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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Só por hoje

por Celso Vicenzi*

“Só por hoje” é um princípio seguido à risca por alcoólicos anônimos, com resultados comprovados. Mas pode ser um mantra, também, contra qualquer tipo de vício. A ideia, simples, é dar um passo de cada vez. A cada 24 horas, uma batalha vencida. Os movimentos conhecidos por AAA – Associação dos Alcoólicos Anônimos –, surgidos na década de 30, nos Estados Unidos, e que se espalharam pelo mundo, praticam o lema ainda nos dias atuais, com bons resultados.

Sem abdicar dos antigos, novos vícios têm sido incorporados à sociedade, como a compulsão pelo uso de aparelhos celulares. Há outros igualmente perniciosos: o vício por consumir informação de péssima qualidade, inclusive nas redes sociais, e o vício de entreter-se com programas de rádio e tevê que atrofiam a inteligência e a capacidade de análise. Incluem-se nesse rol comentaristas famosos de diferentes mídias.

Talvez, justamente por isso, as redes sociais estejam entulhadas de diálogos e debates de baixíssimo nível, em que os xingamentos e a desinformação sejam moeda corrente. E que, não raro, descambam para um superávit de ódio e um déficit de solidariedade. Graças às redes sociais, descobrimos que aquele cidadão (vale também para o sexo feminino) que parece tão fino e educado, cheio de gentilezas e que aparenta ser adepto de causas nobres, na verdade esconde um troglodita, machista, reacionário, egoísta, homofóbico, desinformado e mal-educado. Não necessariamente nessa ordem.

Por isso, para pôr um pouco de água na fervura e, quem sabe, serenar os ânimos, pensei em resgatar o lema que tem mantido longe do vício tantas pessoas que, no passado, estiveram às portas do inferno. Se não nos levar ao céu, pelo menos poderemos viver e dialogar mais civilizadamente.

Então...

Só por hoje não direi que a política e todos os políticos não prestam e procurarei estudar um pouco mais, sobretudo ciência política, história e sociologia, para tentar entender as engrenagens do poder e, quem sabe, a partir daí, contribuir decisivamente para a criação de políticas públicas que visem ao bem comum, ao bem-estar coletivo.

Só por hoje não xingarei, não usarei palavrões, nem tentarei ganhar no grito um debate que só tem sentido quando houver argumentos e informações fidedignas e sensatas sobre aquilo que se procura demonstrar. Ou seja, vale a pena fazer um esforço para diversificar as fontes e informar-se melhor sobre o que acontece no país e no mundo.

Só por hoje não direi que “é tudo culpa da Dilma”, seja lá o que aconteça no país. Afinal, vivemos numa República Federativa e as principais instâncias de poder são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, que, por sua vez, operam nas esferas federal, estadual e municipal. Farei um esforço para lembrar que a responsabilidade precisa ser dividida no mínimo com mais 27 governadores, 5.570 prefeitos, 81 senadores, 513 deputados federais, 1.059 deputados estaduais, cerca de 60 mil vereadores e 20 mil juízes espalhados por todo o país. Sem falar em milhares de importantes entidades representativas dos mais diversos setores da sociedade.

Só por hoje não direi que esquerda e direita são “tudo a mesma coisa”. Para esclarecer melhor tudo aquilo que não compreendo muito bem, melhor começar por ler o livro clássico de Norberto Bobbio sobre o tema. Há outros igualmente bons, é só procurar.

Só por hoje não direi que a política e todos os políticos não prestam e procurarei estudar um pouco mais, sobretudo ciência política, história e sociologia, para tentar entender as engrenagens do poder e, quem sabe, a partir daí, contribuir decisivamente para a criação de políticas públicas que visem o bem comum, o bem-estar coletivo.

Só por hoje não direi que a política de cotas (políticas afirmativas) é uma injustiça e vai prejudicar a qualidade do ensino. Primeiro, comprometo-me a ler com mais atenção a história dos negros no Brasil e, na sequência, divulgarei as pesquisas que demonstram que a maioria daqueles que entraram por cotas nas universidades brasileiras tem um desempenho igual ou superior aos que acessaram o ensino superior por outros meios. Só por hoje não vou converter-me à ideia de que problemas de segurança pública devem ser resolvidos à bala. Consultarei a vasta bibliografia sobre o assunto que desmente, categoricamente, a ideia de que a ênfase na repressão e a criação e manutenção de um sistema de segurança baseado na discriminação possam pôr um fim à violência.

Só por hoje evitarei o uso de falas e comportamentos machistas, para que a relação entre duas ou mais pessoas seja sempre baseada na igualdade, na dignidade e no respeito às diferenças. Igualmente repudiarei os estereótipos machistas da publicidade e me posicionarei contra atitudes cotidianas que reforçam esses hábitos.

Só por hoje não reclamarei do engarrafamento no trânsito se estiver sentado em um automóvel. Afinal, concluirei, é a minha presença ali, juntamente com milhares de outros condutores de automóveis, a razão de um trânsito que não anda. Aproveitarei o tráfego parado para refletir sobre a importância de apoiar a construção de ciclovias e dar prioridade ao transporte público de qualidade.

Só por hoje não vou ridicularizar e hostilizar pessoas com preferências sexuais diferentes da minha. Tentarei compreender que o desejo sexual independe de gênero e que não há nada errado nisso, ao contrário da homofobia. Se persistirem os sintomas homofóbicos, procurarei ajuda. Talvez Freud explique.

Só por hoje buscarei novas formas de me manter informado, diferente das fontes habituais, para que não me torne refém de interesses particulares, não raro economicistas, que favorecem grupos minoritários, e que, no entanto, se apresentam como porta-vozes de interesses justos e igualitários.

Só por hoje não acreditarei que recentes investigações sobre ilícitos sejam parâmetro para afirmar que “nunca houve tanta corrupção no país”, sem questionar primeiro por que antes essas investigações eram tão raras e por que, ainda hoje, o mesmo dinheiro que foi distribuído aos principais partidos, por diferentes setores empresariais, é considerado ilegal para uns e absolutamente honesto e sem problema para outros?

Só por hoje entenderei que, num estado laico, como é o caso do Brasil, política e religião não se misturam e credos particulares não podem ser aceitos como objeto de leis e normas para o conjunto da sociedade.

Só por hoje, cada vez que começar uma reclamação contra os altos impostos cobrados pelo governo federal, tentarei lembrar-me de que alguns dos principais impostos que me afetam diretamente, como o ICMS, o IPVA e o ISS são impostos estaduais e que o IPTU é um imposto municipal. E decidirei reclamar, com a mesma intensidade, da sonegação de impostos, que desvia bilhões de reais que fazem falta às políticas públicas do país. De bônus, investigarei por que as camadas mais ricas pagam, proporcionalmente, tão poucos impostos no país, ao contrário do que acontece em nações sempre citadas como exemplo de sociedades desenvolvidas.

Só por hoje evitarei falar e publicar nas redes sociais a primeira ideia que me vem à cabeça, sem refletir, inicialmente, se não estou reproduzindo aquilo que me foi incutido por veículos de comunicação e instituições da sociedade com interesses muito particulares, tendo como resultado um pensamento que não é necessariamente meu, mas orientado para reproduzir conceitos que interessam a outros, sem que eu nunca tenha me dado conta, ainda, disso. Como antídoto, buscarei bons livros e boas fontes de informação e conhecimento, na tentativa de me “deseducar” um pouco e compreender que o mundo e as relações podem ser muito diferentes do que hoje são e que mudar isso não é uma impossibilidade.

Só por hoje, não repetirei ideias-clichês do tipo “no Brasil não tem racismo”, “só é pobre quem não trabalha”, “direitos humanos só servem para proteger marginais”, “na ditadura era tudo melhor, não tinha corrupção”, “negros também têm preconceito contra os brancos”, “o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história do país”, “político é tudo ladrão”, “tudo que é público não funciona”, “o mercado regula”, “o mundo está cada vez pior”, “no Brasil nada dá certo”, “bandido bom é bandido morto” etc. etc. Se quero compreender os fenômenos sociais, prometo, vou estudar e ler – ler muito –, para não dizer bobagens inconsistentes.

Só por hoje.

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Celso Vicenzi, jornalista, mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Marcha avante

por Tomas Chiaverini*

Foi um domingo assustador, com aquele ódio todo, bairros de classe alta em polvorosa, luzes piscando, buzinas, panelaço, como se estivéssemos prestes a sucumbir num torvelinho de uma revolta insana e descontrolada. Foi assustador porque mesmo quem não viveu a ditadura lembrou de imagens e relatos da “marcha da família com deus pela liberdade”, estopim do golpe de 1964 e de suas posteriores atrocidades. Lá, como cá, o que se viu foi um movimento encampado, não exclusivamente, mas, sobretudo, por uma elite reacionária.

Lá havia o fantasma do comunismo, os ecos da revolução Cubana que deixava as classes privilegiadas se pelando de medo de ter a prataria saqueada pelos bolcheviques. Cá, há um medo difuso de um comunismo que não existe senão como a sombra de um pensamento distorcido para um lado e para o outro ao longo do último século. Acima disso, há certa revolta diante da possibilidade de as regalias dessa elite acabarem divididas com o povo.

Tudo isso catalisado por uma presidente inábil, tanto na ação quanto no discurso. Uma líder que deveria ser um símbolo mas não consegue se livrar da vocação para a gerência. Que se cerca por uma equipe fraca e incompetente, sempre pronta a disparar medidas assoberbadas e contraditórias.

Os escândalos de corrupção, em especial na Petrobras, também servem de combustível, mas seria muita ingenuidade apontá-los como o motivo maior de tanta revolta. Basta levar-se em consideração que o carro chefe do descontentamento foi a cidade de São Paulo, reduto eleitoral de políticos como Paulo Maluf, o homem do “rouba mas faz”.

Motivações à parte, a coisa foi mesmo assustadora. A resposta, contudo, mostrou como a democracia avançou, e como a parte radical do movimento é frágil e quebradiça. Principalmente porque a resposta que veio não foi do governo apenas. Pelo contrário.

