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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 18 de abril de 2014

De como Gabo transformava mentiras em verdades




por Ricardo Viel*

Morreu ontem, 17 de abril, aos 87 anos, um dos mais influentes e brilhantes escritores de todos os tempos: o colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Nobel de Literatura de 1982. Em 2010, nosso colunista Ricardo Viel fez uma reportagem sobre Márquez que achamos por bem republicá-la. Gabo, como era carinhosamente chamado, disse certa vez: “A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.” Para Ricardo, as muralhas que protegem a cidade colombiana de Cartagena de Índias, de calor inclemente, com sacadas das típicas casas do centro antigo, tornou difícil sua missão de dizer qual a lembrança mais marcante da “cidade mais bela do mundo”, segundo o próprio escritor. Na reportagem, você vai conhecer um pouco mais os lugares e histórias das pessoas que fazem parte da obra do colombiano. “De lá, além das histórias, trouxe uma semente de amêndoa, árvore presente nos relatos de Gabo”, relembra o repórter.

Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores

Um senhor de estatura mediana, óculos exageradamente grandes, pele morena e cabelos e bigodes grisalhos, caminha pelo pátio do convento de Santa Clara, em Cartagena de Índias, no Caribe colombiano. Misturado aos engenheiros, arquitetos e operários que trabalham na restauração do prédio, o homem vestido de branco e com um chapéu panamá enterrado na cabeça transita pelo mosteiro em busca de inspiração para sua nova novela. Na visita a uma tumba, o escritor, um colombiano conhecido mundialmente como Gabo, se recorda de uma visita que fez ao convento, quarenta anos antes, por conta de uma reportagem. Lembrança tão viva como se tivesse voltado ao meio dia daquele outubro de 1949 e vivesse aquilo pela primeira vez.

Gabriel Garcia Márquez venceu com dificuldade as poucas quadras que separavam a redação do “El Universal” do convento de Santa Clara. Buscou refúgio na sombra das varandas coloridas do centro da histórica cidade, mas chegou ao mosteiro empapado de suor e descrente de que a tarefa de acompanhar a desocupação das tumbas poderia render muito mais do que alguns centímetros no jornal do dia seguinte. O prédio do século 17 estava prestes a mudar de função: sairiam as freiras e entrariam os hóspedes de um hotel de luxo – motivo da retirada dos restos mortais. Nos fundos da capela, o processo da desocupação das tumbas onde, há séculos, repousavam religiosos e nobres da cidade, já estava em marcha. De um buraco no chão, imersos em uma nuvem de poeira, três operários, em um ritual silencioso e coordenado, retiravam os ossos, faziam com eles pequenos montes e os identificavam. Quando da abertura da terceira cripta, que trazia escrito o nome sem sobrenome de Sierva Maria de Todos los Ángeles, o repórter se deu conta de que aquele 26 de outubro de 1949 ficaria marcado para sempre em sua vida. Quarenta e cinco anos depois, Gabo dedicaria o prólogo de seu livro “Do Amor e de Outros Demônios” a contar essa história.

Na terceira urna, ao lado do evangelho, ali estava a notícia. A lápide se espedaçou com o primeiro golpe de picareta, e uma cabeleira viva, de uma cor de cobre intenso, se derramou para fora da cripta [...] Estendida no chão, a cabeleira esplendida media vinte e dois metros e onze centímetros.

A novela é inspirada na lenda, contada por sua avó, de uma marquesa, dona de uma cabeleira ruiva, tão grande "que se arrastava como véu de noiva", que após morrer de raiva aos 12 anos de idade passou a ser venerada no Caribe por seus milagres. "A ideia de que essa tumba pudesse ser a sua, foi minha notícia daquele dia e a origem deste livro."

Uma catacumba é o atrativo

O antigo convento de Santa Clara é hoje um hotel cinco estrelas, o mais luxuoso da cidade. Em 1987, a rede Sofitel comprou o prédio com a condição de restaurá-lo e preservar suas características. A capela, os quartos das freiras clarissas (transformados em habitações para os hóspedes) e as criptas funerárias, foi recuperado em um processo que durou quase uma década. E são justamente as catacumbas do prédio, em especial uma delas, o maior atrativo do lugar. No centro de um bar estilo “lounge”, entre um sofá e outro, escondida pela pouca luz do ambiente, há uma escada. Três metros abaixo do nível do chão, em uma salinha pequena, sufocante, e decorada com um candelabro, está a tumba aberta e vazia de Sierva Maria de Todos los Ángeles.

“Não gosto muito de ficar aqui. Não sei, me dá um pouco de medo”, cochicha Yanelis Sepúlveda enquanto desce os seis degraus que levam à cripta. A mulata de 28 anos, bela e elegante, é consierge do hotel Santa Clara desde 2002. Está acostumada a mostrar a "hóspedes especiais" (leia-se autoridades e afins) o amplo jardim do antigo convento onde as clarissas cultivavam rosas, os túneis que ligavam clandestinamente as freiras ao mundo exterior e as antigas habitações do mosteiro.

Com um sorriso no rosto, apresenta aos visitantes a capela barroca, o antigo refeitório (hoje um luxuoso restaurante) e lhes pousa Clara, um simpático tucano, nos braços para fotos. Mas se não for solicitado, Yanelis desvia das lápides e das celas onde as freiras de mau-comportamento (como Sierva Maria de Todos los Ángeles no livro de García Márquez) eram enclausuradas. Para ela, o lugar é assombrado.

“Dizem que há uma mulher, vestida de vermelho, que costuma andar pelos corredores. Eu nunca vi. Mas também nunca ando sozinha aqui de noite. Nunca vi nada, mas já escutei uma gargalhada muito alta vinda de um quarto que estava desocupado. Também já senti uma respiração no meu pescoço quando eu entrava na capela”, mostra o braço com os pêlos levantados.

Leitora atenta de Garcia Márquez, Yanelis consegue identificar no convento os cenários descritos pelo escritor na novela, mas traz consigo uma dúvida: “Gostaria de perguntar a ele, saber o que é sua criação e o que é verdade nessa história toda. Se ele realmente entrou na cripta, se a Sierva Maria estava lá. O que ele viu, de verdade, quando entrou lá”.

A pergunta poderia ter sido feita pessoalmente ao escritor em duas oportunidades, mas faltou coragem à mulata. “Em uma delas, era para um encontro muito confidencial. Estava cheio de seguranças, ele ia se encontrar com alguém para mediar um processo de paz. Alguma coisa a ver com a ONU. Não me atrevi. Da outra, era uma festa. Eu vi aquele velhinho tão divino e fiquei com vergonha de atrapalhar a festa dele”, lamenta.

O hotel, cuja hospedagem mais econômica custa 350 dólares, permanece algumas horas do dia aberto à visitação. Diariamente, curiosos acudem à sala das criptas. Em um livro de presença aberto sobre à lápide os amantes da prosa de García Márquez deixam suas mensagens; em geral, registros de passagem como este: “No dia 11 de agosto de 2009, Vinicius e Carolina estiveram em Cartagena e visitaram a tumba de Sierva Maria de Todos los Ángeles.” Há muitos anos, a história dos metros de cabelos encanta e comove leitores do mundo todo.

"É preciso pinçar o que ele escreve"

A poucos metros do convento, um muro alto alaranjado esconde um sobrado de esquina, com um jardim amplo e bem cuidado. O morador do número 38-205 da rua Del Curato, era Gabriel Garcia Márquez. A construção da casa do escritor – que desde os anos 60 vivia no México –, explica muito da história de Sierva Maria de Todos los Ángeles. “Na época em que escreveu o livro, Gabito passou muitos meses em Cartagena, porque acompanhava as obras em sua casa. Seguramente a restauração do convento o influenciou a escrever a história”, conta Jaime García Márquez, um dos 14 irmãos do escritor e diretor da fundação criada em 1995 por Gabo para fomentar o jornalismo na América Latina, a FNPI.

Quanto à reportagem citada no início do livro, Jaime García faz uma observação enigmática: “É preciso pinçar o que ele escreve”.

A explicação para o comentário surge quando as peças do quebra-cabeça são aproximadas. Elas não se encaixam. O convento de Santa Clara foi o hospital local universitário de Cartagena até a metade dos anos 1970. Abandonado e em ruínas, o prédio foi comprado pela cadeia de hotéis Sofitel em 1987. Gabriel Garcia Márquez pode até ter visitado o local em 1949, mas não acompanhou nenhuma remoção, pelo simples fato de que elas, se de fato existiram, aconteceram quarenta anos depois, na época da restauração.

Os textos de García Márquez em sua época de repórter em Cartagena e Barranquilla foram recompilados, mas não há nenhuma reportagem sobre o convento de Santa Clara. O jornalista colombiano Gustavo Arango, autor do livro “Un ramo de no me olvides: Gabriel García Márquez en El Universal” (inédito no Brasil), buscou e jamais encontrou a reportagem de Gabo no convento.

