidado com as palavras, argumentos embasados e discursos elaborados, por sinal, não foram o forte da manifestação de domingo. Do chão da rua e especialmente do alto dos caminhões jorravam conclusões estapafúrdias e informações de fácil contestação. Uma avalanche de besteiras e mentiras que não são exclusividade dos antipetistas, mas que por eles foram carinhosamente cultivadas nas redes sociais até desabrocharem na avenida como flores rasteiras verde e amarelas.

Marcello Reis, fundador do grupo Revoltados Online, trajou terno para comandar os liderados. A elegância, disse, era porque minutos antes estava conversando com os Estados Unidos. “Acabei de receber a informação de que Washington vai provar que as urnas foram fraudadas”, bradou, para delírio geral, sem dar maiores detalhes sobre com que Estados Unidos falara e qual Washington provaria a fraude eleitoral. Logo depois, chorou de emoção, ladeado por faixas louvando o heroismo da Polícia Federal e do juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal de Curitiba, responsável pelas investigações na Petrobras.

Tirando todas as faixas contra Lula, Dilma e o PT, o ministro José Antonio Dias Toffoli foi o homem mais citado da tarde – o que não significa que tenha sido um campeão de audiência, longe disso. Alguns manifestantes estavam indignados pelo fato de um ex-advogado-geral da União e ex-advogado de José Dirceu ser agora o relator do inquérito relativo à Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal. Se o protesto ocorresse quatro anos atrás, provavelmente haveria uma grita contra Joaquim Barbosa, relator do mensalão, hoje convertido em herói nacional e paladino da justiça.

Depois de Toffoli, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi lembrado em alguns cartazes e discursos. Uma cartolina dizia “Je Suis Janot”, em curiosa referência aos atentados terroristas que vitimaram cartunistas do jornal Charlie Hebdo na França. Parte dos manifestantes apoiam o chefe do Ministério Publico por ter oferecido denúncia contra vários políticos acusados de corrupção. Outros o odeiam por não ter incluído o nome de Dilma Rousseff na lista de suspeitos encaminhada ao Supremo. “A presidenta foi citada onze vezes nas delações”, indignaram-se. Menções aos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, réus em potencial da Lava Jato, foram ínfimas.

Se algum policial militar um dia sonhou em ser herói, esse sonho pôde ser realizado no domingo. Membros da tropa de choque nunca tiveram de concordar com tantos abraços e apertos de mão, nunca receberam tantos sorrisos e tapinhas nas costas durante um protesto. Nunca foram tão requisitados para fotos. A satisfação dos homens fardados era flagrante. Alguns se esforçavam para sustentar a cara fechada do ofício, mas, por mais que tentassem manter-se carrancudos, uma risadinha escapava pelo canto da boca. Carregaram crianças no colo. Posaram para selfies. Uma mulher fez questão de demonstrar excitação após sentir o toque da mão de um soldado sobre seu ombro nu. E ruidosos aplausos recebiam pequenas patrulhas que caminhavam pela multidão.

Frente a uma manifestação inédita, o governo ofereceu, mais uma vez, respostas convencionais. Os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, foram os escolhidos para dar as caras após o protesto, ainda no começo da noite de domingo. Garantiram que o Palácio do Planalto tinha plena consciência de quais vontades foram expressadas nas ruas e por quem. Voltaram a dizer que a contestação e as crises foram superadas várias vezes ao longo de doze anos. E prometeram, novamente, que Dilma apresentará nos próximos dias um extenso pacote anticorrupção, a exemplo do que foi dito na esteira das manifestações de junho de 2013 e durante todo o desenrolar do processo eleitoral.

Enquanto os ministros falavam na televisão, panelas voltavam a bater pelo país. E Aécio se deixava ser fotografado na sacada de seu apartamento, em Ipanema, no Rio de Janeiro, com uma camisa verde-amarelo. Mais tarde postou um vídeo no Facebook basicamente repisando as louvações utilizadas durante a campanha, interpretando que os brasileiros agora se reencontram com valores e virtudes. “Depois de refletir muito, eu optei por não estar nas ruas neste domingo, para deixar muito claro quem é o grande protagonista destas manifestações. E ele é o povo brasileiro, o povo cansado de tantos desmandos, cansado de tanta corrupção.”

Marina Silva, que antes dos protestos havia cobrado respeito à vitória eleitoral de Dilma Rousseff e adotado tom mais cauteloso, comparou o protesto ao espírito presente nas jornadas de junho, classificando-o como “livre e autoral”, mas desta vez com um objetivo claro de se colocar contra o governo e a corrupção. “O povo brasileiro exige uma posição da presidente da República em resposta aos seus justos e legítimos reclames. Esta, sim, é a hora de falar e dizer a verdade. Reconhecer os erros, assumir a responsabilidade por seus atos, propor soluções para os problemas, nada mais e nada menos que isso. Uma fala da presidente, não do marketing.”

Mas, quando veio, na tarde do dia seguinte, a fala da presidenta fez oferecer certezas de que a visão transmitida na véspera por seus ministros não era um caso à parte. Dilma repisou a necessidade de respeitar as urnas, a importância da democracia, a necessidade do combate à corrupção e da reforma política, a disposição de seu governo para o diálogo com quem queira dialogar. Não apresentou nenhuma diferença no tom usado nas últimas semanas, nos últimos meses, nos últimos anos, inclusive na acusação de que há na classe política partidários do “quanto pior, melhor”.

Reiterou o otimismo com uma suposta solidez democrática do país e um também suposto apego da população à construção do Estado democrático. Disse que governa para todos os brasileiros, independente de preferência partidária ou participação em manifestações contra o governo. E buscou a todo instante dizer que saberá reconhecer seus erros, sempre que indicados. “Ouvir é a palavra. Dialogar é a ação. O sentimento tem de ser de humildade e firmeza.” Desta vez, seu discurso não foi recebido com panelaços.

Depois de escutar a voz das ruas e dos palácios, é possível perceber que Dilma e seu Valter, o vendedor de fitinhas, têm pelo menos um ponto em comum: não querem ser Fla, nem Flu. Mas com uma diferença crucial. Enquanto a presidenta esconde as bandeiras vermelhas de quem a elegeu no ano passado e acena para seus detratores com as faixinhas verde-amarelas da conciliação nacional, o comerciante tem plena consciência de que a neutralidade não é boa em se tratando de ganhar a vida com política.

* * * * * * 

João Peres, jornalista e editor do Nota de Rodapé. Tadeu Breda, jornalista, especial para o NR. Imagem: Paulo Pinto | Fotos Públicas

terça-feira, 15 de abril de 2014

Vão do Masp: a arquitetura cidadã das manifestações


A arquiteta Lina Bo Bardi, cujo centenário se comemora neste ano, talvez não imaginasse que o vão livre do MASP se tornasse, além de palco cultural, o principal ponto de chegada e saída para as manifestações sócio-políticas da cidade de São Paulo

por Milena Buarque*

O “5º Ato Se não tiver saúde, não vai ter Copa”, que acontece hoje em São Paulo, espera reunir 5,3 mil pessoas. “Desde janeiro de 2014 diversas pessoas, coletivos e movimentos sociais indignados têm ido às ruas com a palavra de ordem ‘Se não tiver direitos, não vai ter Copa’. Em fevereiro e março os protestos exigiram o investimento de nossos impostos na educação e no transporte público. Em abril é a vez da saúde. Nossa manifestação sairá do MASP no dia 15 de abril, às 18h”, avisam na página do evento no Facebook. No começo do mês, outro protesto, nesse caso organizado pelo Sitraemfa, sindicato que representa os trabalhadores da Fundação Casa, reuniu cerca de mil pessoas, exigiam aumento salarial e contratação de mais funcionários.

Um elemento comum entre a manifestação a se realizar hoje e do Sitraemfa é o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP, apontado, segundo pesquisa da São Paulo Turismo (SPTuris), como o principal ponto turístico da cidade. Dali partem ou terminam grande parte das manifestações da cidade.

