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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Corumbiara: massacre ou batalha?


Ocorrido há vinte anos, o conflito agrário entre sem-terra e policiais em Corumbiara, que resultou em 12 mortos, abriu a disputa entre grupos de reforma agrária pelo significado dos fatos

por João Peres*

A joia da coroa está em disputa. Os anéis, as mãos, os dedos: tudo foi colocado sobre a mesa. E não há vencedor. Ocorrido há 20 anos, o chamado “massacre de Corumbiara” é uma história em aberto. A luta pelo significado das 12 mortes registradas na tentativa de reintegração de posse da fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia, em 9 de agosto de 1995, parece não ter data para chegar ao final.

Sem o apoio de grupos institucionalizados de reforma agrária, centenas de famílias ocuparam, em 14 de julho daquele ano, a gigantesca área de 18 mil hectares, uma de muitas criadas durante a ditadura por meio de editais de concessões de terras. Os líderes da articulação estavam rompidos com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), mas tinham credibilidade por vitórias obtidas na região, que tem um dos solos mais férteis do estado. Muitos se sentiram atraídos pela possibilidade – 2,3 mil pessoas, no cálculo dos posseiros. E os fazendeiros decidiram que não podiam sofrer nova derrota.

Os fatos que seguem são simples de entender. O Judiciário determinou a reintegração de posse imediata. O comandante do 3º Batalhão da Polícia Militar, José Ventura Pereira, postergou o cumprimento do mandado, ciente de que poderia haver uma tragédia. Contudo, entre a madrugada e a manhã de 9 de agosto, pressionado, deu início à dramática operação.

Imagem: Gerardo Lazzari 
Antenor Duarte do Valle, vizinho da área ocupada, é o personagem mais intrigante da história. Beneficiário de 43 mil hectares doados pelo regime autoritário, multiplicou fortuna e poder ao mostrar que, também na democracia, poderia manter sob seu comando Judiciário, Legislativo e Executivo. Contra ele há denúncias acumuladas de exploração de trabalho escravo desde 1986 e, entre 2004 e 2009, figurou na chamada “lista suja” de empregadores flagrados nessa condição pelo Ministério do Trabalho. Construiu fortuna à sombra, sem pretensão de aparecer nas colunas sociais, e não lutou pela narrativa pública do que ocorreu na Santa Elina.

De maneira diferente atuaram os líderes da ocupação, que se empolgaram nas semanas seguintes aos fatos. Apesar do desfecho trágico, agora estavam animados por despertar a atenção de instituições distintas ideologicamente. Num primeiro momento, orbitaram em torno de grupos reformistas, em especial da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Ainda em 1995, foram seduzidos pela Liga Operária, uma organização de atuação urbana baseada em Belo Horizonte (MG).

Após o trágico episódio, fundaram o Movimento Camponês Corumbiara (MCC) e passaram a ter como foco principal o assentamento criado em Theobroma, no centro de Rondônia, onde seria colocada parte das famílias expulsas da Santa Elina. Com mais dinheiro e poder em mãos, os líderes viram a coesão se esvair, no entanto. Cícero Pereira Leite Neto acusou Adelino Ramos de se apropriar de uma serraria que deveria gerar receitas para o movimento. Acabou expulso. Adelino deixou o MCC na sequência e, em 1999, foi a vez de seu filho, Claudemir Ramos. A essa altura, os cabeças da ocupação da Santa Elina estavam rompidos com a Liga Operária, que, em 2000, anunciou a criação de seu braço rural, a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia (LCP). A Polícia Militar, como corporação, não teve interesse em interceder na discussão dos acontecimentos. Com isso, LCP e MCC passaram a rivalizar os debates. A briga inicial em torno da versão dos fatos foi semântica: a LCP passou a advogar que o que ocorreu foi uma batalha, ou um combate, e não um massacre. A nomenclatura figurava também na boca de policiais e promotores, mas não com o sentido almejado pela organização, que sempre ressaltou um suposto papel heroico, de resistência. Uma versão que criou complicações para os líderes da ocupação, que advogaram que não houve enfrentamento, mas um massacre.

As linhas gerais da acusação formal pelo Ministério Público (MP) são simples. Na visão da promotoria, é preciso separar os fatos de 9 de agosto em dois momentos. No primeiro, sem-terra e policiais se enfrentam. No segundo, policiais descontrolados, tendo o acampamento já dominado, cometem abusos, torturas e execuções. Os líderes dos posseiros, diz a denúncia, não permitiram que os acampantes fugissem do local e assumiram o risco da tragédia ao partir para o confronto.

