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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Afinal, quem são os Black Blocs?


por Vinícius Souza*

Para a Folha de São Paulo, os mais de dois mil manifestantes – na maior parte, jornalistas e ativistas pela democratização dos meios de comunicação – que estiveram no protesto na sede da Rede Globo em SP, no último dia 11 de julho, não somavam quinhentas pessoas. Ainda segundo o jornal, tal número seria adepto da ideia sem sentido de trazer o caos pela destruição do patrimônio público e privado, não propondo nada em troca. Para esclarecer a mídia e evitar erros como esse, convém dar algumas informações sobre os ditos “vândalos”.

Diferentemente de querer mudar o sistema pelo dano à propriedade (sempre privada e de preferência simbólica do grande capital), a tática Black Bloc pretende, entre outras coisas, dar visibilidade a lutas anti-capitalistas e anti-proibicionistas. Eles entendem que, independentemente da quantidade de gente, não adianta se manifestar pacificamente com cartazes seja qual for a causa.

No dia 8 de junho, mais de 12 mil pessoas fecharam a Avenida Paulista às 14h, percorreram a Augusta e a Consolação ocupando a Praça da República por cerca de quatro horas, com música, dança e discursos em prol da legalização da maconha. Como de praxe, nenhuma menção na TV e somente uma pequena nota interna nos jornais.

Na véspera, mais de cinco mil manifestantes pelo Passe Livre haviam sido reprimidos com gás lacrimogêneo na Marginal Pinheiros e perto de 500 conseguiram chegar ao vão do Masp, após negociarem com a PM. Essa dispersão pacífica na Paulista, sem incidentes, teve pouca repercussão.

Porém, nos três dias consecutivos de passeatas, apenas a destruição de vidros de estações do Metrô e fachadas de lojas, no dia 6, conquistaram manchetes. E quanto mais a polícia batia, mais gente se juntava no protesto seguinte, até o massacre de ativistas e jornalistas na noite de 13 de junho, que levou a mídia a mudar de posição, promover as manifestações “cívicas” e levantar bandeiras contra a corrupção, a PEC 37, a vinda de médicos estrangeiros, o Governo Federal etc.

De repente, os mascarados atacando a sede da Prefeitura, os vitrais do Theatro Municipal, saqueando lojas e ateando fogo em prédios ocupados por Movimentos de Sem Teto, não se vestem mais exclusivamente de preto e vermelho e nem trazem estandartes negros. Os skates e cabelos moicanos, tão comuns entre os Black Blocs, também desaparecem, dando lugar a cabeças raspadas, músculos definidos e, por vezes, roupas e relógios caros. Ainda há o grafiti (ou picho), mas não mais só de mensagens anarquistas e reivindicações pela tarifa zero. No lugar, palavrões e xingamentos contra o governo.

Só por má vontade ou desconhecimento da história recente das lutas mundiais é possível dizer que todos (e mais os ativistas contra os monopólios midiáticos) fazem parte do mesmo grupo.

Para quem não sabe, os Black Blocs apareceram pela primeira vez nos protestos anti-capitalistas do final do século passado nos encontros dos países ricos em Seattle, nos Estados Unidos, e Gênova, na Itália, com os principais embates contra a polícia, onde houve inclusive mortes entre os manifestantes. Eles reapareceram com força nos EUA, no Occupy Wall Street e, no Brasil, nas marchas anti-proibicionistas de 2010 e 2011.

A ação de pichação e, às vezes, destruição de filiais de grandes redes transnacionais, como McDonalds e Starbucks, além de agências bancárias, visa o ataque a símbolos de um sistema financeiro internacional que oprime populações em todo o mundo. De inspiração anarcopunk, amam as liberdades individuais, o faça-você-mesmo e as músicas pesadas. Compreendem a necessidade atual de um Estado que garanta os direitos e distribua as riquezas entre os mais pobres. O socialismo antes do anarquismo. Mas não são “patrióticos”, abominando associações a símbolos nacionais, como bandeira e o hino. Conectam-se por redes, coletivos e pequenos grupos, sem lideranças. Curiosamente, nenhum dos detidos por depredação de patrimônio se declarou Black Bloc.

*Texto e foto Vinícius Souza, jornalista do MediaQuatro, especial para o NR.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Eles querem se apropriar

por Thiago Domenici*

1 – A reivindicação principal é pela redução da tarifa do transporte em SP, é baixar de 3,20 para três reais, pra começar. Só pra começar. A tarifa zero não é utopia. Há que ser discutida.

2 – Antes de quinta, quando a PM aterrorizou, o movimento era de jovens "baderneiros", pedindo algo "impossível". A ideia era desacreditá-los. O discurso da mídia virou depois da ação truculenta da PM, vide um exemplo: Arnaldo Jabor se desculpando por falar asneira.

3 – A imprensa, nome aos bois mais vistosos: Globo, Veja e editoriais de Estadão e Folha agiram em prol da manipulação da pauta dos protestos desde o início.

4 – Daí teve ontem, um mar de gente e...

5 – Essa mesma imprensa pensou: “e agora?”. E o que fez? Seguiu deturpando a pauta principal das manifestações. Agora, dá um jeito de dizer que não é só pela “redução das passagens”. Que a coisa é geral, contra tudo que de ruim existe no país e blábláblá.

6 – Isso se explica, de certa forma, pelo seguinte: ontem teve tanta gente na rua, “sem partido”, “contra corrupção”, “acordando” e cantando o hino e outras firulas (lembram do “Cansei”?) que nisso viram [não só a imprensa, tá?] uma boa oportunidade de seguir jogando sujo. E seguem.

7 – Então assim: não se enganem. O Brasil dos movimentos sociais fortes não está acordando. Está desperto há tempos. Lutam, como grande parte da imprensa independente, por suas bandeiras verdadeiras e justas. A imprensa, a de massa, vai seguir tentando desqualificar e desmobilizar as ações por meio da informação torta, aquela que mais confunde do que esclarece. A independente, menor em alcance e recursos, mas tão capaz e forte, vai seguir limpando essa sujeirada toda com informação de interesse público.

PS: assistam o Roda Viva de ontem, com os representantes do Movimento Passe Livre, no qual o NR esteve presente na bancada de tuiteiros. Vídeos em quatro partes aqui.

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Os erros (ignorados) das pesquisas eleitorais

Distantes cerca de 60 km de São Paulo, as interioranas Atibaia e Bragança Paulista foram exemplos de disparidades nos índices mostrados pelas pesquisas eleitorais e os resultados das urnas na últimas eleições municipais. Contudo, diferentemente das grandes cidades, as luzes da mídia corporativa não destacaram as situações que chegaram a apontar percentuais de até 20% de diferença entre estudos publicados e o voto de fato.

Na disputa atibaiense, impressos e sites locais sempre colocaram na frente dois candidatos que não foram os vencedores nas urnas, Professor Wanderley (DEM) e Luiz Fernando Pugliesi (PV). O primeiro chegou a aparecer como líder absoluto nos estudos, com até 42% das intenções. No voto real, ficou com aproximadamente 29%. O segundo, dois dias antes da eleição, foi destacado na manchete do jornal O Atibaiense, em pesquisa de instituto identificado por FLS, como provável vencedor.

No entanto, quem acabou eleito foi Saulo Pedroso de Souza (PSD) jamais citado nos jornais com chances reais de vitória. Ao contrário, ele chegou a ser mostrado, 48 horas antes do pleito, na casa dos 16%, metade do número do líder da pesquisa publicada. Ao fim da apuração, o eleitorado deu a Saulo 31%, quase o dobro das intenções de voto que a medição lhe atribuía.

Em Bragança, as discrepâncias entre pesquisas e votação foram também gritantes. Até o nacionalmente conhecido Ibope errou grosseiramente. Poucos dias antes da eleição, colocou, nas páginas do Bragança Jornal Diário, Renato Frangini (DEM) 14 pontos percentuais (37% a 23%) a frente do prefeito eleito, Fernão Dias (PT). Difícil justificar tal diferença, já que outro estudo, encomendado por um empresário local e feito pelo mesmo instituto praticamente nos mesmos dias, mostrava só 4% de distância entre o democrata e o petista. Além disso, diversas medições internas indicaram, por duas semanas seguidas, muito equilíbrio.
Aos interiores, ainda que relativamente próximos das capitais, os holofotes midiáticos não chegam com a mesma força. Na realidade, na maioria dos casos, eles nem são apontados, já que a audiência e o consequente ganho financeiro são considerados irrelevantes pelas empresas de comunicação.
Perto do limite da ida dos eleitores às urnas, outro jornal de Bragança, A Gazeta Bragantina, circulou pesquisa do Instituto IPEMPI. A tal medição alargava ainda mais a distância entre o candidato do DEM e o do PT, conferindo 39,5% ao primeiro e 18,4% ao segundo. Encerrada a apuração, na noite de domingo, 8 de outubro, ambos tiveram pouco mais de 38% e o petista venceu por apertadíssimos 21 votos (0,3% de vantagem, 38,08% contra 38,05%).