O primeiro esboço de resposta da presidente Dilma Rousseff ocorreu no pronunciamento desta segunda, em que a ex-presa política apelou para sua própria história e sentenciou: nunca mais alguém será perseguido, torturado ou morto por expor suas opiniões. Essa é a resposta a altura de um líder de estado, com toda a grandeza e simbologia que o cargo requer. Uma pena que tenha sido praticamente a única.

Por outro lado, bom que as respostas tenham sido plurais. Não como um grito, mas como um diálogo minimamente maduro e equilibrado. Ainda na noite de domingo, por exemplo, a Folha de S.Paulo, o maior jornal do país, cravou no topo de sua home uma manchete que ia contra a informação da Polícia Militar. Estimava haver 210 mil pessoas na Paulista, muito menos do que o 1 milhão oficial.

Caso os golpistas que clamam pelo socorro das forças armadas estivessem no poder, isso provavelmente seria o suficiente para empastelar o jornal e pendurar editores no pau-de-arara. A Folha, claro, não fez mais do que sua obrigação e é apenas um exemplo de uma postura que ajudou a esfriar os ânimos. Diante de reivindicações despropositadas como um golpe militar ou impeachment da presidente, uma infinidade de veículos e profissionais de imprensa se manifestaram pelo equilíbrio e em favor da legalidade e da democracia.

Não foi apenas imprensa. Os militares ignoraram o clamor da meia dúzia de abilolados e se calaram com profissionalismo e aparente respeito às demais instituições. E o próprio presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cacique do PMBD, voz retrógrada na política brasileira e inexplicavelmente terceiro na ordem de sucessão presidencial, disse, reiteradas vezes, que não há motivo para impeachment. Um sinal claro, evidente, translúcido de que, ao contrário do que pregam os batedores de panela, nossa democracia está sim, avançando.

Esperemos, portanto, que o Ministério Público e a Polícia Federal siga escarafunchando nas gavetas do poder não apenas para encarcerar corruptos e corruptores mas também para mudar nosso status quo, que vai do jeitinho brasileiro às grandes negociatas. Que a população continue a se manifestar, pressionando governantes a tomarem atitudes mais sensatas. E que isso seja feito com liberdade, sem que ninguém tenha de ser perseguido, preso, torturado ou morto.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha no Nota de Rodapé. Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Uma presidenta a caminho do Campo da Pólvora

Dilma parece dirigir tranquilamente rumo a uma explosão. Alckmin e Eduardo Cunha têm algumas toneladas de dinamite para emprestar. Estamos vivendo uma situação pré-revolta?

por João Peres*

Poucas imagens definem tão bem um governo. Poucos governos são tão infelizes em seu autorretrato. Em 11 de junho de 2014, Dilma Rousseff foi a Salvador. Era um evento de grande força. Depois de anos e anos de enrolação entre prefeitura e governo da Bahia, o metrô da capital entrava em operação graças aos recursos enviados pela administração federal. Uma data perfeita: às vésperas do começo do Mundial, um retorno efetivo dos investimentos provocados pelo evento da Fifa. Uma agenda positiva a poucos meses de eleições que se avizinhavam difíceis em todos os níveis.

Os assessores de Dilma planejaram uma foto tradicional para o momento: coloca-se a presidenta dentro da cabine de operação de um trem, ela sorri, acena e vai embora, com missão cumprida. Nenhum assessor ou ministro, porém, parece ter notado uma piada de caráter tragicômico – ou, se notou, não contou. O fotógrafo Roberto Stuckert Filho, integrante do clã que há décadas registra os poderosos de Brasília, flagrou a presidenta a caminho do Campo da Pólvora. A culpa não é dele, obviamente. Mas ninguém por ali parece se ter dado conta de que o nome da estação a que se dirigiria aquela composição era esta infeliz coincidência do destino. “Em teste”, “Viva Salvador”, “Metrô”: qualquer nome escrito no letreiro serviria. Até “Bonde do ACM” estaria melhor. Havia meia dúzia de nomes de outras paradas que poderiam ter sido usados. Não, não foram: Dilma comandou um trem que rumava para um lugar, digamos, explosivo.

Pesquisar fotos da presidenta para uso em reportagens sempre foi difícil. No período Lula havia sempre dezenas e dezenas de opções. Com Dilma, não. Predominam as imagens carrancudas, reveladoras de um corpo endurecido, sem grande capacidade de expressão. Quando não se vai por esse caminho, a seleção oficial de imagens prioriza as que ela aparece no corpo a corpo, em fotos posadas ao lado de populares ou de uma claque que claramente não está à vontade com a cena.

Durante as eleições, a equipe de campanha tentou fazer de Dilma o seu oposto: não havia nos álbuns de imagens uma foto que não mostrasse um largo sorriso. Era uma candidata eternamente sorridente numa campanha em que havia poucos motivos para isso. Quem procurava por retratos simbólicos da gravidade do momento tinha de apelar a agências de notícias, ainda que, por vezes, estas pecassem por fazer o caminho exatamente contrário ao da versão oficial.

E eis que um belo dia, no programa eleitoral na televisão, surgiu a foto de Dilma na inauguração do metrô de Salvador. A repetição de um erro simbólico revela o que todos já sabemos, ou seja, que a assessoria de comunicação do entorno da presidenta é distraída, para dizer o mínimo. Olhada em perspectiva, aquela imagem intensifica seu caráter tragicômico. A presidenta exibe seu sorriso amarelo, alheia a seu entorno, na sua antinatural alegria. Junto com ela está a maquinista. Não está ali Aloizio Mercadante, o ministro-chefe da Casa Civil, afeito a aparições públicas forçadas por sua cada vez menos implícita pretensão de ser candidato ao Planalto em 2018. Não estão ali seus ministros das Cidades, do Planejamento, da Fazenda. A presidenta está sozinha enquanto toma o rumo da explosão.

Não parece que se passaram apenas oito meses desde que foi feita. A fotometáfora produzida ao acaso pela equipe presidencial não poderia ser mais adequada a nosso presente. Dilma dirige um trem que vai para o Campo da Pólvora sem que tenha sido informada por seus assessores. Está ali, dirigindo alegremente, sem notar que caminha à santíssima merda. Quem está do lado de fora abana as mãos, dá tchauzinhos, torce para que os explosivos estejam bem longe do ponto de partida para que se salvem.

O problema é a impressão de que estamos todos dentro daquela cabine. Ou quase todos, porque os mais espertos sempre se salvarão. Dilma, com o devido respeito, não cabe nesse último grupo. Como todos sabemos, faltam-lhe comunicação, habilidade política, rapidez administrativa, confiança nos outros e uma série de outros quesitos que fazem do presidente um estadista. Dela nem pedimos tanto. Não era possível esperar nada além de um aperfeiçoamento do período anterior.

Caro eleitor de Aécio Neves, terás mais ajuste fiscal do que querias. A pesquisa Datafolha divulgada no último fim de semana apenas quantifica o que já se sabia: quando o candidato vencedor implementa a agenda do candidato derrotado, causa um estrago imenso. Nela, a taxa dos que consideram o governo Dilma ótimo ou bom despenca de 42% para 23%, e os que o enxergam como ruim ou péssimo vão de 23% para 44%. Sim, uma exata inversão de curvas. A maior queda se observou entre os cidadãos com escolaridade e renda mais baixas, desmentindo pela enésima vez a tese de Fernando Henrique Cardoso de que os “grotões” são mal informados e acéfalos. A presidenta perdeu força também no Nordeste e no interior, regiões que lhe foram extremamente favoráveis na disputa eleitora.

A plataforma de corte de direitos trabalhistas, aumento de impostos e redução de investimentos fez, como era fácil prever, com que a população reforçasse a ideia de que entre o discurso e a prática nada existe. 46% dizem que Dilma falou mais mentiras do que verdades durante as eleições, 47% a consideram desonesta (contra 39% que pensam o contrário) e 54% dizem que é falsa, um crescimento de 41 pontos de 2012 para cá.

As explicações encontradas pelo entorno presidencial para a queda drástica na aprovação vão do ridículo ao bizarro. "Já convivemos com períodos de baixa aprovação nesses últimos 12 anos e mostramos que, com trabalho, somos capazes de recuperar", disse o ministro Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência, esse cargo que parece ter sido criado para transmitir explicações implausíveis.

Mais infeliz é o argumento de que faltou comunicação para deixar claro ao povo que os ajustes feitos agora são necessários para manter a trajetória de criação de postos de trabalho e aumento de renda. Claro, faz todo sentido: todos vamos entender que um pouco a mais de desemprego e um pouco a menos de dinheiro são bons, especialmente para garantir que o mercado financeiro aumente seus lucros mediante o aumento da taxa básica de juros e o desestímulo ao investimento produtivo.

Dilma não dá sinais de que tenha capacidade para reverter o divórcio que está ajudando a promover entre a população e o mundo da política institucional. É bem verdade que essa separação começou muito, muito antes que ela surgisse em cena, mas o cruzamento de uma série de fatores históricos e conjunturais pode fazer com que seja agraciada com o direito de jogar a pá de cal numa relação desgastada. A água de Geraldo Alckmin e a Câmara de Eduardo Cunha se somarão à herança mal resolvida das manifestações de 2013 e ao inesperado desgaste da imagem presidencial, catapultado em novembro e catalisado em janeiro.

Se a sondagem divulgada pela Folha de S. Paulo guarda espaço para uma surpresa, esta reside no fato de que Alckmin e Fernando Haddad também sofreram um enorme desgaste. Cada um por seus motivos, voltam todos a mergulhar na vala em que estiveram metidos em junho e julho de 2013. Vejamos os resultados: Dilma foi reeleita de forma sofrível graças à ajuda de uma militância que trabalhou aguerrida e calada, e aos esforços de alguns quadros políticos graúdos; Haddad perde a cada dia mais apoiadores e sofre resistências dentro de seu partido, não sabendo nem mesmo se concorre a um novo mandato em 2016; Alckmin ganhou mais um mandato de governador com os dois pés nas costas.

