Por Aleksander Aguilar*
Después de ver como se mueven las guerras y las guerrillas
tu crees que le voy a tener miedo a tu pandilla?
(Adentro – Calle 13)
Tomei um ônibus em El Salvador para uma longa viagem até a Costa Rica, atravessando quase todo o istmo centro-americano, na madrugada deste último 28 de julho. Durante todo o trajeto de 20 horas, interrompido pelas descidas obrigatórias fronteiriças, pensava nas impressões das duas últimas semanas que passei no “pulgarcito de América”, logo de sete anos sem visitar a terra paterna, e na necessidade de escrever sobre a sensação de paranoia que testemunhei entre os conterrâneos.
Pequenos, e significativos, exemplos do cotidiano: andar armado no país resulta quase óbvio, e em qualquer estabelecimento comercial, qualquer mesmo, desde uma farmácia até uma sorveteria, haverá dois seguranças com o armamento bem visível no intento de intimidar. Durante um café, numa reunião acadêmica, no jantar familiar com pupusas, os tópicos de conversa, naturais e quase banalizados, são constantes: o perigo, o medo, a morte. Jornalistas, poetas, professores do país escrevem sobre assassinados e decapitados. O sangue está nas artes, nas mentes e no ar salvadorenho.
E nesse estado em que se encontra o país de Roque Dalton, a mobilidade é uma questão-chave. Se você não tiver carro, você está sob um risco ainda maior do que se o tivesse. Todos temem parar num semáforo em qualquer hora do dia e mover-se a pé, mesmo em curtas distâncias, também vai seguido por constante sensação de insegurança, ao ponto de as pessoas terem receio de parar para dar informação para quem simplesmente pergunta por uma localização. A desconfiança é generalizada.
Temem-se, porém, ainda mais ônibus. Precária, para não dizer patética latas-velha, a frota de ônibus do país, controlada por consórcios de empresários infiltrados e sequestrados pelo crime organizado, são alvos diários de assaltos aos passageiros e de extorsões aos motoristas. A verdade é que El Salvador funciona sob um toque de recolher tácito. Na própria região metropolitana, a maioria das linhas desses cacos ambulantes que chamam de transporte público tem suas últimas viagens às 19h! Ainda se encontram algumas rotas até pouco passado das 20h, e muito raramente às 21h, horário em que apenas os mais bravos, e/ou sem outra alternativa, atrevem-se a subir.
Pais mais zelosos literalmente proíbem os filhos de fazerem suas atividades do dia-a-dia em ônibus, preferindo sempre pagar caro por um táxi. Saídas de lazer e entretenimento, tão corriqueiras como ir ao cinema, são absolutamente estritas a um detalhado planejamento sujeito a boas companhias e esquemas de mobilidade, que significa dispor de um taxista de confiança com horário da corrida previamente arranjado, porque nem o taxista vai a qualquer lugar nem a qualquer hora por uma corrida, nem o passageiro aborda qualquer táxi que cruza pelas ruas. Ninguém confia em ninguém, salvo pelos fortes laços familiares e de amizade, duramente cultivados e celebrados. A sociedade salvadorenha vive encarcerada em si mesma.
Enquanto reflito sobre tudo isso – que é uma conjuntura piorada mas semelhante à que vivi morando em El Salvador, em 2008 – mais um choque de uma realidade em curto-circuito: no mesmo do dia em que viajei, o país amanheceu com a notícia, que é sintoma não de um processo mental paranoico e sim de uma realidade quase surreal, da proibição da circulação do transporte público por ordem dos líderes das forças do crime organizado (as chamadas “maras”, forma coloquial para o espanhol pandillas) Barrio 18, Mara Salvatrucha, e a mais recente, 18 Revolucionários – um racha da primeira e que já se consolidou com a terceira força criminosa do país.
A paranoia fundamentada
Não foi a primeira vez que as pandillas desestabilizaram El Salvador. Em setembro de 2010 ameaçaram com chamadas telefônicas, agressões nas paradas de ônibus e folhetos aterrorizantes entregues de mão em mão. Dessa vez, os mareros não apenas ameaçaram, mas executaram logo de saída nove motoristas, e os empresários e os funcionários suspenderam completamente o serviço. O país parou. Até 31 de julho, o boicote e/ou a sabotagem resultaram em nove motoristas assassinados, centenas de unidades de transporte paralisadas e várias incendiadas, serviços hospitalares comprometidos e aulas canceladas, milhares de salvadorenhos amontoados em precários veículos clandestinos e viajando sob custódia policial e militar. Imediatamente à ação das maras, o governo salvadorenho colocou 600 efetivos militares nas unidades de transporte do país para somar-se aos já 7.500 soldados que estão diariamente nas ruas em atividades de segurança pública, como parte da verdadeira atitude de guerra que existe hoje no país entre o governo e as pandillas.