Não são raros os exemplos em que pesquisas deixam de refletir a vontade popular do momento. Contudo, nos grandes municípios, como Curitiba e São Paulo, onde os institutos também erraram feio, especialmente nos primeiros turnos, existe forte repercussão crítica por parte de alguns setores da sociedade, o que obriga mídia e institutos a aprofundarem explicações sobre as falhas.

Aos interiores, ainda que relativamente próximos das capitais, os holofotes midiáticos não chegam com a mesma força. Na realidade, na maioria dos casos, eles nem são apontados, já que a audiência e o consequente ganho financeiro são considerados irrelevantes pelas empresas de comunicação. Dessa forma, mesmo que ocorrências – como as de Atibaia e Bragança Paulista – sejam emblemáticas dos equívocos de enormes proporções que institutos de pesquisa e os divulgadores das medições possam cometer, o interesse público é pouco ou nada discutido e se esquece, até a eleição seguinte, o tamanho do estrago que podem causar à democracia.

Por que os institutos erram tão gravemente em condições como essas? A questão principal não é discutir estudos isolados, mas tomá-los por base para debater métodos. Trabalhos de pesquisa são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade, contudo não se pode permitir que distorçam e influenciem negativamente a realidade social.

Até para que o debate não fique restrito aos períodos de campanha, o Nota de Rodapé se coloca nessa polêmica roda de discussões. Depois desta pensata, traremos, quarta-feira, 14, entrevista que analisa o complexo universo de institutos e mídia, com a opinião de um dos mais respeitados do ramo da pesquisa no Brasil, Pergentino Mendes de Almeida.

Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar 

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Aos blogueiros, o novo que a velha (mídia) não gostou

Se dúvida houvesse quanto ao fato de se afirmar que existe uma velha e uma nova mídia no Brasil, sendo esta pautada pela procura da responsabilidade na informação e aquela cada vez mais afundada em compromissos corporativistas, distante, pois, dessa responsabilidade, a entrevista concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a blogueiros teve – entre outros méritos – o de provar a verdade desse contraste.
Lula e os blogueiros na entrevista em novembro de 2010
Destituída de maiores formalidades, bem organizada, democrática quanto a participação de cada um dos entrevistadores, solta, sem jogos de vaidade por parte dos jornalistas presentes, a entrevista mostrou um presidente bem humorado, falando abertamente aquilo que era possível falar, conforme suas próprias palavras, e sem fugir a alguns questionamentos mais delicados, mas feitos num ambiente de respeito por alguém que, injustamente, sofreu um verdadeiro linchamento da velha mídia por oito anos seguidos.
Ao contrário de analistas e jornalistas da velha mídia (que vai se mostrando cada vez mais velha, diga-se), os blogueiros presentes, onze representantes - e são muitos mais em toda blogosfera brasileira - de um estilo de jornalismo abandonado por seus pares de jornalões, revistões e televisões, tiveram a sensibilidade de entender aquele momento que viviam e construíam.

Diplomacia e bom humor

Momento histórico, já disseram muitos, porque em duas horas de transmissão, cada pergunta e cada resposta percorriam o simples caminho do diálogo entre pessoas que sabem ouvir, mesmo quanto a resposta do entrevistado era passível de uma réplica ou de contestação.
Toda a entrevista falou de um Brasil novo, que quer mudar, apesar dos enormes entraves ainda existentes. Com diplomacia e bom humor, o presidente Lula botava o dedo na ferida de várias mazelas ainda a serem enfrentadas não só pelo poder executivo, mas principalmente nos gargalos conservadores do legislativo e do judiciário. Sempre com o cuidado de dizer que determinadas mudanças só acontecerão quando a sociedade se conscientizar de que esta ou aquela mudança será necessária, como a Reforma Política, por exemplo. Disse mesmo que começaria a lutar por ela já no dia 02 de janeiro próximo dentro do seu próprio partido.
Uma entrevista que, mesmo discutindo problemas do presente e de nosso passado recente, projetava uma nação para o futuro, numa dialética que só é possível quando se faz entre pessoas cujo interesse é buscar soluções para um determinado número de problemas, de soluções para o país. E não só acuar, difamar, procurar os problemas sem indicar soluções que sejam compatíveis com a realidade que se vive no Brasil e no mundo.
Porque é assim que trabalha a velha mídia: desconstrói e achincalha, sem direito a defesa, sem o contraditório, desde que o governo ou a autoridade achincalhada e difamada em âmbito municipal, estadual e federal não dance conforme a música de seus interesses corporativos, conservadores e antinacionais.
Não é difícil mostrar a diferença de prática jornalística a partir da entrevista do presidente aos blogueiros. Vou usar aqui um exemplo que aprendi com o dramaturgo e professor de dramaturgia, meu velho amigo Chico de Assis, um dos formadores do histórico CPC da UNE nos anos 60. Em suas aulas, para tornar claro algum exemplo do tema que abordava, costumava usar uma técnica que era a de “raciocinar pelo absurdo”, isto é, você exagera uma determinada situação até o imponderável ou absurdo e, pela oposição a ela, você é capaz de compreender melhor o tema (no caso uma ação dramática) estudado.

A diferença

Vamos usar a técnica aqui e, raciocinando pelo absurdo, imaginemos que naquela mesma situação e naquele mesmo cenário o presidente Lula contasse com a presença de jornalistas como Myriam Leitão, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliana Catanhêde, Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor, Clóvis Rossi, Merval Pereira, Lucia Hippolito e outros menos votados...
Começaram a perceber a diferença? Para além da empáfia e do preconceito disfarçado por teorias acadêmicas mal assimiladas, aquele ar de quem sabe tudo sobre todas as coisas, do torresmo aos Diálogos de Platão, do álbum de figurinhas às teorias de Stephen Hawking. A vaidade e o autoelogio se digladiando contra a ignorância do presidente semianalfabeto, a Casa Grande contra a senzala, o passado contra o presente (e o futuro), tal grupo de jornalistas aproveitaria a oportunidade para expor a verdade incontestável de seus argumentos, irretorquíveis, próximos à infalibilidade papal.

- Íntegra da entrevista de Lula aos blogueiros

O ranço e o verniz de uma autointitulada elite, digamos intelectual, em confronto com a linguagem mais popular do presidente, mais acessível ao cidadão comum, tão bem entendida por este, que foi capaz de lhe dar mais de 80% de popularidade em final de mandato e fazer de Dilma Roussef a nova presidente do Brasil.
O exemplo é até mais do que absurdo, mas escancara para quem acompanha o que se passa no país nesse momento a inequívoca diferença entre um jornalismo envolto em teias de aranha e naftalina e o nascimento de uma alternativa mais democrática, que respeita a inteligência do cidadão brasileiro, tendo na internet um novo e vigoroso meio de informação com responsabilidade. De tal maneira isso é verdade, que a velha mídia tentou ridicularizar o acontecimento, numa demonstração infantil de que não tem argumentos convincentes para se opor ao novo.
Nesse aspecto, as perspectivas para 2011 são promissoras. A herança bendita que o presidente Lula deixa à sua sucessora traz para ela, entre outras, a responsabilidade de efetivar, na prática, a democratização da informação no Brasil. Por aí se amplia o espaço de discussão de temas relevantes no aprofundamento e na garantia de conquistas e avanços que vão ajudar na superação de mazelas há quase cinco séculos introjetadas pela sociedade brasileira. A primeira delas é a de que um povo que estuda, tem emprego e comida na mesa, capaz de pensar melhor e combater a elite do atraso.