“O que ele fez no prólogo do livro foi sobrepor eventos. Detrás das imprecisões dos fatos por ele narrados, há verdades muito certeiras. Acredito que a mais importante é apontar essa época como muito importante em sua vida. Suas primeiras experiências como repórter e a influência de Clemente Manuel Zabala no seu início [o nome de Zabala, primeiro chefe e mentor de Gabo, é citado na introdução do livro]”, explica Arango. Segundo o pesquisador, tampouco é de toda verdadeira a afirmação de Gabo de que dia 26 de outubro de 1949 não foi um “dia de grandes notícias” em Cartagena.

“Me dediquei a procurar o que havia acontecido nesse dia, e de fato, na Assembléia Municipal, houve uma violenta briga entre os políticos. Aqueles dias foram intensos em matéria política”, acrescenta.

Arango também teoriza sobre a data citada pelo novelista no prólogo do livro. “Fiz várias conjecturas, talvez descabeladas. Gabo gosta muito do mês de outubro. Em 'Ninguém escreve ao coronel' (1961) ele fala de outubro, das chuvas de outubro. Em muitos outros livros aparecem 'outubros chuvosos'. O 'Outono do Patriarca' (1975) está cheio de outubros. Quanto à data exata, há um dado curioso: em alguns livros antigos fala-se que o momento em que Deus diz: 'faça-se a luz' foi em 26 de outubro. Aproximadamente às nove da manhã.”

Jaime García Márquez também lê o prólogo de "Do Amor e de Outros Demônios" como uma homenagem a Clemente Manuel Zabala. Uma forma que o escritor encontrou de "reconhecer a importância do chefe em seu começo de carreira como jornalista". Para ele, a chave para entender toda a obra do irmão está na autobiografia “Viver para Contar” (2002), mas precisamente na frase fundamental do livro: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”. Para Jaime, a mensagem é endereçada aos amigos e familiares e tem como objetivo dizer-lhes: não busquem incoerências ou equívocos em minha biografia, essa foi minha vida porque assim são minhas lembranças. “Com essa frase ele nos venceu”, sorri, resignado, o irmão do Nobel de Literatura 1982.

Mas o próprio irmão, que largou o trabalho como engenheiro para assumir a fundação criada por Gabo, certa vez o indagou sobre uma passagem do livro em que é citado. “Ele diz que eu dividia quarto com dois irmãos mais novos e passava noites pregando aos menores sobre filosofia e matemática. Eu nunca dormi no terceiro andar daquela casa, nunca dividi quarto com os irmãos que ele cita... Eu tinha três anos, como podia falar sobre matemática com alguém?”. A resposta foi simples e irrefutável: “Você não entende nada. Se você tivesse, naquela época, divido quarto com eles e fosse mais velho, com certeza passaria todo o tempo falando de filosofia e matemática”.

Verdades do coração

A anedota contada pelo irmão Jaime faz crer que de certa forma nem o próprio escritor consegue delimitar exatamente onde termina a realidade e onde começa sua criação. “Não há em minhas novelas uma linha que não esteja baseada na realidade”, costumava repetir Gabo. “Acho que ele aplicou em seu trabalho como escritor um pouco da ideia de um de seus mestres, William Faulkner, que fala sobre as verdades do coração. A história pode não ser completamente fiel aos fatos, mas, mesmo quando se inventam detalhes, há um respeito profundo pelas verdades do coração”, analisa Gustavo Arango.

A fronteira nebulosa entre o real e o fantástico existente na obra do Nobel colombiano às vezes chega ao cúmulo de ser o limite entre a história pré e pós-García Márquez. Em alguns momentos, mais do que moldar-la, o escritor consegue, alterar a história. O chamado “massacre dos bananeiros” (1928) quando os funcionários da United Fruit Company resolveram protestar pelas péssimas condições de trabalho e foram violentamente reprimidos pelas forças armadas colombianas é exemplar. Revisto após a publicação de “Cem Anos de Solidão (1967)”, o episódio tem hoje uma importância histórica muito maior do que há algumas décadas. Inclusive o número de mortos na matança que costuma ser o mencionado – os 3 mil que Gabo cita no livro é muito maior do que o estimado por historiadores. Ou seja, depois de 1967 o que foi uma violenta repressão virou um massacre com milhares de mortos.

Jaime Garcia conta que nos anos 1970 recebeu uma bonita carta do irmão que falava do futuro deles e do país e terminando com uma incumbência: levantar dados sobre o massacre, em especial o número de mortos. Depois de meses de pesquisa, mandou a resposta ao irmão: comprovadas, haviam oito mortes, 2.992 menos do que as citadas pelo escritor em sua obra.

A história de Sierva Maria de Todos los Ángeles é outro exemplo dessa capacidade de Gabo de transformar a realidade. A cripta é visitada diariamente, e a reportagem que nunca existiu não raramente é citada como uma das melhores do escritor, não só por seus leitores, mas no meio acadêmico.

“O que ele faz ao mencionar a reportagem que não existiu é usar um expediente para dar verossimilhança à obra, uma coisa comum entre os escritores. Todos sabiamos que não era verdade aquilo, mas hoje há peregrinação para visitar o túmulo”, diverte-se Eric Nepomuceno, escritor e amigo pessoal de Garcia Márquez. Tradutor de alguns livros de Gabo, entre eles “Viver para Contar”, Nepomuceno minimiza a importância de se separar o real da criação na obra de García Márquez: “Quem conhece a América Latina sabe que tudo o que está na obra dele pode ou poderia ter acontecido”.

Em 1982, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez fez questão de falar sobre o tal realismo fantástico. Segundo ele, a realidade desse universo latino-americano é tão rica, que é preciso pedir “muito pouco” à imaginação. "O desafio maior para nós [latino-americanos] tem sido a insuficiência de recursos convencionais para fazer críveis nossa vida. Este é, amigos, o nó da nossa solidão."

Historinhas

Gabo recebeu pedido para mudar o final do livro

Ao finalizar “Do Amor e de Otros Demônios”, Gabo entregou o manuscrito do livro ao irmão Jaime e a cunhada Margarita. Eles já sabiam da história do livro, mas não conheciam o final. Margarita passou a noite lendo o manuscrito e, no dia seguinte, quando encontrou Gabo, lhe fez um comentário e um pedido: havia gostado muito da novela e nem um pouco do final. Tentou convencê-lo de que Sierva Maria não podia morrer. “Argumentou que em todos os seus livros, exceto ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ (1985) tinham finais tristes e de que os personagens, desta vez, mereciam ser felizes”, conta Jaime.

Solidário à dor da cunhada, García Márquez tentou convencê-la de que, no contexto da obra, Cayetano Delaura não tinha outro destino do que aquele, permanecer só. Fez Margarita entender que ele, apenas um escritor, não podia mudar o final daquela história, que já estava escrita havia séculos antes de publicada. Só pôde, ao lado da cunhada, lamentar a má sorte que tiveram Sierva Maria e Cayetano Delaura, reféns, não de um escritor e seus desejos, mas de um destino que sabe quem governa com uma força imutável há séculos. E Margatina aceitou os argumentos de Gabo? “Não. De modo algum”, responde, risonho, Jaime García.

Presente

O título do livro escrito por García Márquez em 1994 foi dado de presente a ele pelo cineasta brasileiro Ruy Guerra. Quem conta a história é Eric Nepomuceno. "Em 1991, o Ruy me chamou para escrever um roteiro de um filme com ele, que se chamaria 'Lua Negra'. No meio do trabalho, ele mudou o nome para 'Do Amor e de Outros Demônios', título que para mim não dizia nada. Então veio o Collor, o filme nunca foi rodado, e um dia o Ruy contou essa história para o Gabo. Ele ficou encantado com o título e disse que seria perfeito para uma novela que estava escrevendo. O Ruy, então, deu pra ele de presente esse título."

“Dou de presente para você os direitos. Faça”.

Em 2005, em uma oficina de cinema em Cuba, Gabriel García Márquez conheceu a cineasta costarriquense Hilda Hidalgo. Durante o curso, em uma conversa, ela comentou com o escritor que achava que de todas as suas novelas a que melhor poderia ser adaptada ao cinema era “Do Amor e de Outros Demônios”. Lamentou que ninguém nunca tivesse feito. Gabo então lhe disse: “Dou de presente para você os direitos. Faça”.

Hilda Hidalgo precisou de dois anos para escrever o roteiro e encontrar os atores. A colombiana Elisa Triana, de 13 anos, foi a escolhida para fazer Sierva Maria de Todos Los Ángeles. Cayetano Delaura será o espanhol Pablo Derqui, de 28 anos.


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 Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Ferréz: "o meu olhar é de guerra"

UMA CONVERSA SEM FRESCURA E EXPLOSIVA! 



Pouco antes de o país explodir com as jornadas de junho do ano passado, o Nota de Rodapé, em parceria com a Bonita Produções, colocou em prática projeto concebido meses antes: um programa de entrevistas para a internet - e, quem sabe, para a televisão - no qual a ideia central é que não exista assunto proibido com o entrevistado.