Logo de cinco dias de estado de emergência no país, 90% das rotas de ônibus havia voltado às atividades, mas o ministro de Segurança, Benito Lara, manteve o estado de emergência e a militarização do cotidiano. O emprego das Forças Armadas na segurança pública já é uma praxe na América Central, e excede em muito, e cada vez mais, sua implementação como uma política pública dita necessária. Esta “semana del paro” em El Salvador que o diga. Os números, porém, são de guerra não apenas no território cuzcatleco: em Honduras, 2.000 soldados das tropas do exército estão nas ruas; na Guatemala, são 4.500 soldados e, em El Salvador, além dos mais de 7 mil soldados no cotidiano, e outros 600 convocados pela emergência do transporte, foram suspensas as licenças da Polícia Nacional e o efetivo total chamado chega a 23 mil agentes.
A realidade institucional de El Salvador hoje é de extrema polarização entre as mesmas forças políticas que há 30 anos também se enfrentavam, mas sob hostilidade bélica: a ARENA, Alianza Republicana Nacionalista, reduto da uma direita conservadora e reacionária, e a FMLN, a ex-guerrilha Frente Farabundo Marti de Liberación Nacional, convertida em partido político como parte dos Acordos de Paz alcançados para barrar a sangrenta guerra civil que durou de 1980 a 1992. Além da “paz”, a diferença é que logo de 20 anos ininterruptos de ARENA no governo, hoje é a FMLN quem dirige o país. Isso leva a muita especulação sobre a possibilidade de que as pandillas tenham sido partidariamente instrumentalizadas para causar desgaste político.
O poder pandillero
Atuando praticamente como uma terceira grande força política no país, as pandillas já obtiveram capacidade de articulação conjunta, apesar da mortal rivalidade entre elas, como na “trégua”, até hoje não reconhecida pelo governo salvadorenho, pactuada com o Poder Executivo entre 2012 e 2015, e que resultou num período de inegável diminuição dos homicídios na pequena nação assolada pela cultura da violência. Portanto, o ocorrido nessa semana em El Salvador, histórica desde várias formas de análise, é uma potente demonstração de força dessas gangues, e uma forma de buscar ser ouvidos, num contexto sem precedente de repressão contra elas.
Os governos da ARENA implementaram, e foram muito criticados por isso, os planos Mano Dura e Super Mano Dura, para combater as pandillas. Não conseguiram barrar sua expansão e serviram para sua evolução. A estratégia atual do governo é de impor ainda maior peso repressivo. Parece que as gangues quiseram demonstrar que, mesmo com todo o atual investimento em operações militares policiais, sua capacidade para desestabilizar a sociedade se mantém, e assim o fizeram.
O prestigioso periódico digital salvadorenho El Faro cita os dados oficiais sobre o atual tamanho do fenômeno em El Salvador: 60 mil membros, que junto com seu entorno social (colaboradores, simpatizantes, família), chegam a meio milhão de salvadorenhos, ou 8% da população do país. O caminho único da repressão dá mostras de ser inviável, pois as pandillas têm suas origens no agoniante processo social desigualdade-migrações-deportações-violência que configura a própria sociedade salvadorenha. Em muitas comunidades e bairros do país, a figura do pandillero é uma referência de sucesso que faz com que cada vez mais jovens, com famílias desagregadas pela migração, em condição de pobreza, sem perspectivas e profunda precariedade estrutural diante da ausência do Estado, queiram incorporar-se.
A atualidade da tragédia salvadorenha é particular pelo absurdo que a situação dessa semana representou, mas análoga pelo menos nesses países do chamado Triângulo Norte da região centro-americana: El Salvador, Guatemala e Honduras. Enquanto assistimos ao recrudescimento das grandes tensões geopolíticas de âmbito global, representado, entre outros, pelas guerras na Ucrânia, pelas reações do radicalismo islâmico no Ocidente e pela desintegração da experiência europeia a partir da humilhação grega, há no nosso próprio continente uma longa e arrastada crise que se visualiza num dramático mosaico de conflitos sociopolíticos – entre as causas mais recentes, destaca-se a violenta espoliação promovida pelo capitalismo neoliberal na região – que atentam contra a própria dignidade humana e flertam com o caos no “invisível” espaço centro-americano. Nem quando toma proporções de grotesco, como nesse momento, o tema é abordado pela mídia corporativa tradicional em nível internacional, e no Brasil em particular, ainda tão alheio à América Latina em geral.