Izaías Almada é escritor e dramaturgo, colunista do Nota de Rodapé e do Escrevinhador.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A cada um a sua democracia

Não é curioso, amigo leitor, que ao terminar a primeira década do século XXI, a velha imprensa brasileira (aqui no sentido de antiga mesmo e carcomida) insista em não querer aceitar a vitória da presidente Dilma Roussef? Ou melhor: insista em “investigar” o passado da candidata eleita, substituindo a polícia da ditadura civil/militar que infelicitou o país nos anos 60?
Porque não é outra a atitude do jornal Folha de São Paulo ao se regozijar com a abertura dos arquivos de posse do Superior Tribunal Militar, pomposamente recebida como uma “vitória da sociedade brasileira”, para bisbilhotar sobre o passado de uma ex-presa política.
Vitória da sociedade brasileira? A quem quer enganar mais uma vez a FSP? O que quer o jornal do Sr. Otávio Frias Filho? Dependurar a presidente Dilma Roussef no pau de arara novamente em nome da sua democracia? Já não basta o sofrimento do passado? Quer o jornal, na sua arrogância e ignomínia, mostrar aos milhões de brasileiros que votaram no futuro e repudiaram o passado, que a candidata que escolheram não era a melhor opção para o Brasil pós-Lula?
Querem limpar a barra com a ficha falsa que publicaram e nunca desmentiram? Bobagem, não deveriam perder tempo com isso. À exceção daqueles que ainda não perceberam que tipo de democracia a Folha defende, o jornal perde a cada dia que passa a credibilidade daqueles que ainda a lêem. Seria bom que os seus anunciantes começassem a pensar seriamente nisto.
O Brasil da Folha de São Paulo (e de outros órgãos de imprensa muito bem identificados) insistem na tática da desinformação, da meia verdade ou da meia mentira, o que vem dar no mesmo, usando aquilo a que chamam de liberdade de imprensa, da sua liberdade de imprensa, bem entendido, como uma espécie de chantagem moral (aqui sim) sobre toda a sociedade brasileira. Uma chantagem que ainda conta com o beneplácito de muitos de seus incautos leitores ou do apoio daqueles que insistem em querer dividir o país através do preconceito, do ódio, da intolerância.
Não foi por acaso que o jornal defendeu até onde pôde a candidatura de José Serra, político supostamente de passado esquerdista e a quem coube destampar o caldeirão do fascismo adormecido em mentes e corações que não suportam ainda a possibilidade de milhões de brasileiros ascenderem socialmente, ainda que essa ascensão seja modesta, não só àquilo que merece qualquer ser humano, mas em relação ao padrão de vida que levam tais intolerantes e antidemocratas.
A Folha insiste em caminhar na contramão da História. Na mesma semana em que as Forças Armadas bolivianas se declaram socialistas, nacionalistas e antiimperialistas, num país que carregou durante anos e anos o anátema de ter o maior índice de golpes de estado na América Latina, o jornal paulista alegra-se em conseguir abrir parcialmente alguns arquivos da ditadura e com isso, julga, poder mostrar o “passado negro” da nova presidente da República.
Triste jornalismo esse, feito de frustração, raiva, incompetência, tentativa de manipulação, desrespeito aos próprios leitores e – sobretudo – desprezo aos valores democráticos que, cinicamente, transfere aos seus adversários.
Não sei, e penso que poucos saberão, o que fará o jornal com aquilo que encontrar nos tais arquivos. Se ainda restar um pouco de dignidade ao seu conselho editorial, honrando a memória de alguns grandes e sérios jornalistas que por lá passaram, como Cláudio Abramo, por exemplo, deixarão de lado prováveis ressentimentos pessoais com o presidente Lula e com a presidente eleita e talvez reconheçam que um processo montado com “verdades’ e confissões sob tortura não é necessariamente uma peça íntegra e confiável de testemunho histórico. Afirmo-o com a convicção de quem passou pela mesma situação e, após dois anos de prisão, foi absolvido pela Justiça Militar.
Caso contrário, o jornal mostrará em definitivo qual é a democracia que defende e de qual liberdade de imprensa se utiliza, humilhando mais uma vez toda uma geração que lutou por liberdade, respeito e igualdade entre seus semelhantes. Com isso, mostrará também às novas gerações que o uso de seus veículos para conduzir presos naqueles anos de chumbo foi mais do que uma ajuda interesseira e circunstancial, concedendo-lhes nós o benefício da dúvida.
Será essa “a grande vitória da sociedade brasileira”? Ou será aquela configurada nas urnas no último 31 de outubro?

Izaías Almada é escritor e dramaturgo, colunista do Nota de Rodapé e do site Escrivinhador.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O efeito Veja e a fabricação de novas realidades no jornalismo

A semana que passou entrará para a história – se é que haverá algum registro histórico sobre isso – como uma das piores de todos os tempos para o jornalismo brasileiro. Ela não trouxe novas práticas, mas sim a intensificação à enésima potência de práticas que vinham se acumulando no seio desse ofício.
As violações éticas cometidas ao longo dos últimos tempos vão do tradicional “esconda no rodapé a informação que não nos interessa” à mais desbragada das mentiras. O caso mais evidente, lógico, é o do Irã. Na tentativa de atingir a qualquer custo o governo Lula, inverte-se o sinal de uma negociação bem sucedida, conta-se todo tipo de barbaridade sobre o país asiático e trata-se de esperar a tolerância de um leitor-pouco-crítico.
Fico imaginando, apenas a título de hipótese, sem qualquer pretensão de estar a fazer ciência, se essa semana que passou não é um dos efeitos “Veja” que estamos assistindo em nosso jornalismo.
Parece fácil imaginar que a ética se forma a partir de dois vetores, quais sejam a ética de uma determinada localidade durante certo período de tempo e a ética própria, um conjunto de valores acumulados por cada indivíduo ao longo de sua convivência. Evidentemente, um altera o outro, ou seja, um padrão de ética depende do outro e, ao fim, forma-se apenas um.

Jornais brancaleônicos
Falemos da ética jornalística deste momento em que vivemos, sem a necessidade de remeter aos casos das eleições de 1989, com a grotesca manipulação por parte da Rede Globo. Os jornalões brasileiros e as redes de TV estão rodeados, entre outros, pela revista Veja. Oras, se a Veja há anos descolou-se completamente da realidade para fabricar a sua própria, com as regras e os fatos que deseja que ocorram, qual o efeito disso para quem a rodeia?
Não é de surpreender que os jornalões estejam a perder o contato com a realidade também, a se transformarem em jornais brancaleônicos. Se a Veja pode mentir e não sofre muitos arranhões por isso, e talvez até lucre mais, por que os demais ficariam de fora? Não nos esqueçamos que, no Brasil, os jornais são empresas com fins lucrativos e com interesses bastante claros, embora bastante diversos. É natural que se vá testando uma mentirinha após a outra, para ver qual o limite e, ao se detectar que tal limite não existe, perca-se completamente o contato com a realidade, passe-se a inventar o que bem se entenda.
E o efeito Veja no chão-de-fábrica das redações, como funciona? Quem já trabalhou em uma destas “escolas” sabe que, ao menos nos últimos anos, premiado é aquele que aceita contar uma mentirinha, dar uma invertida nos sinais, “pesar a mão”, como se diz no jargão. “Pesar a mão” é o sinal de uma distorção que pode ser pequena ou grande, mas é uma distorção e, por isso, é grave independentemente do tamanho.
Imagine-se dentro de uma redação dessas. Você vê que o colega ao lado, que aceita pesar a mão, ganha afagos, aumentos e promoções de seus patrões, a quem igualmente trata como colega. Manda o sistema da competitividade no qual vivemos que, se um faz e se dá bem, outros o sigam automaticamente. Não interessa, neste caso, a violação ética, até porque a ética, a essa altura e nesse ambiente, já corresponde a um outro conjunto de valores no qual a verdade não é exatamente parâmetro. Pode até passar a ser divertido para um repórter inventar pequenos fatos; médios, grandes. Não demanda grande rigor com a apuração e é, portanto, mais fácil.
Evidentemente, aquele que não se deixou levar por esse conjunto de normas éticas forjadas dentro dessas redações não se colocará à disposição de tais práticas. Mas sempre haverá quem o faça. E, portanto, como há mão-de-obra e como não há punição, os jornalões podem manter seus caminhos nesta Cruzada Medieval. Mas esse exército de Brancaleone não deve se assustar se, pelo caminho, encontrar a fome e a peste. Tomara.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé 