Nas chamadas “jornadas de junho” de 2013, por exemplo, não foi o prédio sustentado por quatro colunas que ganhou destaque, mas, sim, o vão livre de 74 metros desenhado pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914 – 1992). Ponto de encontro na avenida Paulista, o enorme vão é algo que impressiona aos primeiros olhares. A história conta que quando o poeta norte-americano John Cage veio à cidade, mandou parar o carro na frente do museu e, andando pelo belvedere, exclamou: “É a arquitetura da liberdade!”. Para o estudante de jornalismo do Mackenzie Diego Felix, que esteve em quatro atos de junho de 2013, o fácil acesso ao MASP é um ponto importante para a escolha do local. “É conhecido e fica na [avenida] Paulista, onde há concentração de todo tipo de gente, sobretudo da classe média.” Felix, que está fazendo seu trabalho de conclusão de curso sobre temas ligados às manifestações, como movimentos sociais, cobertura da mídia e redes sociais, acredita que a localização também é fator de segurança.

O elemento surpresa

Arquitetura propícia não é sinal necessariamente de cultura política. O elemento das manifestações foi a violência policial. Embora a presença das policias sob a alegação de preservar a “ordem pública” fosse esperada, o cientista político Marco Aurélio Nogueira diz que a PM não sabe lidar com manifestações. “No Brasil, a polícia não foi treinada para enfrentar protestos. Policiar manifestações políticas. Ela tem um componente militarizado. Enfrenta o conflito das ruas como se estivesse enfrentando uma guerra. E isso, em vez de pacificar, bota fogo na fogueira.”

Diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp, Nogueira lançou no fim de 2013 o livro “As Ruas e A Democracia”, conjunto de ensaios com reflexões e possíveis resultados das revoltas que tomaram as ruas do País. “O diferencial para mim está na cultura política das pessoas que protestam. [Cultura política] é o modo como as pessoas entendem o protesto. Em alguns países, o protesto é muito mais estruturado na vida cotidiana do que no Brasil”, diz, fazendo referência à Espanha, que, em sua opinião, tem uma maneira de viver os protestos mais aliada ao cotidiano.

As várias definições do termo “cultura política” não apontam apenas para as noções de atitudes e regras de determinada população. Sentimentos e percepções evidenciam a cultura da sociedade. Segundo Nogueira, “rapidamente, se escutaram palavras de ordem protestando contra tudo e contra todos. Mas o recado mais claro foi dado aos poderes Executivo, Legislativo e organizações sociais: ‘não nos representam’ virou termo comum repetido nas ruas”.

O convidado especial

Para o estudante de arquitetura e professor do Laboratório de Ideias (LABi) Mario Gallão, o MASP não foi pensado para ser um espaço de manifestações. “Mas essa era uma das possibilidades. Acho que ela [Lina Bo Bardi] ficaria feliz de ter visto essas manifestações democráticas no espaço que ela projetou, sendo a lutadora e defensora do povo que foi”

Lina, que faleceu em 1992, vítima de embolia pulmonar, continua marcando presença nos atos. O museu, inaugurado em 1968, contou com a presença da rainha Elizabeth II da Inglaterra. No entanto, a morada do MASP, em 1947, ano de sua fundação, se localizava no prédio de quatro andares dos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand, um dos idealizadores do museu. Lá, não havia vão livre.

Segundo Gallão, que não esteve presente nos protestos, Lina sempre teve uma preocupação especial com as pessoas que usam as suas obras. “O espaço do térreo do MASP servia a dois propósitos. O primeiro de ousar com aquele que era, até então, o maior vão livre do mundo no país que, naquele momento, tinha uma arquitetura de vanguarda. O segundo era o de abrir a visão para o público, criando um espaço de convivência com uma grande vista ininterrupta”, conta.

Como acontece no SESC Pompeia, também projeto da arquiteta, a ideia era a de que as pessoas usassem o espaço para tudo que elas achassem válido como atividade. Nas várias imagens dos estudos preliminares do MASP, o vão é destaque. “Esculturas praticáveis do Belvedere”, de 1968, mostra brinquedos, como carrossel, escorregadores vermelhos e cata-ventos. Além de crianças e adultos.

Com o uso sendo definido por quem de fato utiliza, o vão livre do MASP, no papel da participação cidadã, continuará a ser o convidado (e cenário) imprescindível em 2014.

* * * * * * * *

Milena Buarque, estudante do último ano de jornalismo no Mackenzie, integrante do Projeto Repórter do Futuro, onde foi confeccionado este texto publicado pelo Nota de Rodapé

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Pergunte ao gás (lacrimogêneo)


por Milena Buarque*

Os olhos começam a lacrimejar, a pele se irrita com a sensação de um ardor de queimadura e torna-se muito difícil respirar. Na forma de spray, o jato pode ser direcionado ao rosto; como verdadeiras granadas, são lançadas para dispersar a turba. Na desocupação do Parque Gezi, na Turquia, ou nas jornadas de junho em todo o Brasil, o gás lacrimogêneo foi – e ainda é – usado indiscriminadamente na dispersão e repressão aos manifestantes.

Com efeitos que duram de 5 a 10 minutos, o eufemismo do gás “não letal” esconde a realidade da “arma química”. Para se fazer guerra, há regras. “O objetivo é você eliminar meios e métodos que causem sofrimentos desnecessários ao objetivo da guerra”, afirma Tarciso Dal Maso Jardim, assessor e consultor legislativo do Senado Federal para defesa nacional e relações exteriores.

A arte da guerra é tão complexa e contraditória quanto o fato de existir uma convenção que limite o guerrear. Tanto o Comitê Internacional da Cruz Vermelha quanto as Convenções de Genebra, para citar dois exemplos, se mantêm por meio do ininterrupto surgimento de disputas. “O desenvolvimento na área humanitária é uma construção histórica”, explica Dal Maso.

A Convenção de Armas Químicas (em inglês Chemical Weapons Convention – CWC), criada em 1925 em consequência do Protocolo de Genebra, proíbe o uso militar de gases tóxicos, asfixiantes, e métodos biológicos. Adotada apenas a partir de 1997, a CWC levou à criação da Organização para a Proibição de Armas Químicas (em inglês Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons – OPCW), que se tornou encarregada de supervisionar a destruição de arsenais químicos, também assegurando a sua não proliferação. A OPCW ganhou neste início de mês o prêmio Nobel da Paz. “Se dedica a combater, não só o uso, mas a fabricação, a estocagem, também a colaboração técnica para a produção desse tipo de arma. Ela tem um sistema de visitas surpresas no país, tem um grande poder de inspeção”, ressalta Dal Maso.

Em entrevista ao Repórter do Futuro/Nota de Rodapé, o consultor legislativo foi categórico com relação ao Brasil e o não cumprimento de alguns tratados e convenções já ratificadas, como as Convenções de Genebra na década de 1950. A não implementação, além do paradoxo do posicionamento humanitário internacional e as crises internas, significa algo muito mais perigoso do que parece. “Boa parte dos crimes de guerra que estão definidos nas Convenções não são considerados crimes aqui no Brasil.”

Os discursos são dúbios. No mês de setembro, a ONU confirmou a adesão da Síria ao tratado global contra armas químicas. O país era um dos sete que não aderiram à Convenção nos anos 1990. Os EUA, por outro lado, iniciaram o fornecimento de armas a rebeldes com o argumento de terem sido atacados por armas químicas. O mercado do gás lacrimogêneo, considerado arma química pela mesma ONU, é dominado justamente por empresas norte-americanas.

"Dá falta de ar e aí
começa a arder tudo"


“Eu já tomei bala de borracha, spray de pimenta e esse [lacrimogêneo]. Só não tive a experiência com estilhaço de bomba. Mas, de todos, o pior é o gás.” Letícia Carvalho, estudante de jornalismo, aos 23 anos já teve de lidar diversas vezes com a “queimação” causada pelo gás de efeito moral. Das lembranças das manifestações do Movimento Passe Livre (MPL) de junho, em São Paulo, Letícia considera seus piores dias os dos segundo (7) e quinto (17) atos. “No segundo, eu tava na linha de frente”, conta a estudante, que chegou a enfrentar uma situação em que quatro bombas estouraram tão próximas a ponto de secar a máscara que usava para se proteger.