A conclusão que se tira disso é a óbvia: o tucano, ou as forças que ele representa, sairá deste buraco do mesmo jeito que entrou. Dilma, Haddad e o PT, não. A incapacidade de autocrítica continua como regra entre o comando petista, mesmo depois que as eleições do ano passado mostraram um partido em decadência após um período de crescimento vertiginoso garantido por um líder político único. Passado o turbilhão, as correntes que demandavam uma refundação foram escanteadas, vencidas por aquelas que consideram que o mais importante é ajeitar-se na máquina do poder e garantir um lucro individual em detrimento de uma história de lutas e avanços.

O PT, ou os quadros que mandam no PT, continuam a fingir que não são meros emergentes no meio dos quatrocentões. Hoje são chamados para as altas rodas porque bancam o baile e as bebidas. Amanhã, afastados do poder emanado do dinheiro, voltarão a frequentar o rala-coxa e o batidão, onde receberão olhares reprovadores de quem se sente traído.

“Falando francamente: muitos de nós estão mais preocupados em manter – e se manter – nessas estruturas de poder do que em fazer a militância partidária que estava na origem do PT.” Luiz Inácio Lula da Silva parece ser o único líder político que reúne os predicados necessários para algum resgate da crebilidade das instituições. Durante o discurso pelos 35 anos de seu partido, celebrados em Belo Horizonte no último sábado, ele começou mal. Apostou na retomada do Fla-Flu eleitoral, aquele que diz que a oposição não tem moral algum para criticar um partido que transformou o país. Valeu-se da ideia de que os derrotados nas urnas estão buscando abertamente a via da instabilidade, o que é verdade, mas não é suficiente: a via da instabilidade é mantida aberta por um governo que em três meses contraria todo o discurso que o elegeu, que permite o fisiologismo e a corrupção, que perde o poder da criatividade.

Lula voltou a deixar claro que entende, ao menos nas linhas gerais, o que está acontecendo: seu partido perdeu contato com a sociedade, eliminou as pontes que o garantiam o papel da inovação, frustrou admiradores novos e antigos. “Há muito mais preocupação em vencer eleições, em manter e reproduzir mandatos, do que em vitalizar o partido. As direções, tanto as regionais quanto a nacional, ficaram prisioneiras dessa lógica. Tornaram-se burocráticas, pouco representativas da nossa base social, ou então apresentam uma representação meramente artificial de setores sociais.”

Se os números do Datafolha estiverem corretos, e os dados da realidade nos permitem dizer que são verossímeis, temos uma repetição de junho de 2013 em termos de desgaste do sistema político. Por enquanto, um junho sem ruas. Vivemos uma situação pré-revolta? Se tivermos uma revolta, como será? Certamente não será a sonhada pela esquerda, aquela que conduz a uma situação protorrevolucionária capaz de finalmente assentar bases para a construção de um novo Estado – por consequência, de um novo sistema político. A famosa “voz rouca das ruas”, capturada há quase dois anos por força da mídia tradicional, transforma-se na expressão mais bruta de nosso sistema educacional político inexistente. Na hora H, sem água, sem emprego, com inflação, a imensa maioria da população não terá como expressar o que deseja que mude, por qual caminho, com quais forças. Junte-se a isso uma vontade louca de golpe branco e está feita a besteira.

“Que saiam todos”, dirão, e a resposta do outro lado será uma reconfiguração que permita deixar tudo como antes, com a diferença de que o emergente terá sido expulso do clube dos quatrocentões. Lula poderia mudar essa realidade. Em inúmeras oportunidades falou sobre a necessidade de refundação do PT. Mas reverter essa situação depende de uma característica que nunca foi a sua principal: a ruptura. As informações de bastidores têm dado conta de que o ex-presidente foi excluído dos debates governamentais pela sucessora. Se for assim, abrem-se muitas alternativas. Lula pode trabalhar por dentro para miná-la, o que leva ao risco de que acabem todos tragados. Pode romper publicamente, tentando levar consigo o PT. Ou pode assistir de camarote. Seja com Dilma, seja com o PT, seja com os demais partidos, ele terá de mostrar ousadia para não entrar no trem que leva ao Campo da Pólvora.

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João Peres é jornalista e um dos editores do Nota de Rodapé 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

No primeiro discurso, Dilma vai da repetição exaustiva à incoerência da justificativa


Presidenta rompe mês de silêncio com explicação de que ajuste fadado a provocar recessão e desemprego vai fortalecer projeto calcado em criação de postos de trabalho e crescimento. Legitima Levy e aumenta divórcio entre política e realidade


por João Peres*

Quem esperava por sinais à esquerda terá de guardar o manto da ingenuidade no armário por mais algum tempo. O primeiro discurso de Dilma Rousseff após a posse serviu para manter boquiabertos os perplexos e alegres os sorridentes. Há quem diga que o período de campanha foi de um rico aprendizado para a presidenta. Não foram encontrados sinais que transformem em tese esta hipótese. Pelo contrário.

Os esforços de retórica feitos durante os 40 minutos da fala que abriu a primeira reunião do novo ministério são louváveis. Mas não mudaram em nada a tradição de uma repetição exaustiva de parcas realizações e de contradições gritantes entre discurso e prática. Dilma buscou demonstrar que um ajuste fiscal criador de desemprego e recessão redundará num fortalecimento do projeto iniciado há doze anos preconizando a abertura de postos de trabalho e o crescimento econômico. Os elementos apresentados no discurso são insuficientes para reverter a ideia de que caminhamos para uma gestão neoliberal com resquícios de um progressismo ao qual se está atrelado muito mais pela vergonha de uma ruptura definitiva que por compromisso ideológico real.

“Os ajustes que estamos fazendo, eles são necessários para manter o rumo, para ampliar as oportunidades, preservando as prioridades sociais e econômicas do governo que iniciamos há 12 anos atrás. As medidas que estamos tomando e que tomaremos, elas vão consolidar e ampliar um projeto vitorioso nas urnas por quatro eleições consecutivas e que estão, essas medidas, ajudando a transformar o Brasil”, afirmou a presidenta.

Quem realmente acredita que as eleições trouxeram mudanças positivas na relação entre Dilma e a arte de fazer política precisa olhar com mais carinho para o primeiro mês de gestão. A exemplo do que ocorrera em 2011, a agenda presidencial se concentrou em compromissos palacianos. No vazio deixado pela ausência prosperam o boato, a mentira, a perplexidade. Suposições surgidas no primeiro mês se mostraram, infelizmente, corretas.

Se o sumiço de Dilma havia transmitido a impressão de que Joaquim Levy é um superministro da Fazenda, a presença física acabou por confirmá-lo nessa condição. “Tomamos algumas medidas que têm caráter corretivo, ou seja, são medidas estruturais que se mostram necessárias em quaisquer circunstâncias. Vamos adequar, por exemplo, o seguro-desemprego, o abono-salarial, a pensão por morte e o auxílio-doença às novas condições socioeconômicas do país.”

O malabarismo do exercício do poder é difícil em qualquer situação. Pior ainda para alguém que tem dificuldades comunicacionais severas. Durante o discurso, Dilma fez enorme esforço para dizer que este é um governo de continuidade, mas também de mudanças, ou de mudanças, mas também de continuidade. “Nossa tarefa será manter o projeto de desenvolvimento iniciado em 2003, mas dar continuidade com avanços, dar continuidade com mudanças que lhe darão, que darão a este projeto ainda mais consistência, mais velocidade.”

A repetição exaustiva da exortação de valores supostamente intrínsecos a este governo não tem ajudado nesta missão. Até onde se possa enxergar, não há comprovação de que Dilma seja cínica. É mais complexo que isso entender como se chega a uma situação em que a prática contraria o discurso. Um entorno pouco sincero, capaz simplesmente de criar um mundo de magia, e o distanciamento da realidade provocado pelo poder são hipóteses a ser avaliadas.

“Nós devemos enfrentar o desconhecimento, a desinformação sempre e permanentemente. Vou repetir: sempre e permanentemente. Nós não podemos permitir que a falsa versão se crie e se alastre. Reajam aos boatos, travem a batalha da comunicação, levem a posição do governo à opinião pública, a posição do ministério, a posição do governo à opinião pública. Sejam claros, sejam precisos, se façam entender. Nós não podemos deixar dúvidas.” É como se Felipão pedisse a seus jogadores que fossem educados, polidos e trabalhassem pela valorização dos direitos humanos.

É bem verdade que governos do PT, via de regra, sofrem com boatos e mentiras difundidos via mídia tradicional. Sem entrar na discussão sobre o quanto os próprios petistas alimentaram, com ego e informações, estes segmentos da imprensa, o fato é que neste começo de segundo mandato não é preciso apresentar qualquer distorção para que parte da população se enfureça com o governo. “Por exemplo, quando for dito que vamos acabar com as conquistas históricas dos trabalhadores, respondam em alto e bom som: 'Não é verdade!' Os direitos trabalhistas são intocáveis e não será o nosso governo, um governo dos trabalhadores, que irá revogá-los.”

O que a presidenta tem feito é aumentar cada vez mais o abismo entre a política institucional e a população. Se o Ministério do Trabalho e Emprego avalia que dois milhões de brasileiros serão prejudicados pela mudança nas regras de concessão do seguro-desemprego, como pode ser verdade que os direitos trabalhistas são intocáveis? Entre o “nem que a vaca tussa” da campanha e a ação concreta existe uma distância imensa, que encontra semelhança no espaço existente entre a afirmação de que este é um “governo dos trabalhadores” e um ministério formado por Joaquim Levy, Kátia Abreu e Gilberto Kassab. Uma vala que Dilma vai abrindo entre si e a realidade: entre si e a sociedade.

Entre as intenções concretas do governo, apenas repetições: fazer do Brasil uma “pátria educadora”, sem explicar como chegaremos lá; acelerar a agenda de privatizações de portos, aeroportos e rodovias; encaminhar para o Congresso um pacote anticorrupção; e brigar para que seja realizada a reforma política. A respeito desta, de novo, nada além da exortação que indica que o país precisa mudar as regras atuais de eleição e de financiamento de campanha. Sem explicar como e por quê, sem peitar o Congresso, não vamos além do esforço retórico.