A Organização das Nações Unidas considera o Triângulo Norte como a região mais violenta do mundo há vários anos. Mas a violência na América Central não é apenas um problema social, senão um desastre político que consome todos os dias e ininterruptamente a carne, o espírito e a sobriedade mental dos centro-americanos, talvez com densa particularidade em El Salvador, epicentro da organização das pandillas que ocuparam quase todo o istmo e com representações organizativas e laços de origem na Europa e na América do Norte. Como assinala o jornalista basco Unai Aranzadi, citado por Andres Ramirez no site brasileiro especializado em América Central, O Istmo, “analisando a realidade a partir do território, e de uma perspectiva histórica, quiçá seria mais justo qualificar esta sociedade de violentada. Desde o genocídio do mal-chamado 'descobrimento', até o estabelecimento do neoliberalismo, a América Central tem sofrido terrivelmente, e não é coincidência que fenômenos ultraviolentos aparentemente únicos e desprovidos de ideologias, como, por exemplo, as maras tenham surgido nesse espaço e nesse tempo”.
Há paranoia, particularmente, em El Salvador, mas quem poderá dizer que sem fundamento? Não é raro, e se fez ainda mais comum durante esses dias, ouvir que o país voltou ao estado de guerra de 30 anos atrás, com dinâmicas sociais típicas daquele período. Mas as novas gerações não conhecem apenas dois grupos em conflito, senão um medo generalizado e permanente atravessado em várias esferas do cotidiano. E retroalimentado constantemente pelos meios de comunicação. As capas dos principais jornais do país diária e sistematicamente apresentam manchetes e fotos sobre crimes e conflitos realizados pelas gangues.
No passado recente, a luta armada foi entendida por certos setores da sociedade como a única forma de serem ouvidos diante do fechamento de espaços políticos. Hoje as pandillas são protagonistas de uma guerra social e através da força cada vez mais se fazem atores políticos que exigem que os governos as escutem. Como consequência, a epígrafe utilizada na abertura desse texto, uma frase de uma canção da dupla porto-riquenha Calle 13, ao tempo que é um estímulo a resistência, tem cada vez menos ressonância na realidade salvadorenha. O povo salvadorenho conhece como poucos todos os comportamentos, as dores, e os arrasos de uma longa hostilidade bélica entre grupos confrontados, mas hoje está cada vez mais sufocado, temeroso e refém da sua realidade gerada pelo próprio pós-guerra.
Aleksander Aguilar é jornalista, linguista e doutorando em Ciência Política. Coordena a plataforma-rede O ISTMO (www.oistmo.com)
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015
domingo, 10 de agosto de 2014
As crianças migrantes centro-americanas estão no limbo
Ao cruzar a fronteira entre os Estados Unidos e o México, aproximadamente 60 mil crianças provenientes da América Central foram detidas desde outubro de 2013 até junho desse ano. Essa situação reacendeu o debate sobre as políticas migratórias dos Estados Unidos, onde 11 milhões de migrantes indocumentados são altamente vulneráveis ao abuso dos seus direitos básicos que são garantidos pelas leis do país e pela legislação internacional.
por Aleksander Aguilar*
Já são 60 mil em menos de um ano. Uma grande quantidade de crianças de idades tão tenras quanto cinco anos. Elas viajam a partir de atravessadores (coyotes) até quatro mil km em lanchas, a pé, clandestinamente em trens de carga e ônibus, passando fome e enfrentando assédio, violência, assaltos, e inclusive o risco de sequestro de máfias narcotraficantes que os infligem cirurgias clandestinas de extração de seus órgãos para a venda.
Não estamos falando, pese que a intensidade do relato assim o faça soar, de algum roteiro hollywoodiano de imaginação fértil. Tampouco de distantes rincões na Síria ou em Gaza e dos refugiados de suas atuais guerras. Enquanto assiste-se estarrecido a absurda violência de Israel sobre a Palestina, o Brasil e grande parte do planeta ainda percebe pouco e ignora muito uma outra realidade, regional, dramática e nefanda, que se dá no nosso continente. Ela se inicia bem ali, logo acima da Venezuela, nesta região latino-americana que infelizmente para a maioria dos brasileiros ainda soa tão exótica quanto a longínqua região do Oriente Médio – a América Central. E conforma um contexto em que se misturam violência social, segurança regional e narcotráfico internacional.