As bombas de gás são estruturas que, após a explosão, liberam uma substância conhecida como CS (clorobenzilideno malononitrilo). Ao se misturar a solventes, pode causar lacrimejamento intenso nos olhos, irritação na garganta, sensação de sufocamento, náuseas, entre outros efeitos físicos. “É horrível, dá um desespero porque parece que aquilo não é respirável. Dá falta de ar e aí começa a arder tudo”, diz Letícia.

A exposição prolongada, no entanto, pode levar a danos mais graves. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, em ambientes fechados a inalação do tear gas pode encadear uma parada respiratória. Neste ponto, o grupo “Facing Tear Gas” organizou uma campanha contra o papel dos EUA nos negócios de gás lacrimogêneo no mundo e em solidariedade às pessoas que sofrem com a repressão em diversos países atualmente. Entre as justificativas: “porque é uma ferramenta de repressão”, “porque as nossas cidades estão desmoronando” e “porque mata”, há uma petição online que pode ser assinada no site do movimento, que também critica a empresa brasileira Condor Non-Lethal Technologies pelo fornecimento de gás para a dispersão de manifestantes na Turquia, em junho.

A naturalização do uso do gás lacrimogêneo, após os anos 1960, esconde em seu discurso de defesa a preocupação excessiva com a propriedade e a resposta repressiva do Estado ao direito de expressão. “Tem coisas que [se] proíbe na guerra e não [se] proíbe na sociedade, na manutenção da ordem pública”, diz Dal Maso.


* * * * * * *

*Milena Buarque,
estudante do último ano de jornalismo no Mackenzie, integrante do 12º Curso de Informação sobre Jornalismo em Situações de Conflito Armado e Outras Situações de Violência, do Projeto Repórter do Futuro, onde foi confeccionado este texto publicado pelo NR

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Afinal, quem são os Black Blocs?


por Vinícius Souza*

Para a Folha de São Paulo, os mais de dois mil manifestantes – na maior parte, jornalistas e ativistas pela democratização dos meios de comunicação – que estiveram no protesto na sede da Rede Globo em SP, no último dia 11 de julho, não somavam quinhentas pessoas. Ainda segundo o jornal, tal número seria adepto da ideia sem sentido de trazer o caos pela destruição do patrimônio público e privado, não propondo nada em troca. Para esclarecer a mídia e evitar erros como esse, convém dar algumas informações sobre os ditos “vândalos”.

Diferentemente de querer mudar o sistema pelo dano à propriedade (sempre privada e de preferência simbólica do grande capital), a tática Black Bloc pretende, entre outras coisas, dar visibilidade a lutas anti-capitalistas e anti-proibicionistas. Eles entendem que, independentemente da quantidade de gente, não adianta se manifestar pacificamente com cartazes seja qual for a causa.

No dia 8 de junho, mais de 12 mil pessoas fecharam a Avenida Paulista às 14h, percorreram a Augusta e a Consolação ocupando a Praça da República por cerca de quatro horas, com música, dança e discursos em prol da legalização da maconha. Como de praxe, nenhuma menção na TV e somente uma pequena nota interna nos jornais.

Na véspera, mais de cinco mil manifestantes pelo Passe Livre haviam sido reprimidos com gás lacrimogêneo na Marginal Pinheiros e perto de 500 conseguiram chegar ao vão do Masp, após negociarem com a PM. Essa dispersão pacífica na Paulista, sem incidentes, teve pouca repercussão.

Porém, nos três dias consecutivos de passeatas, apenas a destruição de vidros de estações do Metrô e fachadas de lojas, no dia 6, conquistaram manchetes. E quanto mais a polícia batia, mais gente se juntava no protesto seguinte, até o massacre de ativistas e jornalistas na noite de 13 de junho, que levou a mídia a mudar de posição, promover as manifestações “cívicas” e levantar bandeiras contra a corrupção, a PEC 37, a vinda de médicos estrangeiros, o Governo Federal etc.

De repente, os mascarados atacando a sede da Prefeitura, os vitrais do Theatro Municipal, saqueando lojas e ateando fogo em prédios ocupados por Movimentos de Sem Teto, não se vestem mais exclusivamente de preto e vermelho e nem trazem estandartes negros. Os skates e cabelos moicanos, tão comuns entre os Black Blocs, também desaparecem, dando lugar a cabeças raspadas, músculos definidos e, por vezes, roupas e relógios caros. Ainda há o grafiti (ou picho), mas não mais só de mensagens anarquistas e reivindicações pela tarifa zero. No lugar, palavrões e xingamentos contra o governo.

Só por má vontade ou desconhecimento da história recente das lutas mundiais é possível dizer que todos (e mais os ativistas contra os monopólios midiáticos) fazem parte do mesmo grupo.

Para quem não sabe, os Black Blocs apareceram pela primeira vez nos protestos anti-capitalistas do final do século passado nos encontros dos países ricos em Seattle, nos Estados Unidos, e Gênova, na Itália, com os principais embates contra a polícia, onde houve inclusive mortes entre os manifestantes. Eles reapareceram com força nos EUA, no Occupy Wall Street e, no Brasil, nas marchas anti-proibicionistas de 2010 e 2011.

A ação de pichação e, às vezes, destruição de filiais de grandes redes transnacionais, como McDonalds e Starbucks, além de agências bancárias, visa o ataque a símbolos de um sistema financeiro internacional que oprime populações em todo o mundo. De inspiração anarcopunk, amam as liberdades individuais, o faça-você-mesmo e as músicas pesadas. Compreendem a necessidade atual de um Estado que garanta os direitos e distribua as riquezas entre os mais pobres. O socialismo antes do anarquismo. Mas não são “patrióticos”, abominando associações a símbolos nacionais, como bandeira e o hino. Conectam-se por redes, coletivos e pequenos grupos, sem lideranças. Curiosamente, nenhum dos detidos por depredação de patrimônio se declarou Black Bloc.

*Texto e foto Vinícius Souza, jornalista do MediaQuatro, especial para o NR.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Para que lado vai?


por Thiago Domenici*

O ápice das mobilizações pelo país ocorreram entre os dias 17 e 21 de junho. Uma multidão de gente e reivindicações, frustrações e aspirações, por vezes difusas, ganharam forma em gritos de guerra e cartazes. Tivemos, sem dúvida, muito mais a névoa dos gases policiais e da violência do que céus de tranquilidade.

Passada a grande turbulência, os holofotes se voltam para o Planalto. A minha expectativa é de que o executivo tenha alguma carta na manga não marqueteira que dê vazão ao sentido de “urgência” das reivindicações. A ideia do plebiscito encalhou. Agora surge uma comissão da reforma política que terá 90 dias para propor algo. Depois, ao que consta, um referendo será realizado. A chamada “agenda positiva” foi criada justamente para dar respostas rápidas, ou seja, desencalhar projetos que estavam encalhados por morosidade, acordos políticos, lobbies e prioridades de guetos.

É curiosa essa esquizofrenia de hiperatividade do executivo e legislativo depois das agitações populares. Escancaram, sobretudo, a contradição de um sistema político desgastado. Não tenho dúvidas de que um bom começo seria fazer a reforma política. A ver o que virá nos próximos três meses. Gostaria de ver menos imagem e mais verdade nas ações gerais daqui pra frente.

***

Em terras paulistanas, Haddad disse em entrevista ao jornal Brasil Econômico que os manifestantes do Movimento Passe Livre “são ingênuos, mas espertos". Quis dizer que são ingênuos porque não se preocupam com a fonte de financiamento da tarifa zero, e espertos porque se negam a discutir os aspectos técnicos da isenção – que, no caso de São Paulo, pode somar R$ 6 bilhões.