O MP alegou que líderes do acampamento e oficiais militares deveriam responder pelos fatos, tese parcialmente rejeitada pelo Judiciário. Além desses dois grupos, a intenção do MP era levar a julgamento Valle e seu capataz, José de Paula Monteiro, uma vez que o proprietário de áreas vizinhas à Santa Elina havia comandado um grupo de pistoleiros que assassinou ao menos um posseiro. Além disso, teria contratado policiais para que atuassem na espionagem dos ocupantes e ido até Porto Velho pressionar o governador Valdir Raupp (PMDB) a promover a reintegração. Ao final, Valle safou-se e foram a julgamento dois líderes dos posseiros e 12 policiais militares.

O júri foi marcado pela pressão para absolver os agentes públicos. Apenas os policiais militares Airton Ramos de Morais e Daniel Furtado e o então capitão Vitório Régis Mena Mendes foram condenados. Entre os sem-terra, Cícero e Claudemir foram considerados culpados.

Cícero havia se afastado dos movimentos de reforma agrária e, embora contrariado, estava preparado para cumprir a pena de seis anos e dois meses, o que só ocorreria a partir de 2007. Claudemir, rompido com a LCP e inconformado com a pena de oito anos e meio de prisão, deu início a uma trajetória de fuga ainda não concluída. Sem ele, coube ao pai, Adelino, representar o MCC nos primeiros anos deste século. Tido como centralizador por amigos e autoritário por inimigos, Adelino perdeu força e passou a promover ocupações cada vez mais próximas a Porto Velho, onde o solo é pobre.

Imagem: Gerardo Lazzari 
A LCP alimenta relação contraditória com os líderes da Santa Elina. Diz-se revolucionária e se notabiliza pelo “corte” (divisão da terra em lotes para fins de assentamento) popular, feito à revelia do “Estado burguês e hipócrita”, expressão que costuma utilizar em seus manifestos. Defende o direito de a classe trabalhadora formar unidades de autodefesa e vê no fim do latifúndio o único caminho para libertar as forças produtivas. O caso de Corumbiara é entendido como “uma ruptura entre as lideranças oportunistas que defendem a reforma agrária do governo e as lideranças combativas que romperam as ilusões com o processo eleitoral e defendem a revolução agrária”.

Em 2007, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) retomou os estudos para a desapropriação da Santa Elina. Sem conseguir comprovar o baixo grau de produtividade da área, o Incra agiu baseado nos índices de desmatamento. Fechou acordo com os herdeiros da fazenda, que receberam 52,7 milhões de reais por 14 mil hectares. A LCP foi o primeiro movimento a reocupar as terras.

A resposta veio em seguida. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Corumbiara, próximo ao PT, pressionou o Incra, que adotou decisão salomônica: metade para cada lado. Os “reformistas” ficaram com a área que inclui o ponto onde ocorreu o conflito. Aos “revolucionários” coube a sede da fazenda.

Enquanto isso, o MCC foi empurrado para fora do estado. Adelino, isolado, não teve muita força para mobilizar famílias dispostas a ocupar uma área insalubre, o Projeto de Assentamento Florestal Curuquetê, em Lábrea, no sul do Amazonas, na nova fronteira do desmatamento. Em maio de 2011, foi morto em Vista Alegre, distrito de Porto Velho, perto de onde morava. Osias Vicente, ligado a madeireiros, foi apontado como autor dos tiros. Daí por diante, o roteiro clássico: libertado no final daquele ano, Osias foi morto um mês depois e os dois casos acabaram arquivados sem chegar aos mandantes.

O MCC praticamente acabou depois disso. Claudemir saboreia o amargor da solidão. Foragido, não tem como representar o movimento e se opor aos antigos amigos. Se mantidas as regras penais atuais, os crimes pelos quais foi condenado prescrevem em 2020. “Quero voltar, inclusive quero ir lá dentro do assentamento do pai e reativar a luta. De uma forma estratégica, com cautela, mas sem burocracia”, conta, esgueirando-se para não ser apanhado. A joia da coroa segue em disputa.