quarta-feira, 26 de maio de 2010

As mudanças na Folha de S.Paulo

Como não poderia deixar de ser, por mais de 1 hora na aula desta segunda-feira, 24 de maio, puxei o assunto com os meus alunos de 7º semestre de uma faculdade privada de São Paulo. Muitos pontos foram discutidos e tentarei mesclar um pouco do que foi falado em sala com o que escreve Alex Primo (que tratou sobre o mesmo assunto em seu Dossiê) com o qual concordo em linhas gerais.
“Assim que peguei o jornal em minhas mãos vi o mesmo anúncio com Fernanda Torres que anunciava: 'Enquanto se discutia o futuro do jornal, a Folha fez o jornal do futuro'. Jornal do Futuro? Quando vi esse mesmo anúncio há uma semana, fiquei tentando antever o que as renovadas páginas do jornal nos trariam. Fiquei torcendo por mais opinião e o fim de manchetes que repetiam o que todo mundo já sabia desde ontem. Além disso, imaginei que o projeto gráfico ficaria tão moderno ao ponto de lembrar páginas de portais da Web (seria mais uma concretização do conceito de remediação!)”, analisa o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Na tentativa de salvar o jornal impresso, as empresas de mídia estão apostando em muitas fórmulas, e a Folha não fugiu à tendência. Sem dúvida, numa estridente divulgação, o jornal chamou a atenção dos leitores (muito mais do que a recente e acanhada mudança no Estadão) e gerou uma mudança radical na roupagem - aliás, dá vontade de clicar em alguma frase colorida da primeira página do impresso, que mais parece a capa de um site de notícias. Em relação ao conteúdo, fica a mesma dúvida apresentada ao Frias no documentário divulgado pelo grupo: como pode ser mais analítico e mais conciso ao mesmo tempo?
Diz Primo em outra parte: “Enquanto o elevador me levava até meu apartamento, fui abrindo os primeiros cadernos do jornalão… eu não podia esperar para ver o jornal do futuro. A Folha prometia revolucionar o jornalismo impresso e eu, um assinante de anos, queria ser testemunha desse momento histórico. Pois eis que à medida que eu ia folhando as páginas dos cadernos, meu entusiasmo foi perdendo força. Sim, encontrei um novo projeto gráfico, que oferecia mais cor e melhor legibilidade. Mas onde se escondia a revolução prometida?”.

Página de frases da Veja?
É fato que a Folha impressa buscou uma aproximação grande com algumas das principais características da Internet, e a aposta tanto pode dar certo quanto pode ter sido um tiro no pé. O Ilustríssima trouxe uma página chamada “Minha História”. A “Folha Corrida”, que já existia no Cotidiano, mais parece a página de frases da Veja. Bem, eu não duvido que a grande maioria dos impressos diários se transforme em semanários em alguns anos.
Ainda sobre o Ilustríssima, eis duas páginas que vale a pena citar. A da esquerda, que fala sobre eventos culturais, foi inteira produzida lembrando uma infografia, que remete a linhas de metrô. Nem melhor nem pior, apenas diferente, como diz o slogan de uma escola de samba carioca. A maioria dos alunos gostou. Acho que combina mais com a Internet – e fico querendo passar o mouse nestas bolinhas para ver se abre uma caixa de texto. E o texto da direita, “O cachorro”? Com aparência de blog, parece que foi inteiro selecionado com o mouse, para depois receber um ctrl+c e ctrl+v.
As mudanças no caderno Esportes foram boas. Nenhuma novidade, já que outros impressos partiram antes para o mesmo caminho. Fotos com mais qualidade de impressão (aparentemente) – novamente uma alusão a uma revista – e em maior quantidade. Ficou colorido e mais leve.
No geral, “é bem verdade que a diagramação ganhou mais movimento. Ficou menos dura e quadrada. Os encorpados títulos e intertítulos poderão captar a atenção do leitor mais ligeiro (…)”, diz Alex Primo. E a conclusão do gaúcho também será aproveitada: “A Folha ontem apresentou apenas mais uma reforma (…) Agora, se ela acha que isso é o jornal do futuro, realmente os jornais impressos não tem salvação”.

Paulo Rodrigo Ranieri
é mestre em jornalismo, professor e pesquisador da comunicação no contexto digital, membro do grupo Atopos - ligado a USP - e colunista do Nota de Rodapé; mantém também o espaço Do Analógico ao Digital.

domingo, 11 de abril de 2010

Quando o jornalismo cai na rede da assessoria de imprensa

Um dos trabalhos de uma assessoria é o de “plantar” uma notícia. Um dos trabalhos do jornalismo é o de investigar essa “planta”. Não foi o que aconteceu com a coletiva de imprensa que o Corinthians deu na última quinta (08/04), um dia depois de ser eliminado do campeonato Paulista. No ano de seu centenário, e com os investimentos que fez para a temporada, esse torneio era uma das metas – pela exposição, receita e, claro, o título.
E qual seria o tema dessa coletiva pós-eliminação? Palpito que a própria eliminação, não?
Mas eis que pra essa coletiva o clube designa Ronaldo, sua maior estrela. E eis que Ronaldo, com uma sinceridade incrível, diz isso aqui, deixando claro que estava tentando desviar o foco pela derrota ao falar de convocação para seleção e Libertadores.



E não é que funcionou? Dois dos maiores jornais do país “compraram” a pauta que a assessoria do Corinthians, via Ronaldo, tentou “vender”.
Menos mal que isso foi no caderno de esportes, mas será que o trabalho na editoria de política é menos passivo? Dá pra ver a “compra” da Folha neste link, e a do Estadão neste.

Diogo Ruic
é jornalista e editor assistente do Nota de Rodapé

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Catanduva e Massachusetts

A pedido da tia de William, que me procurou com a mensagem: "Meu sobrinho está preso por um crime que não cometeu. Eu pedi e peço a sua ajuda para a divulgação da matéria assinada por Richard Pedicini que fala do caso de Catanduva", este Nota de Rodapé publica o texto a seguir.

Catanduva e Massachusetts
Por Richard Pedicini

Semana passada em Massachusetts, uma ex-promotora perdeu uma eleição especial para o Senado americano, em parte devido ao seu papel no notório caso de Fells Acres, o pior desvio de Justiça naquele estado desde os processos dos bruxos de Salem, três seculos antes.
Mas o que interessa aqui não são os efeitos da eleição em Washington. É que a sentença da meritíssima juíza Sueli Juarez Alonso, na “rede de pedofilia” de Catanduva, assusta na sua semelhança com o condenação de Fells Acres. E com as condenações das bruxas de Salem.
Alegações impossíveis, falta total de evidências físicas, interrogatórios por psicólogos já convencidos que houve crime, foram parte da onda de supostos casos de abuso que varreu os Estados Unidos nos anos 80-90. Este eleição provocou retrospectivas destes casos, notavelmente de Dorothy Rabinowitz no Wall Street Jornal e no Psychology Today, este último disponível traduzindo aqui.

SEM EVIDÊNCIA OBJETIVA
Tanto em Catanduva quanto em Massachusetts, não há nenhuma evidência médica ou objetiva de que qualquer abuso aconteceu. Em suas quatorze páginas, a sentença da Dra. Sueli não cita nenhum laudo médico, nenhuma prova física, nenhuma evidência objetiva que estes crimes acontecerem.
O que ela cita é a testemunha e os reconhecimentos de crianças. Houve somente isso em Fells Acres, e em Salem.
Uma criança no caso Fells Acres contou que foi sodomizada com uma faca de açougueiro de 30 cm, que não deixou nenhuma machucada. Que nem a menina de Jardim Alpino que contou que foi cortado nos braços com um facão, estuprada, e mutilada na genitália, cujo laudo médico atesta que ela está sem cicatrizes, e como todas as outras supostas vítimas, virgem.
Olharemos primeiro porque a Justiça dos EUA parou de fazer condenações somente na base que a Dra. Sueli usou para condenar Zé da Pipa e seu sobrinho Willian (que ela chama de “William”) a mais de uma década de prisão.
O leitor de Catanduva deve lembrar os detalhes do caso da “rede de pedofilia”. Trataremos aqui de quatro momentos específicos: a caminhonete preta; a apreensão de março; o reconhecimento em Rio Preto em junho; e o micro do médico.