Dizer que “se negam a discutir” e que “não se preocupam” soa injusto e errado. Sem muito esforço, caro prefeito, você encontra o site tarifazero.org, o qual deveria olhar, já que desde 2009 o espaço, que não é do movimento, mas é tocado por alguns militantes do MPL, trata questões pertinentes ao transporte público, entre elas, a viabilidade econômica do Tarifa Zero.

E mais: se negar a discutir pressupõe que a prefeitura tenha feito um convite ao diálogo nessa pauta específica. Alguém me diga, por favor, se isso ocorreu oficialmente e se o MPL negou tal convite. A questão fundamental na cidade é inverter as prioridades do transporte público.

Mas, sem grandes expectativas, como citou o economista Luiz Gongaza Beluzzo em coluna na Carta Capital, “hoje, mais do que nunca, a critica da sociedade existente não pode ser feita sem a critica da economia política”. É aí que se precisa romper o nó górdio. E nesse campo econômico/político, infelizmente, pouco tenho visto de "agenda positiva".

***

O vídeo abaixo é produção coletiva realizada pelo Projeto Cala-boca já morreu e pelo Coletivo EntreLinhas, como colaboração para a Campanha Tarifa Zero.



Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do Nota de Rodapé

terça-feira, 16 de julho de 2013

Obscenas #1

Imagens que remetam a "obscenas" políticas, econômicas e sociais é, a partir de hoje, mais um pitaco do NR nas redes sociais e por aqui. Acompanhe conforme a demanda permitir. Se tiver sugestão escreva pra contatonotaderodape@gmail.com


O pijama de Antônio

por Ricardo Sangiovanni*

Queria fazer aqui uma denúncia ao pessoal das centrais sindicais: quinta-feira passada, dia da manifestação, Antônio, um dos dois Antônios que é porteiro aqui no prédio onde alugo este apartamento, veio trabalhar normal, não se abalou nem nada de ir para a rua protestar.

Mas trabalhando – disso fiquem sabendo vocês, pessoal das centrais – Antônio protesta mais, bem mais do que se parasse um dia só para se manifestar.

Antônio pega no serviço todo dia às dezoito da tarde, para largar só às seis do dia seguinte. (Por sinal, doze horas, pessoal das centrais sindicais: cadê vocês? Enfim, deixa quieto, que não é sobre isso a crônica.)

Se o morador daqui chega em casa cedo, até umas vinte, vinte-e-uma da noite, capaz que ainda pegue Antônio todo empertigado, de sapato lustrado, calça social, camisa de botão com o nome do condomínio bordado, de cinto e tudo, luxando numa fineza danada.

Mas passou desse horário, é batata: lá vai Antônio abrir o portão arrastando pendurado no pé seu borrachudíssimo chinelo (também, não tem pé que aguente aquele tijolo de sapato), já vestido com sua calça preta moleton (a mais velhinha que a pessoa tem, a do elástico folgado, sabe?), mais o usual blusão vermelho, puído mas de estimação – de manga comprida, é claro (porque de noite bate um ventinho, aquilo esfria os ossos que só vendo).

E assim, todo dia, Antônio se manifesta: imprime um pijâmico ritmo a uma parte de seu trabalho inglório, que é levantar-se da cadeira toda santa vez que chega alguém na porta, a pé ou de carro – aliás, a esse propósito, amigos, creiam: moro num prédio 1) de cujos portões nenhum morador possui a chave, dependemos todos do porteiro; e 2) no qual se arranja muito dinheiro para reformar as pastilhas da fachada, e nenhum para instalar um bendito de um portão automático para facilitar a vida ao trabalhador da portaria. (A síndica a esta altura estará pegando da caneta para escrever-me uma carta, lembrando-me de que o condomínio recentemente fez uma benesse aos porteiros, comprou-lhes uma televisão nova, grandona, inquirindo que isso eu não boto na crônica. Pois boto, dona síndica, e digo mais: arranja-se muito dinheiro para comprar televisão, e nenhum para instalar um bendito de um portão automá…)

E tem mais, pessoal das centrais sindicais: não é só Antônio não, viu? É todo mundo, no Brasil todo mundo é cedo ou tarde obrigado a dar um galho no trabalho, porque aqui pelo trabalho paga-se uma miséria, dá-se uns benefícios indignos do nome, e cobra-se em troca o couro do cidadão. Essa Bahia onde vivo é talvez a prova maior de que o ato, a noção mesma de trabalho, no Brasil, já leva em si, incorporada, um quê imenso e diário de protesto.

O brasileiro trabalhador já está se manifestando, pessoal das centrais sindicais, desde que se inventou o trabalho neste país. E está desde sempre acordado, pessoal das centrais sindicais. De pijama, que seja, mas muito bem acordado obrigado.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Atual conjuntura

por Izaías Almada*

Diante do "clamor das ruas" e da atual situação política brasileira, gostaria de dedicar essa coluna, através da magistral interpretação de "Os Demônios da Garoa", a todos aqueles para quem o trem da História está atrasado... ou já passou.


 *escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Consumidores perfeitos


por Ricardo Sangiovanni*

Sigo animado a conversar e escrever sobre esse tempo de manifestações, mas hoje resolvi escolher um tema específico, porque 1) sou ignorante na maior parte do que gostaria de falar; e 2) noto que há muita gente – gente muito boa – observando de longe, falando demais, demasiado rapidamente e, por isso, falando bobagem sobre tudo e cada coisa que está acontecendo.

Queria lembrar-lhes uma dicotomia interessante anotada por Milton Santos – que, se estivesse vivo, talvez nos ajudasse a entender melhor o que anda se passando, sem falar como se fosse alguma inteligência ex machina, sem tiradas satíricas do arco-da-velha, sem tratar o leitor comum como criança, como incauto partícipe menor de um inextricável teatro político.

Em “O Espaço do Cidadão”, de 1987, o geógrafo propõe a ideia de que o povo brasileiro teria passado, graças a um longo período de exposição a políticas neoliberais, da condição de “cidadão imperfeito” à de “consumidor-mais-que-perfeito”.

Quer dizer: no Brasil, antes que se consolidasse a formação dos indivíduos enquanto cidadãos, dotados de compreensão profunda das relações sociais e de seus direitos (os individuais e os de viver num país em que todos tenham iguais oportunidades e acesso a serviços), optou-se por impulsionar nossa condição de consumidores – ou seja, indivíduos dotados do direito universal ao consumo e nele justificados; capazes de se mover no sistema, mas não de questionar suas premissas e consequências, que dirá de propor-lhe transformações concretas.

Que acontecia há coisa de 30 anos, na visão de Milton Santos? Na falta de clareza sobre sua condição cidadã – do que se depreende a falta de consciência do poder de ação e transformação que dele decorreriam – tinha-se uma população de consumidores-mais-que-perfeitos – ou seja, consumidores que consumiam qualquer porcaria que se lhes fosse oferecida, e sem reclamar, afinal, devia-se dar graças a deus pela dádiva em si que era poder consumir. Não se tinha o hábito, por exemplo, de reclamar da má qualidade de produtos e serviços, e o Procon… bem, Procon nem bem existia.

O que mudou desde então? Amadurecemos, sem sombra de dúvida, em nossa condição de consumidores. Aprendemos a reclamar dos produtos defeituosos, a registrar queixa contra os serviços deficientes, até a processar quem nos tome por patetas que aceitam levar qualquer gato fajuto, tendo pago por lebre gorda.

Se levarmos isso ao extremo, notaremos que amadureceu também nossa relação de consumo com a política. Não estou confundindo as bolas: é que, num país em que se tem mais valor enquanto consumidor do que enquanto cidadão – num país em que inclusão social, inclusive, se mede pela inclusão na esfera do consumo – , a lógica do consumo torna-se a verdadeira moeda das relações político-eleitorais. Hoje, elege-se quem quer que seja subsumindo um trisquinho de debate de ideias e projetos num eficaz (tanto quanto pobre) pacote marketológico.