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* João Peres, jornalista, editor do Nota de Rodapé e sócio-diretor da Agência Página Três, é autor do livro Corumbiara, caso enterrado, lançado em julho pela Editora Elefante. Este texto foi publicado originalmente na edição de agosto da revista mensal Retrato do Brasil.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A lição de seu Valter


Protesto gigantesco na Paulista pede fim da corrupção e impeachment de Dilma, que continua apostando numa conciliação nacional difícil de vislumbrar


por João Peres e Tadeu Breda, Nota de Rodapé

Seu Valter não quer ser Fla nem Flu. E hoje, domingo, é dia de Fla-Flu – ou melhor, de Fla, porque o Flu teve a chance na sexta-feira. Seu Valter não quer abrir mão de princípios apenas para agradar a um dos lados e ganhar mais dinheiro. “A concorrência tá brava”, queixa-se, num fim de tarde em que os negócios andaram muito mal. Os demais vendedores cobram o dobro, mas entregam o produto mais desejado e seguem a máxima de que o cliente sempre tem razão: “Fora, Dilma”.

Seu Valter é um comerciante mais moderado, menos capitalismo selvagem. “Optei por um produto mais neutro.” Optou e se deu mal. Pelo menos, financeiramente: volta para casa carregado das faixinhas “Brasil, pátria amada” que oferecia a R$ 2,50 cada – as outras, antipetistas, não custavam menos de R$ 5. Não volta pra casa feliz, mas em sintonia com a consciência. “Teria de mudar todos os políticos. Não tem prova contra a Dilma.” Não deixa de ser curioso que uma mensagem tão verde-amarela encalhe num dia marcado por camisas canarinho, caras pintadas, bandeiras e hino nacionais a rodo.

Claramente, não era momento para ficar em cima do muro ou tecer algumas ponderações políticas. É um dia para mensagens explícitas, com grito bem claro e alvo definido. É também dia para algumas poucas certezas, muitas dúvidas, dezenas de questões. Uma perplexidade tão grande que desespera. O que está acontecendo? A data – 15 de março de 2015 – ainda será debatida e disputada durante um bom tempo, até que se desdobre e ganhe significados para os torcedores do Fla e do Flu. E também para o resto que não veste nenhuma camisa. Nem a verde-amarela que se imagina ser de todos os brasileiros.

Uma coisa é certa entre a multidão que compareceu à avenida Paulista: a saída imediata de Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, melhor ainda se acompanhada pela extinção do PT e tudo que possa recordá-lo na face da Terra. Também parece ser clarividente que a maioria dos presentes é favorável ao impeachment como método para defenestrar a presidenta, apesar de parcela significativa ser entusiasta da “intervenção militar”, ora desavergonhadamente reconhecida como golpe, ora defendida como direito constitucional. O resto, uma enxurrada de cartazes, gritos e chiliques, é mote para debate.

Ainda não eram 15 horas e a avenida Paulista já estava cheia. É possível que certa “ansiedade revolucionária” tenha forçado paulistanos a sacrificarem o sacrossanto almoço de domingo por uma missão para eles ainda mais nobre que a família reunida em torno à mesa: “salvar o país”. Também é possível que a cobertura ao vivo de protestos que ocorriam logo pela manhã, em outras capitais, tenha empurrado para as ruas, antes do horário combinado, parte expressiva da população da maior cidade do país. Copacabana repleta de manifestantes às 11h deve ter ajudado. Imagens de cidadãos felizes envoltos nas cores nacionais, com crianças e policiais sorridentes, idem.

Nunca se viu a avenida Paulista tão cheia. Talvez nas paradas gays. Talvez no reveillón. Talvez em junho de 2013. Mas não dá para negar que havia um oceano de gente. Entrar na discussão sobre se eram 210 mil, como garante o DataFolha, recém alçado a oráculo da verdade pelos simpatizantes do governo, ou 1 milhão, como estima a Polícia Militar, é uma picuinha sem tamanho. Para efeitos comparativos com a marcha petista da sexta-feira, 13 de março, não é necessário recorrer às contagens do instituto ou da corporação. Se a ideia de alguém era medir forças, os que pediram “Fora, Dilma” foram incomparavelmente mais numerosos do que os que cobraram a permanência dela. Não estavam apenas na Paulista, mas também nas ruas adjacentes. Quem saísse alguns minutinhos da muvuca veria muitos verde-amarelos pela alameda Santos. E sabe-se lá onde mais.