Ao repetir o repertório relativo à defesa da Petrobras, “a mais brasileira das empresas”, Dilma incorreu em mais uma contradição: “As empresas têm de ser preservadas, as pessoas que foram culpadas é que têm que ser punidas, não as empresas.” Maltrata, assim, uma bandeira de seu próprio governo. Em 2013 foi sancionada pela presidenta a Lei 12.846, que deu um passo fundamental no combate à corrupção ao prever que corporações envolvidas em atos de corrupção sejam punidas. A legislação representou um passo enorme no campo simbólico ao nos fazer recordar que o ato de corromper precisa de dois lados: sem a ponta que suborna, compra, direciona, não há agente público que possa se envolver em desvios – malfeitos, para ficar no jargão presidencial.

Há alguns fatores que podem explicar a ideia de preservar os dedos e cortar os anéis. São bastante pragmáticas. Uma diz respeito diretamente à Petrobras, que pode se tornar inviável a depender das decisões decorrentes da Operação Lava Jato. A outra, diretamente ligada a essa, reside na visão de que a colocação de obstáculos à participação do cartel brasileiro de empreiteiras em obras públicas teria efeitos catastróficos sobre a economia nacional, incapaz de substituir as atuais corporações sem um grande intervalo no qual se teria de frear investimentos e realizações. Fácil de explicar. Não para o governo Dilma.

A primeira aparição pública após a posse serviu para que a presidenta derretesse o resto de credibilidade existente junto aos setores progressistas. À exceção dos governistas incorrigíveis que se enxergam como integrantes de uma certa esquerda, é difícil imaginar grupos que a tenham apoiado na disputa contra Aécio Neves e que ainda nutram disposição de distorcer a realidade para encontrar justificativas para o que vem sendo realizado. As pontes estendidas gratuitamente durante a campanha estão implodidas.

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João Peres é jornalista. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Carta Aberta ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

Prezado ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,

Como catarinense e, portanto, natural de um estado no qual a vitória de seu candidato foi tão marcante, me senti no direito de responder à sua entrevista pós-primeiro turno.

Como sociólogo o senhor deveria saber que um argumento, para ser considerado válido, não pode simplesmente atacar quem o defende. Quando o senhor ataca, portanto, de "ignorantes" ou "mal-informados" os que defendem o projeto petista de país, o que o senhor produz é uma falácia. O senhor certamente não faltou a essas aulas de filosofia, mais precisamente de lógica, não é?

Como político, todavia, sua entrevista reforça preconceitos, uma "excêntrica" xenofobia interna, já que o "xenos" não é estrangeiro, mas bem brasileiro, pobre, em especial nordestino. Não sei de qual teoria sociológica ou antropológica o senhor se serve para tais afirmações, mas ousaria dizer que não possuem reconhecimento científico.

Mas, como "social-democrata", me espanta ainda mais. Primeiro, porque o senhor, além de esquecer qualquer iniciativa de um estado de bem-estar social em seus oito anos neoliberais de governo, parece ter esquecido, também, o princípio básico da democracia, aquela que os Gregos nos ensinaram. Cada cidadão um voto, lembra? Não importa seu ofício, sua idade, sua origem e, diríamos hoje, gênero, raça, orientação sexual etc. Por que, então, o voto de um pobre é menos voto do que de um rico? Qual foi o tratado sobre democracia que o senhor leu e que não li, que garante essa distinção, porque eu desconheço. A democracia, "nobre" ex-presidente, é o regime do "qualquer um", lembra? Dos escolhidos à sorte pelos Gregos, já que não havia diferença entre "qualquer" Grego. Isonomia, lembra? Nome "chique", né? Certamente os Constantinos, Mervais e Azevedos que o veneram conhecem esse termo.

É, infelizmente o senhor esqueceu, ou finge esquecer para dar conta de municiar com falácias esse sentimento de rancor e de ódio que se dissemina, infelizmente, em mentes não tão brilhantes por esse país. Esses "ignorantes", que não moram nos grotões, mas bem perto de vossa senhoria, e que, infelizmente, não tiveram as mesmas oportunidades de estudo que o senhor, não sabem discernir bem um argumento de uma falácia, mas o senhor sabe, o que lhe torna mais responsável, como ensinou o nosso velho amigo Sócrates.

Da próxima vez, ex-presidente, cuide melhor de seu conceito de "democracia". Nós que votamos em Dilma sabemos bem o que ele significa. Afinal, foi um "qualquer um" que iniciou esse processo de diminuição da desigualdade social, de extinção da fome e da miséria extrema, de pleno emprego. Um "qualquer um" que fez mais universidades e escolas técnicas que "qualquer outro" presidente. Nós sabemos bem o nome desse "qualquer um" e de sua sucessora. O senhor quer que eu lhe lembre? Foi um igual à maioria dos brasileiros, não um doutor, que nos aproximou mais do verdadeiro sentido de democracia, do sentido de "povo" aí presente. Não essa que vocês tentam oligarquizar, separando os "sábios" dos "ignorantes". Sabe, ex-presidente, essa expropriação da democracia é uma estratégia política já manjada, desde os Gregos. Talvez a "intelligentsia" que o acompanha não saiba. Seria mesmo esperar muito de quem pensa a democracia a partir de Veja, Folha, Globo e seus similares, não é?

Mas pode deixar. Nós, os "burros" e "mal-informados" eleitores de Dilma podemos relembrá-los, sempre. Nós continuaremos por aqui. A "raça" do PT continuará, mesmo que o instinto totalitário de muitos nos queiram ver eliminados. Nós lutamos pela democracia e a respeitamos. Por isso a vitória de seu candidato, se vier a acontecer, não será objeto de ódio e preconceito. Aceitaremos. Afinal, cada voto, vindo de onde vier e proferido por quem for, assim o quis. E a vontade do povo é soberana. "Ignorante" ou "sábia", pouco importa à democracia.

Cordialmente,

Vinicius B. Vicenzi (Especial para o Nota de Rodapé)
Doutorando em Filosofia na Universidade do Porto (Portugal).

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Meu voto terá que ser rápido

por Moriti Neto*

Domingo das crianças para muitos. Outros comemoravam o dia da padroeira santa do Brasil. Em mim, neste dia 12 de outubro, prevaleceu a onda de calor escaldante, além de imagens e palavras devastadoras. Não me bastasse escutar atentamente Marina Silva anunciar o apoio a Aécio Neves, coloquei em prática a infeliz ideia de assistir aos vídeos da propaganda eleitoral de quinta-feira passada, a primeira do segundo turno da eleição presidencial, já que não os tinha visto na data da veiculação. Apenas li e ouvi comentários. E entre ouvir falar e ver com os próprios olhos a presença da senadora ruralista Kátia Abreu (a rainha da motosserra) no programa que inaugurou a participação da petista Dilma Rousseff na reta final da disputa à Presidência da República, a distância foi grande. O tamanho do choque causado pela fofoca da infidelidade é um. Ver com os próprios olhos – e acompanhado de milhões – a pulada de cerca é multiplicá-lo.

Vai-se, de vez, a esperança de eleições civilizadas. Se antes guardava a expectativa de uma disputa mais progressista em relação a 2010, pelo carregar da potência política representada nas figuras de duas mulheres com formação de esquerda reunindo chances reais de conquistar a presidência, hoje vejo muitas semelhanças negativas na comparação entre Dilma e Marina. Semelhanças que me fazem ficar na corda bamba para definir o voto.

Pois se a propaganda eleitoral de Dilma foi irresponsável e apelou à indefensável tática do medo para agredir Marina no primeiro turno (tática do medo baseada em especulações ameaçadoras que tantas vezes vitimaram odiosamente o PT de Lula), não foi menos a atitude da ex-ministra do Meio Ambiente de apoiar o PSDB. Com a falácia de que o PT é uma “ameaça à democracia”, ela vitaminou o ódio ao PT, o que acirra ânimos ao limite, este sim, perigoso para o regime democrático.

Porque se muitos petistas mandaram golpes abaixo da linha de cintura de Marina, até apelando para o preconceito contra a fé religiosa da adversária, a decisão de apoiar o tucano é calcada no ressentimento. Assim, consolidou-se o cenário que espalha o ódio, a irracionalidade e o reforço de estereótipos de lado a lado. Tudo de ruim somado, só reforça a despolitização, numa eleição de nível já tão rasteiro.

Politização, aliás, é algo que ambas dilaceram. Pois se Marina foi eficaz em “despolitizar a política” desde 2010, principalmente quando se posicionou (ou não se posicionou) como “nem de esquerda nem de direita”, agora conseguiu piorar, com essa aproximação a um Aécio que não tem nada de proposta e só vocifera o discurso moralistóide do antipetismo. Quanto a Dilma, ela impregnou o governo de um perfil gerencial e frio, com fetiche pelo crescimentismo. Salvacionismo de uma parte. Redução da política ao “gerencialismo” de outra.

E o gerencialismo míope de Dilma é grave, incapaz de enxergar além do consumo interno desenfreado e da consequente exploração voraz dos recursos naturais como soluções à economia. Consumo que faz o cidadão trabalhar demais e abrir mão da qualidade de vida sem nenhuma preocupação ambiental. Não à toa, o governo gerido pelo partido que tem origem no trabalho recebe com tamanha insensibilidade a pauta sindical que reivindica a jornada de 40 horas semanais. Não à toa, a já citada ruralista Kátia Abreu (PMDB-TO) tem o espaço que tem no governo atual de Dilma e, como mostra a propaganda eleitoral, seguirá tendo, num eventual segundo mandato. Pois a senadora que já foi do DEM e se reúne com a presidenta bem mais do que os movimentos sociais, é representante ativa da indústria do agronegócio, mola-mestra do economicismo nada criativo da administração dilmista. É simbólico demais que, ainda durante a busca por votos, figuras nefastas que defendam interesses relacionados à grilagem de terras, ao trabalho escravo e aos crimes ambientais surjam como propagandistas governamentais.

Não que Marina fosse capacitada para resolver o dilema do crescimentismo. Afinal, ela, que dizia querer colocar a ecologia no centro do debate político-eleitoral, manifestou apoio ao único presidenciável que recebeu doação de campanha de empresa denunciada por trabalho escravo e cujo partido está fortemente ligado à defesa de empresários madeireiros, que desmatam como poucos no Paraná, Pará e Minas Gerais, só para ficar em alguns estados. Minas, inclusive, foi primeiro colocado no desmatamento da Mata Atlântica de 2009 a 2013, justamente nos dois últimos anos da gestão de Aécio Neves e no mandato de seu sucessor, o também tucano Antonio Anastasia.