Então, em que pese o jogo de aparências pertinente à política desde Maquiavel (desde Aristóteles, alguém me corrigirá), é fato que, na balança que define a adesão popular a candidatos e partidos em momentos eleitorais, a tomada de decisão baseada numa lógica de consumo (e não numa discussão cidadã) tem desequilibrado.

O que pode não ser necessariamente um problema, afinal a política não se estrutura na oposição entre conteúdo e forma, entre idéias e retórica – ao contrário, ela é essas duas coisas, juntas. Mas “o consumidor não é o cidadão”, diria Milton Santos.

De maneira que essa forma de “consumir” política tem sim consequências – que podem ser graves e abrir vácuos de representatividade perigosos – quando os “produtos” político e partido mostram-se “podres” (no primeiro caso) e “defeituosos” (no segundo). Nessa hora, a reação do eleitor-consumidor será (tem sido) a de alguém que comprou um liquidificador que não funciona, ou um quilo de carne estragada: ele irá reclamar, dizer que detectou o defeito, e pedir uma troca (há quem fale em recall); ou, mais ainda, pedirá que alguém por favor invente um novo produto, capaz de lhe satisfazer mais.

Aí, para mim, é onde mora o problema – o perigo – de aceitarmos continuar entendendo a política, e falando dela, com a lógica e a linguagem do consumo – haja vista essa história de recall, esse tipo de palavreado.

Porque o consumidor é, por definição, incapaz de propor, de inventar, de pensar fora da estrutura que lhe é dada. O consumidor, a rigor, não produz, não é talhado nem teria as ferramentas para tanto, se o fosse. O consumidor sabe reclamar – e é desejável que o faça. Mas é preciso ser, mais que consumidor, cidadão para reclamar propondo novas soluções à política; para repudiar os atuais partidos criando um – ou vários – novos; para abominar o atual sistema político inventando um sistema renovado, que saiba a quais problemas deve dar solução. Isso tudo motivado não por mera ingenuidade política, senão pelo esgotamento do atual jeito/sistema de se fazer política.

O desafio de fundo me parece então o de tentar iluminar o entendimento desse momento num sentido que leve à transformação do consumidor mais-que-perfeito no que Milton Santos chamaria consumidor imperfeito: “É necessário que ele seja um verdadeiro cidadão para que o exercício de sua individualidade possa ter eficácia. Onde o indivíduo é também cidadão, pode desafiar os mandamentos do mercado, tornando-se um consumidor imperfeito, porque insubmisso a certas regras impostas fora dele mesmo.”

O desafio é, em vez de desqualificar, de achar os pontos débeis das manifestações que até agora têm ocorrido para mostrar o quanto elas são só “cosquinha” na sola do pé do sistemão, de denunciar, feito mangangão, o quanto fomos uns tolinhos ao ir para as ruas com cartolinas nas mãos; o desafio é contribuir para que a agitação um tanto atabalhoada desse momento se depure, se organize, se encha de informação mais aprofundada, se torne mais consciente de quais e quão complexos são os problemas que motivam tamanha indignação.

Do contrário, seguiremos sendo consumidores – consumidores que pelo menos já reclamam, ok, muito bem. Mas sempre e apenas consumidores – consumidores perfeitos.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A criação do mundo revisitada

por Izaías Almada*

E no sexto dia, antes do descanso, Deus contemplava a sua obra, pensativo. De repente, girou o globo terrestre e colocando o indicador num determinado ponto, exclamou: “Aqui será o Brasil!”

Admirou Deus por alguns momentos a beleza da sua criação e acrescentou: “Aqui, nesta terra de palmeiras, sabiás e rios piscosos, colocarei à minha direita a maioria dos inaptos. À minha esquerda, habitará a maioria dos ineptos... E no centro, bem... No centro, deixarei viver a grande maioria dos inócuos...”

E viu Deus que era bom.

Inaptos, ineptos e inócuos, aqui vivemos todos nós na expectativa de criarmos uma grande nação, de projetarmo-nos como seres humanos de primeira grandeza, de nos livrarmos de seculares mazelas impostas por um colonialismo predatório e refém de interesses além fronteiras. De uma cultura que costuma se dividir entre a arrogância e a submissão: a arrogância do saber mal assimilado e a submissão originada pela alienação.

Nesse coquetel de desejos e frustrações, caminhamos sobre o fio da navalha e vamos trocando os papéis em consonância com nossos interesses de momento: passamos de inaptos a ineptos ou vice-versa, mas sempre com a possibilidade de continuarmos ou de nos transformarmos em inócuos.

No paraíso que nos foi destinado por vontade divina, onde oito milhões e quinhentos mil metros quadrados de verdes matas, água doce e potável, frutos os mais exóticos e saborosos, subsolo riquíssimo, há quinhentos anos ainda não sabemos organizar a casa. Tentamos, é verdade, mas o tempo que nos é dado viver é muito curto, se pensarmos que após a infância e a adolescência temos que escolher (ou somos escolhidos?) entre sermos inaptos, ineptos ou inócuos.

Um belo dia, ao comermos da árvore da sabedoria, descobrimos que inaptos, ineptos e inócuos poderíamos viver em harmonia e com isso imitamos outros povos e culturas mais antigas. Organizamos a coisa pública, a república e, consoante a boas experiências alheias, criamos parâmetros de convivência social, deixando para trás nossos antepassados colonizadores. E foi assim que estabelecemos três poderes: um para administrar, um para legislar e um terceiro para zelar pelo cumprimento das leis.

E viu Deus que era bom.

Surgiu aí o grande problema. Como distribuir pela nova república, com sabedoria e com sentido de justiça, os inaptos, os ineptos e os inócuos?

Chamando um representante de cada grupo, Deus colocou na mão de cada um deles um manual a que deu o nome de Constituição e disse: “Aqui está o caminho, a verdade e a vida. Leiam, reflitam e aí encontrareis as respostas para os desafios da vossa jornada neste paraíso por mim criado”

Os inaptos leram, leram e não entenderam muito bem, ou fingiram que não entenderam. Os ineptos marcaram reuniões e mais reuniões e foram poucas as vezes em que conseguiram algum consenso sobre o que leram. Os inócuos, bem, os inócuos praticamente não leram. E foram todos para as ruas...

E viu Deus que era ótimo!

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Recife sob combustão espontânea



por Aleksander Aguilar*

Então, vale a pena falar um pouco de como está em Recife? Pois na cidade proeminente do tantas vezes longínquo Nordeste brasileiro o quadro é similar, sim, ao do Brasil atual e sinistramente unido por nossas análises igualmente preocupadas que encurtaram nossas distâncias. E por que não seria?

Por exemplo: ”O mais importante é parabenizar a população pela maneira pacífica com que realizou o ato". Sim, sim, foi o Geraldo que disse! O prefeito da capital pernambucana, que é amicíssimo, para dizer o mínimo, do governador do mesmo Estado, Eduardo Campos. E os comuns: “Então graças a deus que aqui foi tranquilo, né? Não teve toda a baderna lá do Sul”, disse ao telefone agora a senhorinha vizinha no prédio, evangélica de devotada disciplina ao rádio a todo o volume em canais cristãos, religiosamente todos os dias às 7h da manha.

Não, aqui não é São Paulo, porra! Mas e daí? É a capital “mais vibrante do Nordeste” ainda assim reproduzindo ufanismos vazios, típicos de “revoluções de twitter” e de outras expressões cunhadas no afã midiático de criar nomes de impacto, que permanece num nível tão superficial quanto o dessas paradas cívicas e protofascistas (neste momento, porque podem mudar de natureza) que começaram chamando-se atos políticos. Tão apressadas quanto foi a mídia progressista – façamos a autocrítica – achando tudo lindo no início dos protestos antes de entender o que estava em jogo.

Reconheçamos que há uma crise urbana que a classe média assumiu e que ajuda a configurar uma crise da democracia representativa como um todo. A melhora do padrão de renda dos últimos anos tem paradoxalmente, e em especial nas grandes cidades, piorado a vida em alguns aspectos como a mobilidade urbana, estopim desta crise.