MÚLTIPLAS VÍTIMAS/MÚLTIPLAS OFENSORAS
A dra. Sueli diz que a psicologia é uma ciência. Bem, a matéria da maior revista do ramo, Psychology Today, fala das mudanças na maneira de interrogar crianças depois do caso Michaels em Nova Jersey. O autor, que é advogado e psicólogo, destaca que desde então psicólogos e investigadores policiais mudaram seus métodos de interrogar crianças pequenas, e mais nenhum caso MVMO [Múltiplas Vítimas/Múltiplas Ofensores] têm aparecido nos EUA
É exatamente este tipo de caso de que se trata na caça de bruxas de Catanduva.
Na sentença, a dra. Sueli nota que o psicólogo Paulo, que encontrou sinais de abuso sexual em quase todas as 61 crianças de Jardim Alpino que examinou, tem mestrado e está fazendo doutorado. Ela deixa de notar que estes estudos avançados são em educação especial. (http://lattes.cnpq.br/6015371368541783). Ela dedica quatro páginas da sentença à ciência de psicologia, citando “Psicologia: Uma introdução ao estudo de psicologia”, “Vocabulário de Psicanálise”, “Dicionário Técnico de Psicologia”, e três livros editados mais de um século atrás.
Com todo respeito aos conhecimentos de direito da juíza, que podem ser profundos, suas citações de psicologia sugerem um conhecimento superficial da psicologia. E de psicologia Paulo tem graduação, e só. Se psicologia é mesmo uma ciência, nem a Juíza de Direto nem o psicólogo do Fórum são cientistas.
As entrevistas das crianças de Jardim Alpino seguiu os padrões modernos de interrogação? Para responder precisaremos comparar as entrevistas conduzidas pelo psicologo Paulo com as diretrizes estabelecidas no caso Michaels. Lamentavelmente, enquanto a sentença é pública como em qualquer processo, as entrevistas estão sob sigilo, e talvez nem foram documentadas conforme prática moderna. Pode ser que o caso não foi conduzido seguindo a ciência mais diretamente relevante, mais profunda, e mais moderna, do que a das obras gerais e antigas citadas na sentença.

A CAMINHONETE PRETA
Uma camionete preta supostamente levou as crianças para as orgias. Foi comprovado que um empresário estacionava a caminhonete na escola para conduzir um caso extra-conjugal: funcionários da escola sempre avistaram a caminhonete, até durante as férias escolares, mas nunca notaram nenhuma criança entrar. E o empresário não foi reconhecido pelas crianças.
Mas, é notório que as crianças falaram que foram levados numa caminhonete preta. Como que a meritíssima juíza resolve a contradição?
Da mesma maneira que ela resolve que a menina com os cortes profundos sarou sozinha, sem deixar cicatrizes. Ela pula completamente. A caminhonete não aparece na sentença.
Ela decidiu também que Willian cometeu os crimes que lhe foram atribuídos durante as duas horas que seu serviço dava para o almoço, e que levou uma das crianças no moto, para encontros com homens que não foram identificados, num lugar que não foi identificado.
Numa cidade pequena, como não se poderia identificar este lugar e estes homens, onde até 61 crianças foram supostamente levadas, durante meses, a luz do meio-dia? Como que é que ninguém presenciou nenhuma destas viagens?
Em Salem, pelo menos, diziam que as vôos de vassoura aconteciam a noite.

AS APREENSÕES DE MARÇO
Antes da visita da CPI em março, mandados de busca e apreensão assinadas pela dra. Sueli foram cumpridos por 40 policiais e 20 promotores, sob o olhar da mídia nacional, já posicionada para veicular o espetáculo.
Serviu muito bem para espalhar as acusações, e destacar Catanduva no olhar da nação, no mal sentido. Mas serviu em nada para colher evidências, pela sua ausência conspícua nesta sentença. Nem os micros, nem os cruzamento dos telefones cujo sigilo foi quebrado pela CPI, nenhum dado colhido por sessenta homens da lei e três Senadores da República tinha peso o suficiente para ser citado no julgamento da figura central da “rede”.

O RECONHECIMENTO DE JUNHO
O peso foi dado pela mídia, e pela juíza, aos reconhecimentos. Acompanhei do lado de fora o reconhecimento em São José do Rio Pardo em junho, e do que ouvi, quem mais foi reconhecido lá foi Zé da Pipa.
Neste momento, uns dos leitores deve estar prestes a abandonar este texto. Afinal, se Zé foi reconhecido, o resto é detalhe.
Antes, mais um detalhe: Zé não estava em Rio Preto naquele dia. Quem o "reconheceu" estava errado, e consequentemente desconfio dos outros supostos reconhecimentos, dois ou três, naquele ocasião e nos outros.

O MICRO DO MÉDICO
A delegada Rosana da Silva Vanni foi duramente criticada por ter telefonado para o advogado do médico, em março, para dizer que ia executar uma busca na casa dele. Chegado vinte minutos depois, ela foi informada que o micro estava na oficina.
No CPI, este incidente foi agarrado como sendo "as provas sumiram", e que “os culpados escapariam” por isso.
Mas vamos com calma. As supostas fotos não foram encontradas em nenhuma das dúzias de computadores apreendidos no caso. Os abusos supostamente acontecerem durante meses, com o suposto intuito de distribuir fotos pelo internet. E elas não foram encontradas na internet.
Não foram encontradas no computador de Zé da Pipa, porque o borracheiro não tinha computador: sua câmera falava diretamente com a impressora que usava para imprimir as caras das crianças nas pipas. E nenhuma foto física ilegal foi encontrada.
A suposição de que existia uma rede de distribuir pornografia, mas que não distribuiu fotos, mas mantinha uma única copia, e apesar do barulho dos caçadores se aproximando durante semanas, deixou para sumir com as evidências vinte minutos antes da chegada da polícia, é absurda!
Acredito mais nos vôos de vassoura.

MAIS A SER DITO
Há mais a ser dito sobre esta investigação e esta sentença, e creio que será dito, que o caso de Catanduva será estudado no Brasil da mesma maneira de que o caso de Fells Acres é estudado nos Estados Unidos: um modelo de como não se faz a investigação deste tipo de acusação.

PRESUNÇÃO DA INOCÊNCIA
Qualquer acusado, não importando a natureza da suposto crime, é presumido inocente. Sua culpa tem que ser provada.
Muitas das acusações e detalhes mais espetaculares que Brasil inteiro ouviu, foram cabalmente desmentidos. Muitas das acusações feitas pelas crianças foram falsas: francamente absurdas ou desmentidas pelos laudos médicos. A sentença não explica nada disso, aparentemente ecoando a onda americana destes casos, quando a regra foi que tudo que criança falava que não era comprovadamente falso era verdade pura, e onde a atitude para com inconsistências foi, “Dane-se e condena-se!”
A falta total de evidência física na sentença, especialmente aquela que deveria existir, assusta, especialmente à luz dos casos americanos. Que toda a prova é fruto de entrevistas feitas por um especialista em educação especial, cuja taxa de diagnosticar abuso é “quase 100%”, perturba. Que a condenação está apoiada tal-somente nos conhecimentos de uma psicologia sem formação avançada na disciplina, e os conhecimentos da área mais superficiais ainda da juíza, causa desconfiança.

SOLTEM OS PRESOS
Há quatro presos na suposta rede de pedofilia de Catanduva. Há os dois menores (“recolhidos à Fundação Casa”, mas dá no mesmo), e Willian. É absolutamente comprovado que estes três foram vítimas de crimes. Willian foi sequestrado e só escapou da morte devida a ação rápida da PM, que tinha os telefones da PCC grampeados. Os dois menores tiverem seus nomes veiculados na imprensa como acusados, em violação da ECA, e um deles foi fisicamente atacado em frente ao Fórum, em frente a imprensa.
O caso de José Barra Nova de Mello, o "Zé da Pipa", é um pouco mais complicado. Ele confessou delitos. A juíza deu pouco peso a isso, condenando pelo que ele confessou e o que não confessou.
Ouvi falar desta confissão de Zé quando visitei Catanduva em junho, e voltei para casa convencido que realmente Zé tinha feito alguma coisa, mas que tudo apontava que ele agiu sozinho.
Chegando em São Paulo, fui ler sobre os processos das bruxas de Salem, e fiquei abismado ao ler os conselhos de uns sábios de 300 anos atrás, de que nestes casos não se deve acreditar nem em confissões. Pois umas das bruxas de Salem confessou também.
A juíza diz que “a prova é robusta”, de que “não há dúvidas quanto a veracidade”. Falaram assim em Salem, faz 300 anos, e no caso Fells Acres, também.
Os quatro devem ser soltos já, enquanto o Tribunal de Justiça julga as apelações, presumivelmente na luz da lei e não da psicologia.

Richard Pedicini é formado em filosofia pela universidade Yale e escreve sobre aviação e crimes de imprensa. Foi envolvido, preso e posteriormente libertado e inocentado no caso da Escola Base, em 1994

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Democracia em perigo?