Dessa maneira, segue a devastação de matas, que atinge indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Nos últimos tempos, esses povos tradicionais sofreram a quase ausência de demarcações de terras. O governo de Dilma os vê como entraves ao crescimento da economia e, nos extremos, como inimigos políticos. Inimigos que a administração federal também viu nos manifestantes contra a Copa do Mundo, até naqueles que protestavam por terem sido removidos de suas casas para a realização de “obras de infraestrutura”. Seja para a construção de hidrelétricas, no primeiro exemplo, ou para o erguimento de estádios, no segundo, é o desenvolvimento obcecado por obras gigantes a atropelar os direitos de muitas pessoas.

Sim, eu sei que o governo de Aécio seria um desastre, principalmente alinhado ao Congresso ultraconservador que foi eleito para a próxima legislatura, em que a afinidade ideológica com o Executivo facilitaria a aprovação de medidas fascistas, como a redução da maioridade penal. E Marina Silva, querendo ou não, teria responsabilidade nisso. Ela era consciente a respeito dos métodos truculentos do tucanato (por exemplo, os do governador paulista Geraldo Alckmin, de repressão violentíssima a movimentos de moradia, manifestações de rua e sindicatos) quando decidiu colaborar publicamente com a candidatura do PSDB.

Não votarei no tucano, óbvio. Isso nem me passaria pela cabeça, mas votar em Dilma e acreditar que o segundo mandato dela será mais à esquerda do que o primeiro, me parece uma ideia frágil. Fico a imaginar como isso ocorreria se, apesar de contar com apoio de boa parte do Congresso e alta aprovação popular até junho de 2013, ela se negou ao protagonismo e retrocedeu, quando nem precisava dos votos de deputados e senadores. Foi exatamente assim no caso da distribuição do kit anti-homofobia em escolas públicas pelo Ministério da Educação, que um veto da própria presidenta impediu no primeiro semestre de 2011.

Porém, por contraditório que se evidencie aqui, o medo me ganhou. E uma vez que os governos do PT tiraram milhões da miséria – e essencialmente Lula merece que eu tire o chapéu para isso – ainda que não tenham avançado na distribuição de renda real, o que poderia ser feito com reforma agrária e reforma tributária progressiva (isso mexeria no bolso dos mais ricos, não é?), e mantiveram as condições do trabalhador dentro de patamares minimamente aceitáveis, votarei em Dilma para tentar escapar da barbárie que seria uma direita moralista e fascista de posse da Presidência da República.

De qualquer forma, mancarei ideologicamente até o dia 26 de outubro. Não consigo considerar avanços sem mensurar retrocessos. Meus dedos terão que ser rápidos na urna. Se pensar demais, tasco um 00.

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Moriti Neto, jornalista e colunista do Nota de Rodapé onde mantém a coluna Escarafunchar 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Eleições 2014 na América Central: o que está em jogo

por Aleksander Aguilar*

Amanhã (2 de fevereiro) é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.

De forma geral veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.

Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos em tese com o social.

Na década de 90 as forças políticas ligadas a esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.

Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, aliás, também em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais a pouco estabelecidas.

Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE dos Zelaya rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influi nos rumos do governo. Na Nicaragua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E na Costa Rica a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.

O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão de estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.

Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de “cambio” proposto por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam. O atual candidato da FMLN, Salvador Sanchez Ceren, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.

Na Costa Rica as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional, e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio, e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.

O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites, e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A recepção


por Celso Vicenzi*

 - Pode entrar, Marina, sinta-se como se a casa fosse sua... até uma rede mandei instalar!

- Eduardo, não me fale em rede, por favor. O tombo foi grande.

- Entre, não repare a bagunça. Não deu tempo de organizar uma festa, foi tudo tão de repente. Como a senhora disse que nenhum desses partidos a representava, já tínhamos perdido as esperanças.

- Pior pra mim, que perdi a rede. Tudo culpa dos cartórios.

- Mas, cá entre nós, a senhora não acha que também teve alguma culpa no cartório?

- Eu não, Eduardo. Sempre fui uma moça tímida, evangélica, casada na igreja. Apenas não tinha ainda conseguido arrumar um bom partido, mas aí, com jeitinho, você tocou no meu ponto fraco.

- E qual é?

- É derrotar a velha política deste país. Posso não ter conseguido fundar um partido – afinal, não é tarefa fácil; temos só 32! –, mas sinto-me preparada para governar o Brasil.

- Calma, Marina, vamos com calma. Sobre isso a gente conversa depois... deixe-me apresentar nossos companheiros. Este é Jorge Bornhausen, que trouxe também o filho (o neto ainda não tem idade hehehe!).

- Bornhau... Bornhausen? Que surpresa! Não sabia que você tinha se tornado socialista.

- É a política, Marina, sempre mudando. Mas sempre me interessei pelo Capital.

- O Capital, de Marx?

- Não, o meu capital. Como é enorme, eu costumo citá-lo em maiúscula, entende?

- Não muito, ainda... mas estou recém-chegando, não é, Eduardo?

- Exato, Marina, você verá que estamos levando a mensagem do socialismo a todas as pessoas. A começar pelos mais renitentes, que são justamente os capitalistas. Ah, este é Heráclito Fortes, que você conhece do Congresso.

- Heráclito? Você também aqui?

- Pois é, Marina, uma hora tô aqui, outra ali. É a minha trajetória, que começou na Arena, depois PMDB, depois PFL, depois o DEM e agora aqui no Partido Socialista Brasileiro, onde finalmente encontrei velhos companheiros.

- Mas e aquelas conversas reveladas pelo WikiLeaks, em que você sugeria ao governo norte-americano estimular a produção de armas no Brasil para conter supostas ameaças de Venezuela, Irã e Rússia?

- Justamente, precisamos conter o comunismo e estimular o socialismo ao estilo brasileiro, moreno, alto, bonito e elegante como Eduardo Campos. Você fez uma ótima opção, seja bem-vinda!

- Eduardo, e quem mais vai estar conosco nessa disputa eleitoral. Eu preciso saber. Tem colega que não posso ver nem pintado.

- Pintado, não, nunca. No máximo caiado. Estamos tentando trazer o Ronaldo Caiado, outro jovem com muito futuro no socialismo.

- Mas Eduardo, ele sempre votou contra o meio ambiente. Como é que fica o meu discurso?

- Ô Marina, é só fazer umas pequenas adaptações. Muda uma vírgula aqui, umas 30 páginas ali e pronto. Relaxa, Marina, o Caiado é aliado do PSB em Goiás e defende adesão integral do DEM ao projeto socialista.

- E você garante que esse projeto tem sustentabilidade? Sinto falta do apoio de uma rede...

Não se preocupe, a Rede Globo estará conosco! Somos o novo. E o que é novo é verde. Verde... meio ambiente..., viu, temos muito em comum. Se você me der licença, tenho uma reuniãozinha rápida com a bancada ruralista sobre o Código Florestal. Se quiser deitar na rede, fique à vontade!

* * * * *

*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Marina é só mais uma reprodução do sistema

por Moriti Neto*

Em agosto de 2009, Marina Silva, recém-saída do PT, e um grupo de apoiadores, embarcavam no PV e já diziam: “Chegou a hora de acreditar que vale a pena, juntos, criarmos um grande movimento para que o Brasil vá além e coloque em prática tudo aquilo que a sociedade aprendeu nas últimas décadas, experimentando a convivência na diversidade, a invenção de novas maneiras de resolver problemas solidariamente... Agindo em rede, expandindo e agregando conhecimento sobre novas formas de fazer, produzir, gerar riquezas, sem privilégios e sem destruição do incomparável patrimônio natural brasileiro”. E isso não era de boca, mas parte do documento “Juntos pelo Brasil que queremos – diretrizes para o programa de governo”, que expressava a motivação ao ingressar no partido e que a colocava declaradamente na disputa à Presidência da República nas eleições de 2010.

O projeto, no entanto, teve curta duração. Era 7 de julho de 2011 quando Marina anunciava a desfiliação do PV, onde obteve quase 20 milhões de votos na eleição presidencial. De saída, ela e os apoiadores que a acompanhavam na decisão ressaltavam que a direção do partido “disse não à democratização de suas estruturas institucionais, ao diálogo com a sociedade e a um projeto autônomo de construção partidária”. Na época, se tivesse sido eleita presidente, teria completado apenas pouco mais de um semestre de mandato a bordo da sigla verde.

Lembro que, naquele momento, vieram diversos questionamentos: se Marina tivesse vencido a eleição, sairia do PV? Se sim, governaria como? Abdicaria de filiações partidárias? Como costuraria a base no Congresso Nacional? A ex-senadora se considerava mesmo a figura messiânica, salvadora, que os críticos da personalidade dela apontavam? Se não saísse, ignoraria a descoberta da incompatibilidade declarada com os pevistas e seguiria o governo sem abrir o debate?

O fato é que Marina Silva, sem conseguir ocupar espaços no PV, pedia desfiliação e acusava o partido de não ser o local adequado para as bandeiras que portava. Ancorada na boa capacidade discursiva que possui, ela buscava sustentar a posição, mas não deixava claro como só descobriu, de uma hora para outra, que a mesma agremiação avaliada como ideal para praticar propostas baseadas na “coerência programática” – por ela tão decantada – era, então, imprópria.

E foi na "fundação” do Rede Sustentabilidade, no dia 16 de fevereiro de 2013, num encontro batizado de “Encontro Nacional da Rede Pró Partido”, em Brasília, que aparecia a alternativa de Marina às eleições de 2014. Era na “Rede Pró Partido, mas que não é partido”, que ela, a "diferente", buscava encaixar o discurso da realização da “nova política”.

Em declarações perigosamente despolitizantes e até antipartido, a potencial candidata tentava se autocolocar como “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. Ao mesmo tempo em que falava de diálogo horizontal com a sociedade, aparecia como a “salvação”. Posturas perigosas à democracia, o que, aliás, eu já observei em texto anterior.