Nesse contexto, no ato do dia 20 de junho foram pelo menos 52 mil pessoas nas ruas, segundo a Secretaria de Defesa Social do Estado, e constituiu um dia histórico em Recife, assim como o foi em várias outras cidades brasileiras. Tudo tranquilo, “o mais pacífico do país”, com pequenos e breves incidentes rapidamente controlados e no máximo bombas de fogos de artifício lançadas pra fazer barulho. Até a Polícia Militar trabalhou com braçais brancos nas mangas indicando paz e chegou a abrir faixas de apoio ao movimento. E assim Recife não fez se fez pioneiro ou vanguardista; replica um sentimento bastante generalizado nesse 20 de junho que efetivamente parou o Brasil ao mesmo tempo que pôs todas as antenas progressistas em alerta. Um movimento imenso e sem comando: perigo! A horizontalidade é perigosa? Com que tipo de aventura estamos lidando?

Recife, uma das cidades símbolo do atual e dificilmente negável processo brasileiro de redução de injustiças sociais – porque tem um crescimento econômico destacado na região do país com desigualdade socioeconômica de amplo e conhecido lastro – a surpresa com que todos foram tomados na organização das gigantescas manifestações de rua ajudam a amplificar um típico debate sobre estratégia e organização. Aquele que remonta à velha discussão organização e espontaneidade das massas, travada já desde 1905 entre o contexto alemão e russo, mas agora diante de uma dinâmica organizacional da era Web 2.0.

Há espaço para que nos movamos mais adiante da polarização conceitual entre partidos vanguardistas vistos como muito rígidos e redes de articulação virtual vistas como muito frouxas? É possível que os movimentos contemporâneos transcendam o espontaneismo pejorativo e sejam articulados como novas formas de criação e de organização?

Seja como seja que evoluamos nesse debate, está na hora de politizar o momento, de capitalizar os movimentos sociais vivos, e de pautar um horizonte de emancipação social. O esvaziamento político daquilo que começou como atos propositivos, e agora tem como tom predominante o de paradas cívicas moralistas e conservadoras, precisa ser preenchido. Propostas emancipatórias radicais precisam ser construídas, debatidas e massificadas de modo a se ter um objetivo sociopolítico estruturalmente transformador.

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor e viajante a Ítaca. Especial para o NR.

domingo, 23 de junho de 2013

De um a dez sobre os protestos



por Ricardo Sangiovanni*

Já chegou segunda e ainda não tenho nada concreto pensado a lhes dizer sobre o único assunto da semana digno dessa crônica.

Mas se não tenho nada concreto pensado sobre o que anda se passando, é menos por dificuldade de organizar o pensamento, e mais por dificuldade de entender com a devida precisão o que anda se passando.

Não será contudo por isso que deixarei o blog em branco – não é hora de deixar o blog em branco. Irei portanto enumerando alguns temas e alguma reflexão inicial sobre eles, convidando a todos de antemão ao debate, que é o único instrumento capaz de nos levar ao melhor entendimento, à melhor opinião, à melhor expressão do que cada um de nós leva no espírito.

1. De que protestos falamos? Parece que as manifestações de rua chegam ao final desta semana já são bem diferentes daquelas que começaram há duas semanas atrás. Protestar claramente contra o aumento do preço da passagem do transporte público – primeiro em São Paulo, em seguida em outras praças, mas sempre em torno da mesma demanda imediata (redução do preço já), da mesma agenda (vamos debater o modelo de transporte público), da mesma ideologia (o estado deve ser antetudo agente de pressão do empresariado a prestar serviços de qualidade que atendam às demandas dos cidadãos, e não o contrário) – me pareceu algo digno do maior apoio. Já protestar difusamente contra todo e qualquer problema, real ou irreal, visível ou invisível, palpável ou impalpável, de imediato ou de prolongado remédio, direcionando todas essas demandas, ainda que justas, a uma raiva desmedida da política em si, do Estado em si, tem-me parecido coisa difícil de apoiar.

2. A quem esse tipo de protesto interessa? Não tenho como afirmar que a maior parte das pessoas que estão na rua esteja protestando desse jeito amorfo e difuso. Tampouco afirmaria que, ainda que amorfas e difusas, as demandas de qualquer pessoa que esteja na rua sejam infundadas ou injustificadas – viver no Brasil é difícil mesmo, cada um sabe de si. Entretanto, a soma de protestos inconscientes de sua natureza mais profunda – de sua natureza ideológica – é que me parece a coisa perigosa. Perigosa porque basta que alguém, pessoa ou grupo, consiga pilotar a indignação popular, para que as demandas originais – a ideologia original – seja subvertida. De maneira que ir às ruas “para dizer que sou brasileiro”, convocar as pessoas para “mudar o Brasil”, animar-se porque “o gigante acordou”, dizer-se revoltado “contra isso tudo que está aí” significa menos ajudar a obter a universalização da cidadania no país (esse nosso mais grave problema) e mais abrir espaço para projetos de apropriação das instituições para finalidades completamente opostas a essa – já volto a essa questão.

3. É demais imaginar que possa estar-se desenhando um golpe? Infelizmente, acho que não. Porque à medida em que cresce o movimento de descredibilização da política, dos partidos, do governo em si – descredibilização essa embasada no simples fato de que a política, os partidos, o governo existem – cresce o risco de que as manifestações se traduzam em caos social incontrolável aos olhos de quem detém as armas, a força, o porrete. Ou seja: mesmo que não haja um golpe milimetricamente arquitetado em curso, criar um clima de ódio da política pode servir muito bem a quem deseje a supressão da agitação popular por um golpe mais duro de força, um golpe que, por um suposto bem da paz nas ruas, poderia atentar contra a institucionalidade democrática – coisa que o Brasil levou tanto tempo e tanta porrada para conquistar. Afinal, se nossa democracia tem problemas, esses talvez sejam menos decorrência do sistema, e mais da expressão da luta de classes que se faz através dele. Me parece difícil acreditar simplesmente que, se o modelo institucional fosse outro, e os atores esses mesmos, teríamos as transformações severas de que o Brasil precisa.

4. É hora de sair das ruas? Questão complicada. A princípio responderia que não, porque é sempre possível disputar na própria rua a escolha que cada pessoa fará do direcionamento a ser dado à sua indignação. E também por acreditar que a maioria das pessoas que está protestando estaria sim propensa a direcionar sua indignação a demandas claras de democratização acelerada da condição cidadã – como era, por exemplo, a dos 0,20 do Passe Livre, um rótulo excelente para aglutinar pessoas e pautar uma discussão mais ampla, de um novo modelo de transporte público. Mas interponho a esse meu entusiasmo um problema: será que essa disputa pode ser de fato ganha nas ruas na atual circunstância, tendo em vista a quantidade de atores/grupos sociais que já entrou na concorrência pelo direcionamento e pelos resultados de uma mesma revolta popular? Será que, dado o atual grau de agitação, o chamado a se batalhar por coisas claras (algo que demanda pesquisa, conversa, entendimento, coisas que levam tempo e requerem um investimento que muita gente não sabe ou não quer fazer) tem condições de enfrentar o facilismo da argumentação “pelo Brasil”, “contra os políticos”, “contra o governo”, “contra tudo que está aí”? Gostaria de crer que sim, mas não creio. Talvez, entre sair ou ficar nas ruas, a alternativa seja continuar a se reunir gente na rua, porém começando a tentar formar, ainda que na própria rua, grupos com nome e cara, a separar de forma mais evidente quem é quem nos protestos, a procurar saber ao lado de quem está se protestando, pelo que se está protestando, onde se está protestando, quais são as ideias que se somam de fato ao que se tem como alvo de protesto.

5. A repressão policial. Apenas para repisar que segue vergonhosa. Porque não consegue distinguir protesto de verdade de vandalismo picareta, e quase sempre massacra mais quem se manifesta por alguma razão justa. Porque, afinal, essas são as pessoas mais frágeis, seus inimigos mais antigos: a gente pobre comum, historicamente massacrada.