Chamamos a empreitada de NR conversa. A ideia aqui é levantar temas de relevância nacional, tabus ou não, que contribuam para o debate social e político mais amplo, que fuja, eis o grande desafio, da mesmice dos programas do gênero que estão disponíveis ao público.

Caricatura de Carvall Estúdio Saci 
Para a primeira conversa, convidamos o romancista, cronista e contista Reginaldo Ferreira da Silva, conhecido pela alcunha de Ferréz. O autor de Capão Pecado, Manual Prático do Ódio e Deus foi Almoçar é também o criador da 1daSul, que, além de ser uma marca de roupas e acessórios criada para os moradores da periferia, promove eventos e ações culturais na região do Capão Redondo, bairro onde mora, com forte influência do movimento hip-hop.

Durante o NR conversa, no Bar Tubaína, em São Paulo, numa tarde fria e chuvosa, Ferréz opinou com propriedade sobre temas como a polícia militar, aborto, maconha, maioridade penal, literatura, partidos políticos, corrupção e educação, sempre com a verve contundente de quem respira o dia a dia da periferia paulistana. Logo de início, ele provoca: “Costumo dizer que o meu olhar é de guerra. Hoje em dia, nos vivemos numa sociedade que ninguém quer se apegar a nada”. “Quem tem ponto de vista machuca, quem não tem, não causa nada. Tem coisas que você têm que tocar mesmo no assunto, porque o país virou um groselha, mano”. Uma entrevista sem frescura e explosiva. Esperamos que você goste e compartilhe. Mais do que isso: que sirva de reflexão. Aproveite!

Os jornalistas entrevistadores do programa são: Thiago Domenici, coordenador e editor do Nota de Rodapé, também da revista Retrato do Brasil; Moriti Neto, colaborador do NR e um dos editores da Rede Brasil Atual, e Marina Amaral, sócia-diretora da Pública, a primeira agência de jornalismo investigativo do país.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

“Biografia jornalística não é showbiz”

Em entrevista exclusiva ao NR, o jornalista e biógrafo Mário Magalhães defende biografias não autorizadas quando a vida privada de alguém tem impacto público

por Moriti Neto*

Enquanto está matéria era escrita, na tarde deste dia 23 de outubro, a Câmara dos Deputados debatia a urgência do projeto de lei que libera biografias não autorizadas no Brasil. E, mais uma vez, o plenário adiou a votação da proposta do deputado Newton Lima (PT-SP), que prevê a publicação das obras, independentemente da autorização da pessoa biografada ou de familiares, e está entre os pontos do projeto de lei de reforma do Código Civil. Pelas regras atuais, o código autoriza a publicação de material biográfico, mas somente se houver permissão prévia.

O objetivo das discussões dos parlamentares era garantir que seja reconhecido o caráter urgente do projeto e que a votação ocorresse nos próximos dias, já que, na semana que vem, os deputados voltarão atenções totais ao Marco Civil da Internet.

A importância da pauta no Congresso aumentou desde que a autorização para a publicação de biografias se tornou debate público neste mês. Essencialmente, as discussões ganharam corpo quando o grupo Procure Saber, encabeçado ou apoiado por artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, colocou questões como direito à privacidade e divisão de lucros entre biografados e biógrafos no centro da polêmica.

De outro lado, jornalistas, escritores e artistas, caso de Alceu Valença, se posicionaram pela garantia do acesso à informação e estranharam os argumentos de personalidades públicas – defensoras históricas da liberdade de expressão – alinhadas na trincheira da censura prévia.
Mário Magalhães
Foto: Leonardo Aversa/Divulgação.

Em entrevista exclusiva e este NR, o vencedor do Prêmio Jabuti deste ano na categoria biografia, Mário Magalhães, com o livro “Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, sobre o guerrilheiro Carlos Marighella, se manifesta a respeito da polêmica. Na conversa, ele avalia várias questões, como a postura obscurantista do Procure Saber, a relação público/privado que envolve personagens históricos, o que o jornalismo pode tirar da discussão e afirma que biografia jornalística não é entretenimento.

NR - Na questão das biografias, a ação de restringir a produção tem a ver com controle econômico e político? A preocupação com ataques à honra seria só um disfarce?

Eu seria muito presunçoso se afirmasse “o que está por trás...” O certo é que o grupo Procure Saber defende a manutenção de uma legislação obscurantista e antidemocrática, que impede relatos jornalísticos e historiográficos sem autorização dos retratados ou herdeiros.

NR - Sobre os ganhos pretendidos pelos familiares dos biografados, a discussão a respeito dos valores financeiros é forte. Por quê?

Biografia jornalística é reportagem. A reportagem é um gênero do jornalismo. O pagamento a biografados subverte o conceito de biografia independente e não autorizada. Como pagar a um torturador uma parcela da receita obtida com um livro contando crimes? O padrão das biografias, como no meu caso, é distinto: perde-se muito mais dinheiro do que se ganha. Se os biografados receberem por livros independentes sobre eles, o senador José Sarney também receberá pelos perfis que a imprensa lhe dedica? Biografia jornalística não é entretenimento, showbiz.

NR - Em contextos de regimes democráticos consolidados, se espera que a lei garanta que autores possam biografar sem autorização prévia e que respondam civil e criminalmente em caso de violações. A tentativa de restrição tem a ver com a construção complicada da democracia brasileira e a sombra de autoritarismo?

Embora o Código Civil seja de 2002, parece evidente que ele incorpora vestígios do autoritarismo da ditadura encerrada em 1985. É inacreditável que muitas biografias e perfis publicados durante a ditadura (1964-85) hoje poderiam ser barrados, com base em uma lei do tempo democrático.

NR - Quando uma pessoa tem vida pública intensa e é reconhecida por ela, é natural que a privacidade tenha limites diferentes de quem vive no anonimato, principalmente se ela, a personalidade pública, interfere fortemente na história da sociedade a qual pertence. Por que isso ainda não está consagrado entre a classe artística no Brasil? Ela não deveria se preocupar somente com a publicação de fatos mentirosos?

É uma boa pergunta, a ser feita a quem defende exclusividade de biografias chapas-brancas. De fato, eu não tenho direito de escrever sobre eventuais amantes de uma vizinha, mas seria intelectualmente desonesto se omitisse o vínculo entre D. Pedro I e a Marquesa de Santos. Ainda mais porque ela influenciou o primeiro reinado. A relação privada teve consequências públicas, atingiu a vida dos cidadãos.

NR - Como explicar nomes históricos que lutaram em defesa da liberdade de expressão no País à frente de uma investida que quer liberdade apenas a elogios?

A defesa da censura prévia, assumida por certos artistas, é legítima, embora eu não concorde com eles, mas a adesão de certos gigantes da nossa cultura à tese autoritária é mesmo surpreendente.

NR - Você vê essa situação como algo isolado ou certa tendência ao controle da informação na atualidade?

No caso específico, é uma iniciativa muito isolada, como se viu pela reação de outros artistas e de intelectuais dos mais diversos matizes ideológicos. Do ponto de vista histórico, os poderosos nunca gostaram de liberdade de expressão e de livre circulação de ideias. O poder não é só econômico e político, mas também cultural, esportivo...

NR - Até para o trabalho acadêmico restrições ao direito de abordar a vida de personagens históricos é perigoso?

Restrições devem existir e já estão contempladas na lei, mas a legislação em vigor também atinge a produção acadêmica. Invasão criminosa de privacidade é isso mesmo: crime. Porém, o que isso tem a ver com censura prévia?

NR - Por outro lado, o jornalismo que calunia, difama, injuria, com interesses, por exemplo, políticos, contribui para a existência de uma proposta rasa como essa, que coloca as pretensões financeiras e a vaidade individual acima da história de um País. Como lutar contra isso?

Há muitas maneiras, tanto rejeitando audiência a esse tipo de jornalismo, quanto exigindo punição judicial mais célere a jornalistas que cometem crimes.

NR - Sobre a profissão de jornalista, o que se pode esperar de evolução com esse debate? O que a categoria e as empresas jornalísticas podem fazer para contribuir, além da produção, para a relação com a história e os biografados?

Há dois movimentos em curso. Por um lado, cada vez mais jornalistas sonham em se dedicar a relatos de fôlego, como opção à frustração com o cotidiano do trabalho. Por outro, muitos desistem de escrever biografias, devido à censura prévia permitida pelo marco legal.

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*Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

NR concorre ao prêmio TopBlog 2013

Querid@s leitor@s,

NR está concorrendo ao prêmio TopBlog 2013.

Quem puder votar e ajudar na divulgação ficarei imensamente agradecido! No ano passado, felizmente, com a ajuda de vocês nós ganhamos o prêmio na votação popular na categoria notícias e cotidiano. Isso, sem dúvida, fortaleceu a atuação e a relevância do NR na blogosfera.

Como mídia independente esse tipo de suporte e reconhecimento é fundamental pra seguirmos em frente e mostrarmos que é possível fazer jornalismo e arte de qualidade com competência e responsabilidade.

NR é mídia livre tocada com muita dedicação e compromisso pelo time de colunistas e colaboradores - é deles o maior mérito e de vocês, car@s leitor@s, vem o nosso maior incentivo.