Enfim, eis que Marina Silva, com a recusa da Justiça em legalizar o Rede, vai ao PSB de Eduardo Campos. É a mesma toada. Na campanha, o discurso que clama por um “sistema ideológico” e luta contra o pragmatismo, colocando a candidata como a mais alta defensora do interesse público e das “questões maiores”, a exemplo da rápida passagem pelo PV, quando era o “fator diferente” da corrida presidencial e possibilidade de acabar com o “mais do mesmo” (que realmente é mais do mesmo) do “Fla x Flu” entre PT e PSDB.

Só que, na prática, o que se constata é a ida a um partido de perfil governista-pragmático (o PSB é, ainda, base do Governo Federal e governa com petistas e tucanos em vários estados), entregue a caciques da direita conservadora Brasil afora e que, em momentos decisivos, vacilou no debate de itens fundamentais ao meio ambiente, caso do Código Florestal, tema central na vida política de Marina.

Rumo ao PSB, lá vai a ex-ministra do Meio Ambiente se enfileirar a Bornhausens, Caiado e companhia. Novidade? Não. Somente mais uma reprodução comum do nosso horrível sistema de democracia representativa, onde estão sempre dadas as oportunidades ao desequilíbrio na representatividade da sociedade e à hipocrisia, como a de Marina que, de diferente, não tem nada.

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Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR. (Imagem: www.minhamarina.org.br)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Como vota Sua Excelência?


por Celso Vicenzi*

Virou clichê dizer que “todos os políticos e partidos são iguais”. É essa também a impressão de uma grande parcela de cidadãos que aderiu às manifestações em todo o país. Para chegar a essa quase-certeza (ou certeza, para os mais convictos), houve a colaboração intensiva da mídia no dia a dia da cobertura política. É verdade que boa parte dos políticos tem contribuído para que essa percepção prevaleça. Mas esse sentimento quase unânime foi também habilmente construído pelos meios de comunicação. Pura e simplesmente por omissão, por sonegar informação ao leitor, ao radiouvinte, ao telespectador, ao internauta.

Não interessa aos donos da mídia dizer “quem é quem” no cenário político nacional, estadual e municipal. Por isso, com raríssimas exceções, a cobertura de votações importantes costuma trazer apenas o resultado, sem mencionar claramente como votaram os partidos, os vereadores, os deputados e os senadores. Pode-se alegar que, nos veículos impressos ou na TV, não há espaço e tempo para tanto detalhamento. Dependendo da importância do que está em votação, por que não? Em que manual está escrito que não pode? Depende de que tipo de jornalismo se queira fazer. Na mídia impressa, certamente há espaço – que não ocupa mais do que um parágrafo – para indicar pelo menos o voto dos partidos. Idem nas TVs e rádios. São informações que não deveriam ser omitidas, sob pena de a população nunca saber como votam os seus representantes nas questões mais essenciais. Quem tem feito esse papel, com as limitações evidentes de alcance, tem sido as redes sociais.

A diferença de posições ideológicas entre os partidos, apesar dos pesares, fica evidente, por exemplo, no caso recente da votação de uma Moção de Repúdio à espionagem norte-americana que acessou bilhões de emails, telefonemas e dados de empresas e cidadãos brasileiros, além do governo. A Moção foi apresentada pelo deputado federal José Guimarães (PT) e aprovada por 292 votos. No entanto, 86 deputados votaram contra e 12 se abstiveram de aprovar um documento que se posiciona em favor da soberania brasileira e pede uma solução internacional para a violação do direito à privacidade e do sigilo que envolve as relações entre empresas e países. Quem votou “sim” expressou também “concordância com as iniciativas destinadas a criar uma agência multilateral, no âmbito do sistema das Nações Unidas, para gerir e regulamentar a rede mundial de computadores, poderoso instrumento de uso compartilhado da humanidade”. E externou, ainda, “apreensão com a segurança do cidadão norte-americano Edward Snowden, que está refugiado, há dias, no aeroporto de Moscou”.

Certamente há razões para tantos parlamentares manifestarem-se contrários ou absterem-se de apoiar uma moção contrária à violação das leis internacionais, que o governo brasileiro – e outras nações – classificaram como muito grave. O que importa, no caso, não é discutir o mérito. Mas observar que os partidos identificados mais à esquerda votaram unânimes pela aprovação. Quando se identificam os votos, o eleitor tem a chance de saber quem de fato o representa.

Neste caso, dos partidos maiores, votaram unânimes pela Moção o PCdoB (11 votos), PDT (24 votos), PT (70 votos), PPS (9 votos), PRB (9 votos) e PV (8 votos). Foram acompanhados pelo voto uniforme de partidos menores como PEN (2 votos), PHS (1), PSL (1), Psol (2), PTdoB (2) e o voto do catarinense Jorge Boeira (sem partido). Votaram contra: DEM (16 dos 20 votos), PMDB (11 contra e uma abstenção, de um total de 64 votos), PMN (2 contra em 3 votos), PP (17 contra em 24 votos), PR (4 contra e uma abstenção, em 24 votos), PRP (um contra e um a favor), PSB (2 contra e uma abstenção, em 21 votos), PSC (8 contra em 10 votos), PSD (20 contra em 32 votos), PSDB (3 contra e 10 abstenções) e PTB (2 contra em 13 votos).

Se houvesse uma prestação de contas rotineira, certamente seria possível que uma parcela cada vez mais significativa da população compreendesse que, mesmo numa época em que as cores partidárias perderam muito da sua autenticidade programática, é possível, sim, perceber diferenças muito claras entre os partidos e os parlamentares. Os brasileiros e brasileiras têm o direito de saber como votam os parlamentares. E a mídia do país tem o dever de mostrar. Se não o faz, é porque tem interesse em desinformar. E impedir que o cidadão identifique, com mais clareza, quem de fato o representa.


*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!” Estreia hoje no NR sua coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Nota sobre Feliciano como presidente da CDHC


por Cidinha da Silva*

O tempo e a movimentação da notícia na Internet são vorazes e dilacerantes. E ninguém quer ser engolido. Todos os que navegam pelo cyberespaço tentam emitir uma opinião original, autoral, sobre o tema da página de rosto naquele minuto, naquele segundo. Na pressão de dizer qualquer coisa, muita gente se perde e transforma coisas de fundo em questões pontuais e vice-versa.

Face à avalanche de notícias sobre Marco Feliciano, deputado sabidamente racista, homofóbico e misógino, eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (CDHC), apareceram pessoas dizendo que o movimento Fora Feliciano transformou um quase nada em pop star. Típica compreensão de quem troca uma questão de fundo por algo superficial, de quem tem necessidade de oferecer uma opinião divergente com o objetivo de conquistar algum espaço ou seguidores.

Uma coisa é a percepção de que o mar da Web tem ondas e tem um pessoal que só se movimenta na crista. Se quem está no topo das demonstrações homofóbicas é Cláudia Leite, com o filho que não será gay porque será bem educado, vamos a ela. Se é Joelma afirmando que os gays podem ser recuperados tal qual os dependentes químicos, a ela. Se é Feliciano com seu vasto leque de imbecilidades perigosíssimas, a ele. Faz-se muita espuma e pronto. Com as denúncias de racismo, de violência contra a mulher e outras, também ocorre o mesmo. Mas mesmo esse movimento sazonal tem valor, é bom considerar, pois é sinal de que alguma movimentação acontece na terra, para além do burburinho do mundo da fofoca e das celebridades.

Outra coisa é compreender os movimentos internos do mar provocadores das ondas, aquilo que acontece antes da produção da espuma. Os níveis profundos da água que mantêm-se intactos à ação de um tsunami.

O movimento pela queda de Feliciano abriga questões de fundo, a saber:

1 – Escancara os acordos espúrios dos partidos políticos em busca de poder no Congresso e as estratégias condenáveis para sustentá-lo a qualquer custo (partidos de esquerda preferiram comissões mais importantes e relegaram a de direitos humanos ao PSC, que, por sua vez, indicou Feliciano para presidi-la).

2 – Traz a público para muita gente boa que vive no país de Alice, a crueza, a tacanhice e o perigo do processo de lobotomia e especulação financeira, dentre outros males, que gente como Feliciano realiza com pessoas que a gente boa considera desprezíveis e descartáveis na sociedade de consumidores, celebridades e gente “pensante”.

3 – Coloca nas primeiras páginas dos jornais o projeto político em curso de teocratização do Estado e exploração da fragilidade humana por meio da construção de uma fé que alicia pessoas pouco críticas e muito desesperadas, desesperançadas.

4 – Possibilita o debate agregado de temas como homofobia, racismo, misoginia, laicidade do Estado, mostrando sua operacionalidade conjunta em detrimento de direitos humanos e de cidadania, e em benefício da perpetuação do escárnio virulento à diversidade humana.

5 – Abre espaço para que os setores progressistas e pró-diversidade do segmento evangélico manifestem-se com um não rotundo ao atraso e à canalhice representados por Feliciano.

6 – Abre o debate público sobre a atuação da bancada evangélica, a mais ausente, inexpressiva e processada. Todos (a transparência Brasil disse TODOS) os deputados que a compõem respondem a processos judiciais. 95% deles figuram na lista dos mais faltosos às sessões de trabalho. Registre-se que na última década não houve um só projeto de expressão, ou capaz de mudar a realidade do país, encabeçado por um parlamentar evangélico.

7 – Um deputado que pede a um fiel de sua igreja a senha do cartão eletrônico para debitar diretamente o dízimo, para quem não existe necessidade de uma lei punitiva para as práticas homofóbicas, pois, nesse diapasão, precisaríamos também de leis para punir a discriminação ao “caolho” e ao “banguelo” (expressões usadas por ele), não pode presidir uma pasta de direitos humanos, porque sua prática e discurso contradizem a essência mesma do que sejam direitos humanos. É um acinte aos direitos humanos admitir que o presidente da comissão parlamentar dedicada ao tema ignore um assassinato de pessoa LGBT a cada 26 horas no Brasil.