A atual crise das crianças migrantes centro-americanas evidencia não apenas um grave problema migratório, mas revela a avassaladora situação de precariedade socioeconômica em que se encontra a América Central, principalmente nos países do chamado Triangulo Norte do istmo – El Salvador, Guatemala e Honduras. Desde essas nações, que estão entre as mais vulneráveis do continente, essa multidão de crianças atravessa todo o México até encontrar o “muro da vergonha”, que separa a América Latina dos Estados Unidos, onde se encontrarão com um limbo migratório: nem podem permanecer, nem podem serem enviadas de volta.
O drama social é evidente, e revela a desumanidade do nosso sistema internacional estatal – nem os Estados de origens dessas crianças, nem o Estado de destino as desejam. Não há um território que busque a realização dos seus direitos e as crianças migrantes centro-americanos transformaram-se em relegados sociais internacionais.
Uma verdadeira emergência humanitária que tem como uma de suas principais causas o corrente modelo econômico, característico da atual América Central, de dependência crônica das remessas – o dinheiro que os imigrantes, legais ou ilegais, centro-americanos que vivem na América do Norte enviam para os seus parentes nos países de origem – e é responsável, em larga medida, por manter a economia do istmo girando. Nos últimos 20 anos os centro-americanos enviaram aos seus países valores em remessas que alcançam 120 bilhões de dólares. Isso criou na região uma economia de consumo financiada artificialmente, e em que os lucros acabam concentrados nas mãos das oligarquias tradicionalmente dominantes, já que são os ricos que controlam os espaços de bens de consumo. Tal concentração, por sua vez, aumenta a desigualdade social que, como sabemos, também faz aumentar a violência. O desemprego crônico gera a migração massiva e investimentos produtivos são feitos em outros países, mesmo nos da região, melhor estruturados, como Costa Rica e Panamá. Assim exportar pobres se converte num negócio mais lucrativo do que buscar reduzir a imigração com tentativas de construção de uma matriz produtiva sólida.
O fator “maras” centro-americanas
É uma sequência perversa, e que relaciona migração com violência. Mas a situação econômica não totaliza a explicação. A Nicarágua tem uma economia talvez ainda mais vulnerável, mas suas crianças não fazem parte desta crise.
Porque entre essas pontas há o fator “maras”, as famosas gangues centro-americanas, que estão centradas no Triângulo Norte, e não no país Sandinista, que tem números de violência muito menores que os dos seus vizinhos. As gangues, ou no espanhol “pandillas”, é um fenômeno resultante do grande número de famílias fragmentadas, consequência direta das guerras civis que convulsionaram a América Central entre os anos 1960 e 1990, e da degeneração do tecido social familiar e comunitário que a migração produz. Milhares de centro-americanos da diáspora dessas guerras foram deportados pelo governo Bush (pai) a partir dos anos 1990.
Em terreno fértil para a violência, como são os territórios socialmente precários centro-americanos, e sem expectativas de bem-estar via “sistema”, consolidou-se dois grupos poderosos e rivais: a Mara Salvatrucha 13 e Pandilla Barrio 18, hoje consideradas duas das maiores gangues do mundo.
Muitas escolas públicas de bairros periféricos de Guatemala, El Salvador e Honduras, em lugar de proporcionar segurança e oportunidade para a juventude local, tornam-se espaços de recrutamento das pandillas. Os jovens que se negam são ameaçados e muitos assassinados, e a migração começa por aí – esses cidadãos sem segurança mínima nos seus próprios países são obrigados a sair de casa para não serem obrigados a se unir às gangues, e o caminho natural é a rota ao Norte. As maras dominam bairros inteiros e afetam diretamente a vida dos mais pobres, cobrando extorsão desde a entrada de transporte público em seus territórios até a entrega de jornal nessas áreas que comandam. Essas pandillas estão presentes nos três países e associadas em redes transnacionais. A perseguição de gangues e o recrutamento começaram a se impor como principais motivadores da fuga para os Estados Unidos.
A migração centro-americana hoje é uma catástrofe social para os pobres e um grande negócio para os ricos.
Dinheiro estadunidense resolve?
Os presidentes dos países do Triângulo Norte centro-americano, em reunião com Obama em Washington em julho deste ano, apontam parte da culpa nos Estados Unidos e utilizam a crise para solicitar mais investimento em segurança regional por parte do país, baseado no que foi o Plano Colômbia e na Iniciativa Mérida (para o México) mas há poucos indícios de que norte-americanos se dediquem a ações de mesma dimensão.