O lamentável episódio envolvendo o cidadão e cientista político Cesar Benjamim e o jornal Folha de S. Paulo, além de ter uma repercussão exagerada nos principais blogues jornalísticos brasileiros, revela – quanto a mim - parte dos caminhos tortuosos pelos quais vai avançando a incipiente democracia brasileira.
Analisemos as premissas acima. Por que uma repercussão exagerada? Porque os blogues caíram na armadilha da FSP e acabaram por transformar o artigo de um conhecido oportunista político num documento de contestação ao governo do presidente Lula, privilegiando o acusador sem ouvir o acusado. Oportunista político que se coloca, antes da acusação sem provas, como mártir e herói combatente da ditadura civil e militar que infelicitou o país entre os anos de 1964 e 1984. Ninguém, em princípio, é mártir ou herói por lutar contra um regime de exceção. Trata-se de uma opção política individual que, embasada numa consciência de viés ideológico, transforma-se em luta coletiva para mudar a sociedade, com a perspectiva de melhorá-la, torná-la mais justa, equânime, solidária. Muitos fizeram conscientemente essa opção nos anos 60 e 70 e, no Brasil, centenas de cidadãos morreram por suas ideias. A esses, sim, poderíamos chamar de mártires. Portanto, o passado de lutas contra a ditadura não oferece a ninguém, em princípio, base moral para – nos dias atuais – se arvorar em dono da verdade. Muito menos para acusações que não se podem comprovar.
E por que caminhos tortuosos? Porque passada a tempestade da repressão e da censura, das prisões e das torturas e desaparecimentos, o país imaginou que voltaria ao leito das águas calmas da democracia. Isto é verdade até certo ponto, pois cabe perguntar: como funciona a democracia brasileira? Muitos entendem ser a democracia burguesa o melhor dos regimes políticos. Prova-o a velha e surrada frase de Winston Churchill, usada logo após a Segunda Guerra Mundial, e volta e meia citada: “A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras já experimentadas”. Churchill talvez tenha se esquecido de que a História Política é uma ciência dinâmica e cria mecanismos de transformação conforme a humanidade avança.
Afinal, qual é a compreensão que tem o brasileiro do que seja a democracia? O que se defende por aí no varejo é que a democracia é “o governo do povo, pelo povo e para o povo”, na qual se pratica a “liberdade de imprensa”, “onde é livre a manifestação de opinião e de religião”, “onde o cidadão exerce o seu direito de ir e vir, sem cerceamento, o seu direito de votar”, enfim, esse conjunto de frases que se tornam vazias fora do contexto social em que se inserem e que servem para sustentar a democracia representativa burguesa, mas na verdade podendo se transformar num conjunto de lugares comuns mais condizentes e apropriados com a prática política daquilo que cada um de nós pensa num determinado momento histórico.
Em outras palavras: a democracia representativa brasileira, essa que nos é dada viver nesse início de século 21, é a expressão máxima de representação e dos direitos do poder econômico no país, da liberdade de ir e vir do capital, de alguma cartelização e da livre circulação de mercadorias. E também da regulamentação rígida do trabalho e dos deveres dos trabalhadores.
Fazendeiros, ruralistas, latifundiários, banqueiros, agiotas, doleiros, grandes e médios empresários, comerciantes importadores e exportadores, grandes cadeias de supermercados e lojas de varejo, mineradores, fabricantes de cimento, aço, ferro, papel, donos de grandes jornais, revistas, canais de televisão, rádios, donos de imobiliárias e revendas de automóveis, as grandes lojas de luxo, os cartéis da cerveja e dos refrigerantes, multinacionais do petróleo, as grandes agências de publicidade, vendedores de planos de saúde, os fabricantes de cigarros e os grandes traficantes de drogas, toda essa gente é grande defensora da democracia representativa burguesa, ou seja, seus representantes, através de lobbies e eleições apoiadas em campanhas milionárias, têm parte substancial dos assentos no Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas estaduais e nas câmaras de vereadores por todo o país. São eleitos governadores e prefeitos. Pois é o poder econômico, com minoritárias e muito dignas e honrosas exceções, que os elegem. Enfim, são os que fazem as leis, a Constituição e a própria democracia. A democracia deles.

Enquanto isso...
Do outro lado da balança, o povo, a grande maioria dos cidadãos. Os bancários, os comerciários, profissionais liberais, os metalúrgicos, os têxteis, as empregadas domésticas, os motoristas e cobradores de ônibus, os metroviários, os varredores de ruas, os empregados de bares, os lixeiros, os trabalhadores do campo, com ou sem terras, os taxistas, os motoboys, os garçons, as diaristas, os ambulantes, os artistas, os professores primários e universitários, os trabalhadores em construção, os mecânicos, os pipoqueiros, os frentistas de postos, os carteiros, os boias frias, os catadores de papel, os porteiros de edifícios, os bilheteiros, as manicures, os borracheiros, os enfermeiros, os jornaleiros, os funcionários públicos civis e militares. Enfim, toda essa chusma e mais alguma que cumpre e sofre as leis e as regras da democracia representativa.
Pessoas mais bem preparadas que eu chamam de luta de classes. E onde há desigualdade social e injustiça não floresce a democracia, mesmo que representativa. Onde só um dos lados tem voz, não há justiça e onde não há justiça não existe democracia.
Como também não há democracia quando se quer transformar os direitos que ela contempla em direitos da minoria e os deveres em deveres da maioria, quando se quer manipular e estratificar consciências, induzindo os cidadãos a pensar que só existe um tipo de democracia, aquela em que eu acredito. Aquela em que eu voto, mesmo que esse voto nem sempre seja respeitado.
Muitas dos artigos e das opiniões que li sobre o episódio Cesar Benjamim, deixaram-me com a impressão de que a nossa democracia ainda é frágil e corre perigo. E que a temporada de psicanálise sobre a luta contra a ditadura está aberta. Quem foi mais revolucionário? Quem sofreu mais nas prisões? Quem foi mais torturado? Ter combatido a ditadura capacita-me moralmente a fazer hoje qualquer tipo de crítica aos que, neste momento, governam o país? Em muitos casos sim, quando a crítica tem a preocupação do bem comum, dos benefícios para a maioria, da continuada luta pela correção das mazelas sociais que ainda são significativas no Brasil. Mas não como no caso do cidadão Cesar Benjamim que, covardemente usou as páginas de um jornal para lançar suspeitas sobre o passado de um Presidente da República, numa inegável atitude eleitoreira, para dizer o menos.
Repito: o episódio é emblemático da atual democracia brasileira, democracia que se quer para muitos, a de mão única, sem direito à defesa e ao contraditório, a da dúvida, da suspeita, da retaliação, da prática e do elogio à mentira, a democracia do “você é culpado até prova em contrário”. Sem saber, ou até mesmo sem o querer, podemos estar entrando na ante-sala do fascismo, onde a delação, em si só já condenável, não precisa de provas. Basta que se lancem as dúvidas.

Izaías Almada é autor, entre outros, do livro VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS e colunista do Nota de Rodapé.

domingo, 29 de novembro de 2009

César Benjamin, Lula e a Folha de S. Paulo

A grave acusação de César Benjamin ao presidente Lula, inserida no artigo “Os filhos do Brasil”, publicado na “Folha de S. Paulo” do dia 27, continua repercutindo, como era de se esperar. Existem apenas duas alternativas e ambas são muito graves: ou o então sindicalista Lula tentou estuprar um jovem companheiro de cela, ou César Benjamin inventou uma calúnia infame e imperdoável. Ou é nojento o artigo, ou é nojento o episódio, para repetir qualificativo que vem sendo empregado por críticos de César Benjamin. Se o episódio relatado carece de qualquer veracidade, o presidente Lula tem o dever de processar o caluniador e obrigá-lo a retratar-se. Se César Benjamin tem provas adicionais da denúncia que fez, tem igualmente o dever de apresentá-las. Os leitores não podem ser induzidos a escolher uma das duas alternativas arbitrariamente, por afinidade política e pessoal com o denunciado ou com o denunciante. Nem uma controvérsia político-moral de tamanha seriedade pode ser considerada irrelevante e varrida para debaixo do tapete do esquecimento.
A “Folha de S. Paulo” também precisa esclarecer a decisão de publicar o artigo: apurou com o autor se ele poderia sustentar a acusação? Como escreve com bom senso um dos leitores da “Folha” no “Painel do Leitor”: “Publicar um artigo como o de César Benjamin impõe uma obrigação a um jornal como a Folha: a de sair a campo para apurar os fatos. O articulista nomeou no mínimo quatro pessoas facilmente localizáveis e entrevistáveis. E não deve ser difícil levantar o registro de todas as prisões de Lula e, a partir deles, tentar identificar quem seria o ‘menino do MEP’ que teria dividido a cela com o hoje presidente do país. O fato é que um artigo como o de César Benjamin não pode ficar restrito à rubrica de ‘opinião’.”
Recordo, enfim, mais uma vez, que o texto de César Benjamin não se limita à referência estarrecedora ao comportamento do então sindicalista Lula. Reconstitui também sua prisão ilegal aos 17 anos, o tratamento ignominioso a que foi submetido pelos verdugos da ditadura e o apoio digno e solidário que recebeu de presos comuns com os quais dividiu celas e cadeias. Se a trajetória passada do presidente Lula merece respeito, também merece respeito a trajetória passada de César Benjamin, independentemente das posições teóricas e políticas atuais de ambos, com as quais podemos concordar ou não.