O PRÊMIO

São duas fases: ontem começou a primeira etapa e os 100 blogs mais votados vão a segunda etapa. Nesse data, três serão finalistas e o resultado dos primeiro, segundo e terceiro sairá em janeiro de 2014. 

o link de votação: 
http://www.topblog.com.br/2012/index.php?pg=busca&c_b=3347

É possível votar com uma vez com email e outra com facebook. O espaço da votação fica no alto da página desse link acima. Depois de votar, é preciso confirmar o voto no link enviado para o seu email. É rápido e muito simples, mas qualquer dúvida estou à disposição. Podem me escrever em contatonotaderodape@gmail.com

O prêmio, vale lembrar, não tem recompensa financeira. No entanto, é considerado o maior prêmio para blogs do País. E, dessa vez, estamos defendendo o título que levamos no ano passado (veja aqui).

Valeu a todos vocês! Vamos em frente,

obrigado sempre!

Thiago Domenici, editor e coordenador do NR

quarta-feira, 24 de julho de 2013

É tempo de celebrar Wilson Baptista


por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

Wilson Baptista (1913-1968) deu vida, com versos rabiscados em guardanapos e melodias forjadas no batuque de caixas de fósforo, aos tipos mais caricatos das ruas do Rio de Janeiro. Do malandro mais valente ao trabalhador mais “pelego”, do marido machista à mulher da orgia, do carioca flamenguista ao português vascaíno. Cantou a Lapa, a Mangueira, o Salgueiro.

Fez do Bonde 56 o Bonde Alegria, condutor de amores e inspirador de versos musicados. Criou personagens marcantes como Etelvina, Seu Oscar, Chico Brito, Hildebrando, Dona Inês, Emília, Alberto e Nega Luzia. Para celebrar o centenário de um dos grandes nomes da música brasileira, o Nota de Rodapé entrevistou o biógrafo do sambista, Rodrigo Alzuguir, que lançou, no início de julho o livro de partituras “Wilson Baptista – Cancioneiro Comentado”. Em setembro, Alzuguir vai lançar outra publicação sobre o sambista, a biografia “Wilson Baptista – O samba foi sua glória!”. Antes, o produtor cultural, ator, músico e pesquisador já havia produzido o espetáculo musical e o CD duplo que levaram o mesmo nome “O samba carioca de Wilson Baptista”. Alzuguir é imperativo ao afirmar que Baptista, um criador de personagens, foi além da composição, tornando-se um cronista social à frente de seu tempo, autor de aproximadamente 700 letras que viraram canções. 

Nota de Rodapé - Quando Wilson Baptista morreu, amargava o ostracismo, a despeito de sua genialidade. Por quê? 
Rodrigo Alzuguir - Ele morreu em 1968, um ano muito conturbado, de muitos protestos e de uma efervescência política muito grande. Os jornais naquela época só falavam em passeata, revolta, AI-5. Além disso, ele já estava meio esquecido, não chegou a pegar a revitalização do samba que estava começando a acontecer naquela época. Cartola, Nelson Cavaquinho gravaram seus primeiros discos nos anos 70. Se tivessem morrido antes, também teriam chegado com menos força até nós.

NR - Olhando por essa ótica, Noel Rosa é uma exceção, já que morreu muito cedo, ainda nos anos 30, desde então muito celebrado.
RA - Sem dúvida. Ele morreu muito cedo, no auge, e ficou como um mito. E tiveram duas pessoas fundamentais para a memória dele: Aracy de Almeida, que praticamente parou a sua carreira na década de 50 pra ficar gravando Noel, e Almirante, que fez a biografia do Noel, produziu vários programas de rádio e séries sobre ele. Badalou Noel até dizer chega. Noel teve esses dois arautos dedicadíssimos.

NR - E o Wilson não teve alguém que cuidasse de sua obra, seu legado?
RA - Wilson tinha muito orgulho de sua obra, falava com os filhos pra que eles cuidassem daquilo depois que ele morresse. Ele falava que tinha uma “bagagem” muito grande e queria que essas músicas dessem algum retorno, que eles pudessem viver disso. Mas isso nunca ocorreu. A obra dele ficou muito dispersa, inclusive as listagens oficiais, as músicas registradas em editoras, sociedades autorais. As listagens são totalmente incompletas, é uma coisa muito bagunçada. Eles, realmente, não puderam desfrutar disso.

NR - Por que você escolheu o Wilson Baptista para pesquisar? Por que ele dentre tantos outros?
RA - Porque eu acho que ele é o grande injustiçado de sua geração. Foi um dos que mais compôs entre os seus contemporâneos - até agora, levantei em torno de 500 músicas gravadas. Mas, além disso, ele tem uma série de inéditas e vendia muito samba para poder sobreviver (ele vivia de música). Então deve ter chegado a umas 700 músicas compostas. E apesar disso tudo ele era considerado um malandro.
Os próprios amigos dele falam em depoimentos: “Ah, o Wilson nunca trabalhou”. Aí eu fico pensando que é um baita preconceito, né? Porque uma cara que fez 700 músicas, e dizer que nunca trabalhou? É, no mínimo, um preconceito.

NR - E uma obra de extrema qualidade.
RA - Exatamente. Porque ele poderia ter feito 700 músicas medianas. Mas sua obra tem muita qualidade e acho que é até mesmo à frente de seu tempo, tanto em termos musicais, como nas temáticas que ele abordava. O olhar que ele tinha sobre a vida. Ele era um cara muito original pra sua época.

NR - Como você conheceu a obra de Wilson Baptista?
RA - Eu sempre fui apaixonado por essa geração dos anos 30, 40. Acho maravilhoso. Assis Valente, Ari Barroso, Noel Rosa, Ataulfo Alves. E o Wilson era um nome que eu já tinha ouvido falar, mas não conhecia grandes coisas.
Fui conhecer mais seus sambas quando eu fiz o encarte do disco “Ganha-se pouco, mas é divertido”, da Cristina Buarque, em tributo ao Wilson Baptista. Nessa época, em 2000, eu estava trabalhando à beça como designer e fiz a programação visual do Cd. E aí foi um banho de Wilson Baptista. E ela me emprestou bastante coisa, umas fitas do acervo da Collectors. E aí, eu fiquei ouvindo aquilo e vi que ele era realmente especial.

Rodrigo Alzuguir em foto de Jaqueline Machado
NR - E aí te despertou uma atenção especial pelo Wilson Baptista?
RA - É. Aí eu vi que não tinha muita coisa publicada sobre ele. Tinha uma monografia da Funarte (“Wilson Baptista e Sua Época”, de Bruno Ferreira Gomes), e um outro livro, da série “Perfis do Rio” (“Wilson Baptista na corda bamba do samba”, de Luis Fernando Vieira), pouca coisa. Uma introdução ao assunto. Eu achava que merecia um mergulho maior, mas eu não sabia exatamente o que fazer sobre ele.
Então, comecei a pesquisar e reunir todas as gravações que eu pudesse, ouvindo tudo, estudando as letras. Aí eu confirmei minha impressão inicial de que o cara era super moderno e original para época.

NR - Mas você não sabia direito que rumo tomar na pesquisa, né?
RA - O que me despertou mais foi a coisa dos personagens. Ele era um cara que levava isso às últimas consequências. Em “Oh, seu Oscar”, no primeiro verso, já aparecem três personagens: O Seu Oscar chegando em casa, a vizinha que traz o bilhete da esposa, e a esposa. Achei muito teatral isso e queria bolar algo pra teatro.
Depois, fui vendo que a vida dele era muito interessante. E fui entrando em contato com contemporâneos seus que se foram ao longo da pesquisa: Roberto Silva, Jorge Goulart, Dorival Caymmi, Dercy Gonçalves, Emilinha Borba, Roberto Roberti.
Também encontrei a Ceci, do Noel, dançarina de cabaré, que motivou uma espécie de “triângulo amoroso” com o Wilson.

NR - Seria este o tema verdadeiro da “Polêmica”?
RA - O tema verdadeiro foi uma outra dançarina do Cabaré Apolo, antes da Ceci. Essa mulher - o nome dela não ficou registrado - era uma outra dançarina. Noel ficou afim da menina, mas o Wilson chegou antes e ganhou a parada. E o Noel iniciou a “Polêmica”, escrevendo “Rapaz Folgado”, um samba que debochava de um sucesso recente de Wilson, “Lenço no pescoço”.
Depois, o negócio esfriou um pouco e a Ceci apareceu no circuito nesse mesmo cabaré. E ela era de Campos, conterrânea do Wilson. Noel viu ele se aproximar dela e pensou: “Ah, não, de novo, não”. E aí, os ânimos se acirraram um pouco.