Os líderes da América Central argumentam que esses planos – essencialmente polêmicos programas de combate ao narcotráfico de bilhões de dólares financiados pelos Estados Unidos – foram exitosos nas regiões ondem foram implementados, mas empurraram o tráfico internacional para a América Central. Tal sucesso, porém, é tema de grande controvérsia, pois seus resultados positivos são parciais, frágeis e acompanhados de um inaceitavelmente alto custo humano, com dezenas de milhares de mortes associadas, cuja principal lição deveria ser a de não se tornar modelo para coisa alguma.
O governo Obama, na verdade, possui desde 2009 uma iniciativa especifica para a América Central com objetivo semelhante ao Colômbia e Mérida (chamado CARSI, na sigla em inglês), mas os impactos foram mínimos, pois sua alocação de recursos para os centro-americanos até agora foi de 642 milhões de dólares – um valor irrisório quando se pensa nos 90 bilhões de dólares que os Estados Unidos investiram em segurança fronteiriça repressiva nos últimos dez anos.
“Pobreza não garante status de refugiado”
Atualmente, as crianças migrantes centro-americanas que chegam aos muros do “mundo livre” são detidas na patrulha de fronteira dos Estados Unidos e em até 72 horas são deslocadas para albergues onde recebem cuidados médicos e psicológicos e assessoria jurídica. Devem então esperar que seu caso seja julgado por um tribunal, o que pode levar meses.
Essa situação reacendeu o debate sobre as políticas migratórias dos Estados Unidos, onde 11 milhões de migrantes indocumentados são altamente vulneráveis ao abuso dos seus direitos básicos que são garantidos pelas leis do país e pela legislação internacional. Uma significativa reforma migratória nos Estados Unidos é parte da solução, de forma a respeitar famílias, proteger direitos laborais dos migrantes, e garantir o acesso ao processo legal.
Como lembra a internacionalista Juliana Vitorino, nesse cenário, “o governo dos EUA não é isento de culpa, já que foi, ele mesmo, promotor de desestabilizações políticas, ingerências, financiador de guerras civis na América Central, além de ter transplantado e piorado o problema da violência do pós-guerra com a deportação de membros de gangues para El Salvador, Guatemala e Honduras, países onde nasceram esses novos migrantes indesejáveis”.
Entre as razões dessa cumplicidade dos Estados Unidos às condições que forçam a migração centro-americana estão o apoio histórico às ditaduras militares e regimes de violência na região, a promoção de acordos de livre comércio e políticas econômicas que arrasam a agricultura familiar e degradam os serviços públicos, e a adoção de políticas migratórias cada vez mais duras, que separam famílias com acirrada deportação.
Mas enquanto os presidentes centro-americanos buscam receber mais ajuda financeira dos Estados Unidos para manejar a crise, o governo norte-americano demonstra que sua resposta à questão descansa em outras prioridades. A melhor solução para o governo Obama é retirar o problema da sua porta o mais breve possível. E assim a primeira medida do presidente estadunidense diante da crise foi solicitar recursos especiais ao Congresso de 3.700 bilhões de dólares para mitigar a crise, aumentando o número de agentes de fronteira e de juízes migratórios. Obama deixou claro que sua intenção é repatriar as crianças que chegam aos Estados Unidos porque, em suas palavras, “o status de refugiado não é outorgado a alguém apenas porque sua família vive em uma região ruim ou em pobreza”.
A estimativa é de que até o final de 2014 o número de crianças centro-americanas que chegarão à fronteira dos Estados Unidos alcance as 90 mil.
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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e editor do projeto-blog O ISTMO - rede de analistas de temas centro-americanos, especial para o Nota de Rodapé
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sábado, 1 de fevereiro de 2014
Eleições 2014 na América Central: o que está em jogo
por Aleksander Aguilar*
Amanhã (2 de fevereiro) é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.
De forma geral veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.
Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos em tese com o social.
Na década de 90 as forças políticas ligadas a esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.
Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, aliás, também em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais a pouco estabelecidas.
Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE dos Zelaya rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influi nos rumos do governo. Na Nicaragua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E na Costa Rica a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.
O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão de estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.
Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de “cambio” proposto por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam. O atual candidato da FMLN, Salvador Sanchez Ceren, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.
Na Costa Rica as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional, e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio, e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.
O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites, e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas.
Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
Amanhã (2 de fevereiro) é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.
De forma geral veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.
Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos em tese com o social.
Na década de 90 as forças políticas ligadas a esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.
Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, aliás, também em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais a pouco estabelecidas.
Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE dos Zelaya rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influi nos rumos do governo. Na Nicaragua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E na Costa Rica a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.
O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão de estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.
Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de “cambio” proposto por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam. O atual candidato da FMLN, Salvador Sanchez Ceren, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.
Na Costa Rica as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional, e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio, e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.
O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites, e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas.
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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
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