A dinâmica da manifestação teve semelhanças com os dias finais das jornadas de junho, há dois anos, quando os movimentos de esquerda se viram rodeados de pessoas que jamais haviam sido vistas protestando. Gente andando pra lá e pra cá, alguns blocos coesos, gritarias localizadas, pluralidade de cartazes, desfile de reivindicações. Uma profusão de individualidades que, se se colocasse a dialogar entre si, não chegariam a um consenso sobre tantas “urgências” políticas, com exceção da mais urgente de todas: fim da corrupção e destituição de Dilma, que para eles parecem ser ingênuos sinônimos.

“Não se pode acabar com a corrupção sem acabar com o PT. O PT é a corrupção”, definiu um jovem rapaz que discursava no trio elétrico do Movimento Brasil Livre. “Vocês acham que a Dilma sabia? Sabia, né? E se ela sabe, é mais um crime que vai configurar o impeachment.”

Havia bastante sintonia entre quem falava do alto dos caminhões e as pessoas que estavam no asfalto, especialmente nas primeiras horas, em que a energia estava a mil e pequenas divergências podiam ser ignoradas em favor de um ideal unificador: “Fora PT” foi um dos gritos mais ecoados ao longo de todo o dia. A execução do hino nacional a torto e a direito, com todas as estrofes, até o fim, funcionou como outro elemento agregador aos manifestantes. “Esta é a música que nos unifica”, disse um dos oradores da tarde.

Muitas das ideias defendidas no domingo pareciam impensáveis três ou quatro anos atrás. A visão de que o PT é uma força a serviço do comunismo global, prestes a transformar o Brasil em uma extensão do eixo Cuba-Venezuela, já não é palavra de ordem de meia dúzia: arrasta milhares. “We won't be another Venezuela”, dizia um entre centenas de cartazes alusivos ao suposto perigo representado pela conexão entre Lula, Fidel Castro e Hugo Chávez. O Foro de São Paulo, articulação de partidos de esquerda latino-americanos, voltou a ser lembrado como tentáculo da ameaça soviética nestas bandas do mundo.

A ojeriza ao vermelho do PT, por outro lado, não representa exatamente uma novidade. “É uma cor tão bonita, pena que foi sequestrada pelos petralhas”, lamentava um rapaz do alto do carro de som. O sentimento ruim pelos tons escarlates e a interpretação sobre o que ela representa parecem seguir intactos desde a Guerra Fria para parte dos manifestantes do domingo. Novo é o fato de que multidões gritem ao mesmo tempo: “A nossa bandeira jamais será vermelha”. Eram muitos e, por muitas vezes, a demonstrar qual é a cor mais quente do momento político nacional.

VPR é, para a história brasileira, sigla que designa a Vanguarda Popular Revolucionária, grupo de resistência à ditadura que teve Dilma Rousseff como integrante. Para quem esteve na Paulista, porém, VPR é Vem pra Rua, um dos movimentos que coordenaram o ato com seu trio-elétrico-ostentação estacionado na transversal sobre quase toda a largura da avenida. A enorme carreta exibia uma faixa igualmente grande: “O Brasil não é do PT. É dos brasileiros. Fora Cuba. Fora Venezuela.” Enquanto isso, um rapaz vestido de Tio Sam, com cartola e bandeira dos Estados Unidos, desfilava debaixo de inofensivos gracejos.

Outros caminhões agitaram a tarde de protesto verde-amarela. Cada movimento tinha seu próprio aparelho de som e os manifestantes circulavam entre os veículos, paravam, ouviam e interagiam quando lhes agradava. Frequentemente se cantava o hino nacional. Com menos assiduidade, mas com fervor parecido, rezou-se o pai-nosso. Também houve músicas do Legião Urbana (“Que país é esse”), O Rappa (“Vem pra rua”), Raul Seixas (“Aluga-se”) e Gabriel Pensador (“Até quando”). Um jingle gravado especialmente para o momento, “Impeachment”, de uma dupla chamada Os Reaças, embalou a rebeldia dominical ao lado de uma versão antipetista de “Caminhando”, de Geraldo Vandré: “Dilma, vai embora, que o Brasil não quer você. Aproveita e leva o Lula e os vagabundos do PT.”