NR - Wilson ficou estigmatizado como o “vilão da polêmica com Noel”, para as gerações seguintes?
RA - A “Polêmica” em si trouxe muito mais desvantagem para ele. Porque as pessoas comentam que ele ganhou projeção por conta da “Polêmica”, como se tivesse sido uma coisa boa para a carreira dele. Mas eu acho que foi uma faca de dois gumes, porque trouxe uma certa projeção pra ele, ao passo que ele ficou com um papel de vilão na trajetória de Noel Rosa.
Ele já tinha emplacado um ou dois sucessos antes da “Polêmica” acontecer, e o Noel já era um cartaz, porque ele já tinha bombado com o samba “Com que roupa”, em 1930.
Noel era um jovem talento. De classe média, bem aceito nos jornais, era um artista do rádio. E o Wilson era um cara mais humilde, veio de Campos, era negro, não era um cara que estava acontecendo, que estava na crista da onda.
Quem iniciou a “Polêmica”, na verdade, foi o Noel. O “Lenço no pescoço” não era um samba de provocação a ninguém. Era um samba em que ele retratou um malandro muito bem. E todos os outros sambistas da geração dele já tinham feito samba exaltando malandro, retratando malandro. Inclusive Ari Barroso, Bide e Marçal, todos os caras do Estácio, Sinhô, todos eles, né?
E as pessoas ainda falam que Wilson iniciou a “Polêmica” com Noel. Um absurdo. Noel ficou enciumado com o lance da morena, a dançarina do cabaré, e foi provocar o Wilson. Mas nada além de uma brincadeira entre compositores.

NR - Que talvez tenha ganhado uma proporção maior algum tempo depois. Na época não foi tão falado, não?
RA - Na época ficou como uma piada interna entre os músicos, os frequentadores da Praça Tiradentes, da Lapa, do Café Nice. Não teve a menor repercussão fora dali. As músicas que Wilson fez para Noel nem foram gravadas na época, nem eram pra ser gravadas. Eram piadas, brincadeiras. “Ah, vou responder o fulano”.
O negócio só ganhou forma mesmo, quando o Almirante, nos anos 50, fez a série de rádio sobre o Noel. Era o programa “No tempo de Noel Rosa”, onde ele conta a vida do Noel em capítulos. E um capítulo dessa série fala sobre a “Polêmica”. Então, o Almirante dá uma rearranjada na história, apaga a morena do Cabaré Apolo da história e diz que a motivação do Noel teria sido uma preocupação com os temas poéticos da música brasileira. Mas, na verdade, o Noel era amigo de malandro. Amigo do Baiaco, do Zé Pretinho. Na verdade, aquilo era uma galhofa com o Wilson, não uma crítica à malandragem. Mas para a nossa geração, o Wilson ficou muito associado à “Polêmica”.
Pô, um cara que tem mais de 500 músicas gravadas, um compositor cheio de sucessos, cantado pelos melhores cantores de sua geração, ficar pra gente como “o vilão da polêmica com Noel Rosa” é triste. É uma pena que muita gente só se lembre da “Polêmica”, pois ele é um dos gênios da nossa música. O próprio Paulinho da Viola, uma vez, disse em um programa de televisão: “O Wlison Baptista, pra mim, é o maior sambista brasileiro”.

NR - Voltando a falar sobre a pesquisa que fez para escrever a biografia. Você teve um contato forte com pessoas bem próximas a ele?
RA - Como eu disse, tive a sorte de poder entrevistar pessoas que conviveram bem com ele. Sua irmã, dois de seus filhos, uma ex-companheira, amigos que ele fez nas décadas de 50 e 60. Fora os matusaléns todos que ainda estavam vivos, que citei antes. E fui procurando, também, pesquisadores que já tinham um trabalho sobre o Wilson. O Luis Fernando Viera é um pesquisador que têm entrevistas feitas nos anos 70 com toda essa gente que conviveu com o Wilson e que já havia partido quando eu entrei em campo – como Erasmo Silva, Roberto Martins, Ciro de Souza, Zilda do Zé... Então, eu digitalizei e pude escutar todo esse material, que é fantástico. Luis foi super generoso.
O acervo da Biblioteca Nacional, do Museu da Imagem e do Som, do Instituto Moreira Salles, tudo isso eu vasculhei. E fui procurando as viúvas e os herdeiros dos parceiros dele, que às vezes tinham acervos. Do Ataulfo Alves, do Déo, do Erasmo Silva, do Roberto Martins, que eram grandes amigos e parceiros dele. Um quebra-cabeça, cara, que eu fui montando, e aí já imbuído desse objetivo de escrever a biografia.

Baptista na década de 50 [Arquivo O Cruzeiro]
NR - À princípio, você teve a ideia de fazer o teatro e aí veio a ideia da biografia? Como foi isso?
RA - Inicialmente, eu comecei a pesquisar sem nenhum objetivo, encantado com essa história dos personagens. Aí logo veio essa vontade de fazer a biografia. Achei que era o que eu podia deixar de mais legal, de fruto mais proveitoso, de toda essa pesquisa.

NR - E já faz pelo menos uma década que você já está pesquisando para preparar essa biografia...
RA - Exatamente. E aí, em paralelo a isso, fui encontrando parceiros que trabalham nessa área de projetos culturais e a gente foi colocando em editais algumas derivações dessa pesquisa. O espetáculo, o CD, o songbook. E acabou que essas coisas foram acontecendo antes da biografia ficar pronta. E até, nesses momentos, tive que abandonar um pouco o texto e caí dentro dos projetos, pra eles rolarem. Mas foi bacana porque me trouxe um aprofundamento ainda maior, porque escrevi o texto da peça, cantei o repertório com a Claudinha (Ventura), minha parceira no espetáculo. Então, você vai ficando cada vez mais à vontade dentro daquele universo né?

NR - E o que veio primeiro? A peça ou o CD?
RA - Primeiro veio a peça. E foi bacana porque rolou uma sincronia perfeita. A peça veio através do FATE, o Fundo de Apoio ao Teatro da prefeitura do Rio, que nos deu o patrocínio. Logo depois veio um suporte da Petrobrás para a produção do CD duplo (“O samba carioca de Wilson Baptista”, mesmo nome do espetáculo).
E aí, como a gente estava com tudo organizado, com os arranjos do Roberto Gnattali e do Nando Duarte ensaiadíssimos para a peça, pensamos: “vamos fazer um dos CDs com a trilha da peça, cantados por mim e pela Claudinha, e o outro com repertório raro, inédito, cantado por convidados como Elza Soares, Marcos Sacramento, Céu, Mart ´nália, Cristina Buarque, Rosa Passos...” Os sambas mais desconhecidos com intérpretes conhecidos e o registro da peça. Eu acho que funcionou bem, ficou bem abrangente.

NR - E esses trabalhos todos têm um projeto gráfico comum?
RA - É. Porque como essas coisas a gente faz com pouca grana, eu acabei fazendo a programação visual do CD e do espetáculo. E aí a gente vai aproveitando as ideias e criando uma certa unidade.

NR - E agora, está saindo o livro das partituras.
RA - Aí, a gente conseguiu, através de outro edital, o FAM, que é ligado a música, fazer o songbook, que acabou de ficar pronto. São 105 músicas, tem um perfil biográfico que eu escrevi, uma apresentação do Sérgio Cabral, fotos raras. É um apanhado bem abrangente da obra dele e a gente fez num formato voltado pra músico mesmo – tentamos colocar uma música por página, em um formato de fácil manuseio.
Acho que o Wilson teria o maior orgulho desse trabalho, porque ele falava muito da “bagagem” dele, do seu legado. Então, acho que de todos os projetos, este é o que ele ficaria mais feliz de ver na rua.
Eu dei uma organizada no material dele. Muitas dessas músicas nunca tinham sido editadas. Ou foram editadas só nos anos 40 e nunca mais. Então, foi muito legal.

NR - E como foi a questão da organização das partituras? Como foi o contato com as editoras, para liberação dos direitos autorais, etc?
RA - O Wilson editou em umas seis ou sete editoras diferentes. E encontrei um super parceiro nesse trabalho, que foi Fernando Vitale, da editora Irmãos Vitale. E o Wilson tinha muito samba editado na Vitale. Então, Fernando fez esse meio de campo com as editoras. A nossa parceria com a Vitale foi fundamental.

NR - E esses trabalhos te deram muita base pra aprofundar a pesquisa na biografia, não é?
RA - Eu sou músico. Toco, canto e conheço muito bem o repertório dele. Então, não sou só um cara que tá escrevendo e ouvindo, mas musicalmente não sabe justificar o que está acontecendo ali. Eu tenho formação de músico, e isso facilita. Dá um olhar um pouco diferente sobre o assunto, uma propriedade pra falar. Daí quando vou escrever um trecho que está na peça ou que saiu no encarte do CD, aquilo já está digerido, fica mais fácil.
Acho que foi um processo abençoado. Qualquer um desses produtos que tivesse saído, eu já estaria feliz de ter conseguido fazer. E a gente conseguiu fazer um “combo” de biografia, songbook, espetáculo e CD.
O Wilson era um segredo que estava ali, gritando pra aparecer. O nome dele tem uma fagulha e a parada aconteceu.