É em nome disso e muito mais que a sociedade civil se levantou contra esse sujeito. Contra tudo de autoritário, retrógado e desumano encarnado por sua figura rastaquera. Portanto, não se trata de promover um Zé ninguém a pop star, como os marinheiros de primária viagem têm dito por aí.

O movimento Fora Feliciano (composto por diversas motivações e personalidades, como todo movimento social) é uma reação libertadora, autoral e saudável ao risco nefasto de sucumbirmos como seres humanos ao aceitar, calados e impassíveis, a presença dessa besta do atraso na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, como simples sub-produto de um jogo político sujo.


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O partido de Marina Silva em oito (curtos) parágrafos


por Moriti Neto*

Não é fácil compreender a essência das propostas do recém-anunciado Rede de Sustentabilidade. O “partido que não é partido”, da ex-senadora Marina Silva, dona de quase 20 milhões de votos nas últimas eleições para a presidência da República, é atravessado por flacidez argumentativa.

Durante o último Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira, dia 18, em que este colunista do NR esteve presente na bancada de tuiteiros, a nova querida da mídia tradicional mostrou que, além da busca por uma agremiação, tenta encaixar um discurso de pura espuma.

Discurso, aliás, que ficou ainda mais na superfície com a ausência do debate sobre a visão de Marina a respeito dos direitos civis e a hipócrita ideia de plebiscitar – caso seja eleita presidente – questões como descriminalização do aborto, da maconha, e reconhecimento do casamento gay, sabendo antecipadamente que elas sairiam derrotadas pelo conservadorismo da maioria. Isso, sem mencionar a postura a favor do ensino religioso na escola pública.

Alguns conceitos encerrados em frases como “nossa Rede vem para trazer protagonismo aos diversos setores da sociedade, algo que as siglas atuais não atendem” e “não somos nem de esquerda nem de direita, estamos a frente, somos pela sustentabilidade”, soam rasos vindo de alguém com a bagagem intelectual e política de Marina.

Sobre protagonismo e sustentabilidade, são muito mais slogans de campanha do que propriamente propostas. Como falar em formação de protagonismo político sem clareza de quem é a base social do tal Rede? Aliás, a líder do projeto chega, de forma generalizante, a afirmar que o formato da sigla permitiria que empresários e trabalhadores, entre outras categorias de atores pouco claras, lutem por uma causa. Daí entra em cena a ideia simplista de sustentabilidade. Seria ela a linha condutora, a causa comum entre classes distintas. De novo, o palavrório aponta para um conceito de rede capaz de envolver diversos grupos em torno da defesa do desenvolvimento sustentável. Porém, o que é sustentabilidade para o pobre? E para o rico? Como encara a ideia um megaempresário do agronegócio? E um índio?

Nesse raciocínio, se apresenta a parte que julgo mais preocupante por trás de seu discurso e dos “sonháticos da nova política”: é que jogar na vala comum as definições de esquerda e direita, como se a responsabilidade sobre alianças que buscam a governabilidade fossem apenas opções partidárias, enfraquece o debate necessário quanto a validade do nosso sistema de democracia representativa, construído pela e para a elite, gerador de grandes desequilíbrios na representatividade proporcional da sociedade.

O argumento de nem esquerda nem direita esvazia o debate, desideologiza, e deveria causar arrepios em quem se diz progressista. Nos anos 1990, a estratégia de radicalização da receita neoliberal passava justamente por colocar a ideologia a escanteio e reduzir as disputas políticas a critérios de avaliação dos “melhores gerentes”. Foi um momento de pobreza intelectual que paralisou movimentos sociais e diminuiu espaços para conquistas populares.

Com um emaranhado de frases de efeito, como “quero democratizar a democracia” (???), Marina Silva, até agora, diz mais do mesmo conteúdo em nova embalagem. E o pior: o tom de que nenhum partido existente serve à construção de seus projetos e que o Rede de Sustentabilidade é o paraíso dos puros de coração, a arremessa ao salvacionismo, que serve, historicamente, aos interesses de grupos reacionários.

*Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar. Foto: Pedro Ladeira/AFP

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A síndrome Safatle/Dutra – parte II

por Izaías Almada*

 “Ao afirmar que os condenados do mensalão não seriam desligados do partido, ao aceitar organizar uma contribuição para manter tais condenados a pagarem as multas aplicadas pelo STF e, agora, ao achar normal que alguém condenado em última instância assuma uma vaga no Congresso, o PT age como um avestruz que coloca a cabeça na terra e erra de maneira imperdoável” Vladimir Safatle em artigo na Folha de S. Paulo

“... todos os que o conhecem nunca tiveram um minuto de dúvida quanto à sua integridade de caráter e quanto à limpidez de sua trajetória de vida. Entre eles estou eu, admirador que sempre o considerou um militante exemplo pela sua dignidade, a coragem e a lucidez...” Prof. Antonio Candido, em carta ao deputado José Genoíno

Com a contextualização em relação ao título desses meus artigos feita no primeiro deles atempadamente pela amiga Conceição Lemes – do VIOMUNDO – volto ao assunto sobre as opiniões do professor Vladimir Safatle e do ex-governador gaúcho Olívio Dutra. Vamos em frente.

Em 1997 tive o privilégio de coordenar, junto com os jornalistas Granville Ponce e Alípio Freire, o livro de memórias de prisioneiros políticos Tiradentes: um presídio da ditadura. Privilégio acrescido com a honra de ter como apresentador da obra o professor Antonio Candido de Mello e Souza, um de nossos mais brilhantes intelectuais.

No seu prefácio, o professor Candido destaca o seguinte trecho dos organizadores à página 16, referindo-se aos memorialistas: “Ninguém é vítima ao aderir a uma causa (a opção pela luta armada) de livre e espontânea vontade, mesmo considerando a possibilidade de uma ou de outra falha no recrutamento de um militante. É curioso notar, inclusive, que de todos os textos que recebemos, não há nenhum em que o autor faça qualquer alusão a uma eventual condição de vítima daquele processo de luta política. E só não comete erros quem não ousa”.

De certa maneira, a autocrítica daquele processo de ousada luta política foi feita por muitos que após e experiência da luta armada se incorporaram à criação do Partido dos Trabalhadores, que teve o professor Antonio Candido como um de seus fundadores. Autocrítica que pressupunha a crença em valores democráticos ainda por conquistar. Entre eles estavam José Genoíno e José Dirceu.

Vencida a ditadura em alguns dos seus aspectos mais sensíveis e visíveis, como a liberdade de reunião e a volta dos sindicatos, das organizações estudantis, o fim da censura a imprensa, a retorno do ‘habeas corpus’, o direito de ir e vir, o cessar das mortes e desaparecimentos de opositores ao regime, parte representativa da esquerda e não só, organizou e fundou o PT. E partidos políticos, ao que se sabe, se organizam para chegar ao poder político, como é óbvio, e se possível chegar ao mais alto cargo governamental republicano, o que foi conseguido em 2002 com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Refém de uma economia de mercado atrelada aos interesses rentistas e corporativos, nacionais e internacionais, bem como de um quadro político partidário anômalo, fisiológico e bastante conservador, o PT – como qualquer outro partido de esquerda progressista e democrático – apesar das seguidas vitórias eleitorais viu-se jogado às feras numa arena onde a platéia dividia-se entre a esperança e o medo. Diariamente, desde então, jornais, rádios, televisões, revistas semanais vêm tentando colocar o PT, seus militantes e seus eleitores no “seu devido lugar”. A Casa Grande mostrava e continua a mostrar as garras por meio dos seus porta-vozes.

Visto pelas lentes da dialética pode-se dizer que para os seus eleitores, o PT trouxe a esperança; para os adversários, em particular os mais conservadores, o medo, o receio. Quem não se lembra da campanha contra Lula em 1989? Do ponto de vista interno, entretanto, há o natural medo de não se corresponder à imensa responsabilidade de governar o país consoante as expectativas criadas e, na contramão desse medo, a esperança dos adversários pelo fracasso nesse sentido. E governar não é ir para um baile de debutantes ou praticar boas ações para ganhar o reino dos céus. Essa, quando muito, será a visão edulcorada de um medievalismo tardio, de uma cultura acadêmica afrancesada, de tempos inquisitoriais ou de exacerbado e ingênua recato quase religioso diante do poder econômico dominante.

Passados poucos mais de 40 anos, nos quais muito se fez para o estabelecimento de um pensamento único no mundo, após a queda do socialismo real na Europa, proclamando-se para isso até o fim da História, os vários discursos neoliberais vão tendo vencidas as suas datas de garantia de uso, a última delas em 2008, já com algumas trombetas de alarme soando na Europa, nos EUA e no Japão para dias futuros.

Também após esses 40 anos é possível encontrar a sensibilidade e a solidariedade, entre centenas de milhares de brasileiros, de um professor Antonio Candido, por exemplo, que atento ao que se passa à sua volta, escreve a carta que escreveu ao deputado José Genoíno Neto, de cabeça erguida, ao contrário de outros que abandonaram, senão a luta, os caminhos escolhidos pelo PT.

Também durantes esses 40 anos, novas gerações de brasileiros se formaram e se prepararam para as mais diversas atividades no campo do saber e do fazer. E cada geração, mesmo bebendo nos clássicos a sua formação e especialização, e amparada pelo conhecimento já comprovado e contínuo pelas ciências exatas ou humanas, sabemos que será sempre influenciada pelo confronto das idéias no seu dia a dia, por novas descobertas e avanços da humanidade. Ou por teorias ainda carentes de comprovação, quando não estas são lançadas apenas como estratégia de espalhar a dúvida e a confusão. Nesse confronto, nessa batalha de idéias, será preciso algum discernimento e, se necessário, saber remar contra a maré, quando for o caso.

Para os mais novos haverá sempre a tentação de reinventar a roda ao assumir a realidade do dia a dia como sendo a expressão de toda e qualquer realidade. Pedir a um partido que faça autocrítica das suas ações no atual contexto da política brasileira é direito que assiste a qualquer cidadão. Até porque, as condenações de uma ação penal ainda não concluída, é bom lembrar, não o foram em “última instância”, mas em única instância. Contudo, é preciso distinguir, no caso do PT, se tal avaliação provém de uma reflexão histórica consistente de quem vive o jogo político por dentro ou é fruto de um desejo subjetivo de escaramuças intelectuais obtidas em salas acadêmicas e redações midiáticas. Ou como diria o grande filósofo Millôr Fernandes: “Certas coisas só são amargas, se a gente as engole”.