Duarte Pacheco Pereira é jornalista, foi vice-presidente da UNE em 1964 e dirigente nacional da Ação Popular (AP) de 1965 a 1973, obrigado a viver e atuar clandestinamente durante 11 anos. Autorizou este blogue Nota de Rodapé a publicar seu ponto de vista a respeito da acusação de César Benjamin contra o presidente da República em artigo na Folha de S. Paulo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Direito à comunicação

O coletivo Intervozes produziu um vídeo bem interessante sobre a concentração dos meios de comunicação existentes no país. Assista e espalhe. No site deles aqui.

domingo, 8 de novembro de 2009

As laranjas podres e o plágio do jornalismo

O jornalismo brasileiro termina mais uma semana exemplar para a reflexão sobre aquilo que não se deve fazer. Como o jogo só acaba quando termina, correm até agora dois casos notórios de um tempo de pouca reflexão, quase nenhuma ação e muita cópia.
O primeiro caso da semana vem dos jornalões, que cometeram plágio em uma matéria sobre... plágio. Não poderia ter sido mais irônico. Diz a boa prática do jornalismo que se deve “dar o crédito” a quem tenha dado em primeira mão - o chamado furo - uma informação, relevante ou que se julgue relevante.
A Associação dos Docentes da USP (Adusp) manifestou em seu Informativo Adusp 296, páginas 3 e 4, a acusação de plágio em um artigo envolvendo a reitora da universidade, Suely Vilela. Diga-se de passagem que, apesar dos pesares, a principal acusação que pode recair sobre a reitora é de descuido. Ela co-assina um artigo feito por uma aluna de doutorado. Incentivada pela produtivismo que ela mesma tratou de dar corda, o mais provável é que a reitora tenha assinado o artigo para dar conta das elevadas metas anuais que devem ser cumpridas por docentes de universidades públicas – qualquer semelhança com banco ou telemarketing não é mera coincidência.
Eis que, na quarta-feira (4), Folha, Estado e O Globo encarregaram-se de reproduzir a denúncia. Nenhum deles tratou de dar o devido crédito à Adusp que, antes de mais nada, fez bom trabalho jornalístico: buscou ouvir todos os envolvidos e conseguiu apurar que o caso é investigado internamente na USP. Uma reclamação sobre o plágio foi encaminhada ao ombudsman da Folha que nada escreveu neste domingo (8). Se alguém quiser saber mais, deve ir ao site da Adusp, porque não serei eu o próximo a plagiar.

Cutrale devolve terras griladas
Num gesto único na história brasileira, a Cutrale vai devolver as terras públicas que grilou para plantar laranja. Segundo uma pessoa que ocupa cargo decisivo, "mais importante que sete mil pés de laranja derrubados, são as cem mil famílias de brasileiros que estão na beira das estradas". O único condicionante da empresa é que as terras sejam destinadas à reforma agrária, dando preferência às famílias que ocuparam o lugar dias atrás.

Esse é o primeiro parágrafo da história contada por Roberto Malvezzi no Correio da Cidadania em 29 de outubro. Achou estranho? Teve gente que não. A notícia rapidamente foi reproduzida em páginas e blogues de toda a internet. Caiu na rede é peixe, companheiro, e há muito pescador precisando de caça. Em um dos blogues, O Correio da Elite, o autor até tomou o cuidado de advertir com um sincero “Uai, será verdade?”, mas não tomou o cuidado básico de não publicar.
Coube a Malvezzi, dias depois, esclarecer que se tratava de ironia seu texto: “Quem já viu grileiro devolver terras, respeitar sem terra, reconhecer os problemas históricos dos índios etc.? Então, afirmo que o texto "Cutrale devolve terras griladas" é uma ficção e não podia ser outra coisa, tamanho o absurdo do conteúdo”. Da próxima vez, talvez seja melhor usar um (I!) de ironia para afastar do texto os inconsequentes.
Como bem lembra o amigo Thiago Domenici, criador deste blogue, perdeu-se a função mais básica do jornalismo, que é a apuração. Os erros desta semana revelam um jornalismo torpemente afoito em publicar tudo que lhe apareça. Não se nota que, em meio a tanto conteúdo despejado sobre a cabeça, o leitor nada assimila, tudo se torna etéreo e inútil. A pressa, inimiga da perfeição, é chegada da inconseqüência.
É o que permite que a GloboNews derrube um avião da Pantanal sobre um prédio em São Paulo, seja seguida por todas as outras rádios, TVs e sites, e depois diga que se tratou tão somente de uma loja de colchões em chamas e que ninguém saiu nem com arranhões. Bem, quase ninguém: imagine quem tinha parentes voando em aeronave da Pantanal naquele momento.
A discussão poderia ser estendida por muitos outros parágrafos, mas devo parar por aqui sob risco de que ninguém chegue ao fim da leitura. Só gostaria de lembrar que parece ter passado em branco a visita de Gay Talese ao país. Jornalista dos melhores, texto refinado, Talese cisma em ter calma para escrever e não consegue entender a cabeça de editores afoitos por dar antes de todos uma informação que em menos de 15 minutos estará diluída e perdida. Não sei onde pode parar essa teimosia (I!).

João Peres é jornalista e mantém neste blogue Rodapé a coluna Extremo Ocidente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Izaías Almada # 8


BRASIL: ANTES E DEPOIS DE LULA


Já não há como tapar o sol com a peneira. Tanto para os que são adeptos e correligionários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tanto para os que não o são (principalmente esses), o Brasil é um novo país interna e externamente.
Criticado pela esquerda mais radical (ou mesmo conservadora) e estigmatizado e enxovalhado pela oligarquia reacionária do país através de seus jornais, revistas e canais de televisão, em campanhas mentirosas e difamatórias sempre a serviço de interesses particulares, quando não impatrióticos, o presidente Lula vai chegando ao final dos seus oito anos de governo nadando de braçada.
Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, nos anos 50 do século 20, bem como o curto governo de João Goulart, no início dos anos 60, são períodos que se destacaram na mesma esperança e na mesma perspectiva do país poder construir o seu futuro, mas – tudo indica – é só agora nessa alvorada do século 21 que alguns vetores econômicos, políticos, sociais e ambientais se cruzaram e parecem proporcionar a um até então desconhecido e humilde operário nordestino a oportunidade de fazer do Brasil uma nação que começa a se respeitar (apesar dos descrentes, dos invejosos e das viúvas do neoliberalismo) e a ser respeitado pela comunidade internacional.
Nunca é demais lembrar que Getúlio se matou, João Goulart foi deposto por um golpe civil/militar com o apoio dos Estados Unidos da América e que Juscelino chegou ao final do seu mandato enfrentando tentativas de sedições militares e golpes de estado (Aragarças e Jacareacanga). Lula, forjado nas lutas sindicais, aprendeu – com certeza – a enfrentar patrões, geralmente testas de ferro das multinacionais e, ultimamente, as hienas da imprensa venal e mal intencionada.
Está certo que Lula nunca se disse socialista, longe disso. Foi um dos primeiros a saudar Lech Walesa, o líder polonês pró-ocidente, ainda no tempo da guerra fria. Selou um compromisso de governabilidade com a burguesia brasileira no início do seu governo, mas ainda assim tripula a nau brasileira com muita competência, não deixando nenhuma saudade dos anos FHC. Muito pelo contrário.
Com uma popularidade que ultrapassa os 60% de aceitação do seu governo, o presidente Lula tem se dedicado a aproximar o Brasil de seus vizinhos e irmãos sul-americanos, onde o Paraguai, Argentina, Bolívia, Cuba e a Venezuela se destacam nos acordos comerciais e perfila-se com independência e discernimento ao lado de nações emergentes como a China e a Índia, em busca de um mundo mais diversificado e menos concentrador. Aposta na riqueza do pré-sal como incentivo à melhor distribuição de renda dos brasileiros, em investimentos pesados nas áreas da educação, saúde, pesquisa científica e tecnológica, criando para o país uma infraestrutura capaz não só de elevar o patamar da nossa produtividade industrial e agropecuária, mas de nos tornar independentes e soberanos. E isso já não é pouco para quem governa um país como o Brasil no mundo contemporâneo.
Mas o Brasil mais conservador e atrasado não vê as coisas desta maneira, preferindo fazer tempestades em copo d’água como CPI’s impatrióticas, invenções de crises uma atrás da outra, factóides midiáticos de inegável aventureirismo eleitoral e irresponsabilidade com o país, onde o que há de pior e mais retrógrado é jogado sobre a mesa da ainda frágil (embora também consistente) democracia brasileira.
O teste de 2010 se aproxima. As armadilhas para o Brasil do futuro, de nossos filhos e netos, estão sendo armadas pelo Brasil mais atrasado, pelo Brasil que perdeu a noção de patriotismo, decência, soberania, nas redações de nossos dinossáuricos jornais, revistas e televisões e alguns recantos de São Paulo, Rio de Janeiro e alguns confins de Pará e Mato Grosso. O jogo, pelo que se viu até agora, será pesado, pois quando não se tem ideias para o debate sobre os caminhos mais progressistas, equânimes e solidários para a grande maioria do povo brasileiro, corremos o risco de ter que enfrentar o desespero, o despreparo, a mentira e a selvageria de grupos e pessoas que não perceberam que o país mudou. O Brasil AL e DL.
Uma eventual vitória PSDB/DEM/PPS em 2010 fará o Brasil retroceder na história. Quem viver, verá!