6. Sobre as redes sociais. Muita gente tem falado que as redes sociais são a grande diferença dessas manifestações, já vi “especialista” por aí dizendo que “chegou a hora do pessoal que ficava debatendo e se manifestando virtualmente ir se manifestar na rua”. O problema é que não consigo ver nas redes todo esse debate. Pela rede se consegue sim agendar atos públicos, se consegue aglutinar quem pensa de forma parecida, mas a regra até agora não tem sido o debate de fato, a polêmica, o amadurecimento de ideias. Nas redes sociais me parecem ainda ser predominantes os desaguadouros de posicionamentos que não precisam necessariamente de debate, porque, quando encontram as portas fechadas em um grupo, correm para outro onde sejam mais amplamente aceitos. Outro cuidado que temos que ter é de não misturar a horizontalidade do movimento Passe Livre – uma forma convencionada entre os integrantes do movimento, uma decisão coletiva e política – com a suposta horizontalidade de toda e qualquer manifestação marcada pelas redes. Rede social não é sinônimo de horizontalidade e falta de liderança. Quem marca cada protesto? Os perfis são todos verdadeiros? Dizer/escrever o que pensa significa pensar com a própria cabeça? São perguntas que me faço.

7. A mídia nessa história. Retomando o ponto 2, um dos grupos a quem interessa pilotar essa onda de manifestações que sou capaz de individualizar é certamente a mídia. A mídia quer dizer os quatro ou cinco grandes grupos familiares de comunicação do país e, com nuances, seus sucedâneos nos Estados a fora. Grupos que, por sua vez, representam, diretamente ou por solidariedade ideológica, a classe empresarial (ou a parte dela) preocupada em manter a atual repartição do bolo nacional de privilégios. De maneira que me parece muito estranho que a reação raivosa da mídia contra as manifestações pela redução da passagem, semana passada, tenham se tornado tão rapidamente apoio entusiasmado – até incitação, em alguns casos – à continuidade dos protestos “contra os governos”. Tudo se torna muito esquisito quanto William Bonner aparece dando dicas de como se diferenciar dos “vândalos” nas manifestações, dicas as quais ele teria visto circulando por aí, nas redes sociais. Mais estranho ainda quando a Globonews encerra seus noticiários com o hino nacional, homenageando as manifestações. Quando os grandes veículos de comunicação brasileiros se viram diretamente implicados como alvos da revolta popular – após seus editoriais contrários às manifestações, defendendo a repressão policial há duas semanas – , tiveram a sacada magistral e oportunista de passarem rapidamente a se posicionar a favor dos manifestos. Desse modo, a mídia conseguiu retornar ao papel que lhe é mais conveniente ocupar aos olhos do espectador: o de suposta “refletidora” e “debatedora” do que está se passando no mundo, nas ruas, como se não estivesse ela mesma implicada nesse cenário e no que leva as pessoas a se manifestarem. E assim, excluindo-se do contexto social, a mídia exclui também (por solidariedade de classe, já sabemos) toda a classe empresarial brasileira do tabuleiro dos manifestos. Como se o que estivesse em jogo fosse uma revolta do povo apenas contra os governos, contra os partidos, contra os políticos. Como se esses governos, políticos e partidos fossem corruptos sozinhos, como se não houvesse uma classe empresarial corrupta/corruptora por detrás deles, pressionando-os a continuarem a ser corruptos, a continuarem a utilizar o poder que recebem do povo para manter privilégios. De maneira que não adiantará muito pressionar os governos, mudar ou depor os governos, recomeçar a democracia no Brasil, sem questionar o papel do alto empresariado – do capital, me perdoe quem não gosta dessa terminologia – numa suposta reconstrução desse sistema. No fundo, esses grupos – entre os quais a mídia – sabem que, qualquer que seja o resultado de uma rebelião popular sem consciência da velha luta de classes em questão, toda reconstrução que advir daí não prescindirá deles.

8. Do preço do ônibus ao fora Dilma. Tento há dias recuperar a conexão lógica entre essas duas pontas. Não consigo. Vá lá que a postura de Haddad em São Paulo tenha sido vexatória no episódio do preço das passagens. Mas a velocidade com que se virou o leme das manifestações é tremenda. E, infelizmente, não me parece que seja resultado da luta de esquerda contra os erros do PT e do governo Dilma. Na falta de argumento que me convença do contrário, entendo que os protestos chegaram ao ponto em que chegaram porque alguns setores descontentes com o governo viram neles uma oportunidade de tirar proveito da situação. Lembremos que Dilma, apesar de toda crítica que possamos (e devamos) fazer a seu governo, mexeu recentemente com os bancos, reduzindo as taxas de juros; mexeu com as energéticas, baixando as contas de luz; mexeu com o PMDB, ao pressionar que 100% dos royalties do petróleo vão para a educação; enfrenta resistência na MP dos Portos; enfrenta uma campanha pela volta da inflação, o que ressuscitaria o PSDB para as eleições de 2014. Enfim: se os que estão à esquerda do governo não estão contentes, os que estão à direita estão menos contentes ainda. E as alternativas que eles oferecem não são nada animadoras.

9. Por falar em inflação, vou aproveitar para contar um caso, e já encerro este bolodório. Estive nesta semana na Ceasa de Campinas, um dos maiores centros de distribuição de alimentos do país. Me parou um senhorzinho, que há décadas vende tomates na feira. Falou assim: p"or que é que, quando tem pouco tomate para vender e sai na televisão que o preço do tomate disparou, chove gente aqui para fazer reportagem de que o tomate está caro; e agora, quando sobra tomate e o preço vai lá para baixo, não aparece ninguém para fazer matéria?” Me disse isso na frente de pilhas e pilhas de caixas de tomates não vendidos.

10. Em qualquer desses pontos, por favor me corrija quem tiver informação ou reflexão de melhor qualidade.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 18 de junho de 2013

“o povo unido é gente pra caralho”

São Paulo, 17 de junho de 2013: o dia histórico que reuniu gerações contra, principalmente, o aumento do transporte público, pela revogação do aumento de 0,20 centavos no ônibus e metrô. Um relato pessoal em três frentes, por três jornalistas, Natalia Mendes, Moriti Neto e Thiago Domenici. E mais; a ida do Nota de Rodapé ao programa Roda Viva e um apanhado das discussões durante a entrevista com os representantes do Movimento Passe Livre.




Vinte centavos, sim
(Moriti Neto)

“A Copa das Confederações parece que nem está acontecendo. Ou que está acontecendo só na Globo”. A frase corre entre os jornalistas que estão nas dependências da TV Cultura, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, dia 17, à espera do programa Roda Viva, no qual este NR esteve presente na bancada de tuiteiros para participar da entrevista com integrantes do Movimento Passe Livre (MPL). Não que o futebol tenha sido realmente esquecido, mas as palavras representam muito da sensação que se espalha pela capital paulistana após a manifestação que se estendeu pelas ruas da cidade. O ato foi tão impactante que, de fato, outros eventos ficaram infinitamente menores.

Tão intensos têm sido os protestos realizados há três semanas – com crescente incorporação de participantes – que acabam por produzir debates proporcionalmente fortes. Bastante disso é causado pela heterogeneidade do movimento. Várias tendências se encontram nele. Não de organizações político-partidárias constituídas. O que se vê é outro tipo de mobilização. De diversas cores e classes, elas têm no valor concreto, nos R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus em SP, o eixo que as une. Essa discussão é essencial.

Qualquer tentativa de rotular as manifestações e tirá-las do principal mote, o da reivindicação pela democratização do transporte coletivo, algo que não passa somente pela tarifa, mas pela revisão do modelo, é veementemente refutada por membros do MPL. “O Movimento Passe Livre não nasceu agora. É fruto de organização de anos. Muito tempo fazendo um debate que interessa à grande parcela da sociedade, pois isso passa pelo direito de se locomover. Assim, é claro que não perdemos de vista o principal das manifestações, que são, sim, os R$ 0,20”, explica ao NR Lucas Monteiro de Oliveira, professor de história e integrante do MPL, logo depois do fim do Roda Viva.