NR - Conte mais sobre o processo de pesquisa da biografia.
RA - Eu dei sorte porque tinham algumas pessoas bem interessantes vivas quando eu comecei a pesquisar. O Jorge Goulart era uma fonte maravilhosa, o Roberto Silva, o Caymmi, a Ceci. E também tive a sorte de ter acesso àquele material de entrevistas do Luis Fernando Vieira. Aí pude ter acesso a entrevistas com a maioria dos parceiros do Wilson. O próprio Luis Fernando gostava muito do Geraldo Pereira, do Wilson, e perguntava muito sobre eles para os entrevistados. Então era um material bem precioso.
Além disso, encontrei uma irmã do Wilson, a Dona Yolanda, e uma companheira dele, Alverinda. E cheguei a fazer uma entrevista bem legal com uma filha do Wilson, a Marilza, que tinha 50 anos, mais ou menos, e nunca tinha sido entrevistada. Passou um lado mais pessoal do Wilson. E também falei com um filho caçula dele, Vílson, com “V”, que era um figuraça. Foi uma entrevista muito legal, um contato bacana porque ele me ajudou muito nessas investigações nas editoras, quando eu precisava de uma entrada mais oficial da família pra saber de alguma informação. Eles dois faleceram, não chegaram a ver os projetos acontecendo. A peça eu dediquei ao Vílson, o caçula, que era o maior fã do pai. Então, eu tive essa sorte de encontrar essas figuras-chave.
Eu acho que eu consegui mapear bem a vida do Wilson. Claro que tem trechos da vida dele que são difíceis de investigar, ainda mais ele que não deixava muita pegada, não deixou grandes entrevistas, entrevistas longas. Então, realmente tem coisas que eu até intuo, mas não sei realmente o que aconteceu.

NR - E ele teve uma fase mais reclusa, né? O final da vida dele, que ele já estava afastado da vida artística. Como foi essa época?
RA - Dessa época, eu consegui encontrar bastante gente para entrevistar, porque ele era um cara muito generoso com o pessoal mais novo que ele. Então, tinha muita gente que estava começando naquela época.
Ele estava mais recluso porque estava esquecido. E também estava muito amargo, revoltado. Porque, da geração dele, todos acabaram migrando para cargos burocráticos nas sociedades de autores, compondo num ritmo menor. Wilson não. E foi ficando pra trás.
Ele foi ficando na pior, porque não era mais gravado, não era mais badalado. E passou a ter problemas de saúde, porque ele tinha o coração aumentado. Cardiomiopatia dilatada, eles chamam de “coração de boi”. Tinha falta de ar, taquicardia, náuseas. Estava sem grana, preocupado com o aluguel. Aquelas coisas do Brasil, problemas da vida prática. E aí foi ficando mais recluso.

NR - E como foram as pesquisas em arquivos, jornais, revistas e institutos?
RA - Tem uma ferramenta da Biblioteca Nacional do Rio, que eu acho que vai revolucionar a pesquisa no Brasil. Era uma coisa que eu sonhava que um dia fosse existir: a Hemeroteca Digital Brasileira. É um site da Biblioteca Nacional que tem 700 coleções de jornais e revistas. E dá pra pesquisar por palavra-chave. Antes disso, passei séculos mergulhado nos microfilmes da seção de periódicos da Biblioteca, no centro da cidade.

NR - Ele ficou estigmatizado com a pecha de malandro? Por quê?
RA - Se você for fazer uma estatística da obra dele, tem pouco samba que fala de malandragem. Na verdade, eles sobressaíram porque eram muito bons e faziam muito sucesso.

NR - E quanto ao samba “O Bonde de São Januário”, feito com Ataulfo Alves, em que ele exalta o trabalho e que ficou como um marco dessa virada na temática, antes focada na malandragem e agora na exaltação ao trabalho, por conta da pressão do DIP, do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Como você vê isso?
RA - Isso foi uma onda que aconteceu pra todos os compositores. No carnaval de 40, aconteceu um baita festival, chamado “Noite da música popular”, com uma premiação de 50 contos para os vencedores. Foi um escândalo, porque era muita grana. Foi patrocinado pelo Estado Novo, o festival. E quem ganhou em primeiro lugar, entre os sambas, foi “Oh Seu Oscar”, de Wilson e Ataulfo. Então acho que isso gerou uma expectativa para o ano seguinte. No ano seguinte, os compositores ficaram meio que alvoroçados com esta possibilidade de ganhar uma grana com o concurso do Estado Novo.

NR - Era o concurso do carnaval?
RA - Exatamente. Eram eleitos o melhor samba e a melhor marcha. Foi o primeiro e maior festival patrocinado pelo DIP, criado alguns meses antes. Aí, acho que todo mundo ali ficou vendo a oportunidade de fazer o filme com Getúlio, de repente ganhar o concurso de carnaval. Então, todo mundo se alinhou a essa política, da exaltação do trabalho. Mas foi uma coisa curta. Isso não era uma marca do Wilson.

NR - E qual era a marca do Wilson?
RA - A originalidade do Wilson é marcante. Ele tem uma coisa muito forte com personagens. Você encontra personagens na obra de muita gente, né? Mas, na obra do Wilson, isso é levado às últimas consequências. Você tem sambas que são quase minioperetas.

Aracy de Almeida foi a que mais gravou Baptista
NR - O Cabo Laurindo foi um personagem inventado por ele?
RA - O Cabo Laurindo foi inventado pelo Noel, no samba “Triste cuíca”. Depois desse samba do Noel, vários compositores pegaram esse personagem. E o Wilson foi quem mais levou adiante essa história, com uns quatro ou cinco sambas. Tem a Etelvina, personagem que aparece em vários sambas. São muitos sambas teatrais. Ele usava os personagens várias vezes. Às vezes não com o mesmo nome, mas o mesmo “tipo”.

NR - São crônicas sociais, né?
RA - Exatamente. Outra coisa que eu acho muito forte nele: ele foi um dos primeiros a fazer samba pra mulher cantar, na primeira pessoa. Nos anos 40, fazia muito pra Aracy de Almeida, pra Odete Amaral. E são mulheres das mais libertárias. Não é feito de maneira machista. Um cacoete da época é a mulher reclamar do marido, reclamar do malandro. Então era muito comum. Mas as mulheres do Wilson eram mulheres muito à frente do tempo.

NR - Elas iam para orgia...
RA - É! Largam o marido pra pular carnaval. E aí, depois, a sandália estragava de tanto que ela sambava. Tem o samba “Boca de Siri”, em que ela narra a farra dela toda no carnaval, e depois pede pra ninguém contar para o marido. São mulheres meio “Leila Diniz”. Acho essa coisa da mulher muito forte nele também.

NR - Apesar de ter composto “Emília”, que é lembrado até hoje como um samba machista, não é mesmo?
RA - Pois é. Mas se você for ver em quantidade, ele tem muito mais samba em que a mulher é retratada com muita liberdade. Tem o samba “Chinelo velho”, em que a mulher não tá nem aí se o cara vai embora. Então isso é muito raro pra época.

NR - Ele foi um precursor nessa temática?
RA - Eu acho. Essa mulher é da geração da minha avó, a mulher não se separava. Ela ficava em casa presa ao marido e às tarefas do lar. Imagina a mulher roubar dinheiro pra pular carnaval? Depois pedir pra ninguém contar? Era muito engraçado, eu acho demais.
Outra coisa que eu acho muito interessante nele, apesar dele ser considerado o maior sambista por Paulinho da Viola e outras pessoas, ele remava contra a maré de vários clichês do samba. Por exemplo, religiosidade. Que é um tema muito caro ao samba, né? Sambas do Dorival, que falam do Senhor do Bonfim, do Ary Barroso, falando da Igreja da Penha, os padroeiros, os orixás... E o Wilson era avesso a qualquer ritual religioso, ele não tinha a menor ligação ao tema.

NR - Para a nova geração, que está descobrindo o samba e quer conhecer mais os compositores, os grandes intérpretes, por que conhecer o Wilson Baptista?
RA - Por conta dessa originalidade dele como compositor. No campo musical, ele era um compositor que tinha umas soluções de harmonia arrojadas e, ao mesmo tempo, simples, intuitivas. A geração dele, do Geraldo Pereira, trouxe uma coisa de síncope para o samba, um samba mais de bossa, despreocupado com métrica, com rima, um samba um pouquinho mais livre. Que é um samba que as pessoas dançam na gafieira e adoram, porque é cheio de síncope, é bem propício para aqueles passos. Então, musicalmente, eu acho que é um cara muito interessante.
E tudo que eu falei dessa originalidade, desse olhar. Um olhar muito livre de preconceito e livre de sentimentalismo barato. Ele era um cara que não fazia melodrama. As músicas dele têm humor, são criativas, têm originalidade.