Izaías Almada, escritor, é autor – entre outros – do livro TEATRO DE ARENA: UMA ESTÉTICA DE RESISTÊNCIA, Editora Boitempo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Fazendo Media: reconceituar o jornalismo


É preciso reconceituar o jornalismo
Por Marcelo Salles, Fazendo Media

Lendo o artigo do Mário Augusto Jakobskind, que será publicado amanhã, fiquei pensando: é preciso reconceituar o Jornalismo. Não faz mais nenhum sentido chamar de Jornalismo o que fazem as corporações de mídia. Quem se preocupa com o lucro em primeiro lugar não é uma instituição jornalística. Não pode ser. Quando uma empresa passa a ter como principal meta o lucro, essa empresa pode ser tudo, menos uma instituição jornalística. E aí não importa a quantidade de estrutura e dinheiro disponível, pois a prática jornalística é de outra natureza. Exemplo: eu posso passar uma semana no Complexo do Alemão com um lápis e um bloco de papel. Posso chegar até lá de ônibus. Posso bater o texto num computador barato. Mesmo assim, se eu e a publicação para onde escrevo for jornalística, vou me aproximar muito mais da realidade do que uma matéria veiculada pelas corporações de mídia. Essas podem dispor de toda a grana do mundo, de carro com motorista, dos gravadores mais caros, das melhores rotativas, de alta tiragem e de toda a publicidade que o dinheiro pode comprar. No entanto, se não forem instituições jornalísticas, elas dificilmente se aproximarão da realidade da favela, isso quando não a distorcem completamente (...)

Para ler o restante do texto vá até a página do ótimo site do amigo Marcelo Salles, o Fazendo Media. Clique aqui.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Izaías Almada #3

Liberdade de expressão

Pascual Serrano é um jornalista espanhol de última geração. Sério, investigativo, polêmico, escreve num cenário onde circula EL PAÍS, considerado um dos grandes jornais do mundo. Escreve também no site www.rebelión.org, do qual é um dos fundadores. Outras informações sobre Pascual poderão também ser obtidas pelo site www.pascualserrano.net.
Resolvi desta vez enviar minha colaboração ao rodapé traduzindo um pequeno texto de Serrano publicado no Rebelión e que tem o seguinte título: SE HOUVESSE ACONTECIDO NA VENEZUELA OU EM CUBA. Diz o texto: “Estas são duas notícias relacionadas com a liberdade de expressão e a mídia que passaram desapercebidas. Imaginemos por um momento se elas houvessem acontecido na Venezuela, qual teria sido a sua repercussão informativa mundial?”
“A primeira delas se passa no Peru. Ali, no último dia 1º de junho o Estado tomou o controle do canal de televisão Panamericana, um dos mais antigos do país. Dois dias antes, o presidente peruano Alan Garcia Perez, pediu à Superintendência Nacional Tributária (Senat) que interviesse na televisão diante das suas dívidas pendentes com o fisco. 48 horas depois, duzentos policiais tomavam posse do canal e o Senat assumia o controle por seis meses para assegurar o pagamento da dívida que é de 40 milhões de dólares”.
“A outra notícia se passa nos Estados Unidos. Lyndal Harrington, agente imobiliária de 53 anos de idade, passou quatro dias na prisão devido a alguns comentários publicados em seu blog. Esses comentários eram sobre Anna Nicole Smith, modelo e ex-garota Playboy, que morreu em 2007. A bloguera foi condenada na semana passada por negar-se a entregar o seu laptop a um tribunal. Estava acusada de contribuir na divulgação de falsidades, ao dizer que Virgie Arthur, mãe de Anna Smith, se casou com seu meio-irmão e maltratou sua filha. A bloguera assegurou que uma semana antes haviam lhe roubado o laptop e que por esta razão não poderia entregá-lo aos juízes. Também se mostrou contrariada porque alguns comentários seus, publicados para matar o tempo, num blog chamado ‘Rose Speaks’, a levaram à prisão”.
“É evidente que a maioria da opinião pública mundial sequer teve conhecimento destes dois casos, talvez por não apresentarem muita importância informativa. Contudo, imaginemos por um momento se o fechamento do canal peruano de televisão, feito por duzentos policiais, tivesse acontecido na Venezuela e a prisão da bloguera tivesse sido em Cuba”.
Respondo eu, Izaías: nossos jornalões, revista semanais e canais de televisão, dominados por quatro feudos familiares e nada transparentes e democráticos, cairiam matando e com grandes matérias sobre a falta de democracia em Cuba e na Venezuela. Haja hipocrisia!

Izaías Almada é autor do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência”. Editora Boitempo.

sábado, 14 de março de 2009

Brasil: pasto de engorda

Bernardo Kucinski escreveu na última edição da Revista do Brasil uma tremenda informação sobre a economia em tempos de crise. Diz ele que "em um único ano, o capital estrangeiro enviou para seus acionistas no exterior dez anos de bolsa família." A análise de Bernardo diz que nossos jornalões exaltam a entrada de capital mas não acompanham o retorno dele. "Só até novembro os investimentos estrangeiros já haviam remetido para o exterior 47,2 bilhões de dólares a título de rendas, conforma boletim de janeiro do Banco Central". E segue: "Foram quase 100 bilhões em apenas dois anos. Nesses mesmos dois anos entraram 64 bilhões de investimentos estrangeiros. Ou seja: já mandamos mais lucros do que capital que entra." E mais: "São números tão grandes que a gente fica sem saber o que significam. Mas, para se ter uma idéia, corresponde a dez anos de orçamento do Bolsa Família, hoje na casa dos 11 bilhões de reais. E a mesma grande imprensa que costuma desprezar o programa social, que atende 11 milhões de famílias, se cala perante a renda obtida aqui pelo capital estrangeiro."

sexta-feira, 6 de março de 2009

Uma história da Rede Globo

Um pouco sobre os bastidores da Rede Globo e as sacanagens de bastidores; leia texto do repórter Rodrigo Vianna no site Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha. Vianna está atualmente na Record e no texto fala sobre sua saída após as eleições de 2006, quando a Globo deu um viés parcial, pra dizer o mínimo, na cobertura das eleições. Eis o que não fazer no jornalismo. Mentir.

domingo, 30 de novembro de 2008

Documentário Escola Base no Youtube

Meus caros e caras, agora vocês podem assistir e divulgar o documentário Caso da Escola Base no Youtube. O documentário é de 2004 (atualizado em 2005), tem 13 minutos. Os realizadores são Paulo Rodrigo Ranieri, Gustavo Brigatto e Eu, todos jornalistas. Está em duas partes no Youtube, coloco a primeira que já dá a sequência pra segunda, quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre a história clássica de erro da imprensa, acesse http://escola.base.sites.uol.com.br


terça-feira, 23 de setembro de 2008

Compra documentário Escola Base

Aos interessados em adquirir o vídeo da Escola Base, deixo os contatos corretos de e-mail e telefone.

Lembro que o vídeo custa 25 reais + frete.

É isso, obrigado.

e-mail: domenici@ig.com.br
Tel. (11) 7350-6540


Thiago Domenici
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