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Cuidado, a alienação é um atalho para o fascismo


O mínimo que a situação política e econômica do mundo atual exige de cada um de nós é a reflexão séria, razoável conhecimento da história e da formação das ideologias e, sobretudo, paciência nos embates teóricos, nos confrontos com a práxis fascista que, aos poucos, com o enfraquecimento do campo socialista em países como o Brasil, foram se tornando aqui e ali protagonistas de alguns dos nossos acontecimentos históricos mais recentes.

Em outras palavras: o atual confronto de ideias entre o capitalismo neoliberal, parcialmente combalido, e a busca de alternativas ao seu já provado e nefasto exercício e sua prática perversa, necessita passar por um rigoroso e efetivo diagnóstico. Sob pena de vermos o século XXI repetir, com outras características e outros atores – é claro – as crises de 1914 e 1929, onde duas guerras mundiais subiram à ribalta e explodiram em meio a uma notável divisão ideológica, com a ascensão e o confronto das ideias fascistas e comunistas.

Já não é novidade para aqueles que ainda se preocupam com essas questões observar que, ao se sentir ameaçado em alguns de seus pilares de maior sustentação – e a especulação financeira desenfreada e desregulamentada da segunda metade do século XX se tornou um deles – o capital reage com a violência que é da sua natureza. E se possível com a violência da guerra. Volta-se inexoravelmente contra os trabalhadores e todos aqueles que dependem apenas da força do seu trabalho para sobreviver com um mínimo de dignidade. Os exemplos capitaneados pela dupla Washington e Londres não nos deixam mentir.

O instinto de sobrevivência do capitalismo, se assim posso me expressar, tem atingido alguns níveis inimaginados até mesmo pelos seus mais exaltados defensores, os seus domesticados e ao mesmo tempo agressivos think thanks...

Institutos de pesquisas científicas, de pesquisas comportamentais e de publicidade, os mais sofisticados; o uso da tecnologia de ponta – informatizada ou não – com o entretenimento sendo dirigido com técnicas sutis de manipulação do pensamento; o uso descarado da propaganda subliminar, da chantagem política e econômica com o uso da força militar convencional ou mesmo nuclear; a mídia seletiva organizada na direção da despolitização do cidadão comum; a indisfarçável tentativa de estabelecer o pensamento único e o fim da História; a imposição de um falso conceito de democracia, a judicialização e criminalização da atividade política, tudo isso e mais alguma coisa tem lançado a cada dia que passa a confusão em bilhões de mentes e corações.
“Não confio nos políticos”, ouço os mais jovens dizerem. “São todos farinha do mesmo saco”. Enquanto se pensar assim a farinha do saco só irá aumentar. A alienação costuma ser o primeiro passo para governos autoritários... E um privilegiado atalho para o fascismo.
Confusão proposital, criada em centros de estudos subsidiados pelas principais empresas corporativas na Europa e nos Estados Unidos. A ação do Wikileaks e inúmeros vídeos espalhados pela Internet vêm comprovando o fato à exaustão... Não é por acaso que Julian Assange se encontra asilado há semanas na embaixada equatoriana em Londres.

Confusão para dividir. Dividir para reinar. Reinar para subjugar. O jogo é antigo e por mais que cada geração tente criar anticorpos ou pensamentos e práticas alternativas à usura, à riqueza desnecessária, ao poder pelo poder, ao culto à irracionalidade e ao efêmero, mais o capital se fecha em sua defesa, muitas vezes cooptando mentes brilhantes nas várias áreas do saber, com o pagamento de altíssimos salários e bônus anuais e mesmo ações das próprias corporações e empresas de governos com que ajudam a manter o comboio nos trilhos. Ou incentivando a alienação.

Oitenta anos parece ser a média de vida do homem contemporâneo na terra. Portanto, se qualquer um de nós conseguisse levar uma vida regada a champanha e caviar nesses anos e estivéssemos listados entre aquele 1% dos mais ricos do mundo, pois bem, que os outros 99% da humanidade se lixassem, não é verdade?

O doloroso nesse quadro é ver o esforço que muitos daqueles que já foram protagonistas do pensamento e das ideias e soluções alternativas fazem hoje, quando resolvem entregar os pontos, e já não suportam mais defender as difíceis ideias do humanismo solidário. “Arroubos da adolescência”, “fui iludido na minha boa fé de jovem que queria mudanças”, “revoltas da juventude”, “a história acabou” e outras baboseiras do gênero são cinicamente usados para encobrir o oportunismo, a vaidade, a falta de ética e de caráter, a traição à luta dos menos favorecidos. Os exemplos, infelizmente, têm se multiplicado em escala geométrica.

Aqui no Brasil, e é disso que se trata, temos um curioso quadro político, onde traços surrealistas despontam aqui e ali à medida que os anos passam. Nossos maiores partidos políticos, aqueles que conseguem fazer o maior número de congressistas, governadores e prefeitos rechearam-se de políticos “profissionais”, boa parte deles sem qualquer formação ideológica mais consistente ou – o que parece ser bem mais grave – num constante pular de um galho para outro, a suposta esperteza de ficar em cima do muro ou, caso nenhuma dessas alternativas seja assim tão aliciante, formar novos partidos, quase sempre sem lastros de representatividade popular. Fenômeno que se dá à direita e à esquerda do espectro político. Todos reféns de uma imprensa partidarizada e venal.

A política tanto pode ser o exercício ético da administração pública em benefício de todos os cidadãos de uma cidade, de um estado, de um país, ou pode ser o valhacouto das grandes negociatas, cabide de empregos para amigos e familiares, como – aliás – tem sido a cada dia que passa. Tanto no atual executivo paralisado politicamente, como no legislativo abúlico e medroso e, sobretudo no judiciário conspirador (aliás, o único poder em que seus membros não são eleitos pelo povo) contra a nossa recente democracia, esse triunvirato republicano tão ao gosto da retórica vazia de sentido. Independente do esforço daqueles que ainda lutam e se esforçam para que as coisas se passem de outra maneira.

A nova face da direita brasileira, a renovação dos quadros mais reacionários e conservadores do país têm hoje a comandá-la vários integrantes da histórica esquerda do país, inclusive de adeptos da luta armada nos anos 60. Novidade? Nem tanto, apenas o número de oportunistas aumentou.

“Não confio nos políticos”, ouço os mais jovens dizerem. “São todos farinha do mesmo saco”. Enquanto se pensar assim a farinha do saco só irá aumentar. A alienação costuma ser o primeiro passo para governos autoritários... E um privilegiado atalho para o fascismo.

Izaías Almada, escritor e dramaturgo, escreve a coluna mensal Pensando Alto

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Os Moinhos de Vento de Levy

Levy Fidelix foi o primeiro candidato a chegar ao debate da TV Cultura – realizado em setembro - com quase duas horas de antecedência. Adentrou os portões exibindo um caprichado sorriso sob o bigode preto retinto, aparentemente recém retocado de Grecim 2000. Ao contrário de seus adversários (excetuando-se, por motivos óbvios, Soninha), vestia um terno mal ajustado e uma gravata listrada, daquelas largas, de antigamente. Quando o embate começou, destilou os disparates de sempre, ainda que o famoso aerotrem tenha perdido espaço para um banco municipal. Na surreal hipótese de Levy tornar-se prefeito, o tal banco, de alguma maneira mágica, salvaria a cidade da iminente bancarrota.

Foram duas horas e meia de discursos enfadonhos e semi-afagos entre os oito candidatos, e faltavam menos de quinze minutos para meia-noite quando o mediador, Mario Sergio Conti, finalmente decretou o término do lenga-lenga. Apesar do adiantado da hora, a imprensa, que heroicamente lotava a plateia, subiu ao palco em busca de declarações. Aquela coisa de sempre: microfones, gravadores, câmeras e filmadoras disputando espaço para registrar uma declaração insossa qualquer.

Os mais assediados foram Haddad, Serra e Russomanno, líderes nas pesquisas. Mas todos, até os menos expressivos, como Gianazzi e Paulinho da Força, mereceram alguma atenção dos repórteres. Menos o pobre Levy. Nem sequer um microfonezinho se dispôs a dar voz às suas utopias tão ingênuas e divertidas.

Faz sentido, jornalisticamente. Levy não tem expressão e nunca, nas doze vezes em que se candidatou, foi eleito a coisa alguma. E, ao que parece, ainda não será dessa vez – ele vem oscilando de zero a um por cento nas pesquisas eleitorais.

Mas, diante da indiferença da mídia, o valente Levy não se abalou. Apoiou um cotovelo sobre o púlpito, o outro braço na cintura e sorriu, protegido pelo bigodão retinto. E ali ficou, altivo, pronto a esclarecer qualquer eventual dúvida sobre o aerotrem ou declamar, de cabeça, o número exato de avenidas, ruas, becos e alamedas da cidade de São Paulo. Pouca gente chegou a reparar na calva cintilante ou no peito estufado do candidato. Eu o fiz, por alguns instantes. E confesso que me senti tocado.

Enquanto o observava no palco, em meio à zoeira de flashes, declarações e repórteres afobados, tive a impressão de estar em contato com um outro tempo, quando as coisas eram mais simples. Um época em que não havia tantas pesquisas de opinião, marqueteiros, analistas, maquiadores, em que bigodes eram parte relevante do acervo estético masculino.

Mas os encantos do Levy iam além da nostalgia. Afinal, como há muito nos ensinaram Dom Quixote e Sancho Pança, há poucas coisas tão cativantes quanto um perdedor crônico com ilusões de grandeza. Vida longa, portanto, aos nanicos de personalidade, que temperam, com algum humor e lirismo, nossas enfadonhas eleições. Quanto ao meu voto? Bem, caro Levy, infelizmente ainda não foi dessa vez. Mas, continue tentando, quem sabe daqui a dois anos.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil
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