NR - E tem questão social, também, não é?
RA - Algumas pessoas se referiam a ele como sambista “filósofo”. Ele dizia que as músicas tinham que ser fortes. Que cada música era um veículo do pensamento. Você consegue extrair das músicas dele um pensamento bacana. Por exemplo, no samba “Chico Brito”, ele afirma: “Se o homem nasceu bom e bom não se conservou, a culpa é da sociedade que o transformou”. Ele era um cara que tirava onda, botava um pensamento de Rousseau no samba.
Era um cara muito à frente do tempo. Acho que se não tivesse a censura do DIP, ele teria ido além. O samba “Lealdade”, também retrata uma relação super moderna. Vamos ficar juntos enquanto cada um gosta do outro. Se você não gostar mais de mim, sinta-se livre para ir embora. Naquela época, as relações eram super hipócritas, os casamentos infelizes se arrastavam até o fim. Ele era avançado mesmo!

Seleção de músicas para celebrar Baptista:



*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Vanzolini, um gênio imortal


por André Carvalho  ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

Ele foi e foi sem pena, com o cravo branco na mão. Quanta vitória no passado, quanta página na história. Agora só toca harpa, de camisola e sandália. Aos sambistas, deixou a saudade, que corta como aço de “naváia”, deixando corações aflitos e os “óio cheio d’água”. No tempo em que tinha asa, piruetou, mandou brasa, mas agora a cachoeira desceu e não sobe mais a serra. Deus sabe o dia e a hora, vida como a dele não é feita para entender. É uma fumaça, e o tempo do homem, uma baforada. Deu na primeira edição: morte é paz.
Paulo Emílio Vanzolini foi um paulistano que trazia no sangue, como poucos, o micróbio do samba. Sambista dos bons, foi autor de grandes páginas do nosso cancioneiro, que fizeram com que o samba de São Paulo derrubasse fronteiras geográficas, alcançando ouvidos, mentes e corações pelo Brasil afora.

Àqueles que a genialidade habita, transcende a normalidade, o simples, o comum. Bom de caneta, de verso e prosa, ritmados em compasso de samba, o compositor era também doutor. Dr. Paulo Vanzolini, zoólogo altamente gabaritado, foi um dos maiores especialistas em répteis do mundo e diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo por mais de 30 anos.

A paixão pelo samba veio na tenra infância, quando tinha seus inocentes seis anos de idade e passava horas a fio escutando os grandes cartazes da música popular brasileira no rádio, aproveitando os momentos em que não estava na escola. Ainda menino, dava suas escapadas para ver a orquestra tocar em bailes na sede do Glorioso Futebol Clube. Depois, muitas vezes, no ginásio, a despeito de sua paixão pelos estudos, matava aula para assistir memoráveis rodas de samba.

O gosto pela música ganhou força na juventude, quando passou a frequentar os “inferninhos” do centro da capital paulista, desafiando versadores com rimas afiadas e iniciando-se na arte da composição. Vanzolini criou muito samba, fruto de histórias cotidianas que, atento, observava com intenção de transformar em música. Muitas composições se perderam pelas madrugadas paulistanas, junto ao sereno que caía do céu e se dissipava com os primeiros raios de sol da manhã. Outros, no entanto, permaneciam vivos, latentes em sua mente.

“Ronda” 

Certa vez, quando fazia ronda pelo centro da cidade, em seus tempos de cabo do Exército brasileiro, teve a inspiração para criar aquele que seria um dos grandes clássicos da música popular brasileira, “Ronda”. A primeira gravação deste samba, que fez com que Paulo Vanzolini ingressasse no meio musical profissional – ainda que ele se mantivesse, por toda a vida, focado em sua profissão de zoólogo –, foi um tanto curiosa.

Inezita Barroso, cantora paulista que gravou muita música caipira, sendo também grande conhecedora de temas folclóricos e sambas, era muito amiga da primeira mulher de Vanzolini, Ilze. Quando Inezita foi ao Rio de Janeiro, nos idos de 1953, gravar “Marvada Pinga”, um de seus maiores sucessos, levou à tiracolo o casal de amigos paulistas.

Noite Ilustrada
Chegando aos estúdios da RCA, surgiu um problema: ela não tinha em mente nenhuma música para registrar no lado B do disco. Precisava de alguma solução rápida. Perguntou a Vanzolini se ele não tinha nada “na meia” para ela gravar. Ele ofereceu, então, “Ronda”. Rapidamente, junto ao conjunto regional da gravadora, a cantora aprendeu o samba. E realizou o primeiro registro deste clássico, que, no entanto, não alcançou, nesta ocasião, grande repercussão.

Vanzolini ingressava, de forma inusitada, no meio artístico. Cronista musical, o compositor tinha sempre à mão um cantor, a quem chamava de “tradutor”, que o ajudava a trabalhar o samba que imaginava na cabeça. Adauto Santos e Luiz Carlos Paraná muito o ajudaram nisso, mas ele destacava um sambista chamado Zelão como um de seus maiores “tradutores”.

Era ele quem Vanzolini gostaria que gravasse “Volta por cima”. O destino fez, no entanto, com que o samba fosse imortalizado por Noite Ilustrada. Foi no ano de 1963 que veio o enorme sucesso. “Reconhece a queda e não desanima / Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” caiu na boca do povo. Vanzolini costumava dizer que a mensagem mais importante do samba não era o “volta por cima”, e sim o “reconhece a queda”.

“Eu me lembro quando Noite Ilustrada gravou ‘Volta por cima’, em 1962. Eu tinha 12 anos e já gostava de samba. Foi um sucesso enorme esta gravação”, afirma Eduardo Gudin – cantor e compositor paulistano, parceiro e arranjador de Vanzolini –, ressaltando que “o fato dele ser autor de dois clássicos absolutos da música brasileira, ‘Ronda’ e ‘Volta por cima’, engrandece muito seu nome e faz dele um ícone do samba paulista”. O compositor vai além e pontua que “poucos sambistas de São Paulo têm a visibilidade nacional” de Vanzolini. “Ele é muito respeitado, transcende as fronteiras regionais e se destaca nacionalmente”.

Se a gravação de “Ronda”, de Inezita Barroso, fez pouco sucesso – assim como os registros posteriores de Cláudia Moreno, Carmen Costa e Marlene –, foi com um disco produzido por Eduardo Gudin que a música entrou, definitivamente, para o cancioneiro nacional. “Em 1977, produzi um disco da Márcia, que levava o nome deste samba. Somente aí que “Ronda” estourou de vez”, lembra.

“Onze sambas e uma capoeira”

Gudin conheceu Paulo Vanzolini sete anos depois de se impressionar com a força do samba “Volta por cima”. Corria o ano de 1969. Com “Gostei de ver”, feito em parceria com Marco Antônio da Silva Ramos, Gudin alcançou as finais do V Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. Vanzolini gostou, e quando encontrou o futuro parceiro no Bar Jogral – ponto de encontro da boemia paulistana –, fez questão de cumprimentá-lo, iniciando aí uma amizade que levaria para o resto da vida.

De propriedade do cantor e compositor Luiz Carlos Paraná e do publicitário Marcus Pereira, o Jogral, fundado em 1966, reunia músicos, artistas e boêmios paulistanos, que ali se encontravam para cantar e discutir os rumos da cultura popular brasileira. Um ano depois da fundação do bar, Marcus Pereira teve a ideia de produzir um disco com as músicas de Paulo Vanzolini, para ser distribuído entre os clientes de sua agência de publicidade. O disco “Onze sambas e uma capoeira” seria o embrião do selo Marcus Pereira Discos, que reuniria em seu catálogo pérolas da discografia brasileira, como, por exemplo, os dois primeiros discos solos de Cartola.

“Onze sambas e uma capoeira” contou com as participações de Luiz Carlos Paraná, Adauto Santos, Cláudia Moreno, Mauricy Moura e os irmãos Chico e Cristina Buarque. Com 16 anos de idade, Cristina fazia ali sua primeira gravação profissional, cantando o samba “Chorava no meio da rua”. A cantora lembra-se de sua estreia nos estúdios: “Minha mãe não queria deixar, se preocupava com meus estudos, achava que eu não deveria seguir carreira de artista”.

O fato de o disco ter sido lançado, à princípio, em tiragem limitada, como brinde para clientes da agência de publicidade de Marcus Pereira (depois seria relançado comercialmente), fez com que o publicitário e produtor musical conseguisse dobrar sua mãe, Maria Amélia. “Paulo Vanzolini foi o responsável pelo pontapé inicial na minha carreira”, diz a sambista ao Nota de Rodapé.

Vanzolini, por Cristina e Gudin

“Paulo era muito amigo de meu pai e frequentava muito a minha casa, quando morávamos em São Paulo. Minha mãe também era muito amiga da primeira mulher dele. Era aquela amizade de família, gostosa”, relembra Cristina, ressaltando que, com a morte de Sérgio [Buarque de Hollanda], a amizade permaneceu. “Ele gostava de ver as cantorias das meninas, ficava encantado, adorava participar daquilo”.

Cristina homenagearia Vanzolini em 1974, quando gravou em seu disco de estreia o samba “Cara limpa”, brilhante criação do compositor paulista (“Já me acostumei com dia a dia em vez de vida inteira / Relógio em vez de retrato na cabeceira”). Em 2002, gravaria outras quatro composições do paulista, no “Acerto de contas”, caixa com 4 CDs, contendo a grande maioria das músicas criadas por Vanzolini: “Falta de mim”, “Morte é paz”, “Noite longa” e “Mente”, esta última feita em parceria com Eduardo Gudin.