Entre preces e canções, apareciam palavras de ordem. Clássicos da esquerda latino-americana, como “O povo unido jamais será vencido”, foram ressignificados. Os manifestantes riram e saltaram ao bradar “Quem não pula é comunista”. Xingamentos machistas contra Dilma não deram o tom, ainda que tenham sido ouvidos aqui e acolá. “Eu vim de graça”, em referência à ajuda de custo paga pela Central Única dos Trabalhadores a parte dos manifestantes no protesto governista de sexta-feira, teve força. Alguns complementavam o grito com “E ainda paguei metrô”, em referência aos ônibus fretados pelos sindicalistas. “Lula, cachaceiro, devolve meu dinheiro” foi bastante entoado, inclusive por animados jovens que secavam no bico uma garrafa de catuaba, respingando as camisetas brancas com a inscrição “A culpa não é minha, votei no Aécio”.

A turma saudosa da ditadura se identificou rapidamente com os caminhões parados em frente ao parque Trianon. Eram dois e ostentavam faixas como “Intervenção militar já. O Brasil exige ordem e progresso” ou “Impeachment é coisa de otário, patriota mesmo exige intervenção militar”. Como nos anos 1960, bradaram contra os comunas. Um rapaz lembrou que na Coreia do Norte existe canibalismo. Outro xingou um tal “Che Pega na Vara”, em referência ao revolucionário argentino, a quem criticou por ser homofóbico.

Entediados com a falação, os partidários do golpe logo concordaram em deixar a companhia dos frouxos que pediam reforma política na Paulista e que, por vezes, vaiavam a estética milica, para caminhar até o quartel mais próximo, onde pediriam à caserna que resolvesse a questão. “Viva o Brasil. Militares, nós amamos vocês. Militares, nós precisamos de vocês. A nação está em perigo. Os militares são nossos anjos da guarda.”

Uma senhora, provavelmente com mais de 60 anos, brindava sorrisos angelicais para câmeras que a filmavam exibindo uma cartolina com os dizeres “SOS Militares”. Depois, dizia: “Quero que a Dilma vá para o inferno”. A frase, provavelmente, não coube no cartaz e precisou ser trazida verbalmente ao protesto. Minutos depois, ela subiria ao caminhão para confessar as saudades da ditadura. “O Brasil virou uma bagunça. Todo mundo só canta e dança funk. Brasília tem uma corja de vermelhinhos. Estou cansada disso. As crianças estão perdendo a referência de tudo, de pátria, de família, de Deus.”

Cuidado com as palavras, argumentos embasados e discursos elaborados, por sinal, não foram o forte da manifestação de domingo. Do chão da rua e especialmente do alto dos caminhões jorravam conclusões estapafúrdias e informações de fácil contestação. Uma avalanche de besteiras e mentiras que não são exclusividade dos antipetistas, mas que por eles foram carinhosamente cultivadas nas redes sociais até desabrocharem na avenida como flores rasteiras verde e amarelas.

Marcello Reis, fundador do grupo Revoltados Online, trajou terno para comandar os liderados. A elegância, disse, era porque minutos antes estava conversando com os Estados Unidos. “Acabei de receber a informação de que Washington vai provar que as urnas foram fraudadas”, bradou, para delírio geral, sem dar maiores detalhes sobre com que Estados Unidos falara e qual Washington provaria a fraude eleitoral. Logo depois, chorou de emoção, ladeado por faixas louvando o heroismo da Polícia Federal e do juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal de Curitiba, responsável pelas investigações na Petrobras.

Tirando todas as faixas contra Lula, Dilma e o PT, o ministro José Antonio Dias Toffoli foi o homem mais citado da tarde – o que não significa que tenha sido um campeão de audiência, longe disso. Alguns manifestantes estavam indignados pelo fato de um ex-advogado-geral da União e ex-advogado de José Dirceu ser agora o relator do inquérito relativo à Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal. Se o protesto ocorresse quatro anos atrás, provavelmente haveria uma grita contra Joaquim Barbosa, relator do mensalão, hoje convertido em herói nacional e paladino da justiça.

Depois de Toffoli, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi lembrado em alguns cartazes e discursos. Uma cartolina dizia “Je Suis Janot”, em curiosa referência aos atentados terroristas que vitimaram cartunistas do jornal Charlie Hebdo na França. Parte dos manifestantes apoiam o chefe do Ministério Publico por ter oferecido denúncia contra vários políticos acusados de corrupção. Outros o odeiam por não ter incluído o nome de Dilma Rousseff na lista de suspeitos encaminhada ao Supremo. “A presidenta foi citada onze vezes nas delações”, indignaram-se. Menções aos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, réus em potencial da Lava Jato, foram ínfimas.