Tal firmeza de argumento não evita que análises apressadas se construam. À direita e à esquerda surgem comentários que buscam enquadrar o movimento. A bola da vez, na voz dos conservadores, é classificar as ações como acéfalas e carentes de lideranças, inclusive buscando estimular a ideia de que qualquer ato de violência policial-estatal se torna mais provável “pela falta de organização das manifestações”, como tentou sugerir o coronel reformado da Polícia Militar, José Vicente Filho, entre os entrevistadores na bancada do Roda. “Com mais de 100 mil pessoas, não houve violência hoje. E não haveria na quinta passada, se não fosse a agressividade da PM, estimulada por vários atores. Estamos mobilizados horizontalmente, mas muito bem organizados. Se não estivéssemos, como seria conduzida uma manifestação desse porte?”, destaca Lucas.

Por outro lado, há correntes esquerdistas que, perdidas na incapacidade de renovação do próprio pensamento, seguem na avaliação de que é necessária a aproximação com “gente gabaritada” para fortalecer e legitimar os protestos. Óbvio que os “gabaritados” seriam os sindicatos. Justamente o movimento sindical que, seduzido pelas benesses do poder público, tanto se perdeu desde que o PT assumiu o Governo Federal. “Dizer que o movimento não tem organização, que precisa de lideranças, não condiz com o real. A diferença é que nossa articulação é horizontal, o que não invalida nossas escolhas políticas. Desde as deliberações, passando pelos trajetos até as aparições públicas, todas as iniciativas são pensadas politicamente”, diz Nina Cappello, estudante de direito da Universidade de São Paulo (USP) e também membro do MPL.

Como se observa, qualquer busca por rotular apressadamente a multidão que protesta em São Paulo, parece mais uma jogada para arremessar o movimento à vala comum dos discursos vazios, casos do “Pelo fim da corrupção” e “Acorda, Brasil”. Tais lemas seriam válidos se não carecessem de direção. Na verdade, são vulneráveis a manobras populistas. Nesse caso, vale lembrar a caça aos comunistas da ditadura militar. Generalizante, o argumento funcionou apenas como ferramenta de marketing que mobilizou setores mais conservadores da sociedade e promoveu o massacre dos direitos civis.

Fora isso, existe o despreparo em lidar com novas formas de organização popular. Maneiras de agir sem hierarquia evidente e que, naturalmente, contêm menor grau de paternalismo. De um jeito ou de outro, enquanto os que avaliam a situação, governantes e mídia, seguirem sem pisar na rua, sem encarar os rostos de múltiplos tons e sem escutar as vozes que reivindicam a solução para os problemas concretos da população, pode-se até adiar a redução do preço da passagem de ônibus, porém nada fará perder o que esse movimento já conquistou: o amadurecimento político que assusta as formas velhas de gerir o que é público.

“São Paulo se reencontrou”
(Thiago Domenici)

A ponte Estaiada, ocupada por manifestantes
É difícil dar um início para esse texto que não saia do óbvio sentimento de energia pura, de grande felicidade que acometeu todos os que estiveram nas ruas de São Paulo ontem para protestar pela redução da tarifa de transportes. Na esteira dessa bandeira do Movimento Passe Livre (MPL), da revogação do aumento de 0,20 centavos, somado aos lamentáveis episódios de violação dos direitos humanos praticados com brutalidade e arrogância pela Polícia Militar de São Paulo na última quinta-feira, mais de 100 mil pessoas levaram sua voz a urbes paulistana.

Uma voz que uniu gentes – muitas – de todos os tipos, caras, idades, partidárias e apartidárias, marinheiros de primeira manifestação, pais e mães em apoio aos filhos, brasileiros em geral, que tentavam, a medida que engrossava a manifestação, compreender aquilo tudo. O jeito, meus caros, foi andar. E andamos um bocado. A rua tinha forma e direção. Estava tomada. Era nossa e não dos carros.

Mas vale dizer que o Brasil não estava dormindo. Pelo menos não o Brasil dos movimentos sociais fortes, de gente que já vem apanhando na rua faz tempo, se mobilizando e lutando sem ter a merecida voz dos meios de comunicação, os mesmos que dias atrás lançaram editorias fascistas e estavam às voltas com sua habitual manipulação de informação.

A coisa toda começou a partir do Largo da Batata, onde se deu a concentração, que depois rumou pela avenida Brigadeiro Faria Lima e, a partir dali, dividiu-se em três blocos: uma turma que seguiu para a Avenida Paulista, outra para a Ponte Estaiada e outro grupo ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo Estadual.

“Que coincidência, sem polícia não existe violência”, foi um dos gritos que reverberou durante a caminhada totalmente pacífica. Tão pacífica, que diante da primeiro vacilo de alguém, o povo repreendia. Aliás, hoje, se alguém tinha duvida do significado do termo “povo unido”, já aprendeu na prática.

Na Faria Lima, dos prédios e estabelecimentos comerciais, gente sacudia bandeiras brancas como forma de apoio. Outras dançavam. Tudo, sob aplausos e gritos de “vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Também foi curioso o festival de cartazes, que seria impossível descrever aqui de tantos que eram. Lembro de um, que me chamou a atenção: “nós fazemos a nossa própria nação”.

Os protestos, vale lembrar, levaram, dizem por aí, mais de 230 mil pessoas (foram muitas mais, sem dúvida) às ruas em 12 capitais nesta segunda-feira. Por fim, é indecifrável saber no que vai dar essa mobilização toda. A cabeça ainda está a milhão. Mas a sensação, depois da barbárie da PM, é que São Paulo se reencontrou consigo mesma. Deu uma reposta fantástica, cheia de entusiasmo e dormiu feliz para acordar revigorada nesta terça-feira. Amanhã vai ser maior? Tomara que sim.

“O que ouvi hoje não foi uma voz só”
(Natalia Mendes)

Avenida Paulista tomada por manifestantes
Lá pelas quatro da tarde, fomos para o ponto pegar o ônibus com destino ao Largo da Batata. Já encontramos alguns conhecidos e, logo no ponto seguinte, entraram vários adolescentes carregando cartazes, rostos pintados e energia pra dar e vender. Com isso, o ônibus foi tomado por manifestantes.

Ainda no caminho, a expectativa que tentava se disfarçar saiu pela garganta dos passageiros que já chamavam “Vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Pelas janelas, podíamos ver pessoas descendo a pé e cantando também. Não dava pra esperar o tempo dos veículos motorizados, saltamos alguns pontos antes para nos juntar aos outros.

No Largo, muitos rostos familiares, amigos e conhecidos. Recebi uma flor e um belo sorriso. No caminho, a mesma coisa. Encontros rápidos, abraços, sorrisos, alegria. Um clima leve. Não vi polícia nenhuma. “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”. Mas vi funcionários de uma famosa lanchonete dançarem animados, pessoas nas janelas acenando com lenços e lençóis brancos para os manifestantes, curiosos observando da calçada e batendo palmas.

A tensão inicial, a expectativa, o receio pelas balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram se perdendo.

Não sei dizer o quanto andamos, algumas horas. Paramos em uma esquina e ficamos observando aquele mar de gente. Era muita gente, mas muita mesmo. Era lindo, era impressionante. Isso que a manifestação tinha se dividido em três. Não conseguíamos imaginar quantas pessoas ocuparam as ruas. Ainda não sabemos ao certo.

Li relatos de gente que nem imaginei que estivesse lá. Soube de cantos que não ouvi. Encontrei (e vi de longe) pessoas que não esperava, que não sabia que estariam ali. Vi fotos de lugares que não passei. Parece que foram várias manifestações pela cidade. Todas parceiras.

O que ouvi hoje não foi uma voz só. Foram muitas, muitas mesmo.

Imagens: Joel Silva/Folhapress / Moacyr Lopes Júnior/Folhapress /Mídia Ninja.
Web Analytics