“Foi nossa primeira parceria”, conta Gudin. “Ele me mandava a letra e eu fazia a música por cima, fizemos quatro sambas nesse esquema”, diz. Além de “Mente”, o sambista fez melodia para as bem colocadas palavras criadas por Vanzolini em “Longe de casa”, “Condição de vida” e “Pra tirar você do sangue”. Há, no entanto, a possibilidade desta lista aumentar. “Tenho duas letras inéditas dele comigo”, revela o compositor.

A forte amizade entre Gudin e Vanzolini fez com que o primeiro produzisse e criasse os arranjos do disco “Inéditos de Paulo Vanzolini”, lançado em 1987, e que não chegou a ser comercializado – foi distribuído, tal como a primeira edição de “Onze sambas e uma capoeira”, como brinde para clientes de uma empresa.

Além de “Onze sambas e uma capoeira” (1967), “Acerto de contas” (2002) e deste raro “Inéditos de Paulo Vanzolini” (1987), a discografia do compositor contempla o álbum “A música de Paulo Vanzolini” – lançado em 1974, com Paulo Marques dividindo o microfone com Carmen Costa – e o disco “Por ele mesmo”, de 1979, onde o sambista, finalmente, interpreta suas canções. “Ele era engraçado cantando, todo desafinado, sem ritmo”, lembra, com graça, Cristina.

Na opinião de Cristina e Gudin, o que salta aos olhos na obra de Paulo Vanzolini é o extremo esmero que tinha com as palavras. Cronista social de primeira grandeza, burilava as letras de seus sambas até conseguir o resultado perfeito, que desse ritmo às rimas e às ideias expostas sob a melodia de sambas, choros, valsas, toadas e capoeiras.

“As letras dele são geniais. Ele tinha cada sacada... Era muito louco. Sempre bem humorado”, aponta Cristina. “Era um cronista, tinha um linguajar muito peculiar. Gostava de contar história dos outros, coisas que observava em suas andanças pela cidade e em suas viagens que fazia trabalhando como zoólogo”.

Gudin endossa o argumento da caçula dos irmãos Buarque de Hollanda. “Ele tinha uma preocupação com a letra. Tinha um cuidado, um capricho com as palavras, buscava o tamanho certo, a medida exata. Era um cronista, como Noel e Chico”. Para o sambista, Vanzolini “armou um esquema musical só dele. Ele era diferente mesmo, tinha um talento incrível. Era superdotado, um gênio”.

As criações de Paulo Vanzolini

Das crônicas urbanas do mestre, a vida boêmia se faz presente em composições como o samba “Falso boêmio” (“Porque não é boemia trocar noite pelo dia / Beber com ar de tristeza / Ser boêmio é diferente / É viver clinicamente, padecendo com grandeza”) ou a “Valsa das três da manhã” (“Eu não bebo pra esquecer / Bebo pra lembrar / Bebo e cambaleio e tenho você ao meu lado / É o meu instante de felicidade”).

A praça Clóvis, em São Paulo, na década de 1960
O retrato de São Paulo é pintado com cores de tragicomédia, simbolizando uma metrópole onde problemas como a falta de segurança e a ausência de infraestrutura são amenizados pelo fim de um romance mal desenrolado ou por uma bela paisagem do alto de um morro. Os exemplos citados são os sambas “Praça Clóvis” (“Na Praça Clóvis, minha carteira foi batida / Tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato / Vinte e cinco, eu francamente achei barato / Pra me livrarem do meu atraso de vida”) e “Seu Barbosa” (“Ô Seu Barbosa, nóis era dois casado certo / Morando num bairro longe, mas passando ônibus perto / Uma vista tão linda, de cima do nosso morro / E as crianças precisando de um pronto-socorro”).

A sua maneira particular de exaltar a mulher, era feita com uma boa pitada de ironia. Em “Mulher que não dá samba” ele diz que “Ainda se fosse brava, porém competente / Se atrás da bronca viesse a roupa limpa, o café quente / Ou se fosse ignorante no claro e ardente no escuro / Eu lhe asseguro: não faria falta a paz / Mulher que não dá samba, eu não quero mais”. Já na composição “Mulher, toma juízo”, ele  afirma: “Mulher que se vira pro outro lado tá convocando a suplente / Mulher que não ri não precisa dente”.

De uma temática recorrente na música popular brasileira, o pranto, criou outras duas pérolas: a clássica “Volta por cima” (“Chorei, não procurei esconder / Todos viram / Fingiram / Pena de mim, não precisava / Ali onde eu chorei, qualquer um chorava /Dar a volta por cima que eu dei / Quero ver quem dava”) e a pungente “Chorava no meio da rua” (“Você diz que eu choro escondido / Ai, meu deus, que ingenuidade sua / Se eu tivesse que chorar / Chorava no meio da rua”).

Finalmente, sobressai em suas letras o ritmo, o andamento da poesia, cadenciada com palavras em posições cirúrgicas. Em “Mente”, consegue esse efeito de ritmo com rimas: “Me chama de meu amor, constantemente / No meio de toda a gente / E a sós, entre nós dois, mente”. Já em “O rato roeu a roupa do Rei de Roma”, o compositor vale-se de um famoso trava-língua e vai além: “O rato roeu a roupa do rei de Roma / O sapo saltou do saco, se sacudiu e sumiu da soma / Tatu, tamanduá, tejubina transaram umas trovas, tolices totais / O vento da vida ventou e varreu você pro nunca mais”.

Mais que uma obra, um legado

Paulo Vanzolini teve mais de 50 sambas gravados, por nomes da mais alta patente da música popular brasileira. Entre seus intérpretes estão: Nelson Gonçalves, Carlinhos Vergueiro, Nara Leão, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Clara Nunes, Elza Soares, Maria Bethânia, Roberto Silva, Ana Bernardo, Márcia, Inezita Barroso, Jair Rodrigues, entre outros.

Para ele, compor era um processo de extrema dedicação. Muitas vezes, demorava meses até achar a rima perfeita para seus versos. Sua última composição, feita em 1997, simboliza sua marca, sua passagem, seu legado. “Quando eu for, eu vou sem pena / Pena vai ter quem ficar”. Paulo Vanzolini foi sem pena. Mas, para quem fica, no entanto, permanece vivo seu cancioneiro, repleto de beleza e genialidade.

Em suas andanças pela floresta, o zoólogo costumava dizer que “na mata, todas as partes são mais que o todo”, já que cada animal, cada folha caída ao chão, cada sopro de vento e raio de sol que penetra pelas árvores têm um valor imensurável, não podendo ser descrito apenas como uma parte do ecossistema. Em sua obra, ocorre o mesmo. Em cada composição, um pedacinho de boemia, de madrugada, de drama, de denúncia, de crítica social, de humor, de poesia, do viver paulistano, do povo brasileiro. No total, seus sambas, valsas, toadas e capoeiras formam muito mais do que uma obra, simbolizam um estilo, uma maneira peculiar de criar versos e melodias originais. Mais que uma obra, é um legado para a música popular brasileira.

Escute os sambas de Vanzolini, entre eles,
Noite Ilustrada cantando "Volta por Cima"





*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

domingo, 17 de março de 2013

Coisa Íntima # Waslala

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.







Autora: Waslala
Data: 2011

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Coisa Íntima # Autorreflexão

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.



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Título Autorreflexão
Ano 2012
Autora
Heloisa Marques, artista visual
Saiba mais: http://cargocollective.com/percevejos

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Coisa Íntima # Raul Pargendler

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.
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Autor: Raul Pargendler
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Data: 03 de janeiro de 2012

domingo, 27 de janeiro de 2013

O caneco é nosso

Nota de Rodapé levou o prêmio TopBlog 2012. Fomos o mais votado do país na categoria Notícias e Cotidiano como blog Profissional.

Bora comemorar com muito mais qualidade em 2013. Em nome do time todo, agradeço cada um de vocês. Os que votaram, os que divulgaram e, claro, nossos leitores, galera que faz valer cada texto publicado, cada debate levantado.

Parabéns!

Thiago Domenici

(PS: eu queria dedicar esse prêmio ao meu mestre Sérgio de Souza, pessoa com quem aprendi a essência do que é ser jornalista e fazer jornalismo)

Abaixo, o nosso time mais que merecedor dessa conquista!

⟫ Alexandre Luzzi

⟫ Ana Mendes

⟫ André Carvalho

⟫ Caco Bressane

⟫ Carlos Conte

⟫ Fernando Carvall

⟫ Fernanda Pompeu

⟫ Fernando Evangelista

⟫ Fernando Vianna

⟫ Izaías Almada

⟫ Júnia Puglia

⟫ Kelvin Koubik

⟫ Marcos Grinspum Ferraz

⟫ Moriti Neto

⟫ Ricardo Sangiovanni

⟫ Ricardo Viel

⟫ Tomás Chiaverini


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