Se algum policial militar um dia sonhou em ser herói, esse sonho pôde ser realizado no domingo. Membros da tropa de choque nunca tiveram de concordar com tantos abraços e apertos de mão, nunca receberam tantos sorrisos e tapinhas nas costas durante um protesto. Nunca foram tão requisitados para fotos. A satisfação dos homens fardados era flagrante. Alguns se esforçavam para sustentar a cara fechada do ofício, mas, por mais que tentassem manter-se carrancudos, uma risadinha escapava pelo canto da boca. Carregaram crianças no colo. Posaram para selfies. Uma mulher fez questão de demonstrar excitação após sentir o toque da mão de um soldado sobre seu ombro nu. E ruidosos aplausos recebiam pequenas patrulhas que caminhavam pela multidão.

Frente a uma manifestação inédita, o governo ofereceu, mais uma vez, respostas convencionais. Os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, foram os escolhidos para dar as caras após o protesto, ainda no começo da noite de domingo. Garantiram que o Palácio do Planalto tinha plena consciência de quais vontades foram expressadas nas ruas e por quem. Voltaram a dizer que a contestação e as crises foram superadas várias vezes ao longo de doze anos. E prometeram, novamente, que Dilma apresentará nos próximos dias um extenso pacote anticorrupção, a exemplo do que foi dito na esteira das manifestações de junho de 2013 e durante todo o desenrolar do processo eleitoral.

Enquanto os ministros falavam na televisão, panelas voltavam a bater pelo país. E Aécio se deixava ser fotografado na sacada de seu apartamento, em Ipanema, no Rio de Janeiro, com uma camisa verde-amarelo. Mais tarde postou um vídeo no Facebook basicamente repisando as louvações utilizadas durante a campanha, interpretando que os brasileiros agora se reencontram com valores e virtudes. “Depois de refletir muito, eu optei por não estar nas ruas neste domingo, para deixar muito claro quem é o grande protagonista destas manifestações. E ele é o povo brasileiro, o povo cansado de tantos desmandos, cansado de tanta corrupção.”

Marina Silva, que antes dos protestos havia cobrado respeito à vitória eleitoral de Dilma Rousseff e adotado tom mais cauteloso, comparou o protesto ao espírito presente nas jornadas de junho, classificando-o como “livre e autoral”, mas desta vez com um objetivo claro de se colocar contra o governo e a corrupção. “O povo brasileiro exige uma posição da presidente da República em resposta aos seus justos e legítimos reclames. Esta, sim, é a hora de falar e dizer a verdade. Reconhecer os erros, assumir a responsabilidade por seus atos, propor soluções para os problemas, nada mais e nada menos que isso. Uma fala da presidente, não do marketing.”

Mas, quando veio, na tarde do dia seguinte, a fala da presidenta fez oferecer certezas de que a visão transmitida na véspera por seus ministros não era um caso à parte. Dilma repisou a necessidade de respeitar as urnas, a importância da democracia, a necessidade do combate à corrupção e da reforma política, a disposição de seu governo para o diálogo com quem queira dialogar. Não apresentou nenhuma diferença no tom usado nas últimas semanas, nos últimos meses, nos últimos anos, inclusive na acusação de que há na classe política partidários do “quanto pior, melhor”.

Reiterou o otimismo com uma suposta solidez democrática do país e um também suposto apego da população à construção do Estado democrático. Disse que governa para todos os brasileiros, independente de preferência partidária ou participação em manifestações contra o governo. E buscou a todo instante dizer que saberá reconhecer seus erros, sempre que indicados. “Ouvir é a palavra. Dialogar é a ação. O sentimento tem de ser de humildade e firmeza.” Desta vez, seu discurso não foi recebido com panelaços.

Depois de escutar a voz das ruas e dos palácios, é possível perceber que Dilma e seu Valter, o vendedor de fitinhas, têm pelo menos um ponto em comum: não querem ser Fla, nem Flu. Mas com uma diferença crucial. Enquanto a presidenta esconde as bandeiras vermelhas de quem a elegeu no ano passado e acena para seus detratores com as faixinhas verde-amarelas da conciliação nacional, o comerciante tem plena consciência de que a neutralidade não é boa em se tratando de ganhar a vida com política.

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João Peres, jornalista e editor do Nota de Rodapé. Tadeu Breda, jornalista, especial para o NR. Imagem: Paulo Pinto | Fotos Públicas
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